Economy and Society II de José Porfiro – Specific

14 de março de 2007

PENSAMENTO DE FREUD

Filed under: Ciência — Porfiro @ 8:52 AM
LE MONDE
04/05/2006
Freud, o pensador das luzes sombrias, iluminou o pensamento do século 20

Após ter sida contestada, traída e desprezada, a obra de Sigmund Freud 1856-1939) não só foi reabilitada como ela se destaca hoje, também, como um pensamento ímpar sobre a condição humana

Elisabeth Roudinesco

Milhares de livros foram dedicados ao inventor da psicanálise e várias dezenas de biografias permitem hoje conhecer, nos seus menores detalhes, e muito além de toda lenda "rosa" ou "negra", a vida, os costumes e a história intelectual deste vienense paradoxal, pensador das Luzes sombrias, cuja obra – 25 volumes e uma imensa correspondência – foi traduzida em cerca de sessenta línguas.

Sofá onde Freud analisava seus pacientes visto na casa em que ele viveu em Londres

Fascinado pela morte e pelo sexo, mas preocupado em explicar de maneira racional os aspectos os mais cruéis e os mais sombrios da alma humana, Freud teve a idéia genial, em 15 de outubro de 1897, aos 41 anos, de remeter para a grande cena das dinastias trágicas da Grécia antiga o pequeno caso privado da família burguesa fim de século à qual se dedicavam na mesma época que ele todos os psicólogos especializados no estudo das neuroses.

"Cada um dos ouvintes aqui presentes", disse, "foi um dia, em germe, na imaginação, um Édipo que se apavora diante da realização do seu sonho transposto para a realidade". À figura de Édipo ele acrescentou a de Hamlet, o herói culpado, confrontado ao espectro de um pai reclamando sua vingança.

O fato de o complexo de Édipo – matar o pai e casar-se com a mãe – ter se tornado mais tarde, pela própria culpa dos psicanalistas, uma psicologia familista denunciada por numerosos filósofos nada tira da força de um gesto inaugural que consistiu em colocar o sujeito moderno frente ao seu destino: o de um subconsciente que, sem privá-lo contudo da sua liberdade de pensar, o determina à sua revelia. Uma revolução do senso íntimo, a psicanálise teve por vocação primeira de mudar o homem, mostrando que o "Eu é um outro" e que "o eu não é o senhor em sua moradia".

Freud foi tanto um pensador do irracional e da desrazão quanto um teórico da democracia apegado à idéia de que somente a civilização, isto é, a obrigação de uma lei imposta ao poderio absoluto das pulsões assassinas, permitia à sociedade escapar de uma barbárie desejada pela própria humanidade.

Em 1905, já em seus primeiros escritos sobre a sexualidade infantil, Freud foi odiado, primeiro, pelos expoentes de todas as religiões, que o acusaram de destruir os valores da moral, depois pelos adeptos dos nacionalismos, que enxergavam na sua teoria a expressão de um rebaixamento da soberania patriarcal, e, por fim, pelos representantes de todas as ditaduras, que o suspeitaram de semear a desordem nas consciências.

Vista como uma ciência "boche" (germânica no sentido pejorativo) pelos franceses; como uma ciência latina pelos nórdicos; como uma ciência degenerada pelos puritanos anglófonos, a psicanálise foi taxada de ciência judia pelos nazistas e, por fim, de ciência burguesa pelos stalinianos.

Durante a segunda metade do século 20, ela foi considerada como uma falsa ciência pelos expoentes das ciências duras, que a criticaram por ela não ser mensurável, e então, novamente, como uma ciência judia e comunista pela extrema-direita, e, por fim, como uma ciência satânica pelos islâmicos radicais. Alguém ainda duvida de que esta detestação permanente permanece o sintoma o mais poderoso da verdade subversiva da invenção freudiana?

Nascido em Freiberg-Pribor, na Moravia (hoje a República Tcheca), em 6 de maio de 1856, e batizado de Schlomo-Sigismund, Sigmund Freud era o filho de Amalia Nathanson e de Jakob Freud, e, portanto, o primogênito do terceiro casamento do seu pai, o qual exercia a profissão de negociante em lã e em têxteis. Do seu primeiro casamento, Jakob tivera dois filhos, Emmanuel e Philipp, que o jovem Freud considerava como tios ao mesmo título que os cinco irmãos do seu pai. Do casamento de Jakob e de Amalia nascerão ainda sete filhos: Julius, Anna, Debora, Maria, Adolfine, Pauline e Alexander.

Adorado pela sua jovem mãe, que o chamava de o seu "Sigi de ouro" e lhe predizia um destino brilhante, Freud foi criado numa família numerosa e recomposta dentro da qual ele ocupava um lugar de rei, reinando sobre irmãs que lhe eram todas devotadas e se sentindo tanto o filho dos seus meio-irmãos quanto o protetor do seu irmão caçula, e depois da sua mãe, quando o seu pai veio a falecer. Com isso, ninguém se espantará, conforme mostram alguns dos seus relatos clínicos, com o fato de que ele tivesse entendido melhor a rebelião dos filhos contra os pais do que a das filhas contra a sua família.

Em 1860, enquanto Emmanuel e Philipp emigravam para Manchester, Jakob, depois de vários reveses financeiros, se instalou em Viena. É nesta cidade da qual ele não gostava, mas onde ele viverá até 1938 que Freud seguiu seus estudos de medicina, apaixonando-se ao mesmo tempo pela biologia darwiniana, que servirá de modelo para todos as suas pesquisas.

A idéia segundo a qual a psicanálise não passa de um puro produto do espírito judaico vienense nada mais é que um clichê. E, contudo, é de conhecimento geral que os contragolpes da desintegração progressiva do Império austro-húngaro fizeram desta cidade, conforme sublinha Carl Schorske, um dos "mais férteis caldeirões de cultura a – histórica do nosso século".

Rejeitando as ilusões dos seus pais, que acreditavam nos benefícios do liberalismo, os filhos da burguesia se voltaram para uma nova busca de identidade. Judeus na sua maior parte, e falando várias línguas, eles sonharam, uns com a conquista de uma terra prometida, e os outros com uma possível regeneração do homem por meio do retorno aos grandes mitos dopassado: um projeto de um Estado judeu para Theodor Herzl, a desconstrução do ego para Hugo von Hoffmannsthal, a renegação ou a conversão para os intelectuais assombrados pelo ódio de si judaico, o culto de uma feminilidade transgressiva ou ainda, a "secessão" ou a inversão dos valores da arte clássica para Robert Musil, Arthur Schnitzler, Gustav Klimt ou Gustav Mahler.

Embora eles fosse alheio a esta modernidade, à qual ele preferia a arte do Renascimento ou da Antiguidade greco-latina, Freud foi marcado muito mais do que ele mesmo achava por este movimento, nem que seja na sua concepção de um subconsciente atemporal ou de um psiquismo estruturado em tópicos (o ego, o id, o superego) : "A ele deve ser atribuído todo o mérito", dizia Karl Kraus, "de ter conferido uma organização à anarquia do sonho. Mas tudo neles acontece como se estivessem ocorrendo na Áustria".

Em 1885, após ter sido nomeado "privat-dozent" (docente) de neurologia, Freud obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu mudar-se para Paris. Ele mal podia esperar então para conhecer o médico Jean-Martin Charcot (1825-1893), cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. Já celebrado no mundo inteiro, o grande mestre da neurologia francesa hipnotizava as mulheres do povo, internadas no hospital da Salpêtrière. Diante de uma platéia de intelectuais, ele fazia os seus sintomas desaparecerem e depois reaparecerem – paralisias ou contraturas – demonstrando assim que elas não eram de modo algum simuladoras. Em Nancy, Hippolyte Bernheim, o rival de Charcot, utilizava a sugestão com objetivos terapêuticos.

De volta a Viena, Freud casou-se finalmente com Martha Bernays depois de um noivado de cinco anos durante o qual ele havia vivenciado uma intensa frustração sexual, a ponto de mergulhar por vezes na neurastenia. Desta união nascerão seis filhos: Mathilde, Martin, Oliver, Ernst, Sofie e Anna.

No seu apartamento do 19 Berggasse, incentivado pelo seu amigo Josef Breuer (1842-1925, fisiologista e psiquiatra austríaco), ele começou a tratar jovens garotas e mulheres da burguesia acometidas de distúrbios histéricos

Buscando curá-las, ele utilizou os métodos aceitos naquela época:
hidroterapia, massagens, eletroterapia. Mas, após ter logo constatado sua total ineficiência, ele praticou primeiro a hipnose e a sugestão, e mais tarde a catarse. Foi a partir destas práticas que nasceu o termo de psico-análise, que foi empregado pela primeira vez em 1896 para designar uma cura pela palavra e por meio da exploração do subconsciente sem intervenção corporal nem sugestiva.

A publicação por Breuer e Freud, em 1895, dos "Estudos sobre a histeria" foi um evento. Neste trabalho, os autores apresentavam oito casos de mulheres, entre os quais o de Bertha Pappenheim (Anna O.), afirmando que todas elas haviam sido curadas da sua neurose. Hoje sabemos que tal afirmação não era exata. Mas a grandeza deste livro residia na utilização pelos autores de um estilo romanesco, despido de todo jargão técnico, e que conferia uma dignidade a mulheres anônimas descritas como as heroínas de uma aventura inovadora da psique humana.

Entre 1887 e 1902, Freud tornou-se amigo de Wilhelm Fliess (1858-1928), um médico berlinense adepto de teorias extravagantes. Ao longo das páginas desta correspondência que, por muito tempo, permaneceu expurgada, descobrimos de que maneira ele se interessou à bissexualidade; como ele nunca parou de duvidar dele mesmo; como ele delirou com a cocaína sem, contudo, renunciar ao seu tabagismo; e como, após ter suspeitado seu pai de ser um pervertido sexual que chegou a abusar dos seus filhos, ele abandonou sua teoria chamada de teoria da sedução real para adotar aquela da fantasia.

No decorrer desta experiência íntima, que acabou resultando numa ruptura violenta, Freud elaborou uma teoria original do sonho, da sexualidade, do recalque e do desejo. A partir de 1900, ele publicou todos os livros que fizeram dele um clínico fora do comum e o fundador de uma nova disciplina: "A Interpretação dos sonhos" (1900), "Psicopatologia da vida cotidiana" (1901), "Três Ensaios sobre a teoria sexual" (1905), "Os Chistes e a sua relação com o subconsciente" (1905), "Totem e tabu" (1912).

Em 1909, convidado para pronunciar cinco conferências na Clark University de Worcester, na Costa leste dos Estados Unidos, Freud obteve um sucesso triunfal falando sem notas, em alemão, e então dialogando em inglês com a platéia. Contudo, ele conservou desta experiência um preconceito desfavorável para com este país pragmático que havia recebido seus ensinamentos com uma ingenuidade desconcertante.

Preocupado em universalizar sua doutrina e acreditando poder protegê-la contra supostos desvios, ele fundou uma internacional, reunindo em volta dele um grande número de discípulos europeus: Sandor Ferenczi (Budapeste), Karl Abraham (Berlim), Ernest Jones (Londres), Carl Gustav Jung (Zurique), Raymond de Saussure (Genebra), Marie Bonaparte (Paris), Lou Andreas-Salomé (Göttingen). Após ter sido analisada pelo pai, a sua filha Anna tornou-se a sua mais fiel herdeira.

Longe de evitar as dissidências, esta iniciativa as favoreceu, e se a psicanálise conseguiu se implantar em todo o mundo ocidental, o preço a ser pago por isso foram inúmeros conflitos e excomunhões que mostraram que a cura pela palavra nunca conseguiu ajudar os psicanalistas a se entenderem entre eles e a dissipar suas querelas.

Depois da Primeira Guerra mundial e do desmoronamento do Império austro-húngaro, Viena deixou de ser a capital do freudismo, isso no mesmo momento em que médicos americanos se rendiam em peso a esta prática e procuravam se formar no divã do mestre. Foi naquela época que ele decidiu remanejar sua primeira teoria do subconsciente, postulando a existência de uma pulsão de morte própria da humanidade em si ("Além do princípio de prazer").

Esta revisão, que o conduziu a redigir suas mais belas obras de teórico da cultura ("O Futuro de uma ilusão", "O Mal-estar na civilização"), produziu-se no mesmo momento em que a sociedade vienense, já assombrada pela sua própria agonia, estava confrontada à negação radical da sua identidade, uma vez que ela não passava mais, segundo a frase de Stefan Zweig, de uma "centelha crepuscular" no mapa da Europa.

Em 1923, Freud descobriu do lado direito do seu paladar um pequeno tumor maligno. Seis meses mais tarde, ele foi amputado de uma parte do maxilar. Durante 16 anos, ele se submeterá a cerca de trinta operações mutiladoras. Infiel ao judaísmo, hostil a todos os ritos de vinculação à sua religião e/ou cultura, ele permaneceu, contudo, fiel à sua judeidade. Ele se considerava como um judeu ateu, universalista e de cultura alemã.

Em 1930, ele se pronunciou contra a criação de um Estado judeu na Palestina, sublinhando com lucidez que a questão dos Lugares santos estaria um dia no centro de uma querela insolúvel entre os três monoteísmos. A partir de 1933, ele assistiu, desesperado, ao exílio forçado rumo ao mundo anglófono de todos os seus discípulos da velha Europa continental, expulsos pelo nazismo.

Obrigado a deixar Viena depois do Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938), ele se instalou em Londres com a sua família, numa bela mansão, cercado pelos seus livros e as suas coleções de antiguidades. Foi lá que ele redigiu seu derradeiro trabalho, "O Homem Moises e a religião monoteísta", no qual ele afirmava que o ódio para com os judeus era alimentado pela sua crença na superioridade do povo eleito e pela angústia de castração que suscitava a circuncisão como signo da eleição.

Freud morreu em 23 de setembro de 1939, após ter pedido ao seu médico, Max Schur, para abreviar seus sofrimentos. Ele nunca soube do destino que seria reservado pelos nazistas às suas quatro irmãs, que desapareceram em meio às trevas da solução final.

 

 

Foha de São Paulo, MAIS! – 07-05-2006
MONOPÓLIO PSI
Catherine Meyer, organizadora do "Livro Negro", diz que a psicanálise perdeu boa parte de sua eficácia para as novas terapias e defende que a tradição católica pode explicar seu sucesso na França, Argentina e no Brasil

LENEIDE DUARTE-PLON
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

O Livro Negro da Psicanálise" ("Le Livre Noir de la Psychanalyse", ed. Les Arènes, 29,80, R$ 78), organizado por Catherine Meyer com textos de 40 autores, tenta jogar Sigmund Freud na fogueira.
A polêmica coletânea, que deve sair no Brasil ainda neste ano pela editora Record, aprofundou a batalha que se trava na França entre os adeptos das terapias cognitivo-comportamentais (TCC) e os defensores da psicanálise.
A mídia francesa dedicou-lhe um grande espaço logo depois do lançamento, em setembro passado, para o debate entre os detratores do freudismo e seus defensores. Entre estes, a historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco [leia entrevista na outra pág.] replicou com o livro "Pourquoi Tant de Haine? Anatomie du "Livre Noir de la Psychanalyse’" ["Por que Tanto Ódio? Anatomia do Livro Negro da Psicanálise", Navarin, 9,50, R$ 25], em que responde aos principais ataques.
O "Livro Negro" já vendeu 33 mil exemplares em francês e em breve também deverá ser publicado na Itália, Grécia, Espanha, Romênia, China e Brasil.
Na entrevista abaixo, concedida à Folha na sede de sua editora, em Paris, Catherine Meyer fala dos "perigos" da psicanálise.

Folha – Por que publicar um livro com textos de especialistas para combater a psicanálise?
Catherine Meyer – O livro é fruto de uma constatação dupla: a primeira é que a psicanálise na França é hegemônica. Nos meios de comunicação, se alguém da área psi é convidado a um programa, será invariavelmente um psicanalista. Nas universidades, de 21 faculdades de psicologia, 11 ensinam somente a psicanálise como sistema de tratamento psicológico.
A segunda constatação é que em outros países da Europa do Norte -como a Holanda e a Inglaterra- e nos EUA a psicanálise tem menos importância; não desapareceu, mas se tornou uma terapia como muitas outras. Resolvi me perguntar por que essa distância entre a França e os outros países, por que a França é o país mais freudiano do mundo, juntamente com a Argentina e o Brasil.

Folha – Por que esses três países foram mais permeáveis ao freudismo e ao lacanismo?
Meyer – Não encontrei a resposta para isso. A França foi impermeável à psicanálise por muito tempo -chamavam-na "science boche" (ciência alemã). Ela chegou aqui com 20 anos de atraso e avançou mais do que no resto do mundo. Há uma americana que escreveu um livro que tenta explicar isso como uma conseqüência do Maio de 68. Há razões complexas, como os jovens que faziam teses de sociologia, de literatura ou de filosofia, estavam sem emprego e procuravam uma saída. Tornar-se psicanalista foi uma saída para eles, na época.

Folha – Essa tese é um pouco caricatural e não explica por que razão Brasil e Argentina foram tão receptivos à psicanálise.
Meyer – É um pouco caricatural. O caso da Argentina é interessante porque apresenta a psicanálise como disciplina salvadora, como um muro de proteção contra a ditadura.

Folha – Ao contrário, se diz que ela não pode ser praticada sob regimes totalitários.
Meyer – Infelizmente, os nazistas encontraram psicanalistas que colaboraram. Não é tão simples.
Francamente, não sei explicar por que esses três países são os bastiões da psicanálise. Isso me faz pensar na teoria que diz que a psicanálise é importante em países católicos.

Folha – A senhora fez análise?
Meyer – Não. Mas o que queríamos discutir era: isso é verdade, é uma hipótese, isso foi demonstrado, a psicanálise é eficaz? Freud tem uma visão que foi importante, teve seu lugar na história das idéias, na sua época houve outras não distantes da sua, e hoje existem outras. Muitos disseram que o livro é das terapias cognitivas e comportamentais contra a psicanálise.
Mas, entre 40 autores, apenas nove são praticantes das chamadas TCC. Há também um etnopsiquiatra, a farmacologia não pode ser negada, há terapias sistêmicas, familiares. Queria apresentar um panorama de tudo o que existe de sério. Há muitas técnicas, e a psicanálise não é mais eficaz que as outras, e sabe-se que em certos casos ela pode ser perigosa. Nos casos de fobia, já se provou que as TCC são mais eficazes.

Folha – Em que casos ela pode ser perigosa?
Meyer – Ela pode ser ineficaz ou perigosa em casos de autismo. Infelizmente, ninguém pode tratar o autismo hoje, mas há alguns métodos que podem diminuir seus estragos. Para isso, é preciso estimular e permitir ao cérebro um certo número de conexões na criança ainda pequena. Tratar pela psicanálise é fazer essa criança perder tempo.
Por outro lado, alguém bipolar, maníaco-depressivo para a psicanálise, pode ser tratado por um certo número de moléculas reguladoras de humor. Alguém que apresente um risco de suicídio e vai se analisar, não sendo satisfatoriamente diagnosticado, pode correr grave risco se tratado apenas pelo psicanalista.

Folha – O "Livro Negro" não poupa Freud, acusado de mistificador, consumidor de cocaína, pai incestuoso, falsário, misógino, plagiador, charlatão, ávido por dinheiro, obcecado sexual e um marqueteiro hábil.
Meyer – A noção de pai incestuoso, que aparece no livro, é uma metáfora na pena do único psicanalista do livro, Patrick Mahony, que explica que Freud fez, em segredo, a análise de sua filha Anna, o que era contrário à regra. O que Mahony diz é que Freud praticou uma análise incestuosa. Evidentemente, não houve abuso sexual. Mas ninguém acusa Freud de incesto.

Folha – A senhora reconhece as contribuições da psicanálise no campo da saúde mental?
Meyer – Não dizemos que Freud era um mitômano que criou tudo. O problema é que a disciplina se tornou inatacável. Precisamos dizer que existe um verdadeiro problema epistemológico -isto é, tudo o que Freud descobriu foi no segredo de seu consultório, entre o paciente e ele, sem testemunhas. Logo, toda sua teoria repousa sobre sua boa-fé, sua honestidade intelectual. Nosso problema não é tentar verificar a moralidade de Freud, mas perguntar: essa teoria é comprovável?

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Onde encomendar
Livros em inglês ou francês podem ser encomendados, em SP, na livraria Cultura (tel. 0/ xx/11/3170-4033)

Cronologia
6/5/1856 – Nasce Sigmund Freud em Freiberg, na Morávia (hoje Pribor, na República Tcheca)

1860 – Depois de passar por Leipzig, a família Freud se estabelece em Viena

1873 – Entra na universidade local

1881 – Forma-se médico

1882 – Noivado com Martha Bernays. Freud começa a trabalhar na clínica psiquiátrica de Theodor Meynert

1884 – Inicia pesquisas sobre os efeitos medicinais da coca

1885 – Analisa pela primeira vez um de seus sonhos e inicia o "Projeto para uma Psicologia Científica", que permaneceu inconcluso

1886 – Casa-se com Martha. Começa a fazer consultas privadas

1896 – Cunha a expressão "psicanálise". Morre seu pai, Jacob

1900 – Sai "A Interpretação dos Sonhos"

1902 – Funda a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, reunindo em sua casa pesquisadores em psicanálise

1906 – Carl Gustav Jung começa a corresponder-se com Freud

1908 – A cidade de Salzburgo sedia o primeiro Congresso Psicanalítico Internacional

1913 – Depois de divergências, Freud rompe sua colaboração com Jung

1925 – Publicados os primeiros volumes das "Obras Completas" de Freud

1933 – Hitler torna-se chanceler do Reich alemão. Freud troca correspondência com Albert Einstein

