Economy and Society II de José Porfiro – Specific

13 de março de 2007

EURO I

Filed under: Política Econômica — Porfiro @ 8:55 AM
 
 
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29/05/2008
Martin Wolf: segunda década do euro poderá ser mais dura que a primeira

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

"Uma década inteira após os líderes da Europa terem tomado a decisão de lançar o euro, nós temos bons motivos para estarmos orgulhosos de nossa moeda única. A União Econômica e Monetária (UEM) e o euro são um grande sucesso". Autocongratulação é adequada em festas de aniversário. Logo, ninguém deve ficar surpreso com os comentários efusivos de Joaquín Almunia, comissário de assuntos econômicos e monetários, no prefácio do excelente estudo "Emu@10" (sic).*

Como alguém ousaria questionar os feitos da moeda única? Ela é considerada uma rival crível ao dólar americano. Jeffrey Frankel, de Harvard, até mesmo previu em março que "o euro poderia substituir o dólar em 10 anos".** Isso difere muito do ceticismo, particularmente nos círculos de língua inglesa, com que foi recebido tanto seu lançamento quanto o período subseqüente de desvalorização frente o dólar americano. Esta é uma moeda crível.

Os sucessos são de fato óbvios: o Banco Central Europeu (BCE) se estabeleceu como um banco central crível e um rival plausível ao Federal Reserve, o banco central americano; a inflação anual nos países membros da zona do euro foi em média de 2,2% ao ano entre 1999 e o início de 2008, em comparação a 3,3% entre 1989 e 1998; o déficit fiscal caiu para 0,6% do produto interno bruto no ano passado, em comparação com uma média de 4% nos anos 80 e 90; taxas de juros nominais e reais estão ambas mais baixas do que por várias décadas; os fluxos de comércio intra-área agora representam um terço do PIB da zona do euro, em comparação a um quarto há 10 anos; e a integração financeira prosseguiu rapidamente, com os 16 maiores grupos bancários detendo mais de 25% de seus ativos fora de seus países de origem.

Não é de se estranhar, portanto, que o euro tenha se recuperado tão fortemente frente ao dólar e que, em termos reais, um euro (artificial) esteja em seu ponto mais alto desde 1970, segundo o JPMorgan. Não é de se estranhar que a participação do euro nas reservas de moeda estrangeira tenha subido de 18% em 1999 para mais de 25% em 2007. Também não é de se estranhar que o ingresso de países na zona do euro tenha subido dos 11 iniciais para 15, com mais a caminho.

Mas nem tudo é cor-de-rosa. Segundo a Comissão o PIB real per capita cresceu a apenas 1,6% ao ano entre 1999 e 2008, uma queda em comparação a 1,9% entre 1989 e 1998, e bem abaixo dos 2,2% na Dinamarca, Suécia e Reino Unido, os três membros estabelecidos da União Européia que permanecem de fora. A produtividade do trabalho cresceu a apenas 0,8% por ano, uma queda em comparação a 1,6% entre 1989 e 1998, e bem abaixo dos 1,6% nos Estados Unidos entre 1999 e 2008. A taxa de desemprego caiu, mas ainda está bem acima dos níveis dos outros três países membros e dos Estados Unidos.

A conclusão, então, é que a zona do euro é um triunfo como união monetária. Mas é muito menor como uma união econômica. No mínimo, sua criação não causou a aceleração do dinamismo que seus defensores esperavam. Se algo aconteceu, é que as reformas estruturais desaceleraram.

Além disso, à medida que o euro se valoriza, as pressões para ajuste das divergências internas provavelmente crescerão a níveis enormes. O relatório é honesto em relação a estes desafios. Entre 1999 e 2007, surgiram divergências imensas na inflação, custos trabalhistas relativos e posições de conta corrente. Estas tendências foram exacerbadas pela divergência nas taxas de juros reais, com as taxas menores nos países com inflação mais alta e -de forma perversa mas inevitável- nas economias mais fortes.

Há duas histórias aqui: a divergência nos custos trabalhistas relativos entre a Alemanha, de um lado, e Irlanda, Portugal, Grécia, Espanha e Itália do outro; e a escala de booms imobiliários alimentados pelo crédito na Espanha e Irlanda. A Espanha é o exemplo mais importante: ela teve um enorme boom imobiliário, com o investimento residencial atingindo 13% do PIB, e imensos déficits de conta corrente, cujo pico foi de 10% do PIB. Mas na Itália, que sofre de um crescimento fraco crônico, também há problemas significativos de competitividade.

Como estes ajustes terminam? A resposta depende em parte do que acontece na zona do euro como um todo. As probabilidades são de que o crescimento desacelerará acentuadamente a curto prazo, sob as pressões de uma taxa de câmbio elevada, as transferências de renda para o exterior geradas pelos altos preços das commodities e os esforços do BCE para manter a inflação sob controle.

Enquanto isso, os países periféricos enfrentarão desafios cíclicos e estruturais estreitamente relacionados. O cíclico, particularmente relevante para a Espanha, é encontrar novas fontes de demanda, agora que o boom do crédito se esgotou; o estrutural é recuperar a competitividade perdida. Os dois objetivos tendem a se mesclar no caso dos membros de uma união de moeda, já que não têm uma política monetária própria e pouco espaço para manobra fiscal. Logo, uma recuperação durável também precisará de grandes melhorias na competitividade externa.

Em um momento em que o próprio euro está tão forte, isto será difícil de conseguir. Presuma, para fins de argumento, que a tendência de crescimento da produtividade na produção de bens comercializáveis e serviços seja a mesma na Espanha ou na Itália quanto na Alemanha. Então qualquer melhoria na competitividade exigirá menores aumentos salariais. Uma melhoria de 10% nos custos trabalhistas relativos exigiria um declínio de 10% nos salários relativos. Se isto vier a acontecer, digamos, ao longo de cinco anos, os aumentos salariais nominais provavelmente teriam que ser na faixa de 0 a 1%. Esse resultado seria gerado por algo próximo de uma recessão.

O otimista argumentaria que a periferia só precisa fazer o que a própria Alemanha fez nos primeiros anos da UEM. O pessimista notaria que o crescimento da Alemanha foi em média de apenas 0,6% entre 2001 e 2005 (incluso). O pessimista poderia adicionar que a autodisciplina alemã é lendária e que a força de seu setor manufatureiro é sem igual. O pessimista poderia concluir notando o comportamento dos políticos nacionais europeus. Muitos pareciam acreditar, ou ao menos esperar, que o ingresso na UEM era o fim de um processo árduo, em vez do início de um. Isto não significa que um ajuste à frente seja impossível, mas sim acentuar a escala do desafio.

A UEM conseguiu ser tão bem-sucedida quanto uma união dessas pode ser. Por isso, os envolvidos merecem aplausos. Se este sucesso continuar nas próximas décadas, o euro certamente se tornaria uma moeda global ainda mais importante. Mas o sucesso da zona do euro não é uma questão técnica. Ele exigirá escolhas muito difíceis. Ele só será assegurado se o desempenho geral melhorar e o ajuste interno funcionar facilmente. Então podemos concluir que a EMU é um triunfo? Ainda é muito cedo para dizer.

*http://ec.europa.eu/economy_finance
**www.voxeu.org

Tradução: George El Khouri Andolfato

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Estudo prevê que reservas superem as em dólar, mas continente, desunido, não ameaça hegemonia dos EUA

União Européia não tem posição comum em temas de política externa, mas economista diz que isso não impede escalada da moeda

MARCELO NINIO
DE GENEBRA

Uma simulação feita por dois economistas americanos acendeu o alerta: em menos de dez anos o euro poderá substituir o dólar como principal moeda internacional. A tendência recebe agora o empurrão da crise mundial iniciada nos EUA, cujo legado pode deixar de ser só econômico para ganhar dimensões geopolíticas.
Ao flexionar em excesso seu músculo militar e aumentar o seu déficit, os EUA teriam embarcado numa rota semelhante à que tomou o império britânico até a libra esterlina ser superada pelo dólar como moeda predominante nas reservas mundiais, em 1945.
Os autores da simulação, Jeffrey Frankel, de Harvard, e Menzie Chinn, da Universidade de Winsconsin, dizem que 25 anos de déficit em conta corrente nos EUA e mais de 30 de desvalorização do dólar ajudaram a corroer a hegemonia da moeda americana. Mas observam que isso não basta para provocar a mudança que vislumbram no sistema.
"O mais importante é que agora existe um rival confiável para liderar as reservas de câmbio, o euro, que tem muitas das características desejadas de uma moeda internacional", afirma o estudo.
Na Europa, entretanto, as notícias da morte do dólar são consideradas um exagero. Quase dez anos depois de sua entrada em circulação, o euro é forte como moeda, mas fraco como símbolo político, e isso é visto como o maior empecilho para que a projeção de Frankel e Chinn se torne realidade.
"O problema central é que não há um governo europeu por trás do euro, e provavelmente não haverá", diz Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos de Políticas Européias, em Bruxelas, afirmando que falta representatividade para a moeda comum européia ter peso. "O euro nem sequer tem um representante nas instituições financeiras internacionais."
Essa carência é reflexo de uma disfunção estrutural que costuma paralisar o processo decisório da União Européia, sobretudo em assuntos de política externa. Isso ficou claro nas crises internacionais recentes, como a independência de Kosovo e os distúrbios no Tibete, quando o bloco de 27 países mais uma vez rachou.
Essa desunião não invalida a previsão sobre a ascensão do euro, diz um dos autores do estudo. "Ser otimista sobre o euro não significa ser otimista em relação à Europa", disse Frankel à Folha, por e-mail. "O euro não precisa de uma política externa comum para prosperar."

Múltipla personalidade
Embora o Tratado de Lisboa, aprovado em dezembro, preveja modificações para corrigir o problema, como a nomeação de um presidente e de um chanceler, a UE ainda sofre o transtorno da múltipla personalidade. O mesmo que levou o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger à famosa pergunta: "Quero telefonar para a Europa, para onde ligo?"
A dúvida que intrigava Kissinger em 1970, quando a integração européia ainda dava seus primeiros passos, com apenas 12 membros, hoje é um desafio que se estendeu à moeda comum, usada por 15 dos 27 membros da UE.
"É hora de discutir o papel político do euro", diz Paola Subbachi, chefe do Departamento de Economia Internacional do Instituto Real de Assuntos Internacionais, em Londres. Ela também acha que o vácuo de autoridade impede que o euro substitua o dólar como moeda global. "Basicamente não há ninguém responsável pelo euro. Certamente esse papel não é do BCE [Banco Central Europeu], cujo mandato se limita a controlar a inflação."
O ceticismo em relação ao poder do euro parece restrito aos europeus. Em setembro do ano passado o ex-presidente do Fed (banco central dos EUA), Alan Greenspan, deixou claro que a hegemonia da moeda americana já não era tão sólida. Segundo ele, o dólar havia perdido boa parte da vantagem que tinha sobre as demais moedas.
Ainda assim, ela continua confortável. O Fundo Monetário Internacional calcula que 70% das reservas mundiais estejam em dólar, contra 25% em euro. Frankel e Chinn acham que essa proporção pode virar antes de 2015, devido ao desgaste econômico, ao esgotamento militar e à deterioração do sistema financeiro nos EUA.
Se mais países decidissem converter os dólares de suas reservas em euros, isso estimularia a mudança em outras transações financeiras internacionais, apostam os economistas, o que aceleraria o fim da hegemonia da moeda americana.
"Economicamente, os EUA perderiam o privilégio exorbitante que lhe permite dar dólares a estrangeiros em troca de bens, serviços e investimentos", diz Frankel. "E geopoliticamente o país também perderia poder."
Para Subbachi, o fortalecimento do euro não significa necessariamente o fim da hegemonia do dólar. "Não vejo euro e dólar em rota de colisão", diz ela, apontando para uma nova ordem financeira, em que as duas moedas se complementarão. "Estamos caminhando para um sistema de dois pilares."

Para autor de estudo, Brasil ganharia com novo cenário

Última grande mudança foi queda da libra após 1945

DE GENEBRA

O Brasil sairia ganhando se o euro desafiasse o dólar como principal moeda internacional, diz o economista Jeffrey Frankel. "Seria bom, porque o Brasil ganharia a opção de ter suas reservas em dólares ou em euros. Com isso, ficaria mais protegido contra abusos do privilégio de uma única potência dominante que se expande excessivamente", disse Frankel à Folha, por e-mail.
Mudanças assim, entretanto, não vêm da noite para o dia. A libra esterlina foi a principal moeda internacional até 1945. Com o fim da Segunda Guerra e do império britânico, o dólar ocupou o seu lugar, ditando o ritmo da nova ordem mundial.
A troca vinha se anunciando tempos antes de ocorrer. A economia americana já era maior que a britânica em 1870, e passou a exportar mais em 1915. Ainda assim, por uma questão de inércia, a libra esterlina continuou sendo usada até 1945.
Um dos fatores que atrasaram a ascensão do dólar foi a falta de um setor financeiro sofisticado, que só surgiu com a criação do Federal Reserve (banco central), em 1913.
"O status de moeda de reserva internacional se deve a vários fatores, como tamanho da economia, fatia do país no comércio internacional e profundidade do setor financeiro", diz Frankel. "E inércia. Se a moeda tem esse status hoje, provavelmente terá amanhã. Mas isso funciona até certo ponto."
Esta não é a primeira vez que a hegemonia do dólar é posta em questão. Nos anos 90, o fortalecimento da libra esterlina, do marco e do ien criou a ilusão de um desafio, mas as economias do Reino Unido, da Alemanha e do Japão não eram páreo para a americana. Hoje, a União Européia é maior economicamente do que os EUA (veja quadro nesta página) e ainda é beneficiada por erros do rival.
"As qualidades que permitem que o euro desafie o dólar derivam de decisões nada inteligentes tomadas pelos EUA nos últimos anos, que eu chamo de excesso imperialista: crescentes déficits no orçamento, baixo nível de poupança, um grande déficit em conta corrente e uma política externa mal guiada", diz Frankel.
Diplomacia e economia costumam se confundir. Na década de 60, governos ocidentais apoiaram o dólar unidos contra a ameaça soviética. Hoje, a Guerra Fria foi substituída por uma rivalidade mais complexa, que subverte antigos conceitos.
Para o colunista do "Financial Times" Wolfgang Münchau, o euro só não avançará mais se estiverem certas algumas teorias conspiratórias -como a de que Bancos Centrais estrangeiros se uniriam para proteger seus ativos em dólar. "Não funciona assim. A rede de fatores que favoreceu o dólar no passado poderia facilmente favorecer o euro no futuro", escreveu. (MARCELO NÍNIO)

 
 
Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 4, número 45, outubro 2003
ECONOMIA

Euro versus dólar?
A fragilidade do dólar parece empurrar o euro para assumir o papel de moeda de reserva, essencial para as finanças e o comércio mundiais. Mas, para isso, há muitos obstáculos a serem vencidos
Howard M. Wachtel*

Estaria um euro forte, posto avançado de uma União Européia ampliada, em condições de minar a hegemonia financeira dos Estados Unidos, baseada na força do dólar e que vigora desde o final da II Guerra Mundial? No Velho Continente, a vontade de buscar meios de contestar essa supremacia não é novidade. Ela vem de 1967, quando Charles De Gaulle tentou restabelecer um padrão-ouro rígido1
, aproveitando-se da fraqueza do dólar e de seu uso fora do território norte-americano durante a guerra do Vietnã.
Embora nunca tenha sido formulada em público, essa vontade é subjacente ao próprio projeto do euro e poderia voltar a emergir devido à apreensão provocada pela postura imperial e agressiva dos Estados Unidos, evidenciada de forma manifesta pela invasão do Iraque – e que provocou uma alta da moeda européia em relação à norte-americana. Daí, as especulações sobre a possibilidade de que o euro se converta numa moeda de reserva de concorrência ao dólar e que se crie uma cabeça-de-ponte contra o domínio norte-americano sobre as finanças globalizadas, trazendo a Europa para uma situação de paridade.
Antes de estudarmos esta hipótese, é necessário compreender a natureza de uma moeda de reserva. Para conseguir um desenvolvimento harmonioso e numa escala suficiente, as finanças e o comércio mundiais precisam de uma divisa de aceitação universal, o que resume o significado da palavra “liquidez”: foi o caso da libra esterlina durante o século XIX, antes que o dólar, progressivamente, fosse substituindo-a a partir do final da Segunda Guerra Mundial até se tornar o senhor absoluto que é atualmente. Para se compreender a necessidade dessa função de moeda de reserva, basta relembrar o período entre as duas guerras: a libra não tinha mais condições de garantir uma liquidez em escala mundial e o sistema financeiro dos Estados Unidos resistia em assumir o papel que os mercados lhe impunham. O colapso do comércio internacional foi provocado, em parte, por essa ausência de uma moeda internacional.

Poder e influência
Uma moeda nacional torna-se uma moeda de reserva de outros países quando é consagrada como tal pelas finanças e pelo comércio globalizados, em função de sua relativa força econômica e financeira. As nações desejam constituir reservas desta moeda porque se trata de um ativo que pode ser utilizado em suas relações econômicas internacionais com qualquer outro país.
O país que emite a moeda de reserva adquire, desta forma, um poder e uma influência consideráveis sobre os outros, mas também assume responsabilidades. Deste ponto de vista, a situação do pós-guerra é esclarecedora. Coloquemo-nos, em 1950, na posição de um ministro das Finanças de qualquer país que não emita a moeda de reserva. Seu objetivo é atrair dólares e acumular reservas que irá utilizar para adquirir produtos em qualquer lugar do mundo. Como irá proceder? Poderá vender produtos de seu país aos Estados Unidos e receber o pagamento em dólares – possibilidade que foi estritamente teórica durante uma ou duas décadas para os países europeus. Uma outra opção seria atrair para seu país empresas norte-americanas e seus dólares. Foi isto que originou as multinacionais. Uma outra possibilidade seria abrir seu país às bases e ao pessoal militar norte-americanos. Foram estas, para os europeus, as principais maneiras de fazer entrar, em seus países, as notas de dólar e a influência que as acompanhava. São mecanismos idênticos àqueles atualmente adotados pelos países do Terceiro Mundo, da Europa Central e Oriental, pela Rússia e pelos países restantes da ex-União Soviética.
Para o Estado emissor da moeda de reserva, os privilégios acarretam dois tipos de obrigações. Em primeiro lugar, deve estar permanentemente preparado para garantir uma liquidez global, de forma que suas divisas circulem em montante suficiente através do mundo para atender às necessidades das finanças e do comércio internacionais. Em segundo lugar, também deve estar preparado para desempenhar o papel de “emprestador em último recurso”, solucionando os problemas de países excessivamente endividados. Tudo isto deve ser feito mantendo-se uma situação razoavelmente estável dos valores externos e internos de suas divisas; os valores internos devem permitir um índice de inflação moderado numa faixa de flutuação previsível, enquanto os externos se devem manter numa faixa de flutuação previsível de suas taxas de câmbio em relação às outras moedas do mundo. Caso estas condições de estabilidade não ocorram, os países irão resistir em manter estoques da moeda de reserva em questão.
Para que possa rivalizar com o dólar nesta função, o euro deverá oferecer as mesmas garantias de estabilidade de seus valores internos e externos, num prazo previsível, e facilitar um crescimento econômico adequado. Com base nestes dois critérios, as perspectivas para a moeda européia são pouco nítidas. É verdade que a “zona euro” se distingue pelo controle da inflação, mas às custas de um freio do crescimento – devido às exigências impostas pelo pacto de estabilidade e crescimento às políticas fiscais e orçamentárias de cada nação. Este pacto deverá ser substancialmente modificado, caso o euro tenha ambições de competir de igual para igual com a moeda norte-americana.

Obstáculos para o euro
Nessa perspectiva, a moeda européia também deveria superar dois obstáculos estruturais. Em primeiro lugar, o Banco Central Europeu (BCE) não tem autoridade alguma para desempenhar o papel de “emprestador em último recurso”. Os bancos nacionais dos países da “zona euro” conservam essa autoridade e essa responsabilidade dentro de suas fronteiras. Não dispondo de tal capacidade, o euro poderia servir – na melhor das hipóteses, e ainda de maneira limitada – como moeda de reserva sobressalente junto aos mercados mundiais. O segundo obstáculo é a lentidão das reformas nas relações entre os sistemas bancários na Europa e a enorme distância que os separa, em termos tecnológicos, dos seus equivalentes nos Estados Unidos. Os custos das transações bancárias entre países distintos permanecem muito altos, enquanto as transações dentro de um mesmo país são difíceis e ineficientes, se comparadas com os Estados Unidos. Se a distância que separa a capacidade tecnológica militar entre a Europa e os Estados Unidos é mais ou menos óbvia, o mesmo ocorre com seus sistemas bancários.
Paradoxalmente, essa mesma distância poderia ser superada se a Grã-Bretanha adotasse o euro, pois seus sistemas bancários e capacidade tecnológica são os únicos do mundo que podem se comparar aos dos Estados Unidos. A questão, entretanto, não se coloca num prazo curto, pois o governo britânico optou – e por excelentes motivos – por ficar, por enquanto, fora da órbita da moeda única. Caso venha a fazê-lo, a criação de um euro rival do dólar exigiria a harmonização das práticas bancárias do continente com as inglesas e o deslocamento do centro do poder financeiro, de Frankfurt para Londres. Nenhuma dessas conseqüências é aceitável por parte dos países da atual “zona euro”.
Se, por um lado, é fácil perceber o que impede o euro de se tornar uma moeda de reserva alternativa séria, por outro, a vulnerabilidade do dólar parece empurrá-lo precisamente nessa direção. A começar pelo contínuo déficit da balança comercial, que chega atualmente a 500 bilhões de dólares ao ano, sem qualquer perspectiva de diminuir2
. Para enfrentar este déficit, são necessárias entradas contínuas de capital, vindas, principalmente, dos Europa e da Ásia. Caso estas diminuam – o que ocorreu durante os dois últimos anos3
–, aconteceria uma queda nas cotações das obrigações do Tesouro e uma alta nas taxas de juros que poderiam provocar sérios prejuízos à economia norte-americana.

Dólar vulnerável
Este cenário é ainda mais plausível porque existe um segundo motivo para que os capitais evitem o dólar, dirigindo-se ao euro: a falta de confiança na maneira pela qual as decisões vêm sendo tomadas em Washington. Em termos de política externa, existe uma nítida preocupação em relação às intenções norte-americanas. Quanto à política fiscal, a explosão do déficit público – 450 bilhões em 2003, ou seja, mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), com a previsão de um aumento para 2004 (475 bilhões de dólares) – leva os gestores de fundos de investimentos estrangeiros a considerarem que os riscos são hoje maiores nos Estados Unidos, e a conjuntura menos estável, do que alguns anos atrás. Daí, a diminuição do fluxo de capitais entrando nos Estados Unidos, impedindo que seja complementado um capital nacional já afetado pela fragilidade da taxa de poupança. Nesta hipótese, as taxas de juros de mercado aumentariam e o Banco Central (Fed) não teria muita margem de manobra para frear tal tendência. Na verdade, já queimou quase todos os cartuchos ao baixar as taxas de juros que controla até um patamar abaixo do qual correria o risco de provocar uma deflação.
Coloca-se, então, a questão de saber se a queda do dólar em relação à moeda européia irá acarretar uma diminuição do déficit comercial norte-americano para com a “zona euro”, o que diminuiria a dependência dos Estados Unidos da entrada de capitais estrangeiros. Não se devem alimentar ilusões a respeito de um aumento das exportações norte-americanas devido à fraqueza do dólar, ou sobre uma diminuição correspondente de importações originárias da “zona euro”. Este fenômeno permanecerá bastante restrito porque, com exceção de alguns setores, como a agricultura, a indústria automobilística e o turismo, o saldo comercial tem todas as probabilidades de continuar estável, por vários motivos.
Em primeiro lugar porque seria necessário um compromisso de longo prazo para fazer mudar de rumo o setor manufatureiro norte-americano que, há várias décadas, não está voltado para a exportação. As indústrias norte-americanas adotaram, há muito tempo, uma estratégia de investimento no exterior: produzem no mundo inteiro e vendem aos mercados externos a partir dessas plataformas, em vez de produzirem nos Estados Unidos para exportar. Na verdade, grande parte do déficit comercial se deve à venda, no mercado norte-americano, de produtos fabricados por empresas norte-americanas no exterior e que, para fins de contabilidade, constam como importações. Segundo as estatísticas mais sérias, 45% das importações norte-americanas entrariam nessa categoria4
. Esta estratégia das empresas norte-americanas é irreversível e não irá mudar.

Bazar universal
O segundo motivo para não esperar grandes mudanças na balança comercial entre os dois lados do Atlântico é porque o crescimento do PIB nos Estados Unidos é superior ao da “zona euro”, o que incentiva a importação norte-americana de produtos europeus e desencoraja a aquisição de produtos norte-americanos pelos europeus. O governo Bush baseou sua estratégia do dólar fraco numa avaliação errada, que não se irá concretizar, enquanto o secretário do Tesouro de William Clinton, Robert Rubin, adotara uma política de dólar forte, sabendo que esta atrairia capitais estrangeiros para os Estados Unidos.
Esses fatos são ilustrativos das obrigações que deve enfrentar o país que emite a moeda de reserva internacional, bem como as vantagens que tira dessa situação. Deve assumir a função de “emprestador em último recurso” e a de bazar universal, que gera enormes déficits em conta corrente – os quais são preenchidos pela entrada de capitais estrangeiros. As vulnerabilidades do dólar poderiam oferecer uma oportunidade histórica ao euro para se tornar uma moeda de reserva, mas apenas na condição de que seja profundamente modificado o pacto de estabilidade e crescimento, de que sejam reformados os sistemas bancários entre os países europeus e de que diminua a distância que separa, nessa área, a tecnologia norte-americana da européia.
Ao voltar as costas ao multilateralismo, em termos militares e financeiros, e ao se acomodar com um déficit orçamentário imprudente, Washington aumentou o interesse por essa hipótese. O valor das reservas em dólares acumuladas por vários países diminuiu ligeiramente e ocorreu uma pequena reorientação nas carteiras – inclusive devido ao faturamento de algumas vendas de petróleo brut em euros, e não em dólares, exemplo de um alvo para as iniciativas estratégicas da União Européia. Se esta conseguisse persuadir os países exportadores de petróleo a aceitar euros em vez de dólares, poderia eclodir um novo conflito transatlântico. Em relação a este aspecto da questão, o país-chave é a Rússia: para a União Européia, a carta a jogar seria a de tentar, num primeiro momento, convencer Moscou a adotar vínculos mais estreitos com ela e, num prazo mais longo – por que não? – a aderir à Europa ampliada.
(Trad.: Jô Amado)

* Professor de economia na American University (Washington, DC) e autor, entre outros livros, de Street of Dreams – Boulevard of Broken Hearts: Wall Street’s First Century, ed. Pluto Press, Londres, 2003.

1 – Os acordos de Bretton Woods (1944) criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI), prevendo taxas de câmbio fixas (com uma margem de flutuação de 1%) das moedas em relação ao dólar e a convertibilidade desta última sobre uma base fixa de 35 dólares por onça troy de ouro.
2 – Os números referem-se a um ano, de junho de 2002 a junho de 2003. Fonte: The Economist, 26 de julho de 2003.
3 – De acordo com a OCDE, os fluxos de investimento diretos nos Estados Unidos caíram de 131 milhões de dólares em 2001 para 30 milhões de dólares em 2002.
4 – Ler “Tax Distortion in the Global Economy” in Global Tensions, a ser lançado pela editora Routletge, de Londres.

 
 
 
http://www.diplo.com.br
Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 2, número 23, dezembro 2001
EURO
 
 

O euro não nasceu para contestar a hegemonia americana

Euro, quo vadis?

Giorgio Romano Schutte
15/05/2009
 

A falta de uma autoridade supranacional esvazia o potencial do euro, atrasando a necessária repactuação do sistema

Para muitos a crise foi uma surpresa, em particular sua profundidade, apesar de não faltarem analistas que há muito tempo alertam para a insustentabilidade do sistema financeiro internacional organizado em torno da hegemonia incontestável do dólar americano. Paradoxalmente, por enquanto o dólar valorizou-se perante praticamente todas as demais moedas, inclusive sua alternativa potencial, o euro. Não só não houve ‘dolar crash’ como ocorreu, ao contrário, um fortalecimento do dólar. Aparentemente existe uma convicção generalizada de que os EUA continuam sendo a principal potência e, apesar de ter originado a crise, também será o país que vai liderar sua superação, portanto um ‘porto seguro’.

Essa posição do dólar como principal moeda de reserva possibilitou aos EUA atrair, ou melhor, apropriar-se da poupança dos outros países, sem precisar se preocupar com a restrição externa, durante praticamente todo o período que coincide com a liberalização financeira. E foi esse mecanismo que financiou altos padrões de consumo interno dos EUA e os gastos com a manutenção de seu aparato militar, em particular a guerra no Iraque. A confiança de que esse sistema funcionaria de forma sustentável vinha de um lado do dinamismo real da economia americana e de outro lado da sua posição político-militar, esfera na qual o mundo tornou-se unipolar no período pós-guerra fria. Países superavitários na Ásia Oriental, em particular a China e o Japão, sustentam esse mecanismo ao aplicar a maior parte da suas enormes reservas internacionais em títulos do governo dos EUA. Países exportadores de petróleo e os demais países emergentes superavitários, como o Brasil, aderiram a essa lógica. O nível de vida dos EUA depende da vontade do mundo de aceitar ativos em dólares em troca de bens e serviços reais.

O euro não nasceu para atrapalhar essa lógica ou contestar essa hegemonia. Concretizou-se, paradoxalmente, graças à onda de ataques especulativos ocorridos no início dos anos 90 e tirou de vez da especulação cambial todo o mercado interno dos países que aderiram à moeda, hoje 16 dos 27 países da União Europeia. Foi recebido com muito ceticismo pelos mercados financeiros, principalmente dos EUA, mas logo mostrou que veio para ficar do lado do dólar. Entre 2002, o ano de entrada em circulação, até pouco antes do início da atual crise financeira, em meados de 2008, o euro valorizou 77% em relação ao dólar. Como sinal dos novos tempos, no final de 2007 Gisele Bundchen manifestou seu desejo de ser paga em euro dentro do seu novo contrato com a Pantene. Na mesma época um dos mais famosos rappers dos EUA, Jay-Z, conquistou páginas de economia ao lançar um videoclipe no qual circulava em um carro luxuoso mostrando notas de euro.

Embora nunca tenha havido intenção por parte do Banco Central Europeu de ameaçar a posição do dólar, nem sob a liderança do holandês Wim Duisenberg ou na atual gestão do francês Jean-Claude Trichet, sem dúvida ele se tornaria alternativa e um potencial parceiro para a construção de um possível novo sistema monetário multilateral. Crucial neste processo seria a adesão da Inglaterra, principal praça financeira europeia, o que seria questão de tempo, apesar de parecer uma hipótese remota no curto prazo.

Analisando o caminho percorrido pelo euro desde 2002 até a crise, surpreende o fato de que a moeda não se fortaleceu perante a crise financeira. Ao contrário, passa por uma desvalorização expressiva, apesar de esta ainda ser inferior à valorização no período antecedente.

A questão não era imaginar que a crise provocaria fuga de dólares para o euro, mas uma continuação, até acelerada, da sua valorização perante o dólar como alternativa para diversificar as aplicações. Porém não foi isso que aconteceu até agora. Ocorre que o dólar mostrou-se mais convincente que o euro.

A explicação desse fato deve considerar que os países da UE também foram atingidos economicamente, apesar de a destruição da riqueza financeira ser menor, mas é principalmente uma questão política. De certa forma, a crise veio cedo demais para que o euro seja visto como uma alternativa. É como se a pancada de chuva tivesse chegado no momento em que a casa não estava ainda finalizada. E assim não apareceu como abrigo seguro o suficiente, em primeiro lugar para aumentar o interesse dos ingleses (e suecos) de se juntar. Tudo indica que o interesse na Inglaterra em considerar uma adesão ao euro não apenas não tenha aumentado, mas pode até ter diminuído.

A debilidade política do euro está no fato marcante de se tratar de uma moeda sem Estado. São vários governos, não há centralização. Em última instância, a credibilidade não vem dos bancos centrais, mas dos governos. A União Europeia trabalha com dois mecanismos de representação supranacional. A incondicional (por exemplo na política de competição) e a supervisionada (no caso da política comercial). Não há clareza sobre o caráter da autoridade comunitária para negociar a política monetária. O texto da chamada Constituição Europeia, posteriormente transformado em tratado, previa que o grupo do euro (composto pelos ministros de finanças dos países do euro), até agora um grupo informal, se transformasse em instância formal, elegendo um presidente, que seria a autoridade máxima. Uma espécie de ministro de Finanças da União Europeia, para quem Geithner poderia ligar, relembrando a máxima do euro-ceticismo de Kissinger (para quem devo ligar se eu quiser falar com a Europa?). Ao mesmo tempo, estava-se avançando rumo a uma representação unificada nas instituições financeiras internacionais. Mas o veto do povo Irlandês na véspera da crise financeira, expresso em referendo ao texto do tratado, atrasou esse avanço e, portanto, quando veio a crise, houve sim uma certa vontade política de coordenação, mas ficou evidente a falta de uma autoridade supranacional. Esse fato esvazia o potencial do euro para ocupar um papel de maior destaque do lado do dólar, atrasando desta forma a necessária repactuação do sistema monetário internacional.

Giorgio Romano Schutte é professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes e membro do Grupo de Análise de Conjuntura da USP (GACINT)

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