Economy and Society II de José Porfiro – Specific

14 de março de 2007

PALAVRAS, MÍDIA x CHOMSKY

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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 4, número 44, agosto 2003
SOCIEDADE

Palavras que poluem o pensamento
No V Congresso Internacional de História dos Conceitos, acadêmicos alertaram para as manipulações dissimuladas pela linguagem, como na obra de George Orwell. A palavra da moda, “resiliência”, é exemplo dessa ideologia camuflada por uma “novilíngua”

Serge Tisseron*

Em julho deste ano, realizou-se, em Vitória (Espanha), o V Congresso Internacional de História dos Conceitos. Professores universitários, provenientes do mundo inteiro, alertaram contra as manipulações dissimuladas pela linguagem e lembraram: “Todos os poderes criam palavras para nos obrigar a pensar como eles”. George Orwell já nos havia alertado contra o totalitarismo de toda “novilíngua”. Como, então, não nos perguntarmos sobre a ideologia camuflada na palavra da moda, “resiliência”?
A idéia de algo que resiste às pressões sem se deformar demasiadamente, ou podendo encontrar sua forma, um pouco como uma mola, existe nos Estados Unidos há muito tempo. Aliás, Paul Claudel escreve em “A elasticidade norte-americana”: “Há no temperamento norte-americano uma qualidade que, lá, é traduzida pela palavra resiliency, para a qual, em francês, não encontro uma correspondente exata, pois une as idéias de elasticidade, de dinamismo, de recurso e de bom humor1”.
No campo da psicologia, Fritz Redl introduziu o conceito de “ego resiliência” em 1969; em seguida, foi descrito o fenômeno denominado “invulnerable children” (crianças invulneráveis). Finalmente, em meados da década de 1980, foram publicadas várias obras consagradas à “resiliência”, que analisam o destino bem-sucedido de indivíduos a quem, no entanto, a infância catastrófica parecia prometer um futuro sombrio2.

Uma jóia que nasce da impureza
Entretanto, nos Estados Unidos, nada é comparável à extraordinária admiração que a França tem hoje por esse conceito. Por quê? Inicialmente, graças a um ardil genial… A resiliência, que, na América do Norte, é uma virtude social associada ao êxito, na França, tornou-se uma forma de riqueza interior… Não se trata mais, como na versão norte-americana, de orientar sua vida para obter sucesso, mas de “buscar a maravilha3” ou também de “cultivar a arte de recomeçar4”. Todavia, sob esse adereço, o produto continua o mesmo.
A operação “roupa nova” começa com a metáfora da pérola na ostra: esta reage à introdução de uma impureza em seu organismo – por exemplo, um grão de areia – por um trabalho que leva à fabricação dessa jóia maravilhosa como é a pérola. Alimentada por uma metáfora tão preciosa, a palavra torna-se comercial: todos querem ter sua pérola! Foi assim que um colega, que lembrava a morte de seu pai e a “forma brilhante” de sua mãe, ouviu uma senhora responder-lhe: “Sim, é verdade, nós, as mulheres, somos mais ‘resilientes’”. A resiliência, assimilada à adaptação social, pareceria coisa do diabo, mas comparada a uma jóia longamente “produzida por secreção” e polida pelo organismo, suscita em todo mundo o desejo de conquistá-la!

Pouco importa a pressão social
Outro exemplo: um panfleto, distribuído na porta da universidade, propõe uma sociedade mais justa e igualitária. E termina pela seguinte frase: “Lutemos por uma sociedade nova, em que todo mundo tenha sua chance (graças à resiliência).”
O conceito, que nasceu da psicologia social norte-americana, não tem a menor dificuldade de retornar a ela: o objetivo não é mais levar a todos a água corrente, habitações salubres, a democracia e um trabalho digno, mas… a “resiliência”! Em última instância, a pressão social não importa: aqueles que são “resilientes” recomeçarão, os outros poderão sempre se relacionar com o psicólogo, com o psiquiatra, ou com um “tutor” possivelmente benévolo.
Talvez o leitor julgue que esses são exemplos caricaturais e abusivos, que não afetam em nada o valor do conceito. Vamos tentar mostrar o contrário.

Uma palavra bela, mas não sólida
A palavra “resiliência” é, antes de mais nada, ambígua, pois mascara o caráter sempre extremamente frágil das defesas desenvolvidas para enfrentar os traumas. Em sua evolução, a resistência psíquica é parecida com a resistência física diante de um câncer conhecido. O paciente é ajudado, tratado da melhor forma possível, mas ninguém controla suas possíveis recaídas. E somente quando o doente morre é possível dizer, de acordo com o caso, se ele resistiu bem ou não!
No campo da resistência psíquica aos traumas, tudo sempre pode oscilar de maneira imprevisível, especialmente sob o efeito de uma experiência existencial, como a morte de uma pessoa próxima, o distanciamento de um ser querido ou mesmo uma simples mudança de residência. A “resiliência” talvez seja bela como uma pérola, mas jamais é sólida. Ora, o problema reside no fato de que a tendência é sempre considerá-la uma conquista ou algo a conquistar.

Um mecanismo complexo
A segunda crítica que se pode fazer ao uso dessa palavra é que ela mascara a grande variedade de mecanismos de defesa destinados a lutar contra as conseqüências de um trauma5. Em um extremo, o trauma pode ser evocado de maneira repetitiva por gestos simbólicos, imagens ou palavras, enquanto no outro extremo, pode ser fechado no fundo de si em uma espécie de “armário psíquico”, em que se tenta esquecê-lo. E, uma vez que se leva em conta a vida social, tudo se complica ainda mais. Alguns desses mecanismos contribuem, de fato, para reforçar a capacidade de confirmar suas opções pessoais, enquanto outros levam a uma adesão incondicional a seu grupo.
Enfim, a terceira razão pela qual esse conceito é discutível é que ele se aplica a processos de organização de traumas que beneficiam o indivíduo que os pratica assim como seus próximos e, ao mesmo tempo, a outros pelos quais a ex-vítima de um trauma “recomeça” à custa dos que se encontram à sua volta.

