Economy and Society II de José Porfiro – Specific

14 de março de 2007

PENSAMENTO DE FREUD II

Filed under: Ciência — Porfiro @ 8:54 AM
A MUSA NÃO-DANIFICADA
Lançado nos EUA, "Martha Freud" lança luz sobre temores, dúvidas e mesquinhezas do criador da psicanálise a partir da vida reclusa de sua mulher

JENNY DISKI

Na lista de chamada da corporação de ofício de mulheres adoradoras e que criaram condições para seus maridos desenvolverem seus trabalhos, o nome de Martha Freud figura entre os maiores, ao lado da sra. Noé, sra. Darwin, sra. Marx, sra. Joyce, sra. Nabokov e sra. Clinton. Mulheres, de um sexo ou de outro, são o elemento que conserva o universo suficientemente calmo e ordeiro para que as grandes mentes possam tecer suas reflexões, concluir suas viagens, escrever seus livros e transformar o mundo.
Martha Freud foi um modelo de perfeição como cônjuge. Não há nada que mais liberte uma pessoa do exaustivo e repetitivo trabalho doméstico e do sentimento de culpa decorrente de evitá-lo do que dispor de uma faxineira que adora fazer faxina, uma babá que se satisfaz em cuidar das crianças, uma pessoa caseira que não deseja nada além de ficar em casa. E Martha foi tudo isso.
Precisamente porque ela foi tudo isso é que seu marido pode ter sido exatamente a pessoa indicada para pesquisar. Mas Freud não era bobo e sabia muito bem -quando era o caso- deixar tudo como estava nas regiões mais obscuras de sua vida pessoal -especialmente aquele continente sombrio de sua mente que dizia respeito às mulheres.

As misérias da vida
Ele mencionou de passagem, em uma carta a seu amigo Wilhelm Fliess (a quem escreveu que nenhuma mulher jamais havia substituído um camarada homem em sua vida), que, aos 34 anos, após o nascimento de seu sexto filho em oito anos, Martha estava sofrendo do bloqueio de escritora. É impossível imaginar por quê. Mas, como muitos outros mistérios que cercam a vida de Martha, este novo "Martha Freud – A Biography" [Martha Freud – Uma Biografia, Polity Press, 206 págs., US$ 30, R$ 63], de Katja Behling, não entra em detalhes sobre o que ela possivelmente quisesse escrever.
A grande idéia da biografia parece ser a de que devemos valorizar a contribuição dela ao desenvolvimento da psicanálise, pelo fato de ter garantido uma vida doméstica pacífica ao fundador da disciplina.
Na biografia de Freud que escreveu, Peter Gay cita a resposta enviada por Martha a uma carta de condolências que recebeu após a morte de Freud, na qual disse que "é um consolo pequeno saber que, em nossos 53 anos de casamento, nunca houve uma única palavra irada trocada entre nós, e sempre me esforcei ao máximo para afastar de seu caminho a "misère" da vida cotidiana".
Só podemos ler e nos surpreender pela sorte de que um tenha encontrado o outro em sua vida. Quem de nós não ansiaria por uma Martha própria para cuidar da "misère" de nossa vida diária, enquanto ficamos sentados em nossas salas de estudo, deixando fluir idéias que irão iluminar o mundo? Ou, por outro lado, quem de nós poderia querer ser Martha, por mais essencial sua biógrafa possa afirmar que ela tenha sido para a produção de uma idéia grandiosa? Ser musa ou fonte de inspiração pode ter suas atrações, suponho -mas ser a governanta de uma teoria que transformou o mundo não é exatamente a mesma coisa.

Mantendo as aparências
À luz de 53 anos de evidências, não adianta fazer de conta que houve uma grande pensadora oculta dentro de Martha, lutando para vir à tona. Mas não podemos deixar de tentar imaginar como é possível que ela desejasse apenas isso para si -uma mulher que, quando se casou, não era destituída de pensamentos, nem alguém que se auto-apagava por completo. Era leitora voraz de Stuart Mill, Dickens e Cervantes, embora seu futuro marido lhe desaconselhasse os trechos mais rudes de "Dom Quixote", não apropriados para uma mulher. Interessava-se por música e pintura, e não lhe faltavam pretendentes.
O que Sigmund e Martha tinham em comum eram famílias envoltas em escândalos financeiros escusos. O tio de Freud foi preso por negociar rublos falsificados, e rumores davam conta do envolvimento de seu pai no escândalo. Para lidarem com o desconforto da vergonha pública, os dois aderiram a uma vida burguesa perfeita ao estilo do século 19, desde que não se levem em conta os pensamentos incessantes de Sigmund sobre sexualidade infantil, a teoria da sedução, o complexo de Édipo e a inveja do pênis.
Presume-se que tenha sido essa superfície burguesa exemplar -os ternos formais, a mobília bem polida, os modos corretos à mesa, o quarto das crianças bem ordenado, a regularidade ocupada da vida- que tenha possibilitado que fossem nutridos aqueles pensamentos mais profundos, mal cogitáveis, e que eles tenham se desenvolvido até se transformar em algo que se assemelhava a uma teoria científica.
Pelo fato de encerar aqueles móveis e conservar os relógios batendo em sincronia, Martha foi tão essencial para o desenvolvimento do pensamento freudiano quanto Dora ou o Homem dos Ratos. Mas Sigmund nunca se deu ao trabalho de perguntar a razão de tanto encerar, tanto obedecer aos horários.
Em 1936, Freud falou com Marie Bonaparte sobre sua vida de casado: "Não foi realmente uma solução ruim da questão do casamento, e ela é ainda hoje terna, saudável e ativa".
Para seu genro Max Halberstadt, ele expressou seu alívio pelo fato de "as crianças terem se saído tão bem e pelo fato de ela" -Martha- "não ter sido muito anormal, nem ter estado doente com muita freqüência".
No mundo de distorções psíquicas em que Freud se movimentava, Martha representava aquilo no qual ninguém que leva as obras de Freud realmente a sério jamais poderia acreditar: o espécime comum, não-danificado.
Vale tentar imaginar o que teria acontecido se a análise freudiana tivesse tomado o caminho inverso, se o mestre tivesse estudado a normalidade -que, aparentemente, tinha tão perto de si- ao invés de debruçar-se sobre suas deformações.
Behling sugere que o maior valor de Martha para Freud tenha sido sua própria existência, que o impediu de deprimir-se demais com a natureza da natureza humana. Ele pôde enxergar nela "alguém que se diferenciava daquilo que ele aprendera sobre a humanidade de maneira geral". Assim, Freud não apenas não a estudou como não comunicou a ela nenhuma de suas reflexões profissionais. "Freud não desejava compartilhar com Martha as profundezas mais negras de seu conhecimento, mas, pelo contrário, protegê-la delas", escreve Behling.

