Economy and Society II de José Porfiro – Specific

13 de março de 2007

SHOPPING CENTERS e CONSUMISMO x SUPERMERCADO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:27 AM
+ Autores: Consumismo no tapete voador (11-03-07)
 
 
 
 
 
Folha de São Paulo, Dinheiro, 07-05-2005
LIÇÕES CONTEMPORÂNEAS
O consumismo americano
LUIZ GONZAGA BELLUZZO
A economia americana cresceu à taxa anualizada de 4,8% no primeiro trimestre de 2006, impulsionada pela evolução do consumo de duráveis e pelos gastos militares, com desempenho medíocre do investimento privado. O crescimento do consumo contribuiu com 3,8 pontos percentuais para o crescimento do PIB, superando por larga margem a contribuição do investimento (1,2 ponto). A expansão da demanda agregada foi de 5,6% e decorreu muito mais do maior endividamento das famílias (4,6% anualizados), apoiado na valorização dos imóveis residenciais, do que da expansão da remuneração real dos assalariados, que teve queda de 0,9%.
Nos últimos três anos e meio, contrariando a experiência dos ciclos anteriores, o aumento do consumo está cada vez mais desconectado da evolução da renda, particularmente dos salários e do emprego, e mais dependente do efeito riqueza, nos últimos anos concentrado na valorização dos imóveis residenciais. Os últimos dados do Departamento do Comércio despertaram preocupações nos economistas americanos: mostram forte desaceleração do investimento residencial, cuja taxa de crescimento caiu de cerca de 10% no quarto trimestre de 2005 para 3,5% no primeiro trimestre deste ano.
A incorporação do consumo de massa à dinâmica do novo capitalismo tornou-se crucial para as perspectivas de crescimento. A forma especificamente capitalista do consumo começa a se definir entre o final do século 19 e a primeira metade do século 20 -particularmente nos EUA-, com a "suburbanização" das cidades e a difusão dos duráveis, impulsionada pela construção das redes de energia elétrica, pelo desenvolvimento do crédito e pelas técnicas de propaganda inerentes à concorrência monopolista. Esse fenômeno chamou a atenção do economista Thornstein Veblen já no final do século 19 e, ao longo do século 20, foi objeto das investigações de Vance Packard e James Dusenberry. O livro mais instigante de John Kenneth Galbraith, "A Sociedade Afluente", já sublinhava as relações entre o desenvolvimento dos padrões de consumo, a grande empresa e as mudanças nos hábitos e no comportamento social dos americanos.
A constituição de um sistema de proteção social e as políticas keynesianas de sustentação da renda e do emprego no segundo pós-guerra contribuíram de maneira decisiva para o avanço do "consumo capitalista". Esse componente da demanda não inclui apenas o consumo dos capitalistas, mas deve ser assim qualificado por conta da forma de financiamento do gasto dos consumidores. Nela estão incluídas as novas modalidades (cartões de crédito) e a valorização do estoque de riqueza ao longo dos ciclos de crédito, o que desvincula crescentemente o consumo do comportamento da renda corrente.
Não se trata apenas da completa sujeição das "necessidades" aos imperativos da mercantilização universal. No capitalismo avançado norte-americano, o circuito gasto-renda-consumo começa e termina com a valorização fictícia do patrimônio das famílias. A valorização do patrimônio líquido facilita o crédito barato para financiamento do gasto que alimenta a acumulação de lucros e de liquidez pela grande empresa. O consumo final e intermediário da economia se abastece dos bens gerados a preços cadentes nas usinas de produtividade dos trabalhadores asiáticos, com ganhos reais para os consumidores e as empresas.

——————————————————————————–
Luiz Gonzaga Belluzzo, 63, é professor titular de Economia da Unicamp. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).

 
http://www.diplo.com.br
Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 3, número 35, dezembro 2002
GLOBALIZAÇÃO

A ditadura dos supermercados
Em menos de 30 anos, a França passou de 200 supermercados para mais de 5 mil, e de um único hipermercado, para mais de 1.200. As centrais de compras que eles criaram asfixiam os fornecedores. Esse verdadeiro oligopólio é a ditadura da distribuição

Christian Jacquiau*

As grandes redes de distribuição nasceram na França na década de 50. Na época, de dez a doze intermediários1 interpunham-se entre o agricultor e o consumidor. O preço pago por um quilo de batatas já era multiplicado por quatro quando chegava à sacola da dona de casa. Os gêneros alimentícios eram raros e os preços disparavam. Os comerciantes aproveitavam-se de uma situação de quase monopólio. A demanda só encontrava a oferta no limite do inaceitável. Houve quem se aproveitasse disso para angariar fortunas indecentes. Generalizou-se a idéia de que o comerciante era quem prosperava graças ao mercado negro e enriquecia em detrimento do consumidor. Cinqüenta anos mais tarde, essa reputação se mantém.
Em 1949, Edouard Leclerc abriu seu primeiro auto-serviço em Landerneau, pequena cidade do interior da Bretanha. Não se podia falar de um supermercado: a mercearia familiar tinha apenas 50 m2 e, pela primeira vez, o próprio cliente se serve. Os vidros da mercearia foram pintados para que os passantes não pudessem reconhecer o rosto daqueles consumidores que vieram “comprar como pobre” e beneficiar-se de descontos de 20% a 70% sobre o preço de produtos de consumo corrente.

Um círculo que se acreditava ser virtuoso
Nessa mesma época, nos Estados Unidos, dava-se a democratização do automóvel. O comércio especializado efetua-se em auto-serviços instalados numa espécie de galpões, na periferia das cidades. Os compradores tinham à disposição enormes carrões, amplos estacionamentos e até bombas de gasolina. A idéia atravessou o Atlântico. Franceses apropriam-se dela acrescentando-lhe o famoso conceito do “tudo sob um mesmo teto”: de produtos frescos a eletrodomésticos. Em 1963, no subúrbio parisiense, inaugura-se o hipermercado Carrefour, primeiro verdadeiro colosso comercial que, alguns anos mais tarde, se tornaria a mais importante rede distribuidora da Europa e a segunda do mundo. Para o melhor, mas também para o pior, acabava de nascer a grande distribuição “à francesa”.
Num primeiro momento, os princípios tradicionais do comércio foram respeitados: as mercadorias compradas eram revendidas com uma margem de lucro destinada a cobrir os custos e a remuneração do comerciante. Quanto mais rapidamente giravam os estoques, mais os lucros se acumulavam. Hipermercados e supermercados2 compram em grandes quantidades e obtêm consideráveis descontos que repassam, em parte, a seus clientes. Um círculo, que se acreditava ser virtuoso, iniciava-se para maior benefício dos consumidores.

Um sistema inédito de extorsão
Os volumes aumentaram e, com eles, as exigências dos distribuidores em relação a seus fornecedores, obrigados, permanentemente, a baixar os preços. As relações foram se tornando cada vez mais tensas, visto que, rapidamente, hipermercados e supermercados passaram a reivindicar, a posteriori, uma remuneração complementar e totalmente arbitrária: o “desconto de fim de ano” 3, que representava de 1% a 2% do total das compras feitas nos 12 meses anteriores! Inexoravelmente, uma engrenagem destruidora começou a funcionar. E não iria mais parar…
Supermercados e hipermercados crescem. A França bate todos os recordes de densidade na Europa: em menos de trinta anos, o parque passa de 200 supermercados para mais de 5 mil, e de um único hipermercado, para mais de 1.2004. As lojas não encomendam mais diretamente as mercadorias: juntam-se em centrais de compras para ter um peso ainda maior durante as negociações com seus fornecedores. A era das fusões e das concentrações desemboca na constituição de um verdadeiro oligopólio5. Aproveitando-se de sua posição dominante, as centrais criam um sistema inédito de extorsão, até então desconhecido nos chamados Estados de direito: a cada ano, por motivos diversos, reivindicam de 1% a 2% de desconto suplementar. Às vezes, muito mais do que isso. Única no mundo, essa taxação – mais conhecida como “negociação comercial”, ou bonificação – só remunera, de fato, a situação de quase monopólio de que se beneficiam as grandes redes de distribuição francesas em relação a seus fornecedores.

Pagar, mesmo sem saber por quê
Essa taxação, constituída basicamente por pagamentos fictícios ou superfaturados, passou de 10%, há uma década, para 35%; depois para 40% e 45%, para ultrapassar tranqüilamente a faixa dos 50% do preço do produto e, em casos extremos, chegar ao índice de 60%, no início do ano de 2002. E aumenta a cada ano. O superlucro assim obtido nunca se traduziu em repasse direto ao consumidor. Ele permite proporcionar substanciais dividendos aos acionistas dessas fábricas de consumir. Serve também para financiar a corrupção do poder político, habituado a lucrar com sua aprovação para os alvarás de funcionamento. O “pedágio” obrigatório – de, no mínimo, um milhão de euros (3,7 milhões de reais) para um hipermercado – nasceu no fim da década de 70. Com os “anos Mitterrand”, os lances sobem e os envelopes tornam-se mais volumosos: passa-se a 1,5, depois a 2, depois a 3 milhões de euros (respectivamente 5,55, 7,4 e 11,1 milhões de reais). Michel Edouard Leclerc, especialista no assunto, reconheceu isso publicamente: “A verdade obriga a dizer que quase a metade dos grandes grupos comerciais foram submetidos a esse tráfico6.”
Nesse sistema, os fornecedores devem não só ceder nos preços, como também pagar por tudo: pagar um direito de entrada para serem credenciados; oferecer, ao conjunto das lojas da rede, mercadorias gratuitas no momento das primeiras entregas; pagar para verem seus produtos expostos em locais privilegiados ou na ponta da estante; pagar pelo financiamento de campanhas promocionais; pagar para aparecer nos catálogos; pagar quando da implantação de novas lojas; pagar por ocasião da reforma ou da melhoria das mais antigas; pagar até para conseguir que suas próprias faturas sejam pagas. Pagar, pagar e pagar… Pagar mesmo sem saber por quê, visto que já não há qualquer ligação entre o preço pago e a realidade do serviço oferecido pelo distribuidor a seu fornecedor. A tal ponto que, em maio de 2002, uma grande rede de distribuição francesa lançou, pela primeira vez, uma maciça campanha de comunicação reconhecendo, implicitamente, o fenômeno do faturamento sem motivo.

A imprensa, um mero “suporte”
Deputados franceses identificaram mais de quinhentos motivos invocados pelas centrais de compras para exigirem vantagens adicionais de seus fornecedores. Estes estão colocados diante de uma opção muito simples: submeterem-se ou serem “descredenciados” (leia, nesta edição, o artigo “A extorsão do credenciamento”), isto é, guardarem suas mercadorias e fecharem suas fábricas! Os excelentes relatórios parlamentares, apresentados à Assembléia Nacional em 19957 e 20008, demonstram que o poder político tem um perfeito conhecimento da extensão das práticas desonestas das grandes redes de distribuição. No entanto, um desses relatórios constata, impotente: “As relações entre os produtores de bens de consumo (70 mil empresas, 400 mil agricultores) e os 60 milhões de consumidores equivalem à passagem de areia pelo gargalo de uma ampulheta. No gargalo, cinco grupos de distribuição controlam a venda de mais de 90% dos produtos de grande consumo9.” Alguns fornecedores são credenciados apenas por uma ou duas centrais de compras, o que agrava ainda mais sua situação de dependência.
O poder político francês, que durante muitíssimo tempo se beneficiou dos circuitos paralelos de financiamentos implantados por essas grandes redes, também aqui se declarou vencido. Os meios de comunicação demonstram muito pouco interesse em falar desse assunto, que incomoda. “Será que o montante das verbas publicitárias provenientes do setor das grandes redes de distribuição explicaria a prudência de alguns coleguinhas?”, pergunta-se Philippe Cohen, na revista Marianne10. Por haver colocado o problema da responsabilidade dos grandes supermercados e hipermercados no percurso da queda dos custos – por ocasião da questão das farinhas animais – essa publicação semanal foi excluído das campanhas de publicidade dos grandes distribuidores. A partir daí, como se surpreender com o fato de que a imprensa escrita – que se tornou um mero “suporte”, no jargão dos publicitários – se limite, atualmente, a mencionar vagamente as conseqüências – mudança para outra região, visando à redução dos custos, demissões, desindustrialização – de certas práticas, tomando todo o cuidado para nunca relacioná-las com suas causas reais e profundas?

A espiral infernal do oligopólio
O aumento permanente da taxa de bonificação tem um impacto desastroso sobre as empresas que, pouco a pouco, se vêem privadas dos meios para investir e para financiar sua pesquisa e desenvolvimento e são levadas a se instalar em outras regiões como medida de redução dos custos. Os intermediários realmente desapareceram, mas, com eles, também desapareceram os empregos que representavam. Simplificando: num preço, atualmente, existem apenas dois componentes essenciais: a remuneração do fornecedor (agricultor ou empresa industrial), cada vez mais achatada, e a do distribuidor, que fica com a parte do leão. As cinco centrais de compras que dividem entre si o mercado francês são enormemente responsáveis pelo desaparecimento do comércio de bairro, pelo esmagamento da agricultura de dimensão humana (e, portanto, pelo despovoamento do espaço rural), pela mudança das indústrias para outras regiões em busca de redução de custos e pelas importações maciças.
Ao mesmo tempo, a concorrência desaparece e a opção do consumidor restringe-se à medida que ocorrem novas concentrações. Esta espiral infernal levou a um empobrecimento da qualidade dos produtos e a um consumo em dois ritmos. Os mais pobres devem contentar-se com o que lhes é apresentado como sendo “menos caro”: o frango de granja a 1,50 euro (5,55 reais) o kg., a vaca engordada em confinamento, os tomates cultivados no soro e mesmo, até abril de 1999, aves alimentadas com a lama das estações de tratamento de água. Esses produtos desnaturados propiciam, entretanto, lucros substanciais a quem os expõe nas prateleiras. De fato, longe de baratos, eles são extremamente caros: será que ainda se pode falar seriamente de preço “achatado” quando um quilo de tomates, comprado a 0,30 euro (1,1 real) do agricultor, é revendido a 1,20 euro (4,44 reais) ao consumidor, isto é, numa relação de 1 para 4, como em 1949?

A ditadura da distribuição
Depois de abocanharem a maior parte do setor de alimentação, as grandes redes de distribuição francesas, insaciáveis, voltam-se para os mercados da parafarmácia, da higiene, da saúde, da beleza, da comunicação, da informática, da joalheria, de flores, do vinho, de caixas bancários automáticos, de viagens, de artesanato, de automóveis, de bancos, de seguros, de serviços, de Internet, de esporte e até de auto-escola. O principal joalheiro da França se chama agora Leclerc e o principal armador de pesca, Intermarché11.
Na França, para cada dois litros de combustível, mais de um litro é distribuído por hipermercados ou grandes supermercados. O parque automobilístico duplicou entre 1975 e 1995, ao passo que, no mesmo período, o número de postos de gasolina passou de 47.500 para 18.500. Trinta mil pontos de venda tradicionais desapareceram em vinte anos para serem substituídos por três mil postos nesses grandes centros comerciais. Atualmente, fecham-se quinhentos postos de gasolina por ano. Ora, para o mesmo volume, um ponto de venda num hipermercado emprega um número de trabalhadores cinco vezes menor.
Essas riquíssimas grandes redes, que enriqueceram seus criadores e seus acionistas, partem com os mesmos métodos; porém com meios multiplicados, em conquista da Europa, dos países do Leste, da América do Sul, do Sudoeste Asiático e até da China. É agora, em escala planetária, que se instala uma verdadeira ditadura da distribuição sobre os produtores e os consumidores.
(Trad.: Iraci D. Poleti)

* Especialista em Contabilidade, delegado consular na Câmara de Comércio de Paris, autor de Coulisses de la grande distribution, ed. Albin Michel, Paris, 2000.

1 – Recolhedor, expedidor, ajuntador, corretor, distribuidor, representante, procurador, atacadista, semi-atacadista, varejista…
2 – Os hipermercados dispõem de uma área de venda de pelo menos 2.500 m2 e mais de um terço de seu volume de negócios baseia-se em produtos alimentares. Os supermercados operam numa superfície de venda que varia entre 400 e 2.500 m2 e mais de dois terços de seu volume de negócios baseia-se na venda de produtos alimentares.
3 – N.T.: Remise de fin d’année (RFA).
4 – No fim de 2001, foram recenseados, no território francês, perto de 1.211 hipermercados, operando num total de cerca de 7 milhões de metros quadrados.
5 – 90 % do mercado de alimentação francês estão nas mãos de cinco centrais de compra: o Carrefour detém 26,2 % dele; a rede Lucie, central comum de Leclerc e Système U, detém 23,8 %; a Opéra, central comum das redes Casino, Cora, Franprix, Leader Price e Monoprix-Prisunic, detém 15,7 %; o Intermarché detém 14,4 % e o Auchan, 12,9 %. Cf. Référencseigne Secodip, citado por LSA (grupo Usine nouvelle) n° 1746, 22 de novembro de 2001.
6 – Michel Edouard Leclerc, La fronde des caddies, ed. Plon, Paris, 1994.
7 – Jean-Paul Charié, Pour une libre concurrence à dimension humaine. Redéfinir les règles de la loyauté, relatório à Assembléia Nacional, n° 2187, 27 de julho de 1995. Este relatório é a continuação do que foi entregue no gabinete do presidente da Assembléia, dois anos antes, sob o título Un enjeu de société: vers une concurrence libre et loyale, relatório n° 836, de 9 de dezembro de 1993.
8 – Jean-Yves Le Déaut, Rapport sur l’évolution de la distribution: de la coopération à la domination commerciale, relatório à Assembléia Nacional, n° 2072, de 11 de janeiro de 2000.
9 – Rapport sur l’évolution de la distribution…, op.cit.
10 – Marianne n° 187, 20 de novembro de 2000.
11 – Quatro novos barcos pesqueiros estão sendo construídos e serão acrescentados à frota atual de quarenta navios. A rede Intermarché possui também mais de quarenta fábricas integradas (indústrias de conservas de peixes, matadouros, fábricas de frios, de pizzas, de sorvetes etc). Fonte: LSA n°1764, 18 de abril de 2002.

GLOBALIZAÇÃO

A extorsão do descredenciamento
Além de pagar uma exorbitância – sem qualquer garantia legal – pela exposição de seu produto nas prateleiras dos supermercados e hipermercados, o fornecedor se vê ameaçado com a possibilidade de descredenciamento se não colaborar com uma “bonificação”…

Christian Jacquiau*

Tomemos o exemplo de uma pequena empresa que fabrica tabletes de chocolate. Sua escala comporta cinco produtos diferentes: chocolate preto, branco, ao leite, com avelãs e com amêndoas. Ela dispõe de um produto de ótima qualidade, desfruta de uma excelente imagem e decide dar um salto e ser distribuída em grandes e médios supermercados. Fica ainda mais estimulada porque o enfraquecimento do comércio tradicional não lhe permite mais, apesar de seu próprio potencial, visualizar o futuro com serenidade. Diante dela, o que se acredita ser um mercado inesperado: uma poderosa rede que reúne 1.500 supermercados e 200 hipermercados.

O mecanismo de extorsão
É aí que começam as surpresas desagradáveis: para o credenciamento de apenas seus cinco tipos de tabletes de chocolate no supermercado, a empresa deverá pagar à central de compras 150 euros (555 reais) por tipo de produto (750 euros, ou 2.775 reais, pelas cinco variedades), o que, para os 1.500 pontos de venda da rede, representam 1.125.000 euros (4, 16 milhões de reais). Para os hipermercados, a empresa deverá desembolsar 750 euros por tipo de produto e 3.750 euros (13.875 reais) para o credenciamento de sua série de produtos para cada estabelecimento, ou seja, 750 mil euros (2,8 milhões de reais) para os 200 hipermercados da rede. No total, essa operação custará, portanto, 1.875.000 euros (quase 7 milhões de reais), que devem ser pagos sem nenhuma garantia de encomenda, nem de quantidade, nem de perenidade das relações comerciais. Preenchido o cheque, o mecanismo de extorsão é então assinado, inexoravelmente, podendo chegar até o fechamento da empresa em caso de… “descredenciamento”.
Recentemente, por exemplo, um grande nome da indústria alimentícia francesa se viu diante de uma exigência de 2% a mais de “bonificação”. Tendo chegado ao limite de suas possibilidades, não podia consentir um centavo a mais de desconto. Para puni-la, os dois principais produtos de sua gama não foram mais comprados pela central de compras. Duas fábricas tiveram de ser fechadas. Não havia reivindicação alguma por parte dos acionistas, nada de fundos de pensão norte-americanos intransigentes nessa bela empresa familiar. É exatamente o que acontece com as exigências das centrais de compra das grandes redes de distribuição francesas, cujo insaciável apetite por lucros constitui uma ameaça para a economia.
(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

* Especialista em Contabilidade, delegado consular na Câmara de Comércio de Paris, autor de Coulisses de la grande distribution, ed. Albin Michel, Paris, 2000.

 

 

http://www.diplo.com.br
Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 2, número 14, março 2001
CONSUMO

O custo energético do hipermercado
Fazer as compras da semana num hipermercado de periferia representa quatro vezes mais de poluição e de desperdício do que comprar as mesmas mercadorias a 500 metros de sua casa, num supermercado do centro da cidade

Philippe Bovet*

No fim de semana, os hipermercados de periferia recebem uma grande quantidade de pessoas. É quando os consumidores, que em sua maioria vão de carro, fazem as compras da semana. Das malas dos carros os alimentos são estocados em geladeiras, freezers e outros equipamentos de armazenamento. Por trás dessa prática tão comum, estabeleceu-se um tipo de comportamento de altíssimo consumo de energia.
Fazer compras em um hipermercado de periferia representa, por exemplo, quatro vezes mais de poluição e de desperdício do que comprar as mesmas mercadorias a 500 metros de casa, num supermercado do centro da cidade. 1 Isto pela simples razão de que os consumidores vão de carro. A poluição provocada pelo uso do carro é proporcional à potência do veículo. Para um trajeto na área urbana, um carro pequeno bebe sete litros de gasolina a cada 100 quilômetros, consumo esse que passa para 11 litros em se tratando de um automóvel dos mais caros, e que pode chegar até 30 litros, no caso de alguns modelos de tração nas quatro rodas com o ar condicionado ligado.

Uma economia que fica cara
Ao voltar do hipermercado, o consumidor vem com mais peso do que quando chegou: 25 quilos, contra 4,16 quilos. 2 É claro que ele vai menos vezes ao hipermercado do que iria ao comércio mais próximo. Porém, as macro-estruturas comerciais incitam à estocagem: promoção de três sabões num pacote, promoção de leite longa-vida em pacotes de seis, o sabão em pó eternamente vendido em pares – tudo isso implicando em acondicionar lotes superembalados em material plástico.
Estocar esses produtos exige muito espaço. Além do que a conservação de produtos congelados consome bastante energia. Câmaras frigoríficas ao longo de vitrines refrigeradas; os frios são particularmente apetitosos. E esse consumo é tanto maior quanto maior for o tempo de estocagem. Comprar em grandes quantidades com a finalidade de fazer economia implica num superconsumo do freezer, que tem que ser mantido no máximo. E a economia feita no momento da compra torna-se discutível na hora de pagar a conta da energia elétrica!

O exemplo da Dinamarca
Para aumentar os lucros, as grandes distribuidoras decidiram deixar de pagar pela devolução de garrafas vazias, medida adotada por todos os fabricantes de bebidas. A coleta de embalagens de vidros passou a ser feita desde então de modo voluntário, por meio de caixas coletoras postas à disposição do público. Em 1998, o índice de recuperação do vidro era de 52%. 3 Mas os caminhões das grandes distribuidoras que entregam bebidas nos pontos de revenda voltam vazios, sem recolher as garrafas vazias, enquanto os caminhões que coletam vidro para reciclagem chegam vazios e voltam carregados. São, portanto, duas vezes mais veículos para uma recuperação bem menos eficaz.
Na Dinamarca – um dos raros países a reagirem ao desperdício -, todas as embalagens são coletadas, tanto as garrafas de vidro como as de plástico. As latas de alumínio, cuja reciclagem é poluidora, quase não se encontram nas prateleiras. As cervejarias só utilizam garrafas de vidro. Até aceitaram usar o mesmo tipo de recipiente, personalizado apenas pelo rótulo e pela tampa. Deste modo, podem recuperar garrafas de outros fabricantes e integrá-las, sem problemas, à sua própria produção.

O custo (energético) dos importados
Na nossa sociedade ocidental, os consumidores se habituaram a encontrar durante o ano todo nas prateleiras frutas e legumes que antigamente só eram acessíveis durante certas épocas do ano. Nos hipermercados, o leque de produtos oferecidos é maior que em qualquer outro lugar. A excelente maquiagem de calibragens perfeitas e de cores brilhantes dos produtos faz esquecer que, no inverno, uma simples salada verde produzida em estufas na Europa equivale a um litro de petróleo, que 20 a 25% do custo dos tomates franceses produzidos em estufas aquecidas representa a cota da energia. 4 Frutas e legumes de estação produzidos no Sul da Espanha ou no Marrocos não necessitam de uma estufa aquecida. Aí, é o transporte por caminhões que então consome energia.
As maçãs do Chile acumulam transporte marítimo e rodoviário. Por ocasião da chegada de certos produtos ao mercado (feijão verde do Zimbábue ou do Quênia), assim como por ocasião das festas de fim de ano, algumas mercadorias de entressafra chegam a ser enviadas por avião, para chegarem a tempo às prateleiras. Não há estatísticas que permitam comparar o custo em energia do frete aéreo e do frete marítimo; admite-se, no entanto, que uma quarta parte do custo desses produtos – vendidos por 30 a 40 francos o quilo (cerca de 8 a 10 reais) – se deva ao transporte. Ou seja, o consumidor está pagando mais querosene que qualquer outra coisa.

Supermercados vs. hipermercados
Na zona rural, onde os grandes centros comerciais, infelizmente, tendem a substituir os mercados e as vendinhas, os consumidores chegam a percorrer até 50 quilômetros para fazer as compras. O balanço energético, portanto, é dos piores. Na verdade, nada se compara a uma rede urbana rica em pequenos comércios e supermercados próximos, aos quais somente 9% dos consumidores se dirigem de automóvel. 5 "Há um elo evidente entre o tipo de estrutura freqüentada e o modo de transporte", explica Erwan Segalou, pesquisador do Laboratório de Economia de Transportes. "Uma cidade com uma rede de lojas próximas implica menos deslocamentos em automóveis. O que fica muito claro quando se compara duas cidades como Marselha e Bordéus."
Em Marselha, o comércio de alimentos (mercearias, padarias, mini-mercados…) representa 27,3% dos estabelecimentos, contra 22,4% em Bordéus, que, com 49 hipermercados, é uma das cidades melhor equipadas da França. Em Bordéus, o automóvel é utilizado em 67% de deslocamentos relacionados com compras, contra 48% em Marselha. Ainda em Bordéus, apenas 28% dos deslocamentos para fazer compras são feitos a pé, contra 44% em Marselha. Quanto à utilização do transporte coletivo para se fazer compras, a taxa é de 4% para a população de Bordéus contra 6% para os marselheses, com uma distância média de deslocamento em automóvel (somente a ida) de 9,3 quilômetros em Bordéus contra 6,1 quilômetros em Marselha. 6

Converse com seus vizinhos
Em vez de ir de carro, pode-se ir a pé a um supermercado próximo e utilizar o serviço de entrega a domicílio. Serviço que geralmente é gratuito, a partir de uma quantidade mínima de compras. Quando as entregas se fazem por meio de uma camioneta (que deixa o supermercado com as compras de diversos clientes), e não de uma ida-e-volta imediata entre o cliente e o estabelecimento, esse modo de transporte representa uma boa economia de energia, que pode ser ainda melhor se o veículo utilizar um combustível limpo (GPL, diester ou eletricidade). Exatamente o oposto do que se passa com a entrega de uma pizza a domicílio. A moto que faz a entrega instantânea entre a pizzaria e o cliente transporta apenas 400 gramas de mercadoria e volta vazia.
Fazer compras pela Internet também não é satisfatório. É claro que o consumidor não tem que ir de carro ao hipermercado, mas é um tanto difícil escolher produtos bonitos e frescos, ou roupas, numa tela de computador. Aliás, a Internet não tem por finalidade diminuir a poluição ou o desperdício. Pelo contrário, esse modo de comunicação desenvolve o imediatismo das entregas. Uma urgência evidentemente consumidora de combustíveis. "O aumento de entregas através da rede ainda é lento", explica Laurent Taieb, diretor do centro de pesquisas do CAT – Conselhos Logísticos. "As empresas utilizam as infraestruturas dos serviços postais e as maiores usam frotas de caminhões. Em média, os caminhões utilizam somente 50% de sua capacidade útil. Mas, certamente, a Internet terá um forte impacto nas entregas urbanas, impacto que ainda não podemos avaliar." Todos os construtores de caminhões planejaram um crescimento de suas vendas de caminhão de pequena e média carga, os tipos mais usados em zona urbana!
Na realidade, o ideal é fazer as compras a pé. O que permite se ter um mínimo de atividade física, redescobrir o prazer de passear nas ruas de comércio, olhar as vitrines, cumprimentar os vizinhos… e trazer vida a um bairro.
Traduzido por Wilma dos Santos Bastos.

* Jornalista. [voltar]

1 Coleção de diversos documentos do Departamento para o Meio Ambiente e Controle da Energia (Agence de l’environnement et de la maîtrise de l’énergie – Ademe), de Paris. Essa relação de 1 para 4 diminuiria se o consumidor racionalizasse o uso do automóvel. Poderia, por exemplo, fazer as compras da semana quando saísse do trabalho, a caminho de casa. [voltar]
2 Fonte: Formes de distribution commerciale et génération des déplacements, ed. Beauvais Consultants, Tours, dezembro de 1997. [voltar]
3 Fonte: Federação das Câmaras Sindicais da Indústria do Vidro, Paris. [voltar]
4 "Les marchés des fruits et légumes dans le monde", ed. Solidarités agricoles et alimentaires (Solagral), Nogent-sur-Marne, 1997. [voltar]
5 Os supermercados localizados nos centros urbanos dão emprego a duas vezes mais pessoas que os hipermercados: 8,95 pessoas em tempo integral para cada mil toneladas de mercadorias num supermercado, contra 4,63 pessoas num hipermercado. Fonte: Ademe, citando Formes de distribution commerciale et génération des déplacements, ed. Beauvais Consultants, Tours, dezembro de 1997. [voltar]
6 "Estudo comparativo da mobilidade para compras em três cidades do interior: Bordéus, Dijon e Marselha", de Erwan Segalou, documento de trabalho, reservado, do LET, Lyon, fevereiro de 2000.

 

 

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: