Economy and Society II de José Porfiro – Specific

14 de março de 2007

NOBEL I

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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 6, número 61, fevereiro 2005

CIÊNCIA
A impostura do Nobel de economia
O prêmio instituído pelo Banco da Suécia nada tem a ver com o Nobel e servem para endeusar economistas americanos da Escola de Chicago

Hazel Henderson*

Um protesto nada comum abalou o ambiente seleto da entrega dos prêmios Nobel. A voz de Peter Nobel, um dos herdeiros de Alfred Nobel, somou-se à sinfonia de protestos dos numerosos cientistas contra a confusão que envolvia o “prêmio do Banco da Suécia para as ciências econômicas, em memória de Alfred Nobel”. Depois de ter sido criado pelo Banco Central sueco, em 1969, esse prêmio de 1 milhão de dólares confunde-se com o verdadeiro Prêmio Nobel a ponto de ser designado, muitas vezes, como “o prêmio Nobel de economia” (em inglês, Nobel Memorial Prize).
O jornal sueco Dagens Nyheter, do dia 10 de dezembro de 2004, publicou uma matéria assinada pelo matemático sueco Peter Jager, membro da Academia Real de Ciências e pelo antigo ministro do Meio-Ambiente Mans Lonnroth, economista e antigo membro do Parlamento sueco. O artigo mostra, com detalhes, como certos economistas, entre os quais vários contemplados com o prêmio do Banco da Suécia, tinham feito mau uso da matemática ao criar modelos de dinâmicas sociais irrealistas.
“Nunca, na correspondência de Alfred Nobel, foi achada a menor menção relacionada a um prêmio em economia”, declara Peter Nobel, em uma entrevista exclusiva. “O Banco Real da Suécia colocou seu ovo no ninho de outro passarinho, muito respeitável, e transgrediu ‘a marca registrada’ Nobel. Dois terços dos prêmios do Banco da Suécia contemplaram economistas americanos da Escola de Chicago, cujos modelos matemáticos servem para especular nos mercados de ações e de opções, em oposição às intenções de Alfred Nobel, que pretendia melhorar as condições humanas.”

Os deuses da independência do BC
A escolha dos premiados de 2004 talvez tenha sido a gota d´água. Mais uma vez o prêmio consagrou dois economistas americanos. Os senhores E. Kydland e Edward C. Prescott, que, em um artigo de 1977, tinham “demonstrado”, a partir de um modelo matemático, que os bancos centrais deveriam ser independentes de todas as pressões dos políticos, inclusive em uma democracia. A apresentação dos laureados pelo prêmio do Banco da Suécia glorificava seus artigos de 1977 e “seu grande impacto nas reformas feitas em numerosos países, entre os quais a Nova Zelândia, Suécia, Inglaterra e Comunidade Européia, que confiaram as decisões da política monetária aos bancos centrais independentes”.
Ora, tais “reformas” colocam um problema nas democracias onde há preocupação com a transparência das decisões públicas. A política monetária determina a repartição das riquezas entre o credor e o devedor, a política de salários e da igualdade de oportunidades. Muito rigorosa, penaliza os assalariados, provocando desemprego, encarece o pagamento dos empréstimos em proveito das organizações de crédito e dos detentores do capital.
Os preconceitos ideológicos dos economistas neoclássicos estão estabelecidos1 da mesma forma que o irrealismo de muitos dos seus postulados. Mas um novo grupo de cientistas – em áreas tão variadas quanto a física, matemática, neurociência ou ecologia –quer, por sua vez, que o prêmio do Banco da Suécia para as ciências econômicas seja ampliado, corretamente atribuído, sem nenhuma ligação com o Prêmio Nobel; ou simplesmente abolido.

Erros fundamentais
Essas objeções provêem dos pesquisadores em ciências “duras”, que estudam o mundo natural, cujas descobertas são submetidas a verificação e a refutação. O prêmio de economia desvaloriza, na opinião deles, os verdadeiros Prêmios Nobel. Depois da obra clássica de Nicholas Georgescu- Roegen2, a economia recebe uma artilharia de críticas vinda de ecologistas, biologistas, especialistas em recursos naturais, engenheiros, especialistas em termodinâmica. O uso de um método multissetorial – economia ecológica, economia de recursos naturais etc. – não soluciona os erros fundamentais da economia neoclássica, que alguns comparam a uma crença religiosa, principalmente na sua fé na “mão invisível” dos mercados.
A velha questão de saber se a economia é uma ciência ou uma profissão volta à tona. A maioria dos seus “princípios” não sendo testáveis, como o são as leis da física, graças às quais pode-se enviar um foguete para a Lua, a economia seria antes uma profissão. Pode-se, por exemplo, demonstrar que o “principio” da optimalidade de Pareto3 ignora a questão da distribuição prévia das riquezas, do poder e da informação, levando assim a resultados sociais injustos.
A apresentação de dados matemáticos que envolvem estes conceitos serve, na maioria das vezes, para mascarar a ideologia subjacente. E também para colocar fora de alcance a compreensão do público e mesmo dos políticos, posto que os problemas costumam ser apresentados como muito “técnicos” para eles. Assim, não apenas os economistas ganham influência junto às poderosas instituições que os empregam, como também raramente são submetidos aos critérios de avaliação como em outras profissões. Um médico é processado se comete uma falta no tratamento de um doente. Os maus conselhos de um economista podem deixar um país doente e ele continuará a gozar de total impunidade.

Ciência revisitada
As novas descobertas dos pesquisadores em neurociência, dos bioquímicos e cientistas do comportamento tocam a ferida constante dos economistas neoclássicos: a assimilação da “natureza humana” a um cálculo de um agente economista racional, obcecado pela preocupação de maximizar seu próprio interesse. Baseado no medo e na raridade, esse modelo é o do cérebro do réptil e com o caráter estreitamente territorial do nosso passado primitivo. Pesquisador em neurociência na Universidade de Claremont, Paul Zak demonstrou, ao contrário, que há uma relação entre a confiança que impulsiona os humanos a se reagruparem para cooperar entre si e um hormônio reprodutivo chamado ocitocina.
Por outro lado, David Loe revisitou os escritos de Charles Darwin e mostrou que, ao contrário do que se diz habitualmente, Darwin não se concentrou na “sobrevivência do mais apto” e na competição como um dos grandes fatores da evolução humana4 . Mais interessado na capacidade dos humanos em construir laços de confiança e usufruí-los, ele via no altruísmo um fator de sucesso coletivo. Outros trabalhos, retomando a teoria dos jogos, chegam a conclusões similares5 . Além disso, talvez seja o caso de nos perguntarmos como os humanos teriam passado do estágio de grupos nômades caçadores e colhedores ao de construtores de cidades, de empresas ou entidades internacionais como a União Européia ou as Nações Unidas.

Novo homem racional
Ao contrário do que postula a economia usuária da matemática, as pessoas não se comportam como átomos, bolas de golfe ou porcos da Índia. Longe do “homem econômico racional” imaginado nos livros teóricos, os humanos têm uma “racionalidade” sem relação com o sentido que os economistas dão a essa palavra. Complexas, suas motivações incluem o cuidado dos outros, a divisão e a cooperação, muitas vezes dentro de um contexto beneficente. As simulações informatizadas baseadas em grupos de agentes farão talvez a economia mais ”científica” no futuro. Atualmente, as hipóteses fundamentais da economia são patriarcais – o que abre um interessante campo de pesquisa para uma “economia feminista”.
A controvérsia sobre o “Prêmio do Banco da Suécia em ciências econômicas”, cujo objetivo era conferir a essa profissão a áurea de ciência, fez reaparecer todas essas questões importantes. Uma impostura científica é questionada. Se essa controvérsia não tem oportunidade de figurar no menu das elites reunidas em Davos, na Suíça, coberta de neve, ela merecia estar na agenda do Fórum Social Mundial.

(Trad.: Celeste Marcondes)

*Autora de várias obras, entre as quais Building a Win-Win World, Hazel Henderson criou, com o Grupo Calvert de fundos de pensão socialmente responsáveis, indicadores sobre a qualidade de vida, como também um seriado para a televisão sobre a ética do comércio.(www.hazelhenderson.com)

1 – Ler “Politics of the Solar Age”,1981, Toes Book, Nova york.
2 – Ler “The Entropy Law and The Economic Process”, 1971, reeditado 1999, Universe Lincoln (Nebraska).
3 – A idéia que a alocação de recursos em uma economia é tal que a partir de um certo momento não se pode melhorar a situação de alguém sem destruir a de outra pessoa.
4 – David Loye em “Darwin´s Lost Theory of love”
(Excel 2000)
5 – Ver Robert Axebrod, “The Evolution of Cooperation”, basic Books, New York 1985 e também Robert Wright (2000) e Riane Eisler, “The Power of Partnership”, ew World Library (2003)

 

 

26/11/2002 – 02h42
Leia declaração que justifica Prêmio Nobel de Economia de 2002
da Folha de S.Paulo

Leia abaixo a declaração da Academia Real Sueca de Ciências que justifica a premiação de Daniel Kahneman e Vernon Smith para o Prêmio Nobel de Economia de 2002. Kahneman e Smith foram premiados por inovações nos campos de economia experimental e psicologia econômica, respectivamente. A versão original da declaração pode ser lida no site
http://www.nobel.se/economics/laureates/2002/public.html

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Academia Real Sueca de Ciências
Prêmio Banco da Suécia em Ciências Econômicas
em Memória de Alfred Nobel 2002 – Informações para o Público

Tradicionalmente, a teoria econômica tem confiado na existência de um "homo economicus", cujo comportamento é determinado por interesse próprio e que é capaz de tomar decisões racionalmente. A economia também tem sido lembrada como uma ciência não experimental, em que pesquisadores —como em astronomia ou meteorologia— têm tido de confiar exclusivamente em dados de campo, isto é, observações diretas do mundo real. Durante as últimas duas décadas, entretanto, essas visões passaram por uma transformação. Experimentos laboratoriais controlados emergiram como componentes vitais da teoria econômica e, em certas situações, resultados experimentais mostraram que postulados básicos na teoria econômica deveriam ser modificados. Esse processo tem sido gerado por pesquisadores em duas áreas: a de psicólogos cognitivos que têm estudado o julgamento humano e tomadas de decisões e a de economistas experimentais que têm testado modelos econômicos em laboratório. O prêmio deste ano é conferido para inovadores nesses dois campos: Daniel Kahneman e Vernon Smith.

Economia psicológica e experimental

Economia experimental

Os primeiros experimentos na economia foram direcionados a testar o que é talvez o mais sólido pensamento na teoria econômica: o de que em uma competição perfeita, o preço de mercado estabelece um equilíbrio entre oferta e procura, em que o valor conferido a um bem por um comprador limítrofe é tão alto quanto o de um vendedor limítrofe. Nos primeiros experimentos em laboratório de Vernon Smith, pessoas eram aleatoriamente apontadas como compradoras e vendedoras com diferentes valores estimados de um bem, definidos como preço de venda mais baixo aceitável e máximo preço de compra aceitável, respectivamente. Dada a distribuição de tais "preços de reserva", Smith foi capaz de determinar o preço teórico de equilíbrio, —o preço que é aceitável para tantos vendedores como compradores. Já em 1962, quando publicou os resultados de seus primeiros experimentos, Smith descobriu, para sua surpresa, que os preços obtidos no laboratório foram muito próximos dos seus valores teóricos, ainda que as pessoas não tivessem a informação necessária para calcular o preço de equilíbrio. Smith e outros pesquisadores, entre eles Charles Plott, mais tarde executaram experimentos parecidos para testar a concordância com a teoria e, de modo amplo, confirmaram os resultados iniciais. Mais, descobriram que o resultado era balizado exatamente pelo mesmo padrão do mercado.

Muitos experimentos têm tratado do resultado de leilões, que são tradicionalmente usados para organizar mercados por bens materiais, ações ou outros instrumentos financeiros. Mais recentemente, leilões também têm sido utilizados em processos de desmonte e privatização de monopólios públicos, como direitos de transmissão. A teoria da formação de preços distingue quatro formas básicas de leilão usadas na venda de um único objeto:
– o leilão inglês, em que compradores anunciam seus lances em ordem crescente até que nenhum outro lance é dado;
– o leilão holandês, em que um lance inicial alto é gradualmente baixado até que um comprador manifeste sua aceitação;
– o leilão de primeiro preço, com lances selados, em que aquele que deu o lance mais alto paga seu próprio lance;
– o leilão de segundo preço e lance selado, em que aquele que ofereceu o lance mais alto paga o valor do segundo lance.

Em experimentos controlados, Smith e seus colegas foram capazes de testar diversas precondições teóricas. Por exemplo, descobriram —como previsto por teoria— que um vendedor pode esperar o mesmo resultado nos leilões inglês e de segundo preço. Enquanto isso, foram capazes de refutar a condição teórica da equivalência entre o leilão holandês e o de primeiro preço. Os experimentos também demonstraram que os leilões inglês e de segundo preço produzem a maior preço de venda médio, seguidos pelo leilão de primeiro preço e, finalmente, pelo holandês.

Smith também iniciou o uso de experimentos laboratoriais como um "túnel de vento", em que mecanismos propostos para privatização e licitação pública podem ser testados com antecedência. Já que esses mecanismos são frequentemente complexos e é difícil estimar sua performance somente na base da considerações teóricas, o método experimental se torna particularmente útil. Em experimentos parecidos, Smith avaliou diferentes mecanismos para organizar horários em aeroportos usando mercados dirigidos por computador. Ele também avaliou modos diversos de organizar mercados de energia na Austrália e na Nova Zelândia, onde os resultados influenciaram o padrão real de mercado.

Os valores em jogo em mercados do mundo real são frequentemente de uma magnitude completamente diferente das recompensas que podem ser oferecidas em um modelo experimental. Em particular, enquanto enfatizam a importância de mecanismos monetários em experimentos, Smith desenvolveu métodos em que tais incentivos são não apenas suficientemente fortes mas também desenvolvidos para melhorar a probabilidade de que os resultados sejam aplicáveis em situações reais de mercado. Um grande problema é que as preferências pessoais (e não observadas) podem afetar o comportamento em um experimento. Consequentemente, uma pessoa a quem é designado o papel de comprador, com uma determinada função de demanda por um bem, não agirá simplesmente de acordo com essa curva de demanda. Smith introduziu uma técnica, conhecida como o método de valor induzido, que resolve esse problema e oferece à pessoa incentivos para se comportar como planejado por quem aplicava o experimento. Por meio dessa e de outras contribuições, bem como uma série de recomendações práticas para procedimentos apropriados no laboratório, Smith determinou padrões metodológicos para o que constitui um bom experimento na pesquisa econômica.

Psicologia e economia
A pesquisa econômica frequentemente assume que pessoas são motivadas primordialmente por incentivos materiais e fazem decisões de modo racional. Considera-se que elas avaliam o estado da economia e o efeito de seu comportamento processando de informações disponíveis de acordo com princípios estatísticos padrão. Esse enfoque tem sido formulado axiomaticamente na chamada teoria de utilidade esperada, que é a teoria econômica predominante para decisões sob incerteza.

A visão prevalecente na psicologia em geral, psicologia cognitiva em particular, é olhar o ser humano como um sistema que codifica e interpreta a informação disponível de uma maneira consciente, mas em que outros fatores, menos conscientes, também influenciam decisões, em um processo interativo. Tais elementos incluem percepção, modelos mentais para interpretar situações específicas, emoções, atitudes e memórias de decisões anteriores e suas consequências.

Em uma ampla pesquisa sobre o comportamento humano baseado em entrevistas e experimentos, Daniel Kahneman e outros psicólogos questionaram a assunção da racionalidade econômica em algumas situações de decisão. Quem deve tomar decisão no mundo real frequentemente parece não avaliar eventos incertos de acordo com as leis de probabilidade; nem parece tomar decisões de acordo com a teoria da maximização da utilidade esperada.

Em uma série de estudos, Kahneman —em colaboração com o finado Amos Tversky— mostrou que pessoas são incapazes de analisar de modo completo situações em que se deve tomar decisões completas quando as consequências futuras são incertas. Sob tais circunstâncias, elas confiam, em vez disso, em atalhos heurísticos ou princípios genéricos. Um viés fundamental é bem ilustrado em dados experimentais próprios de Kahneman e Tversky da maneira como indivíduos julgam eventos aleatórios. A maior parte dos assuntos experimentais determina as mesmas probabilidades em amostras grandes e pequenas, sem levar em consideração que a incerteza sobre a variação do meio declina drasticamente com o tamanho da amostra. As pessoas, portanto, parecem aderir à lei dos pequenos números, sem a devida consideração da lei dos grandes números na teoria da probabilidade. Em um experimento bem conhecido, as pessoas vêem como igualmente provável que, em um determinado dia, mais de 60% dos nascimentos seja o de meninos em um hospital pequeno (com menos nascimentos) e em um hospital grande (em que muitas crianças nascem).

De modo similar, um investidor que reconhece que um gerenciador financeiro lidera o ranking dois anos em sequência pode concluir que o líder é sistematicamente mais competente do que um investidor médio, enquanto a implicação estatística real é muito mais fraca. Tais visões curtas para interpretar dados podem bem ajudar a esclarecer diversos fenômenos em mercados financeiros difíceis de explicar com modelos predominantes —como as ostensivas e grandes flutuações às quais as Bolsas estão sujeitas. Em economia financeira, uma área de pesquisa ativa, a de finanças comportamentais, evoluiu no sentido de aplicar inspirações da psicologia em uma tentativa de compreender o funcionamento dos mercados financeiros.

Outro princípio genérico é a representatividade. Kahneman and Tversky executaram um experimento em que indivíduos deveriam fazer a distinção entre "vendedor" e "membro do parlamento" com base em determinadas descrições. Quando um personagem escolhido aleatoriamente era definido como interessado em política e em participar de debates, a maior parte dos participantes da pesquisa pensou que se tratava de um membro do parlamento, independentemente do fato de que a maior parcela de vendedores na população aumenta a probabilidade de que o indivíduo era um vendedor. Mesmo após os entrevistados serem informados da incidência de membros do parlamento e vendedores na população, isso não pareceu importar nos resultados.

Kahneman, portanto, demonstrou que, em situações com incertezas, o julgamento humano normalmente explora princípios genéricos que sistematicamente contradizem com propostas da teoria da probabilidade. Sua contribuição mais influente, entretanto, diz respeito à tomada de decisões sob incertezas. Uma descoberta de impacto é a de que indivíduos são muito mais sensíveis à maneira como um resultado se desvia de um nível de referência (normalmente o status quo) do que ao resultado absoluto. Quando confrontados com uma sequência de decisões sob risco, indivíduos, portanto, parecem basear cada decisão em seus ganhos e perdas isoladamente, mais do que nas consequências de uma decisão para suas riquezas como um todo. Mais além, a maior parte dos indivíduos parece ser mais avessa a uma perda de um determinado tamanho do que favoráveis a um ganho do mesmo tamanho. Esses e outros resultados contradizem previsões da tradicional teoria da maximização da utilidade esperada.

Não satisfeitos em criticar teorias comuns de tomadas de decisões sob incerteza, Kahneman e Tversky também desenvolveram uma alternativa, conhecida como teoria da previsibilidade ("prospect theory", em tradução livre), com o objetivo de oferecer explicações para observações empíricas. A teoria da previsibilidade e suas extensões podem ser utilizadas para explicar melhor padrões de comportamento que parecem ser anomalias na perspectiva da teoria tradicional: a propensão para optar por seguros custosos de pequena escala para bens móveis; disposição para dirigir muitos quilômetros por um desconto de alguns dólares em uma compra pequena, mas relutância para fazer o mesmo de modo a economizar a mesma quantia em um bem mais caro; ou resistência a reduzir o consumo em resposta a más notícias sobre a renda futura.

Duas áreas de pesquisa que se fundem
A pesquisa moderna limítrofe entre economia e psicologia mostrou que conceitos como racionalidade limitada, interesse próprio restrito e autocontrole limitado são fatores importantes por trás de uma gama de fenômenos econômicos. Em particular, inspirações da psicologia tiveram forte impacto em desenvolvimentos contemporâneos em economia financeira. Por que, então, se demorou tanto tempo para que essas idéias ganhassem reconhecimento na pesquisa econômica? Uma explicação é a de que métodos experimentais só recentemente passaram a permear a economia. Em decorrência da pesquisa experimental sobre a relação entre formação de preço e instituições de mercado, um número crescente de economistas começou a ver métodos experimentais como ferramentas de pesquisa indispensáveis. Hoje, uma nova geração de economistas é a catalisadora de uma amalgamação gradual de duas tradições de pesquisa antes distintas em economia experimental e psicologia econômica. Daniel Kahneman e Vernon Smith, as figuras-chave dentro dessas tradições, contribuíram para uma empolgante renovação na pesquisa econômica.

Os laureados

Daniel Kahneman
Departmento de Psichologia
Universidade Princeton
Princeton, NJ 08544
USA
http://www.princeton.edu/~psych/PsychSite/fac_kahneman.html
Cidadão dos EUA e de Israel. Nasceu em 1944 (68 anos) em Tel Aviv, Israel. PhD da Universidade da California em Berkeley em 1961. Já lecionou na Universidade Hebraica (Usrael), Universidade da Columbia (Canadá) e UC Berkeley. Desde 1993, professor de psicologia Eugene Higgins, e professor de assuntos públicos na Universidade Princeton, NJ, EUA.

Vernon L. Smith
Centro Interdisciplinar de Ciências Econômicas
Universidade George Mason
4400 University Drive
Fairfax, VA 22030-4444
EUA
http://www.gmu.edu/departments/economics/facultybios/smith.html
Cidadão dos EUA. Naceu em 1927 (75 anos) em Wichita, KS, EUA. PhD da Universidade Harvard em 1955. Lecionou na Universidade Purdue, na Universidade de Massachusetts e Universidade de Arizona. Desde 2001, professor de economia e direito na Universidade George Masin, VA, EUA.

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Tradução de Marcelo Vaz

Leia mais:
– O homem (econômico) é racional?
– O que é importante para conhecer o "homo economicus"

Uchitelle, Louis. “Novo ramo da economia leva em consideração, enfim, as emoções humanas” São Paulo: Folha de São Paulo, 11 de março de 2001. Jel: D

Novo ramo da economia leva em consideração, enfim, as emoções humanas
Louis Uchitelle
do "THE NEW YORK TIMES"

Durante meio século, a economia construiu suas teorias supondo que as pessoas agiam com base em seus interesses racionalmente, sem levar em conta as emoções. Mas em 94, quando a Universidade de Harvard contratou David Laibson, 34, um novo campo da economia começava a se firmar.
Laibson terminou seu doutorado em economia com uma tese sobre força de vontade e dinheiro baseando-se tanto na psicologia quanto na economia clássica.
Seu prestígio vem principalmente da exatidão de uma "anomalia" que descreveu. Quando as pessoas esperam dinheiro, mas ainda não o receberam, são capazes de planejar de maneira racional quanto gastar e quanto poupar. Isso se relaciona às teorias econômicas tradicionais, segundo as quais, se houver incentivos, as pessoas se dispõem a poupar e a adiar o consumo.
Mas o quando o dinheiro chega às mãos delas, a força de vontade fraqueja e -a não ser que haja mecanismos que restrinjam seus gastos- elas gastam o dinheiro todo de uma vez. O fenômeno, conhecido como "desconto hiperbólico", é explicado por novo ramo da economia chamado economia comportamental.
Os economistas comportamentais ajudam a explicar, por exemplo, por que os booms persistem. Seu trabalho ilumina as razões pelas quais a identidade -os traços que as pessoas designam para si mesmas e para os outros- desempenha um papel tão imenso e tão prejudicial na economia.
Se suas suposições estiverem corretas, as ações cotadas na Bolsa de Valores dos EUA estão superestimadas, e o índice Dow Jones deveria cair ainda mais. Se essa visão prevalecer, a opinião dominante, de uma economia racional e capaz de se regular independentemente, talvez seja abandonada.
O número de economistas comportamentais é pequeno, por enquanto -menos de 20% dos estudantes de pós-graduação em economia se dedicam a essa área. Mas, ainda assim, a proporção representa um grande avanço em relação ao praticamente zero que prevalecia no início do anos 90.
Poupança
Gastar demais e poupar de menos são de fato características norte-americanas que os economistas lutam para explicar. A visão tradicional afirma que as pessoas poupam o quanto podem, voluntariamente, e que, caso os impostos sejam reduzidos, elas economizarão parte substancial do dinheiro adicional que reterão.
Os economistas comportamentais dizem que este raciocínio é incorreto. Segundo eles, a despeito de suas melhores intenções, a maioria das pessoas gasta a maior parte do dinheiro que recebe. Em lugar de equilibrar racionalmente seus gastos e poupança ao longo da vida, as pessoas se endividam da juventude à velhice.
Os economistas comportamentais não são rebeldes nem rejeitam as teorias dominantes. Mas insistem em que algumas modificações sejam feitas.
A economia, afirmam, também responde a um raciocínio distorcido, à indulgência pessoal, a comportamentos autodestrutivos e a uma série de outros pontos fortes e fracos dos seres humanos.

Matemática
A mente humana, alegam os economistas comportamentais, não dispõe dos circuitos necessários para produzir um sistema de mercado eficaz sob o qual as pessoas possam interagir livremente em busca de suas preferências.
De fato, quase todos os grandes economistas incorporaram fatores psicológicos às suas idéias.
Mas, na metade do século 20, houve uma virada no pensamento econômico. Os economistas cada vez mais passaram a se ver como praticantes de uma ciência que, como a física, pode ser modelada e explicada por meio de equações matemáticas.
Essas equações -e não palavras- logo se tornaram a linguagem da economia. Comportamento racional e defesa do interesse pessoal -um mundo no qual as pessoas respondem a mudanças nos preços e salários, mas não às emoções ou às ações umas das outras- se enquadram com facilidade a essas equações.
Mas a matemática vem se complicando cada vez mais para acomodar o renascimento da psicologia como parte do mundo econômico.
A estratégia está funcionando. Até mesmo racionalistas radicais, como Robert E. Lucas, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, admitem que as dúvidas quanto ao comportamento do público em termos de poupança são sérias o suficiente para garantir que a tese de Laibson sobre o desconto hiperbólico mereça consideração.
Mas, acrescenta Lucas, a teoria econômica tradicional responde à maior parte das perguntas de maneira satisfatória. "Se o preço da gasolina sobe, as pessoas racionalmente reduzem seu uso. Os processos psicológicos envolvidos quando as pessoas alteram seu comportamento não são algo sobre o que pensemos."
Kevin Murphy, da Universidade de Chicago, disse que, com o tempo, a economia comportamental pode oferecer explicações melhores sobre alguns fenômenos do que a economia tradicional. Mas, no momento, diz, o que os economistas comportamentais vêem como irracional pode ser encarado como uma opção racional pelos tradicionalistas. Comer hambúrgueres frequentemente faz mal à saúde das pessoas. "Mas, se elas acostumam seu paladar de forma a apreciar hambúrgueres, então, trocar a saúde pelo sabor é uma escolha racional."
A economia comportamental também pode alterar as teses dominantes sobre a desregulamentação. Neste processo, iniciado no final dos anos 70, o setor de transporte aéreo foi desregulamentado, e foram suspensos os limites máximos para os juros.
A desregulamentação desfruta de grande apoio entre economistas tradicionais. Eles acreditam que um sistema de livre mercado funciona melhor quando deixado nas mãos racionais do público.
A experiência da Califórnia com o setor de geração de eletricidade, porém, contesta a eficácia da desregulamentação. O mesmo vale para os jogos de azar, que podem se tornar um vício, de acordo com os economistas comportamentais, em contraste com a posição dos tradicionalistas, que alegam que os jogadores escolhem racionalmente o que querem fazer.

Apostas
Nada recebe mais apoio dos economistas comportamentais do que a idéia de que o mercado de ações corresponde não à realidade corporativa, mas ao ânimo dos investidores.
Segundo eles, o comportamento desses investidores -que estimam exageradamente a própria competência e relutam em vender ações em queda e em reconhecer prejuízos- é semelhante ao dos jogadores em um cassino.
Mas nem todo o comportamento econômico é idiossincrático. Além do auto-interesse, a psique humana reserva espaço ao altruísmo, lealdade, justiça e à vontade de dar e receber em troca.
Diversas experiências demonstraram o quanto essas qualidades são comuns. Elas ajudam a explicar o movimento ambientalista e o trabalho voluntário, bem com a dedicação de funcionários a suas tarefas cotidianas em troca de um salário superior ao requerido pelo mercado.

Salários
Segundo os economistas comportamentais, o estabelecimento de salários também reflete a complexidade da psicologia.
Os salários deveriam cair quando o desemprego é alto. Mas os patrões não reduzem os salários devido a um sentimento de equanimidade, lealdade ou amizade ou porque compreendem que se os salários forem cortados, os funcionários podem reagir trabalhando menos.
De fato, os salários muitas vezes ficam acima do que o mercado requereria, para manter o moral elevado e motivar os funcionários. Os desempregados podem estar dispostos a trabalhar por menos, mas não são contratados.

Identidade
Da pena de George A. Akerlof, que tem doutorado pelo MIT, ocasionalmente em colaboração com o economista Joseph Stiglitz, vieram as primeiras descrições de imperfeições do mercado. A mais famosa delas foi descrita por Akerlof em um estudo de 1970, "O Mercado de "Limões’".
"Limões" é uma gíria para carros usados. O ponto era que os vendedores desses carros sabiam mais sobre a qualidade do produto vendido do que os compradores e, assim, podiam cobrar acima do seu valor. Na visão tradicional do mercado, compradores e vendedores têm ambos informação completa sobre os produtos em negociação, e o preço acertado entre eles é o correto.
Aquele trabalho inicial foi um primeiro passo rumo a, como diz Akerlof, uma ressurreição dos fenômenos comportamentais que ainda sobreviviam nos dias de Keynes, os anos 30 e 40.
Agora, aos 60 anos, Akerlof está levando a economia ao reino da sociologia e antropologia. Com base em estudos com crianças negras de áreas pobres de grandes cidades, ele e Rachel E. Kranton, da Universidade de Maryland, observaram que a identidade de grupo que se instala na criança e dá a ela um senso de si está vinculada ao que ela percebe como sua categoria social.
Usualmente, essa categorização as confina, de modo que é preciso que decidam como se comportar. A rebelião que frequentemente resulta disso encheu as cadeias do país de jovens negros, diz Akerlof.
Ao alterar a identidade -e portanto as expectativas- dessas crianças, algumas escolas de bairros pobres melhoraram o desempenho de seus alunos.
A economia tradicional sugere que o treinamento e a educação deveriam bastar para permitir que alguém consiga bons empregos, descaraterizando a identidade de grupo negativa. O modelo proposto por Akerlof discorda.
"Quando apresentamos esse estudo, alguém disse que havíamos desenvolvido uma terminologia que aproximava a economia da sociologia", afirma Akerlof.
"Os sociólogos já sabem disso e estamos agora inserindo as nossas conclusões em uma perspectiva que os economistas possam compreender."
Ele se deixou atrair pela economia comportamental, conta, porque "a disparidade entre negros e brancos" é a questão mais importante dos Estados Unidos, mas a economia tradicional não trata dela de maneira efetiva.

 

 

O Nobel da Economia
NEVES, João César das
PRINCIPIA 1ª Edição de 1998

http://prof.fe.unl.pt/~jbmacedo/papers/Nobel.html
Marilu Hurt McCarty,
Como os grandes economistas deram forma ao pensamento moderno os laureados do Nobel de Economia, tradução do inglês, Lisboa, Prefácio, 2001

Jorge Braga de Macedo

Há várias maneiras de singularizar os prémios Nobel em economia. Porque são concedidos há pouco mais de trinta anos, graças à generosidade do banco central da Suécia. Porque são o único prémio Nobel dedicado a uma ciencia social, por vezes considerada menos cientifica – precisamente por ser social. Porque foram atribuidos a cientistas que, além de ser exemplos de competência e dedicação profissional, partilham um interesse genuino pela melhoria das condições de vida dos seus semelhantes.
Ao usar este último aspecto para motivar a sua obra, a autora corre o risco de homogeneizar uma colecção muito variada de personalidades, métodos e orientações. Ainda bem que Marilu Hurt McCarty correu esse risco porque assim singularizou o seu livro. Transformar uma evocação dos paladinos da ciência do desespero (dismal science) – como chamam à economia política desde a época vitoriana – em mensagem de esperança no desenvolvimento, é obra! E é a primeira razão pela qual se deve ler este livro. A segunda é que o livro está acessível e é agradavel de ler, mas nem por isso resvala para a "literatura de aeroporto" (sem menosprezo pelo que se lê nas respectivas salas de espera).
Nesta breve apresentação vou falar da cultura económica e do papel dos economistas, recorrendo por vezes a exemplos próximos.
Numa era de globalização, de facto, só a proximidade da governação pode dar esperança às pessoas. Esta grande mensagem da economia é tanto mais credível quanto mais sólida a autoridade científica e moral de quem a exprime. E porque a singularidade do Nobel em economia é ser jovem e social, torna-se oportuno retirar esta mensagem de um livro que salienta a homogeneidade.
A economia ajuda-nos a compreender a falácia daqueles que, estando sempre a invocar a solidariedade, na realidade não são capazes de a praticar. Nesse processo, a economia deve escorar-se na ética e na história, e projectar-se para fora de si própria. Ao fazê-1o, traz ao homem concreto a autoverificação des expectativas. Para o homem concreto, a solidariedade deve ter resultados. Ora esse necessidade de eficiência parece desesperante e por isso mesmo a principal implicação de política que – numa homenagem a meu pai publicada em 1992 – retiro da ligação entre economia e ética é um apelo à esperança. Esta acaba sempre por ter uma expressão económica, entendida no sentido etimológico de "arrumar a casa", que é afinal, em termos de política, «pôr ordem na cidade».
Esta insinuação etimológica aponta claramente para o elemento interdisciplinar. Além disso, realça que a análise interdisciplinar, ao buscar o concreto, não deve nunca abandonar o rigor do método. Outra consequência imediata desta perspectiva é que se não pode retirar da história da análise económica qualquer ideia de que o egoísmo ou a cobiça são ingredientes essenciais de uma sociedade responsável e feliz. Pelo contrário, o postulado da selecção natural, e do incentivo próprio para a aprendizagem, insere-se num conjunto de «regras de cidadania» em que a minimização dos conflitos passa pelo respeito dos interesses legítimos dos outros. No limite, as regras do jogo de mercado não podem ser cumpridas sem honestidade e colaboração na sua execução que não desintegre o tecido social.
Se isto parece cultura em vez de economia é porque a nossa autonomia cultural depende de nós próprios enfrentarmos os desafios concretos. Enfrentar desafios abstractos que depois não se verificam ajuda a mistificar. Para distinguir os desafios uns dos outros, é preciso cultura. Não apenas a cultura tradicional mas a cultura económica. Graças ao trabalho dos economistas, a cultura económica está mais assente na tradição. Isto não tem conotações ideológicas conservadoras. Apenas o bom-senso de que o poder económico dos Estados é muitas vezes utilizado para guerras e portanto deve ser limitado pela sociedade civil. O poder de decidir, quer de guerras no sentido militar, quer de guerras monetárias, como roubar às pessoas o seu poder de compra através da desvalorização cambial sempre foi limitado na história da civilização europeia, mormente portuguesa.
Basta lembrar as Cortes: para quebrar moeda o rei tinha de ouvir uma assembleia com representantes de todo o reino, embora não tivesse de seguir a opinião das mesmas Cortes. São estas limitações que explicam a criação da moeda única. Não há dúvida que o regresso destas limitações demorou um pouco em todos os países europeus excepto na Alemanha. Contudo nos anos oitenta lá foram um a um regressando à estabilidade dos preços. Ironicamente os países mais pobres tiveram mais tempo a ilusão de que poderiam eventualmente utilizar instrumentos de política económica como a desvalorização cambial para bem da população. Ora, pelo contrário, quanto mais pequeno e pobre o país, menos ganha em desvalorizar. As mudanças que se verificaram ocorreram mais devagar nos países mais pobres, mas a cultura da estabilidade económica está de tal modo adquirida nos mercados financeiros internacionais que se contesta a sua base científica.
Esta perda da autoridade do raciocínio económico é tanto mais grave quanto é certo que economistas de absoluto primeiro plano têm ocupado posições de decisão nos Estados Unidos e nas organizações internacionais. Só que não convém emendar quando é pior a emenda que o soneto. Se o inimigo é a atitude pública à volta dos economistas, é o cepticismo que se verifica à volta do poder da ciência económica para resolver problemas, a melhor maneira de lutar contra essa atitude de cepticismo é ser mais cautelosos com aquilo que a ciência económica nos permite dizer e com o que não permite dizer.
Basta um exemplo recente, que marcou o mundo financeiro. Se depois um Prémio Nobel ou dois perdem dinheiro na bolsa (como aconteceu com Robert Merton e Myron Scholes) e os analistas financeiros acham que eles têm menos prestígio por isso, pois paciência. O valor do seu trabalho analítico é nada fica afectado, como a autora atalha logo no início e retoma na secção dedicada à crise na Long Term Capital Management (a páginas 278).
A desmistificação mais necessária refere-se não aos economistas, mas aos políticos eleitos, pelo facto de não gostarem de reformas. Isto é geral nas democracias, e depende um pouco da maneira como interagem com os empresários e com a sociedade civil que tem sido uma maneira difícil em muitos países tem que se reconhecer, não só no nosso. A tendência para o político é ser aquilo que Paul Krugman chama um vendilhão da prosperidade (do titlo do seu célebre livro de 1994). Vem aqui, fala muito bem, muitos sorrisos, muito diálogo, muitos apertos de mão, mas o certo é que a última coisa que vai fazer é uma reforma que impopular.
Este argumento acerca dos políticos eleitos já se encontra numa peça sobre a Reforma da Função Pública feita nos anos 30 por Oliveira Salazar. Aos radicais que lhe perguntavam porque é que ele não foi mais longe nessa reforma, não mudou as letras, não fez mais reclassificações, responde: "Não, não, nada disso, olhe aqueles que vão ser prejudicados vêm para a rua fazer barulho, agitam as massas. Os outros ficam calados e nem por isso apoiam o governo…". E foi de facto essa a última reforma da função pública portuguesa. Desde então houve algumas tentativas mas não surtiram efeito. Aqui está, o medo de perder uma posição numa democracia é o que leva o governante a não ousar fazer uma reforma. E é racional. Até parece aplicar-se quando não há partidos, nem eleições livres.
De modo mais geral, como ninguém sabe muito bem o que é que se faz com os impostos, quando se diz que temos que ter sectores estratégicos, todos dizem que sim. Depois pergunta-se quem é que paga, é o Senhor? Não, é ali o vizinho. Ora bem, então está aí o ponto. Não sou eu é o vizinho! Quando há fundos para gastar, sabemos muito bem que os grupos melhor organizados vão gastá-los melhor do que os consumidores em geral. Tem a ver com a proximidade do controlo sobre a despesa por oposição à receita.
Um exemplo hipotético que diz respeito à reforma espacial duma sala de aulas, baseada em não sei que descoberta da tecnologia da informação. Estou a falar e há uma altura em que decido cortar a luz e o som para uma parte do auditório, digamos o grupo que está sentado à esquerda do professor, enquanto que o grupo da direita vê e ouve à mesma. Bem, admitindo que estão interessados na exposição, o grupo da direita fica melhor do que os da esquerda, que estão no escuro e não vêem a exposição. Vai haver aplausos da direita? O mais certo é haver silêncio e eventualmente um ou outro a dormitar, como já estava antes . Mas os que deixaram de ver, vão protestar. Portanto, quem beneficia de uma reforma cala-se, não vem para a rua dizer, "que extraordinário governo temos…". Mas quem é prejudicado, queixa-se. Tem direito a indignar-se, como dizia o outro.
Conclusão política: se não queres problemas, fala de reformas, mas não as faças. Mantém-se pois um bloqueio das reformas em todas as democracias mediáticas. Fechando a luz para a esquerda, temos um problema porque berram os excluídos mas os outros não aplaudem, antes ficam em silêncio. Mas agora suponhamos que o político reformista em potência vai a Bruxelas e conta esta história a outros políticos reformistas em potência que têm exactamente a mesma experiência negativa com o seu próprio eleitorado. Se calhar eles vão dizer, olhe que o que eu fiz foi isto e há outra maneira e faça dessa maneira; pode dar para o bem e pode dar para o mal. Agora há um outro nível no qual isso se discute e isso é bom. Há mais esperança nas reformas quando há pressão dos pares, neste caso dos outros governantes comunitários. Isto não é um federalismo exacerbado (onde deixaria de haver pares), mas sim a continuação e o aprofundamento da coordenação, quer a nível europeu, quer depois a nível global com os mesmos métodos, que vai permitir à Europa contribuir apesar de tudo para reformar a arquitectura financeira internacional, como tenho proposto.
Já se lamentou o cepticismo com que políticos eleitos acolhem reformas económicas. Em épocas de crises financeiras internacionais, ouve-se mais o que dizem os economistas porque paradoxalmente se pensa que eles têm menor capacidade de afectar as decisões. O economista não deve cair na tentação de aparecer como bombeiro das reformas ou das mudanças sociais. O papel do economista, com base na ciência que conhece, é realmente o de mostrar os efeitos das soluções alternativas. Por exemplo, se por acaso Portugal tivesse restringido os movimentos de capitais em vez de restaurar a convertibilidade plena de escudo em fins de 1992, cinco anos antes do prazo limite acordado com Bruxelas, que teria acontecido? E se por acaso Portugal dissesse que a banca é um sector estratégico tal como os seguros e mais este e mais aquele, não vão ser as gerações futuras a pagar? Vão. E saberíamos quantificar isso? Ou quando se consegue quantificar ou quando não se consegue quantificar? Aí há consensos contra economistas profissionais e isso pode ajudar cada um dos cidadãos a tomar posições. Nunca vai ser simples. Agora fechar as economias umas sobre as outras é certamente uma resposta perversa à globalização, porquanto a única resposta válida é a reforma nacional, regional ou memso global da governação.
Como economista interessado pela história da nossa cultura económica e dos mitos monetários a ela associados, tenho sugerido tornar a globalizalização empresarial um projecto mobilizador para os portugueses, na medida em que reflecte estratégias empresarias compatíveis com as pertenças dos cidadãos, servindo por isso para prosseguir o bem comum dos portugueses. Parece cultural, e é, mas (não me canso de o repetir) a cultura não é inimiga da economia, antes pelo contrário. Isso é particularmente verdade em matéria de globalização – pessoal e empresarial. Acontece que a nossa administração pública ainda se rege pela reforma que os radicais dos anos trinta achavam tímida! Por outras palavras, a governação pública (e o mesmo se poderia dizer da maioria das empresas portuguesas) não se adaptou ainda às necessidades da globalização, em parte porque o desenho institucional é também aí inadequado. Ora sem boa governação pública e privado, não pode haver interação positiva com a globalização. Esta linha de investigação, que tenho prosseguido no Centro de Desenvolvimento da OCDE desde 1999, está disponível em http://www.fe.unl.pt/~jbmacedo.
Haveria decerto outras maneiras de prefaciar, recorrendo a outras relações mais ou menos próximas. Poderia relembrar os meus tempos de aluno de Tjalling Koopmans no início dos anos setenta, de co-autor de James Tobin no fim da década e de vizinho de Arthur Lewis no início dos anos oitenta.
Poderia citar os artigos sobre o assunto que escrevi nos primeiros anos da revista Economia da Universidade Católica Portuguesa (incluíndo "Os Prémios Nobel em Economia" em Janeiro de 1977, no qual mencionava Tinbergen, Frisch, Samuelson, Kuznets, Arrow, Hicks, Leontief, Hayek, Myrdal, Koopmans, Kantorovich e Friedman, "Herbert Simon: O ‘Homo Interdisciplinaris’" em Outubro de 1978, "Prémio Nobel do Desenvolvimento ou Desenvolvimento do Prémio Nobel" em Outubro de 1979, no qual mencionava Schultz e Lewis, "Prémio Nobel: A Segunda Geração" em Outubro de 1980, dedicado a Klein, e "Tobin: Prémio Nobel" em Outubro 1982, com Manuel Barbosa e Rui Coutinho).
Valendo-me da internet (http://www.nobelprizes.com) poderia acrescentar os laureados de 2000, James Heckman de Chicago e Daniel McFadden de Berkeley, pioneiros na teoria e métodos de análise respectivamente da selecção de amostras e de dados discretos, levando para 46 o número total de premiados, entre os quais 29 vivos.
Poderia ainda relatar episódios de convívio profissional ou pessoal que me marcaram, como o doutoramento honoris causa de Paul Samuelson pela Universidade Nova de Lisboa, a longa conversa com Wassily Leontief nos trinta anos de casados dos Galbraith em Cambridge, o jantar com Theodore Schultz, Douglas North e Robert Lucas em casa dos Harberger em Chicago, o seminário alpino em que conheci James Buchanan, o feroz ataque ao euro de Franco Modigliani num seminário ibérico em Harvard, a 2a ABCDE em Paris onde revi Amartya Sen depois do prémio de 1998, a alegria dos sucessivos encontros com Robert Mundell, ultimamente com a sua jovem familia em Dubrovnik depois do prémio de 1999, os passeios com Kenneth Arrow no Vaticano a discutir os temas de ética recordados no início, etc.
Nenhum destes vários projectos alternativos levei a cabo. Podiam distrair a atenção do projecto subjacente a este livro. Projecto, que partilho, de salientar a dimensão humana dos economistas para chegar a dimensão social da economia. Se há outros modos de defender a cultura económica e sa sua comunicação social (os artigos de Paul Krugman no Slate – intitulados precisamente The Dismal Science), o que Marilu Hurt McCarty usa neste livro tem profundidade e extensão. Junta a investigação aturada da obra a tantos episódios de convívio pessoal e profissional que é como se deixasse falar os Nobel. Ouçamos pois.

Paris, 19 de Maio de 2001

 

 

http://nobelprizes.com/nobel/economics/

2005
The prize was awarded jointly to:

ROBERT J. AUMANN and THOMAS C. SCHELLING for having enhanced our understanding of conflict and cooperation through game-theory analysis.

Nobel de Economia vai para pesquisas com teoria dos jogos

09h46 — O israelense Robert Aumann e o norte-americano Thomas Schelling ganharam o Prêmio Nobel de Economia deste ano pelos trabalhos publicados sobre teoria dos jogos. Os dois economistas aplicaram as ferramentas da teoria dos jogos para resolver conflitos. De acordo com o comitê da Real Academia Sueca de Ciências, os trabalhos de Aumann e Schelling revelaram práticas de “políticas de segurança e desarmamento, formação de preços no mercado e também negociações econômicas e políticas”. O valor do prêmio é de cerca de US$ 1,3 milhão. site primeira leitura

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/econ…0051010007.html ECONOMIA
Nobel homenageia teoria dos jogos

Economistas dos Estados Unidos e Israel levam prêmio por trabalhos desenvolvidos sobre o tema

Um americano e um israelense levaram o Prêmio Nobel de economia este ano por uma teoria que remete aos tempos da Guerra Fria. O economista Thomas C. Schelling, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e o matemático Robert Aumann, da Universidade Hebraica de Jerusalém, trabalharam de forma independente, mas com o mesmo tema: a teoria dos jogos.
– O trabalho deles transformou as ciências sociais muito além dos limites da economia – justificou o comitê do Nobel ao anunciar os ganhadores. Os pesquisadores, continua o comitê, recebem o prêmio por ”melhorar nossa compreensão (das situações) de conflito e cooperação por meio da análise da teoria dos jogos”. Os dois dividirão prêmio de US$ 1,3 milhão.
A teoria dos jogos é um método matemático e lógico de análise de situações em que dois ou mais jogadores – sejam eles pessoas, países ou empresas – interagem entre si. O objetivo é criar uma estratégia em que se obtenha o melhor resultado, a partir da ação e reação dos demais jogadores.
A teoria ajuda os economistas, por exemplo, a entender o comportamento de empresas nos mercados em que atuam. Mas tanto o trabalho de Aumann como o de Schelling contribuíram para popularizar o uso da teoria dos jogos em outras áreas. Um dos livros mais influentes de Schelling, A Estratégia do Conflito, foi escrito nos final dos anos 50, período de emergência da Guerra Fria.
Por meio do seu trabalho, a teoria dos jogos passou a ser aplicada aos dois problemas que mais atormentavam o mundo no período em que seu trabalho foi publicado: a segurança global e a corrida armamentista. Ele pesquisou os fatores que aumentavam ou diminuíam o poder de negociação dos países envolvidos em um conflito e como surgiam situações em que a cooperação poderia aflorar.
Já Aumann usava os instrumentos da teoria para criar conceitos e hipóteses, elaborar fórmulas e, a partir delas, chegar a conclusões precisas. Interessado na interação em negociações, e não apenas em uma jogada, ele criou instrumentos de análise para entender como eles ocorrem. Aumann mostrou que um jogo entre dois negociadores com fortes conflitos de interesse pode resultar em convergência. Na economia, os instrumentos desenvolvidos pelo matemático israelense ajudam na análise de situações que envolvem cooperação de longo prazo. Na área de defesa da concorrência, por exemplo, os mecanismos são usados contra cartéis.

 

 

Folha de São Paulo, Dineiro, PREMIAÇÃO – 11-102005

Americano e israelense dividirão valor de US$ 1,3 mi por estudos sobre conflitos e cooperação durante negociações

Teoria dos jogos rende Nobel de Economia
MARCELO BILLI
DA REPORTAGEM LOCAL

Um norte-americano e um israelense receberão o Nobel de Economia neste ano. O economista Thomas C. Schelling, 84, da Universidade de Maryland, nos EUA, e o matemático Robert J. Aumann, 75, da Universidade Hebraica de Jerusalém, dividirão o prêmio de US$ 1,3 milhão.
Eles trabalharam de forma independente, mas ambos na mesma área: a teoria dos jogos. "O trabalho deles transformou as ciências sociais muito além dos limites da economia", justificou o comitê do Nobel ao anunciar os ganhadores, ontem. Os pesquisadores, continua o comitê, levaram o prêmio por "melhorar nossa compreensão [das situações] de conflito e cooperação por meio da análise da teoria dos jogos".
A teoria dos jogos é um método matemático para a análise de situações em que dois ou mais jogadores -sejam eles pessoas, sejam países ou sejam empresas- interagem entre si. Analisando as estratégias de cada um dos envolvidos, as interações e as condições em que cada agente "participa do jogo", ela permite chegar aos possíveis resultados de, por exemplo, uma situação de conflito.
A teoria ajuda os economistas a entender o comportamento de empresas e pessoas nos mercados em que atuam. Mas tanto o trabalho de Aumann como o de Schelling contribuíram para popularizar o uso da teoria dos jogos em outras áreas.
Um dos livros mais influentes de Schelling, "A Estratégia do Conflito", foi escrito nos final dos anos 50, período de emergência da Guerra Fria.
Por meio da pesquisa dele, a teoria dos jogos passou a ser aplicada aos dois problemas que mais atormentavam o mundo no período em que seu trabalho foi publicado: a segurança global e a corrida armamentista. Ele pesquisou os fatores que aumentavam ou diminuíam o poder de negociação dos jogadores envolvidos em um conflito e como surgiam situações em que a cooperação poderia aflorar, mostrando como pequenas concessões podem gerar ganhos no longo prazo.

Estratégias
Estratégias como "queimar as próprias pontes" tornavam-se racionais à luz da análise do economista. Ainda que um negociador piorasse suas opções, diminuindo suas alternativas de escolha durante um conflito, a estratégia poderia ser vantajosa. Ao mesmo tempo em que "queimava" suas opções, o negociador deixava mais claro ao oponente as escolhas que poderia fazer, tornando o jogo menos incerto, deixando claro para o outro jogador o que ele estaria disposto a fazer.
Com trabalho mais intuitivo e menos formal do que o de Aumann, Schelling costuma dizer que "considerável progresso pode ser alcançado simplesmente com o desenho de um diagrama que descreve as alternativas viáveis para o oponente e para o próprio país, seguido pela consideração sistemática dos resultados nos diferentes casos".
Já Aumann usava os instrumentos da análise matemática para criar conceitos e hipóteses, elaborar fórmulas e, a partir delas, chegar a conclusões precisas. Interessado na interação em negociações ou interações que ocorrem todos os dias, e não apenas em uma jogada, ele criou instrumentos de análises para entender como eles ocorrem em períodos longos.
Aumann mostrou que um jogo entre dois negociadores com fortes conflitos de interesse pode resultar em cooperação pacífica quando ele é repetido várias vezes, dia após dia, mês após mês. De forma intuitiva, é só pensar que, quando você sabe que amanhã terá que negociar com o adversário de hoje, e que ele levará para a mesa de negociações toda a informação de que dispõe, inclusive a estratégia agressiva adotada no dia anterior pelo oponente, a tendência é evitá-la.
No campo da economia, os instrumentos desenvolvidos pelo matemático israelense ajudam na análise de várias situações que envolvem cooperação no longo prazo. Na área de defesa da concorrência, por exemplo, são usados no estudo de empresas que podem estar armando conluios para aumentar artificialmente preços.

SAIBA MAIS

Pesquisa começa em meados do século 20
DA REPORTAGEM LOCAL

Qual a melhor estratégia a adotar se você desconfia de que seu vizinho discretamente "aumentou" o terreno de sua casa de veraneio à sua custa? Dois assaltantes, presos e interrogados separadamente, entregariam um ao outro mesmo que soubessem que teriam uma pena menor se ficassem calados? O que leva as pessoas, os países e as instituições a entrarem em conflito ou a decidirem cooperar entre si?
São todas perguntas, exceção feita à briga de vizinhos, que os cientistas sociais, com maior ou menor ênfase, têm tentado responder há algum tempo. Mesmo a disputa por um pedaço de quintal não pareceria menor para Thomas Hobbes, que falava do "estado de todos contra todos" lá pelo século 17.
A economia nasceu com a mão invisível de Adam Smith, que descrevia um mundo de concorrência perfeita, em que a interação entre agentes levava à melhor situação possível. Uma simplificação que irrita alguns críticos do livre mercado até os dias de hoje.
Os matemáticos John von Neumann e Oskar Morgenstern inventaram a teoria dos jogos em meados do século passado. Eles descreviam uma interação um pouco mais sofisticada que a do modelo de livre mercado. Outro matemático, John Nash, aluno de Von Neumann, deu um passo a mais e, em meados do século passado, administradores, economistas e especialistas em relações internacionais "descobriram" a teoria. Não por acaso, um dos ganhadores do Nobel deste ano, o israelense Robert Aumann, que visitou o Brasil em 2002, foi aluno de Nash, que acabou famoso mundialmente, menos pelo Nobel de 1994 do que pelo filme "Uma Mente Brilhante", no qual ele era interpretado por Russell Crowe.
Pesquisadores passaram a aplicar a teoria dos jogos às mais diversas áreas. A novidade era que ela permitia trabalhar com situações que não previam apenas o comportamento competitivo do livre mercado, mas comportamentos mistos, em que conviviam o conflito e a cooperação. "Foi uma revolução nos EUA", diz Aloísio Pessoa de Araújo, vice-diretor da Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV.
Hoje, lembra o diretor da FGV, a teoria é parte obrigatória dos cursos de administração, economia e relações internacionais nos EUA. No Brasil, ainda está restrita aos departamentos de economia e a poucos outros centros de estudo.
Sobre os assaltantes lá de cima, a teoria prevê que, ante o dilema de delatar o parceiro para ter pena menor, eles o farão. As opções deles são as seguintes: se só um delatar, fica preso dois anos, e o denunciado, cinco. Se ambos delatarem, os dois ficam presos três anos. Se nenhum falar nada, ambos pegam um ano de xadrez. Incomunicáveis, ante a falta de informação a respeito do que o parceiro fará, ambos tendem a falar. E a perder três anos atrás das grades. (MB)

Notícias Terça-Feira, 11 de outubro de 2005

JC e-mail 2873, de 11 de Outubro de 2005.
Teoria dos jogos, pela segunda vez, dá Prêmio Nobel a economistas

Thomas Schelling e Robert Aumann dividem o prêmio de US$ 1,3 milhão

Fernando Dantas escreve para “O Estado de SP”:
A teoria dos jogos, a sofisticada abordagem econômica das interações humanas que envolvem simultaneamente a cooperação e o conflito, acaba de render mais um prêmio Nobel, o de 2005, para os economistas americanos Thomas Schelling e Robert Aumann (que também é cidadão israelense e mora em Jerusalém).
Em 1994, pelo trabalho no mesmo tema, ganharam o Nobel os economistas John Nash, John Harsanyi e Reinhard Selten. Nash ficou célebre pelo filme hollywoodiano "Uma mente brilhante", sobre sua vida e seus problemas psiquiátricos.
Os dois vencedores de 2005 vão dividir o prêmio equivalente a US$ 1,3 milhão. Schelling, que tem 84 anos, e é professor na Universidade de Maryland, tem um trabalho mais voltado para a parte prática, de aplicação da teoria dos jogos, e especializou-se na análise da estratégia de conflitos internacionais, como a guerra fria em torno da possibilidade de uma guerra nuclear.
Ele mostrou, por exemplo, que a capacidade de destruir o adversário, naquele contexto, é mais valiosa do que a de se defender, o que é coerente com o "equilíbrio de terror" típico da guerra fria.
A comissão do Nobel considerou que a compreensão dessa lógica pelas partes envolvidas contribuiu para evitar uma guerra nuclear.
Aumann, de 75 anos, é o mais teórico dos dois, com um trabalho altamente matemático e "quase filosófico em alguns aspectos", segundo Aloísio Araújo, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio.
Uma situação que envolve a teoria dos jogos, por exemplo, é aquela em que duas empresas duopolistas fazem uma guerra de preços. Se ambas não iniciassem a guerra, manteriam metade do mercado com um preço alto.
Se uma só baixa os preços e a outra não reage, toma o mercado da concorrente. Mas se as duas guerreiam até o fim, terminarão com a metade do mercado cada uma, e um preço mais baixo.
No fundo, a melhor decisão por parte de cada uma depende da suposição sobre qual é a melhor decisão para a outra.
Araújo explica que esse tipo de análise, no qual uma das partes leva em conta as ações das outras que com ela estão interagindo, tem um componente estratégico, que não está presente na economia clássica, na qual prevalece a idéia de um mercado competitivo que cada produtor individual não tem capacidade de influenciar.
Nessa situação, não faz sentido tentar antecipar as decisões dos outros agentes.
Hoje, a análise estratégica baseada na teoria dos jogos é ensinada em Economia, nas escolas de Administração e até para especialistas em relações internacionais. "Aumann é um dos meus grandes ídolos", diz Araújo.
Ele explica que uma de suas contribuições foi a de mostrar matematicamente que, em situações de conflito e cooperação, a prolongada repetição do jogo faz com que as partes tendam a cooperar.
(O Estado de SP, 11/10)

TEORIA DOS JOGOS

O estudo das interações estratégicas – de todos os tipos – é a essência da teoria do jogo.
1. Em uma relação que envolve duas partes:
– A parte n tem duas opções
– A parte p tem três opções

2. Então, há 2(de n) x 3(de p) = 6 possíveis resultados para a interação. Cada uma tomará decisões de forma diferente e levará em conta a atitude da outra parte para tomar decisões.

3. No Entanto, muitas relações envolvem mais do que um passo e não raro estão associadas a informações assimétricas, quando alguma das partes sabe mais do que as outras. em um jogo de pôquer, por exemplo, cada jogador tem apenas informações parciais sobre o outro.

Fonte: Fundação Nobel, in. O Estado de São Paulo, 11-10-2005

 

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