Ciúmes da noiva
A natureza alegre de Martha, tão diferente, aparentemente, da natureza humana, foi cuidadosamente fomentada por seu noivo durante os quatro épicos anos que durou o noivado. Parece ter sido essa a única investida de Freud no terreno da paixão, e ele mergulhou nela com toda a disposição de um filho adorado.
Ele ele fervia de ciúmes à menção de outros homens, exigindo, por exemplo, que Martha parasse de chamar pelo primeiro nome seu interessante primo pintor. "Querida Martha, como você mudou minha vida", ele lhe disse na primeira carta que lhe escreveu. E, quando estavam noivos e ele estava combatendo a mãe dela para conquistá-la, ele explicou: "Marty, você não pode lutar contra isso; é que, por mais que eles a amem, não vou deixá-la para ninguém, e ninguém mais a merece: o amor de nenhuma outra pessoa por você se compara ao meu".
Após a morte do marido, Martha não se soltou, mas passou a ficar sentada no patamar entre o primeiro e o segundo andares da casa em Maresfield Gardens. Voltou a ler, embora, como assegurou a um correspondente, para o caso de ser acusada de ócio, apenas o fizesse à noite.
A vida, disse, perdera "todo sentido e significado" sem seu marido, mas ela demonstrava prazer em receber os visitantes importantes que vinham à casa prestar homenagem.

Uma pitada de coca
Freud culpou Martha por impedi-lo de conquistar reconhecimento precoce no mundo da ciência médica. Ele escreveu em seu auto-retrato: "Posso relatar aqui que, fazendo uma retrospectiva, foi culpa de minha noiva o fato de eu não ter ficado famoso naqueles primeiros anos". Os experimentos que fez com cocaína na década de 1880 foram retomados e aprofundados por outros.
Constatou-se que aquilo que a finada princesa Margaret conhecia como "sal safado" apresentava efeitos benéficos como anestésico local -uma utilização da qual Freud, inexplicavelmente, não tomara nota e que deixara de mencionar em seu artigo "Sobre a Coca". Foi uma oportunidade inesperada de fazer uma visita a Martha, que o impedira de explorar plenamente o potencial de sua descoberta, disse na velhice.
Mas vale fazer uma observação aqui e mencionar algo que talvez constitua uma chave até agora não cogitada para a compreensão de Martha. Na época em que Freud estava fazendo suas experiências com cocaína, ele enviou vários frascos da substância a sua noiva, louvando o efeito dela sobre a vitalidade e incluindo instruções sobre como dividir e administrar as doses.
Martha lhe escreveu e agradeceu, dizendo que, embora não achasse que precisasse daquilo, ela tomaria um pouco, atendendo a sua sugestão. Ela informou a seu noivo que achara a cocaína útil em momentos de tensão emocional.
De tempos em tempos, diz Behling, Martha "aumentava seu senso de bem-estar com uma pitada revigorante de cocaína". Não se sabe por quanto tempo ela continuou a fazê-lo, mas essa informação de fato sugere uma maneira inteiramente outra de enxergarmos a dedicada e domesticamente movida Martha Freud, que durante meio século se ocupou de sua agitada e ocupada ronda diária de faxina, organização, administração e supervisão de todas as minúcias da vida de seu marido, sempre com um sorriso fixo e incansável estampado no rosto.

——————————————————————————–
Jenny Diski é escritora.
A íntegra deste texto foi publicada no "London Review of Books".
Tradução de Clara Allain.

A CLASSE MÉDIA NO DIVÃ
Avessa a discussões teóricas, psicanálise brasileira só rompeu isolamento nos anos 70, com a industrialização, os estudos no exterior e a vinda dos argentinos

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

Quem observa hoje a paisagem da psicanálise no Brasil, vigorosa e fértil, talvez se surpreenda ao saber que as sementes dessa planta exótica demoraram a germinar: por quase oito décadas, a cultura se reduziu a alguns pomares, e somente nos últimos 25 ou 30 anos ela ganhou impulso, desenvolvendo-se até a condição atual. Vale, portanto, recapitular os principais momentos desse processo, a fim de avaliar onde estamos, e arriscar algumas idéias sobre para onde vamos.
A história da psicanálise em nosso país pode ser dividida em três etapas. A primeira se estende de 1899, quando Juliano Moreira fez na Bahia uma exposição sobre os novos métodos de Freud, até a chegada a São Paulo, em 1937, da psicanalista Adelheid Koch. A segunda vai até o final da década de 70, quando se inicia a fase na qual nos encontramos.
Durante as primeiras décadas do século 20, as idéias de Freud se tornaram conhecidas pelos médicos e por uma parcela do público mais cultivado. No "Manifesto Antropofágico", por exemplo, Oswald de Andrade utiliza algumas delas. Mas não se distinguem de outras novidades européias, percebidas por uns como úteis à modernização do Brasil e, por outros, como perigosas ameaças ao espírito nacional: no caso, é em torno da importância da sexualidade na vida psíquica e no desencadeamento das neuroses que se travaram as discussões mais acirradas.
Foi o psiquiatra Durval Marcondes o principal agente da passagem à fase seguinte. Marcondes percebeu a importância de organizar os interessados na "jovem ciência" e integrá-los ao movimento psicanalítico internacional: iniciou correspondência regular com Freud, fundou com alguns outros a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (1927), publicou o primeiro número de uma revista especializada e se empenhou em trazer para o Brasil um analista didata, para que ele e seus companheiros pudessem ter acesso pessoal à experiência do divã.

