Economy and Society II de José Porfiro – Specific

13 de março de 2007

NEOLIBERALISMO x HOMEM II

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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 4, número 45, outubro 2003
CULTURA

A arte de reduzir as mentes
A força da ideologia neoliberal decorre do fato de não começar visando ao homem. Ela cria um novo estatuto do objeto, definido como simples mercadoria, esperando que os homens se transformem ao se adaptarem à mercadoria, apregoada como a única coisa real
Dany-Robert Dufour*

O capitalismo, que produz e devora muito, é “antropofágico”: também “come” o homem. Mas o que consome exatamente? Os corpos? Estes são usados há muito tempo e a antiga noção de “corpos produtivos” é uma prova disso1. A grande novidade é hoje a redução das mentes. Como se o pleno desenvolvimento da razão instrumental (a técnica), inerente ao capitalismo, resultasse num déficit da razão pura (a faculdade de julgar a priori o que é verdadeiro ou falso, e até o que é o bem ou o mal). É precisamente este traço que me parece caracterizar como propriedade específica a virada chamada de “pós-moderno”: o momento em que o capitalismo, depois de ter subjugado tudo, dedicou-se à “redução das cabeças”.(…) A hipótese é, em suma, simples mas radical: nós assistimos, no presente, à destruição do duplo sujeito que teve origem na modernidade, o sujeito crítico (kantiano) e o sujeito neurótico (freudiano) – a que se deve acrescentar o sujeito marxiano – e vemos instalar-se um novo sujeito, um sujeito “pós-moderno”, a ser definido.
O processo de quebra simultânea do sujeito moderno e de fabricação provável de um novo sujeito é extremamente rápido. O sujeito crítico kantiano, que surgiu perto dos anos 1800, e o sujeito neurótico de Freud, nascido próximo dos anos 1900 – os quais, por sua idade respeitável, pareciam afastados de qualquer execução sumária – estão em vias de desaparecer diante de nós com uma rapidez espantosa. Esses sujeitos filosóficos eram pensados como protegidos das vicissitudes da história, bem instalados em uma posição transcendental e constituindo incansáveis sujeitos de referência para pensar nosso ser-no-mundo e, na verdade, muitos pensadores continuam espontaneamente a refletir com essas formas, como se fossem eternas. Ora, esses sujeitos perdem, pouco a pouco, sua evidência. A potência da forma filosófica que os constituía parece evaporar-se na história. Tornam-se fluidos. É difícil acreditar que formas tão analisadas, tão elaboradas, tão experimentadas possam desaparecer em tão pouco tempo. Entretanto, nunca se deveria esquecer que civilizações milenares podem se extinguir em alguns lustros.
Para se ater a acontecimentos recentes, é necessário lembrar que se viram tribos indígenas da floresta amazônica, que tinham atravessado os séculos e os ambientes mais hostis protegidos por práticas simbólicas solidamente arraigadas, perecerem em algumas semanas, incapazes de resistir aos choques violentos de uma outra forma de troca – a troca comercial2.

A des-simbolização do mundo
Essa morte programada do sujeito da modernidade não me parece estranha à mutação que se observa, há uns bons vinte anos, no capitalismo. O neoliberalismo – para chamar esse novo estado do capitalismo por seu nome – atualmente está ocupado em desfazer todas as formas de trocas que prevaleciam, substituindo-as por um referencial que avalize o absoluto ou metassocial das trocas. Para ser rápido e ir ao ponto e no essencial, poderia-se dizer que seria necessário o ouro como referência para garantir as trocas monetárias, assim como seria necessária uma garantia simbólica (a Razão, por exemplo) para permitir os discursos filosóficos. Ora, deixa-se, a partir de agora, de se referir a qualquer valor transcendental para se dedicar às trocas. As trocas não valem mais enquanto garantidas por uma potência superior (de ordem transcendental ou moral), mas, sim, pelo que colocam diretamente em relação enquanto mercadorias. Em uma palavra, a troca comercial, hoje, des-simboliza o mundo. (…)
Toda figura transcendente que venha a fundar o valor será, a partir de agora, recusada; só existem mercadorias que são trocadas por seu estrito valor de mercado. Hoje, pede-se aos homens que se livrem de todas as sobrecargas simbólicas que garantiam suas trocas. O valor simbólico é assim desmantelado em proveito do simples e neutro valor monetário da mercadoria, de modo que nenhuma outra coisa, nenhuma consideração (moral, tradicional, transcendente, transcendental…), possa constituir um obstáculo à sua livre circulação. Disso resulta uma des-simbolização do mundo. Os homens não devem mais se conciliar com os valores simbólicos transcendentes, eles devem, simplesmente, se submeter ao jogo da circulação infinita e ampliada da mercadoria.
Se o que afirma Marcel Gauchet for verdadeiro – “a esfera de aplicação do modelo [de mercado] está destinada a se estender muito além do domínio da troca comercial3” -, então haverá um preço a pagar por essa extensão: a alteração da função simbólica.(…).

Adaptando o indivíduo à mercadoria
Essa mudança radical no jogo das trocas leva a uma verdadeira mutação antropológica. A partir do momento em que qualquer garantia simbólica das trocas entre os homens é liquidada, é a própria condição humana que muda. Nosso ser-no-mundo não pode mais ser o mesmo a partir do momento em que o que se empenha de uma vida humana deixa de depender da busca da conciliação com esses valores simbólicos transcendentais desempenhando o papel de fiadores, mas fica vinculado à capacidade de se adaptar aos fluxos sempre instáveis da circulação da mercadoria. Em uma palavra, não é mais o mesmo sujeito que se exige aqui e ali.
Começamos, dessa forma, a descobrir que o neoliberalismo – como todas as ideologias anteriores que irromperam ao longo do século XX (o comunismo, o nazismo…) – não quer outra coisa senão a fabricação de um homem novo. Mas a grande força dessa nova ideologia em relação às anteriores decorre do fato de não ter começado visando ao homem diretamente, por meio de programas de reeducação e de coerção. Ela se contentou com introduzir um novo estatuto do objeto, definido como simples mercadoria, esperando que o resto viesse na seqüência: que os homens se transformassem no momento de sua adaptação à mercadoria, promovida desde então como a única coisa real4. O novo adestramento do indivíduo efetua-se, pois, em nome de um “real” que é melhor acatar com resignação do que se opor: ele deve parecer sempre agradável, querido, desejado como se se tratasse de entertainments (televisão, publicidade…). Ainda não se analisou bem a incrível violência que se dissimula atrás dessas novas fachadas soft.(…)

O sujeito “esquizóide” da pós-modernidade
Deve-se notar que, em “fábrica de um novo sujeito”, entendo “sujeito” no sentido filosófico do termo: não falo do indivíduo no sentido sociológico, empírico ou mundano do termo, falo da forma sujeito ideal em via de se construir. Primeiramente, faço referência à forma sujeito que se construiu por volta dos anos 1800 com o aparecimento do sujeito crítico kantiano. O empirismo de Hume e seu ceticismo contra a racionalidade da metafísica clássica abalaram Kant, como se sabe, a tal ponto, que este bruscamente “despertou de (seu famoso) sono dogmático” e se viu forçado a refundar uma nova metafísica, crítica, definida nos limites da simples razão, livre do dogmatismo da transcendência e, entretanto, nada cedendo ao ceticismo empirista. Assim nascia a filosofia kantiana: baseada nos progressos da física desde Galileu e Newton, ela se constituiu sobre uma síntese magistral da experiência e do entendimento. A virada kantiana terá sido necessária para estabelecer que o pensamento necessitava tanto da intuição quanto do conceito. Na realidade, para Kant, a intuição sem conceito é cega, mas o conceito sem intuição é vazio. (…)
O que ainda poderá valer esse sujeito crítico a partir do momento em que se trata apenas de vender e de comprar mercadoria? Para Kant, nem tudo é vendável: “Tudo tem um preço, ou uma dignidade. Pode-se substituir o que tem um preço por seu equivalente; em contrapartida, o que não tem preço, portanto não tem equivalente, é o que possui uma dignidade5”. Isto pode ser dito de modo mais claro: a dignidade não pode ser substituída, “não tem preço” e “não tem equivalente”, refere-se apenas à autonomia da vontade e se opõe a tudo o que tem um preço. É por isso que o sujeito crítico não convém à troca comercial, e é exatamente o contrário que se exige na venda, no marketing e na promoção (deliberadamente mentirosa) da mercadoria. (…)
Portanto, nesses tempos neoliberais, o sujeito kantiano vai mal. Mas isto não é tudo, o outro sujeito da modernidade, o sujeito freudiano, não está em melhor situação. A neurose, com suas fixações compulsivas e suas tendências à repetição, não é a melhor garantia para a flexibilidade necessária às múltiplas conexões nos fluxos comerciais. A figura do esquizofrênico atualizada por Deleuze na década de 1970, com as polaridades múltiplas e invertíveis de suas máquinas que manifestam desejo, é, sob esse aspecto, muito mais competitiva6. (…) Tudo acontece hoje como se o novo capitalismo tivesse entendido a lição deleuziana. De fato, é necessário que os fluxos circulem, e circularão ainda melhor se o velho sujeito freudiano, com suas neuroses e suas frustrações nas identificações que não param de se cristalizar em formas rígidas antiprodutivas, for substituído por um ser aberto a todas as conexões. Em suma, levanto a hipótese de que esse novo estado do capitalismo é o melhor produtor do sujeito “esquizóide”, o da pós-modernidade.

Uma aventura rumo à loucura
Na des-simbolização que vivemos atualmente, o que convém não é mais o sujeito crítico antecipando uma deliberação conduzida em nome do imperativo moral da liberdade, nem tampouco o sujeito neurótico tomado de uma culpabilidade compulsiva; o que se exige agora é um sujeito precário, acrítico e psicotizante, um sujeito aberto a todas as conexões comerciais e a todas as flutuações identitárias.
É evidente que, apesar disso, os indivíduos não se tornaram todos psicóticos. (…) De modo geral, por toda parte onde há instituições ainda vivas, isto é, onde nem tudo esteja ainda completamente desregulamentado, ou seja, esvaziado de toda substância, existe resistência a essa forma dominante. Afirmar que uma nova forma sujeito está em vias de se impor na aventura humana não significa, pois, dizer que todos os indivíduos irão sucumbir facilmente a ela. Não digo, portanto, que todos os indivíduos irão enlouquecer, digo simplesmente que, afirmando essa forma sujeito ideal, fazem-se grandes esforços para que eles se tornem loucos. Em especial mergulhando-os num “mundo sem limite7” que incentive a multiplicação de passagens à ação psicotizantes e sua instalação num estado borderline.
Como Foucault profetizara há vinte anos, o mundo tornou-se, pois, deleuziano. (…) Deleuze queria simplesmente ultrapassar o capitalismo desterritorializando mais depressa que este, mas tudo indica, hoje, que ele subestimou a fabulosa velocidade de absorção do capitalismo e sua fantástica capacidade de recuperação da crítica mais radical8. O que coloca mais uma vez na ordem do dia o ditado segundo o qual os sonhos políticos do filósofo freqüentemente se realizam como pesadelos.