1935 – É eleito membro honorário da Sociedade Real de Medicina britânica

1938 – A Áustria é anexada pelos alemães. Freud muda-se para Londres

23/9/1939 – Morre em decorrência de um câncer na boca

UM COMPLÔ ARCAICO
Renomada historiadora da disciplina, Elisabeth Roudinesco desqualifica a obra de Meyer, que considera mentirosa, mas também ataca a alienação dos psicanalistas atuais

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Elisabeth Roudinesco acusa os autores de "O Livro Negro da Psicanálise" de mentirem e deformarem a história dessa disciplina. A guerra contra Freud começou nos Estados Unidos há alguns anos; agora, a luta que opõe os discípulos de Freud aos psiquiatras e psicoterapeutas de diversas tendências chegou à França, onde logo após o lançamento do "Livro Negro", a historiadora da psicanálise lançou "Por Que Tanto Ódio? Anatomia do Livro Negro da Psicanálise".
Mas, segundo ela, sua resposta aos que criticam Freud e a cura pela palavra é seu livro "Por Que a Psicanálise?" (Jorge Zahar, 2000), publicado no fim dos anos 90, quando os ataques ao pai da psicanálise começavam a crescer nos EUA.
Nessa entrevista exclusiva, dada em seu apartamento em Paris, a autora de uma biografia de Lacan, da "História da Psicanálise na França" e do "Dicionário da Psicanálise" (ambos pela Jorge Zahar), em co-autoria com Michel Plon, analisa o "desejo de colonização" dos psicanalistas franceses e americanos e fala das novas formas de "fascismo ordinário", já denunciadas por Gilles Deleuze e Foucault, que ameaçam a liberdade no Ocidente. (LDP)

Folha – Como a sra. analisa "O Livro Negro da Psicanálise"?
Elisabeth Roudinesco – Ele não contém nenhuma revelação. É um livro sem interesse e que só teve impacto porque foi capa do "Nouvel Observateur" [revista semanal de mais influência e vendagem na França].

Folha – O que mais choca nele?
Roudinesco – Ele não me choca porque é um debate antigo. Mas não se trata mais de querelas historiográficas, teóricas e intelectuais. Um "livro negro" supõe um massacre de massa, um gulag da psicanálise, muitos mortos. Tentaram inventar mortos que não existem, sobretudo drogados mortos por causa da psicanálise, além de milhares de crianças terríveis por causa de Françoise Dolto [1908-88, psicanalista especializada em infância].
Os fatos são inexatos. Freud é apresentado como um mentiroso, um falsificador. O caso de um autor sério como Patrick Mahony é exemplar. Para explicar as pulsões incestuosas de Freud, ele publicara um texto sobre a análise de Anna Freud por seu pai, num livro sério, nos EUA. No contexto do "livro negro", a pulsão incestuosa se transforma em incesto de fato para o grande público. Também não é verdade que Freud era apegado a dinheiro. Não é verdade que ele era um escroque, não é verdade que mentiu. Ele era autoritário, teve problemas com seus discípulos. Mas não há nada de secreto em sua vida.
Além disso, esse livro desenvolve uma teoria do complô, do conspiracionismo, isto é, que os psicanalistas do mundo inteiro são um movimento de bandidos, de gângsteres, que ocupam lugares indevidos nas instituições. Fica difícil discutir com autores de mentiras.

Folha – "Por Que Tanto Ódio" é uma resposta ao "Livro Negro"?
Roudinesco – Não, trata-se apenas de um artigo que fiz na imprensa seguido de uma grande nota informativa. Não tive a intenção de fazer uma análise precisa dos textos do "Livro Negro". O livro que escrevi e que é uma resposta antecipada ao livro negro é "Por Que a Psicanálise?". Esse debate entre os que combatem e os que defendem a psicanálise já aconteceu nos EUA.

Folha – As críticas à psicanálise dizem respeito, entre outras coisas, ao seu caráter não-científico. A psicanálise é uma ciência?
Roudinesco – Nunca foi. O problema é que ela desperta, como Marx, como todo movimento de emancipação que perturba a ordem do mundo, um ódio particular. Hoje não podem atacar a revolução sexual, não podem mais acusar a psicanálise de ser uma pornografia.
Mas já tentaram tudo, acusaram-na de ser uma ciência judaica, de ser uma falsa ciência. Cada época, segundo sua ideologia, a acusa de alguma coisa. A tese segundo a qual ela é uma falsa ciência remonta a antes da Primeira Guerra, mas perdeu seu impacto hoje por causa da evolução da psiquiatria, que reintegrou o campo da medicina orgânica, passando ao domínio da psicofarmacologia e das neurociências.
Agora, volta o grande debate entre os defensores do psiquismo e os organicistas, que data do fim do século 19, e que volta com o progresso da genética e das neurociências, com a idéia de que se pode tratar da doença mental sem tratamento psíquico. A psicanálise continua um obstáculo que precisa ser destruído.

Folha – Pela farmacologia?
Roudinesco – O melhor ainda é o tratamento pela palavra, a psicanálise, mais a farmacologia. O que não é desejável é a ideologia farmacológica, a idéia de tratar apenas pela farmacologia. Por outro lado, há o comportamentalismo, onde não há clínica, que trata os sujeitos como ratos de laboratório. É o condicionamento, uma ideologia extremamente perigosa para a sociedade, independentemente da psicanálise.
Tem-se um exemplo disso na idéia de que, para tratar dos desvios sexuais, devem-se realizar castrações químicas ou cirúrgicas. É o que se chama intervenção sobre o corpo e o condicionamento. Nessa visão, tratam-se os sintomas por meios que excluem a evolução humana. Ou se continua a crer que a alma humana é aperfeiçoável, mas que não há o risco zero, e isso é uma ideologia progressista. Ou então é a barbárie.
Essas pessoas pensam que se pode prevenir a delinqüência com exames nas crianças de três anos. Parece ridículo, mas acreditam nisso. De um lado, os desvios sexuais, de outro as crianças. E nós no meio. Significa que todo mundo deve passar por controle para tentar ser normal. Mas o que é ser normal?

Folha – É o controle total do Estado sobre o cidadão?
Roudinesco – Sim, mas é normal que se controle o cidadão, que se lancem políticas contra o câncer. Mas até onde se vai? Será normal que um biopoder controle nossas emoções, nosso psiquismo, nosso afeto, que determine uma norma, que não se sabe bem o que é? A experiência com os criminosos e desviantes vai nos levar a refletir sobre o que querem fazer conosco. A partir de um momento, podem considerar que todas as pessoas que fumam são criminosas, criminosas contra elas próprias e contra o outro.
É um fascismo ordinário, de que Gilles Deleuze e [Michel] Foucault descreveram o mecanismo. Vivemos num mundo unificado, no qual a alternativa é o integrismo religioso. Estamos entre a pornografia e o misticismo, entre a pornografia e o puritanismo. Como penso que a democracia é perfectível, o combate de amanhã é recusar esses sistemas.

Folha – Esse é um dos combates da psicanálise?
Roudinesco – Sim, mas ela não o enfrenta, o que é uma pena.

Folha – Por que os psicanalistas não o enfrentam? Por que não se envolvem mais na política?
Roudinesco – Porque se tornaram reacionários, cometeram erros monumentais, não se ocuparam do social, não trataram de política, tornaram-se conservadores. Mas não conservadores como Freud, um conservador esclarecido. Transformaram-se em psicoterapeutas, antes desprezados por eles. Não se vai nem pedir que os psicanalistas sejam subversivos. Confundiram a neutralidade na cura com a neutralidade política. Eles não pensam mais os problemas da sociedade; e, quando o fazem, é com interpretações psicanalíticas absolutamente incoerentes.
Enganaram-se de debate com os defensores da ciência, pois, em vez de debater os problemas de sociedade, debateram com os comportamentalistas. Essa é a tendência americana. A metade dos psicanalistas americanos é de comportamentalistas. Foram eles que fizeram o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Os psicanalistas se transformaram em terapeutas comportamentalistas. E pensam que isso é ciência. Não estão mais imbuídos da força emancipadora do início, reforçada por Lacan, e da qual ainda temos vestígios na França, onde nos mobilizamos contra o comportamentalismo mais do que em qualquer parte. E por isso publicam esse livro negro.

Folha – Os autores falam de "deificação de Freud", de "hagiografia", a propósito da biografia de Ernest Jones ["A Vida e a Obra de Sigmund Freud", Imago], "de evangelho freudiano", de "peregrinação" a Viena e a Londres para conhecer as casas de Freud. Os psicanalistas seriam os discípulos de um novo messias?
Roudinesco – Essas críticas têm 50 anos de atraso. Nenhuma pessoa séria vive a psicanálise sob o ângulo de Jones. Eles acusam os psicanalistas de viverem na legenda dourada, talvez seja verdadeiro para alguns. Faz parte desse lado reacionário de que eu falava. Atacam Jones, mas esquecem trabalhos sérios sobre Freud, inclusive os meus, os de [Yosef Hayim] Yérushalmi, os de Peter Gay.

Folha – A psicanálise é vista como uma prática subversiva, de contestação da sociedade. Como praticá-la num país como a China ou sob qualquer totalitalitarismo?
Roudinesco – Não se pode praticá-la sob totalitarismos. Quando os antigos sistemas ditatoriais, totalitários, estão em via de desconstrução, começam os contatos.
É a mesma situação nos países do mundo árabe-islâmico.

Folha – Pode-se analisar alguém sem liberdade, sem democracia?
Roudinesco – Quando a palavra não é totalmente livre, não pode haver análise. Na China, há pouca coisa, menos que no mundo árabe-islâmico. Diria que os psicanalistas franceses têm um desejo de China que existe desde o maoísmo. É o sonho da China, sonho da Ásia, mais forte que eles. Só existe um psicanalista, em Chengdu, Huo Datong, objeto de todas as cobiças. Há alguns avanços da psiquiatria em Pequim. O que se passa hoje, entre os psicanalistas franceses, ocidentais e americanos, é que eles querem colonizar. É um desejo de colonização. Por isso, defendo sempre a independência.
Huo Datong fez algo muito bom, bastante independente. Mas esse é o caminho mais difícil. É preciso ao mesmo tempo ter relações com o estrangeiro e não ser colonizado, mas é muito difícil. Mas há hoje entre os psicanalistas franceses uma "chinomania". Os lacanianos têm o mesmo desejo de Oriente que Lacan. É uma identificação com Lacan, que foi ao Japão e que sonhava com a China.

A última muralha
Jason Lee – 26.set.2005/Reuters
Soldado chinês se perfila atrás de bandeira durante cerimônia em Pequim

Nação onde a psicanálise é ainda hoje uma "novidade radical", China tem o desafio de conciliar livre associação com censura política severa

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A China era o último continente virgem para a psicanálise. Mas os lacanianos franceses estão tratando de desbravar esse país imenso, ávido de conhecimento e de cultura ocidental, sedento de novidades. Foi na França que se formou Huo Datong, único psicanalista apto a exercer a psicanálise na China, o que faz dele um analista com 1,3 bilhão de clientes potenciais.
Mas é possível exercer a psicanálise num regime totalitário? O sinólogo e psicanalista francês Rainier Lanselle, "maître de conférences" em civilização e literatura da China clássica na Universidade de Paris 7, que já participou de inúmeros colóquios de psicanálise em diversas cidades chinesas, considera que só o futuro dirá se é possível fazer psicanálise na China.
Segundo Lanselle, a tradução da obra de Freud e Lacan é o grande desafio para chineses e franceses, que trabalham na criação de neologismos, recriando a língua chinesa para dar conta de conceitos totalmente novos. Mas a liberdade de expressão num país totalitário pode vir a ser o principal obstáculo para uma prática subversiva, que repousa sobre a livre associação de idéias.
Os encontros entre chineses e franceses de que Lanselle participou na China foram promovidos pela associação Psicanálise na China, fundada em 2003 por lacanianos de Paris, tendo à frente Erik Porge, autor de livros de psicanálise, analisando e discípulo de Lacan. (LDP)

Folha – Havia psicanálise na China?
Rainier Lanselle – Desde o início do século 20, a China procura se ocidentalizar, com a importação maciça de conceitos ocidentais em todos os campos. A modernização da China é a de um país totalitário que tem uma tradição totalitária, mas, diferentemente da Rússia, não tinha nenhum contato com o que se insere no domínio da psicologia e psicanálise. A psicanálise é uma novidade radical para a China, e essa novidade interessa aos chineses. Mas, como chegou aos poucos, o essencial da psicanálise não foi transmitido.

Folha – A psiquiatria chinesa não teve influência sobre a psicanálise?
Lanselle – A psiquiatria chinesa desenvolveu-se de maneira abrupta. Foi trazida por missionários americanos, um deles instalado em Cantão, que introduziu a idéia de doença mental, que não existia na China.
Depois, durante o período mais duro da China Popular, até os anos 80, a psiquiatria foi essencialmente soviética, preocupada com a ordem pública, uma psiquiatria na qual fica difícil separar a repressão do tratamento. Havia, pois, um tratamento psiquiátrico muito pouco voltado para a psicoterapia, uma psiquiatria essencialmente medicamentosa, feita para dopar o paciente.
Depois, houve uma virada: a psiquiatria chinesa passou da influência soviética para a influência americana, isto é, para o DSM ["Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", elaborado pela Associação Psiquiátrica Americana], a bíblia oficial da classificação das doenças mentais. Os chineses prezam muito as classificações e soluções medicamentosas e o lado readaptativo, no qual nos últimos anos começou-se a introduzir elementos da tradição, mas naquilo que têm de moralizante. Por exemplo: fala-se das perversões em termos morais -o perverso é visto como alguém que deve ser reeducado.

Folha – O interesse dos chineses pela psicanálise pode ser explicado pela descoberta da individualidade num país em que esta não tinha lugar até bem pouco tempo?
Lanselle – Vê-se realmente um interesse pela psicanálise no momento em que, sintomaticamente, vê-se surgir uma outra percepção do indivíduo na sociedade chinesa, sobretudo no direito. A China está organizando um Código Civil, um código dos direitos do cidadão, que corresponde às mutações por que passa o país nos últimos 25 anos, desde que se abriu para o mundo -o que fez surgir uma burguesia urbana, um enriquecimento geral, uma vida moderna, com todas as suas questões.
Tudo isso, somado a certas especificidades chinesas como o filho único, a cobrança particular de sucesso nos estudos, na universidade e uma enorme pressão profissional sobre o indivíduo, como existe no Extremo Oriente em geral. Há um enorme número de suicídios na faixa etária entre 15 e 35 anos.

Folha – O indivíduo na China é totalmente livre para fazer uma análise sem temer a censura ou o Estado onipresente?
Lanselle – Hoje, a psicanálise não é vista na China como uma ameaça. Não há ainda psicanalistas exercendo o trabalho como profissionais liberais. Há a questão do pagamento, do contexto institucional, da neutralidade, problemas profundos que se colocam para a psicanálise.
Se ela é um exercício no qual as associações de idéias devem ser totalmente livres e desinibidas, o que vai se passar num país onde, queira ou não, pode existir o medo da palavra totalmente livre? Será possível criticar tudo? Como fazer uma livre associação se alguém tem nem que seja 0,1% de suspeita que a pessoa que o escuta pode contar a alguém?
Nesse espírito, não há livre associação. Esse é o problema mais profundo da psicanálise.

Folha – O sr. diz que a China é o último grande continente a conquistar para a psicanálise. E essa conquista é um trabalho de titãs, a começar da tradução das obras de Freud e Lacan. Por que a tradução é um desafio enorme para os psicanalistas?
Lanselle – A China moderna já está marcada pelo surgimento de milhares e milhares de neologismos para enriquecer o contexto conceitual teórico da língua chinesa. A psicanálise também precisa criar neologismos. Mas o vocabulário já existente é muitas vezes impróprio. O problema é que os neologismos foram concebidos há muito tempo e fazem parte da linguagem corrente, mesmo comportando ambigüidades.

Folha – E o que falta para que compreendam?
Lanselle – Precisam fazer análise para que compreendam o aspecto estrutural do inconsciente e o aspecto estrutural do vocabulário que deve descrevê-lo. Hoje, quem traduz Freud e Lacan são pessoas que nunca fizeram análise nem conhecem a teoria psicanalítica e que se aventuram em traduções catastróficas.

Folha – O chinês é bastante plástico para a criação de neologismos?
Lanselle – O problema é que é plástico até demais. Mas criar neologismos pressupõe que possam ser compreendidos. Por exemplo, existem três palavras para designar o autismo. As pessoas não chegam a ver que existe um só conceito por trás dessas três palavras.

Folha – Na China, criticar os pais e os ancestrais é impensável. Como "matar" o pai simbolicamente, como fazer uma análise de fato em um contexto cultural tão distante do ocidental?
Lanselle – Realmente, não se sabe ainda se haverá condições de fazer psicanálise na China. Hoje, ela está em estado muito embrionário. O que é certo é que a gente encontra pessoas que têm vontade de falar de seus desejos, falar de si, o que é muito importante.
Mas não se pode saber se o que Datong faz é exatamente psicanálise. Penso que é algo que não se pode afirmar. Acho que ele tem uma posição de mestre em relação a seus discípulos, que são também seus analisandos. Pode-se sair do esquema tradicional da relação mestre-discípulo? Ora, a psicanálise subverteu isso. Lacan mostrou bem isso, o discurso do analista não é o discurso do mestre.
Logo, que se tenha vontade de dizer algo, que se tenha vontade de exteriorizar algo não quer dizer necessariamente que se faça psicanálise.

 

 

Folha de São Paulo, MAIS! 07-05-2006
O PENSADOR DAS LUZES OBSCURAS
Aproximando Grécia Antiga e vida burguesa, Freud propôs uma nova abordagem da psique humana e da cultura ocidental, em obras como "Totem e Tabu" e "O Futuro de uma Ilusão"

ELISABETH ROUDINESCO

Milhares de livros foram dedicados ao inventor da psicanálise e várias dezenas de biografias permitem hoje conhecer nos menores detalhes -além de toda lenda cor-de-rosa ou negra- a vida, a moral e a história intelectual desse vienense paradoxal, pensador das luzes obscuras, cuja obra (23 volumes e uma intensa correspondência) foi traduzida para 60 línguas.
Fascinado pela morte e pelo sexo, mas desejando explicar de forma racional os aspectos mais cruéis e mais obscuros da alma humana, Freud teve a idéia genial, em 15 de outubro de 1897, aos 41 anos, de trazer ao palco das dinastias trágicas da Grécia Antiga o pequeno tema privado da família burguesa do fim do século, de que se ocupavam na mesma época todos os psicólogos especializados no estudo das neuroses: "Cada espectador", diz [em carta a Fliess], "foi um dia no germe, na imaginação, um Édipo que se aterroriza diante da realização de seu sonho transposto para a realidade".
À figura de Édipo ele acrescentou a de Hamlet, herói culpado, confrontado com o espectro de um pai que exige sua vingança.
Que o complexo de Édipo -matar o pai e casar-se com a mãe- tenha se tornado mais tarde, por culpa dos próprios psicanalistas, uma psicologia familiarista denunciada por diversos filósofos em nada reduz a força de um gesto inaugural. Este consistiu em colocar o sujeito moderno diante de seu destino: o de um inconsciente que, sem privá-lo de sua liberdade de pensar, o determina sem que ele o perceba.
Revolução do sentido íntimo, a psicanálise teve por vocação primeira modificar o homem, mostrando que o "eu é outro" e que "o ego não é o senhor de sua casa".
Freud foi tanto um pensador do irracional e da desrazão quanto um teórico da democracia, ligado à idéia de que só a civilização, isto é, a restrição de uma lei imposta às pulsões assassinas, permitia que a sociedade escapasse de uma barbárie desejada pela própria humanidade.
Em 1905, desde seus primeiros textos sobre a sexualidade infantil, Freud foi odiado pelos defensores de todas as religiões, que o acusaram de destruir os valores da moral, depois pelos adeptos dos nacionalismos, que viam em sua teoria a expressão de um enfraquecimento da soberania patriarcal, e, enfim, pelos representantes de todas as ditaduras, que o consideravam suspeito de semear a desordem nas consciências. Ciência alemã para os franceses, ciência latina para os nórdicos, ciência degenerada para os puritanos anglófonos, a psicanálise foi taxada de ciência judia pelos nazistas e, enfim, de ciência burguesa pelos stalinistas.

"Sigi de ouro"
Na segunda metade do século 20, foi considerada uma falsa ciência pelos defensores das ciências concretas, que a criticavam por não ser mensurável, depois novamente como ciência judia e comunista pela extrema-direita e finalmente como ciência satânica pelos islâmicos radicais. Sem dúvida, esse ódio permanente continua sendo o sintoma mais poderoso da verdade subversiva da invenção freudiana?
Adorado por sua jovem mãe, que o chamava de seu "Sigi de ouro" e previa para ele um destino brilhante, Freud foi criado em uma família numerosa e recomposta, em cujo seio ocupava um lugar privilegiado, reinando sobre irmãs devotadas e sentindo-se tanto filho de seus meio-irmãos quanto o protetor de seu último irmão, depois de sua mãe, quando seu pai veio a morrer. Não é de surpreender, como mostram alguns de seus relatos clínicos, que ele tenha compreendido melhor a rebelião dos filhos contra os pais do que a das filhas contra sua família.
Em 1860, enquanto Emmanuel e Philipp migravam para Manchester, Jakob, depois de várias dificuldades financeiras, instalou-se em Viena. Foi nessa cidade, que ele não apreciava, mas onde viveria até 1938, que Freud fez seus estudos de medicina, apaixonando-se pela biologia darwiniana, que serviria de modelo para todos os seus trabalhos.
A idéia de que a psicanálise é apenas um puro produto do espírito judeu vienense decorre de um clichê. Porém sabemos bem que os contragolpes da progressiva desintegração do Império Austro-Húngaro fizeram dessa cidade, como salienta o historiador Carl Schorske [em "Viena Fin-de-Siècle", Cia. das Letras], um dos "mais férteis caldos de cultura anti-histórica de nosso século".
Rejeitando as ilusões de seus pais, que acreditavam nos benefícios do liberalismo, os filhos da burguesia voltaram-se para uma nova busca de identidade. Judeus na maior parte e falando várias línguas, eles sonharam com a conquista de uma terra prometida, outros com uma possível regeneração do homem pelo retorno aos grandes mitos do passado: projeto de um Estado judeu para Theodor Herzl, desconstrução do eu para Hugo von Hoffmannsthal, negação ou conversão entre os intelectuais habitados pelo ódio de ser judeu, culto de uma feminilidade transgressiva ou ainda "secessão" ou inversão dos valores da arte clássica para Robert Musil, Arthur Schnitzler, Gustav Klimt ou Mahler.