Fim dos diletantes
Após muitas idas e vindas, esse projeto realizou-se em 1937, quando Adelheid Koch se transferiu para São Paulo e começou a analisar os pioneiros locais. Esse fato marcou o fim da era dos diletantes e o início da implantação efetiva da psicanálise no Brasil.
Após a guerra, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre formaram-se outras sociedades; alguns jovens psiquiatras viajaram para Londres e Buenos Aires para seguir cursos de formação "stricto sensu", enquanto aqui se fixaram analistas europeus.
De 1950 até fins da década de 70, as instituições se fortaleceram e aos poucos se ampliou o número de psicanalistas, que, ao final do período, somavam duas ou três centenas em todo o Brasil. Fortemente influenciados pelo pensamento de Melanie Klein, esses analistas se dedicaram sobretudo ao trabalho clínico "intramuros". Também divulgaram as idéias psicanalíticas pelos meios existentes, do rádio às incipientes revistas femininas, e produziram, em quantidade pequena, mas constante, artigos científicos e textos para congressos.
À diferença do que ocorreu na Argentina, aqui não se desenvolveu um pensamento psicanalítico original; as teorias kleinianas e, mais adiante, o trabalho de Wilfred Bion, apresentado por ele mesmo e por seu "embaixador" Frank Philips, pareciam suficientes aos analistas brasileiros como fundamento teórico e como ferramenta clínica. Operosos, discretos, muitos deles excelentes clínicos, mas sem maiores ambições teóricas, os analistas do segundo período asseguraram o enraizamento da psicanálise entre as especialidades terapêuticas e a continuidade do que Durval Marcondes iniciara.
Testemunho desse horizonte nada ambicioso são as traduções de Freud para o português da editora Delta e posteriormente da Imago, concluída em 1978. Importantes por colocar Freud ao alcance de profissionais e de estudantes, elas espelham em sua falta de rigor o desinteresse pelas questões mais abstratas e um certo viés empirista inspirado nos britânicos, mas temperado à brasileira -para o qual a teoria, uma vez aprendida, não precisa ser muito questionada e não deve atrapalhar o contato direto com o paciente.
A situação da psicanálise mudou radicalmente a partir do fim da década de 70, por uma conjugação de fatores de diferentes ordens. Em primeiro lugar, a industrialização do Brasil criou uma classe média urbana "desparametrada" (no dizer de Sérvulo Figueira), porque confrontada a novos valores e padrões de comportamento.
Essa classe média formou a clientela das psicoterapias, entre as quais, naquele momento, a psicanálise não era preponderante: as terapias de grupo e corporais gozavam de maior popularidade. O fato novo, porém, foi o surgimento de uma demanda crescente por tratamento psicológico, à qual os analistas tiveram (também) de responder.
Na mesma época, do lado da oferta, dois processos de início independentes vieram a convergir. O primeiro foi a irrupção do lacanismo, trazido por brasileiros que haviam estudado em Paris e na Universidade de Louvain (Bélgica): em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco surgiram, por volta de 1975 e 1976, os primeiros grupos dessa tendência. O segundo foi a chegada de muitos analistas argentinos, fugindo da barbárie que tomara de assalto seu país.
Esses profissionais se instalaram nos grandes centros mas também em Vitória, Salvador, Curitiba e outras capitais, dando início a um movimento de capilarização que iria a médio prazo mudar por completo a face da psicanálise no Brasil.
Nem os lacanianos nem a maioria dos argentinos aderiram às instituições já existentes, vistas pelos dois grupos como cientificamente estagnadas e politicamente reacionárias.
As novas organizações (entre outras, o curso de psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo) ampliaram enormemente as oportunidades de formação, atraindo muitos psicólogos que nelas viam um meio de se tornarem analistas de modo mais estimulante e inteligente do que nas sociedades tradicionais.
Estas reagiram, é claro, ao desafio: primeiramente, tentando sufocar ou desautorizar as novas iniciativas -"isso não é psicanálise!"; depois, com mais sabedoria, reformulando suas regras internas no sentido de uma maior democratização e abrindo-se às novas correntes de pensamento que haviam surgido no campo freudiano, como Donald Winnicott (1896-1971), a psicologia do "self" de Heinz Kohut (1913-1981), a psicanálise francesa etc.