O mito da redenção
Essa confusão não se dá por acaso. A “resiliência” é inseparável da concepção de um “eu autônomo” desenvolvido pela psicologia norte-americana, e que é apenas uma instância que favorece o êxito dos “mais aptos”. A “resiliência” é, desse ponto de vista, um conceito que evoca mais a “luta pela vida”, tão querida a Darwin, do que a distinção moral. É exatamente aí que a confusão constitui uma ameaça.
Na verdade, por trás dessa palavra, não está longe o mito da Redenção, sendo o “resiliente” considerado alguém que ultrapassou a parte sombria de seus sofrimentos para deles guardar apenas a parte gloriosa e luminosa. Cada vez mais, ouvimos pessoas falarem de sua “resiliência” como se fosse uma qualidade a ser contabilizada para crédito delas, e até mesmo como algo que poderia reforçar sua auto-estima. Mas, às vezes, ao escutá-las, passamos a ter pena de seu círculo de amizades…

O êxito como virtude
Conheci um indivíduo que tinha crescido em uma família em que existia um segredo grave. No início, ele sofreu muito com isso, mas finalmente conseguiu uma promoção muito rápida. Dizia que tinha certeza de que era capaz de dissimular, com muita habilidade, nos sindicatos, o funcionamento real de sua empresa e, por isso, era capaz de manipular com eficácia seus “empregados” – que, simbolicamente, eram seus filhos. Com a descoberta da palavra resiliência, esse homem conseguiu descrever seu percurso de uma maneira, para ele, gratificante. Tendo escapado do campo dos humilhados e dos perdedores, onde não tinha conseguido se virar, ele não se deixara “esmagar” por seus traumas de infância, tinha secretado sua “pérola”. Pode ser. Mas, nesse caso, estamos diante de valores que não têm nada a ver com a psicologia, mas tudo com a adaptação social que, nos Estados Unidos, faz do êxito o equivalente à virtude.
Enfim, não só o “resiliente” pode tornar-se uma fonte de traumas graves para os outros, inclusive para sua própria família, mas, às vezes, pode até desenvolver uma grande energia destruidora. Não nos esqueçamos de que os kamicases do dia 11 de setembro de 2001 foram todos descritos como bons maridos, bons pais e possivelmente bons educadores, apesar dos percursos pessoais, em sua maioria, difíceis. Em resumo, eram exemplares, até seu ato suicida e assassino, de uma sólida resiliência.

A ameaça latente
Embora os autores dos atentados suicidas tenham saído de seu passado doloroso, isso teve um preço, o de se tornarem uma espécie de “monstros adormecidos”, adaptados e generosos, até que circunstâncias excepcionais os desvendaram, como o que aconteceu na Alemanha, entre 1933 e 1945, ou na Iugoslávia, mais recentemente.
Quando se clinica, não é raro encontrar pacientes cuja organização psíquica corresponda a esse esquema. Do ponto de vista de sua existência familiar e social, eles parecem ter superado perfeitamente seus graves traumas de infância. São “polidos, respeitosos, sérios e honestos”. E, no entanto, seu ódio em relação aos pais ou aos educadores que os maltrataram continua intacto e simplesmente pede para ser deslocado para um inimigo que seu grupo designe, permitindo ao mesmo tempo colocar definitivamente fora de questão seus pais e educadores.

Prudência dos especialistas
Na prática, do mesmo modo que não se pode saber se uma cura aparente é estável ou não, não se pode determinar a que corresponde um aparente altruísmo de uma pessoa que viveu um trauma. Na verdade, pode resultar em sua superação, mas também pode resultar no adormecimento de um ódio inextinguível que, mais tarde, pode levá-la a realizar um ato de violência inexplicável, como meio de dar vida a essa parte de si à qual jamais quis renunciar.
É por isso que os diferentes psicanalistas que se interessam pela resistência aos traumas6 renunciaram à idéia de classificar, sob o mesmo vocábulo, fenômenos que resultem tanto do ambiente quanto das possibilidades psíquicas próprias de cada um, e que podem contribuir para personalidades tão diferentes como Stalin ou Madre Teresa.
Sua prudência parece fundamentada, sobretudo se julgados pelo uso corrente que se faz atualmente da palavra “resiliência”. Esse uso parece corresponder ao dos mecanismos que, ao mesmo tempo, é o mais problemático e o mais falacioso. Ou seja: uma clivagem sustentada por um vínculo social capaz de adormecer, por um tempo indeterminado, o monstro escondido nos vazios de personalidades assassinas…
(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

* Psicanalista e psiquiatra, autor de L’Intimité surexposée, ed. Ramsay, Paris, 2001 e de Les Bienfaits des images, ed. Odile Jacob, Paris, 2003.

1 – Ler Paul Claudel, Œuvres en prose, La Pléiade, Gallimard, Paris, 1965, p.1205.
2 – Principalmente Julius Segal, Winning Life’s toughest Battles – Roots of human Resilience, Mac Grow Hill, New York, 1986; e James E. Anthony and Bertram J. Cohler., The invulnerable child, Guilford Press, New York, 1987.
3 – De acordo com a expressão de Boris Cyrulnik em Un merveilleux malheur, Odile Jacob, Paris, 1999.
4 – Subtítulo da obra de Rosette Poletti et Barbara Dobbs, La Résilience, Ed. Jouvence, St-Julien-en-Genevois, 2001.
5 – Citemos as formas de clivagem, complicadas ou não, de projeção, a censura e as diversas modalidades utilizadas para simbolizar o acontecimento traumático, seja com comportamentos, imagens ou palavras.
6 – Seja Sandor Ferenczi, com a dinâmica da clivagem, Anna Freud com o estudo dos mecanismos de defesa ou, ainda, Winnicott com o medo da ruína como sinal de uma catástrofe psíquica que já aconteceu no passado do indivíduo.

 

 

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Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 4, número 36, janeiro 2003
CULTURA

Quem são, afinal, os reacionários?
Em mesas-redondas e palestras, intelectuais que se reivindicam “modernos” “debatem” questões “da sociedade”, como identidade, nação e autoridade. No fundo, porém, são os velhos “reformadores liberais” de sempre, e o “debate” é um monólogo

Serge Halimi**

Eram duas correntes de intelectuais que se defrontavam. De um lado, aqueles que, sob o discurso da “reforma”, da “abertura”, da ruptura com os “tabus”, saudavam o movimento do mundo – e os avanços da esquerda, quando das eleições. Com o apoio da maioria dos meios de comunicação, estavam sempre dispostos a se mobilizar em nome de um “progresso” que incentivava as estruturas econômicas que seu pensamento único popularizara. Na outra corrente estavam aqueles a quem essa “modernidade” preocupava, ou repugnava, pois viam nela uma forma de regressão na organização da sociedade e na solidariedade que a costura. Eram considerados “reacionários” pelos primeiros. Estávamos em 19951.
Estamos agora em 2002. Durante esse meio tempo, as linhas de clivagem foram abaladas. Isso porque, no atual “debate”, os “reformadores” neoliberais de 1995 são os únicos a ocupar a cena. Eles se dividem, mas sobre questões “da sociedade”, abertos contra fechados, “modernos” contra “reacionários”. Seria esta uma boa notícia? Não necessariamente. A natureza espetacular desse confronto salienta, ao contrário, que os atuais protagonistas sentem-se suficientemente fortes para circunscrever a batalha de idéias a suas quizilas familiares.

Um debate que exclui o povo
Essa sua avaliação – ou presunção – baseia-se numa série de fatores. A começar pela morte de Pierre Bourdieu, há um ano, e a aparente astenia em que mergulharam alguns de seus aliados intelectuais e acadêmicos que, “optando pelas virtuosas facilidades do encerramento em suas torres de marfim”, pareceram mais propensos a se deixar absorver por conferências comemorativas do que pela obrigação de “abrir caminho aos conhecimentos para fora da cidade dos sábios2”. Alguns meses após seu falecimento, um combate bastante virtuoso contra Jean-Marie Le Pen permitiria à burguesia bem-pensante atribuir mais uma vez às presumivelmente culpadas camadas populares, conservadoras e “populistas”, o espetacular avanço eleitoral da Frente Nacional3. Finalmente, a volta ao poder da direita oficial incentivou a imantação da vida pública e intelectual pelo tema obsessivo da “insegurança” física – um tropismo que raramente propicia avanços progressistas.
Se o contexto mudou (indiscutivelmente para pior), também mudaram os temas do debate. Em 1995, o que opunha os “reformistas” partidários do Plano Juppé e a “esquerda da esquerda” era a questão social, a da igualdade. No debate intelectual de 2002, que desenvolve temas – às vezes de forma verborrágica, etérea e confusa – como a “identidade”, a “nação”, a “mestiçagem”, a “autoridade” etc., sindicalistas, assim como o movimento popular, estão ausentes. O que permite aos meios de comunicação, mas também aos pensadores que essa mídia idolatra, porem em cena, tranqüilamente, a quizila entre essas duas camarilhas parisienses, sacrificando, em nome dos detalhes dessa rixa de grupelhos, hectares de florestas e toneladas de pasta de papel. Alguns dos atuais protagonistas criticavam com veemência, através das greves de 1995, uma “sociedade fechada, voltada para a defesa de amenidades”. Foi justamente em defesa da “sociedade aberta e pluralista”, desejada pela “esquerda igualitária e pela direita liberal”, que Daniel Lindenberg – signatário, na época, de um abaixo-assinado em defesa do Plano Juppé – escreveu seu livreto4. A promoção que dele fizeram Le Monde, Libération e Le Nouvel Observateur chegou às raias da saturação, enquanto Le Figaro, Marianne e L’Express acumulavam críticas indignadas5.

Idéias proibidas de discutir
Foram alguns dos tenores da revista Esprit que atiraram primeiro. Os da revista Le Débat responderam ao fogo. Teórico da “guinada para o centro” da central sindical CFDT, Pierre Rosanvallon metralhou, com Daniel Lindenberg na linha de tiro, seus ex-aliados da Fundação Saint-Simon – Pierre Nora e Marcel Gauchet6. A briga pode parecer confusa. E não deixa de expressar ambições, num momento de desordem ideológica. Isso porque a denúncia da guinada à direita de certos intelectuais (os “novos reacionários”) parece ter por objetivo permitir aos social-liberais, varridos do mapa nas últimas eleições, reivindicar um lugar – o único lugar – na esquerda, ao enfocar a discórdia intelectual sobre questões “da sociedade”.
Listando uma série de citações bizarras – umas ao lado das outras, para desqualificá-las por meio de sucessivas insinuações – o livreto Rappel à l’ordre foi apadrinhado, e promovido em Paris, por Pierre Rosanvallon, professor titular, havia um ano, da cadeira de História Contemporânea no Collège de France… O objetivo do livro não dá margem a dúvidas. Defensor do “projeto democrático”, Daniel Lindenberg compôs o breviário das idéias que, segundo ele, deveriam deixar de ser discutidas. Sua lista de “totens” e “intocáveis” é longa: “Maio de 68”, “a indústria cultural”, “direitos humanos”, “pluralidade da informação”, “democracia parlamentar”, “globalização”, “sociedade ‘mestiçada’”, “turismo de massa”, “a segunda esquerda”, “economia de mercado”…

Questão de “moinhos de vento”
Longe de se limitar a proibir a crítica dos ideais acima citados, o autor também queria tornar ilícita sua aplicação desvantajosa ou sua manipulação interesseira. Isso porque, afinal, que “maio de 68” deveria ser defendido? A “cultura massificada” seria a cultura das massas ou aquela vendida por um comerciante “convencido de que baixar o nível intelectual é o caminho mais curto para aumentar os lucros7”? A “pluralidade da informação” continua garantida pela pluralidade dos títulos quando estes passam a ser controlados pelos mesmos grupos do mercado editorial? Seria a “economia de mercado” consubstancial ao “projeto democrático”? No entanto, são muitas as perguntas, quase elementares, que foram proscritas, pois, como nos explicam, qualquer “ambigüidade” – ou seja, no fundo, qualquer questionamento – “nos leva de volta à década de 30”. É bom não esquecer que este “rappel à l’ordre” (“convocação à ordem”) tem por objetivo despertar “um espaço público intelectual que não anda muito bem”…
Trata-se, também, de “caráter”. Adepto de um “esfriamento geral das paixões políticas”, Daniel Lindenberg condena, como François Furet já o fizera antes, a “busca de emoções fortes e a simpatia generalizada pela ruptura com a ordem das coisas”. Um tal ecumenismo lembra as vulgatas sobre o “fim das ideologias” e a “República do centro” que precederam, respectivamente, o movimento social do outono de 1995 e as passeatas contra a globalização. Logicamente, Daniel Lindenberg nega a existência da ortodoxia da qual é o agente: “Quem anunciava o reino do pensamento único batia-se contra moinhos de vento.” Aparentemente, os moinhos continuam rodando.

“Não tenhamos medo…”
Mas estamos em 1994. São poucas as chances de que a operação Rosanvallon seja bem-sucedida, na medida em que as categorias intelectuais que esboça são obsoletas ou desprovidas de base social. Na França, a “direita liberal” de que trata mostra-se cada vez mais autoritária. A “esquerda igualitária”, por seu lado, acaba de perder o poder após ter permitido que se aprofundassem as desigualdades. Ainda que reaquecidas por um professor do Collège de France, as noções de “progressista” e de “reacionário” dificilmente poderiam ser reduzidas a uma coisa tão grosseira quanto o postulado de Daniel Lindenberg: “Para o progressista, as coisas vão cada vez melhor. Para o reacionário, tudo vai de mal a pior8.”
Nos últimos anos, “tudo” vai tão “cada vez melhor”, que boa parte dos “progressistas” se tornaram “reacionários” 9. Piedoso para com seus amigos, Daniel Lindenberg não dispara, em seu livro, contra Olivier Mongin, Mona Ozouf, Paul Thibaud ou Jacques Julliard, todos próximos às suas posições, nem contra Blandine Kriegel, ex-diretora da coleção que ele editava e que recentemente se converteu ao chiraquismo. Todos eles, no entanto, assinaram em 1998 (com Régis Debray e Max Gallo) um texto significativo, “Républicains, n’ayons plus peur” (“Republicanos, não tenhamos mais medo”): “Brigamos muito entre nós. […] Parece-nos que chegou a hora de enfrentarmos juntos uma polêmica que atualmente é mais urgente.” E, sem rodeios ou ambigüidades, os autores denunciavam “a aberração que surge, na periferia de nossas cidades, de zonas de povoamento étnico”, a “recusa de punir”. E comemoravam, “juntos”, a “sucessão de respeitos ancestrais de ressonância quase bucólica”, a “chamada doutrina da ‘vidraça quebrada’”, a “tolerância zero”, a repressão de menores, “reduzindo a idade de responsabilidade penal10”.

A crítica da esquerda
Daqui a vinte anos, talvez um historiador das idéias venha a notar que o debate que agitou a intelectualidade francesa em 2002 sobre os “novos reacionários” não abordou a ameaça de guerra contra o Iraque, nem a concentração dos meios de comunicação, nem o questionamento do direito à aposentadoria pelos patrões e pelo governo. A ironia poderia ser má conselheira, pois, quando são mal colocados, alguns problemas podem gerar uma confusão séria – e onerosa.
É o caso da questão progressista. No livro Impasse Adam Smith, Jean-Claude Michéa lembra, citando Marx, que o liberalismo econômico não é conservador, que o “progresso” é o seu motor, que ele revoluciona permanentemente o mundo e a sociedade11. E sugere que o socialismo compartilhou de tal forma esse entusiasmo, que ambos os sistemas comungaram do culto às elites modernizadoras e do desprezo por um povo que, humilhado, se arrasta diante de cada benfeitoria anunciada. Daí que, “renunciando por toda parte ao compromisso histórico que a unia às classes populares, a esquerda acabou se submetendo à sua própria verdade”. Ironicamente, são autores como Lindenberg e Rosanvallon que representam a esquerda, enquanto Michéa, defensor de um socialismo anti-produtivista baseado nas “virtudes cotidianas das pessoas comuns”, se vê tachado pela encarnação daquilo que combate: o nomadismo de burguês com o álibi de sua compaixão pelos “excluídos”.

A “esquerda reacionária”
Mas configura-se uma situação confusa. A existência, bastante concreta, de liberais-libertários não significa que eventuais reformas “da sociedade” progressistas e necessárias (direito ao aborto, igualdade para homossexuais, abolição da pena dupla) sejam, necessariamente, atribuídas ao liberalismo econômico e às elites globalizadas que o dirigem. Ora, ao considerar “delirante a idéia de que o espírito do capitalismo seja conservador, autoritário e patriarcal”, Jean-Claude Michéa associa, de forma demasiado rápida, a “economia da concorrência” a questões como “a união de homossexuais, a delinqüência, festivais musicais” etc. E, no entanto, o capitalismo que navega de vento em popa nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e na França é repressivo e paternalista – e não, libertário. Em meio a essa desordem liberal e à ordem social, como nos tempos da revolução industrial vitoriana, nunca os patrões gozaram de tanta liberdade e, simultaneamente, nunca as prisões estiveram tão cheias – quase sempre, de pobres.
Lutar simultaneamente contra esses dois campos implica, portanto, recusar as representações feitas pela mídia, que os contrapõem sob a forma de caricaturas invertidas: burgueses libertários contra o povo reacionário. Afinal, o direito ao aborto beneficiou principalmente as mulheres das camadas populares (as outras já o faziam em clínicas particulares, no exterior), os homossexuais já não são apenas arquitetos, mas também operários da construção ou caixas de supermercado, e os banqueiros são um tanto raros no movimento dos “sem-documentos”. E, longe de se resumir a um tumulto de jovens pequeno-burgueses hedonistas, maio de 68 continuará o “Maio do proletariado”, ou seja, o movimento operário mais importante da história da França.
Hoje, os reacionários triunfam. Sem dúvida – pelo menos em parte – graças à sua capacidade de manter a esquerda afastada de lutas que já a levaram a muitas vitórias.
(Trad.: Jô Amado)

* Editor-assistente de Le Monde diplomatique.

1 – Ler, de Julien Duval et al., Le décembre des intelectuels français, ed. Raisons d’agir, Paris, 1998.
2 – Retomando os termos do próprio Pierre Bourdieu em Contre-feux 2, ed. Raisons d’agir, Paris, 2000. Ler também, de Bourdieu, “Les chercheurs et le mouvement social”, in Interventions 1961-2001, ed. Agone, Marselha, 2002.
3 – Em relação às raízes históricas de um discurso que justifica o abandono das camadas populares – imputando-lhes toda espécie de patologias políticas, ler “Le populisme, voilà l’ennemi!”, Le Monde diplomatique, abril de 1996. Ler também, de Christopher Lasch, Le seul et vrai paradis, ed. Climats, 2002.
4 – Ler, de Daniel Lindenberg, Rappel à l’ordre: Enquête sur les nouveaux réactionnaires, ed. Seuil, Paris, 2002.
5 – A mais raivosa delas foi, sem dúvida, o “Manifeste pour une pensée libre”, assinado por Alain Finkielkraut, Marcel Gauchet, Pierre Manent, Philippe Muray, Pierre-André Taguieff, Shmuel Trigano e Paul Yonnet, in L’Express, 28 de novembro de 2002.
6 – Membro do conselho editorial da revista Esprit, Daniel Lindenberg critica acidamente – em seu ensaio publicado pela editora Seuil, numa coleção dirigida por Pierre Ronsavallon – Marcel Gauchet, que dirige a revista Le Débat com Pierre Nora. Nora, Rosanvallon, Alain Minc e François Furet foram os arquitetos da Fundação Saint-Simon, auto-dissolvida em 1999. A respeito da Fundação Saint-Simon, ler, de Vincent Laurent, “Les architectes du social-libéralisme”, Le Monde diplomatique, setembro de 1998.
7 – Ler, de André Schiffrin, L’édition sans éditeurs, ed. La Frabrique, 1999, p. 49.
8 – Entrevista de Daniel Lindenberg, Libération, 30 de novembro de 2002. Na mesma ocasião, o autor avalia que “a República” e os “serviços públicos” são conceitos “muito regressivos”.
9 – Cf. Maurice Maschino, “Les nouveaux réactionnaires”, Le Monde diplomatique, outubro de 2002.
10 – Le Monde, 4 de setembro de 1998.
11 – Ler, de Jean-Claude Michéa, Impasse Adam Smith, ed. Climats, 2002.

 

 

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustra…t90u54422.shtml

18/10/2005 – 19h08
Chomsky é declarado o maior intelectual do mundo
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da France Presse, em Londres

O lingüista americano e crítico da política externa americana Noam Chomsky foi declarado o maior intelectual público do mundo, segundo uma consulta publicada nesta terça-feira por uma nova revista britânica.
Mais conhecido por suas críticas contundentes à Guerra do Vietnã e à política externa americana nos últimos 40 anos, Chomsky, de 76 anos, derrotou o romancista e acadêmico italiano Umberto Eco, o segundo colocado, e o professor da Universidade de Oxford Richard Dawkins, que ficou em terceiro.
Professor emérito de lingüística no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Chomsky primeiro ficou conhecido por sua teoria sobre gramática desenvolvida no mesmo MIT nos anos 1950, segundo a qual a habilidade de formar a língua estruturada é inata da mente humana.
Posteriormente, tornou-se ativista político e publicou sua primeira coleção de escritos políticos em 1969, escreveu cerca de 40 livros.
Dos 20.000 votantes da pesquisa Prospect/Foreign Policy –a maioria dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha–, publicada nesta semana da revista Prospect magazine, 4.800 votaram em Chomsky e 2.500 em Umberto Eco.
Vaclav Havel, o dramaturgo e ex-presidente tcheco que liderou a "Revolução de Veludo" de 1989 na Tchecoslováquia, que derrubou o comunismo, ficou em quarto.
Ao saber do prêmio, Chomsky não se disse impressionado e declarou ao jornal britânico The Guardian que as consultas eram algo ao qual ele não presta muita atenção, antes de brincar, afirmando que "isto provavelmente é obra de alguns amigos meus".

Leia o que já foi publicado sobre Chomsky

 

 

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/pro…ult2678u33.jhtm
Prospect – 01/11/2005
Pesquisa escolhe os maiores intelectuais de hoje
A lista dos 100 intelectuais os mais notórios do planeta, elaborada pelos leitores da Prospect e do portal Foreign Policy, sugere que a era dos grandes pensadores contestadores está encerrada, mas a vitória marcante de Noam Chomsky mostra que muitos cultivam certa nostalgia daqueles tempos

David Herman

As duas coisas mais surpreendentes em relação a esta pesquisa –cujo resultado está disponível no endereço — são o número de pessoas que dela participaram e a idade dos vencedores. Mais de 20 mil elegeram os seus cinco intelectuais prediletos a partir da nossa lista de 100 nomes, e elas acabaram reforçando as tendências da lista original de sugestões, apresentada pelos organizadores.
O único brasileiro da lista, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ocupa a 43ª posição. Sociólogo e integrante do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o tucano é autor de vasta obra acerca dos fundamentos econômicos do subdesenvolvimento, além de ter sido professor do curso de Ciências Sociais da USP.
Mais da metade dos nomes incluídos entre os 30 mais importantes são de personalidades que vivem na América do Norte. A Europa, por contraste, apresenta surpreendentemente poucos representantes –há um punhado de nomes bastante conhecidos entre os 20 primeiros (Eco, Havel, Habermas), mas, é preciso descer até as profundezas da classificação para encontrar outros, tais como Kristeva (48) e Negri (50). A ausência a mais estupenda é a da França –com um nome apenas entre os 40 mais votados, menos do que o Irã ou o Peru.
Não há uma mulher sequer entre os dez primeiros, e apenas três entre os 20 mais importantes. Os grandes nomes da esquerda tiveram um bom desempenho (Chomsky, Habermas, Hobsbawm), mas o seu número é bastante reduzido. Tanto os cientistas, os críticos literários, os filósofos como os psicólogos obtiveram um péssimo resultado.
Além disso, os eleitores não utilizaram a "bola extra" à qual eles tinham direito para patrocinar novas figuras. Há dois nomes no topo da lista, os de Milton Friedman e de Stephen Hawking, que não representam nem um pouco novas linhas de pensamento (de fato, Friedman havia sido mencionado especificamente em nosso comentário de mês passado sobre "critérios de inclusão" –ao lado de outros grandes intelectuais do passado tais como Soljenitsin– como um exemplo de personalidade que havia sido deliberadamente descartado da lista geral, com base no fato de que eles não estavam mais contribuindo ativamente para sua disciplina).
De certa forma, a pesquisa foi vítima do seu próprio sucesso. A notícia correu muito rapidamente pela Internet afora, e pelo menos três dos que foram classificados entre os 20 mais (Chomsky, Hitchens e Soroush), ou os seus seguidores, decidiram chamar a atenção para a sua presença na lista, utilizando os seus sites pessoais na Web para criar um link com a página de votação da Prospect. Nos casos de Hitchens e de Soroush, os votos começaram então a afluir em abundância.
Embora seja difícil determinar com exatidão qual é a origem dos eleitores, é muito provável que uma ampla maioria dentre eles seja da Grã-Bretanha e da América, aos quais deve ser acrescentada boa proporção de eleitores de outras regiões da Europa e dos países de língua inglesa. Houve também uma avalanche considerável de votos do Irã, em contraste com uma escassez de eleitores do Extremo-Oriente, o que pode explicar por que quatro dos cinco últimos nomes da lista são pensadores do Japão e da China.
Ainda assim, o que é mais interessante a respeito desta eleição é a idade dos intelectuais que estão no topo da lista. Chomsky venceu com uma pequena dianteira, com mais de 4.800 votos. Ele é seguido por Eco, que obteve pouco menos de 2.500 votos, Dawkins e Havel.
Apenas dois dos nove primeiros –Hitchens e Rushdie– nasceram depois da Segunda Guerra Mundial. Dentre os 20 primeiros, apenas Klein e Lomborg têm menos de 50 anos. Esta tendência pode refletir a idade dos eleitores, que escolheram nomes familiares.
Contudo, ela certamente nós diz muito sobre a natureza radicalmente volúvel dos intelectuais mais notáveis do Ocidente. Quem são os equivalentes mais jovens de Habermas, Chomsky e Havel?
Grandes nomes são gerados por grandes eventos. Ora, não foi registrada nenhuma diminuição da ocorrência de terríveis eventos ao longo dos últimos dez anos e alguns dos nomes que constam da lista (Ignatieff, Fukuyama, Hitchens) são tão proeminentes precisamente por causa do que eles disseram a respeito deles. Entretanto, apenas um deles é europeu e, ainda assim, ele mora em Washington DC.
Esta edição da Prospect traz mais informações e artigos a respeito de Chomsky. Mesmo para quem discorde dos seus ataques contra a política externa americana, há pelo menos duas razões que explicam por que não é nenhuma surpresa vê-lo no topo desta lista.
Em primeiro lugar, a sua dimensão como intelectual. Assim como um bom número de outras figuras classificadas entre os dez mais, ele ocupa uma posição de destaque em diversas disciplinas do conhecimento.
A trajetória de Havel é a de um dramaturgo e de um homem de Estado; Eco acumula as atividades de crítico literário e de autor de best-sellers; por sua vez, Diamond atuou como professor de fisiologia e agora tem uma cadeira de geografia na UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). Os seus livros dizem respeito a vastas questões que abrangem períodos de tempo muito extensos.
Em segundo lugar, e da maneira mais importante, Chomsky pertence a uma tradição que remonta a Zola, Russell e Sartre: um pensador, ou um escritor de marca maior que se manifesta sobre as questões públicas as mais importantes do seu tempo, e que se opõe ao governo do seu país, sobretudo em questões de consciência, e nem tanto em relação a assuntos puramente políticos.
Eu escrevi no mês passado, no meu comentário sobre a lista inicial de 100 nomes propostos por Prospect/Foreign Policy que ela parecia representar a morte daquela grande tradição dos intelectuais de oposição. A vitória esmagadora de Noam Chomsky sugere que nós ainda damos valor a tais figuras –nós só parecemos ser incapazes de encontrar alguma que tenha menos de 70 anos.

OS MAIORES INTELECTUAIS DO MUNDO
A seguir, curtos perfis dos maiores intelectuais do mundo, que foram escolhidos pelos leitores da "Prospect" e do portal Foreign Policy.

NOAM CHOMSKY
Nascido em 1928 em Filadélfia, Chomsky conquistou suas distinções acadêmicas quando ainda era um jovem professor de lingüística no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos anos 50. A sua teoria da gramática transformacional, que ele desenvolveu naquela época, postula que a capacidade de formar uma linguagem estruturada é inata ao ser humano.
Mas o grande público veio a conhecer Chomsky pela sua oposição declarada à guerra do Vietnã. Por mais de 40 anos, ele tem sido o crítico mais barulhento e mais consistente da academia contra as políticas seguidas pelos Estados Unidos, tanto dentro de casa como no exterior. Chomsky escreveu mais de quarenta livros e até hoje dá palestras com freqüência, e continua sendo um provocador mais prolífero do que nunca.

UMBERTO ECO
Por mais que Umberto Eco seja mais conhecido como um medievalista, talvez seja mais adequado chamá-lo de um homem do renascimento. Embora este italiano de 73 anos atue formalmente como professor de semiótica contratado pela Universidade de Bologna, o conjunto da sua obra é um desafio para quem pretende atribuir-lhe um único rótulo.
Ele escreveu sobre a filosofia de Tomás de Aquino, sobre a relevância da estética através do tempo, e ainda sobre a influência cultural das histórias em quadrinhos. E isso, falando-se apenas da sua obra de não-ficção.
Eco tornou-se conhecido no mundo inteiro com os seus romances "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault", "A Ilha do Dia Anterior" e "Baudolino", sendo que o primeiro se transformou num importante filme de Hollywood, estrelado por Sean Connery.

RICHARD DAWKINS
Richard Dawkins surgiu no cenário com o seu livro de 1976, "O Gene Egoísta", no qual o gene é apresentado como a unidade central da seleção natural. Hoje, professor de compreensão pública da ciência na Universidade de Oxford, Dawkins, 64, é um crítico formidável da religião organizada –conforme demonstra o seu artigo sobre o "óleo Gerin" (ou gerinol, poderosa substância alucinógena que teria sido usada pelos autores dos atentados de 11 de setembro de 2001), para a edição do mês passado da Prospect –e hoje, é possivelmente o ateu o mais ouvido em todo o mundo.
Por meio de livros, de ensaios e intervenções na mídia, Dawkins mostra a importância da ciência para o grande público de uma forma que poucos conseguem igualar. Segundo notícias recentes, ele está trabalhando atualmente num documentário sobre a religião, cujo título provisório é "A Raiz de Todo Mal".

VÁCLAV HAVEL
Nascido em 1936 em Praga, Havel ganhou destaque durante os anos 70 ao escrever peças que ridicularizavam os absurdos da vida numa ditadura. O seu envolvimento com a iniciativa da Carta 77 (petição dos dissidentes contra o processo de "normalização" comunista da sociedade tchecoslovaca) conduziu à sua prisão e ao banimento da sua obra.
Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, Havel despontou como o líder da "revolução de veludo" e, um ano mais tarde, foi eleito presidente da Tchecoslováquia.
Então, depois do desmembramento do seu país, em 1992, ele atuou como presidente da República Tcheca de 1993 até 2003. Hoje, ele continua ativo na Europa, açoitando a União Européia pelo seu tratamento passivo da questão dos direitos humanos em países tais como Burma e Cuba.

CHRISTOPHER HITCHENS
Como jovem trotskista, Christopher Hitchens chamou a atenção durante os anos 70 pelos seus artigos de política no "New Statesman". Depois de se dar conta de que pouco lhe importava quem de Tony Benn ou de Denis Healey se tornaria o secretário-geral do Partido Trabalhista, ele mudou-se para os Estados Unidos em 1980, onde ele escreveu inicialmente para o "The Nation" e, mais tarde, para "Vanity Fair" e "The Atlantic".
Uma série de ataques contra Madre Teresa de Calcutá, Bill Clinton e Henry Kissinger rendeu-lhe certa notoriedade, mas Hitchens, 56, é hoje mais conhecido pela sua ruptura confusa com a esquerda anti-guerra em torno da Bósnia e, mais tarde, do Afeganistão e do Iraque, e pelo apoio que ele dá alto e bom som à guerra contra o terror de Bush.

MILTON FRIEDMAN
Esta filho de imigrantes húngaros que foi criado em Nova Jersey é famoso, sobretudo por ser o grande defensor da liberdade individual e por defender a idéia segundo a qual os impostos deveriam ser cortados "toda vez que isso for possível".
A sua teoria do monetarismo, que sublinha a importância do controle da emissão de moeda, substituiu o keynesianismo durante certo período como a concepção dominante na teoria econômica.
O trabalho de Friedman na Universidade de Chicago projetou suas idéias na cena política mundial, e, em 1976, ele foi contemplado com o prêmio Nobel de Economia. As suas concepções, transmitidas pelo intermédio de Keith Joseph (1918-1994, político conservador britânico) e do IEA (Instituto de Assuntos Econômicos), influenciaram as políticas dos primeiros governos de Margaret Thatcher.

 

 

 

http://www.prospectmagazine.co.uk/article_…ils.php?id=7110
For and against Chomsky
November 2005 | 116 » Cover story »
Is the world’s top public intellectual a brilliant expositor of linguistics and the US’s duplicitous foreign policy? Or a reflexive anti-American, cavalier with his sources?

Robin Blackburn
Oliver Kamm

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Robin Blackburn teaches at the New School for Social Research, New York.
Oliver Kamm is a "Times" columnist

For Chomsky
Robin Blackburn celebrates a courageous truth-teller to power

The huge vote for Noam Chomsky as the world’s leading "public intellectual" should be no surprise at all. Who could match him for sheer intellectual achievement and political courage?
Very few transform an entire field of enquiry, as Chomsky has done in linguistics. Chomsky’s scientific work is still controversial, but his immense achievement is not in question, as may be easily confirmed by consulting the recent Cambridge Companion to Chomsky. He didn’t only transform linguistics in the 1950s and 1960s; he has remained in the forefront of controversy and research.
The huge admiration for Chomsky evident in Prospect’s poll is obviously not only, or even mainly, a response to intellectual achievement. Rather it goes to a brilliant thinker who is willing to step outside his study and devote himself to exposing the high crimes and misdemeanours of the most powerful country in the world and its complicity with venal and brutal rulers across four continents over half a century or more.
Some believe—as Paul Robinson, writing in the New York Times Book Review, once put it—that there is a "Chomsky problem." On the one hand, he is the author of profound, though forbiddingly technical, contributions to linguistics. On the other, his political pronouncements are often "maddeningly simple-minded."
In fact, it is not difficult to spot connections between the intellectual strategies Chomsky has adopted in science and in politics. Chomsky’s approach to syntax stressed the economy of explanation that could be achieved if similarities in the structure of human languages were seen as stemming from biologically rooted, innate capacities of the human mind, above all the recursive ability to generate an infinite number of statements from a finite set of words and symbols. Many modern critics of the radical academy are apt to bemoan its disregard for scientific method and evidence. This is not a reproach that can be aimed at Chomsky, who has pursued a naturalistic and reductionist standpoint in what he calls, in the title of his 1995 volume, The Minimalist Programme.
Chomsky’s political analyses also strive to keep it simple, but not at the expense of the evidence, which he can abundantly cite if challenged. But it is "maddening" none the less, just as the minimalist programme may be to some of his scientific colleagues. The apparent straightforwardness of Chomsky’s political judgements—his "predictable" or even "kneejerk" opposition to western, especially US, military intervention—could seem simplistic. Yet they are based on a mountain of evidence and an economical account of how power and information are shared, distributed and denied. Characteristically, Chomsky begins with a claim of stark simplicity which he elaborates into an intricate account of the different roles of government, military, media and business in the running of the world.
Chomsky’s apparently simple political stance is rooted in an anarchism and collectivism which generates its own sense of individuality and complexity. He was drawn to the study of language and syntax by a mentor, Zellig Harris, who also combined libertarianism with linguistics. Chomsky’s key idea of an innate, shared linguistic capacity for co-operation and innovation is a positive, rather than purely normative, rebuttal of the Straussian argument that natural human inequality vitiates democracy.
Andersen’s tale of the little boy who, to the fury of the courtiers, pointed out that the emperor was naked, has a Chomskian flavour, not simply because it told of speaking truth to power but also because the simple childish eye proved keener than the sophisticated adult eye. I was present when Chomsky addressed Karl Popper’s LSE seminar in the spring of 1969 and paid tribute to children’s intellectual powers (Chomsky secured my admittance to the seminar at a time when my employment at the LSE was suspended).
As I recall, Chomsky explained how the vowel shift that had occurred in late medieval English was part of a transformation that resulted from a generational dynamic. The parent generation spoke using small innovations of their own, arrived at in a spontaneous and ad hoc fashion. Growing youngsters, because of their innate syntactical capacity, ordered the language they heard their parents using by means of a more inclusive grammatical structure, which itself made possible more systematic change.
In politics, the child’s eye might see right through the humanitarian and democratic claptrap to the dismal results of western military interventions—shattered states, gangsterism, narco-traffic, elite competition for the occupiers’ favour, vicious communal and religious hatred.
Chomsky openly admits he prefers "pacifist platitudes" to belligerent mendacity. This makes some wrongly charge that he is "passive in the face of evil." But neither apartheid in South Africa, nor Stalinism in Russia, nor military rule in much of Latin America were defeated or dismantled by bombardment and invasion. Chomsky had no difficulty supporting the ultimately successful campaign against apartheid, or for the Indonesian withdrawal from East Timor. He simply opposes putting US soldiers in harm’s way—also meaning where they will do harm and acquire a taste for it.
Chomsky’s victory in a parlour game should not be overpitched. But, like Marx’s win earlier this year in the BBC Radio 4 competition for "greatest philosopher," it shows that thinking people are still attracted by the critical impulse, above all when it is directed with consistency at the trend towards a global pensée unique. The Prospect/FP list was sparing in its inclusion of critics of US foreign policy, which may have increased Chomsky’s lead a little. But no change in the list would have made a difference to the outcome. The editors had misjudged the mood and discernment of their own readers.

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Against Chomsky
Oliver Kamm deplores his crude and dishonest arguments

In his book Public Intellectuals: A Study of Decline, Richard Posner noted that "a successful academic may be able to use his success to reach the general public on matters about which he is an idiot." Judging by caustic remarks elsewhere in the book, he was thinking of Noam Chomsky. He was not wrong.
Chomsky remains the most influential figure in theoretical linguistics, known to the public for his ideas that language is a cognitive system and the realisation of an innate faculty. While those ideas enjoy a wide currency, many linguists reject them. His theories have come under criticism from those, such as the cognitive scientist Steven Pinker, who were once close to him. Paul Postal, one of Chomsky’s earliest colleagues, stresses the tendency for the grandiloquence of Chomsky’s claims to increase as he addresses non-specialist audiences. Frederick Newmeyer, a supporter of Chomsky’s ideas until the mid-1990s, notes: "One is left with the feeling that Chomsky’s ever-increasingly triumphalistic rhetoric is inversely proportional to the actual empirical results that he can point to."
Prospect readers who voted for Chomsky will know his prominence in linguistics, but are more likely to have read his numerous popular critiques of western foreign policy. The connection, if any, between Chomsky’s linguistics and his politics is a matter of debate, but one obvious link is that in both fields he deploys dubious arguments leavened with extravagant rhetoric—which is what makes the notion of Chomsky as pre-eminent public intellectual untimely as well as unwarranted.
Chomsky’s first book on politics, American Power and the New Mandarins (1969) grew from protest against the Vietnam war. But Chomsky went beyond the standard left critique of US imperialism to the belief that "what is needed [in the US] is a kind of denazification." This diagnosis is central to Chomsky’s political output. While he does not depict the US as an overtly repressive society—instead, it is a place where "money and power are able to filter out the news fit to print and marginalise dissent"—he does liken America’s conduct to that of Nazi Germany. In his newly published Imperial Ambitions, he maintains that "the pretences for the invasion [of Iraq] are no more convincing than Hitler’s."
If this is your judgement of the US then it will be difficult to credit that its interventionism might ever serve humanitarian ends. Even so, Chomsky’s political judgements have only become more startling over the past decade.
In The Prosperous Few and the Restless Many (1994), Chomsky considered whether the west should bomb Serb encampments to stop the dismemberment of Bosnia, and by an absurdly tortuous route concluded "it’s not so simple." By the time of the Kosovo war, this prophet of the amoral quietism of the Major government had progressed to depicting Milosevic’s regime as a wronged party: "Nato had no intention of living up to the scraps of paper it had signed, and moved at once to violate them."
After 9/11, Chomsky deployed fanciful arithmetic to draw an equivalence between the destruction of the twin towers and the Clinton administration’s bombing of Sudan—in which a pharmaceutical factory, wrongly identified as a bomb factory, was destroyed and a nightwatchman killed. When the US-led coalition bombed Afghanistan, Chomsky depicted mass starvation as a conscious choice of US policy, declaring that "plans are being made and programmes implemented on the assumption that they may lead to the death of several million people in the next couple of weeks… very casually, with no particular thought about it." His judgement was offered without evidence.
In A New Generation Draws the Line: Kosovo, East Timor and the Standards of the West (2000), Chomsky wryly challenged advocates of Nato intervention in Kosovo to urge also the bombing of Jakarta, Washington and London in protest at Indonesia’s subjugation of East Timor. If necessary, citizens should be encouraged to do the bombing themselves, "perhaps joining the Bin Laden network." Shortly after 9/11, the political theorist Jeffrey Isaac wrote of this thought experiment that, while it was intended metaphorically, "One wonders if Chomsky ever considered the possibility that someone lacking in his own logical rigour might read his book and carelessly draw the conclusion that the bombing of Washington is required."
This episode gives an indication of the destructiveness of Chomsky’s advocacy even on issues where he has been right. Chomsky was an early critic of Indonesia’s brutal annexation of East Timor in 1975 in the face of the indolence, at best, of the Ford administration. The problem is not these criticisms, but Chomsky’s later use of them to rationalise his opposition to western efforts to halt genocide elsewhere. (Chomsky buttresses his argument, incidentally, with a peculiarly dishonest handling of source material. He manipulates a self-mocking reference in the memoirs of the then US ambassador to the UN, Daniel Patrick Moynihan, by running separate passages together as if they are sequential and attributing to Moynihan comments he did not make, to yield the conclusion that Moynihan took pride in Nazi-like policies. The victims of cold war realpolitik are real enough without such rhetorical expedients.)
If Chomsky’s political writings expressed merely an idée fixe, they would be a footnote in his career as a public intellectual. But Chomsky has a dedicated following among those of university education, and especially of university age, for judgements that have the veneer of scholarship and reason yet verge on the pathological. He once described the task of the media as "to select the facts, or to invent them, in such a way as to render the required conclusions not too transparently absurd—at least for properly disciplined minds." There could scarcely be a nicer encapsulation of his own practice.

The author is grateful for the advice of Bob Borsley and Paul Postal.

 

 

Folha de São Paulo, Brasil, ESQUERDA NO DIVÃ – 05-11-2005

Filósofa afirma que crise do governo é "encomendada"

Mídia é pior que a Inquisição, diz Marilena Chaui
RICARDO MELO
DA REPORTAGEM LOCAL

A filósofa Marilena Chaui, 63, não tem dúvidas: a crise que corrói o governo Lula é encomendada e teve como gatilho o trabalho de um jornalista especializado em vender dossiês. Tudo isso amplificado pela ação da mídia, que chega a ser pior do que a Santa Inquisição [antigo tribunal da igreja que investigava e punia crimes contra a fé católica].
Uma das fundadoras do PT e personalidade do mundo acadêmico, Chaui expôs sua visão ontem em debate realizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP).
Para sustentar seu raciocínio, Chaui se baseia em artigo publicado pela jornalista Marina Amaral na revista-jornal "Caros Amigos", edição especial de setembro. A reportagem fala de um jornalista que ganha a vida atualmente dissolvendo ou criando crises, um gerenciador de crises, no jargão do mercado. "É apavorante, porque eu sabia que a crise era encomendada, eu sabia que tinha sido uma operação de produção da crise, isso todos nós sabemos", disse Chaui para os cerca de 200 metalúrgicos presentes ao evento.
"Mas eu não pensei que fosse dessa maneira. Digamos que eu pensei que fosse mais sofisticado, mais político. Mas não: o cara vendeu para alguns políticos os dossiês que ele tinha acumulado, alguns verdadeiros, outros ele recheou segundo a fantasia dele, para derrubar o Lula, porque ele não gostou do Lula."
A versão conspiratória recebeu aplausos da platéia, que na verdade compareceu ao sindicato não exatamente para ver uma palestra sobre "Ética na Política", como constava da faixa colocada à frente da mesa. O jornal do sindicato, distribuído logo na entrada, já dava o tom do que deveria ser o debate, ao pôr em manchete: "Filósofa responde por que a direita quer criar, a imprensa alimenta e você deve entender a crise".
Escalada como alvo, a imprensa, ou a mídia, não foi poupada por Chaui. Ao responder a pergunta de um metalúrgico sobre o poder da mídia em comparação com o poder da Igreja Católica nos tempos inquisitoriais, a filósofa afirmou que a ação dos meios de comunicação é mais nefasta.
Para Chaui, a mídia só age com alguma isenção quando os donos dos meios de comunicação se sentem ameaçados por algum governo ou ordem política. Ou quando os interesses econômicos desses mesmos donos podem ser beneficiados por uma mudança de governo. Fora isso, "a ação deles é pior do que a Igreja Católica", pensa Chaui. Na visão dela, o poder da Inquisição era pelo menos mais transparente. "A Igreja católica operava pela produção visível, direta e clara do medo", afirmou. "Já a mídia opera não só por meio da destruição de instituições e da destruição de pessoas. Ela opera pela acusação sem provas."
Entre exposição e debate, o evento durou duas horas. Antes da sessão de perguntas, Chaui falou uma hora sobre o conceito de ética e repetiu idéias sobre a necessidade de uma reforma política, já expostas em artigo publicado quando da eclosão do "affair" Waldomiro Diniz.
No final do evento, a reportagem da Folha tentou dirigir algumas perguntas a Chaui sobre os desdobramentos da crise do governo Lula. Sem sucesso. Quando percebeu a aproximação do repórter da Folha e de um jornalista do Estado de S. Paulo, a filósofa preferiu interromper uma entrevista para o jornal do sindicato. "Não é nada pessoal, mas não falo", desculpou-se.

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