Organizador da anarquia
Embora estranho a essa modernidade, à qual preferia a arte da Renascença ou da Antigüidade greco-latina, Freud foi marcado muito mais do que ele mesmo supunha por esse movimento, haja vista sua concepção de um inconsciente atemporal ou de um psiquismo estruturado em tópicos (o ego, o id, o superego): "Cabe a ele o mérito de ter dado uma organização à anarquia dos sonhos", disse Karl Kraus. "Mas tudo se passa como na Áustria."
Em 1885, depois de ter sido nomeado "privatdozent" em neurologia, Freud obtém uma bolsa de estudos para Paris. Ansiava então encontrar Charcot, cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. Já célebre no mundo inteiro, o grande mestre da neurologia francesa hipnotizava mulheres do povo internadas no La Salpêtrière. Diante de uma platéia de intelectuais, fazia desaparecer e depois reaparecer seus sintomas, paralisias ou convulsões, demonstrando não serem simulações.
Voltando a Viena, Freud casou-se finalmente com Martha Bernays após cinco anos de noivado, durante os quais sentiu uma intensa frustração sexual, a ponto de às vezes mergulhar na neurastenia. Dessa união nasceram seis filhos: Mathilde, Martin, Oliver, Ernst, Sofie e Anna.
Em seu apartamento da 19 Berggasse, apoiado pelo amigo Josef Breuer, começou a tratar jovens e mulheres da burguesia afetadas por distúrbios histéricos. No desejo de curá-las, utilizou os métodos admitidos na época: hidroterapia, massagens, eletroterapia.
Constatando em pouco tempo sua total ineficácia, ele praticou primeiro a hipnose e a sugestão e depois a catarse. Daí nasceu o termo "psicanálise", empregado pela primeira vez em 1896 para designar uma cura por meio da palavra com exploração do inconsciente, sem intervenção corporal nem sugestiva. A publicação por Breuer e Freud dos "Estudos sobre a Histeria" foi um acontecimento. Os autores apresentaram oito casos de mulheres, entre eles o de Bertha Pappenheim (Anna O.), afirmando que todas haviam sido curadas da neurose.
Sabe-se hoje que isso não é exato. Mas a grandeza dessa obra residiu na utilização pelos autores de um estilo romanceado, despido de todo jargão técnico, e que dava uma dignidade às mulheres anônimas, descritas como heroínas de uma aventura inovadora da psique humana.
Entre 1887 e 1902, Freud tornou-se amigo de Wilhelm Fliess, um médico de Berlim adepto de teorias extravagantes. Ao longo das páginas de uma correspondência por muito tempo expurgada, descobrimos como ele se interessou pela bissexualidade, como duvidava sem cessar de si próprio, como delirou com a cocaína sem renunciar ao tabagismo e como, depois de ter suspeitado de que seu pai era um perverso sexual que abusava dos filhos, abandonou sua teoria chamada da sedução real pela da fantasia. Ao longo dessa experiência íntima, que concluiu numa violenta ruptura, Freud elaborou uma teoria original dos sonhos, da sexualidade, da negação e do desejo.
A partir de 1900, publicou todas as obras que fizeram dele um clínico incomum e o fundador de uma nova disciplina: "A Interpretação dos Sonhos", "Psicopatologia da Vida Cotidiana", "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade", "Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente", "Totem e Tabu".
Em 1909, convidado a pronunciar cinco conferências na Universidade Clark, em Worcester, na Costa Leste dos EUA, Freud teve um sucesso triunfal ao falar sem anotações, em alemão, depois dialogando em inglês com o público. Ele conservou, no entanto, um preconceito desfavorável em relação a esse país pragmático, que acolheu seus ensinamentos com uma ingenuidade desconcertante.
Desejando universalizar sua doutrina e acreditando poder protegê-la de supostos desvios, fundou uma internacional, reunindo ao seu redor diversos discípulos europeus: Sándor Ferenczi (Budapeste), Karl Abraham (Berlim), Ernest Jones (Londres), Carl Gustav Jung (Zurique), Raymond de Saussure (Genebra), Marie Bonaparte (Paris), Lou Andreas-Salomé (Göttingen). Depois de analisar sua filha, Anna, esta se tornou sua mais fiel herdeira.
Longe de evitar as dissidências, essa iniciativa as favoreceu, e, se a psicanálise conseguiu se implantar no conjunto do mundo ocidental, foi ao preço de conflitos e excomunhões que mostraram que a cura pela palavra nunca conseguiu ajudar os psicanalistas a se entenderem entre si e a dissipar suas querelas.
Depois da Primeira Guerra e do desmoronamento do Império Austro-Húngaro, Viena deixou de ser a capital do freudismo, num momento em que os praticantes americanos iam em grande número formar-se no divã do mestre. Foi nessa época que ele decidiu reformular sua primeira teoria do inconsciente, postulando a existência de uma pulsão de morte própria da humanidade ("Além do Princípio de Prazer").

Disputa entre monoteísmos
Essa revisão, que o levou a escrever suas mais belas obras como teórico da cultura ("O Futuro de uma Ilusão", "Mal-Estar na Civilização"), ocorreu exatamente no momento em que a sociedade vienense, já assombrada por sua própria agonia, se via confrontada com a negação radical de sua identidade, não sendo mais, segundo as palavras de Stefan Zweig, que "um clarão crepuscular" no mapa da Europa.
Em 1923, Freud descobriu no lado direito de seu palato um pequeno tumor maligno. Seis meses depois, ele teve amputada uma parte da mandíbula. Durante 16 anos sofreria cerca de 30 operações mutiladoras. Infiel ao judaísmo, hostil a todos os ritos de filiação, manteve-se no entanto fiel a sua condição de judeu. Ele se designava como judeu ateu, universalista e de cultura alemã.
Em 1930, manifestou-se contra a criação de um Estado judeu nos territórios palestinos, salientando com lucidez que a questão dos lugares santos estaria um dia no centro de uma disputa insolúvel entre os três monoteísmos. A partir de 1933, assistiu, desesperado, ao exílio forçado para o mundo anglófono de todos os seus discípulos da velha Europa continental, expulsos pelo nazismo.
Obrigado a deixar Viena depois da Anschluss [anexação da Áustria pela Alemanha], instalou-se com sua família em Londres numa bela casa, cercado de seus livros e de suas coleções de antigüidades. Foi lá que escreveu sua última obra, "Moisés e o Monoteísmo", na qual afirmou que o ódio contra os judeus era alimentado por sua crença na superioridade de povo eleito e pela angústia da castração provocada pela circuncisão enquanto signo de eleição.
Freud morreu em 23 de setembro de 1939, depois de ter pedido a seu médico, Max Schur, que aliviasse seu sofrimento. Ele nunca soube o destino que foi reservado pelos nazistas a suas quatro irmãs, desaparecidas nas trevas da "solução final".

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Este texto saiu no "Le Monde".
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Cinco casos clínicos de Freud

Anna O. (Bertha Pappenheim) – Paciente de Josef Breuer, teria demonstrado desejo sexual por ele, que rompeu o tratamento devido às implicações éticas. O episódio inspirou Freud a formular o conceito de transferência -a projeção de sentimentos derivados de impulsos infantis para um novo objeto

Sergueï Pankejeff – O caso do "homem dos lobos" está em "História de uma Neurose Infantil". De origem russa, Pankejeff sofria de neurose obsessiva. Seu pai tinha psicose maníaco-depressiva e a única irmã se suicidara. Freud descreve a importância, para o caso, de um sonho traumático com lobos que o paciente teve aos quatro anos

Katharina (Aurelia Kronich) – Nascida em Viena, seu caso foi descrito em "Estudos sobre a Histeria". Sentia a garganta apertada, como se sufocasse. Freud se interessou por ela a partir de sua experiência em casos em que a angústia era conseqüência do terror que jovens mulheres experimentavam "ao se defrontarem com a primeira revelação do mundo da sexualidade"

Dora (Ida Bauer) – Um dos primeiros grandes casos clínicos descritos por Freud, em que Ida Bauer tinha repetidos desmaios e manifestava o desejo de suicídio. Ele descreveu o caso como o de uma criança que observara a "cena primitiva" (relações sexuais entre os pais) e adoecido em conseqüência das masturbações que se haviam seguido

Emmy von N. (Fanny Moser) – Descrita em "Estudos sobre a Histeria", tinha alucinações com animais. De família aristocrática, causou escândalo ao casar-se com um industrial 42 anos mais velho que ela. Primeiro caso em que se usou o "método catártico"

As obras seminais

A Afasia (1891) – Além de investigar os distúrbios de linguagem provocados por lesões cerebrais e a relação entre os tipos de manifestação da afasia e as áreas lesadas do cérebro -relação que só vai ser confirmada durante a Primeira Guerra-, Freud discute as formas de representação de palavras e imagens na linguagem normal
Estudos sobre a Histeria (1895) – Fruto de estudos de caso realizados em colaboração com Josef Breuer, o livro traz a célebre história de Anna O. A mulher histérica de 22 anos teria sua identidade revelada décadas depois: era Bertha Pappenheim, amiga de Martha Bernays
Projeto para uma Psicologia Científica (1895) – Só foi publicado em 1950. Os manuscritos, parte da correspondência com Wilhelm Fliess, tinham como objetivo apresentar a psicologia como uma ciência natural, isto é, representar os processos psicológicos em termos de estados quantitativamente determinados de certas partículas
A Interpretação dos Sonhos (1900) – Obra fundamental da psicanálise, é sua primeira apresentação do sistema psíquico em conjunto. Ao invés de buscar quantificar os fenômenos fisiológicos cerebrais, Freud se concentra nos processos psíquicos: os sonhos têm sentidos latentes e, interpretados, levam à compreensão dos processos inconscientes. Apesar de ressalvar que os desejos particulares se manifestam nos sonhos de cada indivíduo de formas diferentes, Freud estabelece uma classificação de sonhos típicos
Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901) -Contrariando seu hábito até então, Freud deixa de lado as neuroses e focaliza o comportamento comum. Classificando as formas de esquecimento, o texto usa a idéia de "ato falho" para argumentar que o esquecimento e a troca de palavras não são acontecimentos aleatórios, mas se enraízam em processos inconscientes
Fragmento da Análise de um Caso de Histeria (Dora) (1905) – O caso de uma adolescente é apresentado em detalhes, constituindo um modelo para a prática psicanalítica freudiana. Analisando dois sonhos de Dora e avaliando seus sintomas histéricos, Freud identifica os traumatismos sofridos por ela e propõe soluções
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905) -Os três assuntos abordados são "aberrações sexuais", "sexualidade infantil" e "transformações da puberdade". Freud atualizou o texto em novas edições até 1924, o que sinaliza sua importância. É na segunda parte que aparece o conceito de fases do desenvolvimento psicossexual da criança (fases oral, anal e fálica)
Os Chistes e Sua Relação com o Inconsciente (1905) – A técnica dos chistes é comparada em sua estrutura às operações envolvidas no sonho. Assim, além de falar do mecanismo psíquico, do prazer e da distinção entre humor e ironia, retoma a teoria do inconsciente descrita em "A Interpretação dos Sonhos"
Delírios e Sonhos na "Gradiva" de W. Jensen (1907) – Carl Gustav Jung havia recomendado a leitura do romance "Gradiva", de Wilhelm Jensen, publicado em 1903, que tinha como ponto de partida um sonho. Freud interpreta a obra de ficção de acordo com os preceitos psicanalíticos
Totem e Tabu (1913) – Primeira aplicação dos preceitos psicanalíticos à psicologia social, a criação do conjunto de quatro ensaios foi estimulada, segundo Freud, pelos trabalhos de Wilhelm Wundt e Carl Gustav Jung
Psicologia de Massas e Análise do Eu (1921) – Aprofundando-se na psicologia coletiva, Freud busca fatores psíquicos que expliquem a coesão dos grupos sociais. O texto avança, em relação a "Totem e Tabu", na mecânica da libido envolvida nos grupos. Um fator de coesão encontrado é a identificação -os indivíduos de um grupo partilham de um mesmo ideal do ego
O Ego e o Id (1923) – Consagrada pela cronologia como a última grande obra teórica de Freud, trata-se de uma retomada dos conceitos psicanalíticos expostos anteriormente, dessa vez organizados em termos de níveis de consciência do indivíduo. A psicanálise passa a explicar o ego ("eu") como relacionado a três instâncias: o superego (que contém o "ideal do eu"), o id (que representa pulsões do indivíduo) e o mundo exterior (de que o ego tem percepção e julgamento)
O Futuro de uma Ilusão (1927) – Ao tratar do conceito de civilização, Freud propõe que a civilização se baseia na renúncia aos desejos instintivos. Discorrendo sobre poder e controle da maioria pela minoria, chega ao conceito de religião como neurose da civilização
O Mal-Estar na Civilização (1930) – Resposta a críticas a "O Futuro de uma Ilusão", o livro foi elaborado na fase em que Freud se preocupava com a própria saúde, agravada pelo câncer. O texto ajusta a analogia entre desenvolvimento individual e desenvolvimento da civilização
Moisés e o Monoteísmo (1939) – Escritos ao longo dos cinco últimos anos de vida de Freud, os ensaios aplicam os preceitos psicanalíticos a grupos religiosos. Ao discorrer sobre o surgimento do judaísmo e do cristianismo, Freud retoma o tema do parricídio: os judeus viveriam um sentimento de culpa relacionado à morte de Moisés
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A obra completa de Freud foi editada no Brasil pela Imago (tel. 0/ xx/21/ 2242-0627); a Jorge Zahar (tel. 0/xx/21/ 2108-0808) também lançou obras do psicanalista.

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