Vitalidade
Assim entramos no período contemporâneo, da década de 80 para cá. A psicanálise se expandiu com uma vitalidade que não dá mostra de esmorecer, e insisto nessa visão, em que pesem avaliações mais pessimistas feitas ora por adversários dela, ora por "compagnons de route".
O que me leva a pensar assim? Primeiramente, um sinal inequívoco de boa saúde: o número significativo de publicações, muitas oriundas de teses escritas por profissionais experientes, outras abrigadas em revistas de bom nível científico ou resultantes de exposições em colóquios, congressos e jornadas que acontecem praticamente a cada semana pelo país afora.
As publicações são um bom termômetro, tanto pelo conteúdo quanto porque, para que existam, é necessário um conjunto de fatores reais -eventos não se realizam sem participantes, livros não se vendem sem um público leitor, nem revistas sem assinantes-, que por sua vez comprovam a existência de massa crítica e de interlocução entre os componentes dela.
Trata-se de algo equivalente à rede da qual falava Antonio Candido no clássico "Formação da Literatura Brasileira" (1959): um conjunto de referências no qual se possam incluir os que vão chegando, indispensável para a formação de um sistema (literário ou de outra natureza). Hoje podemos dizer que tal sistema já existe na psicanálise brasileira. Por outro lado, a enorme variedade dos temas abordados nas publicações e a originalidade das melhores dentre elas indicam que a psicanálise brasileira nada fica a dever ao que se faz em outros países.
Quanto à inserção dos analistas na sociedade e na cultura, ela vem se intensificando: colegas trabalham em hospitais e instituições de saúde; convênios começam a reembolsar tratamentos; na universidade, em especial na pós-graduação, o lugar da disciplina freudiana está assegurado. Mais sutilmente, a penetração do "ethos" analítico no meio local é atestada pela freqüente solicitação pela imprensa escrita, falada e eletrônica da opinião de analistas a propósito de acontecimentos e processos sociais, desde crimes que chocam a população até a avaliação de mudanças no comportamento e nas relações interpessoais.
Mas nem tudo são rosas. As investidas da concorrência -a psiquiatria organicista e terapias de índole comportamental- são às vezes agressivas, desqualificando a psicanálise como obsoleta, pouco eficaz e inconsistente do ponto de vista teórico. Isso força os analistas a reverem seus conceitos, a criticarem posições tidas por intocáveis, a afiarem melhor seus instrumentos de trabalho -o que, a meu ver, é salutar. Também há exemplos de colaboração entre analistas e psiquiatras no tratamento de certos pacientes, cada qual operando em sua faixa própria.
Nada há de extraordinário em que a evolução da sociedade coloque novos problemas a quem lida com os sofrimentos que a vida impõe às pessoas. O importante é que, sem renegar o passado e suas conquistas, possamos abrir mão do que se revelar inoperante e desenvolver métodos, conceitos e parcerias que nos possibilitem enfrentar as questões atuais -drogadições, novas formas assumidas por antigas patologias (como a chamada síndrome do pânico), males que se tornaram mais comuns (anorexia, depressões), modalidades inéditas de relacionamento amoroso, novas atitudes perante a sexualidade ou os valores.
O que herdamos dos analistas que nos precederam vem servindo, acredito, como referência, em vez de se ter tornado objeto de reverência. Mas tampouco é preciso ceder nos pontos essenciais do pensamento analítico: a eficácia silenciosa (e às vezes ruidosa) do inconsciente, o peso das amarras que nós mesmos construímos para infernizar nossa vida e a dos outros, a função liberadora do conhecimento de si, a força criadora do desejo e da fantasia.
Talvez não sejam idéias muito consentâneas com esses tempos em que se querem soluções rápidas e indolores para os problemas da existência, mas isso não lhes retira a verdade: ao contrário, torna-as ainda mais indispensáveis para não nos deixarmos iludir pelas miragens da pós-modernidade.

——————————————————————————–
Renato Mezan é psicanalista, professor titular da Pontifícia Universidade Católica (SP) e autor de "Freud – A Trama dos Conceitos" (Perspectiva), entre outros. Escreve regularmente na seção "Autores", do Mais!

Antes e depois de Freud
Jean-Martin Charcot (1825-1893) – Médico francês, é considerado o fundador da neurologia moderna. Freud estudou com ele entre outubro de 1885 e fevereiro de 1886 e se interessou por suas lições sobre histeria

Carl Gustav Jung (1875-1961) – Psiquiatra formado pela Universidade de Basiléia em 1900, Jung conheceu Freud em 1907, quando já usava a teoria freudiana e se correspondia com ele. Foi o primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional. Crescentes divergências com Freud fizeram com que rompesse com o movimento psicanalítico em 1913. É o fundador da psicologia analítica

Ernest Jones (1879-1958) – Médico britânico, cunhou a expressão "racionalização" no Primeiro Congresso Psicanalítico Internacional, realizado em 1908, em Salzburgo. Político, presidiu a Associação Psicanalítica Internacional, mediou as divergências entre Melanie Klein e Anna Freud e foi influente biógrafo de Sigmund Freud

Melanie Klein (1882-1960) – Iniciou seus estudos de psicanálise em Budapeste, orientada por seu analista Sándor Ferenczi. Em 1919, apresentou à Associação Psicanalítica Húngara as primeiras conclusões sobre psicanálise em crianças, foco principal de sua pesquisa. Granjeou fama sobretudo no Reino Unido, onde, nas décadas de 30 e 40, disputou com Anna Freud a liderança da vanguarda teórica

Anna Freud (1895-1982) – Filha caçula de Sigmund e Martha, Anna foi professora antes de ingressar, em 1922, na Sociedade Psicanalítica de Viena. Concentrou-se em análise de crianças. Foi analisada por seu pai, fato que, embora seja condenável hoje, era comum no princípio da psicanálise. Mudou-se com o pai para o Reino Unido em 1938 e lá continuou sua carreira após a morte dele

Donald Winnicott (1896-1971) – Pediatra e psicanalista britânico de influência kleiniana, concentrou-se na transição do bebê de um estado de total dependência à formação de um "eu"

Wilhelm Reich (1897-1957) – Psicanalista austríaco, foi militante comunista. Com publicações, entre outros temas, sobre sexualidade e fascismo, teve problemas com autoridades judiciais nos EUA. Morreu na prisão

Wilfred Bion (1897-1979) – Estudou história na Universidade de Oxford e, depois de conhecer os trabalhos de Freud, medicina em Londres, formando-se em 1930. Foi analisado por Melanie Klein e pioneiro em dinâmicas de grupo

Jacques Lacan (1901-1981) – Popularizador da psicanálise na França, teve seus trabalhos saudados pelos surrealistas na década de 30. Sua interpretação original da obra de Freud rendeu controvérsias com a Associação Psicanalítica Internacional. Fundou a dissidente Escola Freudiana de Paris, em 1964, quando já era conhecido pelos estudos sobre linguagem.

Psicologia das massas
Hugo Chávez e Evo Morales atualizam na América Latina uso político do cidadão, estudado por Freud

JOEL BIRMAN
ESPECIAL PARA A FOLHA

Nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra -quando os horrores do nazismo estavam ainda presentes no imaginário coletivo principalmente com o Holocausto e com a biopolítica empreendida pelo nacional-socialismo-, Adorno realizou uma pesquisa de grande envergadura sobre a personalidade autoritária, ainda nos tempos do seu exílio americano. Entre as muitas coisas aqui levantadas, se destacava algo inédito, qual seja, a relação entre autoritarismo e sociologia política.
O que foi surpreendente na época foi a evidência de que a dita personalidade não tinha nenhuma afinidade eletiva com uma ideologia, podendo aquela aderir seja a discursos de direita ou de esquerda. Vale dizer, existiria o autoritarismo declinado tanto com o discurso conservador quanto com o socialista.
Assim, das denúncias de Kruschov sobre os crimes de Stálin até a malfadada revolução cultural empreendida pelo "Livro Vermelho" de Mao Tse-tung, passando pelo destino funesto dos diversos regimes africanos que realizaram as revoluções anticoloniais, a lista do autoritarismo de esquerda é tão longa quanto a da direita. O que me importa aqui ressaltar, no entanto, é o que se encontra subjacente no imaginário desses discursos autoritários e de que maneira as massas são levadas de roldão pela sedução desses discursos.
O pensamento de Freud, 150 anos após o seu nascimento, pode talvez nos ajudar nessa empreitada e indicar assim a sua atualidade.
Digo isso, porque assistimos hoje a uma disseminação de lideranças autoritárias, cujos discursos nacionalista e supostamente antiimperialista têm o dom ainda de fascinar as massas. De Hugo Chávez, na Venezuela, a Evo Morales, na Bolívia, a mesma retórica se tece em torno da defesa dos descamisados e dos interesses nacionais. O discurso populista teve em Vargas, no Brasil, e em Perón, na Argentina, dois forjadores dessa tradição latino-americana.
Collor ensaiou essa retórica, mas quebrou a cara e foi defenestrado do poder. Garotinho gaguejou também esse discurso e está encenando a comédia de morrer de fome pela sua sofreguidão pelo poder. Chávez e Morales se filiam a essa mesma tradição, procurando manipular os despossuídos em torno do ideário nacionalista, visando a harmonizá-los com a nação e a pátria amada, para lhes oferecer um troco para a sua auto-estima esculhambada.
O que significa isso? Que essa modalidade de liderança e discurso se apresenta por meio de uma figura paterna onipotente, que seria capaz de proteger os humilhados e ofendidos de seu desamparo secular.

Epopéia maniqueísta
Assim, o discurso se transforma numa epopéia maniqueísta, de tonalidade moralista, de retorno ao paraíso perdido do início do século 19, quando se empreenderam as lutas contra o jugo colonial. O projeto bolivariano de Chávez nos revela bem isso. O que se promete, porém, é que o pai da nação vai refundar o povo e o Estado, contra os vilões da pátria ultrajada e da terra arrasada.
Esse discurso não é novo na modernidade. Marx, no "Dezoito Brumário de Luís Bonaparte", já ironizava isso, enunciando a famosa tese de que a história se repete, inicialmente como tragédia e depois como farsa. Foi isso que foi encenado na Alemanha e na Itália, com a crise produzida após o fim da Primeira Guerra, dando ensejo à emergência do nazismo e do fascismo.
Na mesma onda, tanto Jean-Marie Le Pen quanto Nicolas Sarkozy estimulam hoje a xenofobia francesa contra os imigrantes, como resposta oportunista ao desamparo provocado pelo desemprego crescente, oriundo da globalização.
No que tange à nacionalização das reservas de gás e de petróleo, realizada na segunda passada por Evo Morales, na Bolívia, o que está já em pauta é o seu desgaste perante as massas -prometeu mais do que podia cumprir durante a campanha presidencial-, talvez na iminência da convocação da Assembléia Constituinte. Diante da possibilidade de perda dessa próxima eleição, nada melhor do que realizar um ato político espetacular, para alentar, quem sabe, a mal-ajambrada auto-estima dos bolivianos, quase descrentes.
Porém todas essas soluções autoritárias, que florescem na modernidade, são a contrapartida de um vazio produzido no centro do poder (Leffort). Com efeito, com a morte de Deus, com o assassinato do Pai do patriarcado e com o destronamento do Rei da tradição teológico-política, as massas marcadas pela orfandade -e que não conseguem exercer plenamente a sua soberania política- aceitam de bom grado a sedução autoritária.
Dessa maneira, alguém vai cuidar delas, e o vazio do poder será preenchido por um líder carismático, versão de um novo Deus e de um Pai onipotente. As massas, na sua servidão voluntária (La Boétie), podem, enfim, não entrar em pânico, como enunciava Freud, na "Psicologia das Massas e Análise do Eu", como efeito maior que se produz quando aquelas não mais acreditam no carisma de seu líder.

——————————————————————————–
Joel Birman é psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do RJ. É autor de "Freud e a Filosofia" (Zahar).

 
Viver, Mente&Cérebro
Edição Nº 160 – maio de 2006
DO ATAQUE À DEFESA
Lançamento de o livro negro da psicanálise e de o antilivro negro da psicanálise na França reacende debate sobre o legado de Freud, 150 anos depois de seu nascimento.

por C. Lúcia M. Valladares de Oliveira
.
Lançado em setembro de 2005, em grande estilo e com muita publicidade, merecendo capa no semanário Le Nouvel Observateur, O livro negro da psicanálise: viver, pensar e ir melhor sem Freud, como seu título indica, provocou indignação imediata.

A começar por Elisabeth Roudinesco, que imediatamente redigiu sua "Anatomia de um ‘livro negro’", resenha que circulou em diversos sites e idiomas, inclusive o português. Em seguida, vieram as reações de Jacques Allain Miller, Roland Gori, J.-David Nasio e outros tantos intelectuais, políticos, analistas anônimos, assim como analisandos perplexos ante uma expressão de tanto ódio. A indignação foi tal que, nas semanas que se seguiram, seus autores se viram obrigados a partilhar a cena dos programas literários com os mais diferentes representantes do movimento psicanalítico local.

Resultado: com tiragem inicial de 7 mil exemplares, cinco dias depois o livro já estava em final de estoque, enquanto a editora se preparava para lançar outros 5 mil, totalizando mais de 30 mil cópias em livraria até o final de 2005, além da cessão de direitos para seis países. Um sucesso de vendas relativo, se considerarmos a repercussão e a difusão que obteve, com espaço no noticiário do horário nobre da televisão, cuja conseqüência foi a de precipitar as comemorações dos 150 anos do nascimento do fundador da disciplina, em 6 de maio.

Segundo a organizadora, Catherine Meyer, o livro, dividido em cinco partes que reagrupam artigos de 40 autores de dez nacionalidades, tem por ambição reunir "especialistas em estudos freudianos" para oferecer aos "não-iniciados elementos para um debate que atravesse nossa época". E, em particular, questionar sobre o seu futuro.

Contudo, engana-se quem procura nele uma reflexão sobre a disciplina, um diálogo com os analistas ou ainda um confronto entre as teorias de Freud e as dos cognitivistas comportamentais que seus autores defendem. Trata-se claramente de promover uma campanha de denunciação, com o objetivo de desacreditar a psicanálise e colocar profissionais, chefes de escola e representantes de todas as correntes do movimento psicanalítico no banco dos réus: de Freud a Lacan, passando por Melanie Klein, Anna Freud, Bruno Bettelheim, Winnicott e Françoise Dolto.

Sua leitura é um desfile de ataques à disciplina que já conheceu tantos outros ao longo de sua existência: doutrina pansexualista, vienense, judaica; destruidora dos valores cristãos, da família ou ainda ciência burguesa, reacionária, conservadora – a lista é longa. Na realidade, não traz nada de inédito, nenhum arquivo novo, nenhuma nova "revelação" sensacionalista sobre a vida de Freud e de seus discípulos. Grande parte das mais de 800 páginas são artigos já publicados por historiadores da psicanálise da chamada corrente revisionista.

Surgida nos anos 80 e também conhecida como "The Freud wars", essa vertente se reivindica herdeira dos trabalhos do historiador Henri Ellenberger, o autor de The discovery of the unconscious: the history and evolution of dynamic Psychiatry, publicada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1970. Resultado de 20 anos de pesquisa em arquivos, deu início a toda uma revisão da história oficial do freudismo. Até então, essa historiografia se pautava pelo famoso modelo biográfico em três volumes, redigidos por Ernest Jones na década de 50, e era mantida pelos herdeiros na forma da lenda do mito fundador e na veneração ao pai, ao mesmo tempo que omitia e silenciava sobre todos os acontecimentos e personalidades que contrariavam essa imagem. Ellenberger, como assinala Roudinesco, responsável pelos seus arquivos, ainda que calcado num modelo evolutivo, foi o primeiro autor a introduzir o freudismo na longa história da descoberta do inconsciente e, dessa maneira, impulsionou toda uma historiografia erudita da psicanálise nos moldes e rigor acadêmicos.

Já esses autores, autonomeados revisionistas, reivindicam essa filiação mas adotam uma concepção totalmente diferente de Ellenberger.

Deturparam o sentido de sua obra para transformá-la em um empreendimento que visa "desmascarar" os mitos fundadores da disciplina que consideram um "embuste", um "fiasco".

A primeira parte do Livro negro dedica-se a demonstrar o quanto foram desastrosos os tratamentos efetuados por Freud que, além disso, não tinha nenhum escrúpulo em apresentá-los como um sucesso estrondoso, diz Hans Israels. Enquanto o filósofo Mikkel Borch-Jacobsen passa em revista todos os casos princeps dos Estudos sobre a histeria, assim como o caso Dora, o Pequeno Hans, o Homem dos Ratos e o Homem dos Lobos.

O mesmo tom se repete na entrevista concedida por Frank J. Sulloway, que retoma alguns dos principais aspectos de seu livro, Freud, biologist of the mind. Historiador das ciências e um dos principais expoentes dessa corrente revisionista, ele se dedica a revelar a essência biológica da psicanálise, faceta de Freud escondida pela história oficial.

Uma vez desvelada essa "face escondida", a segunda parte é dedicada à análise da trajetória do freudismo na comunidade científica e artística. O leitor, então, é contemplado com um panorama do que chamam de "ascensão e queda da psicanálise no mundo ocidental". Ficamos sabendo que, após ter conhecido um sucesso fulgurante na Europa e nos Estados Unidos, chegando a dominar o meio psiquiátrico nos anos 50, a psicanálise teria sofrido uma queda vertiginosa em todos os países na década de 90.

O sucesso pode ser imputado tanto ao processo de institucionalização rígido quanto ao seu método "fácil de ser praticado" e "ao alcance de qualquer pessoa que tenha terminado o curso secundário e lido alguns livros de psicanálise". Porém, desprovida de "método científico e argumentação racional", atualmente só estaria sobrevivendo em países atrasados, como a França e a Argentina e, assim, impedindo o desenvolvimento da psiquiatria nesses países.

Decididamente, poderíamos nos perguntar sobre os mais de 40 países em que o freudismo está implantado, expandindo-se inclusive no mundo árabe e islâmico, como Líbano e Marrocos, além da China, onde começa a dar seus primeiros passos. Porém, ignorando esses dados, os autores atribuem o sucesso da disciplina na França ao poder ditatorial que ela exerce sobre o mercado de trabalho e o mundo editorial, espaços hospitalares, departamentos de psicologia, imprensa e até mesmo o governo, como sustenta Patrick Légeron, que contrariando suas próprias afirmações, é psiquiatra do Hospital Sainte-Anne de Paris, e ex-presidente da Associação Francesa de Terapia Comportamental e Cognitivista (TCC).