Construindo impérios de papel
A essa morte programada do sujeito crítico kantiano e do sujeito neurótico freudiano, convém acrescentar um terceiro atestado de óbito, o do sujeito marxiano.
Realmente, na economia neoliberal, o trabalho não é mais a base da produção do valor. O capital não é mais essencialmente constituído pela mais-valia (Mehrwert, em Marx) originada da superprodução apropriada no processo de exploração do proletário. O capital aposta cada vez mais nas atividades de alto valor agregado (pesquisa, engenharia genética, Internet, informação, mídia…), em que a parte do trabalho assalariado pouco ou medianamente qualificado é, às vezes, extremamente pequena.
Mas, principalmente, o capital agora faz intervir fundo a gestão das finanças em movimentos especulativos de grande amplitude. A parte da economia “real”, por exemplo, diminui proporcionalmente à financeirização da economia que se desenvolveu de maneira considerável nos últimos 25 anos, a partir do desenvolvimento dos novos mecanismos financeiros e instrumentos de gestão do capitalismo (…). Aparece, desta maneira, como um epifenômeno conquistador vindo se enxertar sobre a economia real, uma economia virtual que consiste, essencialmente, em criar muito dinheiro com quase nada, vendendo muito caro o que ainda não existe, o que já não existe ou o que pura e simplesmente não existe, correndo o risco de criar impérios de papel prontos a desabar de modo brutal (cf. os escândalos Enron, WorldCom, Tyco…). (…)

A reestruturação das mentes
Sob uma aparência bonachona e democrática, uma nova ideologia, provavelmente tão virulenta quanto as terríveis ideologias que surgiram no Ocidente no século XX, está se instalando. Na verdade, não é impossível que, após o inferno do nazismo e o terror do comunismo, uma nova catástrofe histórica se manifeste. É o caso de perguntar se não se saiu de umas para cair mais facilmente em outra. Porque o ultraliberalismo, como as duas ideologias acima citadas, quer igualmente fabricar um homem novo.(…)
Entramos, pois, em um tempo novo: o do capitalismo total que não se interessa mais só pelos bens e por sua capitalização, que não se contenta mais com um controle social dos corpos, mas visa também, sob a aparência de liberdade, a uma profunda reestruturação das mentes. Tudo, de fato, deve agora entrar no mundo da mercadoria, todas as regiões e todas as atividades do mundo, inclusive os mecanismos de subjetivação. É por isso que, diante desse perigo absoluto, a hora é de resistência, de todas as formas de resistência que defendem a cultura – em sua diversidade – e a civilização – em suas conquistas.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

* Filósofo, professor em Paris-VIII. Este texto é um trecho do livro L’art de réduire les têtes, a ser publicado no início de outubro pela editora Denoël, Paris.

1 – A noção de “corpo produtivo”, enquanto corpo biológico integrado no processo de produção, já está presente em Marx, em Le Capital in Œuvres complètes, ed. Gallimard, Paris, 1965: cf. Livre premier, Le développement de la production capitaliste, IVe section: la production de la plus-value relative, XIII: Coopération.
2 – Ver, por exemplo, La guerre de pacification en Amazonie, 90’, documentário de Yves Billon, Les Films du village, 1973.
3 – Ler, de Marcel Gauchet, La démocratie contre elle-même, ed. Gallimard, Paris, 2002.
4 – Ler, de Charles Melman e Jean-Pierre Lebrun, L’homme sans gravité, Jouir à tout prix, ed. Denöel, Paris, 2002.
5 – Ler, de Emmanuel Kant, Fondements de la métaphysique des mœurs [1785], ed. Garnier-Flammarion, Paris, p.116.
6 – Ler, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, L’anti-Œdipe, capitalisme et schizophrénie, ed. Minuit, Paris, 1972.
7 – Ler, de Jean-Pierre Lebrun, Un monde sans limite, ed. Erès, Ramonville, 1997.
8 – Cf., de Luc Boltanski e Ève Chiapello, Le Nouvel esprit du capitalisme, ed. Gallimard, Paris, 1999.

 
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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 4, número 36, janeiro 2003
GLOBALIZAÇÃO

A recolonização do mundo
O “Projeto Globalização” baseia-se em dois enunciados: o do “fim da História” (a “globalização feliz”) e o do “choque de civilizações” – este último explica que se a globalização não deu certo, isso se deve a “criminosos”, “inimigos da América”…

Jean De Maillard*

Já parece bem distante a época em que os pensadores da globalização exprimiam sem dissimulações seu orgulho por ter posto fim ao corte bipolar do planeta. Desde o 11 de setembro de 2001, na realidade, a confiança nas virtudes da globalização econômica e financeira foi seriamente enfraquecida, mesmo entre os mais otimistas. A esperança de se ter chegado ao “fim da História” logo bateria de frente, na literatura norte-americana, com o “choque das civilizações”. Maneira de dizer que se o projeto de uma “globalização feliz”, desejada e trazida pelos ocidentais, fracassasse, seria culpa de seus inimigos, obscurantistas limitados.
Vale a pena retomar o diálogo, iniciado na década de 90, entre os partidários de Francis Fukuyama e os de Samuel Huntington1. Os europeus continentais identificaram nele apenas um tema de dissertação filosófica tratado às pressas. Não compreenderam que as duas teses, longe de se contradizerem, completavam-se. Não captaram tampouco o uso a que se destinavam. É preciso lembrar que o pensamento norte-americano é primeiramente utilitário, principalmente quando tem implicações ideológicas e estratégicas: a teoria do fim da História tinha por função acompanhar o dogma norte-americano da primeira globalização, o da “globalização feliz”. Esta representação ideológica se despedaçou rapidamente nas realidades de uma geopolítica que se recusava a ser sacrificada no altar da globalização financeira. Do Irã à Colômbia, de Cuba ao Iraque – sem contar algumas outras zonas cinzentas, como os Bálcãs, a Somália, ou o Afeganistão, nem alguns barris de pólvora, como o Oriente Médio – restavam forças maléficas consideravelmente ativas. Não só os benefícios da globalização não as haviam reduzido, mas elas pareciam, ao contrário, revigoradas pela liberalização selvagem dos mercados. É aí que entra em cena Huntington e seu “choque das civilizações”: se a globalização não produziu os frutos esperados, é porque está refreada e desvirtuada por aqueles que, criminosos inimigos da América, querem impedir o resto do mundo de progredir para as delícias civilizatórias do American Way of Life.

A verdadeira ameaça do século XXI
Mas quais seriam, então, essas ameaças obscuras que vinham entravar o acesso à “aldeia global”? Os discursos ideológicos não tinham por função dizê-lo, mas justificar aqueles que eram encarregados de dizê-lo. Pois a força dos Estados Unidos não vem apenas de seu poderio econômico e financeiro. Também se apóia na sua capacidade de inserir esse poderio potencial em uma moldura e em uma doutrina de ação que a tornam coerente e racional (ao menos, em termos do discurso) e que, principalmente, aumentam a interatividade e a sinergia dos elementos que a compõem. Foi assim que apareceu o tema, de início vago, das “novas ameaças”, que se acreditava ingenuamente virem simplesmente compensar o desaparecimento do inimigo soviético. Tratava-se, na realidade, de uma coisa totalmente distinta: responder aos fracassos da globalização que recolocavam em questão suas premissas e pressupostos, no momento preciso em que ela impulsionava os Estados Unidos e a economia globalizada que lhes servia tão bem a caminho dos cumes de seu poderio.
No início da década de 90, as ameaças identificadas eram principalmente mafiosas ou criminais, mas, ainda durante essa mesma década, o terrorismo tomou um lugar crescente na retórica norte-americana. Depois veio o 11 de setembro. As ameaças “contra” a globalização se tornaram, então, abertamente ameaças “da” globalização. Bastaria, então, reagir prontamente aos países do hemisfério Sul, designados como países “fontes” da criminalidade e do terror, quando se tornou também evidente que essas ameaças só puderam atingir o coração do sistema empregando os meios deste último? Não apenas os da tecnologia ocidental, voltados contra o Ocidente com ajuda de simples estiletes, mas os meios financeiros, cuja engenharia toda, tão opaca quanto sutil, foi inventada para contornar os rigores reguladores dos Estados. As vulnerabilidades da globalização apareceram então como a verdadeira ameaça do século XXI.

A “bunkerização” do território e dos interesses
Mas quais seriam essas vulnerabilidades? Seriam as distorções introduzidas por um modo de desenvolvimento que aprofunda as desigualdades, agrava a heterogeneidade e as desordens do mundo, assola as áreas culturais não-ocidentais e criminaliza a economia e as finanças? Ou seria a fragilidade das estruturas complexas da globalização, cuja perfeição high-tech só pode desabrochar num ambiente tornado perfeitamente asséptico? Escolher a primeira resposta é querer uma outra globalização. A segunda, ao contrário, embala a doutrina reconfortante de uma globalização messiânica, cujo centro é ocupado pelos Estados Unidos e que deverá se defender bravamente para não ser carregada pelas forças do Mal. Em um ano, quando muito, as estratégias norte-americanas elaboraram e começaram a colocar em prática ao mesmo tempo uma doutrina, uma estratégia e uma tática cuja execução se tornará uma questão decisiva para a próxima década.
A doutrina é a da segurança absoluta e prioritária do solo e dos interesses norte-americanos – e somente deles. Sob a aparência de uma defesa do sistema ocidental (democracia e liberalização dos mercados), sua única preocupação é a “bunkerização” de seu território e de seus interesses nacionais. Mas esta bunkerização é tudo menos um novo isolacionismo, pois o que faz a vulnerabilidade dos Estados Unidos – a abertura das fronteiras e a colocação em redes – é ao mesmo tempo aquilo sobre o que está construído seu poder e que eles devem preservar a qualquer preço. E não poderia também ser mais questionada por eles a instauração de regulamentações privando-os das vantagens estratégicas que lhes confere sua posição hegemônica sobre os mercados econômicos e financeiros.

Controle absoluto do sistema financeiro
Para proteger seu modelo, a única opção para os Estados Unidos é estendê-lo a qualquer preço ao resto do mundo. A estratégia escolhida consiste em impor a autoridade de suas próprias normas, sob pena de se fecharem os mercados norte-americanos. Este modo de fazer não é completamente novo, pois o governo Clinton já recorria a ele sob o nome de Shaping the world (“moldando o mundo”). Já o que é radicalmente novo é que, inicialmente limitado às tecnologias da informação e da comunicação para garantir aos Estados Unidos, neste setor-chave do poderio global, uma information dominance (ou superiority), ele abrange hoje todos os domínios da economia e das finanças, antes excluídos, por definição, da área da regulamentação dos Estados.
Não se trata de introduzir uma regulação dos mercados, mas apenas de preservar a preeminência de Washington. Os paraísos bancários, fiscais e judiciários não estão ameaçados, pois são parte integrante da economia dos Estados Unidos, que os utiliza principalmente para fazer uma concorrência fiscal desleal com os europeus2. Atualmente, os norte-americanos dotaram-se de meios para controlar todos os fluxos financeiros envolvendo o dólar ou que passam por seu território, pressionando os bancos correspondentes de seus próprios estabelecimentos financeiros a fornecerem informações relativas a cada operação feita3. Este sistema de controle, aparentemente tão anódino que escapou aos comentários da imprensa européia, permitirá às autoridades norte-americanas dominar a maioria dos fluxos do sistema financeiro formal (o que utiliza as normas administrativas e contábeis ocidentais).

Uma recolonização imperial
É devido à mesma indiferença dos europeus que os Estados Unidos impõem unilateralmente normas econômicas que reformulam as regras de câmbios e os circuitos comerciais. Uma lista de vinte portos através do mundo, por exemplo, foi fixada unilateralmente pelas autoridades alfandegárias norte-americanas: serão eles os únicos autorizados a exportar mercadorias “conteinerizadas” para portos norte-americanos4. Para constar dessa lista, os países tiveram que aceitar que as regras administrativas e as normas de segurança fossem aquelas determinadas pelos Estados Unidos – e isso sob o controle permanente de guardas alfandegários norte-americanos destacados nos portos credenciados. A França, que não constava da lista inicial, precisou se dobrar a estas condições para que o porto de Le Havre, responsável por cerca de 90% das exportações francesas conteinerizadas para os Estados Unidos, não fosse obrigado a interromper suas atividades. Encontra-se o mesmo procedimento, por exemplo, no projeto de passaportes americanizados, ou seja, estabelecidos segundo as normas de segurança (biométricas) desejadas pelos Estados Unidos e que estes últimos querem impor ao resto do mundo.
Esta estratégia se resume a uma “externalização” das normas norte-americanas, imposta pelos Estados Unidos, mas executada por seus parceiros. Sob o nome de “fronteiras inteligentes”, ela abrange desde a proteção militar e policial do território e dos interesses norte-americanos até as regras jurídicas e administrativas do comércio de bens e de serviços (inclusive financeiros). Segundo esta doutrina de segurança, os parceiros e aliados dos Estados Unidos constituem postos avançados de suas linhas de proteção. O conjunto desses dispositivos estratégicos está bloqueado por uma outra doutrina estratégica, a chamada long arm juridiction (“jurisdição de longo alcance”), introduzida pelo USA Patriot Act, que torna a jurisdição dos Estados Unidos competentes para julgar os atentados aos interesses norte-americanos onde quer que sejam cometidos no mundo.
Quais seriam os verdadeiros objetivos da política de guerra adotada pelos Estados Unidos em nome da luta contra as “novas ameaças”? Não seriam estas a “divina surpresa” que faltava a Washington para justificar a passagem a uma dominação aberta do mundo? Fingindo se oferecer aos ocidentais como seu último escudo, não estariam os Estados Unidos mais precisamente inventando uma nova bipolarização econômica e armada, opondo o Norte e o Sul, em cujo front estariam os europeus, enquanto as empresas norte-americanas tirariam sozinhas seus lucros, retroativamente, de uma recolonização imperial do planeta?

(Trad.: Fabio de Castro)

* Vice-presidente do Centro de Estudos sobre a Lavagem de Dinheiro e a Corrupção (CEBC); autor de O Mercado Faz Sua Lei, ed. Mille et une nuits, Paris, 2001.

1 – Autor de Le choc des civilisations, ed. Odile Jacob, Paris, 1997. Em relação ao assunto, ler, de Tariq Ali, “Em nome do choque de civilizações”, Le Monde diplomatique, outubro de 2001.
2 – Em agosto de 2002, a Organização Mundial do Comércio (OMC), atendendo a uma queixa apresentada pela União Européia, condenou os Estados Unidos por sua legislação (Foreign Sales Corporations) que, por meio de filiais das grandes empresas sediadas em paraísos fiscais, permite o dumping fiscal para exportação. Até agora, a UE não exigiu a indenização pelo que lhe é devido.
3 – Essa obrigação foi adotada no âmbito do “USA Patriot Act”, de 26 de outubro de 2001. Ela impõe aos bancos estrangeiros que informem suas sucursais norte-americanas sobre a composição de seu capital e o conteúdo das operações financeiras realizadas por meio de qualquer banco norte-americano (e, portanto, sobre quaisquer transações realizadas em dólares). Essas informações devem ser eventualmente obtidas pelos bancos estrangeiros junto a seus correspondentes situados no início da operação, o que cria um auto-controle mundial acima de qualquer obrigatoriedade territorial. Um banco que se recusasse a dar as informações exigidas em nome, por exemplo, do sigilo bancário, correria o risco de ver proibido seu acesso ao sistema financeiro norte-americano.
4 – A União Européia emitiu alguns protestos, mas atualmente já está negociando com os Estados Unidos a “comunitarização” do mecanismo de forma a evitar que os portos europeus venham a travar uma concorrência de preços entre si.

 

 

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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 3, número 29, junho 2002
POLÍTICA

O jogo duplo das classes médias
As classes médias definem-se por uma dupla relação, para com os de cima e os de baixo. Dominantes-dominados e dominados-dominantes, como o morcego da fábula, dizem: “Sou um pássaro, veja minhas asas; sou um camundongo, vivam os ratos!”

Alain Accardo*

Atualmente, é lugar comum da ciência política maníaca por pesquisas de opinião pública considerar que “a França quer ser governada pelo centro” e que, como no futebol, as batalhas pelo poder se ganham ou se perdem no “meio do campo”. Em termos mais sociológicos, essa constatação consiste em destacar a importância assumida pelo que se convencionou chamar de as “classes médias”. Deixando aos especialistas a preocupação do debate sobre os contornos exatos dessa enorme nebulosa, ressaltemos, aqui, que a noção de “média” aplicada a essas populações, mais do que em seu sentido habitual de localização – que designa um conjunto de posições intermediárias no continuum social –, deve ser entendida num sentido mais “dinâmico”, que reenvia às tensões contraditórias que trabalham permanentemente esse conjunto heterogêneo no interior do processo de “medianização”.
Em outras palavras, não é possível definir as classes médias contentando-se em situá-las em algum lugar do espaço que vai da base do edifício social, onde classes populares vivem com dificuldade sua vida de rejeitados, aos andares superiores, onde oligarquias de ricos governam à sua maneira e jogam dinheiro pelas janelas.

Complicadas estratégias de aliança
Uma vez que as diferentes frações das classes médias ocupam posições mais ou menos afastadas dos dois pólos – positivo e negativo – da acumulação capitalista e da dominação social, sua socialização nesse espaço intermediário submetido a uma dupla gravitação acarreta uma estruturação característica da personalidade entre seus membros. De fato, qualquer que seja sua posição nesse espaço, devem, constantemente, se definir por sua dupla relação para com os de cima e com os de baixo. Dominantes-dominados e dominados-dominantes, eles não param de declarar como o morcego da fábula: “Sou um pássaro, veja minhas asas; sou um camundongo, vivam os ratos!”
Donde o caráter fundamentalmente equívoco, ambivalente como diria a psicanálise, de suas relações, de um lado, com a burguesia e, de outro, com as classes populares. Em ambos os casos, pode-se observar uma relação contrastada de atração/repulsa que se manifesta em estratégias complicadas de aliança ou de oposição com o “burgo” e com a “prole”.

O fascínio pela burguesia
É assim que os membros das classes médias, muitas vezes egressos das classes populares ou temendo nelas mergulhar, se dividem entre a inclinação por uma ruptura distintiva irreversível com a massa indistinta e a tendência à solidariedade e à compaixão para com os pobres, às vezes tão próximos. A composição dessas duas tendências espontâneas gera inúmeras práticas de condescendência que consistem em se inclinar com benevolência sobre o destino das “pessoas do povo” para instruí-las, encorajá-las, inseri-las, curá-las, aconselhá-las, fazer-se seu porta-voz, particularmente no plano político, e utilizar em seu proveito o crédito da aliança com os mais dominados na competição com os mais dominantes.
Observa-se a mesma ambivalência na relação com a burguesia. Esta fascina, literalmente, as classes médias que sonham com o acesso à arte de viver na riqueza, tal como a fantasiam. Mas, na falta de meios efetivos para isso, os pequeno-burgueses, com freqüência, vivem a relação com seu modelo à moda bovarista do despeito amoroso que, em resposta à arrogância e à condescendência dos poderosos, pode transformar-se em ressentimento agressivo, ou até autopunitivo.

As expectativas pequeno-burguesas
De maneira mais geral, a ambivalência das classes médias está na raiz de sua relação com o mundo social existente. Retiram dele todos os benefícios e privilégios de que desfrutam e – talvez mais ainda que os benefícios reais, obrigatoriamente limitados, provenientes da relativa redistribuição dos bens materiais e simbólicos – a esperança de benefícios futuros ligados à sua possível promoção ou à promoção de seus filhos.
Ao mesmo tempo, os pequeno-burgueses que aspiram a entrar na grande burguesia não deixam de tropeçar de mil formas em obstáculos, quase sempre intransponíveis, que se opõem a isso, pois não é da natureza da mobilidade social – que se tem tendência a superestimar transformando-a em democracia – acarretar uma redistribuição geral dos capitais em cada geração nem conter os mecanismos de reprodução social.
As classes médias são, pois, estruturalmente destinadas a viver entre esperança e decepção, entre entusiasmo e desencanto, num sistema que, por natureza, só pode engendrar e exacerbar reivindicações que não pode totalmente satisfazer. A lógica objetiva de sua condição leva os pequeno-burgueses a desenvolver duas espécies de expectativas. Umas, proporcionais aos capitais de que realmente dispõem, as aspirações ortodoxas, se é que se pode chamá-las assim, têm todas as chances de ser satisfeitas – o que tem por efeito reforçar a adesão e alimentar o consenso. As outras, as aspirações heréticas, exorbitantes em relação aos capitais reais, têm toda a probabilidade de serem rejeitadas como sendo pretensões inaceitáveis – o que tem por efeito atiçar a frustração e alimentar a contestação.

Contestar no sistema, e não o sistema
Esse esquema de base é válido para todas as frações da pequena-burguesia. Segundo a natureza e o volume dos capitais possuídos, segundo sua situação atual e sua história social, cada fração – e, no interior de cada fração, cada categoria e, finalmente, cada indivíduo – desenvolvem, alternada ou simultaneamente, estratégias específicas inscritas na lógica desse duplo jogo cujo objetivo é levar uma existência socialmente gratificante.
Contudo, independentemente dessas variações, parece difícil imaginar que as classes médias, exceto minorias momentaneamente mais radicais, possam mobilizar-se contra o sistema a ponto de ameaçar sua existência. Em geral, a contestação, que às vezes pode expressar-se de forma violenta, é uma contestação no sistema, e não uma contestação do sistema. Donde o sucesso que encontram, junto a essas populações, as diferentes variantes (de direita e de esquerda) do pensamento neo-reformista que têm em comum considerar que todos os aspectos do funcionamento do sistema podem ser legitimamente discutidos, mas que o princípio propriamente dito de sua existência deve ficar fora dos limites da discussão legítima.

Uma colaboração complacente
Em outros termos, as classes médias podem até lutar pela modificação de certas regras do jogo estabelecido, mas sem deixar de jogar o jogo que elas sequer imaginam que possa ser interrompido, de tal modo sua integração ao sistema é consubstancial ao seu ser social. Às vezes, as divergências sobre as regras do jogo acarretam, no calor dos combates, enfrentamentos espetaculares que podem iludir sobre a natureza e a força das oposições.
Mas divergência não é dissidência e, mediante algumas concessões arrancadas dos dominantes, tudo acaba entrando na ordem. As classes abastadas e dirigentes aprenderam, há muito tempo, a gerenciar os sobressaltos e os ataques bruscos das populações que atrelaram ao carro de sua dominação. Sabem não só manejar a cenoura e o porrete, como também pôr em funcionamento, quando a situação exige, estratégias de união sagrada que, sob a aparência de defesa dos valores universais, colocam as classes médias sob a bandeira da ordem estabelecida que deve ser protegida contra um inimigo decretado bárbaro e arcaico. Atualmente, sabem fazer isso até em escala internacional, sob uma bandeira estrelada, de preferência.
Porém, seria impossível aos dominantes instaurarem sua hegemonia sem a colaboração complacente e diversamente interessada das várias frações das classes médias e, singularmente, das corporações que asseguram funções de enquadramento, de direção, de formação e de informação etc., obrigadas a servir para se servirem.

A ordem estabelecida no inconsciente
É necessário insistir nesse aspecto das coisas e, particularmente, no fato de que, realizando esse trabalho de manutenção da ordem simbólica indispensável ao reino dos poderosos, os executivos e os outros auxiliares da dominação conseguem convencer-se de que, realmente, defendem valores universais de liberdade, de justiça e de humanidade. Eles não têm – exceto em um ou outro caso particular de cinismo – o sentimento nem, com mais razão ainda, a vontade de servir a um sistema de exploração, de opressão e de corrupção pois, a seus olhos, tal sistema, por mais que seja objeto de uma reflexão explícita, é globalmente benéfico e conforme ao credo do catecismo neoliberal de que estão impregnados.
Assim como o conjunto das classes médias, condicionadas no e pelo próprio sistema, não consegue conceber claramente sua natureza. Os próprios investimentos que fazem no sistema dissimulam sua percepção objetiva. E só podem percebê-lo através dos clichês mágicos que servem para suavizar a impiedosa concorrência social e o reino iníquo da força.
O que faz a força da ordem estabelecida é, justamente, o fato de não ser estabelecida apenas no exterior dos indivíduos, mas instalada, simultaneamente, em suas cabeças e em suas vísceras, entranhada, incorporada, tornada carne e sangue, consciência e, sobretudo, inconsciente. De modo que, para servi-la, não é necessário refletir sobre isso expressamente; basta, ao contrário, deixar-se levar pela espontaneidade de seus hábitos e pela lógica de seus investimentos.

Uma mediocridade insuperável
O que exige um duro esforço não é pensar na e com a lógica do sistema, mas, sim, pensar contra, isto é, contra seus próprios condicionamentos. É muito difícil realizar esse trabalho de sócio-análise. Poucas pessoas o fazem e, dentre as que o fazem, poucas têm perseverança para continuá-lo. Sem dúvida porque ele muda, para mais ou para menos, a vida do interessado, perturbando as pequenas conciliações feitas com o mundo.
De qualquer maneira, essa hipótese tem toda a probabilidade de ocorrer nas classes médias, cujos membros amam seu destino social pelo que ele lhes oferece e, ao mesmo tempo, o detestam por tudo aquilo em que os frustra (e, ao contrário da idéia bastante aceita, o que os faz sentirem-se frustrados não é o não poder consumir mais e, sim, o saber confusamente que estão destinados a uma insuperável mediocridade).

Sem excessos de lucidez ou heresias
Seja como for, a maioria se contenta com pensar suas experiências em particular e o mundo em geral ao menor custo intelectual e afetivo, por meio de um arsenal ideológico de mitos e de lugares comuns constantemente revivificados e reatualizados por mídias bastante representativas, no conjunto, da espantosa atividade intelectual de quebra-galho, ao mesmo tempo heteróclita e preguiçosa, que caracteriza a cultura das classes médias e faz delas os comparsas e as vítimas de todas as imposturas.
A cultura das classes médias, da qual a imprensa – jornais e revistas – se alimenta, tematizando-a, fornece uma espécie de pensamento-pronto testemunhando, na realidade, a renúncia a um pensamento que registra aquilo em que o mundo se tornou, como se a História tivesse atingido seu estágio terminal e não houvesse mais nada a fazer senão arranjar e administrar o existente, aqui e agora, o mais esteticamente possível. A vacuidade teórica e a indigência filosófica da visão midiática da História só são igualadas pela visão do establishment político em geral.
O que todos esses porta-vozes expressam não é senão seu inconsciente social ou, se se prefere, “o espírito do sistema” que os possui, que pensa neles e fala por sua boca. É evidente que, com tais xamãs, as classes médias não estão nem um pouco ameaçadas por excesso de lucidez nem por heresia. Tampouco por um desejo insensato de mudar realmente as coisas.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

* Autor do livro De notre servitude involontaire: lettre à mes camarades de gauche, ed. Agone, Marselha, 2001.

 

Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 2, número 14, março 2001
LIVROS

As origens de um mito
O poderoso chefão das finanças norte-americanas só conseguiu seu doutorado em Economia com muito esforço, tardiamente e graças a expedientes pouco comuns: dispensado de defender tese, o título lhe foi conferido com base em artigos escritos anteriormente

Ibrahim Warde*

Alan Greenspan, presidente do Banco Central norte-americano (Federal Reserve Bank – Fed) alimenta, por necessidade bem como por temperamento, uma imagem de esfinge. Enquanto o mundo das finanças não pára de perscrutar incessantemente seu pensamento, "o homem que faz os mercados tremerem" se empenha ao máximo para embaralhar as pistas. Mesmo suas declarações privadas, dizem, são enigmáticas, "a tal ponto a obscuridade verbal e a prudência nele estão arraigadas".
Durante muito tempo foi desprezado pelos economistas. Só conseguiria seu doutorado com muito esforço, tardiamente e graças a expedientes pouco comuns: dispensado de defender tese, o título lhe foi conferido com base em artigos escritos anteriormente – e que o público não podia consultar. Em 1974, algumas semanas antes de sua renúncia, o presidente Richard Nixon convidou-o para coordenar sua assessoria econômica. Nesse cargo, que manteve durante o mandato de Gerald Ford (1974-1977), é que enfrentou a primeira grande recessão do pós-guerra e elaborou inúmeros planos – todos destinados ao fracasso – de luta contra a "estagflação".

Pragmatismo e flexibilidade
Sua travessia do deserto durou dez anos. Foi lucrativa, mas sujeita à controvérsia. As previsões do escritório Townsend-Greenspan eram famosas, principalmente porque se mostravam sempre equivocadas. Chegou a ser fiador, em troca de dinheiro líquido, da seriedade e integridade de personagens duvidosos, entre os quais aparece Charles Keating, organizador de fundos de poupança cuja falência custou vários bilhões de dólares aos contribuintes norte-americanos. Em 1987, o presidente Ronald Reagan nomeou Greenspan presidente do Federal Reserve, cargo que ocupa até hoje.
Quem procurar descobrir suas convicções profundas, ficará desconcertado. Durante cerca de 15 anos, foi um discípulo fervoroso da bastante dogmática Ayn Rand, romancista e "filósofa", fundadora do movimento "objetivista", que pretende demonstrar a moralidade do capitalismo selvagem. No entanto, pragmatismo e flexibilidade caracterizam a carreira de Greenspan. Geralmente visto como um republicano moderado na esfera monetarista, soube compartilhar os contornos de políticas econômicas às vezes contraditórias. Nomeado pelo presidente Nixon (a quem se deve a expressão "Somos todos keynesianos"), flertou, na seqüência, com a economia da oferta, antes de se interessar pelo impacto da "nova economia" sobre a produtividade e os grandes equilíbrios econômicos.

O salvador do "mercado"
Apesar de seu fetichismo em relação aos números, é em sua intuição que confia para tomar as grandes decisões. E, por trás de uma imagem de intransigência, sabe lisonjear até obter o que quer. Republicano, teve relações difíceis com o governo de George Bush (o ex-presidente considera que a diminuição do ritmo da economia no período de 1990-1992 foi a causa de sua não reeleição) e conheceu sua verdadeira glória somente durante os dois mandatos de Clinton. Mas, desde 1993, havia conseguido convencer o jovem presidente a abandonar a idéia de programas sociais ambiciosos e a adotar como prioridade absoluta a redução do déficit orçamentário. Clinton disse, então, esta frase que se tornou famosa: "O futuro de meu programa depende da Federal Reserve e do desgraçado do mercado das obrigações."
O mito Greenspan se explica pelo boom da economia e do mercado de capitais durante a década de 90. A imagem convencionada é a de um guardião da ortodoxia financeira, obediente ao veredicto do "mercado". Na realidade, o presidente do Fed esteve no centro de intervenções em massa (salvamento do sistema bancário norte-americano em 1990-1991, do México em 1994, da Ásia em 1997, e do Hedge Fund Long Term Capital Management em 1998), que iam sempre de encontro à lógica proclamada. Mas era preciso proteger os operadores financeiros de seu habitual comportamento. E salvar "o mercado" da catástrofe.
Maestro: Greenspan’s Fed and the American Boom, de Bob Woodward, ed. Simon & Schuster, Nova York, 2000.
Greenspan: The Man Behind Money, de Justin Martin, ed. Perseus Publishing, Cambridge, Massachusetts, 2000.
Traduzido por Iraci D. Poleti.

* Professor na Universidade da Califórnia, Berkeley. Co-autor de Modèle anglo-saxon en question, ed. Econômica, Paris, 1997.

 

http://www.diplo.com.br
Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 2, número 13, fevereiro 2001

DOSSIÊ CIDADES

sennette

 

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