Economy and Society II de José Porfiro – Specific

10 de abril de 2007

DAVID GORDON – 1944-1996

Filed under: Política Econômica — Porfiro @ 11:15 AM

Samuel Bowles (economist)

 

http://archives.econ.utah.edu/archives/pkt/1996m03-d/msg00066.htm

 

David M. Gordon: Radical Political Economist and Activist (1944-1996)
Bowles and Weisskopf Review of Radical Political Economics.1999; 31: 1-15
http://rrp.sagepub.com/cgi/content/abstract/31/1/1

 

http://links.jstor.org/sici?sici=0013-0133(199801)108%3A446%3C153%3ADMGEAP%3E2.0.CO%3B2-N

The Economic Journal

Volume 108 Issue 446 Page 153 – January 1998

To cite this article: Samuel Bowles, Thomas Weisskopf (1998)
David M. Gordon: Economist and Public Intellectual (1944-1996)
The Economic Journal 108 (446), 153–164.
doi:10.1111/1468-0297.00278

Full Article

David M. Gordon: Economist and Public Intellectual (1944–1996)

  • 1University of Massachusetts, 2University of Michigan

 =======================================================

Democratic Politics and Policy Workshop


David Gordon, Professor of Economics, New School for Social Research,
Presentation on December 12

Also present: Professor Jerzy Thieme, advisor to Polish Ministry of Privatization for four and a half years.

 

 

 

David M. Gordon – 1944-1996

David Gordon, a leading economist of the left, died March 16, 1996, at the age of fifty-one. He succumbed to congestive heart failure while awaiting a heart transplant at Columbia Presbyterian Hospital in New York. At the time of his death he was Director of the Center for Economic Policy Analysis and The Dorothy Hirshon Professor of Economics at the Graduate Faculty at the New School for Social Research.

Gordon came from a family of economists. His father, the late Robert Aaron Gordon, was President of the American Economic Association while his mother, the late Margaret S. Gordon, was well known for her contributions to the economics of employment and social welfare policy. His brother, Robert J. Gordon, is a prominent macroeconomist and Professor of Economics at Northwestern University. David Gordon and his family have been referred to as the Flying Wallendas of Economics."

David Gordon is best known for his contributions to the theory of discrimination and labor market segmentation, his analysis of the institutions shaping long-term economic growth, and his trenchant criticisms of conservative economic policy. His contributions to labor economics, developed jointly with Richard Edwards and Michael Reich, challenged the conventional assumption of a single labor market and argued instead for the recognition of deep divisions along racial, gender, and class lines. His macroeconomic research involved theoretical, econometric, and historical analysis of the impact of political and social as well as economic institutions on long-term investment and growth. He coined the term "social structure of accumulation" and is credited with founding the school of economic thought bearing that name.

Advertisement

Gordon’s Fat and Mean: The Myth of Managerial "Downsizing" and the Corporate Squeeze of Working Americans, to be published next month by Martin Kessler Books at The Free Press, has won lavish pre-publication praise. A review to appear in The Atlantic suggests that it will be one of the most influential public policy books of the decade. The book documents the long term decline in the pay and living standards of American workers, and what Gordon has termed the increasingly top-heavy bureaucratic structure of American corporations.

As a student, Gordon wrote for the Harvard Crimson, and following graduation from Harvard in 1965 he helped found The Southern Courier, a civil rights newspaper based in the South. Throughout his life he maintained his interest in journalism, contributing an economics column to The Los Angeles Times and The Nation, as well as making frequent appearances on television and radio commentary programs.

Gordon received his doctoral degree in Economics from Harvard University in 1971, taught briefly at Yale University, and since 1973 has been a professor of economics at the New School for Social Research. Pointedly eschewing the career paths of the economics mainstream, he was a founder and active member of the Union for Radical Political Economics, a professional organization of leftist economists, as well as the Institute for Labor Education and Research, later the Center for Democratic Alternatives and most recently the Center for Economic Policy Analysis.

Gordon brought his brand of radical economics to the labor movement and to progressive community organizations through his work with these institutions. He also learned from his conversations with activists. In Fat and Mean he wrote:

We had just begun some outreach education work with local

union officials and rank and file workers. . . . (They were,

mainly) interested in talking about problems they were

constantly experiencing with their bosses on the job. They

complained that their supervisors were always on their case, that

bureaucratic harassment was a daily burden. They inveighed

against speedup, hostility, petty aggravations, capricious threats

and punishments, and-perhaps most bitterly-crude, arrogant

and often gratuitous exercises of power. . . . I do not know to

this day whether and when I might have paid attention to the

bureaucratic burden if I hadn’t been sitting in union halls in the

mid- 1970s chewing on stale jelly doughnuts listening to workers

grumbling about their continuing hassles with their employers.

Gordon was particularly beloved by his many doctoral students at the New School where he was known for his tireless attention to their research.

His major publications include Theories of Poverty and Underemployment (1972), Segmented Work, Divided Workers (with Richard Edwards and Michael Reich, 1982), and After the Waste Land: A Democratic Economics for the Year 2000 (with Samuel Bowles and Thomas Weisskopf, 1991). He regarded Fat and Mean as his legacy, working intensely on it over the past year as is heart weakened, and delivering it to his publisher on the day of the medical setback that led to his final hospitalization.

Asked four years ago to reflect on his professional life to that point, Gordon responded:

I feel pleased with the choices I have made and the work that my

8 de abril de 2007

CAPITAL x TRABALHO

Filed under: Política Econômica — Porfiro @ 11:34 PM

O novo mundo do trabalho. O trabalho no novo mundo

[4/4/2007] O economista Marcio Pochmann (Instituto de Economia) e o sociólogo Ricardo Antunes (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) analisam a centralidade do trabalho e o papel a ser desempenhado pelo Brasil no contexto das profundas mudanças registradas na sociedade pós-industrial.

Jornal da Unicamp –Assistimos no universo do trabalho ao advento de novas tecnologias e de áreas do conhecimento até então inexploradas. Ao mesmo tempo, observa-se o declínio das atividades chamadas de “chão da fábrica”, relegando a atividade industrial a um plano secundário, e o surgimento de atividades – algumas marcadas pela virtualidade – que fogem ao figurino do que se convencionou chamar de “emprego”. Que análise o senhor faz da centralidade do trabalho hoje?

……

2 de abril de 2007

LUC FERRY

Filed under: Teoria — Porfiro @ 10:47 PM

 O sagrado está dentro do homem

Por José Castello, para o Valor, de Curitiba
22/08/2008 – Jornal Valor Econômico

 

Bloomberg

Cerimônia muçulmana: "Em um momento ou outro, qualquer religião repousa sobre argumentos de autoridade que parecem ‘dogmáticos’ aos que não crêem", afirma o filósofo francês

Depois da "morte de Deus", anunciada há um século pelo alemão Friedrich Nietzsche, que lugar resta em nossa vida para o absoluto? Em "Depois da Religião", em um diálogo rico e não ortodoxo, o filósofo francês Luc Ferry e seu colega jornalista Marcel Gauchet encontram um novo lugar para o absoluto no mundo: o coração humano. Se por um lado o mundo se desencanta, se as religiões se tornam mais rígidas, dogmáticas e belicistas, um novo tipo de encanto e de elevação se afirma com o século XXI. Agora é o próprio homem quem carrega dentro de si o sagrado e isso talvez o leve a aumentar o cuidado de si e o respeito pelos outros. Não basta o mundo se guiar por uma ética laica, diz Ferry, ele próprio um agnóstico, como Gauchet. É preciso que a idéia do absoluto persista e ela se guarda agora não no além, não em um ideal longínquo, mas nas próprias limitações do homem.



Um dos maiores intelectuais franceses da atualidade, ex-ministro da Educação do governo de Jacques Chirac (de 2002 a 2004), professor da Sorbonne, autor também de "O Homem-Deus ou o Sentido da Vida" e "Aprender a Viver", entre outros, Ferry conversou com o Valor. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.



AP

Ferry: "É por causa do capitalismo globalizado que não existem mais ideais transcendentais e tudo se torna mercadoria, mas o capitalismo inventou um valor positivo, o casamento por amor e a família moderna"

Valor: O fundamentalismo islâmico, a expansão do dogmatismo cristão e os conflitos e guerras religiosas provam que as religiões estão vivas e muito fortes. Por que isso ocorre? As religiões mudaram e se adaptaram ou, ao contrário, seu poder está justamente na insistência nos valores da tradição?



Luc Ferry: Você conhece a etimologia: "religio", "religere", significa "tornar a ligar", "reunir". São as religiões que, desde os tempos remotos, servem para unir as sociedades. Logo, não é por acaso que elas se tornaram fatores de guerras e de conflitos, isso apesar dos valores em geral pacifistas que pregam. As religiões têm sempre interesse em defender os valores tradicionais. Na Europa, contudo, há mais de um século todo o movimento democrático se expressa numa revolta cada vez maior dos indivíduos contra os valores e as autoridades tradicionais. Eis porque, entre nós, europeus, a religião está em decadência. Quando eu era rapaz, 85% dos franceses eram católicos. Hoje os católicos franceses não chegam a 50% da população.



Valor: O homem contemporâneo parece ter perdido suas referências. O Estado perdeu seu poder, o pai se enfraqueceu e a verdade perdeu parte de seu prestígio. O homem passa a se dedicar à fé – confluência do visível e do invisível. A religião não se tornou, em muitos casos, uma obsessão?



Ferry: É verdade que o século XX se dedicou, ao menos no Ocidente, à desconstrução dos valores tradicionais. As vanguardas estéticas e políticas, opondo a "vida boêmia" à "vida burguesa", desconstruíram tudo: a tonalidade na música, a figuração na pintura, a cronologia e a psicologia dos personagens no romance e no teatro, mas também os valores religiosos e morais da tradição. Mas é preciso compreender o que, no meu entender, é a chave do século XX: paradoxalmente, não são as vanguardas subversivas ou revolucionárias que conduziram as mudanças, mas o capitalismo globalizado. Foi ele que, no fim das contas, liquidificou e liquidou os valores tradicionais, ao exigir que tudo desemboque na lógica de mercado. É por causa do capitalismo globalizado que não existem mais ideais transcendentais e tudo se torna mercadoria. Pois, no mundo de hoje, nós consumimos de tudo, não simplesmente computadores e automóveis, mas também consumimos cultura, religião, escola, política, etc. Porém, e aqui eu não sigo o caminho proposto em sua pergunta, apesar de todos esses aspectos destruidores, o capitalismo inventou um valor novo e positivo: o casamento por amor e a família moderna, fundada sobre a livre escolha e a afinidade eletiva. E essa invenção vai conduzir a uma boa coisa: a sacralização da pessoa humana. Como? Eis o que nos ensinam os melhores historiadores: na Idade Média, não se casava jamais por amor, mas para transmitir um nome, um patrimônio, uma herança. Não se casava ativamente, mas passivamente, pelos pais ou pela cidade. Ao inventar os assalariados e o mercado de trabalho, o capitalismo arranca os indivíduos das comunidades rurais e religiosas de origem. E esses indivíduos passam a ter um salário, logo uma autonomia financeira e material. Assim, em vez de se deixar casar passivamente, eles passam a se casar por escolha, por afinidade, por amor. Como mostro no meu livro, essa invenção moderna altera toda a nossa relação com a infância e conduz à sacralização do humano. Sacralização que provoca repercussões consideráveis, e ao meu ver positivas, também sobre a vida política.



Valor: A espiritualidade ainda tem sentido no mundo laico de hoje?



Ferry: A questão crucial é a diferença entre moral e espiritualidade. Durante muito tempo, acreditei, como a maior parte de meus colegas filósofos hoje, que era possível se contentar com a moral. Eu era ateu ou, para dizer melhor, era agnóstico, e continuo a ser, mas acreditava que as morais laicas bastavam para nortear a conduta humana, o que é falso. E eis por quê. Na essência, as morais modernas giram em torno da questão do respeito pelo outro. Para simplificar, podemos dizer que a carta básica de nossos princípios éticos é a Declaração dos Direitos do Homem. A idéia de que a minha liberdade deve terminar onde começa a liberdade do outro. Terminei por tomar consciência de uma coisa que me preocupava havia muito tempo: essa visão moral do mundo, qualquer que seja sua grandeza ou utilidade no plano social e político, não leva em conta uma série de questões existenciais essenciais. Se você dispusesse de uma bengala mágica que permitisse que os seres humanos se conduzissem de maneira moral uns diante dos outros, não haveria mais estupros, nem roubos, nem genocídios, nem ainda massacres. Contudo, isso não regularia uma série de questões: como viver o luto de um ser amado, como educar um filho, para que serve o envelhecimento, etc.



Valor: Essas questões não foram desprezadas pelos filósofos durante muitas décadas, em especial desde a morte de Martin Heidegger?



Ferry: A moral laica não é suficiente para refletir sobre a questão do luto, das idades da vida, da banalidade da existência cotidiana, ou do tédio, simplesmente porque essas questões surgem de uma outra esfera: a da espiritualidade, ou da sabedoria, no sentido próprio. Daí a problemática que trabalhamos com André Comte-Sponville no livro "A Sabedoria dos Modernos" [Martins Fontes, 1999]: que sabedoria convém aos indivíduos desencantados ou desiludidos que povoam nossas sociedades laicas?



Valor: O sr. afirma que, hoje, o divino e o humano se misturam. Há uma ruptura na fronteira que separa a fé do real. Vivemos hoje uma nova sacralização do mundo?



Ferry: O verdadeiro critério do sagrado se mostra na hipótese da renúncia à vida, do sacrifício supremo de si. Os valores sagrados são aqueles pelos quais podemos nos sacrificar. Quando observamos os motivos tradicionais do sacrifício, aqueles pelos quais os seres humanos aceitaram arriscar a vida, nos damos conta de que eles desapareceram da Europa. Deus, a Pátria, a Revolução. Esses motivos estão de tal forma corroídos que quase ninguém mais, na Europa de hoje, morre por eles. Eles ainda estavam muito presentes nos anos de antes da guerra e mesmo ainda um pouco depois disso. Minha idéia, contudo, é a de que o sagrado não desapareceu completamente. Ele desertou das entidades tradicionais do sacrifício para se encarnar na humanidade. O século XX é o século do aparecimento de uma nova figura do sagrado, aquela que eu chamo de o sagrado com um rosto humano. A transcendência vai se encarnar na imanência do mundo vivido, para retomar a formulação de Husserl. Nós não descobrimos mais a verdade, ou o amor, como alguma coisa recebida do exterior. Por exemplo, quando nos apaixonamos, entendemos que isso procede do próprio coração humano. Eis a figura da transcendência na imanência: alguma coisa que nós vemos nascer em nós como sui generis e, apesar disso, nos ultrapassa.



Valor: O sr. diz que a moral laica não responde às necessidades fundamentais do ser humano. Isso significa que existe, hoje, um novo lugar para o sagrado?



Ferry: Sim, é exatamente isso. O sagrado não desapareceu: mudou de lugar. É claro, hoje, sobretudo na Europa e também em boa parte do Ocidente, quase ninguém mais desejaria morrer por abstrações religiosas ou patrióticas. Contudo, em vez de isso me desolar, como acontece com muitas pessoas, vejo aí uma excelente novidade. Como eu lhe dizia, na Idade Média ninguém se casava por amor. O objetivo do casamento não era só a transmissão do nome, do patrimônio, mas também a necessidade econômica: tratava-se de fabricar crianças para continuar a exploração agrícola. O aparecimento do salário desordenou essa situação. O mercado de trabalho que aparece com o capitalismo obriga os indivíduos a trabalhar nas cidades. Com isso, os indivíduos se libertam das formas tradicionais de contrato social, sejam religiosas ou agrícolas. E ao mesmo tempo adquirem autonomia financeira. O que os leva, também, a desejar não mais casar à força, mas por escolha e, se possível, por amor. E esse amor vai se transferir, por intermédio das crianças, para as gerações futuras. Na Idade Média a morte de uma criança era, freqüentemente, menos importante do que a morte de um cavalo. Hoje, é a pior coisa que pode acontecer a uma família. E esse amor, por extensão, é a origem do desenvolvimento da ação humanitária, cuja história é rigorosamente paralela à da família moderna, fundada sobre o sentimento, não mais sobre a obrigação. Bem entendido, toda essa evolução levou séculos e está apenas se completando no Ocidente.



Valor: "Depois da Religião" é um longo diálogo com Gauchet. A religião contemporânea, marcada pelo fundamentalismo e pelo dogmatismo, exclui o diálogo? Ela prefere o monólogo?



Ferry: Em um momento ou outro, qualquer religião repousa sobre argumentos de autoridade que parecem "dogmáticos" aos que não crêem. A partir de certo ponto, a razão e a argumentação cedem lugar à fé e isso não se discute. Com Gauchet, foi fácil: nenhum de nós possui uma fé, ainda que tenhamos em comum uma característica, bastante rara entre os que não crêem: respeitar profundamente o sentimento religioso.



Valor: O sr. afirma que, hoje, não se dá mais importância à sabedoria. Não será porque, em um mundo de filosofias, ciências e saberes dogmáticos, ela ficou nas mãos da religião?



Ferry: Não digo exatamente isso. Digo apenas que a filosofia contemporânea, universitária, deserdou o tema da sabedoria. Habermas, Rawls ou Foucault não falam dela. Nem Deleuze ou Sartre. Esse é, no entanto, aos meus olhos, o tema que sustenta a filosofia. A única questão verdadeiramente interessante é a da boa vida e para falar de justiça, de argumentação ou de desconstrução dos asilos e prisões não temos mais necessidade da filosofia. A sociologia parece suficiente. As religiões nos convidam a crer em uma vida depois da morte, enquanto as grandes filosofias retomam todas, à sua maneira, a questão posta por Homero e pela filosofia grega: como encontrar uma sabedoria para os mortais, uma boa vida para os que vão morrer? Você se lembra da "Odisséia" e da famosa passagem em que Ulisses se encontra prisioneiro de Calipso. A ninfa é sublime. Loucamente apaixonada por Ulisses, ela não se cansa de fazer amor com ele. Disposta a tudo para conservá-lo, ela lhe oferece a imortalidade. No entanto, Ulisses a deixa, retorna para Ítaca, sua terra natal, e reencontra a família. Prova de que uma vida de mortal consegue ser talvez superior a uma vida de imortal fracassada. Aceitação da aventura e da morte, sabedoria não religiosa. A filosofia começa na Grécia com essa idéia genial de que sábio é aquele que consegue viver no presente, sem ser constantemente submetido a estes dois males que são o passado e o futuro. Por quê? Porque todas as angústias vêm disso. Quando o passado foi feliz, permanecemos na nostalgia. Quando foi penoso, sentimos arrependimentos e culpas. Então, nos refugiamos no futuro, tentando nos convencer de que ele será melhor quando mudarmos de carro, de sapato, de penteado, de mulher, de marido, de casa… E, é claro, isso é uma grande ilusão. O sábio é aquele que consegue vencer o medo ou, como disse Marco Aurélio, aquele que consegue se lastimar um pouco menos, esperar um pouco menos e amar um pouco mais. Encontramos essa idéia em Spinoza, mas também em Nietzsche, na noção de "amor ao destino", amor ao que está lá. O que mostra bem que os grandes filósofos, mesmo os menos religiosos, se interessam pela questão da sabedoria.



Valor: O que é, hoje, o absoluto? Ele pertence somente aos padres, aos rabinos e aos imames islâmicos?



Ferry: Não, o absoluto é uma coisa importante demais para ser entregue aos padres. O absoluto se encarnou na humanidade e eu diria que todos somos responsáveis por ele. Nesse sentido, acredito que nosso século XXI começa muito bem e não é tão ruim quanto se diz freqüentemente, sem pensar, simplesmente porque o pessimismo empresta sempre um ar mais inteligente que o otimismo.



"Depois da Religião – O Que Será do Homem depois Que a Religião Deixar de Ditar a Lei?"

Entrevista – Luc Ferry: Problemas privados são os problemas políticos de hoje

FOLHA 28JUL2008

ENTREVISTA

LUC FERRY

Problemas privados são os problemas políticos de hoje

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

ESCRITOR BEST-SELLER , Luc Ferry defende que os pensadores mais profundos, de Platão a Nietzsche, renunciaram muitas vezes ao jargão em nome de uma filosofia mais acessível, como seria o caso de "Aprender a Viver", seu mais famoso livro. No recém-lançado "Família, Amo Vocês", Ferry tenta simplificar sua teoria de que a política, esfera pública por excelência, tem muito o que aprender com a família, esfera privada. Leia trechos da entrevista feita por e-mail.

FOLHA – Segundo o senso comum, a estrutura familiar é essencial para a lógica do capitalismo e do consumo. Isso mudou com as famílias fragmentadas, monoparentais?
LUC FERRY
- Houve três eras da família. Na Idade Média não se casava por amor, mas para transmissão do nome e patrimônio, "fabricar" crianças e fazer viver a exploração agrícola. De resto, não se casava, se era casado pela família ou pelo vilarejo. É a invenção do assalariado pelo capitalismo incipiente que abala a situação. E vai levar o indivíduo a se emancipar do peso das comunidades tradicionais, por uma razão simples: o mercado de trabalho que logo irá se globalizar força os indivíduos a trabalhar nas grandes cidades. Os indivíduos se livram das formas tradicionais de controle social e adquirem autonomia financeira. A jovem que no campo casa-se à força encontra-se autônoma na cidade. Isso vai levá-la a querer não mais se casar à força, mas por afinidade eletiva. É o nascimento do casamento por amor. É preciso acrescentar que, antes do casamento por amor se tornar a regra, ou quase, como é o caso de hoje, há uma época intermediária, da família burguesa, em que não se divorciava. Mas isso é uma ilusão, porque o divórcio é o avesso do casamento por amor: se você fundamenta o laço familiar no sentimento e não mais na economia, o fundamenta em algo que pode variar. Paradoxalmente, as famílias monoparentais são um resultado do casamento por amor.

FOLHA – Em sua opinião, qual tipo de ligação existe entre as famílias modernas: não são também determinadas pelo individualismo?
FERRY
- O individualismo não tem muito a ver com o egoísmo. O individualismo é ligado à emancipação em relação às tradições comunitárias. Uma mulher que hoje se recusa a se casar à força no Irã tem um comportamento "individualista", não egoísta. E o amor, na esfera privada, tem sido fator de ampliação do pensamento e dos horizontes. Nunca demonstramos tanta preocupação com o outro como nas sociedades modernas. Na Europa, passamos nosso tempo pensando no mal que causamos com a colonização, nos erros cometidos pela globalização em relação aos pobres etc. Isso está ligado à história da família moderna. A humanidade moderna é ligada diretamente à história do casamento por amor. É o amor privado que fez com que o mundo ocidental tivesse simpatia por outras civilizações. Antes, ninguém se interessava por elas senão com o olhar do colonizador. A oposição clássica do privado e do público não reside mais onde pensamos. Como todos temos os mesmos problemas de casamentos fracassados ou bem-sucedidos, divórcio etc., agora o privado não é mais tão privado como pensávamos. A tese do meu livro é a de que os problemas aparentemente privados são os políticos de hoje: a dívida pública ou o choque de civilizações não teriam tanta importância política se a questão por trás não fosse a do mundo que queremos deixar às nossas crianças ou, de modo mais chique, às gerações futuras.

FOLHA – Em que medida a vida privada pode ser um modelo para o Estado e as políticas públicas?
FERRY
– A sacralização da esfera privada como elo principal do sentido da vida como se vê hoje na Europa não representa, como se costuma afirmar de modo blasé, recuo individualista, mas, ao contrário, uma formidável ampliação de horizontes. Diante da valorização da intimidade, o reflexo político mais corrente consiste em declarar, com nostalgia na voz, que, como as instituições "grandiosas" (Deus, pátria, a república etc.) subsistiram por tanto tempo, nós nos conformamos, de modo mais ou menos medíocre, com o que resta: a família com, no máximo, um pouco de senso humanitário e ecológico. Acredito no oposto. Os problemas aparentemente individuais são coletivos. Todos temos mais ou menos os mesmos problemas, de modo que o individual não é o contrário do político. Como a política, esfera pública por excelência, pode tirar partido das revoluções que abalam seu oposto natural, a esfera privada? Como não perder de vista questões cruciais de economia e geopolítica, ao mesmo tempo conduzindo em escala nacional uma política que, enfim, libera a vida privada e ajuda os indivíduos a superar as desigualdades que os impedem de desabrochar? Uma coisa é certa: quem achar a resposta será o grande político do século!

Frases

"A dívida pública ou a relação com o choque de civilizações não teriam tanta importância política se a questão por trás não fosse aquela do mundo que queremos deixar às nossas crianças"
LUC FERRY

"O amor, na esfera privada, tem sido fator de ampliação do pensamento e dos horizontes. Nunca demonstramos tanta preocupação com o outro como nas sociedades modernas"
IDEM

AUTOR TEVE BEST-SELLER NO BRASIL

"Aprender a Viver" (Objetiva; R$ 37,90, 304 págs.) é o livro mais famoso de Luc Ferry. No Brasil, chegou às listas de mais vendidos. Para o autor, o livro traz respostas profundas para questões filosóficas, ligadas ao desejo de uma vida "boa, livre, generosa, aberta aos outros".

RAIO-X

Quem é Luc Ferry

Nasceu em 1º de janeiro de 1951, em Paris

Filósofo, é defensor do humanismo secular -visão de mundo que se contrapõe à religião, privilegiando a razão em detrimento da fé ou do misticismo

Foi ministro da Educação na França entre 2002 e 2004, época em que foi aprovada a polêmica proibição do uso de trajes religiosos, como véus sobre cabeça e rosto de mulheres islâmicas, em escolas públicas daquele país

Venceu em 2006 o prêmio Aujourd’hui de não-ficção por seu livro "Aprender a Viver"

Crítica

Obra está mais para plataforma de candidato

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

O filósofo francês Luc Ferry foi ministro da Juventude e da Educação no governo de Jacques Chirac, durante cerca de dois anos. Guardou da experiência uma forte incompatibilidade com reivindicações corporativas. Está convencido da irracionalidade econômica de muitas bandeiras de esquerda, e não se empolga com os lemas da antiglobalização. Tampouco está engajado numa volta aos velhos ideais políticos do século 20, sejam de esquerda ou de direita. Em nome da "honra nacional" ou da "revolução proletária", milhões foram massacrados. É também crítico com relação ao mundo do hiperconsumismo e da desregulamentação econômica, onde as disparidades sociais se agravam e não há nenhum valor profundo capaz de justificar o status quo. Não parecem sobrar grandes idéias para quem quer, como Ferry, manter-se crítico das desigualdades sociais e ao mesmo tempo preservar a suposta racionalidade econômica dos governantes europeus.

Ovo de Colombo
O que fazer? Neste livro curto e fluente, que poderia quase ser reduzido a uma entrevista de televisão, o filósofo nos apresenta uma espécie de "ovo de Colombo". Seu raciocínio é o seguinte. É comum lamentar o "declínio da política", a decadência das grandes questões de Estado. Tudo se recolhe para a esfera do privado, do doméstico, das famílias. Pois bem, e se virássemos a lamúria de cabeça para baixo? Por que não celebrar, justamente, o âmbito da felicidade pessoal, a dedicação dos pais pelos filhos, o advento moderno do casamento por amor? São fenômenos recentes na história humana (e o livro cita alguns contra-exemplos apavorantes de épocas passadas). Não seria melhor esquecer de vez certos mitos como a Revolução e a Glória Nacional, e dizer que a política deve servir aos indivíduos, ajudando-os a alcançar uma vida mais realizada e feliz? O leitor tende a concordar com propostas tão modestas; o difícil é classificar este livro de "polêmico e inovador", como fez o crítico Pascal Bruckner, numa frase reproduzida na capa da edição brasileira. Afinal, os ideais da auto-realização individual foram reconhecidos na vida política desde, pelo menos, a Revolução Americana de 1776. Além disso, esquerda e direita nunca se mobilizaram apenas em torno de bandeiras como a Pátria ou a Revolução. Quando um "falcão" do Pentágono quer a guerra contra comunistas ou muçulmanos, acredita que esta é a única maneira de defender um ideal de vida não muito diferente daquele apoiado por Ferry. E, durante o apogeu da esquerda, também se dizia que o capitalismo, trazendo guerras e miséria, era incapaz de propiciar os ideais que Ferry defende. Seria este o motivo, afinal, para se fazer uma Revolução. Há futuro para o capitalismo globalizado? Sofre ameaças, externas e internas? Quais as contradições entre ciência e lucro, entre consumismo e ecologia, aceleração tecnológica e desemprego, desencantamento do mundo e frustração individual? São perguntas que não se resolvem propondo novos "valores" no mercado intelectual -mesmo em suas praças mais depauperadas, como a França. Com sua simpática honestidade, "Família, Amo Vocês" parece mais a plataforma de um bom candidato ao parlamento do que um ensaio político inovador.

FAMÍLIA, AMO VOCÊS
Autor: Luc Ferry
Tradução: Jorge Bastos
Editora: Objetiva
Quanto: R$ 24,90 (144 págs.)
Avaliação: regular

 

<><><><><><><>

A filosofia depois da filosofia
Reflexões sobre a obra de Luc Ferry
– Paulo Bentancur

Boris Fausto: Certezas e dúvidas (04-04-2007)-sobre livro: aprender a viver

Luc Ferry 

 

29/03/2007

 

Elis Martini – Fotos: Cleber Passus/Divulgação

 

Como foi, para um filósofo, ter exercido um cargo público na França, já que geralmente os pensadores são muito críticos em relação ao governo?
Normalmente na tradição francesa os intelectuais tendem a uma postura crítica ao poder público. Se você considerar os grandes nomes da cultura francesa como Sartre ou Foucault, eles estão antes do lado da contracultura do que do lado do poder, portanto essa pergunta é muito pertinente. Eu sempre achei que a crítica deveria vir do lado interno do sistema, e não do lado de fora. Foi isso que o grande sociólogo alemão Max Weber chamou de "ética da responsabilidade". Na França existe uma tradição de exercício de poder pelos intelectuais, outros intelectuais foram ministros antes de mim. Eu acho então que ser um filósofo é um "plus" que eu tinha para cuidar da educação e pensar a educação no interior do poder público.

E que experiências você tirou desse mandato?
A sensação que eu tenho é que os homens políticos têm muito menos poder do que imaginam os cidadãos. A primeira razão é a globalização, que retirou uma grande parte de poder desses homens políticos. E a segunda razão são os jornalistas. É uma profissão que eu respeito muito, que eu inclusive exerci, fui conselheiro de grandes jornais franceses. Mas ao mesmo tempo a midiatização da política hoje em dia torna a sua prática extremamente difícil. Por que, por exemplo, quando se entra para um ministério, temos projetos de fundo, como melhorar as condições de aprendizado, melhorar o nível dos professores, projetos básicos e de extrema importância para o mandato do ministro. Mas depois vemos que os imperativos da comunicação acabam falando mais alto que todo o resto. Uma pequena história para ilustrar isso didaticamente: quando eu fui nomeado para o ministério da educação por Jacques Chirac, falei que o ministério era como um cavalo magnífico que vai nos permitir ir longe. Em seguida eu me dei conta que eu estava num jogo que se chama rodeio, cujo objetivo não é ir longe, mas manter-se sobre o cavalo.

No livro "Aprender a viver", recentemente lançado no Brasil, fica muito clara a sua preocupação em desacralizar e desmistificar a filosofia e o seu ensino. Há uma preocupação em trazer os jovens e as crianças mais para perto da filosofia. O senhor acredita que essa aproximação com a filosofia pode tornar o mundo mais tolerante?
Sim, porque se nós prestarmos atenção, todos os conflitos que acontecem no mundo hoje são de ordem religiosa seja para que lado nos olharmos, no Sudão, na Irlanda, na Iugoslávia, em todo o Iraque. Isso não significa que eu não tenha respeito à religião. Mas a filosofia trata de todos os temas dos quais tratam as grandes religiões, mas pela razão e não pela fé, então se adotarmos a ótica da filosofia para tratar desses temas isso certamente iria tornar o mundo mais tolerante.

Essa teoria parece sólida em países como a França e a Alemanha, onde o sistema educacional é bem desenvolvido, mas não se tornaria frágil num país como o Brasil, onde a religião ainda tem um papel muito importante em relação à filosofia?
Eu acho que em qualquer situação é sempre melhor utilizar-se da lucidez. O grande problema da filosofia é quando um indivíduo se depara com a perda de um ser amado, um filho, um entre querido, e nesse momento a pessoa levanta uma série de perguntas que causam uma dificuldade de respostas. Por exemplo, uma das passagens mais importantes do evangelho é a da morte de Lázaro, amigo de Jesus. E quando Jesus é informado da morte de Lázaro ele chora e diz que o amor é capaz de ressuscitar. A grande mensagem da religião cristã então é a que nós iremos reencontrar as pessoas que amamos após a morte. Se vocês acreditam nisso, formidável. Se vocês não acreditam, eu vos aconselho a analisarem o problema sob a ótica das grandes filosofias, que abordam a mesma questão, mas com mais lucidez. Dizem que o grande problema da filosofia, de Platão a Nietzsche, é como ultrapassar a questão da morte sem passar pela fé e por Deus. Ou seja, se vocês têm uma crença não é necessário olharem esses assuntos sob a ótica de filosofia, mas se não têm eu aconselho a fazerem um pequeno desvio para esse caminho.

Você publicou o livro "A Nova ordem Ecológica" no mesmo ano da Eco-92, um dos eventos sobre ecologia que mais tiveram repercussão nos anos 90. Qual a sua visão da ecologia e dos movimentos ambientais 15 anos depois desses acontecimentos?
Esse é um livro sobre a história da ecologia e que apresenta suas duas grandes correntes. Primeiro há uma ecologia romântica, que pensa que o mundo moderno é ruim, o que nos Estados Unidos chamam de "deep ecology" ou seja, ecologia profunda. Esse tipo de ecologia é encontrado em muitos filmes americanos, como, por exemplo, "Dança com Lobos", que narra a história de um soldado que precisa ir até a fronteira com o mundo selvagem ou seja, a reflexão é de que esse mundo selvagem é melhor do que a nossa sociedade. E há uma segunda ecologia, a reformista, que defende a idéia de que é preciso haver um desenvolvimento sustentável. Na primeira vez que vim a Porto Alegre, durante o Primeiro Fórum Social Mundial, eu encontrei muitos ecologistas da primeira categoria, os românticos. Eu acho que seria interessante, embora seja uma ecologia menos "sexy", que a segunda categoria, a reformista, fosse mais valorizada que a primeira, porque eu não gosto da idéia romântica do retorno ao paraíso perdido. Embora ela seja bonita, ela me parece um pouco perigosa. Por isso, em lugares como a Alemanha e o Canadá, a ecologia reformista é a que está sendo mais valorizada hoje em dia.

Você, como ministro da educação, já abordou o tema da "mercantilização da educação", onde as faculdades não vendem ensino, mas sim diplomas. O que tem sido feito em relação a isso, no seu mandato na França?
É verdade que hoje há uma mercantilização dos serviços educativos e eu defendo fortemente a idéia de que a educação seja um serviço público. Nós não só podemos como devemos estabelecer relações com empresas privadas para financiar pesquisas, mas os princípios da educação devem permanecer absolutamente na filosofia de um serviço público. É muito importante que nas nossas universidades nós possamos manter departamentos como História da Arte, Filosofia, mesmo quando eles não são rentáveis, não tenham um retorno econômico. Eu mesmo defendi, em uma reunião com mais 38 ministros da educação europeus, que os princípios da educação devem permanecer acadêmicos e científicos e não comerciais.

A carência de um sistema de educação é seguidamente relacionada com a violência e a criminalidade, em especial em países como o Brasil. Como você vê essa relação?
Eu acho que no mundo de hoje nós devemos fazer a diferença entre uma violência "hard" e uma violência "soft". A nossa tendência, como herdeiros do século das luzes, é de pensarmos que a violência provém de fatores sociais, da educação, etc. Mas se nós olharmos hoje em dia nós veremos pessoas com um alto nível de educação que são extremamente violentas. Se nós lembrarmos do nazismo, do fanatismo islâmico, do movimento revolucionário da Argélia – onde os terroristas são na sua maioria profissionais formados em universidades, como médicos, advogados, etc – nós nos damos conta de que o nível de educação não erradica a violência. Ou seja, no século XVIII havia o sonho de que levantando o nível cultural e educacional de uma população, a violência seria erradicada, mas não é o que se vê hoje. E há também o outro tipo de violência, a violência "soft", que é, por exemplo, o tipo de violência que acontece nas escolas e que hoje em dia inferniza a vida dos professores. Essa violência não tem nada a ver como o fanatismo, ela vem de outros fatores. Um deles é um problema que é o número um na França e na Europa, que é o individualismo. Há mais ou menos quarenta anos, desde maio de 68, se teve um processo de resgate constante do indivíduo e do distanciamento das referências que tinham de suas heranças. Dois fatores fundamentais da questão educacional são baseados nas heranças. Nós temos primeiro a herança da língua, nós herdamos a nossa língua materna, nós não a inventamos. Vocês não inventaram o português do Brasil assim como eu não inventei o francês, então isso é uma herança pura. O segundo aspecto é a herança das regras de polidez e de etiqueta dentro da sociedade. Por exemplo, quando se termina uma carta, existem fórmulas corretas pré-existentes de fazê-lo. O nosso problema na Europa acontece justamente porque foi havendo um progresso constante, mas hoje em dia o individualismo está arrancando o indivíduo da coletividade. Atualmente, se analisarmos todos os países europeus, não só a França, nós veremos que há dois declínios importantes. Em primeiro lugar um declínio no plano da língua, é a primeira vez que os jovens e as crianças dominam menos a língua materna do que os seus pais ou avós. E há também um declínio das regras do viver junto, em sociedade, ou seja, as regras de polimento e de etiqueta, as regras de respeito ao outro. Há quarenta anos os métodos educacionais da Europa repousam na auto aprendizagem, ou seja, os alunos têm a capacidade de aprender de uma forma autônoma, e na realidade nós estamos nos dando conta de que isso não funciona.

O que você acha das novas propostas de se formar uma escola mais democrática, que ouça mais os alunos e que mude a disposição das salas de aula?
É importante pensar no contexto dos diferentes países, por exemplo, eu estive recentemente no Chile, um país que teve uma educação muito autoritária e tradicional durante muitos anos e no qual é realmente necessário trazer uma abertura e permitir que os alunos desenvolvam uma espécie de auto-construção. Em contrapartida, na França se foi tão longe nessa mudança, se deu tanta abertura e autonomia e se suprimiu completamente as aulas tradicionais que nós acabamos caindo no inverso. Nós inventamos, por exemplo, um método que se chama "a mão na massa", ou seja, as crianças aprendem através de suas experiência práticas. No início funciona muito bem, as crianças criam elas mesmas brinquedos, jogos, fabricam moinhos, então quando se inicia a prática de uma pedagogia como essa o resultado é excelente. Mas quando as criaças chegam em biologia, quando vão estudar a estrutura de uma proteína, do DNA, por exemplo, é impossível passar esse conteúdo sem que se retorne as aulas magistrais convencionais. Então nós nos demos conta com o tempo que não era possível dispensar esse tipo de trabalho mais tradicional. Há quarenta anos as pedagogias européias repousam sobre uma ilusão complexa. A tentativa tem sido sempre de partir da motivação, de um método interessante: o professor traz um violão para a aula, passa um filme, as coisas começam num tom leve. Mas contrariamente ao que essa nova pedagogia tem pensado, o que se revela é que métodos diferentes se desenvolvem mas as pessoas se interessam mais pelas disciplinas na medida em que precisam trabalhar bastante no já início.

1 de abril de 2007

CELSO FURTADO x BRASIL

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 2:10 PM

Sem a força estilística de "Raízes do Brasil" ou "Casa-Grande & Senzala", "Formação Econômica do Brasil", de Celso Furtado, ainda é um dos livros-chave para entender o país

OSCAR PILAGALLO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A ciência econômica produzida nas nações industrializadas penetrou no Brasil por meio da universidade e, transformada em doutrina, passou a ser aceita sem nenhuma tentativa de confronto com a realidade.
A denúncia desse esforço de mimetismo, formulada por Celso Furtado (1920-2004) há meio século, é ainda atual. A inibição mental a que ele se referia, responsável pela importação de fórmulas, continua presente no debate sobre protecionismo, neoliberalismo ou globalização.
Se a lição não foi totalmente assimilada, a culpa não é de Furtado. Ele fez sua parte. Em "Formação Econômica do Brasil", agora reeditado [Cia. das Letras, 352 págs., R$ 39,50], buscou uma interpretação original do país.
Com o aparato teórico do keynesianismo (que defende a intervenção do Estado para corrigir as imperfeições do mercado) e a experiência obtida na Cepal (que propugnava um programa de desenvolvimento para a América Latina), propôs uma ambiciosa releitura da história econômica do Brasil, dos primórdios da colonização à industrialização do século passado.
O país que emerge das páginas de Furtado não é mais o dos ciclos econômicos estanques. Sem nunca deixar de ocupar uma posição secundária no cenário internacional, ele é mais complexo.
A cana-de-açúcar, o ouro, a borracha, o café, os ciclos estão todos lá, mas não mais como realidades regionais isoladas: eles se inter-relacionam, respondem à conjuntura mundial e, sobretudo, projetam uma perspectiva que chega ao século 21.
A economia de subsistência que se seguiu ao fim da empresa açucareira, por exemplo, ainda está na base de problemas econômicos e sociais do Nordeste.
A história econômica do Brasil poderia ter sido bem diferente.
Se o país esteve sempre a reboque das nações mais ricas, isso se deveu não apenas a características geográficas, históricas ou demográficas mas a opções em momentos decisivos. É ilustrativa a comparação que Furtado faz entre Brasil e Estados Unidos.
Na segunda metade do século 18, ambos os países receberam a influência do liberalismo de Adam Smith, que em 1776, mesmo ano da independência americana, publicou "A Riqueza das Nações". Mas a digeriram de forma diferente.
Nos EUA, onde além dos pequenos agricultores havia os grandes comerciantes, as idéias de Smith foram defendidas por Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro do país.
No Brasil, onde a elite era formada por grandes agricultores escravistas, tal tarefa coube a José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, que influenciava a monarquia em assuntos econômicos. "Enquanto Hamilton se transforma em paladino da industrialização […], Cairu crê supersticiosamente na mão invisível [do mercado]", afirma Furtado.

Diferença de atitude
A comparação acentua uma diferença de atitude que ajudaria a determinar as trajetórias distintas do Brasil e dos EUA. De um lado, a interpretação de uma doutrina ao pé da letra; de outro, sua relativização.
Na pátria da livre iniciativa, o liberalismo foi bom quando conveniente para o desenvolvimento. Caso contrário, foi temperado por medidas protecionistas e estímulos à indústria.
Na história de Celso Furtado, nem sempre o Brasil fez o papel de ingênuo. Nos anos 30, superou a crise iniciada em 1929 mais rapidamente que os países ricos, ao decidir financiar a queima dos estoques de café, então o principal motor da economia.
"O valor do produto que se destruía era muito inferior ao montante da renda que se criava", escreve Furtado, identificando aí um embrionário esquema keynesiano.
O economista, no entanto, não tinha a menor ilusão. Não perdia de vista que tal política era apenas um subproduto da defesa dos interesses cafeeiros. Além disso, utilizando-se de ferramentas marxistas, Furtado, que não era marxista, introduziu o conceito de socialização dos prejuízos.
"O problema consistia menos em saber o que fazer com o café do que em decidir quem pagaria pela conta." Com a desvalorização da moeda em decorrência da crise, o grosso das perdas foi transferido para a coletividade, por meio da alta dos preços das importações.
Ainda assim, o saldo foi positivo. "A política de defesa do setor cafeeiro nos anos da grande depressão concretiza-se num verdadeiro programa de fomento da renda nacional.
Praticou-se no Brasil, inconscientemente, uma política anticíclica de maior amplitude que a que se tenha sequer preconizado em qualquer dos países industrializados."
O leitor com alguma familiaridade com a história econômica do Brasil terá a impressão de já ter lido em outro lugar as grandes sínteses de "Formação Econômica do Brasil".
E provavelmente leu mesmo, porque elas estão espalhadas em livros, acadêmicos e de divulgação, e incorporadas ao repertório contemporâneo.
Escrito com intenção introdutória, o livro foi muito além da proposta inicial, mas manteve certa vocação didática.
A análise, apresentada em capítulos curtos, é acessível ao leigo, embora pressuponha o conhecimento dos fatos históricos e, na parte sobre a industrialização, o domínio de alguns conceitos-chave.
Comparado às grandes obras de formação do pensamento brasileiro, o clássico de Celso Furtado não tem a mesma força estilística de "Casa-Grande Senzala", de Gilberto Freyre, ou de "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda. O que prende o leitor é o poder da argumentação.


OSCAR PILAGALLO é jornalista, autor de A História do Brasil no Século 20 (em cinco volumes, pela Publifolha).

 

Entrevista com Furtado sai em livro

DA REDAÇÃO

A editora Paz e Terra está lançando "Foto de uma Conversa – Celso Furtado e Cristovam Buarque" (96 págs., R$ 14), livro que traz uma conversa informal entre o economista que criou a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) nos anos 1950 e o ex-ministro da Educação do governo Lula. O encontro foi registrado em 1991, em Paris.
Furtado também foi o primeiro ministro do Planejamento da história do país (1962-64), no governo João Goulart (1961-64), e ocupou a pasta da Cultura no governo Sarney (1985-90).

JAPÃO x JAPÃO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 1:58 PM
ARTIGO
O Japão ressurge

MICHAEL J. GREEN
DA "FOREIGN AFFAIRS"

Hoje em dia, qualquer livro sobre a Ásia cujo título contenha a palavra "ascensão" provavelmente versará sobre a China. Com certeza foi tendo isso em mente que Kenneth Pyle decidiu pelo inteligente título "Japan Rising: The Resurgence of Japanese Power and Purpose" [Japão em ascensão; o ressurgimento do poder e determinação japoneses] para o seu abrangente estudo da cultura estratégica japonesa.
Em um momento no qual ministros, presidentes de empresas e jornalistas só passam por Tóquio porque estão a caminho de Pequim, Pyle nos lembra de que a China não é o único protagonista que está realizando escolhas estratégicas que determinarão o futuro da Ásia. "Depois de mais de meio século de pacifismo nacional e isolacionismo, o Japão está se preparando para se tornar um importante participante nas disputas estratégicas do século 21", diz a introdução.
O Japão mais determinado proposto pelo ex-primeiro-ministro Junichiro Koizumi e por seu sucessor, Shinzo Abe, é muitas vezes descrito por observadores como "nacionalista" ou mesmo "militarista".
Mas além de apontar para o fato de que os pilares básicos do pacifismo e passividade japoneses estão se erodindo, poucos autores são capazes de explicar a base para o atual pensamento estratégico japonês.
Conduzindo o leitor da chegada da frota norte-americana comandada pelo comodoro Matthew Perry à baía de Edo, em 1853, à Esfera da Co-Prosperidade da Grande Ásia, nos anos 30, e à aliança com os Estados Unidos na década de 40, depois da guerra, Pyle demonstra como as elites japonesas mantiveram intensamente o foco em maximizar a autonomia, posição e honra do país.
Ele também demonstra de que maneira elas se mantiveram atentas à distribuição internacional de poder e adotaram as práticas de mais sucesso das potências hegemônicas. Ao ler esse trabalho histórico, percebemos que o Japão não está retomando suas raízes mais realistas; na verdade, nunca as abandonou.

Mais com menos
Um dos elementos mais notáveis do relato de Pyle é a maneira pela qual o Japão consistentemente conseguiu fazer mais usando menos. Pyle aponta que, entre 1860 e 1938, quando o Japão começava a afirmar sua posição de pretendente ao domínio de metade do planeta, sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) mundial cresceu de 2,6% para 3,8%.
Sob o lema de "nação rica, Exército forte", a elite da era Meiji adotou as tecnologias e instituições ocidentais que serviam ao propósito de uma rápida modernização e ao objetivo de canalizar as mais avançadas tecnologias para o Exército e a Marinha imperiais.
Em 1860, a maioria dos militares a serviço do Japão continuavam armados de espadas, alabardas ou lanças; em dezembro de 1940, o Japão estava projetando, construindo e empregando operacionalmente alguns dos mais modernos encouraçados e caças do mundo.
Depois de uma derrota catastrófica em 1945, o Japão se viu forçado a uma acomodação com os ocupantes norte-americanos e à nova ordem internacional dominada pelos Estados Unidos.
O arquiteto da estratégia japonesa no pós-guerra, o primeiro-ministro Shigeru Yoshida, acreditava que a liderança do pré-guerra não havia dedicado atenção suficiente às relações de poder internacionais, e que havia administrado de maneira ineficiente as fontes de poderio nacional do país.
Yoshida alinhou Tóquio a Washington de maneira estreita, e garantiu que o foco do Japão no pós-guerra continuasse a ser a reconstrução econômica, e não a remilitarização.
Yoshida e a elite conservadora viam o pacifismo como maneira de maximizar a autonomia nacional do Japão até que o país se tivesse recuperado. Os sucessores dele garantiram que o artigo nove fosse institucionalizado como parte das leis domésticas, o que oferecia ao país uma via de escape com relação a envolvimento excessivo na estratégia dos Estados Unidos durante a Gerra Fria.
Yoshida tinha especial preocupação em manter a liberdade de ação do Japão para estabelecer relações comerciais com a China, que ele tinha certeza terminaria por se libertar da sujeição à União Soviética.
Com o final da Guerra Fria, a elite do Japão se viu uma vez mais forçada a se ajustar a uma nova ordem internacional. Depois de cinco décadas de forte crescimento econômico, a nação parecia dispor das ferramentas necessárias a reforçar sua posição, mantendo o alinhamento com a única superpotência do mundo.
Boa parte da elite japonesa acatava a famosa fórmula do ex-ministro assistente das Finanças Eisuke Sakakibara, de que a economia japonesa havia "ultrapassado o capitalismo" e, por isso, Tóquio poderia dar forma ao seu ambiente estratégico com base em uma posição de liderança na Ásia e sem necessidade de militarizar o país.
Em lugar disso, a década de 90 viu um Japão paralisado durante a primeira guerra do Golfo Pérsico, desprovido de um modelo econômico confiável depois do colapso da bolha em seus mercados, incapaz de usar a interdependência econômica para influenciar o alcance estratégico que a China começava a desenvolver e sob ameaça de uma Coréia do Norte determinada a ter armas nucleares.
Foi só depois de uma década de deriva que o Japão voltou a encontrar o rumo, sob a liderança de Koizumi e Abe, ambos representantes de famílias políticas opositoras de Yoshida. Koizumi atacou a base de poder da velha guarda do Partido Liberal Democrata, que governa o país, e fomentou a reestruturação necessária a recolocar a economia nos trilhos.
Pyle prevê que o Japão continuará a conduzir a sintonia fina de seu poderio nacional a fim de se adaptar às mudanças no ambiente internacional. Ele aponta que o Japão ainda não descobriu como conviver com o legado da Segunda Guerra ou fez as difíceis escolhas necessárias para sustentar o crescimento econômico em longo prazo (como a reforma das políticas de imigração e agrícola).
Em resumo: o Japão começou a explorar novas fontes de poder a fim de manter sua posição de liderança na Ásia, como aconteceu tantas outras vezes no passado.


Tradução de PAULO MIGLIACCI


NA INTERNET – Leia a íntegra do artigo
www.folha.com.br/070902

ESCREVER x ESCREVER II

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:40 AM

Paper – O que é e como fazer

Prof. Sergio Enrique Faria

http://www.faenac.edu.br/imagens/teiadosaber/Arquivos/PAPER%20como%20fazer.doc

(tirado deste site em 18-04-2007)

1-      Conceito de paper

 

O paper, position paper ou posicionamento pessoal é um pequeno artigo científico a respeito de um tema pré-determinado. Sua elaboração consiste na discussão e divulgação de idéias, fatos, situações, métodos, técnicas, processos ou resultados de pesquisas científicas (bibliográfica, documental, experimental ou de campo), relacionadas a assuntos pertinentes a uma área de estudo.

Na elaboração de um paper, o autor irá desenvolver análises e argumentações, com objetividade e clareza, podendo considerar, também, opiniões de especialistas. Por sua reduzida dimensão e conteúdo, o paper difere de trabalhos científicos, como monografias, dissertações ou teses.

O paper deve ser redigido com estrita observância das regras da norma culta, objetividade, precisão e coerência. Devem ser evitadas as gírias, expressões coloquiais e que contenham juízos de valor ou adjetivos desnecessários. Também é preciso evitar explicações repetitivas ou supérfluas, ao mesmo tempo em que se deve cuidar para que o texto não seja compacto em demasia, o que pode prejudicar a sua compreensão. A definição do título do artigo deve corresponder, de forma adequada, ao conteúdo desenvolvido.

 

2-      Propósitos do paper

 

De um modo geral, o paper é produzido para divulgar resultados de pesquisas científicas. Entretanto, esse tipo de trabalho também pode ser elaborado com os seguintes propósitos:

- Discutir aspectos de assuntos ainda pouco estudados ou não estudados (inovadores);

- Aprofundar discussões sobre assuntos já estudados e que pressupõem o alcance de novos resultados;

- Estudar temáticas clássicas sob enfoques contemporâneos;

- Aprofundar ou dar continuidade à análise dos resultados de pesquisas, a partir de novos enfoques ou perspectivas;

- Resgatar ou refutar resultados controversos ou que caracterizaram erros em processos de pesquisa, buscando a resolução satisfatória ou a explicação à controvérsia gerada.

Além desses objetivos, o paper pode abordar conceitos, idéias, teorias ou mesmo hipóteses de forma a discutí-los ou pormenorizar aspectos.

 Ao produzir o artigo, o aluno inicia uma aproximação aos conceitos e à linguagem científica que necessitará desenvolver no momento da elaboração do trabalho de conclusão de curso.

A elaboração de artigos estimula, ainda, a análise e a crítica de conteúdos teóricos e de idéias de diferentes autores, contribuindo para que o aluno aprenda a sintetizar conceitos, fazer comparações, formular críticas sobre um determinado tema à luz de pressupostos teóricos ou de evidências empíricas já sistematizadas.

 

3-      Elaboração do paper

 

Para que o conteúdo do paper  seja  bem trabalhado e fundamentado sugere-se que o mesmo tenha entre 10 e 15 páginas. Como o paper deve ser sempre fundamentado cientificamente, deve-se utilizar no mínimo 3 autores na pesquisa.

Antes de começar a escrever o artigo, é preciso que o autor primeiro reúna as informações e conhecimentos necessários por meio de livros, revistas, artigos e outros documentos de valor científico. Em seguida, deve-se organizar um esqueleto ou roteiro básico das idéias, iniciando com a apresentação geral do assunto e dos propósitos do artigo, seguidos da indicação das partes principais do tema e suas subdivisões e, por fim, destacando os aspectos a serem enfatizados no trabalho.

A elaboração deste plano é útil, em primeiro lugar, para sistematizar a comunicação a ser feita, evitando que o autor se perca durante a elaboração. Por outro lado, também auxilia como recurso pedagógico para reflexão e organização lógica das idéias a serem abordadas;

Em termos de procedimentos para a escrita de um artigo científico, é necessário observar os propósitos do trabalho a ser elaborado. Todavia, independente de ter propósitos distintos, o artigo científico deve apresentar a estrutura básica que caracteriza todos os tipos de trabalhos científicos ou acadêmicos: Introdução, Desenvolvimento e Conclusão.

 

 

Introdução

É o primeiro contato do leitor com a obra. Deve-se, nela, fazer o leitor entender com clareza o contexto da pesquisa, de forma didática. A introdução do paper tem, geralmente, uma ou duas páginas e deve abordar os seguintes elementos:

-          Assunto/tema do artigo e seus objetivos;

-          Justificativa do trabalho e sua importância teórica ou prática;

-          Síntese da metodologia utilizada na pesquisa;

-          Limitações quanto à extensão e profundidade do trabalho;

-          Como o artigo está organizado.

 

Desenvolvimento (corpo do artigo)

O desenvolvimento é o elemento essencial da pesquisa, isto é, o seu coração, e no geral concentra de 80 a 90 por cento do total de páginas do relatório.

Nesta etapa o aluno deverá dividir o tema em discussão para uma maior clareza e compreensão por parte do leitor. É preciso evitar, porém, o excesso de subdivisões, cujos títulos devem ser curtos e adequados aos aspectos mais relevantes do conteúdo, motivando para a leitura. Vale ressaltar que as divisões, subdivisões e títulos do artigo não garantem a sua consistência ou importância. É preciso que as referidas partes e respectivas idéias estejam articuladas de forma lógica, conferindo ao conjunto a indispensável unidade e homogeneidade.

                        No desenvolvimento são apresentados os dados do estudo, incluindo a exposição e explicação das idéias e do material pesquisado, referencial teórico (apresentação de conceitos sistematizados com base na literatura), discussão e análise das informações colhidas e avaliação dos resultados, confrontando-se os dados obtidos na pesquisa e o conteúdo abordado nos referenciais teóricos.

 

Conclusão

A conclusão apresenta as informações que vão finalizar o trabalho buscando-se integrar todas as partes discutidas. É a dedução lógica do estudo, na qual destacam-se os seus resultados, relacionando-os aos objetivos propostos na introdução. Podem ser incluídas as limitações do trabalho, sugestões ou recomendações para outras pesquisas, porém de forma breve e sintética.

Em termo formais, a conclusão é uma exposição factual sobre o que foi investigado, analisado, interpretado; é uma síntese comentada das idéias essenciais e dos principais resultados obtidos, explicitados com precisão e clareza. Assim, a leitura da conclusão deve permitir ao leitor o entendimento de todo o trabalho desenvolvido, das particularidades da empresa aos resultados esperados na implantação do projeto proposto.

 

       4-­ Quanto à forma de apresentação

O paper é apresentado, usualmente, seguindo-se as normas prescritas para apresentação de trabalhos acadêmicos, ressalvando-se os trabalhos preparados para eventos ou com fins de publicação em periódicos científicos, que devem atender aos critérios e modelos estabelecidos por seus organizadores e/ou editores. Como trabalho acadêmico, especificamente, o paper deve estar orientado pelas normas constantes no manual da própria faculdade, as quais são certamente baseadas nas normas da ABNT. Na apresentação do paper, é preciso realmente observar as orientações prescritas nos manuais, pois, caso isso não aconteça, corre-se o risco de comprometer a aprovação do artigo.

 

     5-  Avaliação

O paper pode ser avaliado segundo inúmeros critérios, decorrentes dos objetivos propostos pelo professor. Normalmente, os artigos científicos são elaborados por alunos que se encontram em fase final do curso de graduação, muito embora nada impeça que o professor os solicite em etapas anteriores, adequando-o às possibilidades e recursos já desenvolvidos por seus alunos.

Para a avaliação de artigos científicos, então, podem ser descritos vários critérios, tais como:

 

a) Quanto ao conteúdo:

- Clareza na apresentação dos objetivos, justificativa e importância do artigo;

- Identificação dos limites do artigo (definição do foco do artigo e dos aspectos que não serão abordados);

- Clareza na especificação das unidades de análise (como por exemplo: indivíduo, organização, sociedade);

- Demonstração de conhecimento suficiente sobre o assunto;

- Referencial teórico claramente identificado, coerente e adequado aos propósitos do artigo;

- Ausência de dispersão ou de redundância das informações/conteúdos;

- Apresentação de suposições (hipóteses) sustentadas em teorias e crenças consideradas verdadeiras a partir do paradigma do qual se originam; as suposições devem ser claras e justificadas;

- Coerência entre as informações e no encadeamento do raciocínio lógico;

- Ausência de saltos de raciocínio na passagem de um parágrafo para outro, ou de um conceito para outro;

- Elaboração de análise e síntese diante de conceitos teóricos semelhantes e/ou divergentes;

- Uso adequado de exemplos complementares para clarificar o significado do texto;

- Demonstração de argumentos ou provas suficientes para apoiar as conclusões;

- Articulação entre sugestões ou recomendações e as discussões apresentadas no texto;

- Originalidade e inovação do assunto abordado;

- Postura ética no trato do tema e desenvolvimento da análise (imparcialidade e equilíbrio).

 

b) Quanto à forma:

- Atendimento aos objetivos propostos;

- Objetividade, precisão e coerência na escrita do texto;

- Uso fiel das fontes mencionadas no artigo, com a correta relação com os fatos

analisados;

- Uso/seleção de literatura pertinente à análise;

- Linguagem acessível;

- Unidade e articulação do texto (encadeamento lógico);

- Elementos de transição entre parágrafos adequados ao sentido e à lógica dos

conteúdos;

- Afirmativas unívocas, sem duplo sentido;

- Coerência e padronização dos termos técnicos;

- Observância das regras da norma culta;

- Uso correto de citações devidamente referenciadas;

- Adequação do título ao conteúdo; resumo claro e informativo

- As normas técnicas de apresentação de trabalhos acadêmico-científicos determinadas são respeitadas?

 

O artigo pode ser rejeitado tanto pelo acúmulo de pequenas falhas em diversos critérios quanto pelo número excessivo de falhas em um mesmo critério.

Discurso sobre o Método

Simplificadamente, são os passos ou preceitos:

  1. Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade e sua justificação. Verificar a verdade, a boa procedência daquilo que se investiga – aceitar o que seja indubitável, apenas. Esse passo relaciona-se muito ao cepticismo.
  2. Análise, ou divisão do assunto em tantas partes quanto possível e necessário.
  3. Síntese, ou elaboração progressiva de conclusões abrangentes e ordenadas a partir de objetos mais simples e fáceis até os mais complexos e difíceis.
  4. Enumerar e revisar minuciosamente as conclusões, garantindo que nada seja omitido e que a coerência geral exista.

Estas operações reconstituiriam as três operações elementares da mente humana, a indução (que consiste em captar realidades mínimas), a dedução (agrupar observações e inferir resultados) e a enumeração (acompanhada da revisão e reelaboração de conceitos).

Estes preceitos são colocados em alegoria com a demolição de uma casa (o antigo método de pensamento que Descartes empregava) e a construção de um edifício seguro (o novo Método). A metáfora da construção pode ser encontrada, por exemplo, na afirmação acerca da utilidade da dúvida hiperbólica (que não seria simplesmente o duvidar por duvidar):

http://www.fes.br/disciplinas/dir/lp2/10%AA%20aula%20Coer%EAncia%20textual%20-%20macroestrutura%20do%20texto%20argumentativo.doc

10ª Aula – Coerência textual; macroestrutura do texto argumentativo – Professor Gílson Demétrio Ávalos – Língua Portuguesa

 
 
 
PRAGMÁTICA LINGUÍSTICA: COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAL – de Portugal
 
 
 
 
 

Conceitos nucleares da linguística textual, que dizem respeito a dois factores de garantia e preservação da textualidade. Coerência é a ligação em conjunto dos elementos formativos de um texto; a coesão é a associação consistente desses elementos. Estas duas definições literais não contemplam todas as possibilidades de significação destas duas operações essencias na construção de um texto e nem sequer dão conta dos problemas que se levantam na contaminação entre ambas. As definições apresentadas constituem apenas princípios básicos de reconhecimento das duas operações (note-se que o facto de designarmos a coerência e a coesão como operações pode ser inclusive refutável). A distinção entre estas duas operações ou factores de textualidade está ainda em discussão quer na teoria do texto quer na linguística textual.

…………………………………….. segue…………………………..

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Introduction

Next:

Metaphors


Short words


Unnecessary words


Active, not passive


Jargon


Tone


Journalese and slang


Americanisms


Syntax

Table of contents


Introduction

Clarity of writing usually follows clarity of thought. So think what you want to say, then say it as simply as possible. Keep in mind George Orwell’s six elementary rules ("Politics and the English Language", 1946):

  1. Never use a metaphor, simile or other figure of speech which you are used to seeing in print.
  2. Never use a long word where a short one will do.
  3. If it is possible to cut out a word, always cut it out.
  4. Never use the passive where you can use the active.
  5. Never use a foreign phrase, a scientific word or a jargon word if you can think of an everyday English equivalent.
  6. Break any of these rules sooner than say anything outright barbarous.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Why a Scientific Format?

The scientific format may seem confusing for the beginning science writer due to its rigid structure which is so different from writing in the humanities. One reason for using this format is that it is a means of efficiently communicating scientific findings to the broad community of scientists in a uniform manner. Another reason, perhaps more important than the first, is that this format allows the paper to be read at several different levels. For example, many people skim Titles to find out what information is available on a subject. Others may read only titles and Abstracts. Those wanting to go deeper may look at the Tables and Figures in the Results, and so on. The take home point here is that the scientific format helps to insure that at whatever level a person reads your paper (beyond title skimming), they will likely get the key results and conclusions.

Top of page

The Sections of the Paper

…………………………………..

Introduction to Journal-Style Scientific Writing

Overview

A critical aspect of the scientific process is the reporting of new results in scientific journals in order to disseminate that information to the larger community of scientists. Communication of your results contributes to the pool of knowledge within your discipline (and others!) and very often provides information that helps others interpret their own experimental results. Most journals accept papers for publication only after peer review by a small group of scientists who work in the same field and who recommend the paper be published (usually with some revision).

The format and structure presented here is a general one; the various scientific journals, and oftentimes specific disciplines, utilize slightly different formats and/or writing styles. Mastery of the format presented here will enable you to adapt easily to most journal- or discipline-specific formats. While this guide (a others like it) is a necessary tool of learning the scientific writing style and format, it is not sufficient, by itself, to make you an accomplished writer. This guide will not teach you how to write in the English language, i.e., it is not a grammar book. You, the writer, must practice writing and thinking within this structure, and, learn by example from the writings of others; learning the nuances of this style and format will be enhanced as you read the scientific literature – pay attention to how professional scientists write about their work. You will see improvement in your own scientific writing skills by repeatedly practicing reading, writing, and critiquing of other’s writing.

Top of Page

The guide addresses four major aspects of writing journal-style scientific papers:

…………………….

 

 
 
 
 

An essay can have many purposes, but the basic structure is the same no matter what. You may be writing an essay to argue for a particular point of view or to explain the steps necessary to complete a task.

Either way, your essay will have the same basic format.

If you follow a few simple steps, you will find that the essay almost writes itself. You will be responsible only for supplying ideas, which are the important part of the essay anyway.

Don’t let the thought of putting pen to paper daunt you.

Get started!

 

Copyright 1988, 1999 by Ronald B. Standler

Table of Contents

 
 
 
Quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Escrever é pensar e criar

Ana Amélia Erthal (e-mail) é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Mestranda em Comunicação Social pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Trabalhou para a Folha de São Paulo e para o Meio & Mensagem. Há sete anos “migrou” para a internet como webwriter e webdesigner.

Em grande parte, aprender a escrever é aprender a pensar, aprender a encontrar idéias e concatená-las, pois “assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou aprovisionou”, diz Othon Garcia. Escreve realmente mal aquele que não tem o que dizer porque não aprendeu a pôr em ordem seu pensamento, e como não tem o que dizer, nada lhe servem as regras gramaticais, nem mesmo o melhor vocabulário de que possa dispor.

Por mais que se conheça a Língua Portuguesa, sem a criação das idéias, a ortografia, a gramática e a sintaxe são apenas estruturas de palavras, que podem dizer nada. Mas onde e como encontrar as idéias? Como inventá-las, criá-las ou produzi-las?

A fonte principal de nossas idéias é a nossa experiência. Tudo aquilo que conhecemos e guardamos forma nossa base de entendimento e serve para nutrir nossa criatividade. Se você acha que a sua experiência não é suficiente, valha-se da experiência alheia através de conversa, de leitura e de convívio.

James Webb Young, um dos primeiros redatores de propaganda do mundo, em seu livro A Technique for Producing Ideas, definiu as etapas do processo criativo:

- Desejo: a pessoa deve, por qualquer razão, querer criar algo original. Isso é atitude de trabalho;

- Preparação: ou acumulação de dados, ou experiência, tornar o familiar estranho;

- Manipulação: juntar conceitos aparentemente não relacionados, ou tornar o estranho familiar;

- Incubação: depois da acumulação consciente de dados, a incubação é uma reação da mente. Einstein tocava violino como recurso para desviar a atenção do problema principal e provocar a incubação;

- Antecipação: é o sentimento de premonição, algo que nos diz que o problema está prestes a ser resolvido;

- Iluminação: a solução esperada;

- Verificação: a confirmação da viabilidade da solução.

Existem outras definições práticas dos estágios do processo criativo, mas todas são unânimes em afirmar que criatividade depende de disciplina, método e experiência, e que não se trata de um dom especial. Como o Einstein dizia, “A imaginação é mais importante que o conhecimento”, ou como Thomas Edison, “Gênio é composto de 1% de inspiração e 99% de transpiração”.

Você pode desenvolver sua criatividade se buscar continuamente a informação sobre tudo o que o cerca, se tiver sensibilidade para todas as coisas que acontecem a sua volta e curiosidade para descobrir o que está por trás dos fatos, dos objetos, das pessoas.

A Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, é conhecida por seus cursos de criatividade e sugere os seguintes itens para treinarmos nossa criatividade:

01. escreva pelo menos uma idéia por dia;

02. armazene as idéias;

03. observe e absorva: aproveite o que você observa;

04. desenvolva uma forte curiosidade sobre coisas, lugares ou pessoas;

05. compreenda primeiro, depois julgue;

06. mantenha o sinal verde da sua mente sempre aberto;

07. tenha uma atitude otimista e positiva;

08. pense todos os dias, escolha uma hora e um lugar para essa atividade;

09. associe idéias, combine-as, adapte-as, modifique-as, inverta-as;

10. coloque suas idéias em ação – uma idéia razoável colocada em ação é melhor que uma grande idéia arquivada.

“As mentes são como pára-quedas: só funcionam se estiverem abertas”, Ruth Noller, pesquisadora da Universidade de Buffalo.

Uma dica da vez

Senão: use ‘senão’ quando equivaler a ‘do contrário, caso contrário’, ou quando equivale a ‘mas, mas sim, mas também”.

Se não: use quando a expressão puder ser substituída por ‘ou, caso não ou quando não’

Up the Webwriters!

 

1. Introdução

     Escrever em / um fluxo de consciência é como instalar uma câmera na cabeça da personagem, retratando fielmente sua imaginação, seus pensamentos. Como o pensamento, a consciência não é ordenada, o texto-fluxo-de-consciência também não o é. Presente e passado, realidade e desejos, anseios e reminiscências, falas e ações se misturam na narrrativa num jorro desarticulado, descontínuo, numa sintaxe caótica, apresentando as reações íntimas da personagem fluindo diretamente da consciência, livres e expontâneas.

     É como se o autor "largasse" a personagem, deixando-a entregue a si mesma, às suas divagações, resultando um texto que lembra a associação livre de idéias, de feitio incoerente, desconexo, sem os nexos ou enlaces sintáticos de um texto "bem comportado".

     É como se fosse um depoimento, a expressão livre, desenfreada, desinibida, ininterrupta, difusa, alógica de pensamentos e emoções, muitas vezes de uma mente conturbada e atônita.

     No fluxo de consciência o pensamento simplesmente flui, pois a personagem não pensa de maneira ordenada, coerente, razão por que o texto se apresenta sem parágrafos, sem pontos, ininterrupto; numa palavra, caótica.

     Na literatura universal, os grandes mestres desta técnica são James Joyce ("Ulysses"), Virgínia Woolf ("Mrs. Dalloway" (filme: As Horas)) e William Faulkner ("O Som e a Fúria"; "As Lay Dying").

     Em nosso meio, entre tantos escritores, poderiam ser citados Antônio Callado ("Assunção de Salviano’), Autran Dourado ("A Barca dos Homens") e Clarice Lispector ("Perto do Coração Selvagem"; "A Hora da Estrela").

ESCREVER x ESCREVER

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:37 AM
A Arte de Escrever – Segundo Bárbara Tuchman
Autor:
Fernando Nogueira da Costa

Bárbara Tuchman é a historiadora de maior sucesso nos Estados Unidos, duas vezes agraciada com o Prêmio Pulitzer. Em seus textos e palestras, apresenta-nos lições sobre sua arte1. Vamos compilá-las, com propósito didático. Divulgar a arte de escrever é um dever do ofício de professor e orientador.

Escrever história de modo a encantar o leitor e a tornar um assunto tão cativante e emocionante para ele quanto para ela tem sido seu objetivo, desde o fracasso inicial com sua tese. Foi classificada como dotada de um “estilo medíocre”. Comentário dela sobre a tese: “tão bela – na intenção – e tão mal escrita”… o entusiasmo não tinha sido suficiente; era preciso saber também usar a língua. Visão, conhecimento e experiência não fazem um grande escritor, só com o domínio da língua que se tornará a voz dessas virtudes.

Antes de mais nada, a paixão pelo assunto é indispensável para se escrever bem. Mas não basta. Bárbara descobriu que se aprende a escrever, escrevendo. Descobriu que um elemento essencial para se escrever bem é um bom ouvido. Devemos ouvir o som de nossa prosa. Em sua opinião, as palavras curtas são sempre preferíveis às longas. Quanto menos sílabas, melhor! Os monossílabos… são os melhores de todos!

As palavras têm um poder autônomo, quase atemorizador, de produzir na mente do leitor uma imagem ou idéia que não estava na intenção do autor. O uso descuidado das palavras pode deixar uma falsa impressão que não se pretendia.

Para Bárbara, o problema está no fato de que a arte de escrever lhe interessa tanto quanto a arte da História. Ela vê a História como arte, não como ciência. Quando escreve, é seduzida pelo som das palavras e pela interação de som e sentido. As palavras constituem material sedutor e perigoso, a ser usado com cautela.

Pergunta-se: – “Sou, em primeiro lugar, escritora ou historiadora?” Ela mesmo responde: – “As duas funções não precisam estar, e de fato não devem estar, em guerra. A meta é a fusão. A longo prazo, o melhor escritor é o melhor historiador”.

A História é vista como literatura, em oposição à História como ciência. Sua exposição deve ser feita em todo o seu valor emocional e intelectual, a um amplo público, através da difícil arte da literatura. Note-se: “amplo público”! a ênfase deve sempre ser dada à escrita para o leitor comum, em contraposição à escrita apenas para os colegas eruditos. Quando escrevemos para um público amplo, temos de ser claros e interessantes. Esses são os critérios que determinam um bom texto.

O leitor é a pessoa que deve se ter sempre presente. Escrevamos nossos textos com um cartaz pregado acima de nossa mesa, perguntando: “Irá o leitor virar a página?”

O objetivo do autor é – ou deveria ser – manter a atenção do leitor. Querer que o leitor vire a página e continue a fazê-lo até o fim. Isso só acontece quando a narrativa avança com firmeza, e não quando entra num impasse, sobrecarregada de todos os detalhes descobertos na pesquisa, significativos ou não. Contra o texto tipo “rol de roupa”, o lema: “a exclusão de tudo que é redundante e de nada do que é significativo”!

O leitor é a outra metade essencial do autor. Entre eles há uma ligação indissolúvel. São necessários dois para cumprir a função da palavra escrita. Os escritos não nascem, não têm vida independente, enquanto não são lidos. Logo, primeiro é preciso prender o leitor.

Bárbara é, em primeiro lugar, uma escritora, cujo assunto é a história, e cujo objetivo é a comunicação. Tem sempre presente o leitor como um ouvinte cuja atenção deve ser mantida, para que não se vá embora.

Quem escreve tem várias obrigações com o leitor, se quiser conservá-lo. A primeira é destilar. Deve fazer o trabalho preliminar para o leitor: reunir as informações, dar-lhes sentido, selecionar o essencial, rejeitar o irrelevante – sobretudo rejeitar o irrelevante – e colocar o restante de modo a formar uma narrativa dramática que se desenvolve de modo a capturá-lo. Oferecer uma massa de fatos não digeridos é inútil para o leitor. Constitui simples preguiça do autor ou pedantismo para mostrar o quanto leu.

O produto final é resultado daquilo que se escolheu para incluir, bem como daquilo que preferiu deixar de lado. Colocar tudo, simplesmente, é fácil – e seguro – e resulta numa dessas obras de 900 páginas, nas quais o autor abdicou e deixou a leitor todo o trabalho.

Para eliminar o desnecessário, é preciso coragem e também mais trabalho. Pascal terminou uma carta de 4 páginas a um amigo dizendo: “desculpe-me tê-lo cansado com uma carta tão longa, mas não tinha tempo para escrever-lhe uma carta breve”.

O leigo em geral subestima a escrita e se impressiona demais com a pesquisa, como se essa fosse a parte difícil. Não é. Escrever, como um processo criativo, é muito mais difícil e leva duas vezes mais tempo.

O mais importante na pesquisa é saber quando parar. Devemos parar antes de ter acabado. Sem isso, nunca paramos e nunca acabamos.

Como copiar é um trabalho e um aborrecimento, o uso de cartões – quanto menores, melhor –, para anotações, força-nos a extrair o que é rigorosamente relevante, a destilar desde o começo. A seleção é que determina o produto final. Por isso, é melhor usar apenas material das fontes primárias. As fontes secundárias são úteis, mas perniciosas. Use-as como guias no início de um projeto. Mas não acabe simplesmente reescrevendo o livro de algum outro autor. Além disso, os fatos apresentados por uma fonte secundária já sofreram uma seleção prévia, de modo que, ao usá-los, perdemos a oportunidade de fazer nossa própria seleção.

A tarefa de reescrever o que já é conhecido não encerra atrativos para Bárbara. Não sente estímulo para escrever a menos que esteja aprendendo alguma coisa nova e contando ao leitor algo de novo, no conteúdo ou na forma.

A arte de escrever – a prova do artista – é resistir à atração de desvios fascinantes e apegar-se ao seu assunto. São necessárias, simplesmente, coragem e confiança para fazer escolhas e, acima de tudo, para deixar certas coisas de lado. O melhor quadro é aquele que mostra as partes da verdade que melhor produzem o efeito do todo.

Outro princípio, sugerido por Bárbara: não discutir as evidências, as fontes, as teorias, em frente ao leitor. Os processos de raciocínio do autor não cabem numa narrativa. Devemos resolver nossas dúvidas, examinar as provas conflitantes, determinar os motivos atrás das cortinas e discutir nossas fontes nas notas de referências, e não no texto. Entre outras coisas, isso mantém o autor invisível, e quanto menos a sua presença for sentida, maior é a sensação de proximidade que o leitor tem com os acontecimentos.

Não esqueçamos do aforismo: “ser academicista é acreditar que acúmulo é aprofundamento e que chatice é precisão”.

Ler, como escrever, é o maior dom com que o homem se dotou, por meio do qual podemos realizar viagens ilimitadas. Ler possui uma sedução interminável. Escrever, pelo contrário, é um trabalho pesado. É preciso sentar-se numa cadeira, pensar e transformar o pensamento em frases legíveis, atraentes, interessantes, que tenham sentido e que façam o leitor prosseguir. É trabalhoso, lento, por vezes penoso, por vezes uma agonia. Significa reorganizar, rever, acrescentar, cortar, reescrever. Mas provoca uma animação, quase um êxtase, um momento no Olimpo! Em suma, é um ato de criação!

O que o profissional artista tem é uma “visão extra” e uma “visão interior”, acrescida da capacidade de expressá-las.

Tal como a Bárbara vê, o processo criativo tem três partes. Primeira, a visão extra com a qual o artista percebe uma verdade e a transmite pela sugestão. Segunda, o meio de expressão: a língua para os escritores, a tinta, para os pintores, o barro ou a pedra para os escultores, o som expresso em notas musicais para os compositores. Terceira, plano ou estrutura.

A estrutura é, principalmente, um problema de seleção, uma tarefa angustiante, porque há sempre mais material do que se pode usar. Não se pode colocar tudo; o resultado seria uma massa informe. O trabalho consiste em encontrar uma linha narrativa sem se afastar dos fatos essenciais, ou sem deixar de fora qualquer fato essencial, e sem deformar o material para que sirva às nossas conveniências.

Quando se trata de linguagem, nada mais satisfatório do que escrever uma boa frase. É um prazer realizar, quando se pode, uma prosa clara e corrente, simples e ao mesmo tempo cheia de surpresas. Isso não acontece por acaso. Exige habilidade, trabalho árduo, um bom ouvido e prática constante. As metas, como já disse, são a clareza, o interesse e o prazer estético. Sobre a primeira, é importantíssima a arte de tornar o sentido claro!

A comunicação é, afinal de contas, o objetivo para o qual a linguagem foi inventada. Para ela, há um critério tríplice: a convicção do autor de que tem alguma coisa a dizer; que vale a pena ser dita, e que pode dizê-la melhor do que ninguém. Dizer não para poucos, mas para muitos. Juntamente com a compulsão de escrever, deve estar o desejo de ser lido. Nenhuma página se torna viva, a menos que o escritor veja, do outro lado de sua mesa, o leitor, e busque, constantemente, a palavra ou a frase que levará a ele a imagem desejada e despertará a emoção que deseja criar nele. Sem a consciência de um leitor vivo, o que o autor escreve morrerá em sua página.

De todos os instrumentos, a crença na grandeza de seu tema é o mais estimulante. É assim que o autor deve considerar seu assunto. Isso faz com que nenhum leitor possa deixar seu texto de lado. O entusiasmo, que não é exatamente a mesma coisa, tem um efeito não menos estimulante.

Por que escrever? Para cada escritor há uma razão diferente2. Busque a sua.

Fernando Nogueira da Costa, Professor Associado do IE-UNICAMP, 49. Coordenador da Área de Economia da FAPESP. Autor dos livros “Economia em 10 Lições” e “Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista”. Email:fercos@eco.unicamp.br.

1 – TUCHMAN, Bárbara W.. A Prática da História. Rio de Janeiro, José Olympio, 1991 (original de 1989).

2 – BRITO, José Domingos de (org.). Por que escrevo? São Paulo, Escrituras, 1999.

 
 
Escrever, Humildade, Técnica

Clarice Lispector

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de… de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade" refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.


Texto extraído do livro "
A Descoberta do Mundo", Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1999.

Clarice Lispector: tudo sobre a autora e sua obra em "Biografias".

O que passou está aqui!

Certo dia ouvi dizer, em uma aula de Introdução à Filosofia que houve um certo escritor grego que escrevia cerca de 500 linhas por dia. Ao final da vida, havia escrito cerca de 700 livros. Bem, quanto à qualidade de seus escritos, não ponho a mão no fogo mas, certamente, foi esta uma idéia interessante!

  

Agora o Escrever Por Escrever está em novo endereço: http://escreverporescrever.blogspot.com 

Segunda-feira, 13/6/2005
Como escrever bem – parte 1

Marcelo Maroldi

+ de 20000 Acessos
+ 14 Comentário(s)

Escrever bem não é uma das tarefas mais simples dessa vida, isso é fato, mas, de modo geral, escrever corretamente é algo acessível a todas as pessoas praticamente. Deixando de lado os fatores sociais e econômicos, escrever, pelo menos de maneira adequada, depende de uma série de fatores, que, normalmente, podem ser conseguidos individualmente, sem dependência de mestres ou incentivos de qualquer natureza. Evidentemente, a habilidade de combinar palavras, aliada a capacidade de inventar (ou narrar) histórias e descrever cenários interessantes são bastante pessoais, porém, podem ser desenvolvidas e treinadas. Felizmente, ninguém está fadado a escrever mal toda a vida…

Não pretendo fazer nenhuma espécie de manual de boa escrita ou de como se tornar um escritor, até mesmo porque não saberia como fazê-lo. Para isso, basta procurar na web que há inúmeros textos desse tipo, estilo manual de redação para vestibulandos (aliás, geralmente péssimos, pois, quase sempre não parecem considerar fatores fundamentais). Desejo, entretanto, explicar a minha visão de como evoluir no assunto e de como criarei meu filho para que aos 18 anos ele não precise ler manuais de como escrever bem para fazer a redação do vestibular, se ele quiser prestar, a propósito.

Antes de entrar nas Maroldicas, convém inicialmente oficializarmos a separação entre os tipos de escrita, afinal, escrever para um blog não é similar a escrever para o New York Times, assim como escrever para o saudoso Notícias Populares não é como escrever um livro. Pretendo abordar todos esses tipos de escrita, se possível, estendendo-o até as colunas futuras, se o editor desse Digestivo não me der o bilhete azul antes.

Como escrever bem, parte 1 – Antes de começar a escrever…

Nenhum humano nasce escrevendo, parece. Logo, deve existir algo que ocorre entre a saída do útero materno e o recebimento do Pulitzer. Bem, eu não sei o que é esse algo, mas posso chutar. Evidentemente, há casos extremos em que percebemos nitidamente que o escritor é um gênio, o que significa que o cérebro dele foi concebido para fazer aquilo – escrever – melhor do que as demais atividades (e, portanto, melhor que as demais pessoas). Esse tipo de escritor não me interessa pois é assunto da ciência, ele não é um cara qualquer. Interessa-me sim o escritor comum que escreve bem e que é igual a mim, e que deve ter sido “treinado” para isso. De modo geral – e já até demorei demais para falar isso – essas pessoas lêem muito. Diariamente. Incessantemente, às vezes. Na minha opinião, qualquer tipo de leitura treina o cérebro. Portanto, se você não se importar em treiná-lo apenas com vocabulário e linguagem web, leia apenas blogs. Se você não se importar em treiná-lo em frases triviais com apenas 3 ou 4 palavras, leia gibi. Mas, se você quiser um pouco de tudo isso, leia de tudo, mas privilegie as pessoas que escrevam bem, pois elas podem te ensinar mais sobre como escrever do que os que escrevem não adequadamente.

Está bem, está bem, eu disse o óbvio agora. Mas, então, porque as pessoas não fazem isso? Um dia conheci um rapaz que fazia jornalismo e tinha como ídolo literário nosso best-seller Paulo Coelho. Percebi que tinha algo errado, mas fiquei quieto, desconfiado, até receber um e-mail dele, contendo mais erros em 10 linhas do que todos os erros que Olavo Bilac escreveu na sua obra toda. Conversamos umas vezes depois… Ele ouvia os nomes e obras consagrados como se ouvisse pela primeira vez o grito de guerra da equipe iraquiana de hóquei sobre o gelo. Um dia, comentei: se você quer escrever bem, não pode ler mal…

O modo como se lê também é importante. Eu sei, ler é ler, certo? Errado. Não são todas as pessoas que lêem da mesma maneira… Ler como lazer não é como ler para aprender. Infelizmente. Seria muito mais fácil se cada vez que eu lesse um texto assimilasse tudo o que está nele, mesmo se naquele dia lia apenas para me distrair, enquanto o bebê confecciona uma sinfonia doce e meu time corria na TV ligada. Esse dia não devo ter prestado muita atenção porque até precisei voltar umas páginas atrás, depois, somente para descobrir o que tinha acontecido nelas… E, se eu quisesse ter aprendido mais, deveria ter analisado o texto, as frases, aprendido com as construções, o modo como ele descrevia a arma usada no crime, os adjetivos desconhecidos que ele atribuía ao assassino. E não fiz nada disso, só li. Eu me distraí, é verdade, mas foi só isso. Eu não tive uma aula de literatura na sala da minha casa naquele dia, ainda que o autor tivesse me mostrado exatamente como ele escrevia…

Bem, meu moleque já sabe que terá que ler, o que ler, quanto ler e até como ler. Agora é só esperar pelo sucesso, não? Não. Ele vai ter que escrever, escrever, escrever. Quando, aos 7, ele me trouxer uma poesia própria (que a mãe dele vai guardar, acredito), não vai ser tão boa quanto aquela que ele escrever aos 10. Nem a dos 15. Se ele parar para analisar, verá que tudo parece ser uma evolução na arte da escrita. Ele poderá ler todos os livros da biblioteca do rei Salomão, mas, se jamais escrever algo, minha editora terá que recusar seu primeiro conto, que estará fraco e imaturo. Daí, quando ele estiver revoltado comigo e ameaçar sair de casa, terei que explicar que o segundo geralmente sai melhor que o primeiro e assim por diante. É treino, meu filho. Você já aprendeu a ler, já o fez suficientemente, agora treine escrever suas próprias histórias e seus próprios personagens… Ele irá até me agradecer, anos depois dessa última aula, pois ele mesmo verá que o texto passa a fluir mais tranqüilamente quando já se escreveu dezenas deles pela vida. Você passa a arriscar mais, repete construções que lhe agradaram, insere vocabulário novo, sabe o que interessa ao leitor, sabe, enfim, escrever.

(Continua…)

Trainspotting – Irvine Welsh

Comecei a ler Trainspotting (Irvine Welsh, Editora Rocco, 2004) com alguma desconfiança, motivada, principalmente, pela descrição da contra-capa e algumas notas que havia lido anteriormente. Tinha ouvido falar do autor e da versão cinematográfica da obra, mas praticamente desconhecia o livro. Sentei para ler com a nítida impressão de que não me agradaria e terminei lamentando por ter apenas 350 páginas… Eu queria mais…

Não pode se dizer que temos uma história principal no livro. São dezenas de pequenas historinhas que montam o ambiente do livro, todas elas, sem exceção, com acontecimentos sobre a vida de um grupo de amigos(?) escoceses, a grande maioria dependentes químicos, alguns com passagens pela policia por roubo, alguns briguentos, muito sexo e, por isso tudo, muita lamúria e depressão, e um grupo de vidas perdidas…

Pode parecer um tema fácil e comum, mas, o livro não o é (nem fácil e nem comum). A começar pela linguagem, que acompanha os personagens, trazendo para o livro o modo particular de cada um falar, mas, diferente do que já vi, o autor não “força a barra” para parecer um deles (aliás, o autor sim é um deles, um ex-viciado). Cada personagem conta a sua vida. Embutidos nesses comentários, temos grandes reflexões sociais muito bem escondidas pelo autor nas palavras e atitudes dos “marginais”. Racismo, luta de classes e o que mais você quiser encontrar. A leitura pode, para alguns, parecer muito dura (porém, ela não vai parecer, ela realmente é). Alguns relatos são de nos fazer parar para respirar… aquele conjunto de palavras fortes, “sujas”, conduzindo o leitor para a montagem da cena às vezes assusta. E muito. Talvez por isso o livro cause tanto impacto em que o lê… Vale a pena.

Para ir além


Marcelo Maroldi
São Carlos, 13/6/2005

Mais Marcelo Maroldi
(clique aqui) Confissões de um jovem arrogante – 25/1/2007 Os gastos da família brasileira com cultura – 7/12/2006 Uma nota sobre a leveza do ser – 9/11/2006 Recomeço – 7/9/2006 A terra das oportunidades – 10/8/2006 Receita para se esquecer um grande amor – 3/8/2006 Mentiras diplomáticas 1: a Copa do Mundo é nossa – 29/6/2006 Novos escritores? Onde? – 25/5/2006 Os meus conflitos – 4/5/2006 Dos amores possíveis – 20/3/2006 A educação atual de nossas crianças – 27/2/2006 Orkut way of life – 13/2/2006 A crise dos 28 – 30/1/2006 10 razões para esquecer 2005 – 16/1/2006 Lost – 26/12/2005 A ousadia de mudar de profissão – 28/11/2005 Como parecer culto – 14/11/2005 Hoje é dia de Maria – 17/10/2005 A vida, os escândalos e a vida sem escândalos – 3/10/2005 A novela América e o sensacionalismo de Oprah – 19/9/2005 Dos livros que li – 5/9/2005 O que é ser jornalista? – 22/8/2005 O computador de antigamente – 8/8/2005 Televisão versus Internet: a disputa desnecessária – 25/7/2005 Como escrever bem – parte 3 – 11/7/2005 Como escrever bem – parte 2 – 27/6/2005 Como escrever bem – parte 1 – 13/6/2005 A reforma agrária das idéias: os blogs – 30/5/2005 Nós, os escritores derrotados – 16/5/2005 A fantástica volta (blogueira) ao mundo – 8/4/2005 Zicartola – 21/3/2005 Clássicos? Serve Fla x Flu? – 2/3/2005 Política de incentivo à leitura – 27/1/2005 Los Hermanos – 4/1/2005 Risco, o filme – 16/12/2004 Por que se lê e por que se escreve? – 29/11/2004 Mais Acessadas de Marcelo Maroldi em 2005
01. Como escrever bem – parte 1 – 13/6/2005
02. Como escrever bem – parte 3 – 11/7/2005
03. Como escrever bem – parte 2 – 27/6/2005
04. A novela América e o sensacionalismo de Oprah – 19/9/2005
05. Lost – 26/12/2005
Mais Colunas Recentes
(clique aqui) "Leituras, leitores e livros – Final" por Ana Elisa Ribeiro … "Sob as calmas águas do Lago Ness" por Adriana Carvalho – 29… "TV Infinita" por Rafael Fernandes – 28/3/2007 "Sexo, drogas e rock’n’roll" por Marcelo Spalding – 27/3/200… "Auster no scriptorium" por Jonas Lopes – 26/3/2007 "O homem visto do alto" por Guilherme Conte – 23/3/2007 "Esses romanos são loucos!" por Adriana Carvalho – 22/3/2007 "Scott Henderson, guitarrista fora-de-série" por Rafael Fern… "A literatura, a internet e um papo com Alex Castro" por Lui… "A Letras, como ela é?" por Verônica Mambrini – 19/3/2007 "Leituras, leitores e livros – Parte III" por Ana Elisa Ribe… "A Marie Antoinette de Sofia Coppola" por David Donato – 15/… "Xampu" por Guga Schultze – 14/3/2007 "Qual é, afinal, a melhor idade?" por Marcelo Spalding – 13/… "O Oscar e a reencarnação" por Marcelo Miranda – 12/3/2007 "Uma década no rastro de Paulo Francis" por Julio Daio Borge… "O homem que não gostava de beijos" por Rafael Rodrigues – 9… "Mais um texto sobre Francis" por Edward Bloom – 8/3/2007 "Orwell na pior em Paris e Londres" por Gian Danton – 8/3/20… "Paulo Francis não morreu" por Tais Laporta – 7/3/2007 (mais ainda)

* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/6/2005
10h50min
160.39.240.184
Seu texto me recorda de uma reportagem do NYT, onde um professor comenta que as aulas de redação na escola e na universidade estão cada vez mais focadas no conteúdo do que está sendo escrito, ao invés da técnica de como escrever em bom português, como construir frases e parágrafos e o famoso diálogo com o leitor. Lembro da minha própria experiência com aulas de redação, quando sabia exatamente o que escrever para agradar a professora, e como já não gostava da aula, fiz isso e deixei de aperfeiçoar a técnica de escrever. Vim a fazer isso mais tarde, sozinho, e acho que hoje escrevo o suficiente para me expressar com clareza. A quantidade de pessoas que não escrevem com clareza em engenharia, que superficialmente não tem nada a ver com escrever, é muito grande. Por causa de textos mal escritos vários erros desnecessários são cometidos nos projetos, levando a atrasos de meses. Uma vez quando comentei com alguns de meus colegas que todo engenheiro deveria saber escrever minimamente bem, muitos retrucaram que "isso era coisa de quem não entende de engenharia". Lendo livros e artigos de vários cientistas e engenheiros famosos descobri que não só escrevem bem, como sabem da importância de se escrever bem… Só como uma observação, descobri também que o mesmo vale para quem escreve programas de computador. É bem parecido com escrever bem em português, a pessoa tem que aprimorar a técnica, ler "textos" de outras pessoas que escrevem bem, e se esforçar… E hoje em dia, muitos programas são mal escritos, e telas azuis, bugs, e outros desastres passam desapercebidos porque ninguém entende o que o cidadão fez no programa. Tudo porque as pessoas preferem ignorar técnica e estilo, e acham que sempre se trata de conteúdo… Quem escreve bem, é capaz de convencer um cidadão de quase qualquer coisa.
13/6/2005
13h21min
200.164.50.147
Válido um artigo sobre como escrever bem – porque, como outras atividades que todo mundo pensa que sabe, é subestimada. Se as pessoas soubessem realmente escrever, como seria possível haver tantos maus escritores? (Subescritores, eu diria). Aguardo a segunda parte.
28/6/2005
15h16min
200.216.216.196
gostei do artigo e me mostrou como eu escrevo mal, mas para melhorar tenho que treinar apenas, e ler mais entre outras coisas, mas eu ouvi falar que quem gosta de computador tem uma pequena afinidade com a escrita (principalmente os hackers), mas pulando isso, agora vejo como eu tenho que melhorar, o que atualmente caras tipo eu (16 anos no 3ºano) não estão se importando com ser o melhor ou mesmo estar entre eles, o que parece estar levando ao retardo o desenvolvimento do país, se o simples fato de quer aprender algo (no caso, escrever melhor) e tentar ser o melhor, seria do suficiente para os estudante de hoje levarem o país ao topo.
4/7/2005
02h05min
200.227.194.171
Quase sempre considero que escrevo mal. Seu texto, delicioso, reforçou minha auto-avaliação. Benevolente, penso que hoje escrevo menos mal que ontem. Resta então resistir ao prazer da leitura como forma de lazer, e passar à rigidez do estudo, da análise, da desconstrução dos textos. Que alento. Trabalho, sem dúvida, mas recompensas futuras acenam. Obrigada. Vou agora ler (meticulosamente) a segunda parte de seu texto…
10/7/2005
17h28min
200.150.19.146
Quando eu estava no colegial, prestes a fazer o vestibular, eu escrevia mais ou menos bem, tirava boas notas e conseguia alguns elegios da professora… Tudo era lindo… Fiz vestibular, fui muito bem em redação, mas fato é que, depois que eu entrei na faculdade, eu fiquei mais burra… Não escrevo mais como antes, aliás, tenho até muita dificuldade para escrever. E por que isso ocorreu? Porque eu não tenho mais incentivo algum. Vez ou outra faço resenhas de textos chatos e monótonos e extremamente técnicos. Escrevo muito menos do que escrevia quando tinha que fazer pelo menos três redações por semana no colegial. Por isso, nessas férias, comecei a ler mais, mesmo que seja só revistas de arquitetura (que, aliás, dizem respeito ao meu curso) e voltei a comprar jornais. E eu juro que vou escrever mais e vou ler mais ainda, muito obrigada pelo seu texto, pois eu pude ver que eu não sou um caso perdido…
4/4/2006
14h25min
200.216.119.18
eu tenho muita facilidade em escrever, mas eu preciso de um incentivo, quando eu estou apaixonado, fica mais fácil, quando eu não estou, eu fico bêbado, é quase a mesma coisa, a gente fica besta, rindo à toa, e tudo pra gente é maravilhoso, experimenta…
16/7/2006
19h54min
201.19.87.115
Sinto uma vontade imensa de escrever, falta-me coragem e determinação. Convenci-me de que devo seguir os conselhos do autor…
31/7/2006
11h15min
201.24.41.236
Sou jovem e me considero um escritor razoável. Talvez seja os três anos que eu tenho de participação em fóruns espalhados pela internet. Talvez pelo meu interesse em leitura. O fato é que só escreve bem aquele que ler bem. Isso eu aprendi na vida; dezesseis anos de vida, e eu posando de intelectual. Oh, céus. x)
17/8/2006
20h26min
200.206.220.208
Aprecio uma boa leitura e, decorrente disto, vem uma boa escrita. Com certeza tem fundamento seu comentário, e que possa servir de estímulo para mais os jovens.
25/12/2006
18h09min
200.195.127.76
Parabéns, Marcelo, por tudo que você escreve. Tenho 64 anos e quero começar a escrever. Estou me espelhando em você. Um abraço.
3/1/2007
14h42min
201.35.134.65
Pois… Escrevo mal pra chuchu, porque para seres humanos eu escrevo pessimamente. Pior é que leio bem e escrevo mal. Aprender a escrever é uma arte, não é para qualquer um, não! Existem pessoas inteligentíssimas que não conseguem escrever uma linha, outras, porém, mesmo com uma vida vazia, fazem sucesso com seus escritos. Então, querido Marcelo, como você me explica estes acontecimentos?? Parabéns pelo seu texto. Ah! Não existe uma formula mágica que ensina você a ter ótimos textos?? Brincadeirinha.
19/1/2007
19h24min
200.233.180.203
Como queria poder escrever bem. Ando tentando escrever, tirar algo da mente, construir coisas novas, mas pelo mundo em que vivemos, pelo estilo de vida que temos que levar, correria, problemas, às vezes fica difícil parar para pensar, para ler, ando tentando buscar novas leituras. Já fui um leitor assíduo, mas parece que minha mente quer ser rápida, ler tudo de uma vez sem analisar, sem parar para entender, para viajar no tema. Queria ter tempo.
28/2/2007
21h13min
189.6.11.197
Querido Marcelo, achei interessante e relevante o seu texto. O trauma que passamos na escola nos deixa com seqüelas, muitas vezes sem volta. A forma como as crianças e adolescentes aprendem a pensar e a escrever precisa ser revista. Grandes leitores com certeza têm maiores chances de escrever bem. Isso deveria começar desde pequeno, assim todos tomariam gosto pela leitura e conseqüentemente escreveriam melhor. Gosto e aprecio bons livros e um dos meus sonhos, espero poder realizar em breve, é lançar o meu primeiro livro. Nos últimos meses aprendi a apreciar diversos tipos de contos. Comecei a praticar e já tenho alguns contos escritos. O engraçado é que tomei gosto pela coisa e minha mente não pára mais de criar . Quero aprimorar a cada dia e escrever, além de contos, outras histórias. Daqui pra frente não vou parar mais. Só aprendemos a escrever se praticamos. Um grande abraço. Eliane
29/3/2007
08h57min
200.217.163.55
É sempre bom compartilhar idéias novas com outras pessoas, aumentando assim os conhecimentos básicos e úteis.

25 de março de 2007

POLÍTICA COMERCIAL – Defesa Comercial

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:17 AM
Defesa comercial (FSP, 25-03-3007)

FRANCISCO DORNELLES

O PAÍS está sendo inundado por produtos que aqui chegam com preços inferiores aos praticados no mercado de origem ou com grande carga de subsídios. Essas práticas desleais de comércio causam sérios danos à produção nacional e estão praticamente destruindo importantes setores de nossa indústria.
As medidas antidumping que anulam práticas desleais adotadas por empresas visando a conquista do mercado internacional, os direitos compensatórios que procuram anular os efeitos dos subsídios concedidos por países aos seus exportadores, as medidas de salvaguarda que defendem o mercado interno contra o aumento abusivo da importação de determinados produtos são institutos próprios do comércio internacional em um mundo de economia aberta e cada vez mais globalizado.
Países apontados como baluartes do liberalismo econômico, como é o caso dos Estados Unidos e dos países da União Européia, não hesitam em aplicar essas medidas na defesa de seus interesses comerciais.
Os EUA, por meio da Comissão de Comércio Internacional e do Departamento de Comércio, têm aplicado uma série de medidas protecionistas às exportações brasileiras. Aplicam também, com freqüência, direitos provisórios para impedir que o tempo do processo cause dano irreparável à empresa domiciliada naquele país autora da demanda protecionista.
A referida comissão, constituída por especialistas em comércio internacional, com mandato fixo, determina o dano ou ameaça de dano à empresa ou indústria nacional. O Departamento de Comércio examina a existência e determina a margem de dumping ou o montante de subsídios.
O Brasil levou algum tempo para criar mecanismos de defesa comercial e muito oscilou na aplicação das medidas. Mas o sistema de defesa comercial do Brasil está razoavelmente organizado. Integra a estrutura do Ministério do Desenvolvimento e conta com técnicos da mais elevada competência e honorabilidade.
Porém atua com lentidão, sendo extremamente hesitante em relação à aplicação dos direitos provisórios.
Sofre também a influência da presença de representantes de outros ministérios, que integram o colegiado de defesa comercial e examinam as pendências comerciais olhando mais para as políticas das pastas que representam e menos para os princípios que regem o comércio internacional.
A última palavra sobre impor ou não direitos compensatórios, medidas de salvaguarda ou antidumping no Brasil cabe a dois colegiados constituídos por representantes de diversos ministérios.
O Sistema de Defesa Comercial do Brasil de hoje lembra muito o que ocorria no campo tributário há 50 anos. Caso um auditor fiscal autuasse um contribuinte, este podia apresentar um recurso que chegava até ao ministro da Fazenda, que levava, às vezes, anos para decidir. Hoje, os conselhos de contribuintes e as câmaras de recursos fiscais constituídas por técnicos do Ministério da Fazenda e representantes dos contribuintes julgam todas as pendências tributárias com base exclusivamente na legislação em vigor e sem nenhuma interferência do ministro da pasta.
O crescimento do nosso comércio internacional e o acirramento das práticas desleais de comércio que ameaçam os produtores brasileiros requerem um sistema de defesa comercial com mais agilidade.
Um órgão, semelhante à Comissão de Comércio Internacional dos EUA ou, pelo menos, ao Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, integrado por especialistas em legislação comercial e com mandato fixo, deve ser urgentemente constituído, substituindo os atuais dois colegiados, compostos por representantes de diversos ministérios, que julgam as pendências comerciais com base na política de seus ministérios, causando, com freqüência, enormes perdas ao setor privado do país.
Devem ser também adotados procedimentos semelhantes aos existentes nos países de maior desenvolvimento para a imposição de direitos compensatórios ou medidas antidumping provisórios, a fim de permitir que uma empresa brasileira atingida pelas práticas desleais de comércio possa resistir ao tempo de duração do processo de investigação.
Estou enviando à representação de empregadores e empregados, a especialistas em comércio exterior, bem como a órgãos do governo federal, minuta de projeto de lei instituindo o Conselho de Defesa Comercial, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, visando agilizar os procedimentos de defesa comercial.


FRANCISCO OSWALDO NEVES DORNELLES , 72, advogado, doutor em direito financeiro pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é senador da República pelo PP-RJ e vice-presidente nacional de seu partido. Foi ministro da Fazenda (1985), da Indústria, Comércio e Turismo (1996-1998) e do Trabalho e Emprego (1999-2002).

LANÇAMENTOS LIVROS

Filed under: Ciência — Porfiro @ 9:47 AM
/Movimentos Internacionais de Capital
144 págs., R$ 27; de Charles P. Kindleberger. Tradução de Maria Mello de Malta. Ed. Record (r. Argentina, 171, CEP 20921-380, RJ, tel. 0/xx/21/2585-2000).
Membro da equipe que elaborou o Plano Marshall no pós-guerra, o economista americano (1910-2002) apresenta sua análise sobre movimentos de capital e desregulamentação financeira.
Newton: textos, antecedentes e comentários  (contraponto)
Richard Westfall e Bernard Cohen (orgs.)
524 páginas | R$ 55,00

Os principais textos de Isaac Newton sobre filosofia, alquimia, teologia, óptica, matemática e mecânica, comentados por Einstein, Koyré, Keynes e outros.
Outros títulos de interesse
A ciência particular de Louis Pasteur, Gerald Geison
A parte e o todo, Werner Heisenberg
Física atômica e conhecimento humano, Niels Bohr
A história química de uma vela e As forças da matéria, Michael Faraday
Einstein e a religião: física e teologia, Max Jammer

 

Revista USP
208 págs., R$ 16
Revista USP (av. Prof. Luciano Gualberto, travessa J, 374, salas 301 a 304, edifício da Antiga Reitoria, CEP 05508-900, SP, tel. 0/ xx/11/3091-4438).
O nø 71 da publicação traz dossiê sobre a terra, incluindo artigo da professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP Leila Soares Marques. A revista contém ainda ensaio da cientista política Isabel Lustosa sobre aspectos da obra de Thomas Mann, entre outros textos.

Mercosul 15 Anos
304 págs., R$ 40
Rubens A. Barbosa (org.). Fundação Memorial/Imprensa Oficial do Estado de SP (r. da Mooca, 1.921, CEP 03103-902, SP, tel. 0/xx/11/ 6099-9800).
Compilação de textos que resultam de seminário ocorrido em 2006 em comemoração aos 15 anos de assinatura do Tratado de Assunção, que institucionalizou o bloco econômico.

Rumo à Ecossocioeconomia
472 págs., R$ 57
de Ignacy Sachs. Ed. Cortez (r. Bartira, 317, CEP 05009-000, SP, tel. 0/xx/11/3864-0111).
Seleção de artigos do economista francês. O livro mostra a evolução no pensamento do especialista em desenvolvimento sustentável, envolvido nos debates sobre o assunto desde a Conferência de Estocolmo (72).

HANNAH ARENDT

Filed under: Teoria — Porfiro @ 9:44 AM
+ Livros – folha – 15-04-2007  –  MAIS!

Hannah e sua biógrafa

A francesa Laure Adler faz excelente análise da vida da autora de "Eichmann em Jerusalém", que também é objeto de 2 estudos no BrasilHannah e sua biógrafa

NEWTON BIGNOTTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A safra atual de publicações sobre Hannah Arendt no Brasil mostra como suas obras passaram a ocupar um lugar de destaque no interior das ciências sociais e da filosofia nacionais. Até o início dos anos 1980, ela era praticamente desconhecida entre nós.
Além dos trabalhos pioneiros de Celso Lafer e dos seminários e escritos de Eduardo Jardim, as referências à pensadora eram escassas e pouco informadas.
Esse quadro, aliás, se repetia na França e em outros países, que até então não haviam dado o devido valor ao conjunto de suas obras.
O livro de Adriano Correia é uma amostra de como a filosofia de Arendt se converteu em objeto de interesse para além das fronteiras dos especialistas.
Correia é autor de uma tese de doutorado sobre a filósofa e se dedicou, em seu pequeno livro, a apresentar a trajetória intelectual da pensadora judia desde sua tese sobre santo Agostinho até seu último livro.
A estratégia adotada pelo autor tem o mérito de guiar o leitor ao longo de uma vida marcada por seu tempo e em permanente diálogo com seus problemas e transformações.
Como se trata, no entanto, de uma obra de introdução, algumas vezes as exposições são por demais sumárias, o que não nos permite apreender toda a complexidade da "démarche" de Arendt. Essa limitação, imposta pela natureza da coleção na qual o livro foi publicado, é compensada pela clareza do texto e pelo domínio conceitual do autor.
O trabalho de Eugênia Sales Wagner é uma demonstração do vigor da produção brasileira atual sobre o pensamento arendtiano. Originariamente uma tese de doutorado, o livro é tecido em torno das idéias do amor e da liberdade, o que o leitor não descobre de imediato dado o título por demais genérico escolhido. Mas o livro não se resume a uma exposição burocrática dos conceitos, longe disso.
Escrito de forma clara e agradável, ele se propõe demonstrar uma tese ousada, que só se revela em toda sua extensão no último capítulo.
Em primeiro lugar, a autora toma o conceito de amor, presente na tese de doutorado de Arendt, como fio condutor de sua exposição. No lugar da tipologia de origem agostiniana, a autora fala de amor da sabedoria, do próximo, da liberdade, da vontade e do mundo.
Esse movimento vai levá-la a concluir que, mesmo não sendo visível em todas as etapas do percurso da autora, o amor deve ser compreendido como o fio da trama conceitual da obra arendtiana. Sua essência só se revela inteiramente quando é reconhecido como a finalidade última da ação humana e se transforma em amor ao mundo.
Eugênia Wagner corre riscos ao tentar, na parte final do livro, deduzir o que seria a filosofia de Arendt sobre a faculdade de julgar a partir apenas de fragmentos. Embora esse passo não destrua a coerência da argumentação, é sempre complicado dizer, no lugar do autor, como teria terminado sua obra.

Tarefa delicada
De natureza muito diversa é o livro de Laure Adler. Diretora por alguns anos da prestigiosa Radio France Culture, ela é autora de uma biografia da escritora Marguerite Duras ["Marguerite Duras", inédito no Brasil].
Dessa vez enfrentou uma tarefa delicada ao propor uma nova biografia de Arendt, pois tinha diante de si o trabalho de Elisabeth Young-Bruehl, referência entre os especialistas.
Adler, que se serviu bastante dos trabalhos da antecessora, acrescentou um bom número de testemunhos e fontes, até aqui inéditos, o que por si só já seria um trabalho meritório.
Mas ela foi capaz de ir mais longe ao propor uma leitura da vida e da obra de Arendt na qual se misturam paixão e identificação com a filósofa, com a busca de uma posição equilibrada e lúcida, que leva a biógrafa a apontar os traços arrogantes da personalidade da filósofa e suas contradições ao mesmo tempo em que esclarece as condições difíceis que presidiram o nascimento de sua obra.

Caso de amor
Embora o objetivo não seja apresentar ou resumir os trabalhos mais importantes de Arendt, a análise dos principais argumentos e do contexto no qual nasceram certamente ajudam em sua compreensão.
Esse impulso de compreender a vida da filósofa a partir da mistura entre acontecimentos históricos e fatos pessoais se mostra inteiro quando Adler examina a relação de Arendt com Heidegger, a quem dedica muito espaço no livro.
Sem se deixar levar por conjecturas, a biógrafa tenta mergulhar nos meandros de um caso de amor que reuniu dois dos maiores pensadores do século 20, separados, no cenário político, por posições inconciliáveis.
O enigma desse encontro é vasculhado à luz de uma documentação que, ao mostrar de forma inconteste o pertencimento de Heidegger ao Partido Nazista até 1945 e a incapacidade de refletir sobre as conseqüências de seu engajamento pós-1945, só aguça a curiosidade sobre a trajetória de dois seres cuja relação ultrapassou fronteiras quase intransponíveis.
Mas Adler não cede à tentação do sensacionalismo nem da facilidade. Não enuncia teses sem comprovação ao mesmo tempo em que não deixa de manifestar sua antipatia pelo filósofo alemão e sua perplexidade diante do comportamento de Arendt em algumas ocasiões.
Não se trata de julgar o comportamento dos personagens do livro, mas a biógrafa também não se esconde por trás de uma máscara de neutralidade. Mesclando ironia, compaixão e admiração, Adler produz um mosaico cativante de uma vida que se misturou inteiramente com seu tempo.
O resultado é não apenas uma biografia rica e nuançada de Arendt mas um passeio vivo e bem informado pelo cenário intelectual do século 20.


Nos Passos de Hannah Arendt
Autora: Laure Adler
Tradução: Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques
Editora: Record
(tel. 0/xx/21/2585-2000)
Quanto: R$ 75 (644 págs.)

Hannah Arendt – Ética Política
Autora: Eugênia Sales Wagner
Editora: Ateliê
(tel. 0/xx/11/ 4612-9666)
Quanto: R$ 42 (320 págs.)

Hannah Arendt
Autor: Adriano Correia
Editora: Jorge Zahar
(tel. 0/xx/21/2240-0226)
Quanto: R$ 19,90 (84 págs.)

NEWTON BIGNOTTO leciona filosofia política na Universidade Federal de Minas Gerais.

Pensadora investigou a "banalidade do mal"

DA REDAÇÃO

Pensadora americana de origem alemã, Hannah Arendt (1906-75) foi grande estudiosa dos governos totalitários.
Entre suas obras mais conhecidas estão "Origens do Totalitarismo", que trata histórica e filosoficamente da construção dos sistemas políticos e do controle das massas, e "Eichmann em Jerusalém" (ambos pela Cia. das Letras), reunião de artigos que escreveu para a "New Yorker".
Este último, sobre o julgamento do oficial nazista responsável por organizar o envio de judeus a campos de concentração, é um estudo seminal sobre o nazismo.

 
 

Uma das mais importantes pensadoras políticas do século 20 é tema de biografia

Ubiratan Brasil

Descobrir toda a complexidade de Hannah Arendt – a meta da escritora francesa Laure Adler, ao iniciar a pesquisa sobre a vida e obra de uma das mais importantes pensadoras da política do século passado, era estimulante. Autora de uma biografia de Marguerite Duras, Laure não buscava apenas o retrato da intelectual, da filósofa, da escritora, mas principalmente desvendar a mulher que conhecia o sofrimento, a mulher obrigada a procurar seu lugar, tanto intelectual como físico, entre a língua alemã e a cultura judaica, entre uma paixão proibida (pelo filósofo Heidegger) e a rotina de esposa, entre o amor pela filosofia e o gosto pela política.

Hannah acreditava ter vindo ao mundo para cumprir uma sina. ‘Em nome de suas próprias idéias, ela escolheu, durante 60 anos, questionar-se sobre o que produz o mal, sobre o que vai mal: as violências políticas, os totalitarismos, o conflito israelense-palestino, o crescimento incessante da sociedade de consumo, o aumento do número de refugiados no mundo, a redução do espaço público, a degradação de nossas liberdades’, comenta Laure, que não só se debruçou sobra a obra de Hannah Arendt (1906-1975) como visitou os lugares onde ela viveu, pesquisa que resultou no livro Nos Passos de Hannah Arendt (644 páginas, R$ 75), que a editora Record pretende lançar na sexta-feira.

Trata-se de um relato sobre os anos de formação da pensadora, marcados pelo contato com dois mestres (Martin Heidegger e Karl Jaspers), além da construção de sua obra, caracterizada pelo esforço de explicar os acontecimentos políticos de sua época, especialmente o aparecimento dos regimes totalitários. ‘Ela sempre confessou suas incertezas, assumiu sua violência – pronta para ser insultada – e reivindicou seu lugar de pessoa politicamente incorreta, sabendo que pagaria caro por isso.’

Laure visitou lugares onde Hannah viveu e, graças à confiança de Jerome Kohn, herdeiro testamentário da filósofa, teve acesso à sua correspondência inédita e numerosos trabalhos. Descobriu, assim, uma mulher para quem a filosofia não era saber tudo, mas saber de si mesmo como princípio de acesso à liberdade. ‘Seu talento mais evidente era a atividade do espírito’, comenta Laure, em conversa com o Estado por e-mail.

Teórica política do momento pós-totalitário, Hannah exibia capacidades intelectuais que a impediam de desfrutar a existência. Para ela, pensar era um dom. Era como se um raio lhe caísse na cabeça, na visão de Laure. ‘Ela se alongava, inclinava a cabeça para trás, abria os olhos, mirava o teto e colocava os braços embaixo da cabeça. Isso podia acontecer-lhe em qualquer lugar. Seus amigos sabiam. E se retiravam na ponta dos pés para não atrapalhá-la.’  TEM MAIS DOIS na seq.. (O ESTADO SP, 25-03-2007)

 

ELIO GASPARI
São Paulo, domingo, 15 de abril de 2007Folha de São Paulo
Saiu a melhor biografia de Hannah Arendt


Nunca o episódio de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann foi tão bem contado. O tédio lhe fez mal


ESTÁ NA PRAÇA um grande livro com a vida de uma mulher fenomenal num século de tragédias. É "Nos Passos de Hannah Arendt", de Laure Adler. Formada na elite da academia alemã dos anos 20, Arendt tornou-se uma refugiada judia em 1933, viveu na França, fugiu para Lisboa e foi para os Estados Unidos em 1941. Tinha 35 anos. Lia os clássicos enquanto vivia numa dieta de grão de bico e repolho. Em Nova York, tornou-se uma das maiores pensadoras do século 20. Era judia e anti-sionista, encantava um pedaço da esquerda e expunha o totalitarismo soviético. Sua obra é uma busca de explicações para as malvadezas humanas. (No Brasil, onde seus livros circulavam livremente, era freguesa da censura à imprensa dos anos 70.)
Adler, que trabalhou com o presidente francês François Mitterrand, mostra a alma de uma geração. A generosidade de Raymond Aron e a militância nazista, escrachada e oportunista do filósofo Martin Heidegger (paixão de Arendt). O livro modula suavemente discussões filosóficas. A excelente tradução de Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques assegura uma leitura sem obstáculos.
Hannah Arendt mudou o curso de sua vida em 1961, quando propôs à revista "New Yorker" que a mandasse a Jerusalém para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, o supervisor das deportações do Holocausto. Ele fora seqüestrado por agentes israelenses em Buenos Aires. Numa série de cinco artigos que viraram livro (com algumas alterações), ela criou uma expressão universal: "a banalidade do mal". Arendt evitou a armadilha que explicava tudo a partir da construção de um monstro: "Era difícil não desconfiar que fosse um palhaço". Além disso, foi fundo na condenação das lideranças de sua comunidade na Europa: "Para um judeu, o papel desempenhado pelos líderes judeus na destruição de seu próprio povo é, sem dúvida alguma, o capítulo mais sombrio de toda uma história de sombras".
Nunca esse pedaço da vida de Hannah Arendt foi tão bem contado. A narrativa de Adler mostra que ela foi influenciada pelo tédio que ronda os repórteres em longas coberturas. Aborreceu-se com a cidade, não teve paciência com as testemunhas, irritou-se com a gramática do promotor e largou o tribunal no meio do julgamento.
O debate provocado por "Eichmann em Jerusalém" dividiu a intelectualidade de esquerda de Nova York e apressou a migração de parte dela para a direita. Criticaram-na por ter pegado leve no réu e pesado nas vítimas.
Adler foi além dos papéis de Arendt e, em seis páginas, mexe num caso que dará tristeza ao professor Celso Lafer, aluno e devoto da pensadora. No livro, Arendt louva uma obra monumental, publicada em 1961 pelo professor Raul Hilberg, da Universidade do Vermont. Chama-se "A Destruição dos Judeus da Europa" e discute o comportamento das lideranças judaicas européias. O livro havia sido rejeitado pela Universidade Princeton e pelo Instituto Yad Vashem. Adler entrevistou Hilberg. Ele avisara: "O que vou lhe dizer de Hannah não é agradável. Você quer realmente saber?"
O professor mostrou-lhe uma carta. Em 1960, Hannah Arendt desaconselhara a publicação do trabalho pela editora de Princeton. Sustentara que era obra inútil, sobre um assunto esgotado. Hilberg já se referira ao lance em 1994, mas discutiu melhor o assunto na conversa com Adler. Arendt rejeitara o livro em 1960 e, depois que ele foi publicado, usou-o (11 citações na versão ampliada de "Eichmann em Jerusalém"), fazendo de conta que nada acontecera.
Um episódio ilustra o racionalidade e o esnobismo de Hannah Arendt. Em março de 1962, ela sofreu um acidente de trânsito no Central Park. Retiraram-na de um táxi com a cabeça ferida, seis costelas e um pulso quebrados. Enquanto esperava a ambulância, mexeu-se e concluiu que não estava paralítica. Em seguida, recitou poemas em grego e lembrou os números dos telefones de alguns amigos. O sistema continuava rodando. Fechou os olhos e aguardou o socorro em paz.

24 de março de 2007

FMI PAC, Cont. do outro Blog + Economia Brasileira (Política) + FMI

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 2:22 AM

 

Alexandre Schwartsman: O choque é nosso (11jul2007 – meta denovo)

José Alexandre Scheinkman: A meta dupla de inflação para 2009 (01jul2007)

Alexandre Schwartsman: A meta e o Coelhinho da Páscoa – 27jun2007

O Conselho Monetário Nacional deve rduzir a meta de inflação para 2009? – 23jun2007

Fernando Cardim De Carvalho: Muito barulho por pouca coisa – Não

Paulo Tenani: Redução não traz riscos ao crescimento – Sim

 

JUROS X SEGURIDADE SOCIAL

‘Fundamental’ para política econômica, DRU desfalca área social – Carta maior – 08-05-2007

Paulo Nogueira Batista Jr.: Idéias econômicas (idéia de reduzir tarifas para valorizar o câmbio x acordos com Mercosul e negociações na OMC, 24-05-2007)

Comando da economia não tem mais PUC do Rio 21-05-2007)

Luiz Carlos Bresser-Pereira: Refundar a nação (21-05-07)

Marcos Antonio Cintra: Banquete especulativo (20-05-2007)

Para Mantega, país vive círculo virtuoso (entrevista, 20-05-2007)

Para Bresser, Brasil está em ciclo vicioso (entrevista, 20-05-2007)

Paulo Safady Simão: Os benefícios do real forte  (19-05-2007)

O Banco Central deve continuar intervindo para conter a queda do dólar?

NÃO – Carlos Eduardo Soares Gonçalves: Câmbio e intervenções (19-05-2007)

SIM – Mário César de Camargo: Depreciação do real é inadiável (19-05-2007)

Antonio Delfim Netto: Tarifa e eficiência (Brasil adotou recentemente tarifas, 09-05-2007)

Paulo Rabello de Castro: Tudo beleza? (Câmbio, 09-05-2007)

Artigo: Matin Wolf – Riscos e recompensas na era de ouro da economia mundial (06-05-07)

Antonio Carlos Lemgruber: Bom demais para ser verdade (05-05-2007), ver também coluna de miram leitão (página 20 – os dois tratam da política cambial do goerno, Lemgruber mais teórico)

Luiz Carlos Mendonça de Barros: China ou Estados Unidos? – Os mercados estão surpresos com o descolamento da maioria das economias em relação à expansão dos EUA – (04-05-07)

Paulo Nogueira Batista Jr.: Um aliado a menos? (sobre saída da Venezuela do FIM e BM, 03-05-2006)

LIMITES DO PAC: OS GARGALOS DO INVESTIMENTO [Estadão, 29-04-2007]:

Brasil atrai pouco investimento em infra-estrutura, diz Banco Mundial – livre

No Madeira, temor e esperança

‘Tudo que é peixe de couro é bagre’

Pescadores abrem guerra contra usina de Santo Antonio

‘Não há obstáculos ao crescimento’

Um problema que fez até Einstein desistir

Luiz Carlos Mendonça de Barros: Novos desafios para o Copom (27-04-07)
Paulo Nogueira Batista Jr.: Novos rumos? (26-04-07)
Luiz Carlos Bresser-Pereira: Dois diagnósticos (23-04-2007)
João Negri e Bruno Araújo: Como explicar as exportações no país? (21-04-2007)
Paulo Nogueira Batista Jr.: Banco do Sul? (19-04-2007); artigo no O Estado de São Paulo: "Sem pé nem cabeça", 22-04-2007
Alexandre Schwartsman: Nostalgia e tiro no pé (sobre protecionismo  –  18-04-2007)
Antonio Delfim Netto: Quem persegue o Brasil? (18-04-2007)
Charles Tang: Enfim, uma visão de prosperidade? (17-04-2007)
Luciano Coutinho: O desafio da apreciação cambial (15-04-2007)
Ricardo Antunes: O migrante e os usineiros (FSP, sobre lulismo – 12-04-2007)
Antonio Carlos Lemgruber: A nova política monetária (12-04-2007)
Paulo Rabello e Castro: CPMF: dando a cara para bater (11-04-2007)
Antonio Delfim Netto: Miopia e ingenuidade (11-04-2007, mais sobre câmbio)
José Alexandre Scheinkman: As inovações financeiras e o risco (08-04-2007)
Luiz Gonzaga Belluzzo: A controvérsia sobre desindustrialização (08-04-2007)
Otaviano Helene: O outro lado do PIB (07-04-2007, e o % de $ na educação?)
Luiz Carlos Mendonça de Barros: Lula e seu keynesianismo (06-04-2007)
Vinicius Torres Freire: Desindustrialização, a visão do Iedi (04-04-2007)
Alexandre Schwartsman: Mudando de lugar  (04-04-2007) –  apreciação cambial
Antonio Delfim Netto: "Requiescat in pace" (sobre pib novo, 04-04-2007)
Luiz Carlos Mendonça de Barros: O novo PIB e a solvência do governo (30-03-2007)
José Márcio Camargo: As boas e as más notícias do PIB (24-03-07)
Luiz Carlos Mendonça de Barros: Brasil: ainda as mudanças na economia (23-03-2007)
Joaquim Levy: Uma casa em transição (FMI) 21out2007
Paulo Nogueira Batista Jr.: A Europa e o FMI – 04out2007
Paulo Nogueira Batista Jr.: O Brasil e o FMI (22-03-2007)
Paulo Nogueira Batista Jr.: Um mundo kafkiano (26jul2007, distribuição de votos no FMI)
Paulo Nogueira Batista Jr.: A mudança no comando do FMI (05jul2007) – tem muita coisa sobre o fmi no blog uol

Paulo Nogueira Batista Jr.: Mudanças no monitoramento do FMI (22jun2007)
Paulo Nogueira Batista Jr.: Eleição no FMI (06set2007)
Luiz Carlos Bresser-Pereira: Instituições mortas (10set2007, FIM e BM)

IMF Executive Board Concludes 2007 Article IV Consultation with Brazil – Public Information Notice (PIN) No. 07/114 – September 18, 2007 (link em português)

 
 
Paulo Nogueira Batista Jr.: Um primeiro passo 03abr2008

 

 
Decision documents (site fmi)
More top stories (site fmi)

FMI enfrenta uma crise de identidade (28set2007) – NYT

Toda Mídia  22out2007 Folha de São Paulo
Nelson de Sá

Novo velho FMI

Antes da reunião do FMI, entre outros, o "Washington Post" deu editorial dizendo que ele "precisa de reestruturação" para atender ao crescimento dos emergentes e o "Independent" reportou que a pressão era "crescente", sublinhando a ameaça de Lula "e outros líderes de emergentes" de criar fundo "rival".
Mas veio o domingo, acabou a reunião e os enunciados nas agências eram de que, de novo, "FMI cobra vigilância contra inflação" dos bancos centrais, nada mais. Pior, segundo o "Financial Times", em destaque no site, "FMI fracassa em avançar sobre reforma". Não fez "nenhum progresso" e até "retrocedeu". Mas o novo diretor se diz "confiante", talvez "em um ano".
BRASIL VS. FUNDO
Por "Wall Street Journal", "El País", "Clarín" e agências, o porta-voz da insatisfação dos emergentes com o Fundo foi Guido Mantega. Sob títulos como "Brasil bate na forma como FMI tratou da crise de crédito dos EUA", o ministro sublinhou o contraste com ações e pressões anteriores, nas crises dos emergentes.

FMI – Working Paper No. 07/294: Is Brazil Different? Risk, Dollarization, and Interest Rates in Emerging Markets

Watchdog calls on IMF to curb loan conditions – Published: January 4 2008 02:01 – Financial Times

RICOS VS. EMERGENTES
O destaque de "New York Times" e "FT" foi antes para os alertas da reunião dos "países ricos" do G7, ecoados em seguida pelo FMI, contra os "fundos soberanos" dos emergentes, Brics em especial, que ameaçam comprar "companhias ocidentais". Sobrou também para a moeda chinesa, mas não para o dólar.

QUE DESENVOLVIMENTO?

Ontem no editorial "Que rodada do desenvolvimento?", o "NYT" lembrou que Doha abriu há seis anos com mote de ajudar aos "mais pobres". Mas que "as regras estão sendo escritas para beneficiar os ricos, como sempre, e agora também os grandes em desenvolvimento". Avalia que os "mais pobres fazem concessões, mas enfrentam custos". E cobra dos "países grandes", Brasil inclusive.

Paulo Nogueira Batista Jr.: A crise asiática, dez anos depois (12jul2007)

Philip Bowring – Repetindo os erros da crise asiática (10jul2007 – Inter. Herald Tribune)

 

Alexandre Schwartsman: Fora do lugar (21-03-2007)
Por que o Brasil não cresce? A falta de planejamento nas áreas industrial e de infra-estrutura, descompassos na condução da política macroeconômica, com sobredosagem dos juros e da taxa de câmbio, entre outros fatores, impedem o crescimento do país, segundo Ricardo Carneiro, do Instituto de Economia.
Marcelo O. Dantas: O projeto da recessão perpétua (14-03-2007)
Roberto Mangabeira Unger: Crescer sem dogma (13-03-2007)
Luiz Carlos Bresser-Pereira: A próxima crise mundial (12-03-2007) 
Luiz Gonzaga Belluzzo: Tempestades na bonança (11-03-07)
José Alexandre Scheinkman: Volatilidade  (11-03-07)
Paulo Nogueira Batista Jr.: A instabilidade internacional e o Brasil (08-03-2007)
Alexandre Schwartsman: Volta às aulas (economista sai e entra do governo, 07-03-2007)
Artigo: O grande colapso do mercado de 2007 (Paul Grugman, 03-03-2007)
A queda na Bolsa da China sugere uma bolha especulativa no mercado financeiro mundial?
Paulo Tenani: A China tropeça, e agora? Não
Antonio Corrêa de Lacerda: Bolhas que causam enxaqueca Sim (03-03-2007)
Luiz Carlos Mendonça de Barros: O que o PIB de 2006 nos mostra (02-03-2007)
Artigo: Mercado interno ditou crescimento (01-03-2007, especial sobre o cresimento nos 4 anos de lula = fhc)
Paulo Nogueira Batista Jr.: Um desafio (01-03-07)
Roberto Nicolsky: Destravando o crescimento (01-03-2007, prof. física)
Paulo Rabello de Castro: Geração mártir (28-02-07)
Yoshiaki Nakano: Por que os pobres financiam os ricos? (25-02-2007)
ANÁLISE. A estratégia política do PAC. 23/02/2007 Cara Maior

Luiz Carlos Mendonça de Barros: O Banco Central e o mercado (FSP, 23-02-2007)

Virada para esquerda? Como o plano de Lula para acelerar o crescimento poderia prejudicar o Brasil (Financial Time, 22-02-07)

 

03/09/2007 – 08h03

Economia brasileira pode ser vítima do próprio sucesso, diz ‘Financial Times’

 
A economia brasileira corre o risco de se tornar vítima de seu próprio sucesso, segundo afirma longa reportagem publicada nesta segunda-feira pelo jornal britânico "Financial Times" [assinantes do UOL podem ler a íntegra, em português], por causa da supervalorização do real em conseqüência do aumento das exportações e da perda de competitividade dos setores não-exportadores.

A reportagem comenta que "até uma década atrás, se os mercados internacionais de crédito se resfriavam, o Brasil estava entre os primeiros a ficar gripado", mas que "hoje, o Brasil está fortemente protegido por grandes reservas internacionais, uma dívida externa baixa e superávits saudáveis em conta corrente".

O jornal compara à situação atual do Brasil à da Holanda nos anos 1970, "quando as exportações do recém-descoberto gás natural elevaram tanto o valor da moeda que destruíram a competitividade em todo o resto da economia", no que ficou conhecido nos livros de economia como "o Mal Holandês".

"O equivalente brasileiro ameaça tornar o pais uma vítima de seu próprio sucesso", diz a reportagem, comentando que "recentemente tem havido muitos comentários sobre um ‘Mal Brasileiro’", apesar de "o país, aparentemente, nunca ter estado com a saúde tão robusta".

Reclamações
O jornal observa que a alta do real "vem produzindo reclamações de muitos do setor industrial". "O perigo, eles dizem, é que os empregos bem remunerados nos setores de capital intensivo e outros setores tradicionais sejam substituídos por outros de baixa remuneração no setor de commodities", diz a reportagem.

Segundo o texto, "a alta da moeda significa que muitos fabricantes, que antes exportavam para o leste asiático, por exemplo, estão agora construindo fábricas por lá em vez disso".

"Isso, segundo argumentam muitos, é o clássico sintoma do ‘Mal Brasileiro’", diz o jornal.

O "Financial Times" observa porém, que "as exportações em alta não são o único fator por trás da apreciação da moeda". "O Brasil, com sua recém-descoberta estabilidade, se tornou altamente atraente para investidores e credores. A quantidade de dinheiro dirigida a ações e títulos brasileiros tem um impacto ainda maior sobre o real do que o comércio", argumenta.

"Este fato sozinho, talvez, deveria acender uma luz vermelha sobre a estabilidade futura. Os bancos de investimento não vêem uma redução no nível de investimento. Mas outros advertem sobre uma mudança de humor", diz o texto, citando um analista que vê uma "bolha" nos investimentos, que pode estourar.

Mudanças no interior
Uma outra reportagem de apoio publicada pelo FT na mesma página relata as mudanças no interior do país provocadas pelo "boom" das commodities no mercado internacional.

O jornal cita como exemplo a cidade de Campo Verde, no Mato Grosso, "que aparece como uma miragem em meio aos campos de soja, com seus silos de metal brilhando sob o sol".

"Uma ampla avenida central é pontilhada com os armazéns dos maiores comerciantes de commodities do mundo. Atrás deles estão ruas bem arrumadas com lojas, casas e pequenos negócios. Alongando-se pelo pacífico vale ao norte há vastos projetos imobiliários novos", diz a reportagem.

O prefeito da cidade diz ao jornal que o boom das commodities levará a população local a crescer dos atuais 30 mil moradores para 100 mil até 2020. "Mas ao invés de atrair mais agricultores para cultivar mais – toda a terra arável no município já está sendo utilizada – ele quer adicionar valor às commodities na cidade", diz o Financial Times.

O jornal cita como exemplo a Sadia, que já tem criação de galinhas e uma fábrica de alimentos na cidade e que estuda instalar lá uma fábrica de processamento de carne de frango e outros pontos de produção que poderiam criar até 3 mil empregos diretos e 9 mil indiretos.

O alvo seria principalmente as exportações. O jornal observa que "o crescimento acelerado em tais exportações está ajudando a criar novos empregos em seus milhares, mas há perigos".

"Um deles é que os novos empregos para fatiar frangos em áreas rurais estejam aparecendo às custas de empregos bem remunerados em setores tradicionais e urbanos. Outro é que as exportações de bens com valor agregado sejam eles próprios ameaçados pela apreciação da moeda, que vem trabalhando contra preços internacionais mais altos das commodities, comendo as receitas dos produtores agrícolas", conclui o jornal.

 
03/09/2007
Um problema real?
Como a economia brasileira corre o risco de se tornar vítima de seu próprio sucesso — Financial Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2007/09/03/ult579u2249.jhtm
Jonathan Wheatley

Até poucos anos atrás, quando os mercados de crédito internacionais esfriavam, o Brasil era um dos primeiros a pegar um resfriado. Nas crises mexicana, russa e asiática dos anos 90, o país sul-americano rapidamente seguiu seus pares emergentes na turbulência. Quando foi forçado a desvalorizar sua própria moeda em 1999, seus ativos despencaram de tal forma que o banco central teve que elevar a taxa de juros a 45% ao ano para sustentar o real.

Hoje, o Brasil está altamente protegido por elevadas reservas de moeda estrangeira, baixa dívida externa e saudáveis superávits em conta corrente.

O crescimento econômico está acima de 5% ao ano, mais do que o dobro da taxa média das últimas duas décadas. O crédito e a demanda doméstica estão passando por um boom à medida que milhões de brasileiros pobres se tornam consumidores pela primeira vez.

O país, ao que parece, nunca contou com saúde tão robusta. Por que, então, há tanta conversa sobre a "doença brasileira"?

Como a chamada doença holandesa que atingiu a Holanda nos anos 70, quando as exportações do gás natural recém-descoberto provocaram tamanha valorização da moeda a ponto de destruir a competitividade do restante da economia, o equivalente brasileiro ameaça transformar o país em vítima de seu próprio sucesso.

A balança comercial do Brasil passou por uma transformação desde os anos 90, quando restrições às importações foram reduzidas e a alta inflação foi vencida. Após anos de déficits, o país saiu do vermelho em 2001. Desde então, os superávits têm aumentado ano a ano, de US$ 2,7 bilhões em 2002 para US$ 46 bilhões no ano passado. Apesar da exportação de bens manufaturados ter aumentado, o verdadeiro impulso veio das commodities.

Valorização do real

Enquanto isso, a moeda tem se valorizado constantemente. Do ponto mais baixo de R$ 3,95 frente ao dólar americano em outubro de 2002, o dólar atingiu R$ 1,84 em 23 de julho, antes do estouro da crise das hipotecas de risco americanas. Ele agora vale cerca de R$ 1,95.

Mas a moeda mais forte, ao tornar os bens brasileiros menos competitivos, tem provocado protestos de muitos na indústria. O risco, eles dizem, é que os empregos melhor remunerados em setores de capital intensivo e outros tradicionais sejam substituídos por pior remunerados no setor de commodities.

"Nós estamos sofrendo uma pressão incrível", disse Jorge Faccioni, um líder empresarial de Novo Hamburgo, no Estado do Rio Grande do Sul, onde a economia local depende das indústrias têxtil, de calçados e metalúrgica. "Se isto continuar, nós veremos uma desindustrialização do Brasil."

"A doença brasileira é boa para setores primários e ruim para os de valor agregado", disse Luiz Carlos Mendonça de Barros, um ex-ministro e atual administrador de fundo hedge em São Paulo, que foi um dos primeiros a diagnosticá-la.

A valorização da moeda significa que muitos setores manufatureiros que antes exportavam para o leste da Ásia, por exemplo, agora estão construindo fábricas lá. "Não há mais qualquer estímulo para buscarmos novos clientes no exterior exportando do Brasil", disse Oscar Becker, diretor financeiro da Iochpe-Maxion, com sede em São Paulo, uma das maiores fabricantes de autopeças e uma fornecedora global para a indústria.

A empresa está construindo uma fábrica para produzir rodas na China no próximo ano. Becker disse que espera fazer com que a Iochpe-Maxion reconquiste os clientes asiáticos que perdeu à medida que a valorização da moeda minava sua competitividade. "A moeda teve um impacto imenso, tem sido muito complicado para nós", ele disse. "Eu espero não chegarmos ao ponto em que teremos que fornecer ao mercado brasileiro a partir do exterior."

Isto, muitos argumentam, é o sintoma clássico da doença brasileira. Suas causas também são fáceis de avistar. Na Companhia Vale do Rio Doce, a maior produtora de minério de ferro do mundo, a receita cresceu de US$ 4,1 bilhões em 2001 para US$ 13,4 bilhões em 2005, US$ 20,4 bilhões em 2006 e US$ 16,6 bilhões apenas na primeira metade de 2007, estimulada pela demanda da China.

A agricultura também passa por um boom. O Brasil no momento é o maior exportador de carne do mundo, por exemplo, uma força poderosa na soja, milho e algodão, além das exportações tradicionais como açúcar, café e suco de laranja.

Investimentos

Mas o aumento das exportações não é o único fator por trás da valorização da moeda. O Brasil, com sua recém-encontrada estabilidade, se tornou altamente atrativo para investidores e emprestadores. A quantidade de dinheiro que flui para ações e títulos brasileiros teve um impacto ainda maior sobre o real que o comércio.

Tal fato por si só, talvez, deveria levantar uma bandeira de alerta sobre a estabilidade futura. Banqueiros de investimento não vêem nenhuma diminuição no ritmo do investimento. Mas outros alertam para uma futura mudança no sentimento. "Parece que os investidores compram qualquer coisa", disse um alto funcionário do governo. "Eles precisam se tornar mais seletivos. Nós realmente estamos entrando em uma bolha."

Grande parte do dinheiro que entra no Brasil na forma de dívida -quase US$ 19 bilhões no ano passado- tem sido usado para alimentar o consumo. Apesar da proporção do crédito em relação ao produto interno bruto (PIB) permanecer baixa, ela avançou de 25% do PIB, em 2002, para 35% no ano passado, podendo chegar a quase 38% no final deste ano.

Os mercados de capital ganharam vida. Após anos de estase total, o número de ofertas públicas iniciais na Bolsa de Valores de São Paulo tem sido de uma por semana.

Um exemplo é a Friboi, um frigorífico, que em uma década ascendeu do submundo da economia informal brasileira -onde os trabalhadores não são registrados ou parte de seus salários é pago sem registro, onde poucos impostos são pagos, quando são- à estar listada na Bolsa de Valores de São Paulo. Dois meses após sua oferta inicial em março, ela anunciou a compra da Swift dos Estados Unidos por US$ 1,4 bilhão, o que a tornou o maior frigorífico do mundo.

"Você pode transformar sua indústria ou seu negócio", disse Walter Molano da BCP Securities, uma corretora de Connecticut. "O empreendedor econômico não é um idiota. Eles estão mudando a paisagem industrial."

Ainda não se sabe se tal mudança será para melhor ou -à medida que empregos braçais e de baixa qualificação substituirem empregos qualificados melhor remunerados- para pior. "O que determinará para que lado o pêndulo oscilará é o dinamismo do mercado doméstico", disse David Kupfer, um especialista em indústria e concorrência da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "E isto realmente depende se teremos ou não as políticas governamentais necessárias para alimentar o processo."

Impostos e cargos públicos em excesso

Empresas por toda a economia se queixam muito sobre a moeda. Mas um simples arranhar da superfície revela que a moeda valorizada não causou tantos problemas, mas sim revelou problemas que estavam mascarados quando a moeda desvalorizada trabalhava a seu favor.

O pagamento de impostos, por exemplo, é complicado e caro. O fardo tributário, em cerca de 35% do PIB, é muito maior do que o de outros mercados emergentes e desproporcional à baixa qualidade dos serviços oferecidos.

Um motivo é que o governo colocou sua casa fiscal em ordem aumentando impostos em vez de reduzindo gastos. De fato, os gastos do governo estão aumentando à medida que o Estado oferece generosos aumentos salariais aos funcionários públicos e contrata, em vez de demitir, trabalhadores. O número de pessoas que se candidatam a empregos vitalícios no setor público nunca foi tão grande. Enquanto isso, as leis trabalhistas do Brasil permanecem altamente restritivas; para o empregadores do setor privado, o pagamento da previdência social e outras contribuições custa de 60% a 100% do valor da folha de pagamento.

Mas a maior queixa dos empresários atualmente é a baixa qualidade e alto custo da infra-estrutura do país e o fracasso do governo em fornecer regras claras para investimentos privados no setor de infra-estrutura. "Mostre-me algo em que eu possa investir", disse Marcelo Mosci, chefe das operações latino-americanas da General Electric, em São Paulo. "O governo precisa regulamentar. Se não o fizer, nós veremos o colapso da competitividade."

O governo anunciou planos ambiciosos de gastos em infra-estrutura e diz defender uma reforma tributária -apesar da reforma trabalhista parecer não estar em sua agenda. Mas à medida que se aproxima o final do primeiro ano de seu segundo mandato de quatro anos, pouco progresso foi feito.

"Nosso maior problema é sistêmico", disse Kupfer. O mal estado da infra-estrutura de transporte e energia, ele disse, "gera custos mais altos (para as empresas) quando estes deviam estar caindo. Nós precisamos de mudanças na política do governo para gerar investimento."

Os horizontes se abrem no interior

Seguindo para leste de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso -onde uma grande placa verde indica aos visitantes que chegaram ao centro geodésico da América do Sul- uma estrada ruim e esburacada cruza uma planície fluvial antes de subir um escarpamento acentuado. Acima dele se encontra um cruzamento de onde sai uma estrada secundária que rodeia pelo platô até Campo Verde.

"Não havia nada lá há 20 anos", disse Arno Schneider, um dos muitos fazendeiros pioneiros que vieram do sul do Brasil para o Mato Grosso nos anos 70. "Então alguns de nós começaram a usá-lo como local de encontro para entrar no mercado."

Hoje, Campo Verde se ergue como uma miragem entre os campos de soja, com seus silos de aço reluzindo sob o sol. Uma ampla avenida central é margeada pelos depósitos das maiores empresas de commodities do mundo. Atrás deles se encontram ruas com comércio, casas e pequenas empresas. Se espalhando pelo gentil vale ao norte se encontram amplos novos projetos habitacionais.

Dimorvan Brescancin, um ex-diretor de faculdade que atualmente é o prefeito da cidade, disse que o boom das commodities fará a população local crescer dos quase 30 mil atuais para 100 mil em 2020. Mas em vez de atrair mais agricultores para o cultivo de mais produtos -toda terra arável do município já é usada- ele quer adicionar valor às commodities. "Nosso futuro depende da verticalização", ele disse.

A Sadia, a maior processadora de carnes do Brasil, já conta com granjas e uma fábrica de ração na cidade. A empresa já colocou Campo Verde em uma lista curta de possíveis locais para receber uma fábrica de processamento de aves e outras instalações, que criariam 3.000 empregos diretos e 9.000 indiretos com um investimento de R$ 200 milhões.

Apesar da Sadia ainda não ter decidido entre Campo Verde e outros locais para sua nova fábrica, ela prossegue com seu plano de construir fábricas de processamento de aves e suínos e uma fábrica de ração em Lucas do Rio Verde, também no Estado do Mato Grosso.

Expansão das exportações

A Sadia também está expandindo para o exterior e recentemente ingressou em uma joint venture com sua distribuidora russa, a Miratorg, para produzir, entre outras coisas, nuggets de frango para os restaurantes McDonald’s, tornando-a a primeira fornecedora global não-americana da rede. Produtos processados e cortes de valor agregado -por exemplo, filés com peso preciso para o mercado japonês- compõem uma fatia cada vez maior de suas vendas.

A empresa diz que muitas modificações fazem parte de uma mudança global mais ampla em seus mercados. "Na próxima década nós veremos uma nova ordem na qual o comércio tradicional norte-sul perderá parte da força e o comércio sul-sul se tornará mais importante", disse José Augusto Lima de Sá, o diretor de relações internacionais da Sadia.

A Perdigão, a maior concorrente da Sadia, também expandiu tanto em casa quanto no exterior. Neste ano ela comprou a Plusfood da Holanda e abriu uma fábrica no Brasil para produção de carnes processadas apenas para exportação. "Nossa estratégia é aumentar consistentemente a parcela de produtos de valor agregado em nossa relação de produtos", disse Nelson Vas Hacklauer, o novo diretor de negócios. "Estes são mercados voláteis e dispor de mais valor agregado gera uma renda mais constante."

O aumento de tais exportações está ajudando a criar dezenas de milhares de novos empregos. Mas há riscos. Um é o de que os novos empregos nas áreas rurais no processamento de aves está ocorrendo às custas de empregos melhor remunerados em setores urbanos, tradicionais.

Outro é o fato das exportações de bens de valor agregado estarem ameaçadas pela valorização da moeda, que tem trabalhado contra os preços internacionais mais altos das commodities, reduzindo os lucros dos produtores rurais. "Se isto continuar, nossos produtores começarão a enfrentar sérios problemas e poderão deixar o mercado", disse Vas Hacklauer, da Perdigão.

Tradução: George El Khouri Andolfato

20 de março de 2007

UNIVERSIDADE ABERTA I + Educação à Distância

Filed under: Ciência — Porfiro @ 10:38 AM

Educação à Distância

 

 

Manifesto da Universidade Nova

Leia o documento assinado por reitores de universidades federais brasileiras objetivando a reestruturação da educação superior no Brasil. No manifesto, confira o posicionamento dos reitores acerca da atual realidade do ensino superior no país, da reforma universitária em trâmite no Congresso e do projeto Universidade Nova. Clique aqui

 

 

Descrição

Título:

UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL: faz-se necessário denunciar o engodo

Data:

16/3/2007

Fonte:

 

 
UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL: faz-se necessário denunciar o engodo

Por Raquel Moraes

 

    Dada a abrangência da proposta para a sua implantação, e dado, também, o açodamento com o qual está sendo implementada, a, assim chamada, UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL (UAB) constitui-se, hoje, numa das maiores ameaças que a educação superior do país já enfrentou. Por outro lado, são essas próprias características de sua implantação que podem significar o descrédito para o ensino a distância como um todo, no médio prazo, ou seja, em 2 a 3 anos. Entretanto, o estrago que, potencialmente, será causado à Educação Superior Pública, mesmo nesse prazo relativamente curto, requer um amplo processo de esclarecimento da sociedade e um combate decidido desta ameaça, que avança celeremente. Nesse processo não devem ser deixados de lado. também, os danos pessoais que podem advir para  milhares de estudantes, que se iludiram com os apelos, muito chamativos num primeiro momento da proposta UAB.

    O primeiro equívoco a ser desfeito é que não se trata, de modo algum, de uma  “universidade”: a UAB não é definida como uma instituição[1], nem há, e não haverá, pesquisa e extensão sendo executadas por essa entidade, propriamente dita. Desde o início, o próprio discurso oficial sempre salientou que a UAB seria constituída como um “Sistema”, consorciando as IES, nos três níveis da federação, com municípios que desejassem contribuir, por meio  do estabelecimento de Pólos de apoio, para o avanço do EaD na Educação Superior. Deste modo, a UAB não tem, ao menos, sede definida, não tem funcionários próprios e trabalha intermediando bolsas para professores e tutores, vinculados, ou não, a outras instituições.

    A situação da UAB é, assim, totalmente diferente de projetos de  “Universidades Abertas” constituídas pelos respectivos Poderes Públicos em vários outros países, à frente a “Open University” britânica (OU)[2], instituição que está se aproximando da marca de meio século de existência. Tanto ela, quanto a “Universitat Oberta de Catalunya” (UOC)[3] colocam claramente que, enquanto universidades, se pautam pelo tripé “ensino-pesquisa-extensão”, embora realizem pesquisas mais voltadas à própria Educação a Distância. Ademais, ambas universidades européias dispõem de corpo docente próprio. A catalã, de meados da década de 90, ainda está em plena fase de consolidação [4], conforme sua própria reitora, Imma Tubella; a UOC. fazendo parte do sistema catalão de universidades públicas, ACUP, é considerada pelas demais universidades, todas presenciais,  como um elemento complementar nesse sistema.

    Evidentemente, existem hoje também muitas, assim chamadas, universidades abertas ou, mais recentemente, virtuais, que são de cunho comercial e têm o empresariado como dono, já que a Educação Superior está sendo encarada como um setor dos, assim chamados, serviços, bastante atrativo para investimento privado, especialmente o transfronteiriço. São exemplos desse caso as "Open

Universities Australia", bastante recentes e de propriedade de  sete universidades particulares, e a "Arab Open University".

    No outro extremo está a Open University Finland, totalmente aberta a quem queira participar, oferecendo cursos disponibilizados por 19 universidades públicas finlandesas; o único alerta é que os cursos são dados em finlandês ou sueco.

Um pouco da história da UAB

     A proposta do sistema UAB data de 2005, embora já no ano anterior, por meio da criação do Fórum das Estatais pela Educação[5] (setembro de 2004), tivessem sido dados os primeiros passos para sua caracterização. Tal Fórum tem a coordenação geral do Ministro Chefe da Casa Civil, a coordenação executiva do Ministro da Educação e a participação  “efetiva e estratégica das Empresas Estatais brasileiras”, entre elas todos os bancos ainda públicos, além da FINEP e EMBRAPA, todas as empresas de energia elétrica ainda públicas, em particular também ITAIPU e, adicionalmente, a ECT, o SERPRO, INMETRO e COBRA.

   Ainda em 2005, o Fórum propôs a criação de uma Fundação privada com o objetivo específico de dar apoio à UAB, em todas as ações que dela fossem demandadas, e foi dado início à primeira fase de implantação do  “sistema”, por intermédio de convênios com várias IFES e IEES, visando à diplomação de funcionários do BB e outros, em cursos-piloto de graduação em Administração por EaD, iniciados em 2006 e ainda em andamento.

    O Edital nº 1 da Secretaria de Educação a Distância do MEC (SEED, dezembro de 2005) buscou organizar a  “UAB”, de forma mais definitiva, por meio de uma chamada para que os municípios oferecessem “Pólos de apoio presencial” e as Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) desenvolvessem cursos de interesse daqueles municípios, a serem oferecidos em 2007.

 

    Em 8 de junho de 2006, a UAB foi tornada efetiva pelo Decreto Presidencial nº 5800 e, ainda declaradamente em “caráter experimental”, em 2007 começarão a funcionar os 297 “Pólos de apoio” selecionados a partir do Edital, oferecendo mais de 80 mil vagas para cursos de graduação e também especialização e aperfeiçoamento, caracterizados, em geral, como pós-graduação lato sensu.  Tais cursos foram organizados pelas 47 IFES que decidiram colaborar com a UAB; destas, 36 são universidades e 10 são CEFETs e uma é uma instituição de pesquisa, a FIOCRUZ, que, em 2007, oferecerá dois cursos especializados em muitos municípios brasileiros.

    Demonstrando o açodamento acima referido, já em novembro de 2006, o MEC lançou mais um Edital de Seleção de “Pólos Municipais de Apoio Presidencial e de Cursos Superiores”, para cursos com início em 2008, desta vez já explicitamente como UAB, excluindo o termo “experimental” e convocando, não mais apenas IFES, mas também IEES e IMES para a “integração e expansão do sistema UAB”. Desta forma, em menos de 3 anos, a UAB é catapultada de um projeto-piloto, já com 10 mil vagas, para um projeto instalado, com um número de vagas equivalente ao das vagas para cursos de graduação presencial, oferecidas em todo o sistema IFES, ou seja mais de 100 mil, o que projeta, de saída, 400 mil matrículas, mesmo que não haja expansão de novos cursos; esse número deve ser excedido, pois certamente ocorrerá a habilitação de novos Pólos e cursos nos próximos 4 anos, duração, por enquanto, ainda prescrita para a graduação virtual.

    Um pecado original está, adicionalmente, colado à UAB, possivelmente também associado à pressa mencionada: as IFES e, provavelmente também as IEES já envolvidas com o curso-piloto, foram, e continuam sendo, pressionadas, por fora de seus mecanismos institucionais a aderirem à UAB. Na verdade cooptam-se as Pró-Reitorias de Graduação, com o aceno de novos claros docentes, além de grupos específicos de pesquisa, esses, primordialmente, com vantagens pecuniárias. Os Conselhos são apenas chamados em estágios adiantados das negociações para chancelar o que praticamente já fora decidido, informalmente, segundo interesses específicos de setores das IES, sem um aprofundamento da discussão e, principalmente, sem uma análise das conseqüências mais amplas das decisões tomadas.

Pólos e Cursos

    A dimensão projetada para a UAB, conforme acima informado, excede, em muito, o que se verifica na Europa para cursos baseados em mídia eletrônica; segundo o estudo Megatrends in e-Learning Provision [6], apenas uma desconhecida e comercial “Learn Direct” atinge números como 400 mil matrículas; a “Open” britânica contabiliza, ao todo, meros 11 mil estudantes em estudos virtuais; a universidade catalã tem 94 mil estudantes; e a Universidade Virtual de Barcelona conta com 21,9 mil matrículas. As demais IES européias de e-learning contabilizam menos de 45 mil matrículas,cada uma, portanto atendem um décimo daquilo que a UAB pretende atingir, num horizonte de menos de 4 anos. Na verdade, das 27 instituições européias citadas como sendo as maiores no estudo MegaTrends, executado por um consórcio de universidades que já oferecem EaD, apenas 5 concentram um número total de estudantes que exceda 15 mil.

    Outros dados interessantes podem ser extraídos do estudo acima mencionado: um número expressivo dessas 27 instituições deve estar lutando com dificuldades, pois, pelo menos 13 delas, ou seja da ordem de metade, não contabilizam, em média, mais do que 50 estudantes por curso, havendo casos extremos, como o de duas universidades inglesas, a de Leicester e a de Ulster, que, novamente em média, têm, respectivamente, 7 e 6 estudantes por curso. Turmas tão pequenas, provavelmente, significam alto índice de abandono, fenômeno bastante bem documentado para EaD, especialmente para matrículas de estudantes jovens em sua primeira graduação. Mesmo a muito conceituada ”Open University” britânica tem, em média, apenas 29 estudantes matriculados em cada um dos 375 cursos que oferece. Neste ponto vale alertar que, na denominação inglesa, course se refere a uma disciplina e não a um curso de graduação; se houver pesquisa no sítio da "Open" britânica, notar-se-á que vários cursos foram descontinuados, possivelmente por falta de inscrições.

    Quanto à UAB, a análise dos cursos oferecidos nos Pólos selecionados, cuja relação, sem a necessária especificação, foi divulgada no dia 31 de outubro de 2006[7], demonstra algumas das conseqüências da pressa para a implantação e, por outro lado, também a situação de penúria vivida, tanto pelos municípios mais pobres quanto pelas IFES menos influentes; desconstroem-se, assim e de imediato, algumas das falácias com as quais o projeto UAB foi enfeitado. Ao contrário do que foi propalado, os cursos são ofertados principalmente nas regiões Sul e Sudeste, as mais providas de cursos presenciais. No primeiro semestre de 2007, entre Sul e Sudeste, estão concentrados 82 dos 150 Pólos, portanto mais da metade(!). Campeão absoluto é o Rio Grande do Sul, com 22 Pólos. No outro extremo, a região Norte, tão necessitada, conta nos seus 7 estados, alguns de vasta extensão territorial, com apenas 23 pólos para o primeiro semestre de 2007, sendo notável haver apenas 2 no estado do Amazonas. Para o segundo semestre de 2007 a situação é apenas ligeiramente mais balanceada, havendo 65 Pólos adicionais a entrarem em funcionamento nas regiões Sul e Sudeste, contra 29 na região Norte; contudo o Amazonas, novamente, abrirá apenas mais 2 Pólos, perfazendo, ao todo, somente 4.

    Mais constrangedora, ainda, fica a situação para as pretensões do governo quando são destacados os cursos a serem ofertados nestes Pólos. De modo geral, verifica-se extrema reticência entre as IFES maiores, mais antigas, e mesmo entre várias[8] das que, sabidamente, estiveram envolvidas com  EaD, mesmo antes de ser lançada a UAB. Em particular, as licenciaturas em Física, Matemática, Química e Biologia não são as graduações mais prevalentes, frustrando possivelmente  a expectativa do MEC de, rapidamente, fechar a enorme lacuna em relação a professores dessas áreas. Isto, do ponto de vista da sociedade pode, entretanto, ser uma vitória, pois muitas vozes se levantaram contra a formação inicial de jovens, especialmente para profissões tão demandantes, sem uma orientação presencial segura por mestres mais experientes. Neste sentido vale ressaltar o fato da UnB não oferecer qualquer das licenciaturas citadas; a UFSC oferecer apenas Ciências Biológicas e, isto em somente 3 Pólos, e a UFC oferecer apenas Química e Matemática e em apenas alguns dos municípios atendidos. Na verdade, foram somente as IFES menos tradicionais, no caso a UFPI, o CEFET-PA, e a UFS que se prontificaram a oferecer todas as quatro licenciaturas requisitadas.

     Apenas mais recentemente, o MEC disponibilizou em seu sítio, mas com acesso somente de forma indireta[9], maiores informações sobre os cursos, sob o título Resultados do 1.o Edital-articulação PólosxIFES. Assim, pode-se distinguir, finalmente, quais são os cursos de graduação e de qual tipo são os demais cursos aprovados.

    Ilustrando, ainda mais, a reticência acima referida, a UFPR pretende oferecer  exclusivamente o curso denominado Saúde para Professores da Educação Básica em, 11 municípios do próprio estado do Paraná; a UFSC se dispôs a atender 7 pólos no PR, 2 no RS,1 em cada dos estados, MG e MS, e apenas 2 em Santa Catarina, propriamente (Treze Tílias e Videira). O caso mais interessante é, possivelmente, o da UnB. Essa IFES propôs 7 tipos de cursos, sendo 6 Licenciaturas e 1 Bacharelado, a serem oferecidos em pólos de diversos estados, mas nenhum no próprio Distrito Federal, onde abundam IES particulares. O Bacharelado da UnB é o de Administração, possivelmente o mesmo já em andamento como curso-piloto; apenas 2 das Licenciaturas são em assuntos de maior procura e, talvez, mais facilmente adaptáveis ao EaD, Pedagogia e Letras-Português. Intriga como a UnB vai estruturar as Licenciaturas de Educação Física (em 8 Pólos), Artes Visuais (em 9 Pólos), Teatro (em 3 Pólos) e Música (em 2 Pólos) no esquema EaD…

    Há oferta de alguns cursos, segundo pode ser verificado na relação original de cursos e Pólos publicada em outubro de 2006, que indicam propostas aprovadas, que são, para aquilo que existe hoje, no mínimo inovadoras. Assim, a UFES, dentre os 17 cursos que propôs, lista um de “Filosofia, Psicologia e Medicina”, este não mais arrolado na lista PólosxIFES, e outro de “Gestão de Entidades sem Fins Lucrativos”; a UFSJ tem “Educação Empreendedora”; a UFC apresenta “Direito a Diversidade”; a UFF tem “Empreendedorismo e Inovação”; a UFSC propõe “Formação de Professores de Tradução” (para qualquer idioma ?!);e a UFPR lista “Saúde para Professores da   Educação” como cursos a serem ofertados, quase todos, na verdade, como pós-graduação lato sensu.

Milagre: mais uma expansão sem o devido financiamento

    A idéia original do Fórum das Estatais, como foi colocado anteriormente, era repassar os recursos para a UAB por intermédio de uma Fundação privada[10], o que possibilitaria as conhecidas manobras financeiras, características deste tipo de entidade. Aparentemente, tal intento não prosperou.

    Já no Decreto 5800/06, o governo se pronuncia sobre o financiamento referindo-o ao Tesouro Nacional e ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). De fato, no comecinho do presente ano, em 02/01/07, é publicada a Resolução n° 44 do FNDE, estabelecendo orientações e diretrizes para a concessão de bolsas de estudo e pesquisa a participantes […]. no âmbito do Sistema UAB […] a ser executado pelo FNDE, no exercício de 2006(?!). Essa Resolução detalha, em 5 páginas, as responsabilidades de cada ente do referido “Sistema”; apresenta, ainda, os valores a serem pagos por meio do FNDE a cada um dos profissionais disponibilizados por esses entes à UAB. Os valores são exatamente os mesmos anteriormente mencionados no ante-projeto da tal Fundação privada, ou seja, R$ 1200,00 mensais para coordenadores ou professores/pesquisadores (antes chamados de conteudistas…) e R$   600,00 para tutores a distância; R$ 900,00 para coordenadores de Pólos e R$ 500,00 para tutores presenciais.

    Os valores totais desembolsados não estão explícitos nesta Resolução, mas  fazendo as contas a partir de um detalhamento um pouco maior, antes encontrado no ante-projeto da tal Fundação, deduz-se que são da ordem de, apenas, cem reais por aluno por mês. Isto significa que o governo pensa em proporcionar Educação Superior aos jovens deste país por um valor equivalente aos míseros recursos destinados a cada aluno do sucateado Ensino Fundamental.

    Deste modo, parece que o governo pretende, por milagre, convencer a sociedade que cumprirá a meta do PNE em vigor, de atender, com vagas públicas, parcela importante dos 30% de jovens, entre 18 e 24 anos, que deveriam estar na Educação Superior, até o ano de 2011.

    Por outro lado, nem tudo que se refere à UAB tem um financiamento tão reduzido. Uma visita à página Transparência Pública do próprio MEC nos ensina que há outros atores em jogo. Procedimentos que dispensam licitações concederam, por exemplo,em 29/12/06, à Fundação  Empreendimentos Científicos e Tecnológicos, ligada à UnB, contratos de, respectivamente. R$ 416,4 mil e de R$120,0 mil, à título de cooperação técnica para implantação da UAB.

 Público-alvo e ingressos

    Segundo o sítio do MEC, o público-alvo da UAB são todas as pessoas que tenham completado o Ensino Médio, independentemente de idade e condição social. Por outro lado, segundo as declarações oficiais (vide Decreto 5800/06 e os dois Editais), visam-se, especialmente, estudantes que queiram seguir carreira no magistério da Educação Básica ou funcionários públicos à busca de aperfeiçoamento. Os cursos pretendem ser gratuitos e caracterizarem-se como de graduação, sequenciais, extensão, pós-graduação lato sensu e, até mesmo, mestrado ou doutorado.

    Curiosamente, no rol de cursos, apresentados pelo MEC em outubro de 2006 como aprovados para oferta em 2007, não havia, ao lado do nome do curso, qualquer especificação sobre o tipo de curso de que se tratava. Tal informação apenas pode ser acessada mais recentemente, quando a pesquisa é feita por IES ofertante. Pior: se houver comparações, com ofertas em instituições designadas como universidades abertas em outras partes do mundo, ficará estabelecida uma enorme confusão, pois o que é denominado de curso lá (course em inglês…) é, conforme já comentado, cada disciplina e uma graduação é um conjunto dessas disciplinas, em geral contendo muitas optativas, montado conforme a conveniência do particular estudante. Além disso, a oferta é, em geral, aberta (daí o nome), o que significa que não há prova de admissão.

    Havendo número de vagas pre-determinadas pelas IES no sistema UAB, em geral de 50 estudantes por curso e Pólo, não é provável que ocorra oferta efetivamente aberta pela UAB !

    De fato, o curso-piloto em Administração, que já está sendo oferecido para funcionários do Banco do Brasil (preferencialmente) e para outros funcionários públicos foi precedido de vestibular, em geral presencial, determinado pela IFES ou IEES que participa desse projeto-piloto. Por exemplo, a UFPA, segundo seu Edital 007/2006, selecionou ao todo 200 candidatos para cursarem Administração em EaD no pólo de Belém, sendo destes 150 funcionários do BB e 35 funcionários da própria UFPA; nos outros 4 pólos propostos devem estar estudando, ao todo, outros 300 graduandos.

    Em 2007, há previsão, conforme o sítio do MEC, de que os estudantes, que ainda serão selecionados para as mais 80 mil vagas que as IFES disponibilizaram, comecem a cursar em EaD a graduação ou pós de sua escolha; o primeiro semestre deveria começar em junho e o segundo, em setembro. Vale notar que, até agora, não se encontram no sítio do MEC quaisquer orientações sobre os necessários processos seletivos…

 Conteúdo dos cursos ?!

    Qualquer professor, em especial da Educação Superior, sabe que, na verdade, nenhuma disciplina está otimizada para sempre; mesmo docentes experientes adaptam o material básico para cada turma específica para a qual estejam lecionando. Basta consultar os prefácios de livros didáticos, especialmente os que tenham alcançado sucesso internacional ou nacional, para verificar que, de modo geral, resultaram de disciplinas ministradas por vários anos pelo autor, até se converterem em algo mais duradouro.

    O que dizer, então, de toda uma grade curricular a ser adaptada para uma situação desconhecida, como é o Ensino a Distância?!

    Nos Editais, o MEC promete bolsas para professores conteudistas restritas a períodos de 1 a 2 anos, sem garantia de renovação. Pelos Editais é bastante provável que não haja disponíveis equipes especializadas que já estejam trabalhando em conjunto durante um período compatível com as dimensões da tarefa colocada. Como enfrentar tamanho engodo?

    A antiga Open University britânica ainda trabalha com muito material impresso, desenvolvido ao longo de décadas; esse material, e outro, já desenvolvido para mídias eletrônicas, é colocado à disposição, mediante pagamento de royalties, para outras universidades abertas pelo mundo afora, a maioria destas criadas na década de 90 ou posterior…Tem-se notícia de que a UFC já esteve interessada em traduzir esse material e que só desistiu do intento quando se deparou com o custo contínuo de tal projeto. Agora: um país com as diferenças culturais do gigante Brasil não faria melhor em aproveitar e incentivar exatamente o potencial criativo que seu multiculturalismo lhe possibilita, ao invés de imaginar que uma tintura de cultura exógena e uniformizadora possa representar um diferencial positivo num mundo já por demais uniforme?!

Formação de Professores a Distância?

    Uma pesquisa nas habilitações oferecidas por universidades abertas, em âmbito internacional, mostra que a intenção da SEED/MEC de formar dezenas, quem sabe centenas, de milhares de professores nas disciplinas científicas, em especial Física e Química, pela metodologia que a UAB pretende empregar, não encontra respaldo em experiências anteriores.

    A própria Open University britânica oferece apenas um Bacharelado em Física e Bacharelados específicos em temas educacionais ligados a estudos das crianças e adolescentes, além de um "Diploma", após o equivalente a apenas 3 anos de estudos de graduação, para Mathematics Education. Quanto aos professores, os programas geralmente referem-se a teacher training, dando a entender que se trata de educação continuada.

    Parece, pois, que o país está prestes a embarcar numa aventura de consequências imprevisíveis, pois mesmo defensores do EaD[11] admitem que a formação inicial de jovens por esta modalidade (?) só obtém sucessos em casos excepcionais, de pessoas com vivências ou aptidões específicas. O que dizer, então, da formação inicial de professores, cujo míster diuturno será confrontar-se (…) com classes de adolescentes heterogêneas, em relação às quais tão, ou mais, importante quanto o conhecimento específico, é a habilidade de detectar o melhor modo de produzir um clima colaborativo na classe e conquistar o respeito e a autoridade necessárias para o bom andamento do processo ensino/aprendizagem.


[1]   Ver UAB no sítio do MEC: www.mec.gov.br/webuab

[2]   Ver OU no sítio: http://www.open.ac.wk

[3]   Ver UOC no sítio: www.uoc.edu

[4]   Ver I. Tubella em: www.uoc.edu/press

[5]   Ver Fórum das Estaduais no sítio do MEC: www.mec.gov.br

[6]   Ver www.nettskolen.com/megatrends (acesso 02/02/07)

[7]   www.mec.gov.br/seed

[8]   destaquem-se, por exemplo, UnB, UFSC, UFC e UFPR

[9]   www.mec.gov.br/webuab

[10] Fundação de Fomento à Universidade Aberta do Brasil – proposta do Fórum das Estatais pela Educação, 2005: acessar “Fórum das Estatais” no sítio do MEC

[11] www2.abed.org.br/noticia.asp?Noticia_ID=38, acesso em 02/02/2006

Fonte: HISTEDBR, 15/03/07

Link: http://www.histedbr.fae.unicamp.br

Descrição

Título:

‘Fast delivery’ diploma: a feição da contra-reforma da educação superior

Data:

27/2/2007

Fonte:

Agência Carta Maior (15/02/07) 

 
‘Fast delivery’ diploma: a feição da contra-reforma da educação superior

 

Roberto Leher

Diante do projeto "Universidade Nova", apresentado pelo Reitor da UFBA, a comunidade universitária, os movimentos sociais e setores sociais não podem se furtar da luta para impedir que a velha agenda destrua as universidades públicas.

O intento de anunciar um marco temporal com o adjetivo "novo" é uma prática usual na política, utilizada, em geral, para ocultar vínculos indesejáveis com uma situação anterior: Estado Novo, Nova República… Os exemplos são inúmeros. Também nas políticas de educação superior o uso do referido adjetivo é recorrentemente utilizado. Na "Nova" República, na gestão de Jorge Bornhausen no MEC (14/02/86 a 05/10/87), para enfraquecer o pujante movimento que reivindicava a democratização da universidade, o governo lançou o projeto "Nova Universidade" (Geres) que institucionalizava muitos dos aspectos da contra-reforma de 1968. A seguir, no governo Collor, o ministro Carlos Chiarelli (15/03/90 a 21/08/91) apresentou a proposta de "Uma ‘nova’ política para o Ensino Superior". No governo Lula da Silva, o "novo" muda de lugar passando a ser posposto, e o projeto é então denominado "Universidade Nova", proposta apresentada publicamente pelo Reitor da UFBA, mas que em tudo coincide com as proposições do MEC (nota 1).

O que justifica o uso dessa qualificação pelos "reformistas" Bornhausen, Chiarelli e Genro-Haddad? A constatação de que a universidade brasileira não está em sintonia com os anseios da sociedade (com Bourdieu, leia-se, do mercado). O maior problema, salientam, é o bolor europeu que recobre a universidade pública, sinal evidente de seu envelhecimento. O diagnóstico é o mesmo do Banco Mundial em seu tristemente famoso "O BM e o Ensino Superior: Lições Derivadas da Experiência" (1994): as universidades públicas, gratuitas, assentadas na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão não servem para a América Latina. Os governos da região deveriam adotar um modelo mais simplificado em instituições não universitárias e, preferencialmente, privadas ou resultantes de parcerias público-privadas a exemplo do Prouni.

Em todos os intentos de contra-reformas dos anos 1980, 1990 e 2000, o objetivo foi ajustá-las às necessidades da sociedade (mercado). Mas como aproximá-las do mercado capitalista dependente sem o risco de uma onda de críticas e mobilizações dos segmentos que insistem que a universidade pública não é uma instituição de e para o mercado? No caso da última moda, a Universidade Nova, a idéia, conforme os seus proponentes, é moldar a "concepção acadêmica" a um contexto que, por força das "demandas da Sociedade do Conhecimento e de um mundo do trabalho marcado pela desregulamentação, flexibilidade e imprevisibilidade, certamente se consolidará como um dos modelos de educação superior de referência para o futuro próximo" (nota 2).

Mais claro impossível: o objetivo é converter o conhecimento em mercadoria ou em insumo para agregar valor a uma mercadoria, conforme requer a dita sociedade do conhecimento. Ora, conforme estudo de Mansfield (nota 3), as inovações tecnológicas não são feitas na universidade, mas na empresa. Assim, o objetivo da Universidade Nova é completamente estranho ao necessário debate sobre a função social das universidades no século XXI (e também ao próprio problema da inovação tecnológica realizada fora da universidade). Se essa primeira indicação não bastasse, o projeto assume, ainda, que a universidade deve formar recursos humanos para um mundo do trabalho desregulamentado e flexível, expressões eufêmicas para designar trabalhadores sem direitos e precarizados. Novamente, cabe indagar: é esse o objetivo da universidade?

Na prática, como seria a "Universidade Nova"? Em termos gerais, a proposta prevê os "Bacharelados Interdisciplinares (BI) que irão propiciar formação universitária geral, como uma pré-graduação que antecederá a formação profissional de graduação e a formação científica ou artística da pós-graduação" (nota 4). A versão do MEC propugna que parte dessas poucas disciplinas deverá ser ministrada por meio de educação a distância, mesmo nos cursos presenciais. Ao final dessa rebaixada formação "o aluno da Universidade Nova poderá enfrentar o mundo do trabalho, com diploma de bacharel em área geral de conhecimento (Artes, Humanidades, Ciências, Tecnologias)" (nota 5).

Com esses cursos invertebrados de curta duração (3 anos), seria possível massificar o acesso ao ensino superior (117% até 2012) (nota 6), reduzindo a pressão por vagas nas instituições públicas, sem a necessidade de maior aporte de recursos e de novos professores e, portanto, perfeitamente ajustada ao Programa de Aceleração do Crescimento que impedirá, por mais de uma década, as correções dos aviltantes salários dos professores e técnicos e administrativos e a contratação de novos servidores.

O injusto gargalo do vestibular – herança da ditadura empresarial-militar para acabar com os excedentes – seria multiplicado por dois: inicialmente, os estudantes fariam o inadequado ENEM e, ao final do escolão aconteceria a seleção meritocrática, no pior sentido da expressão:

· Aluno(a)s vocacionados para a docência poderão prestar seleção para licenciaturas específicas com mais 1 a 2 anos de formação profissional, o que habilita o aluno(a) a lecionar nos níveis básicos de educação;

· Aluno(a)s vocacionados para carreiras específicas poderão prestar seleção para cursos profissionais (p.ex. Arquitetura, Enfermagem, Direito, Medicina, Engenharia etc.), com mais 2 a 5 anos de formação, levando todos os créditos dos cursos do BI;

· Aluno(a)s com excepcional talento e desempenho, se aprovados em processos seletivos específicos, poderão ingressar em programas de pós-graduação, como o mestrado profissionalizante ou o mestrado acadêmico, podendo prosseguir para o Doutorado, caso pretenda tornar-se professor ou pesquisador (nota 7) (grifos e destaques meus).

Embora a proposta seja, à primeira vista, clara, o que facilita o debate público, os autores não mantêm a mesma clareza ao longo de todo o Documento. Nenhum projeto afirmaria que seu único objetivo é adequar a instituição ao mercado capitalista dependente e ao trabalho precarizado. Assim, ao longo do Documento, os autores buscam justificativas epistemológicas (interdisciplinaridade) e sociais (a especialização precoce que estaria na base da evasão estudantil) para legitimá-lo. Frente aos grandes objetivos da proposta apontados acima e ao seu conteúdo concreto (uma terminalidade minimalista), este texto não privilegiará essa linha de discussão, claramente acessória e ornamental, pois o cerne é o ajuste ao modelo Banco Mundial/ OCDE-Bolonha/Schwartzman (nota 8)/ MEC.

O processo de Bolonha propugna a criação de um espaço europeu de educação superior que, na ótica dos que mercantilizam a educação, pode significar um robusto mercado educacional: essa é a expectativa da OCDE-Unesco que incentiva a difusão do comércio transfronteiriço de educação superior por meio da EAD. O modelo preconizado pelo Relatório Attali, a graduação genérica em três anos, representa a possibilidade de um sistema abreviado e massificado que os mercadores gostariam de ver difundido em toda a Europa. Os que adotam o espelho europeu para ver a ‘realidade brasileira´ fingem esquecer que está em curso na Europa um outro processo de articulação das instituições de ensino superior, reunindo apenas as universidades de maior prestígio e de tradição em pesquisa. Assim, estão em curso na Europa dois níveis de integração:

a) a do Pacto de Bolonha: nos moldes dos "escolões" que servem de barreira de contenção para que apenas uma pequena parcela tenha acesso à graduação plena, capaz de assegurar uma determinada formação, legitimando a precarização generalizada da maioria (no caso francês, 80% dos estudantes);

b) a das instituições de excelência, objetivando formar as classes dominantes e produzir conhecimento estratégico.

Tardiamente, esse modelo chegou como um paradigma a ser seguido nas políticas para a universidade brasileira, justo em um momento em que é consolidado o consenso na comunidade acadêmica de que a chamada reforma da educação superior expressa no PL 7200/06 é perniciosa para o futuro da educação pública. No Brasil, o modelo Attali/ Simon Schwartzman/ MEC é difundido como a nova "alternativa genial" da estação. Tal como o PROUNI, apresentado como "idéia genial" que possibilitaria vagas ditas públicas sem que o Estado necessitasse desembolsar um centavo sequer, o projeto Universidade Nova objetiva ampliar o número de vagas para estudantes nas instituições públicas sem alterar o padrão medíocre de financiamento da educação. A ausência de recursos novos para a educação superior pública (confirmada pelo PL 7200/06) é o fulcro do debate sobre as alternativas de graduação aligeirada.

Caberia uma análise específica das conseqüências desse modelo de bacharelado para as instituições privado-mercantis. Falar em barbárie é pouco para caracterizar essas implicações.

A comunidade universitária, os movimentos sociais e os setores sociais devotados à causa da educação pública não podem se furtar da luta para impedir que a velha agenda, sob o manto do "novo", destrua o importante patrimônio social que são as universidades públicas. No âmago dessas lutas, os protagonistas terão de discutir uma agenda alternativa para a educação superior brasileira com proposições objetivas e originais capazes de empolgar outros setores sociais, em especial da juventude. As lutas na América Latina confirmam que as universidades, embora instituições milenares, são instituições abertas ao tempo. Por isso, não podemos esmorecer frente a mais essa ofensiva contra-reformista, assumindo papel protagonista na defesa de uma agenda capaz de revolucionar a universidade brasileira.

Notas

1) No âmbito do MEC, os fundamentos do Projeto Universidade Nova estão no Projeto de Lei Orgânica (versão de dezembro de 04) que previa graduação em três anos (Art. 7) e o desmembramento da graduação em dois ciclos, o primeiro deles de "formação geral" (Art. 21). Conforme matéria de Demétrio Weber (MEC planeja criar 680 mil vagas nas federais, O Globo, 14/2/07, p.8), o MEC assume o projeto Universidade Nova e, para submeter as universidades ao projeto, irá exigir, em contrapartida ao repasse de modestos recursos (cerca de R$ 600 milhões /ano), a adoção da "pré-graduação" (3 anos), o sistema de cotas (em uma acepção liberal), a substituição do vestibular pelo precário ENEM, o uso da educação a distância, mesmo em cursos presenciais, entre outras medidas. Na matéria está explícito que o repasse condicionado de recursos objetiva burlar a autonomia universitária.

2) Universidade Nova: Descrição da Proposta. Em http://www.universidadenova.ufba.br/, acesso em 12/02/07.

3) Mansfield, Edwin 1998 Academic research and industrial innovation: An update of empirical findings Research Policy 26, p. 773-776

4) Universidade Nova: Descrição da Proposta (op.cit)

5) Idem.

6) Demétrio Weber, op.cit.

7) http://www.universidadenova.ufba.br/arquivo/Projeto_Universidade_Nova.doc

8) No período mais recente a proposta de um curso "genérico" e de curta duração foi retomada por Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE na gestão Cardoso. Ver Antônio Góis. Sociólogo defende curso de curta duração para carentes. FSP, 03/06/2002. Em linhas gerais, a mesma alternativa é defendida no modelo Universidade Nova, difundida pelo reitor da UFBA.

Roberto Leher é professor da Faculdade de Educação da UFRJ e coordenador do Grupo de Trabalho Universidade e Sociedade do Clacso.

 

Título:

Os buracos nas universidades federais

Data:

22/11/2006

Fonte:

Valor Econômico 

 
Os buracos nas universidades federais

Carlos Lessa

Foi lugar comum, na última campanha presidencial, a ênfase na importância estratégica da educação. É equívoco transferir o vício do "economicismo" para a educação. O "economicismo" sugere que, pela educação, se gera empregos para o conjunto dos indivíduos. Isto não é verdade. Certamente, o indivíduo melhor instruído amplia suas chances para postos existentes no mercado de trabalho. Emprego depende do crescimento da economia e do progresso técnico, consubstanciados pelo investimento produtivo. Por exemplo, um emprego no setor petroquímico exige US$ 300 mil de investimentos. Sem o emprego, o qualificado passa por um processo de "desalfabetização", por não exercitar nem estar estimulado em sua área de formação profissional. Têm crescido os anos de escolaridade média da população brasileira: a média passou de 5,1 anos em 1993 para 6,6 anos em 2004; porém, entre 1995 e 2004 o número de desempregados com mais de 11 anos de estudo cresceu 291% – muito acima, portanto, da média geral de 83,2% de desempregados. O professor Pochmann estima que entre 140 a 160 mil brasileiros com curso superior completo ou incompleto têm emigrado do Brasil. Obviamente, nossa população jovem e qualificada está emigrando para o exterior. O paupérrimo Haiti remete 80% de seus universitários para o primeiro mundo. Nosso crescimento econômico nas duas últimas décadas foi apenas levemente superior ao haitiano. Estamos "contribuindo" ao primeiro mundo.

Educação, virtude republicana por excelência, é fundamental para o futuro da sociedade nacional. É sua tarefa formar a geração de reposição de novos cidadãos. Espera-se que a futura geração supere a atual em conhecimento, civilidade, prosperidade etc. A educação sempre tem seu olhar e justificativa no futuro. O sonho do mestre é que seu discípulo o supere; cada geração deve se esforçar para que suas sucessoras sejam mais civilizadas e tenham melhor qualidade de vida. A educação não pode ser prisioneira do mercado, porém a estagnação da economia é fonte de frustração para os jovens. O salário médio da população com 11 anos ou mais de escolaridade vem declinando no Brasil. Brasileiros com maior escolaridade estão desalojando os mais idosos com menor escolaridade, pois não tem crescido o número de postos de trabalho.

É criminoso imaginar que cortes no ensino superior priorizem o ensino básico. Com isto, debilita-se todo o edifício educacional. O processo educacional depende dos mestres. Estes devem receber a melhor e mais completa formação possível. O ensino universitário é o andar superior e alicerce de todo sistema educacional.

O governo federal vem asfixiando a universidade pública: optou por considerar o ensino superior mercadoria para o investimento privado

Fui reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mais antiga universidade federal do Brasil: instituição de vanguarda do processo educacional brasileiro, quer pelo ângulo civilizatório, quer pelo científico, quer pela qualidade dos profissionais graduados e apoio aos desenvolvimento empresarial.

Desde os meus primórdios como professor, convivi com péssima qualidade dos banheiros. Fora a cruel desatenção com os portadores de deficiência, nada mais humilhante que expor um visitante a um banheiro sujo. A falta de material faz com que quem trabalhe em jornada integral leve o próprio papel higiênico. Infelizmente, convivi com a vulnerabilidade das bibliotecas e arquivos – sujeitos a goteiras, fungos e furtos. Prevalece, nos antigos prédios históricos, a insegurança das instalações quanto a risco de incêndios. É alarmante a insalubre exposição do pessoal docente, discente e de apoio às contaminações biológicas, químicas e até radiativas. Não falarei da vulnerabilidade dos campi à violência, pois não é específica da universidade.

Permaneci um semestre, em 2002, como reitor, pois logo em seguida, convidado, assumi o BNDES. A extensão das insuficiências da UFRJ exigia um programa emergencial. O último ministro de educação de FHC prometera liberar recursos. O professor Aloísio Teixeira, reitor que me sucedeu, não obteve ainda a totalidade deles.

É inquestionável a qualidade do ensino público que, apesar do corte de verbas e redução do número de docentes efetivos, compensado pelo aumento dos substitutos, aumentou em 100% o número de alunos e vagas, entre 1990 e 2002. Não é verdade que a universidade pública seja elitista. Nas públicas 38% dos alunos vêm de famílias com renda inferior a 2 salários mínimos e 5,4% de famílias de 10 ou mais salários mínimos. Nas privadas, são 24% de famílias mais pobres e 9,5% das mais ricas. Hoje, mais de 70% dos alunos estão em universidades privadas. O governo federal, com sua política de cortes brutais, vem asfixiando a universidade pública; optou por considerar o ensino superior mercadoria para o investimento privado. Com 2,5% dos juros que o país paga ao ano, seria possível duplicar a população discente das universidades federais. Contudo, o governo federal prefere receber impostos da universidades privadas, trocados por bolsas do ProUni. Aumenta a sedução do negócio universitário; recentemente, os jornais noticiaram que um grupo estrangeiro estaria adquirindo uma "empresa nacional de ensino superior".

É antiga a grita pela volta dos bandejões que, há 15 anos, foram banidos de universidades públicas. Em princípio, a população universitária cumpre jornada integral. O campus do Fundão é extremamente isolado. Na ausência de refeições de qualidade a preço em conta, restam os trailers. Para a imensa maioria dos estudantes, gastar entre 5 a 7 reais por uma refeição precária é excessivo. Além deste aspecto absolutamente prático, numa universidade com poucas bolsas, há, na comensalidade, o convívio. Creio que se condena a população universitária a adicionais, segmentação e isolamento, que impedem o espaço social de convivência do bandejão. Pessoalmente, priorizaria a higiene, a proteção das bibliotecas e das pessoas – porém lembro que, no programa emergencial, tudo isto e mais o bandejão já estavam incluídos.

Carlos Lessa é professor-titular de economia brasileira da UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. E-mail: carlos-lessa@uol.com.br

INTELIGÊNCIA BRASILEIRA – UNGER

Filed under: Teoria — Porfiro @ 8:54 AM
ROBERTO MANGABEIRA UNGER

Inteligência brasileira – Folha de São Paulo, 20-03-2007

QUAL É hoje a vocação maior do pensamento brasileiro?
O caminho a evitar é o percorrido pelas ciências sociais e pelas humanidades nos países do Atlântico norte. Nas ciências sociais, a começar por economia, prevalece lá a racionalização do estabelecido: explicar o que existe de maneira a confirmar a necessidade, a naturalidade ou a superioridade das instituições estabelecidas e das soluções triunfantes. Nas disciplinas normativas -a filosofia política e a teoria jurídica-, a humanização do inevitável: a justificativa da redistribuição compensatória e da idealização do direito como meios para suavizar estruturas que não se sabe como reimaginar ou reconstruir. Nas humanidades, a fuga da vida prática: divagações e aventuras no campo da subjetividade, desligadas do enfrentamento da sociedade como ela é.
As três tendências fingem brigar entre si. Aliam-se, contudo, na submissão à realidade atual. A mensagem é sempre a mesma: aceitar o existente, cantar acorrentado. Cortam o vínculo, indispensável à razão, entre o entendimento do existente e a imaginação do possível.
No Brasil, estamos, em matéria de alta cultura, a reboque disso. A tendência racionalizadora predomina, feita, por sua vez, de três vertentes que confluíram para o mesmo fatalismo supersticioso. Um neomarxismo que perdeu confiança tanto em seus dogmas como em suas esperanças acabou como discurso para explicar por que nada muda no Brasil, a não ser para assegurar a impossibilidade da mudança. As ciências sociais americanas foram apropriadas para explicar que o Brasil precisa fazer o que lhe mandam fazer. E o velho determinismo culturalista de nossos ideólogos conservadores foi reanimado para enfeitar com folclore o receituário do conformismo e da falta de imaginação.
Já passou da hora de jogar tudo isso fora. Para compreender nossa experiência nacional, temos de executar obra de pensamento de valor universal. Identificar as estruturas, de organização e de consciência, que moldam nossa vida nacional. Reconhecer-lhes ao mesmo tempo o peso e a contingência. Expor as contradições, as anomalias, as brechas que fornecem oportunidades transformadoras. Mostrar como nos podemos organizar para diminuir o poder do passado sobre o futuro e a necessidade da crise para a mudança.
Dirão que nada disso pode acontecer no pensamento brasileiro antes de termos universidade séria e condições para o trabalho intelectual. Os renascimentos da inteligência, porém, nem sempre esperam os meios; às vezes os antecedem. É o espírito, escreveu Goethe, que faz o corpo.


www.robertounger.net

ROBERTO MANGABEIRA UNGER escreve às terças-feiras nesta coluna.

16 de março de 2007

ARTIGOS DE ECONOMIA – LIVRO de Luiz Gonzaga de Sousa

Filed under: Ciência — Porfiro @ 1:04 PM

SUMÁRIO

MÉTODO x METODOLOGIA + HUMANAS x OUTRAS (Polêmica)

Filed under: Ciências Econômicas — Porfiro @ 12:54 PM

Métodos em Ciência Econômica *

Nicholas Georgescu-Roegen

* Este artigo foi apresentado no Annual Meeting of the Association for Evolutionary Economics, Chicago, Illinois, 29-30 de Agosto, 1978.

 

ORTODOXOS E HISTÓRICO-INSTITUCIONALISTAS

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Comentário ao

paper

de Tony Lawson, “The Nature of Heterodox Economics”, apresentado ao X Encontro Nacional da Sociedade Brasileira de Economia Política, Campinas, 27 de maio de 2005.

 

A

NOTAÇÕES PARA UMA TEORIA DO CONHECIMENTO EM GRAMSCI

S

EMERARO, Giovanni (UFF)

R

ESUMO:

Uma teoria do conhecimento sistematizada e acabada não existe, propriamente, nos escritos de Gramsci. É possível, no entanto, encontrar em diversas anotações e referências, indicações precisas e um conjunto coerente de reflexões que revelam não apenas uma clara concepção de mundo, mas um método de pesquisa e critérios que apontam para uma inteligibilidade do real que permite às classes trabalhadoras chegar à autonomia e à hegemonia. O presente ensaio, portanto, se propõe a evidenciar o modo original de ser intelectual vivenciado por Gramsci. Visa, particularmente, destacar a interligação entre história, política e conhecimento. Nesse sentido, o trabalho analisa a concepção de ciência, a questão da objetividade, da subjetividade, a maneira peculiar de entender a ideologia e, principalmente, a reelaboração do marxismo como filosofia da praxis, ou seja, “ciência da dialética ou gnosiologia”.

 

+ Autores – 29-04-2007
Sobre pesquisadores e andorinhas

Estudiosos da área de humanas devem ir à luta e provar a consistência de suas disciplinas em comparação com as outras ciências

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

 

DESENVOLVIMENT0 – SCHUMPETER + SCHUMPETER

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:46 PM

O desenvolvimento econômico na visão de Joseph Schumpeter

Achyles Barcelos da Costa

ano 4 – nº 47 – 2006 – 1679-0316

BRASIL – FUTURO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:14 PM
10/3/2006
A urgência de um Projeto Nacional

a consultoria britânica PrinceWaterHouseCoopers acaba de divulgar relatório (1) no qual projeta que o Brasil será a quarta maior economia do mundo em 2050, atrás apenas de China, Índia e Estados Unidos, nessa ordem. O estudo da PWC confirma outro estudo (2), este de 2003, na qual o banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs, conclui que Brasil, Rússia, Índia e China (cuja junção é a sigla BRIC’s, analogia com o termo “brick”, tijolo em inglês) na soma de seu PIB em 2050 seriam maiores que as atuais 6 maiores economias capitalistas somadas (Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Itália).  

O novo estudo da PWC tem o sugestivo titulo “O mundo em 2050: qual será o tamanho das economias emergentes e como a OCDE poderá competir com elas?”. O da Goldman Sachs, dizia “Sonhando com BRIC’s: trajetória para 2050”. O da GS teve grande repercussão, pois sua conclusão expressa grandes mudanças na situação do mundo em quatro décadas – historicamente um curto espaço de tempo.   

A variável utilizada pela PrinceWaterHouseCoopers para chegar a esse resultado seria a de um crescimento médio do Brasil a uma taxa de 5,4% a.a. Já o estudo do GS projeta taxa média de 3,7% a.a. entre 2000 e 2050 para chegar a seus resultados. Não obstante estarem propostos índices relativamente baixos de crescimento do PIB para o Brasil em ambos estudos, observe-se que o país cresceu entre 1989 e 2005 a uma taxa média real de apenas 2% a.a. – ao qual descontado o crescimento da população observa-se um crescimento per capita de míseros 0,4% a.a. (3) 

Os estudo da GS e da PWC trazem a tona uma discussão de fundo relacionada a qual o projeto nacional que o Brasil deve levar adiante, visando efetivar sua potencialidade.  

Estudo do Professor Reinaldo Gonçalves (4), da UFRJ, faz lembrar a distancia (ou o hiato) entre o poder potencial do Brasil e o poder efetivo, creditando todavia um baixo poder efetivo a nossa vulnerabilidade externa nas diferentes dimensões das relações econômicas internacionais (mas esferas comercial, produtiva, tecnológica e monetária e financeira). Pela metodologia utilizada pelo Professor, o Brasil é ao mesmo tempo o 5º país com maior potencial do mundo ao mesmo tempo em que é o 17º país com maior vulnerabilidade externa do planeta.  

Poderíamos agregar ao estudo do Professor Gonçalves outra dimensão da vulnerabilidade externa, a ideológica. Na visão do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, é “a mais importante, pois influencia todas as políticas e atitudes do Estado e da sociedade brasileira”. Continua o Embaixador dizendo que “a consciência colonizada se expressa em uma atitude mental timorata e subserviente, que alimenta sentimentos de impotência na população, ao atribuir as mazelas brasileiras à escassez de poder do Brasil, à incompetência brasileira, ao nosso caipirismo, ao arcaísmo social, à xenofobia, etc. enfim, à nossa inferioridade como sociedade” (5). É a cabeça colonizada de nossa elites, historicamente  subserviente com os paises ricos e fortes e arrogante com os países vizinhos e em desenvolvimento.  

Essas múltiplas dimensões de vulnerabilidade nacional – ou de ausência de projeto nacional – precisa ser enfrentada urgentemente pelo povo brasileiro, como forma de superar as limitações e afirmar sua imensa potencialidade nacional – confirmada, ademais, por outras variáveis fundamentais, como território, povo laborioso e abundância de riquezas naturais e minerais.  

É fato: o fato de estarem a frente do governo nacional forças populares, democrática e patriótica tem criado condições para uma trajetória, expressa nesses 38 meses transcorridos desde a posse de Lula, que pode caminhar para um novo modelo de desenvolvimento, numa grande transição em parte já iniciada nesse governo. Não obstante, a ausência de um projeto de país, segue gerando prejuízos ao nosso futuro enquanto nação. Dois exemplos recentes e em curso: 

- A empresa chinesa Chongqing Lifan Group, uma das maiores fabricantes de motocicletas do país é a única participante da licitação para adquirir a Tritec Motors, fabrica de motores de alta tecnologia para carros criadas numa joint venture entre a BMW e a Chrysler em Campo Largo, interior do Paraná. A operação, que envolveu até um membro do Comitê Central do Partido Comunista da China (6), será efetivada com a desmontagem da fabrica, seu transporte à China “peça por peça” e então remontagem. Nada contra os chineses, zelosos de seus interesses nacionais. Tudo contra a falta de visão estratégica, de longo prazo existente no Brasil. Afinal, diz a reportagem citada, “qualquer tentativa de adquirir fabrica semelhante nos Estados Unidos estaria sujeita a bloqueio. Mas Yin disse que o Brasil não tem restrições comparáveis à exportação de alta tecnologia” (6). 

- Um segundo exemplo bastante atual que revela falta de visão de longo prazo e de projeto nacional são as ameaças de retrocessos na política de comércio exterior do Governo Lula –

onde, a propósito, se acumulam conquistas, para o Brasil e para a América Latina/Países em Desenvolvimento, como a interrupção da Alca e a crição do G-20 na OMC. Ocorre que nesse momento estão em curso tentativas de miná-las, por incrível que pareça, desde dentro do governo. É o caso, por exemplo da recente redução unilateral de tarifas de importação  provocada pelo Ministério da Fazenda na Camex (Câmara de Comercio Exterior) sob o argumento de “conter inflação”. Outro é a possível abertura do mercado de serviços aos europeus em troca das suaves concessões agrícolas sinalizada pelos europeus nas negociações da OMC (7). 

 A Globalização saindo da moda 

Esses exemplos de falta de planejamento de longo prazo e de projeto nacional são graves, ainda mais num momento em que o liberalismo dá nítidos sinais de fadiga e desgaste. Vários sintomas apontam para isso. A The Economist desta semana traz um “inventário” de iniciativas de distintos governos pelo mundo que fazem cair por terra as empolgações neoliberais dos anos 90, num editorial ironicamente chamado “Copiando as anotações de Karl Marx”. Transcrevo um trecho traduzido a seguir:  

“Nas últimas semanas temos visto os políticos (norte) americanos atacando a compra de (seis portos norte-americanos) por uma empresa de gerenciamento de portos, a DP World dos Emirados Árabes Unidos, e proposto novas barreiras para os compradores de propriedade estatais; o primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, acertou apressadamente uma fusão entre uma empresa de gás estatal, a Gaz de France e outra grande concessionária privada, a Suez a fim de impedir a aquisição desta por uma empresa italiana, e propôs outras medidas contra venda de empresas nacionais; o governo espanhol tentou bloquear a concorrência entre uma firma alemã e a Endesa, um concessionária espanhola; o governo polonês proibiu uma aquisição pela Itália de um Banco alemão porque a concorrência envolvia subsidiarias polonesas; políticos da Coréia do Sul esbravejaram contra a tentativa norte-americana de comprar a KT&G, anteriormente um monopólio estatal de tabaco e ginseng; já os governos da França e de Luxemburgo, juntos, tentaram desestimular a compra da empresa franco-belgo-luxemburguesa Arcelor, pela maior empresa metalúrgica do mundo, a Mittal” (8) 

Por um Projeto Nacional que confirme a potencialidade do Brasil 

Encerro esse curto texto com um exemplo positivo de como devemos (e podemos) conceber as relações nacionais a partir da prioridade para a questão nacional. Trata-se do debate atual sobre a implementação da TV digital no Brasil.  

Segundo a imprensa divulgou nessa semana, o Brasil teria optado pelo padrão japonês (ISDB) contra as alternativas européia (DVB) e norte-americana (ATSC). Dentre outras razões técnicas a razão fundamental da decisão se deu em função do compromisso dos japoneses em instalar uma fabrica de semicondutores no Brasil, de altíssima tecnologia.  

Eis um exemplo de utilização da oportunidade para fazer política industrial. Segundo a imprensa, a Fabrica de Semicondutores gerará investimentos entre US$ 1 e 2 bilhões, e poderia reduzir substancialmente o déficit na balança comercial de componentes, que atualmente é de US$ 7,5 bilhões, dos quais somente o setor de semicondutores é responsável pó US$ 2,5 bilhões desse total (9). Recordo que a instalação de um setor de semicondutores do país é uma dos quatro objetivos da Política Industrial do Governo Lula (os outros três são fármacos, software e bens de capital). 

A vitória das forças avançadas nas eleições desse ano, e assim, um segundo governo Lula será fundamental não apenas para seguir adiante com a transição para além do neoliberalismo como também é parte desse processo o planejamento do desenvolvimento do país de longo prazo.  

O Brasil já teve esboços de Projetos Nacionais de Desenvolvimento em execução. O primeiro e segundo governo de Getulio Vargas; o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek; o Plano Trienal de Jango Goulart e Celso Furtado; o I e o II PND (Programa Nacional de Desenvolvimento) dos regimes militares são exemplos disto. Mesmo no governo Lula chegou a projetar algo, em dimensões reduzidas, o Projeto “Brasil em Três Tempos”, que previa metas nacionais para 2007 (final do primeiro mandato de Lula), 2015 (data para o cumprimentos das Metas do Milênio das Nações Unidas) e 2022 (Bicentenário da Independência). Infelizmente, a crise política e o calendário eleitoral parecem ter atropelado o Plano.  

Projetar o Brasil para o futuro é buscar confirmar as imensas potencialidades de nosso país descritos, por exemplo, nos estudos da PrinceWaterHouseCoopers e da Goldman Sachs. Mas sua consecução inequívoca passa por aprofundar a transição do neoliberalismo e aproximar as tarefas de transformações socialistas do Brasil. Afinal, de fato, a existência de um projeto nacional de desenvolvimento é algo que se confunde com a luta pelo socialismo, sendo parte da transição para essa nova sociedade. 

___________________________________________ 

Notas  

(1)  (1) Ver“Brasil será a quarta economia, diz consultoria”, Folha de São Paulo, 04/03/06, pg B3 e“México and Indonesia ‘will overtake British economy’”, The Times, 03/03/06 (edição eletrônica). Comentários adicionais disponíveis em www.pwc.com  

(2)  (2) O estudo sobre os BRIC’s foi por nós comentado quando de seu lançamento num texto denominado 2050. Para ler, clique em www.vermelho.org.br 

(3)  (3) Média compilada por Dilermando Toni 

(4)  (4) Ver “Poder potencial, vulnerabilidade externa e hiato de poder do Brasil”, Cadernos de Estudos Estratégicos, Centro de Estudos Estratégicos, Escola Superior de Guerra (ESG), disponível em www.esg.br/cadernos/001.pdf 

(5)  (5) Macunaíma: subdesenvolvimentos e cultura”, Samuel Pinheiro Guimarães, mimeo.  

(6)  (6) China que desmontar e levar fabrica do PR”, Folha de São Paulo, 18/02/2006, pagina B10 (matéria traduzida do The New York Times

(7)  (7) Brasil proporá abrir serviços a europeus”, Folha de São Paulo, 07/03/2006, pagina B6.  

(8)  (8) The Economist, 04 a 10 de março de 2006, pagina 10.  

(9)  (9)Pais negocia fabrica de semicondutores”, O Estado de São Paulo, 25/02/2006 e  “Lula escolhe padrão japonês para TV digital”, Folha de São Paulo, 08/03/2006.

GLOBALIZAÇÃO

Filed under: Teoria — Porfiro @ 12:12 PM
ALTERNATIVAS

Outra globalização é possível

Resgate de uma utopia viável: em 1942, Keynes propunha, em detalhes, um sistema de comércio internacional voltado para o pleno emprego e os direitos sociais. Por que a proposta jamais foi adotada; como foi substituída pela OMC; que estratégias poderiam ressuscitá-la

Susan George

A rodada de negociações de Doha, iniciada durante a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) que ocorreu na capital do Qatar em 2001, fracassou. O diretor geral da OMC, Pascal Lamy, tenta deseperadamente ressucitá-la, mas os opositores à rodadada sustentaram, durante todo o período das negociações, que seria mais interessante não haver acordo algum do que fechar um mau acordo. Do começo ao fim, essas conversas aumentavam o risco de favorecer o grande agronegócio, enfraquecer as indústrias frágeis e oriundas do Sul, e, por meio do Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (General Agreement on Trade of Services, GATS), permitir que o setor privado controle os serviços públicos.

O fracasso de Doha pode ser apenas temporário, e não quer dizer que os textos fundadores da OMC, adotados em 1995, tenham sido abolidos. O Acordo sobre a Agricultura, o Acordo Geral sobre Tarifas Alfandegárias e Comércio (General Agreement on Tariffs and Trade, GATT), relativo aos bens industriais, o GATS e mais de vinte outros instrumentos legais controlados pela OMC continuam a vigorar. Mas a execução dos mesmos passa a ser mais lenta. Vivemos uma interrupção, uma espécie de liberdade condicional. E, talvez, uma janela de oportunidades.

Diante do fracasso desta rodada, muitos se perguntam: o que colocar no lugar de Doha? Alguns responderiam que é a mesmo que perguntar: o que colocar no lugar de um câncer? Porém, em se tratando do comércio internacional, a resposta "nada" seria pouco recomendável. Enquanto a ausência de um câncer é desejada sem reservas, a ausência de um regime comercial internacional abre caminho para acordos bilaterais e multilaterais mais invasivos e perigosos, para os parceiros mais fracos, do que a OMC.

Uma proposta que poderia inspirar o altermundialismo

Ao invés de deixar os habituais suspeitos – os Estados mais poderesos – organizarem o futuro das relações comerciais, é útil retornarmos à grande reestruturação das relações internacionais ocorrida após a Segunda Guerra Mundial. Naquela época, até o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja vocação foi espetacularmente desviada, um quarto de século depois, eram instituições bem-acolhidas, que, durante um certo tempo, foram uteis tanto para o Sul quanto para o Norte devastado pela guerra.

Muito antes que a paz retornasse, o economista britânico John Maynard Keynes elaborava um projeto que renovaria profundamente as regras do comércio mundial. Ele propunha a criação de uma Organização Internacional do Comércio (OIC), apoiada por um banco central internacional, a União Internacional de Compensação (UIC). A UIC deveria emitir uma moeda mundial destinada ao comércio, o bancor. Como nem a OIC e nem a UIC vingaram, é interessante refletir sobre o que teria sido diferente caso elas tivessem ido adiante, e verificar que tal hipótese teria, sem duvida, resultado em uma mundo mais racional, com um sistema comercial que beneficiaria tanto as populações do Norte quanto as do Sul.

Com a OIC e a UIC, nenhum pais poderia registrar déficits comerciais gigantescos, como os Estados Unidos, atualmente (716 bilhões de dólares em 2005), ou excedentes comerciais igualmente enormes, como faz a China. Na estrutura de um sistema como aquele, também seriam impensáveis a assustadora dívida do terceiro mundo e as políticas de ajuste estrutural aplicadas pelo Banco Mundial. Certamente, esse plano não teria abolido capitalismo, e necessitaria de algunas ajustes para a atualidade. Porém, ele permanece atual em sua essência.

Antes de voltar a detalhar as regras que a OIC teria estabelecido, é importante esclarecer por que essa instituição nunca vingou. Segundo a explicação mais comum, o fracasso ocorreu porque os norte-americanos não a quiseram — o que é verdade, porém um pouco simplista demais. Houve outras razões políticas para o fato.

Os EUA querem fazer valer seus interesses…

Os Estados Unidos e o Reino Unido começaram, muito antes do fim da guerra, a negociar o acordo que resultaria na OIC e UIC. Keynes havia lhes transmitido a idéia em 1942. Os britânicos a defenderam oficialmente na conferência de Bretton Woods, em julho de 1944 (presidida por Keynes). Mas desde aquele momento, os norte-americanos, influenciados pelo sentimento de seus grandes empresários industriais, mostravam-se menos entusiasmados. O chefe de sua delegação, Harry Dexter White, apoiava a criação do Banco Mundial e o FMI [1]. O congresso norte-americano ratificou em seguida a criação dessas duas instituições, chamadas de "instituições de Bretton Woods". A OIC ficaria à espera.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em 1945. Seu componente econômico, o Conselho Econômico e Social (Economic and Social Council, Ecosoc), estudou as propostas norte-americana e britânica sobre o estabelecimento de uma OIC. Em 1946, a Ecosoc convocou a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Emprego, com o objetivo de examiná-las [2]. Antes que essa conferência se reunisse, os Estados Unidos aplicaram ao comércio internacional uma dinâmica em duas velocidades. Organizaram um encontro reservado aos 25 Estados-membros da ONU interessados, como Washington, em liberalizar o comércio sem demora. Eles se reuniram sob a égide de um fórum paralelo, destinado a esboçar uma espécie de medida provisória – ou ao menos considerada assim na época.

Assinado em 1947, o GATT entrou em vigor no ano seguinte. Todos os participantes esperavam que fizesse parte da Carta da OIC, que seria um instrumento permanente. Sendo assim, dotaram o GATT de uma estrutura institucional limitada. No ano seguinte, a carta da OIC foi concluída e ratificada na conferência de Havana, razão pela qual esse documento é chamado de Carta de Havana (seu nome é, de fato, Carta de Havana Instituindo uma Organização Internacional do Comércio) [3].

O projeto de base da OIC nunca foi efetivado, porque perdeu rapidamente apoios políticos essenciais. Keynes faleceu em 1946. O secretário de Estado norte-americano Cordell Hull, outro partidário da OIC, deixou suas funções por motivos de saúde um pouco antes do fim da guerra. O momento de entusiasmo de Bretton Woods, quando todos "refaziam o mundo", havia passado. O isolamento de parte da sociedade norte-americana e dos politicos eleitos por ela para o congresso tinha nesse sentido. O mundo dos negócios opunha-se à OIC, tida ou como protecionista demais, ou como não suficientemente protecionista. As secretarias de Estado e do Tesouro norte-americano priorizaram o plano Marshall e a assinatura de diversos acordos bilaterais de comercio. Alem disso, uma difícil eleição presidencal se anunciava em 1948, e nenhum dos dois grandes partidos tinha a intenção de se atrelar a um acordo internacional polêmico. Além disso, a guerra fria havia começado, relativizando, na opinião de políticos e funcionários norte-americanos, o interesse e a urgência da criação da OIC.

… e o "livre" comércio ganha terreno sem debate

Uma vez reeleito, em 1948, o presidente Harry Truman apresentou a Carta da OIC (chamada "de Havana") ao Congresso, porém sem convicção. Os legisladores, cujo dever era ratificá-la, nem se preocuparam em levá-la a votação. O GATT, por sua vez, sobreviveu: tido como "provisório", ele não possuía nenhum arranjo institucional. Para os objetivos de "livre" comércio que determinaram sua criação, funcionou muito bem: ao longo de décadas, fez a média das alíquotas aduaneiras baixar de 50% para 5% — apesar da persistência de tarifas de pico na maioria dos países. O GATT organizou oito rodadas de negociaçãoo sobre a liberalização do comércio. A última delas, a Rodada Uruguai, foi a mais ambiciosa de todas — e levou à criação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Esses acordos comerciais nao se parecem nem um pouco com o esperado por Keynes. A OMC é ainda mais distante.

Enquanto a Organização Mundial do Comércio não possui nenhuma ligação com a ONU, e conseqüentemente não reconhece nenhum de seus instrumentos legais (nem mesmo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948), a carta da OIC começa fazendo referência à das Nações Unidas. O pleno-emprego, o progresso social e o desenvolvimento são alguns de seus objetivos.

O segundo capítulo da carta trata dos meios de prevenir o desemprego e o sub-emprego. Contrariamente à OMC, que não se pronunciou sobre o projeto, a OIC aponta a importância de normas de trabalho comuns e de melhores salários. Ela torna obrigatória a cooperação com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Deve-se lembrar que o movimento sindical mundial passou os seis anos seguintes à criação da OMC tentando obter uma "clausula social", versão muito reduzida dos princípios que já figuravam na OIC.

A carta da OIC previa a divisão de competências e de tecnologias; afirmava que os investimentos estrangeiros não poderiam "servir de base a uma ingerência no que diz respeitos aos assuntos internos" dos Estados-membros. Os países mais pobres, mais fracos, eram expressamente aconselhados a recorrer ao intervencionismo e ao "protecionismo" para assegurar sua reconstrução e seu desenvolvimento: "A ajuda sobre a forma de medidas protecionistas é justificada", diz a carta.

Idéia era industrializar o Sul e valorizar seus produtos

Ações e iniciativas especiais, "destinadas a promover o desenvolvimento de uma indústria particular para a transformação de um produto básico para a economia de um país eram especialmente encorajadas. As outras cláusulas da carta, que são muitas, tratam dos produtos primários e querem a proteção dos pequenos produtores. Fundos governamentais podiam ser utilizados para estabilizar o preco dos produtos primários e destinados a encorajar as negociações entre os Estados-membros que os produzem e transportam. Sem dizê-lo explicitamente, a OIC encorajou cartéis de produtores de matérias-primas, como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), tanto que estimulava os Estados a transformar suas matérias primas em território nacional, para agregar valor a elas.

Ao invés disso, o preço dos produtos primários, caiu. De acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre Comercio e Desenvolvimento (Unctad), entre 1977 e 2001, a queda anual dos precos foi de 2,6% para os produtos alimentícios, 5,6% para bebidas tropicais, e 3,5% para os oleaginosos e azeites. Somente os metais que, ao contrário dos produtos alimentícios e bebidas, não são nunca fabricados por pequenos produtores, resistiram bastante, caindo apenas 1,9% ao ano, o que se traduz em uma sensivel baixa de lucros nos paises produtores.

Ao contrário do que dizem os dispositivos hoje em vigor, a Carta de Havana autoriza que o Estado ajude a indústria nacional por meio de subsídios ou de compras públicas. Ela reserva aos filmes de origem nacional uma parte do mercado cinematográfico. Permite aos paises signatários que protejam sua agricultura e sua pesca. Lembre-se que uma das batalhas que marcaram a Rodada Doha, e que provocaram seu fracasso, dizia respeito aos subsídios a exportações agŕicolas. A Carta da OIC proíbe expressamente subsidiar produtos em mercados estrangeiros, oferecendo-os "a um preço inferior ao exigido de um comprador nacional". Em caso de dificuldades financeiras, os estados podiam limitar suas importações, mas eles deviam fazê-lo de forma proporcional ao problema, e oferecer cotas proporcionais aos seus fornecedores anteriores.

Em vez da OMC, a OIC — democrática e desburocratizada

A organização institucional da OIC era simples e democrática. Todos os Estados foram convidados para a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Emprego. A incorporação de novos membros foi aprovada durante a conferência. Cada membro tinha iguais direitos (enquanto no Banco Mundial e no FMI, o voto é proporcional às contribuições financeiras; os Estados Unidos podem, sozinhos, vetar uma decisão importante). Um membro em atraso no pagamento de suas cotas, nas Nações Unidas, perde o direito de voto — significa que, na IOC, os Estados Unidos nao teriam direito a votar há uns vinte anos…

No que diz respeito à "governanca" da instituição, os membros da OIC deveriam escolher um Conselho Executivo de dezoito membros: oito deles provenientes de paises "cuja importância econômica e a participação no comércio mundial sejam maiores" e os outros dez representando diferentes regiões e diversas economias. As votações seriam por maioria simples ou, em certos casos, de dois-tercos. Os disputas comerciais, seriam resolvidas por meio de consulta; e no caso destas fracassarem, qualquer membro teria o direito de se dirigir ao Conselho Executivo, que poderia autorizar que o pais lesado tomasse medidas de retaliação.

Esses esforços para estabelecer uma nova ordem comercial foram empreendidos em um mundo que ainda se debatia para sair das ruínas causadas pela guerra. Ninguém, ou quase niguém, com exceção dos EUA, dispunha de boas condições financeiras. O plano Marshall também tinha como objetivo prevenir uma nova recessão, estimulando o comercio entre os Estados Unidos e a Europa. Sem isso, temia Washington a máquina industrial norte-americana seria incapaz de avançar rapidamente, por falta de consumidores.

Mas o que fazer para que cada pais se recuperasse e recomeçasse a produzir e a comercializar? Keynes formulou sua solução no começo dos anos 1940. Uma das causas da guerra eram as politicas comerciais, cujo objetivo era derrubar o vizinho, vendendo a preços mais baratos que ele. Criava-se uma concorrência feroz. O autor da Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda queria garantir que ninguém pudesse monopolizar todos os mercados, acumulando enormes excedentes comerciais. Sua solução chamava-se UCI, um novo banco central dos bancos centrais, que deveria emitir a moeda mundial destinada ao comercio, o bancor.

Engenhoso mecanismo para prevenir desequilíbrios

O sistema funcionaria da seguinte forma: as exportações fariam entrar o bancor no país, e as importações o fariam sair. O objetivo era que, ao final do ano, o saldo de um país com a OIC não estaria nem em déficit nem em superavit, e sim "zerado". A moeda de cada país teria uma taxa de compra e venda fixa, que seria ajustável em relacao ao bancor. A inovação de Keynes foi perceber que o sistema seria perturbado tanto pelos países possuidores de quantidades insuficientes da moeda internacional quando pelos que detivessem uma grande quantia em bancors. Em outras palavras, os credores ameaçariam a estabilidade e a prosperidade tanto quanto os devedores.

Mas como obrigar os países a buscar um saldo próximo do zero e a mantê-lo? O método era engenhoso. Sendo tanto banco central quanto emissora da nova moeda, a OIC deveria conceder a todos os países facilidades de caixa (contas em descoberto sem cobrança de juros). O descoberto autorizado deveria equivaler a metade do valor médio das transações comerciais realizadas por um país nos cinco anos precedentes. Todo país que ultrapassasse o descoberto autorizado deveria pagar juros sobre a diferença. Dessa forma, os devedores eram chamados a pagar seus déficits. Porém, e aí está a grande descoberta, os credores – Estados possuidores de uma balanca de pagamento excedente – tambem teriam que pagar juros sobre seus excedentes. Quanto mais os déficits ou superávits se elevassem, maior seria a taxa de juros.

Além disso, os países deficitários seriam obrigados a desvalorizar sua moeda para diminuir o preço das suas exportações, tornando-as mais atrativas. Os países com excesso de saldo deveriam fazer o inverso: aumentariam o valor da sua moeda para que suas exportações se tornassem mais caras e dissuasivas. Se um país com excesso de saldo não reduzisse seu excedente, a OIC confiscaria a quantia que ultrapassasse o descoberto autorizado e a colocaria em um fundo de reserva. A previsão de Keynes era que esse fundo servisse para financiar forças policiais internacionais, operações de socorro em caso de desastres e outras medidas que beneficiariam todos os Estados-membros.

Como retomar o projeto utópico de Keynes

O acordo era muito hábil. Para evitar o pagamento de juros ou, pior, de ter o dinheiro confiscado, os Estados com saldo excedente deveriam competir entre si para importar dos estados deficitários. O aumento da receita de exportação dos estados deficitários favoreceria seu retorno ao equilíbrio comercial. Haveria ganhos múltiplos. Desenvolvimento do comercio internacional, garantias aos trabalhadores, maior prosperidade, relações mais pacíficas, aumento dos fundos investidos no desenvolvimento dos paises pobres, que não acumulariam dívidas como hoje em dia.

Mas o projeto de Keynes nunca se concretizou. E o mundo pós-guerra que ele imaginava nunca existiu. De um lado, as políticas de ajuste estrutural do Banco Mundial e do FMI ocasionaram enormes desgastes; a dívida do terceiro mundo, enorme, nao será jamais liquidada; Wall Street decide as medidas a serem tomadas no lugar os governos democraticamente eleitos (ao ponto de fazer com que países como a Argentina, se rebelem); as regras do comércio mundial não favorecem os países mais pobres; o egoísmo dos ricos aumenta à medida que eles enriquecem.

Como fazer do comércio igualitário uma realidade, agora que a OMC e suas regras já existem? George Monbiot acredita que o Sul endividado poderia agitar seus 26 trilhões de dolares de dívida como uma espécie de ameaça nuclear contra o sistema financeiro mundial, caso este não se disponha a estabelecer uma OIC. O Sul poderia tambem instaurar sua propria União de Compensações, mais modesta que a originalmente prevista Que tal se a América Latina fosse o primeiro continente a colocar tal projeto em prática? Um novo governo novo — na França, por exemplo — poderia, talvez, colocá-lo em seu programa (coisas mais surpareendentes já ocorreram…) Mas, antes de detalhar os mecanismos, seria útil compreender que nada exige que reinventemos a roda, no comércio internacional. Keynes já passou por lá…

[1] The Age of Consent (Flamingo, Londres, 2003), uma obra de George Monbiot, contradiz a afirmação, correntemente aceita, segundo a qual o próprio Keynes concebeu o FMI e o Banco Mundial. Segundo o historiador Armand Van Dormael, autor de Bretton Woods: Birth of a Monetary Sistem (Palgrave Macmillan, Londres, 1978), Monbiot explica que Keynes, embora tendo obtido certas concessões de parte dos norte-americanos, previu que o FMI conduziria a dívidas impagáveis. O economista terminou aceitando as proposições norte-americanas porque, embora não estivesse satisfeito com o resultado, preferiu um sistema com regras à ausência delas

[2] Vale ressaltar a denominação, porque a OMC sempre recusou-se a se interessar pelo emprego

[3] Em sua obra Trade and the American Dream: a Social History of Postwar Trade Policy, University Press of Kentuchy, Lexington, 1996, Susan Ariel Aaronson trata desta história de maneira exaustiva

Comentários sobre esse texto:

Temos que fazer diferente!

Ainda que exista uma visão idílica de Susan George sobre as motivações de Keynes é urgente a alteração do paradigma econômico vigente.

Temos que contabilizar na geração de valores condições sociais, ambientais e culturais. A economia não é uma ciência da mera distribuição da riqueza, mas instrumento político da sociedade para desenvolver condições necessárias a sua sobrevivência. Sociedade essa não apenas local ou nacional, mas planetária.

Oportuna a lembrança da OIC, que para além de um sonho passado de superação de uma guerra, permanece como questão para gerações que precisam não repetir o passado, mas (re)significá-lo no presente para construir o seu futuro.2007-02-13 04:34:33


Outra globalização é possível

Sabemos que o mundo tem um câncer insaciável,e é deste mal que vamos perecer, ja que hoje o maldito dinheiro entorpeceu a sociedade, que, cada vez mais usa artifícios inescrupulosos para perpetuar alguns insanos no poder.

Por isso, o comércio mundial virou fantoche do Banco Mundial e do FMI, que atuam em favor dos "capetalistas" e estes, como pensam somente em seus umbigos não se preocupam com as gerações futuras, que , os direitos humanos garantem a cada ser humano.

Na verdade, nossa sociedade capitalista tem sede pelo pobre e miserável, pois, são eles que sustentam os "nobres". E sempre que se tem notícia de um pensador com idéias inovadoras a palavra utopia vem a tona, porque é notório que as mudanças que ocorreram e vão acontecer, têm com suporte o capital.

Sabemos de uma lei da física que diz o seguinte "toda ação, provoca uma reação inversamente proporcional", e é isso que está acontecendo. O mundo capitalista se desenvolveu numa velocidade assustadora, e agora, a Terra demonstra com requintes apocalípticos a proximidade do fim de nossa era.Site: Outra Globalização é possível
Cleuton
2007-02-13 03:01:51


Outra globalização é possível

As propostas de mudanças das instituições internacionais sempre esbarram no irrealismmo porque pressupõem que as potências dominantes abram mão voluntariamente de suas vantagens competitivas. Não abrem, como a história demonstra.

Os países emergentes que se deram bem nos últimos 30 anos são exatamente aqueles que aceitaram a realidade como é e montaram suas estratégias objetivando tirar o maior proveito possível dela, esquecendo sonhos mudancistas irreais.

O artigo de Susan contém algumas inverdades históricas e alguns pressupostos falaciosos, mas, ainda assim, é importante haver oposição e idéias alternativas ao modelo único, no mínimo para que o debate permita seguir validando-o ou não.pensador
2007-02-12 22:43:05


Outra globalização é possível

As propostas de mudanças das instituições internacionais sempre esbarram no irrealismmo porque pressupõem que as potências dominantes abram mão voluntariamente de suas vantagens competitivas. Não abrem, como a história demonstra. Os países emergentes que se deram bem nos últimos 30 anos são exatamente aqueles que aceitaram a realidade como é e montaram suas estratégias objetivando tirar o maior proveito possível dela, esquecendo sonhos mudancistas irreais. O artigo de Susan contém algumas inverdades históricas e alguns pressupostos falaciosos, mas, ainda assim, é importante haver oposição e idéias alternativas ao modelo único, no mínimo para que o debate permita seguir validando-o ou não.
pensador
2007-02-12 22:40:34


Brilhante Keynes.

Brilhante explanação de Susan George. Como foi keynes ao se preocupar com os problemas econômicos, não apenas da Inglaterra , mas de todo o mundo. A visão de problemas mundiais são de poucos e citaria um outro compatriota, H.G.Wells, que já defendia um planeta e não um país. Sâo visões como estas que nos levaria a um mundo mais justo. Claro que elas contrariam o caminhar do capitalismo, mas seriam atuais pois o dilema do atual capitalismo é justamente equilibrar para tornar a todos consumidores e alavancar o próprio sistema. Keynes foi perfeito na visão dos problemas econômicos,enfatizando o papel governamental na solução dos atritos do capitalismo. Só não previu a corrução.Esta sim contribui de forma enorme para os desequilíbrios. Os Estados atuais devem seus aportes à teoria keynesiana.
Site: Brilhante Keynes.
Frederico Bernardo
2007-02-12 22:21:56


Outra globalização é possível

A despeito da idéia ser interessante, e o contexto histórico que envolvia o mundo naquela época não ser totalmente altruísta como supostamente se extrai desta leitura, realmente a idéia de uma instituição mais complexa e com ferramental mais útil para solução de conflitos do comércio internacional nunca deixou de ser pauta no direito internacional.

Ocorre que, o mundo mudou drasticamente nos últimos anos, e o paradigma taylor/fordista que dominava o modelo industrial do pós-guerra foi completamente alterado para um modelo de produção altamente flexível, e que permitiu maior agilidade para alteração da produção das grandes empresas multinacionais, com núcleos decisórios altamente descentralizados.

Em resumo, mesmo que o modelo Keynesiano fosse implementado, seria rapidamente capturado pelo alteração do fluxo de pagamentos das próprias empresas que alterariam seus recebimentos conforme a necessidade e disponibilidade de recursos, inviabilizando totalmente um controle deste tipo.

Por outro lado, é importante frisar que no mundo atual, os Estados não têm força política para imprimir tal restrição ao comércio mundial!
Rodolpho Oliveira Santos
2007-02-12 20:17:48


Poderia ser diferente?

Independentemente da motivação de Neynes ser política, ética ou simplesmente econômica, o que o artigo resalta é a necessidade de reformulação das intituições internacionais, bem como a pertinência de alternativas mais racionais ao atual arcabouço econômico mundial, mesmo as já vislumbradas no passado. Sua Inglaterra se submeteria igualmente às mesmas regras democraticas acordadas e válidas para os demais países signatários. Não creio que as relações internacionais estejam tão boas ao ponto de desprezarmos a análise séria da contribuição do grande economista.
Site: Outra globalização é possível
Sérgio Xavier de Camargo
2007-01-20 22:45:58


Outra globalização é possível

Susan George faz uma leitura especiosa, para não dizer deliberadamente deformada, da realidade histórica. Esse conto edificante de uma OIC boazinha, e de um sistema automatico de compensacoes comerciais, que teria sido proposto generosamente por Keynes, simplesmente não corresponde à verdade histórica. O fato é que Keynes, atuando no interesse do seu proprio pais, arruinado pela guerra, queria encontrar um financiador generoso dos deficits ingleses, e esse financiandor teria de ser os EUA. Obviamente os EUA não estavam dispostos a servirem de "tia rica" que financia sem contar os deficits de um sobrinho em dificuldades eventuais. Não havia nada de generoso na proposta de Keynes: ele apenas pretendia resolver os problemas britânicos, apenas isso. Acho que Susan George deveria reler o que escreve e confrontar sua estapafurdia versao com a realidade historica. Ela também deveria reler o seu manual de economia, pois o que ela propõe não se sustenta na prática. Alimentar sonhos pode até ser bonito: pena que eles não sejam um substituto à realidade.
Site: Outra globalização é possível
Paulo Roberto de Almeida
2007-01-19 16:08:47

BRIC’s – ORIGENS

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:33 AM
 
 
 
TITLE:

PIVOTAL STATES AND U.S. STRATEGY

SOURCE:

Foreign Affairs v75 p33-51 Ja/F ’96

The magazine publisher is the copyright holder of this article and it is reproduced with permission. Further reproduction of this article in violation of the copyright is prohibited.

THE NEW DOMINOES
       Half a decade after the collapse of the Soviet Union, American policymakers and intellectuals are still seeking new principles on which to base national strategy. The current debate over the future of the international order–including predictions of the "end of history," a "clash of civilizations," a "coming anarchy," or a "borderless world"–has failed to generate agreement on what shape U.S. policy should take. However, a single overarching framework may be inappropriate for understanding today’s disorderly and decentralized world. America’s security no longer hangs on the success or failure of containing communism. The challenges are more diffuse and numerous. As a priority, the United States must manage its delicate relationships with Europe, Japan, Russia, and China, the other major players in world affairs. However, America’s national interest also requires stability in important parts of the developing world. Despite congressional pressure to reduce or eliminate overseas assistance, it is vital that America focus its efforts on a small number of countries whose fate is uncertain and whose future will profoundly affect their surrounding regions. These are the pivotal states.
    The idea of a pivotal state–a hot spot that could not only determine the fate of its region but also affect international stability–has a distinguished pedigree reaching back to the British geographer Sir Halford Mackinder in the 1900s and earlier. The classic example of a pivotal state throughout the nineteenth century was Turkey, the epicenter of the so-called Eastern Question; because of Turkey’s strategic position, the disintegration of the Ottoman Empire posed a perennial problem for British and Russian policymakers.
    Twentieth-century American policymakers employed their own version of a pivotal states theory. Statesmen from Eisenhower and Acheson to Nixon and Kissinger continually referred to a country succumbing to communism as a potential "rotten apple in a barrel" or a "falling domino." Although the domino theory was never sufficiently discriminative–it worsened America’s strategic overextension–its core was about supporting pivotal states to prevent their fall to communism and the consequent fall of neighboring states.
    Because the U.S. obsession with faltering dominoes led to questionable policies from Vietnam to El Salvador, the theory now has a bad reputation. But the idea itself–that of identifying specific countries as more important than others, for both regional stability and American interests–is sensible. The United States should adopt a discriminative policy toward the developing world, concentrating its energies on pivotal states rather than spreading its attention and resources over the globe.
    Indeed, the domino theory may now fit U.S. strategic needs better than it did during the Cold War. The new dominoes, or pivotal states, no longer need assistance against an external threat from a hostile political system; rather, the danger is that they will fall prey to internal disorder. A decade ago, when the main threat to American interests in the developing world was the possibility that nations would align with the Soviets, the United States faced a clear-cut enemy. This enemy captured the American imagination in a way that impending disorder does not. Yet chaos and instability may prove a greater and more insidious threat to American interests than communism ever was. With its migratory outflows, increasing conflict due to the breakdown of political structures, and disruptions in trade patterns, chaos undoubtedly affects bordering states. Reacting with interventionist measures only after a crisis in one state threatens an important region is simply too late. Further, Congress and the American public would likely not accept such actions, grave though the consequences might be to U.S. interests. Preventive assistance to pivotal states to reduce the chance of collapse would better serve American interests.
    A strategy of rigorously discriminate assistance to the developing world would benefit American foreign policy in a number of ways. First, as the world’s richest nation, with vast overseas holdings and the most to lose from global instability, the United States needs a conservative strategy. Like the British Empire in the nineteenth and early twentieth centuries, the interests of the United States lie in the status quo. Such a strategy places the highest importance on relations with the other great powers: decisions about the expansion of NATO or preserving amicable relations with Russia, China, Japan, and the major European powers must remain primary. The United States must also safeguard several special allies, such as Saudi Arabia, Kuwait, South Korea, and Israel, for strategic and domestic political reasons.
    Second, a pivotal states policy would help U.S. policymakers deal with what Sir Michael Howard, in another context, nicely described as "the heavy and ominous breathing of a parsimonious and pacific electorate." American policymakers, themselves less and less willing to contemplate foreign obligations, are acutely aware that the public is extremely cautious about and even hostile toward overseas engagements. While the American public may not reject all such commitments, it does resist intervention in areas that appear peripheral to U.S. interests. A majority also believes, without knowing the relatively small percentages involved, that foreign aid is a major drain on the federal budget and often wasted through fraud, duplication, and high operating costs. Few U.S. politicians are willing to risk unpopularity by contesting such opinions, and many Republican critics have played to this mood by attacking government policies that imply commitments abroad. Statesmen responsible for outlining U.S. foreign policy might have a better chance of persuading a majority of Congress and the American public that a policy of selective engagement is both necessary and feasible.
    Finally, a pivotal states strategy might help bridge the conceptual and political divide in the national debate between "old" and "new" security issues. The mainstream in policy circles still considers new security issues peripheral; conversely, those who focus on migration, overpopulation, or environmental degradation resist the realist emphasis on power and military and political security.
    In truth, neither the old nor the new approach will suffice. The traditional realist stress on military and political security is simply inadequate–it does not pay sufficient attention to the new threats to American national interests. The threats to the pivotal states are not communism or aggression but rather overpopulation, migration, environmental degradation, ethnic conflict, and economic instability, all phenomena that traditional security forces find hard to address. The "dirty" industrialization of the developing world, unchecked population growth and attendant migratory pressures, the rise of powerful drug cartels, the flow of illegal arms, the eruption of ethnic conflict, the flourishing of terrorist groups, the spread of deadly new viruses, and turbulence in emerging markets–a laundry list of newer problems–must also concern Americans, if only because their spillover effects can hurt U.S. interests.
    Yet the new interpretation of security, with its emphasis on holistic and global issues, is also inadequate. Those who point to such new threats to international stability often place secondary importance (if that) on U.S. interests; indeed, they are usually opposed to invoking the national interest to further their cause. For example, those who criticized the Clinton administration in the summer of 1994 for not becoming more engaged in the Rwandan crisis paid little attention to the relative insignificance of Rwanda’s stability for American interests. The universal approach common to many advocates of global environmental protection or human rights, commendable in principle, does not discriminate between human rights abuses in Haiti, where proximity and internal instability made intervention possible and even necessary, and similar abuses in Somalia, where the United States had few concrete interests.
    Furthermore, the new security approach cannot make a compelling case to the American public for an internationalist foreign policy. The public does not sense the danger in environmental and demographic pressures that erode stability over an extended period, even if current policies, or lack thereof, make this erosion inexorable and at some point irreversible. Finally, the global nature of the new security threats makes it tempting to downplay national governments as a means to achieving solutions.
    A pivotal states strategy, in contrast, would encourage integration of new security issues into a traditional, state-centered framework and lend greater clarity to the making of foreign policy. This integration may make some long-term consequences of the new security threats more tangible and manageable. And it would confirm the importance of working chiefly through state governments to ensure stability while addressing the new security issues that make these states pivotal.

HOW TO IDENTIFY A PIVOT
       According to which criteria should the pivotal states be selected? A large population and an important geographical location are two requirements. Economic potential is also critical, as recognized by the U.S. Commerce Department’s recent identification of the "big emerging markets" that offer the most promise to American business. Physical size is a necessary but not sufficient condition: Zaire comprises an extensive tract, but its fate is not vital to the United States.
    What really defines a pivotal states is its capacity to affect regional and international stability. A pivotal state is so important regionally that its collapse would spell transboundary mayhem: migration, communal violence, pollution, disease, and so on. A pivotal state’s steady economic progress and stability, on the other hand, would bolster its region’s economic vitality and political soundness and benefit American trade and investment.
    For the present, the following should be considered pivotal states: Mexico and Brazil; Algeria, Egypt, and South Africa; Turkey; India and Pakistan; and Indonesia. These states’ prospects vary widely. India’s potential for success, for example, is considerably greater than Algeria’s; Egypt’s potential for chaos is greater than Brazil’s. But all face a precarious future, and their success or failure will powerfully influence the future of the surrounding areas and affect American interests. This theory of pivotal states must not become a mantra, as the domino theory did, and the list of states could change. But the concept itself can provide a necessary and useful framework for devising American strategy toward the developing world.

A WORLD TURNING ON PIVOTS
       To understand this idea in concrete terms, consider the Mexican crisis a year ago. Mexico’s modernization has created strains between the central and local governments and difficulties with the unions and the poorest groups in the countryside, and it has damaged the environment. Like the other pivotal states, Mexico is delicately balanced between progress and turmoil.
    Given the publicity and political debate surrounding the Clinton administration’s rescue plan for Mexico, most Americans probably understood that their southern neighbor is special, even if they were disturbed by the means employed to rescue it. A collapse of the peso and the consequent ruin of the Mexican economy would have weakened the U.S. dollar, hurt exports, and caused convulsions throughout Latin America’s Southern Cone Common Market and other emerging markets. Dramatically illustrating the potency of new security threats to the United States, economic devastation in Mexico would have increased the northward flow of illegal immigrants and further strained the United States’ overstretched educational and social services. Violent social chaos in Mexico could spill over into this country. As many bankers remarked during the peso crisis, Mexico’s troubles demonstrated the impossibility of separating "there" from "here."
    Because of Mexico’s proximity and its increasing links with the United States, American policymakers clearly needed to give it special attention. As evidenced by the North American Free Trade Agreement, they have. But other select states also require close American attention.

EGYPT
       Egypt’s location has historically made its stability and political alignment critical to both regional development and relationships between the great powers. In recent decades, its proximity to important oil regions and its involvement in the Arab-Israeli peace process, which is important for the prosperity of many industrialized countries, has enhanced its contribution to stability in the Middle East and North Africa. Furthermore, the government of President Muhammad Hosni Mubarak has provided a bulwark against perhaps the most significant long-term threat in the region–radical Islamic fundamentalism.
    The collapse of the current Egyptian regime might damage American interests more than the Iranian revolution did. The Arab-Israeli peace process, the key plank of U.S. foreign policy in this region for the past 20 years, would suffer serious, perhaps irreparable, harm. An unstable Egypt would undermine the American diplomatic plan of isolating fundamentalist "rogue" states in the region and encourage extremist opposition to governments everywhere from Algeria to Turkey. The fall of the Mubarak government could well lead Saudi Arabia to reevaluate its pro-Western stance. Under such conditions, any replay of Operation Desert Storm or similar military intervention in the Middle East on behalf of friendly countries such as Kuwait or Jordan would be extremely difficult, if not impossible. Finally, the effect on oil and financial markets worldwide could be enormous.
    Egypt’s future is not only vital, but very uncertain. While some signs point to increasing prosperity and stability–birth rates have declined, the United States recently forgave $7 billion of debt, and Egypt’s international reserves reached $16 billion in 1995–the preponderance of evidence paints a dimmer picture. Jealously guarding its power base and wary that further privatization would produce large numbers of resentful former state employees, the government fears losing control over the economy. Growth rates lurch fitfully upward, and although reform has improved most basic economic indicators, it has also widened the gap between rich and poor. Roughly one-third of the population now lives in poverty, up from 20-25 percent in 1990.
    A harsh crackdown on fundamentalism has reduced the most serious short-term threat to the Mubarak regime, but a long-term solution may prove more elusive. The government’s brutal attack on the fundamentalist movement may ultimately fuel Islam’s cause by alienating the professional middle class; such a policy has already greatly strengthened the more moderate Muslim Brotherhood and radicalized the extremist fringe.
    Environmental and population problems are growing. Despite the gradually decreasing birthrate, the population is increasing by about one million every nine months, straining the country’s natural resources, and is forecast to reach about 94 million by 2025.
    Recognizing Egypt’s significance and fragility, successive U.S. administrations have made special provisions to maintain its stability. In 1995 Egypt received $2.4 billion from the U.S. government, making it the second-largest recipient of American assistance, after Israel. That allocation is primarily the result of the Camp David accords and confirms Egypt’s continuing importance in U.S. Middle East policy. Current attempts by American isolationists to cut these funds should be strongly resisted. On the other hand, the U.S. government and Congress should seriously consider redirecting American aid. f-16 fighters can do little to help Egypt handle its internal difficulties, but assistance to improve infrastructure, education, and the social fabric would ease the country’s troubles.

INDONESIA
       While Egypt’s prospects for stability are tenuous, Indonesia’s future appears brighter. By exercising considerable control over the population and the economy for the last several decades, Indonesia’s authoritarian regime has engineered dramatic economic growth, now expected to be about 7 percent annually for the rest of the decade. Poverty rates have dropped drastically, and a solid middle class has emerged. At first glance, Indonesia’s development has been a startling success. However, the government now confronts strains generated by its own efforts.
    Along with incomes, education levels, and health status, Indonesia’s population is increasing dramatically. With the fourth-largest population in the world and an extra three million people added each year, the country is projected to reach 260 million inhabitants by 2025. The main island of Java, one of the most densely populated places on earth, can scarcely accommodate the new bodies. In response, the government is forcing many citizens to migrate to other islands. This resettlement program is the focal point for a host of other tensions concerning human rights and the treatment of minorities. The government’s brutal handling of the separatist movement in East Timor continues to hinder its efforts to gain international respect. President Suharto’s regime has made a point of cooperating with Chinese entrepreneurs to boost economic expansion, but ethnic differences remain entrenched. Finally, the government’s favoring of specific businesses has produced deep-rooted corruption.
    Because of the government’s tight control, it can maintain stability even while pursuing these questionable approaches to handling its people. However, as a more sophisticated middle class emerges, Indonesians are less willing to accept the existing concentration of economic and political power. These opposing forces, one for continued central control and one for more dispersed political power, will clash when Suharto leaves office, probably after the 1998 elections.
    A reasonable scenario for Indonesia would be the election of a government that shares power more broadly, with greater respect for human rights and press freedoms. The new regime would maintain Indonesia’s openness to foreign trade and investment, and it would end favoritism toward certain companies. Better educated, better paid, and urbanized for a generation, Indonesians would have fewer children per family. Indonesia would continue its leadership role in the Association of Southeast Asian Nations (ASEAN) and the Asia-Pacific Economic Cooperation forum (APEC), helping foster regional growth and stability.
    The possibility remains, however, that the transfer of power in Jakarta could trigger political and economic instability, as it did in 1965 at the end of President Sukarno’s rule. A new regime might find it more difficult to overawe the people while privately profiting from the economy. Elements of the electorate could lash out in frustration. Riots would then jeopardize Indonesia’s growth and regional leadership, and by that stage the United States could do nothing more than attempt to rescue its citizens from the chaos.
    Instability in Indonesia would affect peace and prosperity across Southeast Asia. Its archipelago stretches across key shipping lanes, its oil and other businesses attract Japanese and U.S. investment, and its stable economic conditions and open trade policies set an example for ASEAN, APEC, and the region as a whole. If Indonesia, as Southeast Asia’s fulcrum, falls into chaos, it is hard to envisage the region prospering. It is equally hard to imagine general distress if Indonesia booms economically and maintains political stability.
    Despite the difficulty, the United States must have a strategy for encouraging Indonesia’s stability. Part of this will involve close cooperation with Japan, which is by far the largest donor to Indonesian development. A more sensitive aspect of the strategy will be encouraging the regime to respect human rights and ethnic differences. The strategy also calls for calibrated pressure on Indonesia to decrease its widespread corruption, which in any case is required to achieve the country’s full integration into the international business world.

BRAZIL
       Brazil borders every country in South America except Ecuador and Chile, and its physical size, complex society, and huge population of 155 million people are more than enough to qualify it as a pivotal state.
    Brazil’s economy appears to be recovering from its 1980s crisis, although the indicators for the future are inconsistent. President Fernando Henrique Cardoso’s proposals for economic reform, which include deregulation and increased openness to foreign investment in key industries, have advanced in Brazil’s congress. Many basic social and economic indexes point to a generally improving quality of life, including the highest industrial growth since the 1970s (6.4 percent in 1994), declining birth and death rates, increasing life expectancy, and an expanding urban infrastructure. In the longer term, however, Brazil must address extreme economic inequality, poor educational standards, and extensive malnutrition. These realities, together with a burgeoning current account deficit and post–peso crisis skittishness, help diminish investor confidence.
    Were Brazil to founder, the consequences from both an environmental and an economic point of view would be grave. The Amazon basin contains the largest tropical rain forest in the world, boasting unequaled biodiversity. Apart from aesthetic regrets about its destruction, the practical consequences are serious. The array of plants and trees in the Amazon is an important source of natural pharmaceuticals; deforestation may also spread diseases as the natural hosts of viruses and bacteria are displaced to other regions.
    A social and political collapse would directly affect significant U.S. economic interests and American investors. Brazil’s fate is inextricably linked to that of the entire South American region, a region that before its debt and inflation crises in the 1970s bought large amounts of U.S. goods and is now potentially the fastest-growing market for American business over the decades to come. In sum, were Brazil to succeed in stabilizing over the long term, reducing the massive gap between its rich and poor, further opening its markets, and privatizing often inefficient state-run industries, it could be a powerful engine for the regional economy and a stimulus to U.S. prosperity. Were it to fail, Americans would feel the consequences.

SOUTH AFRICA
       Apartheid’s end makes South Africa’s transition particularly dramatic. So far, President Nelson Mandela’s reconciliation government has set an inspiring example of respect for ethnic differences, good governance, and prudent nurturing of the country’s economic potential. In contrast to other conflicts, in which different groups have treated each other with so much acrimony that they could not negotiate, the administration has successfully overcome some of its political divisions: it includes both former apartheid president Frederik Willem de Klerk and Zulu Chief Mangosuthu Buthelezi. Moreover, South Africa is blessed with a strong infrastructure, a sound currency, and vast natural resources. These assets make its economy larger and more vital than any other on the continent, accounting for a colossal 75 percent of the southern African region’s economic output. No longer an international pariah, it is working to develop robust trade and financial links around the region and the globe. A hub for these connections, South Africa could stimulate growth throughout the southern cone of Africa.
    There are indications, however, that South Africa could succumb to political instability, ethnic strife, and economic stagnation. Power-sharing at the cabinet level belies deep ethnic divisions. Any one of several fissures could collapse this collaboration, plunging the country into civil war. Afrikaner militias may grow increasingly intransigent, traditional tribal leaders could raise arms against their diminished influence, and when Mandela no longer leads the African National Congress, the party may abandon its commitment to ethnic reconciliation.
    As Mandela’s government struggles to improve black living standards and soothe ethnic tensions, the legacy of apartheid creates a peculiar dilemma. It will be hard to meet understandable black expectations of equity in wages, education, and health, given the country’s budget deficits and unstable tax base. As racial inequalities persist, blacks are likely to grow impatient. Yet if whites feel they are paying a disproportionate share for improved services for blacks, they might flee the country, taking with them the prospects for increased foreign direct investment.
    While the primary threats to South Africa’s stability are internal, its effectiveness in containing them will have repercussions beyond its borders. Even before apartheid ended, South Africa had enormous influence over the region’s political and economic development, from supporting insurgencies throughout the "front-line states" to providing mining jobs for migrant workers from those same countries. If South Africa achieves the economic and political potential within its grasp, it will be a wellspring of regional political stability and economic growth. If it prospers, it can demonstrate to other ethnically tortured regions a path to stability through democratization, reconciliation, and steadily increasing living standards. Alternatively, if it fails to handle its many challenges, it will suck its neighbors into a whirlpool of self-defeating conflict.
    Although controlling the sea-lanes around the Cape of Good Hope would be important, especially if widespread trouble were to erupt in the Middle East, American strategic interests are not otherwise endangered in southern Africa. Yet because South Africa is the United States’ largest trading partner in Africa and possesses vast economic potential, its fate would affect American trading and financial interests that have invested there. It would also destabilize key commodity prices, especially in the gold, diamond, and ore markets. More generally, instability in South Africa, as in Brazil and Indonesia, would cast a large shadow over confidence in emerging markets.
    American policy toward South Africa should reflect its importance as a pivotal state. While recognizing South Africa’s desire to solve its problems without external interference, the United States should promote South Africa’s economic and political stability. Of $10.5 billion in American economic aid given in 1995, a mere one percent ($135 million) was for South Africa. A strategy that acknowledges this nation’s importance to American interests would surely be less parsimonious.

ALGERIA AND TURKEY
       Algeria’s geographical position makes its political future of great concern to American allies in Europe, especially France and Spain. A civil war and the replacement of the present regime by extremists would affect the security of the Mediterranean sea-lanes, international oil and gas markets, and, as in the case of Egypt, the struggle between moderate and radical elements in the Islamic world. All the familiar pressures of rapid population growth and drift to the coastal cities, environmental damage, increasing dependence on food imports, and extremely high youth unemployment are evident. Levels of violence remain high as Algerian government forces struggle to crush the Islamist guerrilla movement.
    While a moderate Islamist government might prove less disturbing than the West fears, a bloody civil war or the accession of a radical, anti-Western regime would be very serious. Spain, Italy, and France depend heavily on Algerian oil and gas and would sorely miss their investments, and the resulting turbulence in the energy markets would certainly affect American consumers. The flood of middle-class, secular Algerians attempting to escape the bloodshed and enter France or other parts of southern Europe would further test immigration policies of the European Union (EU). The effects on Algeria’s neighbors, Morocco and Tunisia, would be even more severe and encourage radical Islamic elements everywhere. Could Egypt survive if Algeria, Morocco, Tunisia, and Muammar al-Qaddafi’s Libya collaborated to achieve fundamentalist goals? Rumors of an Algerian atomic bomb are probably premature, but the collapse of the existing regime would undoubtedly reduce security in the entire western Mediterranean. All the more reason for the United States to buttress the efforts of the International Monetary Fund and for the Europeans to improve Algeria’s well-being and encourage a political settlement.
    Although Turkey is not as politically or economically fragile as Algeria, its strategic importance may be even greater. At a multifold crossroads between East and West, North and South, Christendom and Islam, Turkey has the potential to influence countries thousands of miles from the Bosporus. The southeast keystone of NATO during the Cold War and an early (if repeatedly postponed) applicant to enlarged EU membership, Turkey enjoys solid economic growth and middle-class prosperity. However, it also shows many of the difficulties that worry other pivotal states: population and environmental pressures, severe ethnic minority challenges, and the revival of radical Islamic fundamentalism, all of which test the country’s young democratic institutions and assumptions. There are also a slew of external problems, ranging from bitter rivalries with Greece over Cyprus, various nearby islands’ territorial boundaries, and Macedonia, to the developing quarrel with Syria and Iraq over control of the Euphrates water supply, to delicate relationships with the Muslim-dominated states of Central Asia. A prosperous, democratic, tolerant Turkey is a beacon for the entire region; a Turkey engulfed by civil wars and racial and religious hatreds, or nursing ambitions to interfere abroad, would hurt American interests in innumerable ways and concern everyone from pro-NATO strategists to friends of Israel.

INDIA AND PAKISTAN
       Considered separately, the challenges facing the two great states of South Asia are daunting enough. Each confronts a population surge that is forecast to take Pakistan’s total (123 million in 1990) to 276 million by 2025, and India’s (853 million in 1990) to a staggering 1.45 billion, thus equaling China’s projected population. While such growth taxes rural environments by causing the farming of marginal lands, deforestation, and depletion of water resources, the urban population explosion is even more worrisome. With 46 percent of Pakistan’s and 35 percent of India’s population under 15 years old, according to 1990 census figures, tens of millions of young people enter the job market each year; the inadequate opportunities for them further strain the social fabric. All this forms an ominous backdrop to rising tensions, as militant Hindus and Muslims, together a full fifth of the population, challenge India’s democratic traditions, and Islamic forces stoke nationalist passions across Pakistan.
    The shared borders and deep-rooted rivalry of India and Pakistan place these pivotal states in a more precarious position than, for example, Brazil or South Africa. With three wars between them since each gained independence, each continues to arm against the other and quarrel fiercely over Kashmir, Pakistan’s potential nuclear capabilities and missile programs, and other issues. This jostling fuels their mutual ethnic-cum-religious fears and could produce another bloody conflict that neither government could control. What effect a full-scale war would have on the Pakistan-China entente is hard to predict, but the impact of such a contest would likely spread from Kashmir into Afghanistan and farther afield, and Pakistan could find support in the Muslim world. For many reasons, and perhaps especially the nuclear weapons stakes, the United States has a vital interest in encouraging South Asia’s internal stability and external peace.
    Could this short list of important states in the developing and emerging-markets regions of the globe include others? Possibly. This selection of pivotal states is not carved in stone, and new candidates could emerge over the next decades. Having an exact list is less important than initiating a debate over why, from the standpoint of U.S. national interests, some states in the developing world are more important than others.

BETTER WISE THAN WIDE
       The United States needs a policy toward the developing world that does not spread American energies, attention, and resources too thinly across the globe, but rejects isolationist calls to write it off. This is a realistic policy, both strategically and politically. Strategically, it would permit the United States, as the country that can make the greatest contribution to world security, to focus on supporting pivotal states. Politically, given the jaundiced view of Americans and their representatives toward overseas engagements, a strategy of discrimination is the strongest argument against an even greater withdrawal from the developing world than is now threatened.
    As the above case studies suggest, each pivotal state grapples with an intricate set of interrelated problems. In such an environment, the United States has few clear-cut ways to help pivotal states succeed. Therefore, it must develop a subtle, comprehensive strategy, encompassing all aspects of American interaction with each one. Those strategies should include appropriate focusing of U.S. Agency for International Development assistance, promoting trade and investment, strengthening relationships with the country’s leaders, bolstering country-specific intelligence capabilities and foreign service expertise, and coordinating the actions of government agencies that can influence foreign policy. In short, the United States must use all the resources at its disposal to buttress the stability of key states around the globe, working to prevent calamity rather than react to it. Apart from avoiding a great-power war, nothing in foreign policy could be more important.
    This focus on the pivotal states inevitably means that developing states not deemed pivotal would receive diminished attention, energy, and resources. This will seem unfair to many, since each of the pivotal states examined above enjoys a higher per capita GDP than extremely poor nations like Mali and Ethiopia. Ideally, U.S. assistance to the entire developing world would significantly increase, but that will not happen soon. A pragmatic refocusing of American aid is better than nothing at all being given to the developing world, which may happen if the isolationist mood intensifies.
    Such a refocusing could improve the American public’s confidence that its money can be used effectively abroad. Relative to what other states give for development, the American contribution is declining. By continuing to spread those resources across a broad swath of developing countries, the United States might further diminish the impact of its assistance in many countries. In contrast, concentrating on a few pivotal states would increase American influence in them and improve the chances of convincing the public to spend resources overseas.
    Current patterns of assistance to developing and emerging countries do not reflect American global security interests and in many cases seem glaringly inconsistent with U.S. strategic priorities. While conceding that by far the largest amounts of American aid will go to Israel and Egypt, is it not curious that India, like South Africa, receives less than one percent of total U.S. assistance? Pakistan receives virtually nothing. Algeria receives nothing. Brazil is given one-fifth of the aid awarded to Bolivia. Turkey gets less than Ethiopia (although, like Egypt, Ankara is given a large amount of military assistance that is hard to explain in the post–Cold War environment). Surely this requires serious examination?
    In changing these patterns, diplomatic and political objections will be inevitable. Questions will arise about countries not on the list, particularly when one of them faces a crisis. Some will plead that exceptions be made for states that have been encouraged to undertake internal political changes, like Haiti, El Salvador, and the Philippines. Foreign service professionals will caution against making this strategy part of the declared policy of the United States, for that could indicate likely American reactions in a crisis. The more critics raise these problems, the more controversial this idea will become.
    However, the pivotal states strategy merits such a debate, and it is high time for such a policy discussion to begin. As Mackinder pointed out, democracies find it difficult to think strategically in times of peace. All the above-mentioned problems and reservations, far from weakening the case for helping pivotal states, point to the importance of identifying how better to order U.S. policies in different parts of the world. A debate over pivotal states would also provide a way of checking the extent to which American agencies already carry out a discriminative strategy and the degree to which they recognize that the traditional types of external threats are not the only sources of danger to countries important to U.S. interests.
    Would this formula solve all of America’s foreign policy challenges? By no means. Priority should always be given to managing relations with the other great powers. In view of the international convulsions of the past 10 years, who would be rash enough to predict American relations with Russia, Japan, and China a decade or more hence and the dire implications if they go badly? Yet even if those countries remain our primary concern, the developing world still needs a place in U.S. global strategy. By identifying pivotal states to Congress and the public and providing the greatest possible support to those countries, this strategy has a greater chance of coherence and predictability than vague and indiscriminate assurances of good will to all developing countries, large and small. America’s concern about traditional security threats would then be joined by a heightened awareness of the newer, nonmilitary dangers to important countries in the developing world and the serious repercussions of their collapse. Whichever administration steers the United States into the next century, American priorities would be ordered, and its foreign policy toward the developing world would have a focus–that of supporting those pivotal states whose future affects the fate of much of the planet.
    Added material
    Robert S. Chase is a Ph.D. candidate in economics at Yale University. Emily B. Hill is a Ph.D. candidate in history at Yale University. Paul Kennedy is Professor of History at Yale University.

WBN: 9600103188005JI" name=K2Query> JI " name=EnglishQuery> (FOREIGN AFF FOREIGN AFFAIRS 1996 JANUARY FEBRUARY JAN FEB JANUARY FEBRUARY 75)" name=FulltextHighlightQuery>

BRIC:   Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

BRIC é um acrônimo cunhado pelo grupo Goldman Sachs para designar os quatro principais países emergentes do mundo, a saber: Brasil, Russia, India e China. Usando as últimas projeções demográficas e modelos de acumulação de capital e crescimento de produtividade, o grupo Goldman Sachs mapeou as economias dos países BRICs até 2050. Especula-se que esses países poderão se tornar a maior força na economia mundial.

Se os resultados correrem como esperado em menos de 40 anos as economias BRICs juntas poderão ser maiores que as dos G6 (Estados Unidos da América, Japão, Inglaterra, Alemanha, França e Itália) em termos de dólar americano (US$).

O termo surgiu depois de tratatos de cooperação e comércio assinados em 2002.

O estudo ressalta que cada um dos quatro enfrenta desafios diferentes para manter o crescimento na faixa desejável. Por isso, existe uma boa chance de as previsões não se concretizarem, por políticas ruins, simplesmente má sorte, ou por erro nas projeções.

Mas se os BRICs chegarem pelo menos próximos das previsões, as implicações na economia mundial serão grandes. A importância relativa dos BRICs como usina de novas demandas de crescimento e poder de gasto pode mudar mais sensível e rapidamente do que se imagina a economia mundial.

O grupo possuirá mais de 40% da população mundial e juntos terão um PIB de mais de 85 trilhões de dólares (US$). Esses quatro países não formam um bloco político (como a União Europeia), nem uma aliança de comércio formal (como o Mercosul e ALCA) e muito menos uma aliança militar (como a OTAN), mas formar uma aliança através de vários tratados de comércio e cooperação assinados em 2002 para alavancar seus crescimentos.  Leia mais, o tópico da Wiki segue no site….

 

2050

Marx sustenta, brilhantemente, que a infra-estrutura econômica é o que determina a super-estrutura política e ideológica da sociedade. Diz ainda que a classe dominante é a classe detentora dos meios de produção. No mundo de hoje, o poder político e ideológico é exercido pelos países ricos, com uma absoluta hegemonia norte-americana, em grande medida em função da riqueza que suas sociedades acumularam no ultimo século de expansão capitalista.

Mas como será o mundo daqui a 5 décadas, em 2050? 50 anos, em se tratando de um único ser é grande parte de sua vida. Mas na história das sociedades, é um espaço curto de tempo.

Talvez por isso, que os think-thanks (centros de estratégia) seja em Nova Iorque, Pequim ou São Paulo tratam de buscar projetar — a partir de determinados pressupostos — como poderão ser as nossas sociedades em determinado número de anos se seguirem determinadas opções. Nas ciências exatas e nas ciências sociais, inúmeros instrumentais científicos teóricos e metodológicos permitem ver adiante. No caso da economia, enxergar adiante é possível com base em projeções matemáticas da econometria obtidas a partir de alguns pressupostos dados.

Um estudo do banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs, divulgado há poucos dias, denominado Dreaming with BRIC’s: The Path to 2050 (Sonhando com BRIC’s: o caminho para 2050), assinado por Dominic Wilson e Roopa Purushothaman, conclui que o Brasil, a Rússia, a Índia e a China (a sigla BRIC’s) poderão se tornar em 50 anos as maiores economias do mundo. Somados, os PIB’s destes quatros países seriam maiores que as atuais 6 maiores economias capitalistas somadas (Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Itália) — em 2050. Hoje, os quatro grandes países em desenvolvimento representam apenas 15% do PIB dos 6 mais ricos. No modelo matemático, os pesquisadores trabalharam a partir de três grandes variáveis econômicas: o crescimento do PIB, a renda per capita e a variação do câmbio. O estudo — dentro dos pressupostos dados — é cientificamente confiável visto que em se utilizando o mesmo modelo para efeito de comparação com o período anterior (1950/2000), o Japão e a Alemanha — à época, arrasados, saindo da guerra — tinham uma situação bastante semelhante aos BRIC’s hoje. Atualmente, o Brasil encontra-se igualmente arrasado por uma outra guerra, o neoliberalismo imposto na década de 90.

No estudo, o Brasil cresceria a uma taxa média de 3,7% a/a. Nos últimos 50 anos, nossa taxa média de crescimento do PIB esteve em 5,3% a/a. Essa média seria razoavelmente superior não fossem as décadas de 80 e 90, anos de estagnação/recessão econômica. Nos anos 1990, quando o Brasil foi um dos laboratórios do novo liberalismo econômico, verificou-se um crescimento econômico negativo, se comparado ao crescimento demográfico. O estudo em tela propõe como receita para esse crescimento mais educação, aumentar a poupança interna, reelaborar as instituições e — como não poderia deixar de ser, em se tratando de um banco estadunidense — abrir o mercado.

Na verdade, para efetivar as projeções ou mesmo superá-la — em 2050, pelo estudo o Brasil seria a 5ª maior economia do mundo — o país precisa superar problemas-chave crônicos como a baixa taxa de investimento, a excessiva dependência externa e os gargalos de infra-estrutura. Afinal, no Brasil, a taxa de investimento em relação ao PIB é de 19%, ao passo que na China a taxa está em 36%. O passivo externo brasileiro, na casa dos US$ 400 bilhões é outra condicionalidade estrutural para o equacionamento do impasse para o desenvolvimento. E o setor de infra-estrutura, arrasado com as privatizações e a falta de investimento, inibe o dinamismo da economia.

Mas as potencialidades brasileiras estão bastante além de um taxa media de crescimento de 3,7% a/a, como projeta o estudo. Em períodos anteriores, do nacional-desenvolvimentismo, chegamos a taxas medias de 8%. A China — com a orientação atual de primado de sua soberania e de seu desenvolvimento socialista — prevê a manutenção de taxas medias de crescimento entre 7% e 8% para os próximos 20 anos, informou Li Deyong, presidente da Administração Estatal de Estatística no Fórum de Crescimento Econômico da China 2003 realizado em Suzhou. Já o Brasil tem dois grandes patrimônios: um território imenso e rico em recursos naturais e um povo novo, criativo e trabalhador, representando um gigantesco mercado interno. Ativar estes dois elementos, sincronicamente e de maneira racional e planejada, é um caminho para um futuro próspero. Atualmente, porém, constrangimentos de toda natureza impostos desde fora limitam nossas enormes potencialidades. É por isso que para se libertar de constrangimentos de ordem econômica — impostos pelo imperialismo — é que gestões afirmativamente independentes e contra-hegemônicas devem ser o nosso caminho tático atual, enquanto país, buscando alternativas polares no mundo unipolar.

Mas, se no campo econômico estão postos desafios imensos, ao mesmo tempo, no campo político damos passos largos para a afirmação do país e do mundo em desenvolvimento — como temos comentado quase semanalmente neste espaço.

Aos BRIC’s, soma-se a África do Sul e temos aí o G-5 — objeto prioritário do país internacionalmente hoje, junto com a unidade da América do Sul. Os interesses em comum são muitos, mesmo que estejam geograficamente distantes, mas um é de longe, o principal: o desenvolvimento e a paz, mais viáveis quanto menor for a distância econômica entre os países do mundo.

O Brasil une-se à China, que já é o segundo parceiro comercial e parceiro estratégico no setor cientifico e tecnológico. À Índia, nos unimos na grande potencialidade empresarial, mas também científica e tecnológica — o chanceler brasileiro por lá esteve em outubro, e em 2004, Lula lá estará. Com a Rússia mantemos uma Comissão bilateral de alto nível — que a Rússia mantém apenas com os EUA, a China, a França e a Ucrânia — que explora múltiplas potencialidades nas relações entre os gigantes da América do Sul e da Eurásia. Com os três — a China, a Índia e a Rússia — possuímos um bom nível de coordenação de posições políticas, na linha da defesa do multilateralismo e do desenvolvimento.

A África merece um parágrafo à parte — o presidente Lula passou oito dias em 5 países do continente — na última semana. Além das potencialidades econômicas, nos aproximam a cultura e, sobretudo, a luta pelo desenvolvimento. Com a África do Sul em particular, como disse o chanceler sul-africano em Pretoria, a visita do presidente brasileiro reforça a aliança do G-3 (Brasil, Índia e África do Sul) — embrião de um G-5, com a China e a Rússia.

O nível de desenvolvimento é uma determinante para o exercício do poder político, científico e militar — os Estados Unidos de hoje não nos desmentem. Assim, o cenário 2050 começa a ser efetivado hoje — em 2003 — à medida que o país buscar libertar-se de amarras ao desenvolvimento e à utilização completa de suas energias adormecidas, junto com os grandes países em desenvolvimento. Mas o caminho será longo e não sem inúmeros percalços.

Nota

O paper da Goldman Sachs pode ser consultado (em inglês) no seguinte endereço na internet: http://www.gs.com/insight/research/reports/99.pdf

Fatos e mitos sobre os BRIC’s

Quinta, 18 de janeiro de 2007, 08h04

Antonio Corrêa de Lacerda
 

O acróstico BRIC, a partir de Brasil, Rússia, Índia e China, tem ganho cada vez mais destaque no cenário internacional. Ele teria sido utilizado pela primeira vez por analistas da Goldman Sachs em um estudo especulativo sobre o desenvolvimento futuro desses países.

Posteriormente, a mídia se encarregou de disseminá-lo e torná-lo relativamente popular. Permite até mesmo uma analogia com o brick (tijolo ou bloco, em inglês), o que pode ser interpretado no sentido da construção de novos blocos de poder.

Não sem razão. Se tomarmos o ranking dos dez maiores países do mundo pelo critério de PIB (Produto Interno Bruto) por Paridade de Poder de Compra (PPC), vamos encontrar a China em segundo lugar, com um PIB-PPC de US$ 9,4 trilhões, logo após os EUA, em primeiro. A Índia aparece em quarto lugar, logo após Japão e Alemanha, com um PIB de US$ 3,6 trilhões. O Brasil ocupa a nona posição, com US$ 1,6 trilhão, e a Rússia, com US$ 1,5 trilhão, a décima.

Embora o Brasil tenha apresentado um crescimento econômico muito baixo, de apenas 2,5% na média anual dos últimos 25 anos, ainda está entre as dez maiores economias do mundo. O alto crescimento dos três demais países, em média de 6,5% no mesmo período, lhes tem dado um importante diferencial. Eles também se destacam pelas elevadas taxas de investimentos. A China, por exemplo investe mais de 40% do PIB. Os demais investem menos que isso, mas acima dos 21% do Brasil.

É interessante notar o papel do investimento direto estrangeiro (IDE) no processo. Embora seja dado grande destaque para o fato de os fluxos anuais destinados à China superarem de longe os do Brasil, visto sob outro ângulo a situação é diferente.

O estoque total do IDE acumulado historicamente, destinado aos países do BRIC proporcionalmente aos seus PIB’s, é uma medida relativa mais adequada para avaliação do seu grau de internacionalização. Considerando-se esse critério, o Brasil está em primeiro lugar, com 25,4% do PIB, um estoque de IDE de US$ 201,2 bilhões. A Rússia, com 17,3%, é o segundo. A China, embora tenha em valores absolutos o maior estoque, de US$ 317,9 bilhões, esse equivale a apenas 14,3% do PIB. No caso da Índia, essa participação é ainda menor, de apenas 5,8%:

 

Valores em US$ bilhões – posição de 2005

País

    Estoque de IDE

    % do PIB

    % da FBKF

Brasil

    201,2

    25,4

    9,5

Rússia

    132,5

    17,3

    10,5

Índia

    45,3

    5,8

    3,5

China

    317,9

    14,3

    9,2

Fonte elaboração Siemens/CS, com dados da UNCTAD e do FMI

O papel do IDE para o desenvolvimento desses países tem sido relevante. Ele gera impactos relevantes no padrão de produção e de comércio exterior dos países, assim como na questão tecnológica. Há uma interconexão crescente entre investimento e exportações na economia mundial. A integração às grandes cadeias produtivas globais, imprescindível para uma inserção externa ativa dos países em desenvolvimento, se dá, em grande medida, pela atração de filiais das grandes empresas globais.

Outro ponto de destaque é que embora o IDE seja relevante para as economias, ele apenas cumpre papel marginal na Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF), o total de investimentos dos países, em infraestrutura, ampliação da capacidade produtiva das empresas, construção civil e máquinas e equipamentos. Mesmo no caso da China, em que o IDE é muitas vezes equivocadamente apontado como o fator dinâmico, ele equivale a apenas 9,5% da FBKF. Não muito diferente da média internacional.

Vale destacar que grande parte dos grandes players mundiais já possuem uma sólida base instalada no Brasil. É natural que destinem mais atenção a grandes mercados emergentes onde ainda não detêm a mesma posição, como é o caso dos demais integrantes do BRIC. É fundamental elevar a parcela de investimento doméstico, que representa em média 90% do total realizado pelos países, para sustentar o crescimento econômico.

O volume do mercado, o potencial de crescimento, a rentabilidade, o ambiente de negócios, as condições macroeconômicas (câmbio, inflação, juros, etc), as políticas de desenvolvimento, a regulação e o aparato burocrático continuam a representar aspectos relevantes para realização de investimentos, sejam eles domésticos ou externos.

Antonio Corrêa de Lacerda é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil"

CHINA – LEI PROPRIEDADE + Matéria de Jornais

Filed under: Política Econômica — Porfiro @ 10:19 AM

 Financial Times – 09jan2008 – Rússia e China mostram a face não liberal do capitalismo

The New York Times – 05jan2008

Nas fábricas chinesas, dedos perdidos e baixos salários  [In Chinese Factories, Lost Fingers and Low Pay – January 5, 2008]

 

TRADE AND WAGES, RECONSIDERED

 

Economics focus

Krugman’s conundrum

Apr 17th 2008
From The Economist print edition

The elusive link between trade and wage inequality

 

Paul Krugman on trade and wages

Here is his new paper, but start first with this Mark Thoma summary, and two graphs from Brad DeLong.  The main point is that some U.S. imports may be more labor-intensive and less skill-intensive than previous classifications had indicated.  Here is one key paragraph (p.20):

But what are we to make of NAICS 334, Computer and Electronic Products? In U.S. data it ranks as the most skill-intensive of industries, yet it is also an industry in which more than three-quarters of imports come from developing countries, especially China.

If these sectors count as "importing labor," we can find that trade is creating more downward pressures on U.S. wages than we had thought. 

I don’t think Krugman is quite right to claim: "the apparent sophistication of imports from developing countries is in large part a statistical illusion."  I would sooner say that China and some other Asian countries are specializing in new (and sophisticated) techniques of cooperation, made possible by long-term historical investments in human capital and social norms.  At least in certain sectors, they are combining complementary labor inputs, with complementary capital inputs, more effectively than before; it’s hard to explain that change in the impoverished vocabulary of the substitution-obsessed Heckscher-Ohlin model.  The skill is in the combination not in the people themselves.  "Capital-intensive" vs. "labor-intensive" or "skilled" vs. "unskilled" are not simple either/or questions.   

 

The New York Times – 01jan2008

China se transforma na chaminé do mundo – parte 1
China se transforma na chaminé do mundo – parte 2
China se transforma na chaminé do mundo – parte 3

The New York Times  – 08dez2007

Caminhões movimentam a economia da China a um custo sufocante – parte 4
Caminhões movimentam a economia da China a um custo sufocante – parte 3
Caminhões movimentam a economia da China a um custo sufocante – parte 2
Caminhões movimentam a economia da China a um custo sufocante – parte 1

Le Monde 15dez2007

China permanece inflexível em relação à revalorização do yuan

A PetroChina, braço-armado do governo chinês no setor energético (05dez2007)

A Índia e o Japão querem consolidar o seu comércio para fazer frente à China (07nov2007)

16dez2007

Crescimento sufocante: na indústria de frutos do mar da China, água suja e peixes perigosos

24dez2007

Revisionismo e história: porque a pobre China parece ser mais rica do que é

16/10/2007 – El Pais


Comunistas chineses se agarram ao poder
Corrupção ameaça a sobrevivência do Partido Comunista Chinês
China procura o sucessor de Hu Jintao

Na nova China, novas antiguidades (Estadão, 29-04-2006 + dois artigos)

Em grande mudança, EUA imporão tarifas sobre a China (NYT, 31-03-2007)

Neste bravo mundo novo, o crescimento exagerado da Chíndia (FT, 21-03-07)

Eduardo Matarazzo Suplicy: A China depois de amanhã (fsp, 11-03-2007) Na parte do pac há mais sobre china.

Estados Unidos são diplomáticos quando discutem o poderio militar da China – Hearst Newspapers – 12mar2007

Does Communism Work After All? (Der Spiegel) – muito comentado, February 27, 2007

"The Chinese Miracle Will End Soon" (Der Spiegel)

China’s Poison for the Planet (Der Spiegel)

Cheap, Cheerful and Chinese? (Der Spiegel)

Fábrica de papel se transforma em campo de batalha comercial entre Estados Unidos e China (nyt, 02-03-07)

China tenta conter a degradação ambiental e busca desenvolvimento sustentável (El Pais, 06-03-07)

Berlin bureau Chief of Der Spiegel discusses economic impact of China (Der Spiegel)

Rafael Poch, em Pequim, Fantasias da China rica (La Vanguardia, 03-01-2007)

China responsabiliza o Ocidente pelo aquecimento global
 (NYT, 07-02-07)

Joint venture brasileira leva a briga têxtil para a China (Financial Times, 01-02-07) 

Estrada de ferro para o Tibete é apenas um entre muitos grandes projetos (Cox Newspapers)

Enquanto a China reconstrói a Estrada da Seda, vai modificando sua região oeste (Cox Newspapers)

Em Xangai, os podres ocultos do capitalismo vermelho (Le Monde, Mídia Global, 24-10-2006)

Consumidores estão matando o Estado do bem-estar social (Der Spiegel, 31-10-06)

Uma baixa causada pela globalização: a morte dos sindicatos (Der Spiegel, 28-10-06)

Artigo: Globalização reduz salário de trabalhador do Ocidente (FSP.05-11-05, será qe é diferente do de baixo?- Samuel Brittan, Financial Times)

Como a globalização reduz os salários do Ocidente (Der Espiegel, 17-10-06)

O caminho da China para a modernidade, espelhado em um rio em apuros (NYT, 19-11-2006)

Na ânsia de exportar, a China coloca os lucros acima da vida humana (Der Espiegel, 19-10-06)

Um argumento a favor da zona de livre comércio transatlântica (05-01-2007) – Gabor Steingart – texto…..

Por uma zona de livre comércio transatlântica (Der Espiegel, 21-10-06)

Classe média dos Estados Unidos é o primeiro grupo derrotado pela globalização (Der Spiegel, 25-10-06)

Uma nação-estado é capaz de salvar o mundo? (Der Spiegel, 27-12-2005 – três artigos)

Camponês é acionista em vila chinesa - Folha de são Paulo, 19-03-07

Huaxi, a mais rica comunidade rural da China, fatura US$ 5 bilhões ao ano com fábricas em regime de cooperativa

Secretário-geral do PC local diz que região avançou porque não seguiu a Revolução Cultural nem formou comunas maoístas

CLÁUDIA TREVISAN
EM HUAXI

Sun Haiyen faz parte da legião de 700 milhões de chineses que as estatísticas oficiais classificam como camponeses, mas vive em uma casa de estilo europeu de 600 metros quadrados equipada com enormes televisões de tela plana nos quartos, três banheiras de hidromassagem e decoração que abusa de dourados e brocados.
Há 15 anos, Sun trocou sua cidade natal por Huaxi, a mais rica vila rural da China, que o governo elegeu como modelo a ser seguido no restante do país.
Hoje, ele integra a elite de 1.500 moradores que vivem em bairros inspirados nos subúrbios norte-americanos e que possuem renda per capita de US$ 10 mil, quase seis vezes a média da China.
Apesar de ser chamada de "vila rural", Huaxi deve sua riqueza a um conglomerado de 60 fábricas, criadas principalmente nas duas últimas décadas. Reunidas em um parque industrial, elas dão à paisagem local um tom que em nada lembra a bucólica vida no campo. As fábricas empregam 25 mil pessoas e, segundo os dirigentes locais, faturaram no ano passado US$ 5 bilhões.
A vila é a mais rica da China, mas não é a única na qual proliferam as fábricas. Há milhares de outras como Huaxi e, juntas, elas respondem por uma parcela expressiva da produção industrial, das exportações e do emprego no país.
Chamadas de Empresas de Cantão e de Povoado (TVEs, na sigla em inglês), essas fábricas não são nem estatais nem privadas e têm um sistema de propriedade que lembra o das cooperativas -em Huaxi, os camponeses são acionistas das companhias e recebem dividendos anuais.
Em 2004, as TVEs empregavam 133 milhões de pessoas, o equivalente a 18% da força de trabalho da época.
Como as outras vilas que se dedicam à produção industrial, Huaxi se desenvolveu de maneira mais acelerada depois do início do processo de reforma e abertura, no fim dos anos 70. Localizada a cerca de 200 quilômetros de Xangai, a vila se dedica à fabricação de papel, tecidos sintéticos, metalurgia e siderurgia -a produção de aço é de 900 mil toneladas/ano.
Todos os moradores de Huaxi trabalham nas empresas, mas a maior parte da mão-de-obra é composta por migrantes rurais, que moram em alojamentos e ganham pouco mais de US$ 100 por mês.
Em seu processo de expansão, Huaxi absorveu outras 20 vilas rurais e hoje tem uma população de 50 mil pessoas, a maioria das quais com um padrão de vida bastante inferior ao dos 1.500 morados da chamada "pequena Huaxi".
O cacique político local é Wu Rengbao, 80, venerado como herói e apontado como responsável pela prosperidade dos camponeses. Secretário-geral do Partido Comunista em Huaxi desde os anos 50, há quatro anos ele transferiu o posto ao filho mais novo, Wu Xieen.
O culto à personalidade de Wu Rengbao é evidente. Fotos de diferentes fases de sua vida ilustram as paredes do museu que conta a trajetória de Huaxi -o turismo é outra fonte de renda da vila, que recebe 2 milhões de visitantes por ano (ver texto na página ao lado). Todos se referem a ele com reverência e suas atividades oficiais são registradas pelo departamento de propaganda de Huaxi.

Salto hetedoxo
"O nosso maior desejo é o povo enriquecer e levar uma vida cada vez melhor", disse Wu Rengbao à Folha. Segundo ele, Huaxi prosperou por ter evitado os dois erros históricos do Partido Comunista da China: o Grande Salto Adiante (1958-1960), que matou 30 milhões de pessoas de fome, e a Revolução Cultural (1966-1976).
Wu afirma que Huaxi não se organizou como uma comuna durante o Grande Salto Adiante, contrariando a orientação oficial. E, enquanto qualquer vestígio de capitalismo era combatido na Revolução Cultural, a vila criava uma fábricas clandestina de parafusos.
Quando Deng Xiaoping propôs a adoção de leis de mercado, em 1978, Huaxi saiu na frente, diz Wu. No ano passado, a vila começou a treinar 50 mil dirigentes de outras localidades com o objetivo de melhorar suas habilidades de liderança.
Na avaliação de Wu, uma das vantagens do modelo de Huaxi é a mescla entre coletividade e individualismo. "Se as empresas fossem estatais, não haveria competitividade e os empregados ficariam preguiçosos." No sistema de propriedade coletiva, os camponeses são ao mesmo tempo empregados e acionistas, observa.
Apesar de formalmente aposentado, Wu continua a ser a autoridade máxima em Huaxi e fala da vila como seu próprio negócio. "Sou conservador", diz, em referência à origem do capital que viabilizou os investimentos nas fábricas. Segundo ele, os recursos vieram dos próprios camponeses e não de empréstimos bancários.
A expansão do capital foi impulsionada por um sistema que obriga os camponeses a reinvestirem 80% de tudo o que ganham a título de salários, bônus e dividendos.
Wu afirma que os habitantes de Huaxi possuem tudo o que um homem pode desejar: dinheiro, carro, casa, filho e respeito -a vila distribuiu 800 carros para os moradores nos últimos dois anos e as novas casas foram concluídas em 2005.
O elogio da riqueza é acompanhado de juras de fidelidade ao Partido Comunista, refletidas no hino de Huaxi, composto por Wu Rengbao: "O céu de Huaxi é o céu do Partido Comunista; a terra de Huaxi é a terra do socialismo".

Huaxi é misto de "Show de Truman" e templo do kitsch

Vila chinesa recebe 2 milhões de turistas por ano, que visitam réplicas de edifícios ocidentais e estátuas de líderes comunistas

Ponto alto é montanha com recriações do Arco do Triunfo de Paris, a entrada da Cidade Proibida em Pequim e a Casa Branca

Cláudia Trevisan/Folha Imagem

Na rica Huaxi, reprodução de ícones arquitetônicos; à direita, réplica do Arco do Triunfo

EM HUAXI

A vila de Huaxi provoca no visitante ocidental a sensação de entrar em uma mescla de "Show de Truman", com seus subúrbios perfeitos, e uma versão oriental de realismo fantástico, materializado na reprodução de monumentos célebres e na praça que reúne estátuas dos heróis da Revolução Comunista e de personagens religiosos, como Buda e Cristo.
A cada ano, Huaxi recebe a visita de 2 milhões de pessoas, atraídas pela fama de prosperidade do local e atrações construídas para o desenvolvimento da indústria do turismo.
O ponto alto é a montanha que fica ao norte, que reúne construções que reproduzem o Arco do Triunfo de Paris, a entrada da Cidade Proibida, em Pequim, a Casa Branca com uma Estátua da Liberdade no topo e duas outras construções que, segundo o guia, são cópia de edifícios de Roma e Viena. Outra montanha exibe uma recriação da Muralha da China, com 10 quilômetros .
A "pequena Huaxi", onde mora a elite local, parece um rico subúrbio de cidade americana, mas entre as casas está uma reprodução do teatro de Sidney, na Austrália.
A praça central é cercada por edifícios em forma de pagode, que abrigam escritórios, um centro de convenções, um hotel e um teatro, onde se apresenta o grupo artístico local -dirigido por Wu Rengbao, o líder máximo de Huaxi.
No centro da praça está um sino de 145 toneladas -o maior do mundo, diz o guia. Para fazer soar o sino, os turistas têm de pagar o equivalente a US$ 12.
Em um dos lados da praça estão estátuas brancas e enormes de cinco fundadores da China comunista, com Mao Tsé-tung ao centro, todas com lenços vermelhos amarrados no pescoço. Heróis da revolução ocupam outros dois lados, enquanto estátuas de figuras religiosas se espalham nos arredores, incluindo imagens de Buda e um Cristo de braços abertos.
Visitada freqüentemente por autoridades, incluindo o presidente Hu Jintao, Huaxi tem oito casas de luxo para hóspedes "VIPs". Cada uma com três andares, elevador e banheiros enormes equipados com banheiras de hidromassagem.
A decoração é em estilo clássico europeu com toques chineses -as portas, por exemplo, são vermelhas e douradas. Os não "VIPs" podem se hospedar nas casas, desde que paguem diária equivalente a US$ 1.200. (CLÁUDIA TREVISAN)

16/03/2007 – 09h36

China aprova sua primeira lei sobre propriedade privada

Por Joelle Garrus

PEQUIM, 16 mar (AFP) – Depois de anos de debates e controvérsias, a China finalmente aprovou sua primeira lei sobre propriedade privada, com exceção da terra, que continua sendo domínio do Estado.

Durante os debates sobre o tema, vários dirigentes explicaram que a nova lei é "compatível com o sistema socialista".

"O sistema de propriedade socialista do modo chinês está determinado pelo sistema econômico socialista de base e é, por essência, diferente do sistema de propriedade capitalista", declarou na semana passada Wang Zhaoguo, vice-presidente do Comitê Permanente da ANP.

A lei, adotada pelo Parlamento do Povo que encerrou sua longa sessão anual nesta sexta-feira, visa a proteger a propriedade coletiva, pública e privada, apesar de os meios de comunicação estatais continuarem colocando o bem público no coração do sistema econômico.

Apresentada pela primeira vez em 2002 ao comitê permanente da Assembléia Nacional Popular (ANP, Parlamento), depois de anos de preparação, passou por sete leituras antes de ser submetida a votação e aprovada por 2.299 votos a favor e 52 contra.

A votação da lei de propriedade privada acontece três anos depois de uma primeira votação histórica do Parlamento, que garantiu a proteção da propriedade privada na Constituição.

O texto, com 247 artigos, que deve entrar em vigor no dia 1º de outubro, estipula principalmente que "a propriedade do Estado, coletiva, individual (…) está protegida por lei e ninguém pode questioná-la", destacou a agência Nova China.

Um pequeno setor do Partido Comunista rejeitou o projeto por considerá-lo muito capitalista ao consagrar os direitos individuais. Outros opositores argumentavam que permitirá a alguns, principalmente os funcionários corruptos, proteger os bens dos quais se apoderaram.

Seus partidários, no entanto, destacam a necessidade de esclarecer os direitos de propriedade em um Estado que continua sendo comunista, apesar de, na prática, as reformas econômicas, lançadas em 1978, terem acabado há tempos com a coletivização maoísta.

Os analistas enfatizaram que a lei também era inevitável e indispensável para o desenvolvimento do país.

"É necessário que a propriedade legal esteja bem protegida para que as pessoas tenham vontade de criar mais riqueza e que a China continue com seu desenvolvimento econômico", comentou Jiang Ping, ex-presidente da Universidade de Ciências Políticas e Direitos da China.

"Uma lei sobre propriedade privada é a marca de uma sociedade civilizada. Não podíamos nos abster disso", estimou, por sua vez, Yan Jinrong, professor da Universidade de Pequim.

Mas a lei não soluciona um problema crucial da China moderna: a ausência dos direitos dos camponeses sobre as terras que exploram, que são propriedade da coletividade, e das quais, às vezes, são espoliados.

No entanto, para tentar protegê-los um pouco mais das desapropriações, a lei reafirma que os projetos de construção das terras cultiváveis estão "estritamente restringidos".

Lei fiscal
O Parlamento chinês também adotou uma lei de harmonização fiscal que acaba com os privilégios fiscais das empresas estrangeiras em relação às companhias nacionais, a partir de 1º de janeiro de 2008.

A lei, que prevê um imposto único de 25%, foi adotada por quase 98% dos delegados da Assembléia Nacional Popular (ANP, Parlamento), ou seja, 2.826 votos a favor, 37 contra e 22 abstenções, informou a agência oficial de notícias Nova China.

As empresas estrangeiras pagam em média 15% de imposto, contra um índice teórico de 33% das empresas chinesas.

A lei fixa um período transitório de cinco anos para as empresas de capital estrangeiro e prevê a manutenção de uma taxa preferencial de 15% para o setor de alta tecnologia.

Segundo os cálculos preliminares do Ministério das Finanças, a passagem de uma taxa de 15% para 25% para as empresas com capital estrangeiro representa uma arrecadação suplementar de 43 bilhões de iuanes (US$ 5,6 bilhões).

 
 
16/03/2007 – 08h17
China aprova histórica lei sobre propriedade privada

Rui Boavida, da Agência Lusa

Pequim, 16 Mar (Lusa) – O Congresso do Povo (Parlamento chinês) aprovou nesta sexta-feira uma histórica lei que garante igual proteção às propriedades públicas e privadas por parte do governo central da China, e anunciou ainda uma lei que acaba com benefícios concedidos às empresas estrangeiras no país.

A aprovação da nova lei de propriedade privada demorou menos de um minuto, com 2.799 legisladores votando a favor, 52 contra, 37 abstenções e um voto nulo. A rapidez da votação não fez com que fosse esquecido, no entanto, o fato de que a lei de propriedade privada foi alvo de um dos maiores debates da história do Partido Comunista Chinês, com um pequeno e influente grupo de membros da legenda contestando possíveis alterações jurídicas.

Alguns consideram a lei aprovada nesta sexta uma ameaça ao papel principal do Estado na economia e na sociedade, em um país ainda formalmente socialista.

Os setores mais ortodoxos do PC opõem-se também à lei por considerarem que esta abre as portas a um processo de privatização sem limites de bens do Estado, aumentando o fosso entre os mais ricos e mais pobres.

Os mais radicais também defendem que a lei vai permitir aos funcionários estatais corruptos manter a posse de bens adquiridos de forma ilegal.

Durante a sessão do ano passado do Congresso do Povo, mais três mil ex-ministros, militares superiores na reserva e líderes regionais firmaram uma carta aberta de oposição à lei da propriedade privada, que sempre foi um dos temas mais polarizadores entre as alas liberal e ortodoxa do Partido Comunista.

A força da oposição e a posição ambígua de lideranças chinesas quanto à idéia de propriedade privada no país fizeram com que o projeto de lei, muito revisto, tivesse passado por discussões legislativas por mais de 14 anos, com nada menos que sete leituras no Congresso do Povo.

Este número não possui precedentes em uma Casa que tem um papel sobretudo cerimonial e que nunca rejeitou qualquer projeto de lei, orçamento ou documento que o governo tivesse submetido à aprovação dos legisladores.

A lei de propriedade privada, de 247 artigos e 40 páginas, deverá entrar em vigor em 1º de outubro de 2007, e estipula que "a propriedade do Estado e da coletividade, do indivíduo e de outros proprietários, é protegida por lei", e que "nenhuma unidade ou indivíduo pode infringir este direito".

Ineditismo

Esta é a primeira vez que a China estipula a mesma proteção entre propriedades estatais e privadas, em um projeto aprovado na reunião de encerramento da sessão plenária anual do Congresso do Povo, que teve início em 5 de março.

A lei reconhece assim a importância cada vez maior do setor privado chinês, desde as reformas econômicas realizadas no final da década de 1970. A iniciativa privada já representa cerca de 65% do Produto Interno Bruto (PIB) e cerca de 70% das receitas fiscais do Estado.

A lei de propriedade privada evidencia também uma cisão rara dentro do Partido Comunista, único no poder, e reconhece a força das classes médias urbanas.

A nova legislação tem como um dos objetivos principais proteger os direitos dos proprietários de casas nas cidades, onde a taxa de respeito à propriedade privada é superior a 80%. Até agora, investimentos no setor imobiliário eram realizados sob regras pouco claras quanto à proteção da propriedade.

Agricultores

Ao regulamentar também provisões específicas quanto à expropriação de terra e posteriores compensações, a nova legislação poderá ser usada para defender os interesses dos agricultores, a classe social mais pobre da China, dando a eles ferramentas legais para salvaguardarem seus direitos.

Em um dos mais difundidos esquemas de corrupção no país, as autoridades locais obrigam freqüentemente os agricultores a cederem suas terras com baixas remunerações, para depois as venderem por preços muito mais elevados visando a um processo de desenvolvimento de infra-estruturas, parques industriais e projetos imobiliários.

Novo regime fiscal

A segunda lei aprovada no plenário do Congresso do Povo, a nova lei fiscal, aumenta de 15% para 25% os impostos sobre rendimentos de empresas estrangeiras, enquanto reduz de 33% para 25% a carga fiscal sobre as chinesas.

O novo regime fiscal entrará em vigor em 1º de janeiro de 2008, mas será aplicado de forma gradual em cinco anos, segundo o Ministério chinês das Finanças.

 

16/03/2007 – 01h14
China vota fim de privilégios fiscais para empresas estrangeiras

PEQUIM, 16 mar (AFP) – O Parlamento chinês adotou nesta sexta-feira uma lei de harmonização fiscal que acaba com os privilégios fiscais das empresas estrangeiras em relação às companhias nacionais, a partir de 1º de janeiro de 2008.

A lei, que prevê um imposto único de 25%, foi adotada por quase 98% dos delegados da Assembléia Nacional Popular (ANP, Parlamento), ou seja, 2.826 votos a favor, 37 contra e 22 abstenções, informou a agência oficial de notícias Nova China.

As empresas estrangeiras pagam em média 15% de imposto, contra um índice teórico de 33% das empresas chinesas.

A lei fixa um período transitório de cinco anos para as empresas de capital estrangeiro e prevê a manutenção de uma taxa preferencial de 15% para o setor de alta tecnologia.

Segundo os cálculos preliminares do Ministério das Finanças, a passagem de uma taxa de 15% para 25% para as empresas com capital estrangeiro representa uma arrecadação suplementar de 43 bilhões de iuanes (5,6 bilhões de dólares).

Já a queda na arrecadação dos impostos contra as empresas chinesas deve ser da ordem de 130 bilhões de iuanes.

A padronização foi apresentada pelo governo como uma medida para uma "competição justa" entre as empresas, e estava prevista no processo de adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Política
Reformas sem rupturas (Veja, revista)

Em 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-tung apareceu vitorioso na praça da Paz Celestial para decretar a vitória de sua revolução comunista: "O povo chinês enfim se levantou". A criação da República Popular da China encerrava mais de um século de conflitos internos e invasões por forças estrangeiras, decretando o nascimento do que Mao chamava de "uma nova China". Mais de 50 anos depois, a peça central da terceira geração de líderes, o presidente Jiang Zemin, discursava no congresso do Partido Comunista da China, entregando à quarta geração de comandantes do país mais populoso do mundo o poder e um desafio: sustentar o espantoso crescimento conquistado desde a abertura da economia e, ao mesmo tempo, manter vivos os princípios defendidos pelo camarada Mao em seu discurso de meio século antes.

No congresso da transição de poder, realizado em novembro de 2002, Jiang anunciou que o partido passaria a aceitar ricos capitalistas em suas fileiras, mas rejeitou qualquer mudança no sistema político do país, como a adoção de uma democracia pluripartidária. Diante de 2.114 delegados do partido reunidos no Grande Salão do Povo, o presidente discursou por 90 minutos, divulgando um documento de 98 páginas com as novas diretrizes políticas do país.

Sem democracia – A aproximação com os capitalistas foi justificada por Jiang pela necessidade de adaptar a China aos novos tempos. "Nós devemos avançar, ou ficaremos para trás", defendeu. "Precisamos admitir no partido elementos das altas camadas que aceitam o programa do partido. Desta forma, nós poderemos aumentar a influência e a força de nosso partido entre a sociedade civil."

As metas estabelecidas por Jiang incluíam novas reformas no mercado de trabalho e nas políticas econômicas do país, além do crescimento da economia em até quatro vezes até 2020. O líder chinês ressaltou que, apesar da adoção de doutrinas capitalistas, o país "jamais deve copiar os modelos políticos do Ocidente", descartando qualquer mudança em direção à democracia ampla e irrestrita.

No mesmo encontro, o vice-presidente do Partido Comunista, Hu Jintao, então com 59 anos, foi eleito o futuro líder. Pela primeira vez desde a criação do partido, em 1949, a transição de poder foi pacífica e ordeira, conduzida pelo atual presidente e aceita pelos delegados durante a cerimônia de encerramento de seu congresso. Se depender de Jiang, contudo, a histórica reforma nos cargos do governo não deverá afetar o poder do Partido Comunista – pelo contrário, pois ele deseja fortalecer ainda mais o sistema de governo do país. "Precisamos reforçar a liderança do partido e consolidar e melhorar o sistema", alertou aos delegados.

Os dilemas da transição – As preocupações de Jiang eram justificadas. A transição política na China foi lançada num momento em que os líderes do país enfrentavam desafios inéditos – e as perguntas mais importantes só serão respondidas dentro de anos ou mesmo décadas. O atual sistema político pode se sustentar em paz e prosperidade por mais meio século? Como mantê-lo vivo num tempo em que os raros regimes comunistas que ainda vigoram no mundo estão aos farrapos? E mais: que papel o país deve cumprir numa comunidade internacional cada vez mais envolvida em choques de interesse?

De acordo com os analistas políticos do próprio Oriente, a China não escapará destas perguntas no decorrer da primeira metade do século XXI. Desde que Deng Xiaoping lançou as reformas econômicas há mais de duas décadas, o PIB chinês se expandiu num ritmo assombroso, mas junto com o dinheiro veio o crescente abismo social entre ricos e pobres – algo que jamais fora visto pelas atuais gerações de chineses. Com as previsões de que o crescimento continuará em níveis altíssimos, a tendência para as próximas décadas é, curiosamente, de inquietação política crescente.

"A China hoje está dividida entre ricos e pobres", observou o analista político Wang Chan, no aniversário de 50 anos da revolução. "As pessoas que passam para a oposição são os doentes, os velhos, os desempregados, os derrotados. No futuro, isso se agravará." Se o Partido Comunista da China, com seus novos líderes da quarta geração e sua lealdade à velha cartilha de 1949, não oferecer caminhos para quem saiu perdendo no novo jogo econômico, cada vez mais gente buscará alternativas fora dos palácios da Praça da Paz Celestial.

Economia
O novo gigante do mercado (Veja, revista)

A rapidez do crescimento econômico da China impressiona. Nos últimos 25 anos, depois da abertura econômica, 400 milhões de chineses passaram para o lado bom da linha de pobreza e se tornaram consumidores de produtos modernos. No mesmo período, o PIB da China aumentou 5 vezes e as exportações saltaram de 20 bilhões para mais de 300 bilhões de dólares em 2002. E a tendência é crescer mais. Só nos primeiros noves meses de 2003, o país já registrou um aumento de 32,3% nas exportações e a economia acumulou um crescimento de 9% – um percentual invejável para qualquer nação do mundo.

O país mais populoso do planeta também é o campeão no recebimento de investimentos externos. Em 2003, conseguiu atrair 52,7 bilhões de dólares e desbancou os Estados Unidos no ranking mundial de países que mais receberam investimentos diretos do exterior. Um dos setores mais prestigiados é o automobilístico. Em outubro, a Ford americana anunciou um reforço de 1 bilhão de dólares em seus investimentos no país para os próximos anos.

Apesar do acelerado crescimento econômico, o maior desafio dos chineses é a desigualdade social. Dois terços dos chineses vivem em áreas rurais muito pobres e a renda per capita é compatível com as piores do terceiro mundo. Nos centros urbanos da China, o salário varia de 30 a 80 dólares mensais e a renda per capita é de 760 dólares anuais. No campo, onde vivem 900 milhões de chineses, ganha-se menos de 250 dólares por ano.

Abertura econômica - O país começou a se preparar para a abertura econômica em 1978, quando o então líder Deng Xiaoping trocou os dogmas de Karl Marx pelos de Adam Smith e deu uma guinada que incluiu a abertura de zonas comerciais nas províncias costeiras, aumento de investimentos estrangeiros e liberalização do comércio e do mercado agrícola, tendo como ingredientes fartos subsídios, mão-de-obra barata e repressão brutal à oposição. Foi quando sob o bordão “Enriquecer é glorioso”, o então país de Mao começou a experimentar os desafios e prazeres da livre iniciativa na economia.

O princípio básico do comunismo, a propriedade estatal, começou a cair por terra em 1997, quando o Congresso chinês anunciou um gigantesco programa de privatização. Dois anos depois, os chineses comemoraram cinqüenta anos de comunismo ao mesmo tempo em que realizava uma manobra histórica: depois de treze anos de negociações, fecharam um acordo para a esperada abertura de sua economia à globalização. Foi quando em menos de uma década o país se tornou a sétima economia do mundo com perspectiva de vir a ser a segunda em breve.

Em 2001, a China oficializou sua entrada no mundo globalizado ao ingressar de forma definitiva na Organização Mundial do Comércio (OMC). Com um fabuloso mercado potencial de mais de 1 bilhão de consumidores, o gigante oriental representava um dos mais tentadores e difíceis mercados internacionais, mas enfim abria as suas portas para o mundo.

Com a economia globalizada, a China precisa atualmente criar 80 milhões de empregos e, ao mesmo tempo, assimilar o golpe que deverá arrasar setores inteiros defasados em relação à concorrência externa, como a indústria automobilística. Já as indústrias têxtil, de calçados e de brinquedos, que já nadam de braçadas, deverão aumentar as exportações em 200%.

A mão-de-obra barata é o grande chamariz para a entrada de capital externo. Na maioria das regiões da China, o salário, por exemplo, na linha de montagem é de menos de 2 reais por hora. Um operário brasileiro ganha quatro vezes mais. Um mexicano, seis vezes. Um americano não pega no batente por menos de um salário vinte vezes maior. Nessas condições, montar bases para exportar é um ótimo negócio. A China já responde por metade da produção mundial de máquinas fotográficas. Três em cada dez aparelhos de ar condicionado e de TV produzidos são feitos lá. Mais de 25% das máquinas de lavar e 20% das geladeiras no mundo levam o selo "Made in China."

« Newer PostsOlder Posts »

O tema Silver is the New Black. Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.