Poderíamos perguntar: como ele conseguiu escapar a tal controle e assumir os postos que ocupa?

Na verdade, basta uma rápida leitura da ficha biográfica dos autores para constatar que muitos que se consideram "vítimas" do poderio psicanalítico são chefes de departamento de diversas universidades, de serviços psiquiátricos de diferentes centros hospitalares, e estão presentes no mercado editorial, além de assinarem estudos encomendados por órgãos governamentais.

Esse é particularmente o caso do psiquiatra Jean Cottraux. Diretor de uma unidade do Centro Hospitalar Universitário de Lyon, professor e fundador do programa de formação em TCC, Cottraux é um dos autores do polêmico relatório solicitado pelo Ministério da Saúde francês, em 2004, que, não por acaso, concluiu pela superioridade dessa clínica em face de outras práticas psicoterapêuticas. Ora, trata-se do documento publicado em meio ao debate sobre o projeto de legalização das psicoterapias em 2003, que mobilizou a comunidade psicanalítica local em favor da sua retirada. Documento que também está na origem da atual empreitada de destruição do freudismo na França, da qual este livro é a demonstração mais recente.

Não estamos, portanto, perante um esforço intelectual de reflexão "não sectária, pluridisciplinar, preocupada com o leitor e aberta à crítica", como pretende Meyer. Ao contrário, estamos diante de uma cruzada de destruição da psicanálise e em favor das TCCs.

Uma cruzada que continua na terceira parte, dedicada a apontar os "impasses da doutrina", que para eles não passa de uma "falsa ciência do psiquismo humano" e cujos enunciados e pressupostos escapam à demonstrabilidade. Para Frank Cioffi, a principal razão do seu pseudocientificismo reside na sua má-fé, na manipulação de dados e na própria mentira que sustenta esse saber. Entre outras, a descoberta do complexo de Édipo com base em falsas lembranças de sedução parental ou, então, nas curas jamais realizadas.

O interminável ajuste de contas não se esgota nas confissões de terapeutas, ex-analistas que, apesar de um dia terem caído na tentação da psicanálise, acabaram sendo salvos do perigo, obtendo a redenção por graça das terapias comportamentais. O cenário da diabolização continua na quarta parte, consagrada à história de pacientes vítimas da "incompetência" e dos "maus-tratos" de Freud e seus discípulos.

Historicamente, são retomados os casos dos discípulos "manipulados em nome da causa", tais como o de Tausk, "suicidado por Freud", ou então a própria Anna Freud, "aniquilada" pelo pai "violento", "incestuoso". Já na linha sucessória e repetindo os efeitos da publicação de Três ensaios sobre a teoria infantil, que valeu a Freud acusações de doutrina pansexualista em 1905, agora é a vez de Françoise Dolto. Uma das mais importantes clínicas de crianças, Dolto é acusada de ter "inventado a culpabilidade parental" e de ser responsável pela crise da família contemporânea. Com a cumplicidade da imprensa, ela teria divulgado teses que inviabilizaram a educação infantil e transmitiram uma "visão negativa das mães e de sua perversidade latente". O inventário das acusações acompanha uma série de depoimentos de ex-pacientes e sobretudo de familiares de pacientes autistas. Cabe ressaltar que, ainda que algumas dessas testemunhas sejam conhecidas por sua aversão à psicanálise, são pessoas que efetivamente passaram por experiências traumatizantes, marcadas por interpretações violentas, vividas como verdadeiras "sessões de tortura" e que resultaram em rupturas devastadoras. Testemunhos que reforçam ressentimentos ante uma escuta que não esteve à altura desses sofrimentos. Mas, a partir disso, servir-se de atuações de profissionais poucos escrupulosos ou incompetentes para julgar a profissão revela no mínimo total ausência de ética e sem dúvida atitude de má-fé.

Ora, esse livro é resultado da crença em um cientificismo capaz de responder à dinâmica do psiquismo humano, por meio de métodos terapêuticos com resultados rápidos, eficientes, mensuráveis e capazes de propiciar aos indivíduos alegria de viver. Como se o discurso da ciência fosse passaporte para uma suposta felicidade. Promessa, cabe lembrar, da qual Freud jamais foi signatário e cujo embuste Lacan nos mostrou no discurso da ciência erigido na religião.

Por que tanto ódio, tanta execração? É o que se pergunta Elisabeth Roudinesco, em um opúsculo publicado dois meses depois, com depoimentos do psicanalista e professor da Universidade de Aix-Marseille Roland Gori, dos políticos Jack Ralite e Jean Suer e do psiquiatra e professor Pierre Delion. Para essa autora, O livro negro se inscreve na longa história da detestação de Freud. Lembrando que ele sempre incomodou devido às suas teorias revolucionárias que varreram as certezas do sujeito que até então se acreditava dono da sua própria morada, ela afirma que essa atual investida testemunharia uma espécie de retorno do recalcado, cujos traços também estariam se delineando em outros debates do mesmo gênero neste começo de século.

Em meio à polêmica, foi lançado ainda no final de 2005 o trabalho da filósofa e escritora Catherine Clément, intitulado Pour Sigmund Freud. Um belíssimo livro, inteiramente ilustrado, em que a autora apresenta uma instigante leitura dos desejos, amizades, fraquezas e excessos daquele que considera "um gigante do pensamento contemporâneo". Em seguida, coube a ela coordenar o dossiê Histoire de la psychanalyse à travers le monde, para a edição de janeiro da prestigiosa revista Le Magazine Littéraire. Não por acaso, além da geopolítica da psicanálise assinada por Roudinesco, uma série de pequenos artigos comentam o seu desenvolvimento na França, Estados Unidos, Bulgária, Brasil, Índia, no continente africano, e demonstram o vigor da expansão do freudismo.

Do ataque à defesa, desde então a disputa vem ganhando proporções extraordinárias. Os debates na imprensa e as publicações não cessam e têm ritmo impressionante. Começando por dois dos autores de O livro negro, Mikkel Borch-Jacobsen e Sonu Shandasan, que lançaram Le dossier Freud: enquête sur l’histoire de la psychanalyse (Les Empêcheurs de Penser en Rond). Já do lado dos analistas, Jacques-Alain Miller reagiu com L’Anti-livre noir de la psychanalyse (Seuil), que reúne artigos de 40 membros da école da cause freudienne, optando por um "ataque frontal" e irônico aos profissionais da TCC. Enquanto isso, Tobie Natan, preferindo tomar uma via intermediária, organizou um debate com dez psicoterapeutas intitulado "La guerre de psy: Manifeste pour une psychothérapie démocratique".

Enfim, é em clima de guerra declarada envolvendo psicanalistas, adeptos da TCC e psicoterapeutas das mais diferentes tendências que ocorrem as comemorações do nascimento de Freud. Um cenário que confirma a tradição de uma disciplina que nesse país avança através de resistências e batalhas violentas.

Quanto a saber se ela continuará ou não a fazer parte do futuro, a questão permanece aberta. Renovar a clínica à escuta dos acontecimentos da contemporaneidade, dos novos sintomas colocados pelo social, sem se deixar cair na tentação de adaptar comportamentos e práticas, parece-me um caminho viável. Outro talvez seja reatar o diálogo com a psiquiatria, com o discurso da loucura, situando o da psicanálise entre a razão e a desrazão, que, como bem colocou Foucault, é o que faz dela uma disciplina autônoma.

Para conhecer mais
Le livre noir de la psychanalyse: vivre, penser et aller mieux sans Freud. Ed. por Catherine Meyer; artigos de Mikkel Borch-Jacobsen, Jean Cottraux, Didier Pleux, Jacques Van Rillaer et al. Les Arènes, 831 págs., 2005.
Pourquoi tant de haine? Anatomie du livre noir de la psychanalyse. Elisabeth Roudinesco. Navarin Editeur, 95 págs., 2005.
Dossier l’année Freud: histoire de la psychanalyse à travers le monde. Coord. por Catherine Clément, em Le Magazine Littéraire 499, págs. 28-61, 2006.
Pour Sigmund Freud. Catherine Clément. Éditions Mengès, 191 págs., 2005.
L’anti-livre noir de la psychanalyse. Coord. de Jacques-Alain Miller. Seuil, 288 págs., 2006.
Enquête sur l’histoire de la psychanalyse: Le dossier Freud. Mikkel Borch-Jacobsen e Sonu Shamdasani. Les Empêcheurs de Penser en Rond, 502 págs., 2006.
La guerre de psy: manifeste pour une psychothérapie démocratique. Tobie Nathan. Les Empêcheurs de Penser en Rond, no prelo.

O Autor
C. Lúcia M. Valladares de Oliveira, psicanalista, professora e pesquisadora do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, é autora de A história da psicanálise em São Paulo (São Paulo, Escuta/Fapesp, 2006).

 
Freud, o empregador
CRÔNICA, 28-05-2006
No mínimo, o pai da psicanálise deve ser reverenciado por, ao criar a psicanálise, ter sido um grande gerador de empregos e fonte inspiradora de muita arte.

João Soares Neto

Faz 150 anos que Sigmund Freud nasceu. Foi dele, médico de formação, a idéia de fazer do autoconhecimento, com a ajuda de um orientador, instrutor ou terapeuta, não necessariamente um médico, o caminho para o homem entender o seu viver.

E o fez de forma tão lúcida e objetiva que criou a psicanálise, uma mistura de conhecimentos filosóficos e científicos que tenta desvendar os porões humanos e explicar porque somos tão complexos. De Carlos Augusto Viana, professor de literatura, e um escutador compulsório de psicanalistas, ouvi que Freud foi um dos maiores empregadores da história, pois milhares são as pessoas que, a partir de seus ensinamentos, têm a psicanálise como profissão.

Por ser leigo e viver nas bordas do saber psicanalítico é que me dou o direito de divagar sobre tema tão complexo quanto apaixonante. E faço-o sem profundidade, tão raso quanto uma bacia. Muitos acreditam que o dito hermetismo na linguagem psicanalista pode ser interpretado, pelo menos entendido, como pedantismo ou forma de, através de jargões, criar um mundo especial só para os iniciados. Paralelo a isso ou como contraponto, tem surgido na literatura uma forma de tornar mais leve o aprendizado ou o caminho utilizado para, se é que possível, cuidar dos males que ensombram a alma humana. Não estou falando de livros de auto-ajuda, mas de romances.

Fiquemos em apenas um autor contemporâneo, certamente repudiado pela comunidade acadêmica da área: Irvin D. Yalom, psiquiatra, professor emérito da californiana Stanford University, que descobriu o filão de romancear a história da psicanálise. E o faz de forma didática, repetitiva, utilizando filósofos como Nietzsche e Schopenhauer como ganchos de seus personagens. Seus livros “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer” têm alcançado sucesso e despertado o interesse de leigos sobre o assunto. Querendo ou não, procura desmistificar as técnicas da psicanálise, embora ele seja apenas terapeuta.

Mesmo sendo acusado de superficial, Yalom é garoto propaganda da arte de curar a alma, missão quiçá impossível, pois “viver é sofrer”, como dizia o pessimista Schopenhauer que, paradoxalmente, só teve sucesso quando resolveu escrever de forma mais leve um livro de nome complicado (Parerga e Paraliponema) que trata da auto-estima, essa coisa tão intricada que é confundida com vaidade.

 

 

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: