Economy and Society II de José Porfiro – Specific

13 de março de 2007

NEOLIBERALISMO x HOMEM IV

Filed under: Ciência — Porfiro @ 11:16 PM
 
29/04/2008
Muhammad Yunus: "O sistema é cego para toda consideração que não seja o lucro"

Neste momento em que o mundo está às voltas com a crise do sistema bancário e com motins da fome, o Prêmio Nobel da Paz em 2006 aponta os limites e as falhas do capitalismo, e preconiza a implantação de um modelo de empresa social que não excluiria mais da vida econômica a maior parte da humanidade

Frédéric Joignot

Ela chamava-se Sufiya Begum. No início dos anos 1980, ela vivia numa casa de terra, no campo, em Bangladesh. Ela fabricava bonitos banquinhos de bambu. O seu marido, um trabalhador diarista, ganhava o equivalente a alguns centavos de euros por dia. Sufiya Begum, que não tinha nenhum dinheiro guardado, vendia todos os seus banquinhos para um mesmo comerciante, que os adquiria em troca de US$ 0,25 a peça e de um pouco de bambu – este era o preço que eles haviam combinado. Um dia, Muhammad Yunus aparece para falar com ela, espantado com o fato de ela ganhar tão pouco. Nesta época, após concluir estudos de economia nos Estados Unidos, o professor Yunus está dominado pela dúvida. Em 1974-1975, Bangladesh foi assolado por uma terrível onde de fome, e, segundo ele mesmo relata, ele achava "cada vez mais difícil ensinar elegantes teorias econômicas sobre o funcionamento supostamente perfeito dos mercados livres, enquanto a morte arrasava [seu] país". Ele decide agir, movido pela determinação de debelar a pobreza na região de Jobra. Ele não entende por que ela é endêmica. Ao conversar com Sufiya Begum, ele se dá conta do que está acontecendo. "Esta mulher estava sendo estrangulada pelo seu credor. Ele a estava condenando a uma espécie de escravidão. Ela lhe dava toda a sua coleção de banquinhos por US$ 0,25 a peça, apenas por que ela não podia comprar o bambu. Ela carecia de um crédito. Então, eu resolvi investigar por minha conta. Descobri que, no total, 42 aldeões dependiam dos credores. Todos eles poderiam viver da sua atividade, se eles pudessem contar com um pequeno investimento. Tudo o que esses 42 trabalhadores precisavam era de US$ 27, no total. Eu tinha esta quantia no meu bolso?" As idéias que motivaram a fundação do Banco Grameen e do micro crédito nasceram desses encontros.

Atualmente, depois de 25 anos de existência, o Grameen Bank e as instituições de microcrédito que existem pelo mundo afora já ajudaram 150 milhões de pessoas a se desvencilharem da pobreza. O professor Yunus obteve, com o Grameen Bank, o prêmio Nobel da Paz em 2006. Já faz vários anos, ele passou a desenvolver paralelamente uma nova iniciativa: a "empresa social". Trata-se de deslanchar atividades econômicas rentáveis, mas cujo objetivo é de proporcionar um benefício social para os excluídos do mundo econômico. Foi assim que ele fundou, em Bangladesh, junto com Franck Riboud, o CEO da Danone, a sociedade Grameen Danone Foods que vende para os habitantes de Bogra iogurtes frescos a preço reduzido, que eles gostariam de comercializar em breve dentro de copinhos comestíveis – e vitaminados. A iniciativa permite lutar contra a desnutrição e as carências alimentares, além de oferecer empregos locais. Se a experiência funcionar, ela será estendida ao país inteiro. "A implantação de pequenas empresas sociais desta natureza poderia generalizar-se", explica o professor Yunus. "Ela abre um novo tipo de mercado, atento para a pobreza e para as necessidades reais, que talvez venha a modificar os nossos fundamentos econômicos".

A reportagem do "Le Monde" entrevistou Muhammad Yunus em Paris, no momento em que o sistema mundial do crédito está enfrentando uma crise histórica e que vários bancos desmoronaram. O medo da recessão está tomando conta dos Estados Unidos, enquanto dezenas de milhares de americanos inadimplentes se vêem empurrados para o olho da rua pelos organismos credores. O que pensa disso o fundador do Grameen Bank, um estabelecimento no qual as taxas de reembolso dos empréstimos são superiores a 95%?
cont……………………………………

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INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE
26/01/2008
O fracasso do neoliberalismo

Phillip Blond*
Em Lancaster, na Inglaterra

Parece cada vez mais que no século 21 estamos retornando à economia do século 19, quando a riqueza estava tremendamente concentrada nas mãos de alguns poucos proprietários e especuladores astutos.

Nem a direita nem a esquerda parecem ser capazes de criar uma sociedade na qual todos se beneficiem do aumento da prosperidade e da segurança econômica.

As alegações da direita de que os mercados livres enriquecerão todos os setores da sociedade são visivelmente falsas, enquanto o tradicional welfare state, ou Estado de bem-estar social, europeu parece penalizar a inovação e a criação de riqueza, condenando desta forma os pobres e os profissionalmente desqualificados à pobreza e ao desemprego institucionalizados.

Assim, na nova era da globalização, ambas a ideologias criam o mesmo fenômeno: uma subclasse presa entre a assistência social e os baixos salários, uma classe média pesadamente endividada cada vez mais sujeita a inseguranças no que se refere ao trabalho e às pensões e uma nova classe de super-ricos que se esquivam de todas às regras relativas aos impostos e à comunidade.

Foi no Reino Unido que o neoliberalismo emergiu pela primeira vez na sua forma decisiva. Defrontando-se com a militância sindical e a aparente falência do welfare state, o Partido Conservador, sob o controle de Margaret Thatcher, foi eleito em 1979. Nos Estados Unidos, Ronald Reagan assumiu a Casa Branca em 1981, e desde então os dois países anglo-saxões passaram a buscar e defender a liberalização do mercado.

Atualmente, esta filosofia se estende até a China comunista, que, embora despreze a liberdade política, prega fervorosamente a liberalização econômica. Neste ano até mesmo os franceses reconheceram a supremacia do mercado livre, elegendo um presidente que denunciou persistentemente os custos do welfare gaulês, e elogiou as vantagens econômicas do modelo anglo-saxão.

Mas os benefícios da liberalização do mercado dependem de quem você é, de onde você está e da quantidade de dinheiro ou de bens iniciais que você possui.

Em termos de desenvolvimento econômico, o fundamentalismo do mercado livre tem sido um desastre. As soluções de mercado livre aplicada na Rússia durante os anos Yeltsin só causaram o empobrecimento maciço, a criação de uma classe oligárquica tremendamente rica e a ascensão de um governo autoritário.

De forma similar, os índices de crescimento na América Latina e na África, que costumavam ser maiores do que os das outras nações em desenvolvimento, caíram mais de 60% depois que os países dessas regiões abraçaram o neoliberalismo patrocinado pelo Fundo Monetário Internacional na década de 1980. Atualmente essas economias encontram-se praticamente paralisadas.

No nível do trabalhador individual, a história é similar. Os aumentos salariais reais nos 13 principais países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico estão abaixo da taxa de inflação desde aproximadamente 1970.

Assim, já faz 30 anos que os assalariados – e não os proprietários de bens de capital – enfrentam uma persistente pressão negativa sobre o seu padrão de vida. Não foi nenhuma surpresa descobrir que a era dourada do trabalhador assalariado, expressa como uma fatia percentual do produto interno bruto, ocorreu entre 1945 e 1973, e não na época da liberalização econômica.

Ninguém questiona que o comércio aumenta a prosperidade, e que a liberalização de crédito e serviços financeiros permite que grupos até então excluídos suplementem os seus salários comprando ações ou casas e, desta forma, participando da economia de bens de capital.

Mas a verdadeira história do sucesso do neoliberalismo não é a disseminação dos bens para todos, mas sim a enorme e desproporcional parcela de prosperidade obtida pelos muito ricos. Nos Estados Unidos, entre 1979 e 2004, o grupo formado pelos 1% mais ricos da população experimentou uma elevação de 78% da sua fatia da renda nacional, enquanto 80% da população amargou uma redução média da sua parcela de renda da ordem de 15%. Isto representa uma transferência de riqueza da grande maioria para uma minúscula minoria de cerca de US$ 664 bilhões.

A esquerda tradicional entrou em pânico face à hegemonia neoliberal e falou na década de 1980 sobre redistribuição, maiores impostos e restrições às transferências de capital. Mas, fora da Escandinávia, eles estavam assoviando ao vento: as tradicionais economias reguladas pelo Estado pareciam amarradas ao desemprego elevado e ao crescimento reduzido.

Um novo caminho para a esquerda foi fornecido pelo país que primeiro experimentou a nova direita: o Reino Unido. Ao final da década de 1990, o Reino Unido estava exausto do Thatcherismo; os seus serviços públicos não funcionavam bem e o país estava social e economicamente fragmentado. Assim, em 1997 o Novo Trabalhismo foi eleito.

Sob a batuta de Tony Blair e de Gordon Brown, os novos progressistas prometeram que os benefícios da prosperidade crescente seriam aplicados ao setor público e aos pobres. A exclusão social seria combatida com a educação e com a ampliação das oportunidades para todos. Mais uma vez o resto do mundo parou para ver a experiência social que ocorria no Reino Unido. Será que este aparentemente exclusivo círculo neoliberal poderia ser ajustado para beneficiar a todos?

Infelizmente, após dez anos a conclusão é que não.

Na era Thatcher a pobreza dobrou no Reino Unido, e este número tornou-se permanente sob o Novo Trabalhismo. A parcela da riqueza, excluindo habitação, desfrutada pela metade inferior da pirâmide social caiu de 12% em 1976 para apenas 1%, número registrado hoje. Atualmente 13 milhões de pessoas viem em estado de pobreza relativa. A mobilidade social caiu para níveis anteriores ao da Segunda Guerra Mundial.

Os filhos menos capazes dos 20% mais ricos da população atualmente superam os filhos mais capazes dos 20% mais pobres por volta dos sete anos de idade. Quase a metade do grupo mais rico obtém diplomas universitários enquanto apenas 10% dos mais pobres conseguem se formar.

É óbvio que a Nova Esquerda consolidou a divisão de classes de forma ainda mais intensa do que a direita neoliberal.

Resumindo, eis o problema: tanto a esquerda quanto a direita parecem incapazes de desafiar o capitalismo monopolista. Nem o welfare state nem o estatismo são capazes de transformar as vidas dos pobres, e, ao que parece, o neoliberalismo também é incapaz de promover tal transformação. Somente uma economia compartilhada pode corrigir a tendência natural do mercado livre de favorecer os monopólios.

Mas só é possível compartilhar quando todos são proprietários. Portanto, existe uma possibilidade radical, mas ainda inexplorada – a da propriedade e uso generalizados e amplamente distribuídos de bens, créditos e capital. Isso dissolveria o conflito entre capital e trabalho, já que haveria um mercado sem monopólio e um Estado no qual o trabalhador assalariado – sendo ele também proprietário de capital – não necessitaria do welfare state.

* Phillip Blond é profesor de filosofia e teologia da Universidade de Cumbria.

Tradução: UOL

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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira ano 6 número 69, outubro de 2005
EUROPA
A eterna busca do modelo estrangeiro
A mídia e os liberais se encantam com modelos que abrem caminho para o desmantelamento completo do Estado de bem-estar social
Serge Halimi

Há dois anos, Daniel Cohen, professor da Escola Normal Superior, membro do Conselho de Análise Econômica (CAE) e editorialista associado ao Le Monde, mostrava sua serenidade: “Uma vez engolidas algumas últimas pílulas amargas, como a abertura do capital da EDF, a França terá completado a maior parte da adaptação à Europa e ao mundo que envenena sua vida política há vinte anos. As tarefas que a esperam continuam consideráveis, mas ela perderá talvez o sentimento de suportar os acontecimentos. Nesse dia, a idéia do declínio será aceita também1 ”. Ao que parece, ainda estamos esperando por esse dia.
Daniel Cohen, que acaba de acrescentar às suas múltiplas responsabilidades a de senior adviser do Banco Lazard, entretanto, identificou corretamente a maneira como o problema seria situado. Assemelhando-se nisso ao médico de Molière, que grita “O pulmão!” cada vez que seu paciente enuncia um sintoma de sua dor, o atual discurso “declinista” repete que qualquer problema levantado viria do “modelo francês”. E que teria como remédio obrigatório “a adaptação à Europa e ao mundo”. Ou, para falar de modo mais direto, uma “terapia de choque” liberal.

Povo teimoso
Esta última expressão, associada às políticas de Margaret Thatcher e aos planos de ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional (FMI), reaparece várias vezes no livrinho de Nicolas Bavarez, La France qui tombe2 , publicado há dois anos e que, desde então, é parafraseado em cinqüenta artigos por semana. A imitação é tão livre de direitos quanto o rosário de estatísticas descontextualizadas que compõem a obra de Bavarez3 ; seus tons de flagelação nacional – “liquidação”, “deserto industrial”, “Azincourt4 diplomático”, “desarmamento tecnológico”, “eutanásia da produção e do trabalho”, “desvio do sistema para o modo de funcionamento do gosplan5 soviético”, “práticas de terrorismo social” (as de alguns trabalhadores…) – constituem um gênero “literário” posto à prova. A “reforma radical” reclamada pelo autor corresponde igualmente ao programa de campanha de Nicolas Sarkozy, o qual já pode contar com a confiança dos meios empresariais e com a lealdade dos jornalistas e donos da imprensa6 . Bloqueios-declínio-reforma: este tríptico habitual é o cimento de círculos dirigentes bem decididos a impor a cada sociedade a cláusula do patronato mais favorecido.
Mas o povo francês persiste em comportar-se mal. Ignora a opinião de seus bons pastores – indo pastar por exemplo nos campos do “não” ao referendo -; anda despreocupado à beira do precipício. Forçosamente vai “cair” e o país com ele. A prova é a atribuição dos Jogos Olímpicos à cidade de Londres, em julho passado. Algumas horas depois do anúncio da decisão, um jornalista free-lancer já tinha resolvido o enigma da derrota de Paris: “Há vários meses a França dá a impressão de recusar o mundo contemporâneo. Aí o mundo contemporâneo não precisa mais de nós e nos diz: não queremos vocês. Há alguns anos, Philippe Sollers tinha falado da França mofada7 .”
Os modelos de frescor econômico existem sempre fora das fronteiras. Há vinte anos, em plena onda da reaganofilia das elites francesas, o historiador britânico Theodore Zeldin já ironizava: “A cada século, os franceses encontraram novos estrangeiros a quem admirar: os gregos, os romanos, os italianos, os ingleses (por suas instituições políticas), os alemães (por sua ciência), os americanos (por sua prosperidade) 8 ”. Desde então, a agulha da bússola parece estar bloqueada para a amplidão externa, o Reino Unido e seu primeiro-ministro trabalhista servindo de antecâmara de aclimatação européia a um “modelo americano” que mesmo antes do furacão Katrina, o presidente George W. Bush tornava difícil de comercializar no Velho Continente. “Sou um socialista britânico”, especificou há alguns meses Ernest-Antoine Seilière, então presidente do Movimento dos Empresários da França (Medef). “Sair da França para respirar”, anuncia por sua vez Libération em uma reportagem que cita os 200 mil franceses exilados em Londres.

Desafio americano
Conhecer o “modelo” que se recomenda não tem importância alguma. O essencial é fazê-lo confessar o que juramos que ele diria. Veja, diz-se, a taxa de crescimento apreciável dos Estados Unidos (ou do Reino Unido, ou da Irlanda); de agora em diante devemos fazer como eles, sem “ideologia”. Quem objetar as deficiências de um dos países dados como exemplo (apartheid residencial, taxa de encarceramento, falta de recursos para os serviços públicos etc.) ouve em resposta que não têm ligação com o tipo de crescimento escolhido ou a estrutura de renda resultante. Mas o contrário, quando se trata desse “modelo francês” que se quer liquidar, tudo o que vai mal sempre leva a ele. A tal ponto que, num desvio da “aliança objetiva inesperada do neoliberalismo e da crítica social”, até algumas das análises mais progressistas das deficiências francesas são retomadas pelos advogados do tratamento de choque” 9. Fracasso nas escolas? Discriminação na contratação? Desemprego? O pulmão, estou-lhes dizendo!
Nada se perde, inclusive o terrorismo: “Nas periferias”, escreve Baverez, “os jovens oriundos da imigração (…) se identificam mais e mais com os valores e os princípios de ação de movimentos como o Hamas ou Al- Qaeda. A desregulamentação do Estado-providência foi aproveitada pelas organizações islâmicas radicais para desenvolver os serviços de aproximação que desembocam na arregimentação para a luta armada contra o Ocidente e os regimes considerados seus aliados10 ”. A ausência do Estado-providência carregaria a responsabilidade dos atentados de julho passado no metrô de Londres? Não, é claro, já que Baverez saúda as “reformas liberais do governo Thatcher” e a “terceira via de Tony Blair”.
Os “tomadores de decisão” nem sempre recorreram aos exemplos estrangeiros com um tapa-olho. Em 1967, Jean-Jacques Servan-Schreiber, admirador de Kennedy, liberal, fundador e proprietário do L’Express, publica O Desafio americano. Vendem-se 400 mil exemplares em um trimestre. O autor anuncia que, dotadas de capacidades superiores em matéria de marketing, as multinacionais americanas tomam a dianteira de suas concorrentes européias no próprio solo do Velho Continente: “O que ameaça nos esmagar não é uma torrente de riquezas, mas uma compreensão superior do emprego das competências. (…) As unidades pesadas da indústria americana, depois de informadas sobre as particularidades do terreno, manobram atualmente de Nápoles a Amsterdã com a desenvoltura e rapidez dos blindados israelenses no Sinai11 .”

Apologia ao trabalho precário
Ministro da Economia na época, Valéry Giscard d’Estaing admite temer que os setores industriais importantes passem, no Mercado Comum, para as mãos de investidores extra-europeus. Líder da oposição socialista, François Mitterrand censura o governo por consentir na “colonização da França pelo capital estrangeiro12 ”.
Dentro das atuais arengas dos meios de comunicação e dos patrões (perderíamos nosso tempo se quiséssemos desemaranhar umas das outras), duas coisas merecem ser notadas no debate de 1967. Por um lado, não se tratava de estudar a anatomia do “modelo americano” para nele distinguir o que, transposto para outro lugar, renderia o máximo aos “tomadores de decisão”. Também não era o caso de “entrar num processo de pura imitação”. Em O Desafio Americano, Seervan Schreiber examinava dois outros “modelos”: o japonês e o sueco. E que descobria ele? Que “a mobilidade da mão-de-obra é extremamente reduzida no Japão, enquanto é considerada nos Estados Unidos como um elemento determinante da eficiência das empresas. (…) Em teoria econômica ocidental, esta rigidez é dificilmente compatível com o progresso. Esta não é a opinião dos industriais japoneses e a experiência dos últimos vinte anos lhes dá razão no que concerne o Japão13 ”.
A garantia do emprego de fato favoreceu a adoção de novas técnicas de produção japonesas, mais eficientes. Pois contrariamente ao que finge imaginar dona Laurence Parisot, nova presidenta do Medef, segundo a qual “a vida, a saúde, o amor são precários, por que o trabalho escaparia a esta lei?”, a “lei” não é uma lei, nem mesmo em economia. O envolvimento dos assalariados na inovação e na produção era tão intenso quanto menor o temor de que não se tornariam as primeiras vítimas das melhorias que sugerissem.

Na busca de receitas
Confirmando a hipótese, hoje maldita, que associa modernização e garantia de emprego, Servan Schreiber apresentava outro exemplo, nem americano, nem japonês, e bem diferente tanto de um quanto de outro: "a experiência sueca". Lá as desigualdades não eram tidas como estimulantes, o imposto tinha um caráter fortemente progressivo, a renda média dos empregadores não ultrapassava mais de 8% a renda de seus empregados… Este modelo escandinavo tinha como cimento o sentimento de pertencer a uma comunidade: "Os especialistas suecos contestam o papel desempenhado pela insegurança como motor da iniciativa no terreno econômico. ( …) Eles estimam que os trabalhadores, se se sentem muito ameaçados, perdem o espírito de iniciativa.(…). Outros motores agem de uma maneira mais eficaz: vontade de integração em uma empresa ou coletividade, que funciona bem, tendo como corolário a elevação do estatuto social14.”
0s termos desse debate evidenciam a que ponto as escolhas atuais do patronato (americano, europeu, japonês), cada um apontando o exemplo a seguir do menos social do outro, resultam apenas do imperativo econômico que é a engrenagem de uma concorrência capitalista, agora liberada de qualquer resistência operária. Enquanto isso, à medida que as novas normas do “sempre menos” se instalam, transfiguram-se em “naturais”. A ponto de madame Parisot poder atribuir uma explicação antropológica à precariedade que suas determinações gostariam de sistematizar. O patronato foi por muito tempo atemorizado pelo “custo do trabalho”. Com esta guerra aos salários quase ganha, o patronato se dedica mais à batalha da “fluidez”. Assim, o Medef espera “quebrar os tabus, esmagar os conformismos”. Com o objetivo de “re-encantar o mundo”.
Pois o cerco ideológico nos leva a pensar o impensável. Ao livro de Baverez, próximo das idéias de Sarkozy, sucedeu-se o relatório Camdessus, encomendado por … Sarkozy15 . Agora é a vez do ensaio, ultra publicizado, do publicitário Christophe Lambert, La Société de la peur, cujo autor é ao mesmo tempo PDG da Publicis France e muito amigo de… Sarkozy. Nesse concerto, as notas desafinadas são raras: Le Figaro faz campanha contra o imposto sobre fortunas; Nicolas Baverez abebera Le Point com suas filípicas thatcherianas; Le Nouvel Observateur procura nos Estados Unidos, “onde a confiança em si é a chave do sucesso”, receitas para a escola francesa; Le Monde fustiga a “demonização do liberalismo ‘à anglo-saxã’”. Por fim, para Sarkozy, o Reino Unido torna-se “um farol na organização do mundo: de Margaret Thatcher a Tony Blair, eles modernizaram o país, reviram seus valores em profundidade, abandonaram tabus e construíram uma grande ambição”.

Crescimento para quem?
A grande ambição leva a uma obsessão: igualar a taxa de crescimento dos modelos liberais aumentando a duração do trabalho. O relatório Camdessus tinha detalhado as coisas, pelo menos nesse ponto: “O essencial das diferenças em relação aos desempenhos de nossos parceiros se explica pela menor quantidade de trabalho que mobilizamos ( …) se um assalariado francês produz 5% a mais por hora trabalhada que um americano, ele produzirá 13% de menos por ano e 36% de menos no conjunto de sua vida ativa16 ”. Em outras palavras, se o crescimento francês (59% desde 1980) não alcançou o nível americano (101%), é porque, no primeiro caso, o número de horas trabalhadas baixou de 6%, enquanto que no segundo, cresceu de 39%17 .
Tal seria, no fundo, nossa escolha essencial: trabalhar mais (1 792 horas por ano nos Estados Unidos, 1673 no Reino Unido, 1 431 horas na França) para produzir ainda mais, ou destinar uma parte desse “crescimento” ao tempo de vida. O patronato e seus aliados políticos sempre detestaram a idéia de que os assalariados escapassem por tempo demais à sua tutela. Em 1936, as greves de junho e as férias pagas que se seguiram alimentaram espantosas fantasias de devassidão operária. Explicando que o “tempo liberado pelas 35 horas é mais violência conjugal, mais alcoolismo18 ”, Baverez está tomando emprestada a linguagem do racismo social ordinário.
Admitamos, entretanto, que parando de “demonizar o liberalismo à anglo-saxã”, os franceses (e os outros europeus) aceitem, por exemplo, não ter, como nos Estados Unidos, direito legal a dia algum de repouso anual19 . O que ganhariam em troca de tanta diligência? Mais crescimento, mas para quem? O escritório do recenseamento americano acaba de responder. No ano passado, nos Estados Unidos, a maior parte da renda criada (50,1%) beneficiou os 20% de famílias mais favorecidas. E entre elas, só as 5% mais ricas tiveram um aumento de seu nível de vida. Resumindo: induzido pela progressão geral da duração da jornada de trabalho, o crescimento além-Atlântico que deveríamos invejar só beneficiou a minoria dos americanos que menos precisavam20 .
Confinados em Houston e em Nova Orleans, as dezenas de milhares de salvos por milagre do Katrina contam certamente entre os outros. Dois dias depois que o furacão abateu-se sobre eles, o presidente do Partido Republicano mobilizava seus liderados para obter… a abolição do imposto sobre a herança, que ele qualifica de “imposto sobre a morte21 ”! Incêndios de habitações insalubres em Paris provocaram um efeito de alavanca ideológica comparável nas fileiras da direita francesa: ela promete reduzir a carga fiscal dos contribuintes mais fortes. É esse o preço que está custando o reerguimento da França.

(Trad.: Betty Almeida)

1 – Daniel Cohen, “Le déclin français, une idée qui ne passe pas”, Le Monde, 9 de setembro de 2003.
2 – Nicolas Baverez, La France qui tombe, Perrin Paris, agosto de 2003, pp. 22, 100 e 109. O essencial do conteúdo da obra tinha sido publicado em um artigo de 16 páginas de Commentaire, dois meses antes (junho de 2003). O título era então interrogativo: “Le déclin français?”
3 – O dinamismo da demografia francesa, excepcional na Europa, é mencionado em onze palavras; a pobreza da pesquisa pública inglesa é ocultada, assim como a quase equivalência das taxas do crescimento francês e britânico há dez anos; a questão das desigualdades não interessa ao autor etc.
4 – Na Guerra dos Cem anos, em 1415, o rei inglês Henry V massacrou o exército francês, cinco vezes mais numeroso, na Batalha de Azincourt (N.T.).
5 – Plano econômico geral criado em 1921 na União Soviética (N.T.).
6 – Arnaud Lagardère, Serge Dassault e Martin Bouygues, que possuem a maior parte dos títulos da imprensa francesa e a principal rede de televisão, tomaram posição abertamente em favor do atual presidente da UMP.
7 – Guillaume Durand, i-televisão, 6 de julho de 2005.
8 – Theodore Zeldin, “Pathologie de l’antiaméricanisme”, in L’Amérique dans les têtes: un siècle de fascinations et d’aversions, Hachette, 1986, p. 5
9 – Ler sobre este ponto em particular o artigo de Patrick Savidan, “Quelle critique pour le modèle social?”, no site do Observatório francês das desigualdades: http://www.inegalites.fr/article.php3?id_article=376
10 – Nicolas Baverez, op. cit. , p. 103.
11 – Jean Jacques Servan Schreiber, Le défi américain, Denoël, Paris, 1967, p. 41.
12 – Richard Kuisel, Seducing the French: The Dilemma of Americanization, University of California, Berkeley, 1992, p. 169.
13 – Le Défi américain, op. cit.,p. 301.
14 – Ibid. , p. 313
15 – Ler o dossiê do Monde diplomatique de janeiro de 2005.
16 – Le Sursaut: Vers une nouvelle croissance pour la France, La Documentation française, 2004, p. 28.
17 – Ibid. , anexo 4, p. 180.
18 – Programa “Réplique”, France Culture, 20 de setembro de 2003.
19 – Os americanos têm de negociar a duração de suas férias com seus empregadores. Eles tiram em média treze dias por ano, mas o mínimo legal é zero (25 dias por ano na França).
20 – Cf.“Inequality in America”, The New York Times, 2 de setembro de 2005; e “Working Hard or Hardly Working?”, The Wall Street Journal, 16 de novembro de 2004.
21 – Mensagem por e-mail de Ken Mehlman, 1º de setembro de 2005.

 

 

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