Economy and Society II de José Porfiro – Specific

14 de março de 2007

CASAMENTO

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História Viva, Edição Nº 25 – novembro de 2005

Casamento, uma invenção cristã

A união indissolúvel, celebrada por um sacramento, substituiu antigos costumes de poligamia, provocando grande mudança nos hábitos europeus.
por Michel Rouche Tradução de Marly N. Peres
Casamento de Felipe da Macedônia com Olimpia. Miniatura do séc. XV

Em 392, o cristianismo foi proclamado religião oficial. Entre 965 e 1008 eram batizados os reis da Dinamarca, Polônia, Hungria, Rússia, Noruega e Suécia.

Desses dois fatos resultou o formato do casamento, em princípios do ano 1000, com uma face totalmente nova. Durante o Sacro Império Romano Germânico – que sucedeu ao desaparecido Império Romano -, dirigido por Oto III de 998 a 1002, houve uma fabulosa transformação das sociedades urbanas romanas e das sociedades rurais germânicas e eslavas. As uniões entre homens e mulheres eram, então, o resultado complexo de renitências pagãs, de interesses políticos e de uma poderosa evangelização.

"Amor: desejo que tudo tenta monopolizar; caridade: terna unidade; ódio: desprezo pelas vaidades deste mundo." Esse breve exercício escolar, escrito no dorso de um manuscrito do início do século XI, exprime bem o conflito entre as concepções pagã e cristã do casamento. Para os pagãos, fossem eles germânicos, eslavos ou ainda mais recentemente vikings instalados na Normandia desde 911, o amor era visto como subversivo, como destruidor da sociedade. Para os cristãos, como o bispo e escritor Jonas de Orléans, o termo caridade exprimia, com o qualificativo "conjugal", um amor privilegiado e de ternura no interior da célula conjugal. Esse otimismo aparecia em determinados decretos pontificais, por meio de termos como afeto marital (maritalis affectio) ou amor conjugal (dilectio conjugalis). Evidentemente, o ideal cristão era abrir mão dos bens deste mundo desprezando-os, o que constituía um convite ao celibato convencional.

A Europa pagã, mal batizada no ano 1000, apresentava portanto uma concepção do casamento totalmente contrária à dos cristãos. O exemplo da Normandia é ainda mais revelador, por ser muito semelhante ao da Suécia ou da Boêmia. Os vikings praticavam um casamento poligâmico, com uma esposa de primeiro escalão que tinha todos os direitos, e com esposas ou concubinas de segundo escalão, cujos filhos não tinham nenhum direito, a menos que a oficial fosse estéril, ou tivesse sido repudiada. As cerimônias de noivado organizavam a transmissão de bens, mas não havia casamento verdadeiro a não ser que tivesse havido união carnal. Na manhã da noite de núpcias, o esposo oferecia à mulher um conjunto muitas vezes bastante significativo de bens móveis. Ele era chamado de presente matinal (Morgengabe), que os juristas romanos batizaram de dote. Portanto, o papel da esposa oficial era bem importante, sobretudo se ela tivesse muitos filhos, já que o objetivo principal era a procriação.

Essas uniões eram essencialmente políticas e sociais, decididas pelos pais. Tratava-se de constituir unidades familiares amplas, no interior das quais reinasse a paz. Por isso, as concubinas de segundo escalão eram chamadas de Friedlehen ou Frilla, ou seja, "cauções de paz". Na verdade, elas vinham de famílias hostis de longa data. A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se misturava, a guerra já não era mais possível. Assim, as mães escolhiam as esposas dos filhos, ou os maridos, das filhas, sempre nos mesmos grupos clássicos, a fim de salvaguardar essa paz. Se uma esposa morresse, o viúvo se casaria com a irmã dela. Dessa forma, pouco a pouco as grandes famílias tornavam-se cada vez mais chegadas por laços de sangue (consangüinidade), pela aliança (afinidade) e, finalmente, completamente incestuosas. Acrescentemos a esse quadro as ligações entre os homens, a adoção pelas armas, o juramento de fidelidade e outras ligações feudais que triunfaram no século X como um verdadeiro "parentesco suplementar", segundo a expressão de Marc Bloch, e teremos a prova de que esses casamentos pagãos não deixavam nenhum espaço livre para o sentimento.

Amor subversivo
Assim, quando o amor se manifestava, ele só podia ser adúltero, ou assumir a forma de um estupro, maneira de tornar o casamento irreversível, ou de um rapto mais ou menos combinado entre o raptor e a "raptada", a fim de ludibriar a vontade dos pais. Nesses casos o amor era efetivamente subversivo, uma vez que destruía a ordem estabelecida. Ele se tornava sinônimo de morte e de ruína política, como prova o romance, de fundo histórico verdadeiro, Tristão e Isolda, transmitido oralmente pelo mundo europeu de então – celta, franco e germânico. Tristão, sobrinho do rei e seu vassalo, cometeu ao mesmo tempo incesto, adultério e traição para com o rei Marco, o marido de Isolda. Aliás, ele mesmo diz, após seu primeiro encontro: "Que venha a morte". Nas sociedades antigas, obcecadas pela sobrevida, a vontade de potência, de poder, era mais importante do que a vontade de prazer, pois aquelas tribos de imensas famílias não conheciam nenhuma limitação administrativa ou externa.
Esse quadro deve ter sido abrandado pelo fato de eles terem estado em contato com países cristãos, ou povos de regiões mergulhadas no cristianismo, como por exemplo os normandos batizados do século X. Em decorrência, duas estruturas coexistiam, mais ou menos confundidas. Por volta do ano 1000, o bispo da Islândia teve muita dificuldade para separar um chefe de tribo, já casado, de sua concubina, especialmente porque ela era sua própria irmã – fato que sustentava a opinião de que seu irmão, o bispo, não passava de um tirano. Nos séculos X e XI, os duques da Normandia tinham dois tipos de união, regularmente: uma esposa oficial, franca e batizada, e uma ou várias concubinas.

Guilherme, o Conquistador, que tomou a Inglaterra em 1066, tinha o codinome de bastardo, por ter nascido de uma união desse tipo. À entrada de Falésia, seu pai, Roberto, o Demônio, teve a atenção chamada por uma jovem que, no lavadouro da cidade, calcava a roupa com os pés, nua como suas companheiras de tarefa, para melhor sovar a roupa. Naquela mesma noite, com a autorização de seu pai, Arlette, a jovem, se viu no quarto do duque, usando uma camisola aberta na frente, "a fim de que", nos diz o monge Wace, que contou a história, "aquilo que varre o chão não possa estar à altura do rosto de seu príncipe". Esses amores "à dinamarquesa" demonstram que as mulheres eram livres, com a condição de aceitar uma posição secundária.

Essa duplicidade de situação num mundo ocidental oficialmente cristão, mas ainda pagão, complicou-se quando as mulheres conquistaram poder, algo facilitado pela matrilinearidade das origens germânicas. Algumas incentivavam os maridos a se proclamarem reis, por serem elas de origem imperial carolíngia. Castelãs, senhoras de grandes propriedades, ou mulheres de alta nobreza, elas utilizavam o casamento como trampolim para sua ambição. Em Roma, Marozia (ou Mariuccia) foi mãe do papa João XI, filho de sua ligação com o também papa Sérgio III. Viúva do primeiro marido, Guido da Toscana, meio-irmão do rei da Itália, Hugo, ela convidou este a se casar com ela. Mas Alberico II, seu filho do primeiro casamento, expulsou do castelo de Santo Ângelo onde foram celebradas as núpcias, aquele intruso manipulado por sua mãe.

Punição para a libido
Aos olhos de inúmeros escritores eclesiásticos, como o bispo Ratherius de Verona, a libido feminina era perigosa e devia ser reprimida severamente. O fato de que velhos países como a Espanha, a Itália e o reino dos Francos, embora cristãos havia já cinco séculos, não tivessem ainda integrado a doutrina do casamento – a ponto, por exemplo, de o rei Hugo ter tido duas esposas oficiais e três concubinas – prova o quanto essa doutrina estava na contramão de seu tempo. E contudo ela fora claramente afirmada e repetida desde que Ambrósio declarara em 390 que "o consentimento faz as bodas". A isso, o Concílio de Ver acrescentara, em 755: "Que todas as bodas sejam públicas" e "Uma única lei para os homens e mulheres".

Reclamar a liberdade do consentimento dos esposos e a condição de igualdade do homem e da mulher era utópico, sobretudo numa sociedade romana patriarcal. Todavia, progressos importantes ocorreram no século X, graças à repetição da apologia do casamento, símbolo da união indissolúvel entre Cristo e a Igreja. Após a atitude irredutível do arcebispo Hincmar e do papa Nicolau I, o divórcio de Lotário II por repúdio a sua esposa Teutberga – devido a sua esterilidade – tornou-se impossível após 869, ano de sua morte. Incompreensível para os contemporâneos, o casamento não se baseava somente na procriação. A aliança era mais importante do que um filho. Mais do que ninguém, longe dos discursos sobre a superioridade da virgindade, Hincmar havia demonstrado que um consentimento livre sem união carnal consecutiva não era um casamento. Ele prefigurava assim a noção de nulidade instituída pelo decreto de Graciano, em 1145. Em decorrência, os rituais, como escreveu Burchard de Worms por volta do ano 1000, traduziam no nível da disciplina do casamento a doutrina otimista dos moralistas carolíngios.

A união carnal, conseqüência do consentimento entre um homem e uma mulher (e não várias), é o espaço de santificação dos esposos. O ideal de monogamia, de fidelidade e de indissolubilidade tornou-se tanto mais possível porque no final do século X desapareceu a escravidão de tipo antigo, nos países mediterrâneos. Um novo espaço se abria para o casamento cristão, graças ao surgimento do concubinato com as escravas, que não tinham nenhuma liberdade. Essa foi também a época em que as determinações dos concílios tornaram obrigatória a validade do casamento dos não libertos.

Mas um outro combate chegava a seu ponto culminante no ano 1000: a proibição do incesto. Iniciada a partir do século VI e quase bem-sucedida na Itália, na Espanha e na França, essa interdição enfrentou contudo forte oposição na Germânia, na Boêmia e na Polônia. Proibidos em princípio até o quarto grau entre primos irmãos, os casamentos de consangüinidade e de afinidade foram punidos, e os culpados separados. Mais tarde, a partir de Gregório II (715-735), a proibição foi estendida ao sétimo grau (sobrinhos à moda da Bretanha), assim como aos parentes espirituais (padrinho e madrinha): não haveria mais aliança a não ser com estranhos, com quem fosse outro (Deus ou o próximo de sexo diferente), mas de modo algum com aquele ou aquela com quem já existisse um tipo de ligação.

As conseqüências sociais de tal doutrina foram incalculáveis. Ela obrigou cada um a procurar um cônjuge longe de sua aldeia e de seu castelo. Acabou por destruir as grandes famílias, de dezenas de pessoas, que viviam sob o mesmo teto, e por favorecer a formação de um grupo nuclear, do tipo conjugal. Ela suprimiu, assim, as sucessões matrilineares e a escolha dos esposos pelas mulheres. A exogamia tornou-se obrigatória. A Europa se abriria para o exterior.

Elogio da virgindade
Na Alemanha, desde os concílios de Mogúncia, em 813, e de Worms, em 868, os casos de casamentos incestuosos mantidos pela obstinação das mulheres eram numerosos. Na Boêmia, o segundo bispo de Praga, Adalberto, grande amigo do imperador Oto III, havia conseguido, em 992, um edito público que o autorizava a julgar e separar os casais incestuosos. Foi um insucesso tão retumbante que ele se desgostou para sempre de sua tarefa episcopal. Preferiu ir evangelizar os prussianos, que o martirizaram em 23 de abril de 997.

A dinastia dos Oto, que havia restaurado o império em 962 na Alemanha e na Itália, nem por isso deixou de apoiar a Igreja em sua empresa de transformação e cristianização. E suas esposas deram o exemplo, já que Edite (946), Matilde (968) e Adelaide (999) foram consideradas santas. Os clérigos que relataram suas vidas, em particular a de Matilde, insistem não na viuvez ou nos atos de fundação de mosteiros, mas sim no papel de esposa e mãe. Sua santidade provinha essencialmente do casamento e do papel de conselheira, junto a seu imperial esposo. A leitura dos ofícios de passagens da vida de santa Matilde não teve uma influência desprezível sobre as audiências populares.

Se a Alemanha foi então uma frente pioneira na cristianização do casamento, não foi bem esse o caso do reino dos francos. Ema, esposa traída do duque da Aquitânia, Guilherme V, vingou-se de sua rival mandando que ela fosse violada por toda sua guarda pessoal. Berta, filha do rei da Borgonha, mal tendo enviuvado, pousou seu olhar sobre o jovem Roberto, filho de Hugo Capeto, para fazer um casamento hipergâmico.

Esse exemplo é revelador. A legislação da Igreja acerca do casamento cristão ia de encontro à mentalidade da época. E no entanto o amor conjugal de caridade (dilectio caritatis) começava a sobressair ao amor de posse (libido dominandi). Por volta do ano 1000, a expansão urbana e o início do desbravamento e da cultura dos campos permitiram que a família nuclear monogâmica se multiplicasse. As células rurais foram destruídas pela necessidade de ir buscar um cônjuge mais longe. Somente a nobreza e as famílias reinantes mais antigas resistiram, fechadas em suas relações feudais, ao contrário dos recém-chegados ao poder, os Oto, que acolheram e adotaram a doutrina cristã como uma liberação e se lançaram com ousadia na direção do leste, para além do rio Elba, a nova fronteira da expansão européia.

Dessa forma, da concepção do amor como subversivo e criador de morte passamos à de um amor construtivo, promotor de vida. O desejo foi integrado no casamento com a união carnal, espaço de gozo mútuo. A procriação tornou-se um bem do casamento, entre outros. A poligamia desapareceu. A publicidade do casamento se instalou. As proibições de incesto permitiram que se descobrisse a necessidade de alteridade e a afirmação da diferença sexual como força de construção. Esse momento de otimismo e de vitória sobre o amor de morte pagão, à moda de Tristão, explica o elã prodigioso da Europa no início do ano 1000. Mas ele não iria além do final do século XI. Também por volta do ano 1000, as diatribes de São Pedro Damião e Ratherius de Verona contra o casamento dos padres anunciavam um outro combate que terminaria na reforma gregoriana e no triunfo do celibato convencional.

Em conseqüência, o elogio da virgindade passou a ser mais e mais preponderante, a ponto de fazer triunfar uma visão pessimista do casamento. Tanto isso é verdade que a história do casamento cristão é feita de alternâncias entre sucessos e crises.

Glossário
Casamento hipergâmico: quando a esposa tem um estatuto superior ao do marido.
Levirato: prescrição do próprio Moisés, segundo a qual o irmão solteiro de um homem morto, sem ter deixado filhos, deveria desposar sua cunhada, a viúva.

A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se misturava, a guerra já não era mais possível

A proibição de uniões entre parentes suprimiu as sucessões matrilineares. A exogamia tornou-se obrigatória

O Autor
Michel Rouche é historiador, professor e escritor, especialista em Alta Idade Média.

 
 
Revista Aventuras na História, para viajar no tempo, Edição 33 (maio 2006).
Todos dizem eu te amo
O amor acompanha a humanidade desde sempre. É o que os antropólogos chamam de "universal", ou seja, está presente em todas as culturas. Mas as formas que ele assumiu ao longo do tempo mudaram, e muito. Essas variações contam uma incrível história de quem somos nós.

Mais encantadora que todas as outras mulheres, luminosa, perfeita. Uma estrela na linha do horizonte. Seus lábios são encantadores. Seus cabelos refulgem como a lazulita. Seus braços são superiores ao ouro em esplendor. Seus dedos fazem-me ver pétalas, as de lótus lhes são semelhantes. Suas curvas têm a forma mais adequada, seu andar é nobre. Meu coração seria um escravo se ela me envolvesse com seus braços." O trecho acima faz parte de um poema escrito há mais de 3 mil anos, no Egito.Trata-se de um dos primeiros registros sobre amor de que se tem notícia na história da humanidade. Nele, o autor desconhecido fala sobre o fascínio exercido pela mulher amada, comparando-a com flores, frutas, pedras preciosas e corpos celestes. Como se vê, nada que não pudesse fazer parte hoje da música-tema da novela das 8: "Fonte de mel nos olhos de gueixa. Choque entre o azul e o cacho de acácias (…) Areias e estrelas não são mais belas". A verdade é que nosso vocabulário amoroso é muito parecido com o dos antigos egípcios, que, por sua vez, não pensavam tão diferente assim dos antigos chineses, gregos e romanos. Como explicar que as imagens usadas para descrever o amor hoje sejam as mesmas dos nossos ancestrais?

Segundo o professor César Ades, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, há uma predisposição para o amor prefigurada em nosso sistema nervoso, em nossos hormônios, na diferenciação biológica do masculino e do feminino. "Essa característica está presente em todas as culturas, nos mais diferentes povos. Em outras palavras, o amor é universal", diz César. As formas que ele assumiu ao longo da história, porém, variaram muito. "O amor é regulado por princípios e costumes culturais. Ama-se de acordo com os modelos da época e do grupo." Esses modelos são expressados nos poemas, nas canções, nas novelas, nos casos que uma pessoa conta a outra, nas reprovações ou incentivos que certas formas de amar recebem em seu meio social. Ou seja, o amor varia de acordo com a cultura e os gostos de cada época, mas a essência dessa emoção é imutável. "Não se pode dizer que o amor seja só uma criação da cultura. A cultura não cria, apenas influencia. Se os homens não desejassem as mulheres e vice-versa não haveria base para a cultura exercer seu papel", diz César.

A maioria dos especialistas acredita que o amor, assim como a família, nasceu com a descoberta do fogo. Ali, confinados em cavernas, reunidos em volta da fogueira, homens e mulheres estabeleceram as regras de uma célula social pré-histórica: divisão de funções, cuidados especiais com os filhos e parceiros. Mas contar a história do amor antes da invenção da escrita tem suas limitações. Os registros pictográficos dessa época até mostram o que parecem ser cenas de intimidade entre casais, famílias e sexo, mas não dá para saber exatamente como eram os relacionamentos e sentimentos amorosos. "Não temos como saber quais eram as motivações da escolha erótica nessa fase, mas concluímos que, quanto mais primitivas as relações sociais, mais instintiva ela devia ser", diz o historiador americano Morton Hunt, autor de A História Natural do Amor.

"Em nosso passado de coletores e caçadores, a escolha amorosa era muito mais livre e desprovida de laços sociais", diz Helen Fisher, antropóloga da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. Segundo ela, autora do recente Por que Amamos, nas sociedade nômades, o mais comum era escolher o parceiro por afinidade, pelo desejo de ter uma determinada pessoa como companhia e pelo simples prazer de mantê-la por perto. Alguns diriam que eis aí uma bela definição de amor.

A estrutura familiar como a conhecemos só se consolidou quando o homem se tornou sedentário, o que deve ter acontecido há cerca de 12 mil anos. Ao redor dos campos de trigo que floresciam nas terras férteis próximas a fontes de água limpa, homens e mulheres viviam do que encontravam, até que perceberam que o que gerava novas plantas eram as sementes. A partir daí, ter um pedacinho de terra era possuir uma reserva de alimentos e, portanto, passou a ser importante. Tanto quanto poder contar com braços para ajudar no trabalho. Pessoas que, em troca, ficariam com suas terras e tomariam conta de você. Ou seja, passou a ser importante gerar descendência. "A partir do momento em que nossos ancestrais se assentaram e introduziram a agricultura, os casamentos se tornaram negócios feitos para a troca da propriedade ou para alianças", afirma Helen Fisher.

Cara-metade
"Há pessoas que nunca teriam amado se não tivessem ouvido falar de amor", escreveu o francês La Rochefoucauld, no século 17. O que ele queria dizer é que o amor é só uma palavra e que ela será sempre uma representação do "verdadeiro" amor. O americano Morton Hunt concorda. "A história do amor é uma história daquilo que se diz sobre o amor." Por isso, segundo ele, foram os gregos que inventaram o amor. "É claro que as pessoas já se amavam muito antes, mas os gregos, que tinham uma explicação para tudo, foram os primeiros a criar uma palavra para isso", afirma Hunt. Da Grécia, aliás, vem boa parte do dicionário amoroso que usamos até hoje: afrodisíaco, erotismo, hermafrodita, ninfomania e poligamia.

A civilização que gerou filósofos como Sócrates e Aristóteles discutia política, ciência e poesia durante os chamados simpósios, festas nas quais os participantes partilhavam uma grande taça de vinho. É em torno de uma delas que se desenvolve O Banquete, célebre obra de Platão, uma das mais reveladoras sobre o pensamento grego a respeito do amor. Lá surgiram idéias como "almas gêmeas" e "cara-metade", quando um dos convidados, Aristófanes, recorreu à mitologia para falar sobre a origem do amor. Segundo ele, éramos seres andróginos de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços. Temendo que o poder dessas estranhas criaturas ameaçasse os deuses, Zeus dividiu-as em duas outras – e desde então carregamos a sensação de estarmos sempre incompletos, em busca da metade afastada de nós.

Outro conceito grego, que influenciou para sempre o modo de amar, é a idéia de que o amor só era possível entre pessoas iguais, ou seja, da mesma classe social, do mesmo nível intelectual. Os gregos acreditavam, ainda, que o verdadeiro amor só acontecia entre pessoas do mesmo sexo. Sócrates dizia sentir um fogo quando via outro homem e até Aristóteles, que considerava o homossexualismo uma "mórbida anormalidade", defendeu em sua Ética a idéia de que "o amor e a amizade são plenos somente entre os homens."

Platão acreditava num amor puro, abstrato, fundamentado na parceria intelectual e espiritual. O chamado amor platônico, no entanto, não excluía o contato físico. Era uma afeição elevada a um plano ideal, que transcendia o contato físico, mas não o abolia. Com a conquista da Grécia por Roma, por volta do século 2 a.C., muito da cultura grega foi assimilada pelos romanos. Mas tanto a idéia de amor entre iguais quanto a de amor idealizado foram descartadas.

Os romanos adoravam se divertir e não valorizavam tanto assim os assuntos "superiores". Além disso, eles tinham pavor da idéia de serem escravizados por uma paixão. Segundo o livro História da Vida Privada, coordenado por Philippe Ariès e Georges Duby, "quando um romano se apaixonava, seus amigos consideravam ou que perdera a cabeça por uma mulher devido a um excesso de sensualidade ou que moralmente caíra em escravidão". O amor e o sexo, porém, eram livremente discutidos e abordados pela arte romana. Uma das obras mais conhecidas do Império, o poema Arte de Amar, de Ovídio, é um verdadeiro manual de sedução, citado até hoje por poetas e apaixonados em geral.

Pecado e cortesia
Após a queda do Império Romano, no século 5, e as invasões bárbaras, ninguém mais estava a salvo. A cultura, a vida coletiva, o mundo como se conhecia desapareceu. No lugar dele, violência, caos social, conflitos. A única coisa a se apegar era a religião, que passou a dominar a vida social. O amor confundia-se com o sentimento religioso e o casamento se tornou uma cerimônia cristã. Padres celibatários pregavam a total renúncia ao erotismo e o sexo passou a ser associado ao pecado. Tanto quanto as mulheres, descendentes de Eva (a tentadora Eva que levou o pobrezinho do Adão para o mau caminho). Santo Agostinho, o principal pensador cristão da época, já defendia em sua obra Confissões, de 391, que os homens deviam renunciar ao desejo e ao sexo. Amor só por Deus e sexo só com fins de procriação. É claro que ninguém em sã consciência parou de amar e de fazer sexo por causa de Santo Agostinho. Mas quem o fazia por prazer ou por amor era tido como pecador e perigoso.

Numa época em que as mulheres eram parte das propriedades e os nobres tinham direito de deflorar as noivas de seus vassalos, surgiu na França, no século 12, o amor cortesão (ou cortês, em sua tradução mais comum), que foi imortalizado em poemas, trovas e romances sobre casais como Lancelot e Guinevere. No romance O Cavaleiro da Charrete, de Chrétien de Troyes, o amor de Lancelot o faz capaz de proezas incríveis e de ilimitada obediência à sua amada. Eis o roteiro do amor cortesão: um cavaleiro escolhe uma mulher casada, bela e distante, a quem passa a idealizar. No começo, ele apenas espia sua senhora à distância. Com o tempo, apresenta-se a ela como um humilde servo, prometendo lealdade e bravura. O cavaleiro jura se submeter a qualquer provação imposta pela dama e, a cada teste, sobe um degrau em direção a ela. Finalmente ela lhe concede um beijo e talvez o deixe ver (mas não tocar) seu corpo nu.

"O amor cortesão tornou-se um dos clichês de uma Idade Média imaginária", afirma a historiadora francesa Danielle Regnier-Bohler, no Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Para ela, no entanto, essa descrição é meramente literária (é bom lembrar que Lancelot e Guinevere, se existiram, não viveram no século 12, mas no 5). "A mulher como objeto da súplica amorosa reflete o modelo da sociedade feudal. O homem está a serviço da senhora, como um vassalo deve obediência a seu senhor", diz Danielle.

Razão e emoção
Com o fim da Idade Média, a reforma protestante e a transformação das aldeias em grandes cidades, a influência da Igreja sobre a vida das pessoas diminuiu. Nos séculos 15 e 16, a religiosidade dá espaço à razão, à ciência e à lógica. Sobre o amor e as formas de amar, o efeito do Renascimento foi uma revalorização dos desejos individuais. "Se o casamento permanece sendo a forma encontrada por aristocratas, banqueiros e comerciantes de se associar e fechar negócios, o discurso amoroso passa a cultuar a transgressão de tais arranjos", diz Morton Hunt. É o exemplo de um dos casais mais famosos de todos os tempos, imortalizado pelo inglês William Shakespeare em 1562. Romeu e Julieta, filhos de famílias rivais, queriam se casar por amor e acabaram mortos de forma trágica. A idéia de que jovens casais deviam escolher seus pares, viver sozinhos e morar em sua própria casa só surgiria no século 17.

O século 18 é o da racionalidade. A teologia e a metafísica dão lugar à matemática e à física e o amor ganha códigos de ética e até de etiqueta. O símbolo maior do galanteio racional foi Luís XIV. Modelo da aristocracia, o Rei Sol da França estabeleceu um intrincado código de símbolos que servia para regular o jogo amoroso, mas também para suprimir qualquer arroubo de emoção diante da razão. A figura literária que representa o amor do século 18 é Don Juan. Impecavelmente trajado e educado na arte da conquista, sua sedução mecânica é praticamente irresistível às mulheres. Seu amor é planejado, afetado e falso. O amor é reduzido a um malicioso esporte, como no filme Ligações Perigosas, em que os personagens vividos por Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer se envolvem num jogo de sedução em que a ascensão e a influência social são a meta. Outro ícone dessa fase é Casanova. Nascido em 1725, o aventureiro tinha uma mente brilhante – era astrônomo e filósofo e escreveu um livro no qual dá dicas práticas para se dar bem no amor, uma espécie de manual de auto-ajuda.

Os ideais de nobreza e de direito adquiridos pelo Renascimento entraram em colapso com a revolução burguesa, na França, e a ascensão do capitalismo, durante a Revolução Industrial, na Inglaterra, colocando em xeque a autocracia da Igreja e o direito patriarcal. Agora o que é nobre, digno de qualquer sacrifício, é o amor. Aliás, quanto mais sacrifício, melhor. O amor romântico é uma força arrebatadora, uma espécie de onda gigante e incontrolável, que enleva poetas como lorde Byron e Percy Shelley, para quem a única maneira autêntica de viver é confiar em suas emoções e ser verdadeiro em seus desejos. O amor muitas vezes era associado ao sofrimento e à morte. O romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, que trata da paixão irrefreável do protagonista pela bela Charlotte e cujo limite é a morte, provoca uma onda de suicídios na Europa.

Enfim livres
O historiador Eric Hobsbawn, em Era dos Extremos, diz que o século 20 é o século da mulher. Para ele, nenhuma revolução atingiu parcela tão grande da população mundial quanto a emancipação feminina. Do direito de voto aos métodos contraceptivos, do divórcio ao acesso ao mercado de trabalho, nunca tanta gente foi envolvida em transformações tão importantes em tão pouco tempo. "A pílula e as discussões sobre o aborto, o feminismo e os movimentos de minorias, a progressão das uniões livres, os corpos expostos na mídia e na propaganda, enfim, a liberação da palavra e do olhar mudou completamente a vida das pessoas e sua maneira de ver o amor", diz a historiadora Mary Del Priore, autora de História do Amor no Brasil.

A igualdade entre homens e mulheres e a liberação sexual têm papel definitivo na forma como amamos hoje. Primeiro, viraram de cabeça para baixo os papéis que cada gênero desempenhava nas relações eróticas. Depois, desconectaram novamente o amor dos relacionamentos. A partir desse momento, tudo sobre amor e sexualidade é abertamente discutido e os parceiros devem entrar num acordo para que a relação viceje. E, mais radical ainda, qualquer uma das partes pode mudar de idéia a qualquer momento. Não precisamos mais estar casados ou ter planos eternos para continuarmos nos amando. Aliás, em alguns casos, os relacionamentos podem até atrapalhar o amor, como defende a professora Laura Kipnis, da Universidade Northwestern, nos EUA. Para ela, a forma como os relacionamentos se desenvolvem hoje acabou com a liberdade individual de amar (veja entrevista na pág. 34).

Completamente desconectado da família e até do sexo, de que sobreviverá o amor? Para Helen Fisher, em seu mais recente livro, Por que Amamos, o amor continua e continuará vivo alimentando-se de sua capacidade de mudar e se adaptar. "Ele conta com 6 bilhões de aliados que não desistem de procurá-lo e de exaltá-lo", ela diz. Da mesma forma que os antigos egípcios faziam. No fundo, no fundo, a sensação é de que, nos assuntos do coração, as coisas mudam. Mas permanecem no mesmo lugar.

SAIBA MAIS
Livros
História do Amor no Brasil,
de Mary Del Priore, Contexto, 2005
Percorre 450 anos das idéias, práticas e modos de amar no Brasil.

História do Casamento no Ocidente,
Jean-Claude Bologne, Temas e Debates, 1999
Dois mil anos de casamentos.

Por que Amamos,
Helen Fisher, Record, 2006
As mais recentes descobertas de diferentes especialidades científicas sobre o amor.

Uma História Natural do Amor,
Diane Ackerman, Bertrand Brasil, 1997
Raízes históricas, culturais e religiosas do amor.

Filme
Ligações Perigosas, 1989
O amor na idade da razão.

EXCLUSIVO NO SITE:
Outras visões do amor
Lia Hama

Se no Ocidente o amor romântico é um ideal a ser perseguido, em outras culturas ele não é visto como fundamental. Na Índia, o romantismo é tido como uma ameaça ao sistema de castas. Ainda hoje, a maioria dos casamentos no país são arranjados para preservar a linhagem e os laços ancestrais. Apesar de os filmes de Bollywood (a versão indiana de Hollywood) celebrarem histórias de amor, a maioria dos indianos ainda acha que os casamentos arranjados têm mais chance de dar certo. Uma pesquisa apontou que 74% da população da Índia acreditavam que os casamentos deveriam ser arranjados pelos pais. Nos jornais locais são comuns os anúncios matrimoniais, separados por castas. Um exemplo típico foi recentemente publicado pelo Hindustan Times: "Desejável noiva esguia, bonita, encantadora, educada para desenvolvedor de softwares com qualificação MCA da Microsoft. A noiva deve ser da família Arora ou Khatri (referência a castas) do Punjab".
No Japão, durante muito tempo os casamentos arranjados também foram uma tradição. "Foi apenas após a guerra que mudanças realmente importantes começaram a acontecer", afirma o sociólogo sueco Göran Therborn, no livro Sexo e Poder, referindo-se à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Na língua japonesa contemporânea há uma distinção entre miai (casamento arranjado) e ren’ai (casamento por amor). Uma pesquisa feita em meados dos anos 50 mostrou que três quartos dos casamentos nas grandes cidades japonesas eram arranjados. No final da década de 50, eles caíram para menos da metade e, por volta de 1990, 85% dos casados consideravam suas uniões como "casamentos por amor".

O modelo cristão de casamento monogâmico difere ainda de outras tradições religiosas. O Islamismo, por exemplo, permite a poligamia. O Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) estabelece que um homem pode ter até quatro mulheres, desde que ele tenha condições de sustentá-las e de garantir os mesmos direitos para todas. A lei islâmica estabelece que o homem deve passar a mesma quantidade de tempo com cada uma das esposas, além de tratá-las financeira e legalmente com equidade. Uma tarefa, digamos, nada fácil – calcula-se que hoje apenas cerca de 3% dos muçulmanos sejam polígamos.

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