Economy and Society II de José Porfiro – Specific

14 de março de 2007

SOBRE BLOGs

Filed under: Teoria — Porfiro @ 8:55 AM
http://www.diplo.com.br
Le Monde Diplomatique, Edição brasileira, ano 4, número 44, agosto 2003
MÍDIA

A nova onda dos blogs
A Internet e o atual surto de ´blogs´ possibilita o acesso a outras verdades e opiniões além dos destacados pela imprensa. Além de sua influência no jornalismo, provoca-se uma nova ecologia da mídia conduzida pela comunicação horizontal

Francis Pisani*

A fórmula segundo a qual a primeira vítima da guerra é a verdade seria desmentida pela Internet? Graças à rede, agora é possível o acesso a outras verdades e outras opiniões. Uma pesquisa sobre o uso da Internet pelos norte-americanos durante a invasão do Iraque revelou que 55% deles trocaram mensagens eletrônicas sobre o assunto. Um número considerável de pessoas consultou fontes de informação alheias aos meios de comunicação tradicionais. A BBC britânica, considerada mais objetiva, viu as consultas a seu site aumentarem 47% e The Guardian, mais crítico, viu as suas aumentarem em 83%. Os fanáticos da Internet encontraram muitas vezes, graças aos blogs, a pista de informações que a grande imprensa dissimulava. Mas o que vem a ser, realmente, um blog?
Blog é uma abreviatura de weblog, que se poderia traduzir por “diário de bordo da rede”. Os neologismos provenientes dos Estados Unidos freqüentemente perturbam a nossa rotina lingüística, mas às vezes correspondem a novidades concretas. Os blogs são diários pessoais na Internet, mantidos por meio de aplicativos simples que permitem escrever um texto no computador e, desde que se esteja conectado, enviá-lo instantaneamente para que seja exibido numa página virtual criada com esse objetivo. Em geral, os blogs misturam informações com opiniões e muitas vezes são acompanhados por um link à fonte original, a um outro blog, ou a um artigo que o blogueador comenta ou para o qual quer chamar a atenção de seu público. O primeiro blog de que se tem conhecimento data de 7 de outubro de 1994 e é atribuído a Dave Winer, programador e criador de um dos aplicativos mais comumente utilizados em Manila, nas Filipinas.

Blogger cronista do The Guardian
Os warblogs, ou “diários de guerra”, nasceram depois do dia 11 de setembro de 2001, por iniciativa de comentaristas conservadores que desejavam uma abordagem ainda mais patriótica do que a que fazia a grande imprensa – considerada demasiado “liberal”, ou seja, demasiado de esquerda. Mas o recente conflito do Iraque permitiu que ganhassem um sentido mais geral e o termo acabou por significar os blogs dedicados à guerra do Iraque1.

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O mais célebre dos warbloggers é um iraquiano que atende pelo “pseudônimo blog” de Salam Pax2 (“paz” em árabe e em latim). Com um estilo cáustico, ele começou por criticar veementemente Saddam Hussein, em seguida os bombardeios e agora se dedica aos invasores norte-americanos. Salam Pax dá uma imagem mais viva da vida em Bagdá antes, durante e depois da invasão militar do que a maioria dos correspondentes estrangeiros. Tentaram tachá-lo de agente da ditadura e, depois, da CIA, mas a sinceridade de seu olhar atraiu para seu site um número de visitantes suficiente para paralisar (ou quase) os provedores que o hospedam. Os grandes jornais publicaram artigos sobre ele. The Guardian, de Londres, acaba de contratá-lo como cronista bimensal.

Fenômeno superestimado
Muitos jornalistas, presentes ou não no Iraque, também mantêm seus warblogs. Kevin Sites, da CNN, por exemplo, foi obrigado a interromper o seu por ordem da emissora. Outros warblogs tentaram reunir o máximo possível de informações sobre o conflito. Após ter convocado uma organização de apoio às tropas invasoras, manifestações pró-americanas (nos Estados Unidos) e “antifrancesas”, Blogs of War, por exemplo, prosseguiu sua luta criticando os manifestantes anti-G-8. Um outro, Warblogs:cc, reuniu vários links que remetem a inúmeros artigos sobre o conflito e aos “melhores warblogs”.
Apesar de tudo, não se deve superestimar a importância do fenômeno. O número de pessoas que consulta os blogs não é significativo. Um relatório do Pew Center revela o seguinte: “Os blogs suscitam um interesse crescente junto a um número restrito de internautas, mas ainda não constituem uma fonte de informações ou de comentários para a maioria dos usuários. Apenas 4% dos norte-americanos que têm acesso à Internet consultam os blogs em busca de notícias e opiniões. O número total é tão pequeno, que não é possível tirar conclusões estatisticamente significativas a respeito das pessoas que os utilizam3.”

Fontes variadas
O relatório avalia que o principal é que a Internet serviu de meio de acesso a fontes variadas (dentro dos Estados Unidos, os internautas eram mais favoráveis à guerra do que os outros). Mas acrescenta: “As pessoas que se opunham à guerra demonstraram um uso dos blogs ligeiramente superior àquele dos que eram favoráveis.”
A partir do relatório do Pew Center, Ross Mayfield, diretora-presidente da SocialText, uma empresa que produz um aplicativo que permite a criação de redes sociais, deduziu que o número de bloggers beira os 3 milhões. Em maio de 2001, eles eram 500 mil e, um ano depois, já eram um milhão. Recentemente comprado pelo Google, o Blogger.com – que funciona como site e como programa para a publicação de jornais eletrônicos – anuncia mais de um milhão de contas. Sua filial brasileira já tem mais de 300 mil…

Influência no jornalismo
O peso dos blogs está parcialmente vinculado à sua influência sobre os jornalistas. Já obrigaram os meios de comunicação a levar em conta temas que “não saíam” na imprensa, tais como os comentários racistas do ex-líder da maioria republicana no Senado, Trent Lott, que foi forçado a renunciar no outono de 2002. Principal colunista do San José Mercury e autor do primeiro blog escrito por um jornalista e publicado no próprio site do jornal, Dan Gillmore avalia, por seu lado, que “os atendem a uma necessidade fundamental: filtram a avalanche de informações e permitem localizar o material mais importante”. No entanto, não passam de uma pequena parte de um fenômeno muito mais amplo.
Pois os blogs são agora de domínio público. São publicados pelos grandes meios de comunicação (The Guardian4, MSNBC5). Dependendo do caso, pode se tratar de diários pessoais, de registros diários (tradução literal de log), de diários de bordo, ou de uma mistura de tudo isso que os interessados escrevem diariamente, e até de hora em hora. Podem ser individuais ou coletivos.

Comunicação horizontal
A forma ainda está sendo buscada na intersecção do íntimo e do público. Ela se complica diariamente com o surgimento, por exemplo, de photoblogs ou de moblogs, blogs móveis que podem ser alimentados por voz, por imagens ou por textos do tipo SMS, que podem ser captados através de um telefone celular. O tom pessoal e a presença de links que permitem ir diretamente à fonte do que menciona o autor – um contrabalançando o outro – são, sem dúvida, as duas características que, reconhecidamente, melhor definem o que é um blog (para o qual existem tantas definições quanto o número de bloggers).
O fenômeno se situa na linha estreita do que é a principal qualidade da Internet: a comunicação many to many, ou horizontal, como a distribuição eletrônica de mensagens e a distribuição instantânea. A “morte da distância” pesa menos do que a intensa comunicação entre pessoas que não se conhecem. O que distingue os blogs é o fato de tornar pública essa comunicação. O que convida a questionar se os bloggers seriam jornalistas.

Interatividade com leitores
A principal grande diferença do jornalismo tradicional está na ausência de um olhar externo antes da publicação de um artigo. Foi essa a conclusão a que chegou uma conferência realizada na Faculdade de Jornalismo da Universidade de Berkeley, em 17 de setembro de 2002. Não existe secretário de redação. Mas, devido à interatividade, os leitores podem ajudar. “Recebo mensagens eletrônicas sugerindo a correção de erros ortográficos”, contou Meg Hourihan, fundadora do Blogger.com.
Paul Grabowicz, que dá um curso sobre blogs em Berkeley, avalia que “coletivamente, os bloggers fazem algo que se parece muito a uma reportagem”, ainda que a forma seja mais próxima da crônica ou do editorial. “Os blogs”, diz Dan Gillmore, “fazem parte do mecanismo que conduz ao jornalismo”. E não pára de repetir: “Nossos leitores, ouvintes e espectadores sabem, coletivamente, mais, muito mais do que nós sabemos”. Com base nessa constatação, ele defende um jornalismo concebido mais como uma “conversa” do que como uma “aula magistral”. Editor do site Salon.com, Scott Rosemberg pensa que os blogs respondem a uma “espécie de economia do ego”. Publicar o que pensa e receber comentários fazem a pessoa “se sentir bem”.

Gestão de conhecimentos
Para Steven Johnson, ex-diretor da finada revista eletrônica Feed, “a verdadeira revolução prometida pelo surgimento da galáxia blog não tem nada a ver com jornalismo. Trata-se de gestão de conhecimentos”. E acrescenta: “O que torna os blogs interessantes é justamente o fato de não serem jornalismo.”
Não se deve confiar cegamente nos blogs – menos ainda do que na imprensa tradicional, que sabemos que mente e engana. Nos blogs, os erros são mais fáceis. Mas os links permitem aos leitores o acesso às fontes originais (que devem sempre ser verificadas) e constituem um fator importante de credibilidade.
A nova loucura dos blogs é tamanha que Dave Winer apostou com Martin Nisenholtz, dono do site do New York Times, que, dentro de cinco anos, eles teriam mais autoridade do que a nata da imprensa. A mídia, diz ele, “terá passado por mudanças tão profundas que as pessoas informadas irão procurar, nos blogs de amadores em que tenham confiança, a informação de que necessitam”. Winer não acredita que os jornais irão desaparecer, mas se interessa pela nova ecologia da mídia conduzida pelo surgimento da comunicação horizontal.

Publicação sem valor financeiro
Até o mundo dos negócios vem descobrindo os blogs. A Ideactif, uma empresa do Quebec que programa sites para a Internet, abriu um weblog coletivo em janeiro de 2000. “Ficamos permanentemente conectados à Internet”, escrevem, “e descobrimos freqüentemente informações que podem parecer úteis, suscitar a reflexão, ou simplesmente divertir. O weblog é um meio de partilhar conhecimentos de uma maneira simples e eficiente”.
Os blogs também podem servir para partilhar conhecimentos internos dentro de uma empresa. Segundo Amy Wohl, conselheira em informática, eles constituem “uma maneira agradável para os empregados de partilhar um mesmo meio de pesquisa, de análise e de seleção da informação”.
Daí a acreditar que eles permitam ganhar dinheiro é um passo. Andrew Sullivan, o mais conhecido dos bloggers, afirma ter passado “de 805 mil visitantes, em março de 2002, para 1,88 milhão em março de 2003”. Isso deveria valer dinheiro. Para ele, sem dúvida, mas não se deve ter ilusões. Segundo Clay Shirky, analista da Internet, a publicação de textos tradicionais cria o valor em função do trabalho que exige, mas também devido à seleção (fonte de originalidade) que implica. A Internet, de uma forma geral, e os weblogs, em particular, matam isso: “São um instrumento tão eficaz de distribuição da palavra escrita que fazem da publicação uma atividade sem valor financeiro.”

Dose de narcisismo e história fragmentada
Os bloggers bem-sucedidos podem esperar um pouco de publicidade, o apoio de um anunciante ou algumas contribuições voluntárias, mas sua reputação seria melhor reconhecida na forma de livro ou de crônicas num jornal tradicional. Quanto aos jornalistas empregados que têm um blog, raramente são pagos para fazê-lo.
Seria isso um drama? Nem pensar. “A destruição do valor é o que torna os weblogs tão importantes”, afirma Shirky. “Queremos um mundo em que não seja necessário ajuda ou autorização para escrevermos o que pensamos”. Cada blogger começa por se dirigir a um círculo restrito de amigos e colegas “no qual a participação da conversa constitui sua própria gratificação”. Ele incentiva a criação de novas redes de relações sociais.
Portanto, os blogs aparecem como uma forma de narrativa específica da Internet. Contam, com uma boa dose de narcisismo e a história global e fragmentada do mundo contemporâneo. Se os jornalistas escrevem o rascunho da história, os bloggers6 parecem ter encontrado um espaço para relembrar os primeiros passos…
(Trad.: Jô Amado)

* Jornalista, San Francisco.

1 – Consultar: http://www.blogsofwar.com/, http://www.blogsofwar.com/, http://www.warblogs.cc/ e
http://www.warblogs.cc/
2 – http://dear_raed.blogspot.com/ e http://dear_raed.blogspot.com/
3 -http://www.pewinternet.org/reports/pdfs/PIP_Iraq_War_Report.pdf e http://www.pewinternet.org/reports/pdfs/PI…_War_Report.pdf
4 – The Guardian Weblog: http://www.guardian.co.uk/weblog/ e http://www.guardian.co.uk/weblog/
5 – Weblogs da MSNBC: http://www.msnbc.com/news/809307.asp e http://www.msnbc.com/news/809307.asp
6 – Dois dos programas mais utilizados pelos bloggers são:
Blogger: http://www.blogger.com/ e http://www.blogger.com
MovableType: http://www.movabletype.org/ e http://www.movabletype.org

 

 

Folha de São Paulo, Dinheiro, 19-10-2005
LUÍS NASSIF

Blogs, fóruns e intolerância
A disseminação da internet, dos blogs (nos quais o leitor pode se manifestar) e das listas de discussão trouxe novos pontos para a análise da representação da sociedade civil no novo mundo virtual. Em países de democracia madura, esse fenômeno significou avanços significativos no desenvolvimento de novas formas de representação e controle do Estado, complementando a democracia convencional -na qual o eleitor é chamado a se manifestar apenas de tempos em tempos. O espanhol Manuel Castels escreveu obras seminais sobre o tema.
Mas como fica a opinião pública brasileira nessa nova era tecnológica? A classe média midiática -consumidora do chamado jornalismo de opinião- passou a se consolidar no Brasil há muito pouco tempo, porque muito recente é a urbanização brasileira, e parte relevante do período foi tomado pelo regime militar.
Hoje em dia, ter opinião sobre tudo e sobre todos passa a ser um imperativo do cidadão moderno. Mas colocar-se onde, em um mundo de tal complexidade, com tantos temas sendo apresentados e exigindo que o leitor se posicione? Esse dilema torna a opinião pública média bastante suscetível a posições radicalizadas -porque simplificadoras- e a movimentos de manada. Ficar a favor da onda formada confere poder à "minha" opinião, mesmo que não tenha nada de mais substancioso para fundamentá-la.
O maior desafio da mídia é como administrar as demandas desse bicho caprichoso que não chega a ter uma ideologia, que se move por impressões e procura sempre ficar a favor do vento e que trata a "sua" opinião como se fosse uma propriedade particular, intocável. Se o bicho quer sangue, deve-se atendê-lo? Se quer atropelar direitos individuais, deve-se saciá-lo?
O Brasil é uma sociedade com várias camadas arqueológicas. Uma das práticas mais arraigadas, herança das camadas mais anacrônicas, é a idéia da polêmica como um combate de gladiadores, em que vale qualquer arma, do sofisma à desqualificação do oponente, e sempre ter que ter um vitorioso de um lado e um adversário destruído do outro. A boa polêmica não traz vitoriosos. Há o contraditório, a apresentação de argumentos e contra-argumentos e, no final do processo, tem-se as duas partes confluindo para pontos comuns.
Nesse cenário, o que se observa é a fantástica capacidade dessas novas mídias de disseminar esse espírito de intolerância, quando o ambiente é de intolerância; da mesma maneira que disseminou a representatividade em democracias mais maduras.
Recebo e-mails de leitores escandalizados com manifestações de intolerância em fóruns de discussão, com ofensas postadas em blogs, com radicalizações de toda espécie. Os leitores que se chocam, em geral, são os mais bem informados, mas nem tenho idéia de quantos são estatisticamente.
Talvez o Brasil se constitua no primeiro exemplo a se contrapor a essa idéia da internet libertária e democratizadora. E as eleições do próximo ano vão acentuar esse espírito de intolerância.

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E-mail – Luisnassif@uol.com.br

 

 

bloglópolis

A Blogosfera Brasileira
http://bardo.cyaneus.net/node/302

Enviado por bardo em Ter, 2006-04-18 11:40. bloglópolis | Tecnologia
O cérne da blogosfera tecnológica brasileira hoje está discutindo alguns pontos interessantes:

Por que muitos blogueiros brasileiros de tecnologia não colocam link quando falam de assuntos relacionados a publicações nos blogs dos outros?
Por que na blogosfera brasileira, blogueiros não respondem posts de outros blogueiros através dos blogs?
Por que muitos blogueiros brasileiros não respondem e-mail ou comentários?
O que motiva os autores de blogs recentes?
É baixa a qualidade dos blogs técnicos brasileiros.
A discussão envolveu Henrique Costa, do Revolução Etc, o Leo Faoro, do 1/2 Bit, o do Contraditorium (blog que conheci esta semana, cujo autor desconheço quem seja) e, enfim, o pessoal do podcast Blogbits. E, provavelmente, outros blogs mais não citados aqui.

Apesar de não estar incluído neste cérne e de ter um híbrido (site/blog de tecnologia/arte), aqui segue minha opinião a respeito.

Faltam links
Da importância dos links, concordo plenamente. Não tenho visitado tanto blogs de tecnologia a ponto de notar falta de links (falta de links essa que muito me irrita em sites de notícias como o do Terra).

Quem vem de área acadêmica sabe que a bibliografia é importantíssima. É questão de etiqueta colocar link para os assuntos usados como base.

Resposta a Post com Post
Por que não se responde com freqüência usando posts também? Pois é… Uma boa pergunta… Acho que vou tentar reponder mais desta forma.

De qualquer maneira, há momentos em que o que se tem a dizer é muito pouco, bastando um comentário. Por outro lado, não há sentido em comentários de 10 parágrafos… Melhor posts…

Enfim, acho que tem-se que dosar estes casos. Mas que a resposta a post usando post é um recurso interessante e pouco usado (ao menos por mim), não resta dúvida.

Resposta a E-mails e Comentários
Todos querem a fórmula mágica pronta sem ter que aprender como fazê-la. E não é só na área de tecnologia não, infelizmente.

É um enorme bem social vocês atentarem para pedidos assim, de quem só quer o peixe pronto sem saber nada de pescaria e culinária (e sem querer pagar). e terem cuidado para não alimentar este ciclo vicioso.

Deixei de participar de algumas listas de discussão super-populadas porque toda semana aparecia alguém perguntando as mesmas coisas e sempre tinha gente respondendo as mesmas coisas…

Sobre não responder a comentários do próprio blog porque não leu, não sou a pessoa mais indicada para falar a respeito, especialmente por receber pouquíssimos comentários aqui. Mas convém filtrar e responder ao menos os de bom senso que deixem um questionamento válido.

Para e-mails, acho importante responder sempre. Se muita gente manda um código e diz "resolve pra mim", por que não bolar um texto padrão pra essas pessoas e responder sempre nesses casos? Não perde tanto tempo e quem mandou o e-mail vai saber que a mensagem chegou e ver porque não foi atendido. Afinal, ignorar não explica muita coisa…

Motivação
Ainda acho que muita gente faz blog só pra passar o tempo (raras vezes surge um bom) e para compartilhar conhecimento.

O retorno financeiro como objetivo final até de um blog – como citado no post do Blogbits – é algo lamentável. Claro que se pode tentar obter retorno financeiro de um blog, mas não ter isso como objetivo. Como disse o Caetano em Sampa, "da força da grana que ergue e destrói coisas belas".

Blogs de Baixa Qualidade
Conheço poucos blogs brasileiros de tecnologia (estrangeiros, menos ainda).

Reclamou-se nesses dias do que chamaram de reblog: ato de colocar só posts que saíram em outros cantos. Bom, acho que é válido também. É complicado querermos que todos os blogueiro se tornem profundos conhecedores de um determinado assunto, formadores de opinião e exímios redatores. Principalmente no momento em que se critica a falta do interesse pela leitura no brasileiro. Torna-se bastante contraditório isso.

Há quem prefira escrever ensaios filosóficos, outros notas comentadas, outros fast-food… E há quem goste de cada um desses tipos de escrita. Ademais, tal pode ser encarado como um passo inicial. Não se torna um expert formador de opinião da noite para o dia…

Conclusão
E o problema da blogosfera é o mesmo da sociedade, de modo geral: falta leitura. Falta interesse pela leitura. Não só de artigos técnicos, mas de textos que façam pensar.

Alguém sabe quando termina essa nova Idade das Trevas? Não peguei a programação na entrada…

–Cárlisson Galdino

 

Folha de São Paulo, MAIS!, 14-05-2006
A pornografia da opinião
Saturação de informações, ausência de visão totalizadora e dependência das velhas mídias põem em xeque expansão dos blogs nos EUA

TREVOR BUTTERWORTH

Numa manhã fria do ano passado -era outono, mas o clima era de inverno-, antes de as folhas das árvores se animarem a queimar e cair, os bárbaros penetraram pelo portão. Quatro jovens escritores ousados, conhecidos por milhões de leitores apenas por seus apelidos de blogueiros -Gawker, Gizmodo, Wonkette e Defamer- se reuniram em um estúdio elegante do distrito nova-iorquino de Chelsea para serem fotografados para a edição de fevereiro deste ano da "Vanity Fair".
Representavam a nata da Gawker Media [www.gawker.com], um miniimpério de blogs inteligentes, movidos a fofocas, criado em 2003 por Nick Denton, ex-repórter do "Financial Times". Mas também eram emissários das hordas de blogueiros, um exército irregular de jornalistas cidadãos determinados a derrubar a velha-guarda da mídia americana. A ironia era aguda: a Gawker supostamente zombaria desse tipo de ostentação de pessoas se mostrando como partes do establishment.
Mas a vitória era mais doce ainda: era um momento ímpar, uma bênção dada por uma revista que, mais do que qualquer outra, se tornou a cronista elegante do establishment das celebridades.
Como disse a "Vanity Fair" no artigo que acompanhou o ensaio fotográfico, "com uma combinação de redação inteligente e irreverente e de temas de baixo nível, tudo isso reunido em sites de design enxuto, a turma da Gawker está injetando um pouco de humor e diversão maliciosa em uma década na qual o humor faz falta". A impressão que se tinha era que a imprensa irreverente do século 21 de fato aparecera em cena.
A Gawker se tornou conhecida logo após surgir, quando sua primeira editora, a ex-analista de ações Elizabeth Spiers, publicou uma entrevista franca com uma jovem que trabalhava em Wall Street e que falou sem constrangimentos sobre a ética lamentável dos traficantes de cocaína em matéria de atendimento ao consumidor -aparentemente um problema sério para os escravos do mundo das altas finanças, obrigados a passar noites em claro trabalhando na época da entrega dos impostos.
"O vendedor perfeito de pó seria como um paizão", disse a entrevistada -um imigrante tendo que pagar colégio e faculdade para seus seis filhos, por exemplo, alguém que não se daria ao luxo de destratar seus fregueses. Era o tipo de informação que você dificilmente encontraria no "New York Times".

Minoria crescente
A representante da Gawker em Washington, Wonkette, conseguiu um furo ainda maior quando sua editora, Ana Marie Cox, escreveu sobre "Washingtonienne", uma funcionária republicana de 26 anos que, escrevendo sob pseudônimo, publicava um blog sobre seus relacionamentos sexuais, incluindo um com um funcionário da administração Bush, casado, que demonstrou sua gratidão dando a ela um envelope cheio de dinheiro em espécie.
Os leitores não demoraram a deduzir com quem a blogueira, Jessica Cutler, estava dormindo, ajudados pelo fato de que Cutler -que em vários momentos mencionou seu QI supostamente superior a 140- se referia a seus amantes por suas iniciais verdadeiras.
A sociedade bem-comportada de Washington, D.C., ficou horrorizada. Cutler foi demitida por fazer uso impróprio do computador em seu escritório, mas imediatamente conseguiu um contrato para publicar um livro (por uma cifra de seis algarismos) e um convite (que aceitou) para posar para a "Playboy" em tempo para a eleição de 2004.
Ela disse ao diário "Washington Post", em comentário memorável: "Todo mundo deveria ter um blog. É a coisa mais democrática que existe". De fato, ter um blog parecia constituir o caminho mais rápido para a fama, num país obcecado pela fortuna. Com a Gawker Media, os EUA pareciam ter ganho os tablóides que mereciam.
Neste momento, é possível que você esteja se perguntando o que diabos é um blog. Ao que tudo indica, até mesmo nos EUA, a superpotência da blogosfera, a maioria dos usuários da internet -62%, segundo pesquisa da Pew Internet e do Projeto Vida Americana- não sabe responder a essa pergunta.
Assim, para o caso de você integrar essa maioria, um blog costuma receber a definição um tanto quanto confusa de diário online -ou "weblog". Uma descrição mais precisa seria dizer que um blog é a maneira mais simples e barata de publicar um tipo de site cuja estrutura incentiva as anotações diárias, em estilo diário. A idéia decolou em 1996, com o "webring" -ou seqüência de sites interligados- da Open Pages.
Mas foi apenas quando sites como o Blogger (www.blogger.com), criado em San Francisco pela Pyra Labs, em 1999, ofereceram aos internautas espaço livre nos servidores e ferramentas para criar seus próprios sites que teve início o fenômeno muito mais difundido do "blogging" em escala generalizada.
É muito provável que você já tenha topado com um blog quando fez uma busca por algum tema específico na web, mas, para quem quer encontrar blogs que tratem de assuntos específicos, a blogosfera possui sua versão própria do Google sob a forma do Technorati (www.technorati.com), uma máquina de busca que rastreia blogs. Ou, então, você pode procurar o The Truth Laid Bear (www.truthlaidbear.com), que rastreia as visitas aos blogs mais populares. Outra alternativa é clicar em cima de um blog -por exemplo, o Instapundit (www.instapundit.com), se você tiver tendências conservadoras, ou o Daily Kos (www.dailykos.com), se você preferir os valores liberais-, o que o conduzirá a uma lista de links para blogs de pessoas de pensamento semelhante ao seu.
No final de 2002, existiam cerca de 15 mil blogs. Em 2005, 56 blogs novos eram lançados por minuto.

A conquista da credibilidade
Mesmo assim, o "blogging" não teria passado muito de uma receita para ainda mais tédio na internet se não tivesse sido visto nos EUA como ameaça direta à grande imprensa e às convenções pelas quais esta controla as notícias. E uma das convenções que, por acaso, funcionou em favor dos blogs foi a maneira como a mídia costuma tomar conhecimento de uma nova tendência e descrevê-la como revolução.
O aumento do "hype" em relação ao "blogging" foi ajudado pelo fato de muitos dos blogueiros mais conhecidos serem pessoas de destaque no establishment da mídia -gente como Andrew Sullivan, ex-editor da revista "The New Republic", ou Mickey Kaus, da "Slate", a revista on-line que a Microsoft vendeu à empresa The Washington Post Company há pouco mais de um ano.
O fato de jornalistas tão respeitados terem aderido aos blogs conferiu à revolução uma dose de credibilidade que ela talvez não tivesse se estivesse nas mãos de verdadeiros "outsiders". E então, logo antes da eleição presidencial de 2004, o "blogging" passou por seu momento "Encouraçado Potemkin", quando multidões de blogueiros partidários surgiram para derrubar o leviatã da CBS, Dan Rather, por este ter divulgado memorandos supostamente falsos sobre o serviço militar prestado pelo presidente dos EUA, George W. Bush, na Guarda Nacional.
Isso pareceu comprovar uma das maiores afirmações feitas em favor dos blogs: que a inteligência coletiva do público da imprensa era maior que a inteligência coletiva de qualquer jornal ou programa de notícias.

Onda irreprimível
O incidente também mostrou que a onda dos blogs era irreprimível, que o poder estava passando dos guardiões das portas da mídia tradicional para as mãos de uma sociedade de informação mais aberta e fluida, o que teria alegrado o coração do filósofo Karl Popper (1902-94). E solidificou a crença dos conservadores de que escrever blogs seria uma maneira de derrubar seus adversários de longa data na imprensa liberal, antes uma fortaleza inexpugnável.
Como escreveu em agosto passado no conservador "Weekly Standard" o professor de direito e apresentador de rádio Hugh Hewitt: "Seria difícil exagerar a rapidez com que avança a reforma da informação ou superestimar seu impacto sobre a política e a cultura. A grande imprensa tornou-se uma casca oca daquilo que já foi, em termos de influência, e, quando os anunciantes se derem conta de quem está lendo os blogs, a velha imprensa vai ver sua base de anunciantes fugir -e não será um processo demorado".
Michael S. Malone, que já foi descrito como "o Boswell do vale do Silício" [James Boswell, biógrafo escocês do século 18], disse que estamos assistindo à "aurora da mídia dominada pela blogosfera". "Daqui a cinco anos, a blogosfera terá se transformado num motor econômico poderoso, que terá praticamente relegado os jornais ao esquecimento, os quais (graças aos celulares que filmam) terá se metamorfoseado numa mídia de vídeo que concorre com o jornalismo televisivo e que terá criado um novo grupo de superestrelas e grandes empresas de mídia. Bilhões de dólares serão ganhos por quem tiver presciência suficiente para embarcar nesse bonde ou investir nessas empresas."
Mesmo um dos principais intelectuais públicos americanos, Richard Posner, que leciona direito na Universidade de Chicago e foi juiz superior de apelações dos EUA, afirmou que o "blogging" representa "o mais recente e possivelmente o mais grave desafio ao establishment jornalístico" (se bem que é digno de nota o fato de Posner ter optado por publicar sua reflexão no "The New York Times Book Review", e não em seu próprio blog).
Entretanto, como acontece com qualquer revolução, devemos nos indagar se estão nos vendendo um imperador nu. Será que o "blogging" é de fato uma revolução da informação? Será que ele está prestes a relegar ao esquecimento a grande mídia noticiosa? Ou não passa de mais um pote de ouro virtual -um equivalente espúrio àquelas espalhafatosas companhias novas abertas na internet alguns anos atrás, que supostamente iam erguer uma admirável "economia nova"?
Será que não devemos encarar com um pouquinho de ceticismo mais uma revolução da informação que chega tão pouco tempo após a última -especialmente porque, desta vez, ninguém está nem sequer fazendo de conta que está enriquecendo com ela? O problema da mídia hoje não é que mal temos tempo para ler um jornal? O que dirá passear pelos pensamentos de 1 milhão de blogueiros?

O poder dos dinossauros
Desconfio que sim e por várias razões, das quais não é a menor a capacidade surpreendente que possuem os "dinossauros" da velha economia de absorverem, adaptarem-se e evoluírem. Já estamos começando a ver blogs deitando raízes em jornais bem estabelecidos dos dois lados do Atlântico -embora poucos até agora tenham chegado ao ponto a que chegou o "News & Record", de Greensboro, Carolina do Norte, no qual, no ano passado, o editor, John Robinson, mandou seus repórteres se converterem em blogueiros.
Ele também convidou os leitores a fazerem as vezes de repórteres, eles próprios, arquivando suas próprias matérias, e ele mesmo escreveu seu próprio blog.
Alguns experimentos deram errado. Quando, no ano passado, o "Los Angeles Times" decidiu tentar deixar os leitores inserirem suas próprias idéias em seus editoriais online, o experimento terminou dias depois de imagens obscenas terem sido incluídas em seu site.
Mas, enquanto a velha mídia se esforça para apreender o significado da onda dos blogs, ouvir alguns dos heróis dessa "revolução" falarem hoje de sua insignificância é algo que, inevitavelmente, induz à reflexão. No final do ano passado, fui até o East Village, ao bagunçado apartamento de Choire Sicha, editor do "The New York Observer", um jornal semanal vibrante que cobre os ricos e poderosos de Manhattan.
Vestindo jeans e camisa cor-de-rosa e com a barba tão por fazer que parecia um dos Bee Gees na juventude, Sicha não nutre ilusões sobre o "blogging", embora seja isso que tenha ajudado a colocar a Gawker Media e ele próprio no mapa da mídia.
"A palavra blogosfera não tem sentido", disse ele. "Não existe esfera. Essas pessoas não estão interligadas. Elas não têm nada a ver umas com a outras." Ele explica que a promessa democrática dos blogs resultou em apenas mais fragmentação e mais segregação, numa época em que, pode-se afirmar, é muito mais importante enxergar a totalidade das coisas -justamente o ponto forte do que faz a velha imprensa.
Se a badalação em torno do "blogging" soa familiar é apenas porque, na verdade, você já ouviu tudo isso antes. Em Washington, a ruiva flamejante responsável pelo blog Wonkette, Ana Marie Cox, achou profundamente "déjà vu" a idéia das ameaças graves e das promessas grandiosas do "blogging". "As pessoas diziam o mesmo sobre os (fan)zines", ela falou. "Diziam isso também sobre a web de maneira geral. Devem ter dito o mesmo sobre o CD-ROM."
Se alguém deve acreditar verdadeiramente na revolução dos blogs, é Cox -mas ela não acredita. "Sempre vai existir um "New York Times". Nós, como cultura, gostamos de ter uma narrativa sobre a qual temos uma espécie de consenso. Você pode achar que isso é propaganda da elite liberal ou pode considerar que é a hegemonia conservadora das grandes empresas. Mas existe o consenso de que é bom contar com o "New York Times" porque precisamos saber que essa é a versão dominante da história, hoje. O jornalismo da TV a cabo cumpre a mesma função. Acho que a idéia deve ser de que alguém em Jacarta [capital da Indonésia] vai poder digitar no seu computador uma matéria sobre o que está acontecendo em Jacarta neste momento. Mas, sabe de uma coisa, acho que eu quero que haja um repórter profissional fazendo isso, também."
Sob muitos aspectos, foi a própria mídia americana, em todo seu isolamento farisaico, que provocou o surgimento do "blogging". Em 1993, Martin Walker, na época diretor da sucursal do "Guardian" em Washington, fez a observação cáustica e perceptiva de que era preciso ser velho para ser autorizado a ter uma opinião na imprensa de papel americana. Contrastando com a mídia européia, que teve sua origem no Iluminismo e na crença de que o jornalismo constitui um fórum de debates e discussões -até mesmo de filosofia, segundo David Hume-, a imprensa americana é uma criação do século 19 animada pela busca de informações factuais.
Espero que me perdoem a filosofia de botequim, mas o fato é que os blogs levaram o Iluminismo europeu aos EUA. Cada blogueiro era sua própria gráfica, exercendo espontaneamente sua liberdade de crítica. Isso é ótimo. Mas, em algum ponto do caminho, a opinião virou a nova pornografia na web.

Parasitismo
A lição histórica a ser tirada disso diz respeito à cíclica rebelião contra a mídia norte-americana por ser séria demais, enfadonha e fechada às transformações. De fato, a imprensa underground dos anos 1960 era descrita em termos quase idênticos aos usados hoje para referir-se ao "blogging". A rodada atual de demolição pode ter uma sensação de algo excitante e radicalmente novo, mas o "blogging" nos EUA não é reflexo do tipo de profunda transformação social e política subjacente à imprensa alternativa nos anos 1960.
Em lugar disso, o fato de os blogs dependerem da velha mídia para seus materiais traz à mente as pulgas de Jonathan Swift [escritor anglo-irlandês, autor de "As Viagens de Gulliver"] sugando outras pulgas "ad infinitum": para que o processo de alimentação possa ter início, é preciso que haja um hospedeiro em algum lugar. A idéia de que algum dia os blogs vão reinar no mundo da mídia representa o triunfo do otimismo sobre o parasitismo.
Está claro que esse não é o caso em outras partes do mundo. "Num mercado como os EUA, os blogs são superabundantes e muitas vezes irrelevantes, porque sofremos de um excesso de informação e já perdemos de vista as normas para a criação de hierarquias de informação", postulou Anne Nelson, consultora de mídia e professora adjunta na Faculdade Columbia de Assuntos Internacionais e Públicos.
"Em sociedades autoritárias, como a Síria ou a China, a situação é inversa -faltam informações independentes, e as pessoas podem questionar a hierarquia imposta.
Na verdade, como diz Nasrin Alavi em seu livro recente, "We Are Iran" (Nós Somos o Irã, Soft Skull Press, US$ 15,95, R$ 33), os blogs estão criando uma revolução da informação no país onde o regime teve sucesso espantoso no fechamento de jornais (41 fechados nos últimos dez anos). "Graças ao anonimato e à liberdade dos weblogs, os iranianos estão finalmente encontrando sua voz e discutindo questões nunca antes tratadas publicamente na mídia nacional", escreveu Alavi na revista "FT" em novembro passado.
"Recentemente, o chefe do Judiciário iraniano, aiatolá Sharoudi, descreveu a Internet como "cavalo de Tróia que carrega soldados inimigos em seu ventre". Ele tem razão. A blogosfera iraniana fervilha de oposição à revolução islâmica."
Sem dúvida o "blogging" sempre terá espaço como mídia alternativa em sociedades fechadas. Mas, para aqueles no Ocidente que tentam abrir caminho para negócios viáveis por meio de blogs, o aspecto econômico da equação é desanimador.
O problema inerente a esse fenômeno é o fato de que a marca do blog reside em indivíduos. Se esses indivíduos são ótimos escritores, é provável que alguém os atraia para fora de seus blogs com um salário melhor e a oportunidade de fazer um trabalho mais significativo. Se o escritor se cansa de seu trabalho e perde o pique, a marca pode desabar, juntamente com ele.
Para enfrentar a roda-viva exaustiva dos acréscimos intermináveis nos blogs, tanto o Gawker quanto o Wonkette hoje têm dois editores cada. Mas a economia de escala é tão grande que um segundo editor não vai modificar a produção a ponto de fazer dobrar o número de leitores ou a receita publicitária dos blogs. O segundo editor garante a segurança: checa a veracidade de boatos que, de outro modo, poderiam conduzir a processos judiciais capazes de acabar com o blog.
Quanto à receita publicitária, ninguém parece estar enriquecendo com o "blogging". De acordo com a "Advertising Age", Markos Moulitsas, fundador do Daily Kos, um dos blogs mais lidos no mundo, estava ganhando cerca de US$ 20 mil [R$ 43 mil] mensais pouco antes da última eleição presidencial [2004]. Quando perguntei a ele, por e-mail, quanto ele está ganhando agora, ele se recusou a responder: "Isso não é da conta de ninguém. Não sou uma empresa pública", falou.
Do mesmo modo, a Gawker Media e a Pajamas Media (um serviço de notícias em blog que inclui o site do professor de direito Glenn Reynolds, Instapundit, que recebe tráfego intenso) ou se recusaram a responder ou não forneceram cifras.
"Digamos apenas que ganhamos mais do que um engradado de cervejas, mas não o suficiente para podermos abandonar nossos empregos", disseram Heather Cocks e Jessica Morgan, as escritoras por trás do sarcástico e criativo Go Fug Yourself (www.gofugyourself.com), que aponta celebridades que apareceram usando roupas "assustadoramente feias". O blog atrai regularmente mais de 100 mil visitantes por dia, o que faz dele um dos blogs mais visitados na internet.
Um blogueiro que concordou em revelar suas finanças sugere que nem mesmo os sites com freqüência acima da média vêm rendendo fortunas. Andrew Lienhard ganhou US$ 1.100 no ano passado ao utilizar o serviço de anúncios do Google em seu blog, JazzHouston (www.jazzhouston.com), que está no ar desde 1996 e recebe cerca de 12 mil visitas diárias.
Depois de conversar com várias pessoas do mundo da nova mídia, foi possível estimar uma receita publicitária de US$ 1.000 a US$ 2.000 mensais para um blog típico que receba 10 mil visitas por dia e atraia um público nacional com temas populares, tais como política.
O problema é que poucos blogs têm tráfego tão intenso quanto isso. De acordo com um monitoramento conduzido pelo The Truth Laid Bear, apenas dois blogs recebem mais de 1 milhão de visitantes por dia e, depois deles, os números descrevem uma queda acelerada: o blog situado em décimo lugar em termos de hits recebe cerca de 120 mil visitas por dia, o 50º, 28 mil, o centésimo, 9.700, o 500º, apenas 1.400, e o milésimo, menos de 600.
Em contraste, a edição on-line do "New York Times" teve uma média de 1,7 milhão de visitantes por dia útil em novembro passado, de acordo com o índice Nielsen, e o jornal de papel alcançou 5 milhões de pessoas por dia útil, segundo pesquisa da Scarborough. Essa é uma razão pela qual os anunciantes continuam fiéis à grande imprensa.

O risco do tédio
A outra razão está ligada à própria razão de ser dos blogs. "Existe uma certa perda de controle quando se trata de anunciar em blogs", disse Mark Wnek, presidente do conselho e executivo criativo chefe da [agência de publicidade] Lowe, em Nova York. "O vínculo que a maioria dos jornalistas e cidadãos cultiva com seus leitores se dá por meio da liberdade de expressão franca, não-censurada, e isso pode constituir território bastante incômodo para um anunciante tradicional."
Os números fracos em matéria de acesso também apontam para outro segredinho comercial da blogosfera, algo que passa despercebido do juiz Posner e outros blog-evangelistas quando eles difundem a idéia de que o "blogging" cria condições para o florescimento de milhares de Tom Paines [1737-1809; usou a distribuição de panfletos como meio para apoiar a Independência dos EUA].
Como diz Cox: "Quando as pessoas falam da libertação da mídia de pijama e poltrona, elas tendem a desconsiderar o fato de que as vozes de mais alto volume na blogosfera pertencem a pessoas que têm experiência em escrever. Essas pessoas não precisam necessariamente ser jornalistas experientes, mas escrevem. Parte de sua vida profissional consiste em comunicar-se com clareza por meio da palavra escrita".
E nem todo blogueiro pode ser um Tom Paine. "As pessoas podem querer uma mídia democrática, mas não querem se entediar", diz Cox.
"Elas também querem se divertir e sentir que aprenderam alguma coisa. Querem idéias que sejam expressas com algum grau de clareza." E isso nos leva ao fantasma que assombra a blogosfera: o tédio. Se a pornografia da opinião não faz você ansiar pelo erotismo do fato, a imensa paisagem devastada da verborréia produzida pela natureza constante e implacável dos blogs constitui o maior impedimento a sua seriedade como meio de comunicação.
Para ilustrar esse ponto, perguntei a vários blogueiros se achavam que Karl Marx ou George Orwell, dois escritores políticos tremendamente potentes que também foram jornalistas, teriam escrito blogs, se houvesse essa possibilidade. E, em quase todos os casos, a resposta foi "é claro que sim, isso lhes teria proporcionado o maior público e o maior impacto possíveis".
Mas é claro que a pergunta foi uma armação. O grande crítico e editor Cyril Connolly caía em desespero diante da prolixidade dos escritos de Orwell durante a Segunda Guerra: "Pelo fato de ser Orwell, nada do que ele escreveu é inteiramente destituído de valor, e algumas jóias inesperadas aparecem a toda hora. Mas ó, tédio da argumentação sem ação, da política sem poder!".

Questão de tempo
Connolly era o oposto fundamental de Orwell: uma inteligência espirituosa e arguta dada à preguiça, um bon vivant barrigudo que desperdiçou sua genialidade.
Mas, na prática, ele reconheceu como Orwell teria sido terrível como blogueiro, como ele teria caído na espécie de refugo literário exemplificado por "In Defense of English Cooking" (ed. Penguin) do escritor: "Eis algumas das coisas que eu mesmo já procurei em países estrangeiros e não consegui encontrar. Para começar, arenques defumados, pudim de Yorkshire, creme de Devonshire, "muffins" e "crumpets". Depois, uma lista de pudins que, se eu a expusesse por inteiro, seria interminável -vou selecionar para menção especial o pudim de Natal, a torta de melado e os bolinhos fervidos de maçã. Em seguida, uma lista igualmente longa de bolos: por exemplo, o bolo de ameixas escuras".
O importante aqui é que qualquer escritor de talento precisa de tempo e calma para produzir trabalhos que tenham alguma chance de perdurar. Connolly garantiu essas condições a Orwell com a influente revista literária da qual era co-editor, a "Horizon", que proporcionou a Orwell a oportunidade de escrever alguns de seus ensaios mais memoráveis.
Quanto a Marx, o jornalismo era um ato de necessidade econômica, que, num primeiro momento, exigiu que Engels se encarregasse de toda a redação dos dois. Mas Marx era alguém que aprendia rápido e possuía humor inteligente. Em sua biografia rápida sobre ele ("Karl Marx", Record), Francis Wheen aventa a hipótese de que, "se tivesse tido tempo e mundo suficiente, Marx poderia ter se feito conhecer como o mais aguçado jornalista polêmico do século 19. Mas, às suas costas, ele sempre ouvia a voz causticante da consciência lhe sussurrando "é magnífico, mas não é a guerra’".
Para Marx e Engels, o jornalismo era trivial -um impedimento ao trabalho sério, memorável e, sobretudo, influente. "Escritos meramente pelo dinheiro", escreveu Engels, falando dos mais de 500 artigos que ele e Marx redigiram para o "The New York Daily Tribune". "Se eles nunca forem relidos, não tem importância nenhuma."
E é esse, em última análise, o destino triste do "blogging": ele torna o mundo ainda mais fugidio do que faz o jornalismo. Atrelado ao ciclo interminável das notícias e à necessidade de acrescentar texto a seus blogs quatro ou cinco vezes por dia, cinco dias por semana, o "blogging" se torna o que a cultura literária já teve de mais próximo da obsolescência instantânea.
Nunca haverá uma edição Modern Library dos grandes polemistas da blogosfera a amarelar sobre as estantes; nada, a não ser um túmulo virtual, aguarda 1 bilhão de mensagens divulgadas nos blogs -o coral dos blogueiros fartos da palavra, marinheiros solitários eternamente divulgando mensagens no mar de notícias que jamais adormece.

——————————————————————————–
Trevor Butterworth é pesquisador do Centro de Mídia e Assuntos Públicos, em Washington, e ex-editor do site de monitoramento da mídia http://www.newswatch.org
Este texto saiu no "Financial Times".
Tradução de Clara Allain.

 

http://www.estado.com.br/editorias/2007/09/02/ger-1.93.7.20070902.11.1.xml

O Estado de São Paulo, 02set2007

Credibilidade na blogosfera

Debate do estadao.com.br reuniu jornalistas, blogueiros e publicitários para discutir responsabilidade na internet

Marili Ribeiro e Renato Cruz

Há muito lixo circulando na internet. Mas separar o joio do trigo é tema recorrente em todas as mídias. Aflige não apenas blogueiros e jornalistas, mas também publicitários, independentemente do suporte usado por esses profissionais para se expressar.

Assista o debate

Debate ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’ (1)

Debate ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’ (2)

Debate ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’ (3)

Debate ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’ (4)

Debate ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’ (5)

Se é possível fazer uma síntese do debate ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’, promovido na quarta-feira pelo portal estadao.com.br, esse resumo giraria em torno dessa complexa questão.

Os nove convidados a participar da mesa de discussão – motivada por uma campanha publicitária do Grupo Estado que teve uma das peças criticada por blogueiros – concordaram que o fenomenal crescimento dos blogs, e sua infinita capacidade de multiplicar informações, vive um momento de reflexão.

A credibilidade de quem faz conteúdo, seja em que suporte for, é reconhecida como condição essencial para o exercício do uso da palavra em canais públicos de comunicação. ‘A gente luta para pôr no ar informação de credibilidade e vem uma campanha desqualificando o nosso trabalho’, disse o publicitário Carlos Merigo, autor do blog Brainstorm#9, resumindo a insatisfação dos blogueiros.

Para o diretor do Núcleo Digital do Grupo Meio & Mensagem, Marcelo Salles Gomes, dois aspectos são essenciais no universo de transição vivido pela sociedade com o advento da era digital. Além da inevitável força da credibilidade, há também a necessidade de os profissionais da área aprenderem a lidar com a nova forma de as pessoas receberem informações. ‘Foi-se o tempo em que se controlava a forma como as pessoas recebiam informação. A blogosfera é a representação dessa mudança’, enfatizou ele.

Uma consideração tão relevante que, como lembrou o jornalista do Estado, Pedro Doria, a blogosfera fora do Brasil já evolui no seu papel de difusor de informações relevantes e já chegou a derrubar figuras públicas. Doria lembrou ainda que a blogosfera foi usada por Nicolas Sarkozy, atual presidente da França, para acalmar a fúria dos jovens que incendiaram a França em 2005, quando ainda era ministro do Interior.

No Brasil, a blogosfera ainda não atingiu esse nível de importância e tentar entender o por quê é uma boa questão, na opinião do jornalista. O presidente do Interactive Advertising Bureau Brasil, Osvaldo Barbosa de Oliveira, acredita que a evolução será lenta. Há menos de 40 milhões de habitantes no País com condições de acessar a internet. ‘Mesmo assim aumenta o uso de redes sociais como forma de expressão e isso acabará por dar maior importância a esses canais de comunicação.’

Mais crítico do que os outros debatedores, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Gilson Schwartz considerou que a facilidade de veiculação trazida pela tecnologia aumenta a quantidade de informação, mas também baixa a qualidade e a relevância do que é divulgado na rede: ‘Existe um risco de a internet virar uma lixolândia.’

Edney Souza, analista de sistemas que, graças ao sucesso de seu blog InterNey.Net, se sustenta da receita que consegue com ele, concorda que há muito lixo na internet. Avalia,entretanto, que a falta de credibilidade é responsabilidade de quem não tem compromisso com o que escreve. ‘ Vai sobreviver na blogosfera quem tem algo a dizer’, afirmou.

Com essa avaliação concorda Bruna Calheiros, do blog Sedentário e Hiperativo. Um blog que divide com outros quatro internautas que, como ela, têm prazer em escrever, e que Bruna sequer conhece pessoalmente. Juntos eles contam vivências no blog conjunto e se falam apenas virtualmente. Para ela, ‘cabe ao leitor selecionar o que quer ler’.

O moderador do debate, Paulo Lima, diretor da Trip Editora, deu o tom à discussão. Ele acha impróprio no mundo de hoje dividir os profissionais de comunicação por segmento: ‘Estamos aqui porque estamos a fim de discutir o nosso tempo.’

ORIGEM DA POLÊMICA

Uma das peças da campanha publicitária criada pela agência Talent, para anunciar a nova configuração do portal do Grupo Estado, acabou gerando mal estar entre os blogueiros. Nas fotos acima estão dois momentos dos comerciais. O frame do filme à esquerda mostra um macaco que recorta notícias na internet e depois cola as informações. A peça, chamada ‘Blog do Bruno’, desagradou. O outro filme, chamado Ruivo continua em cartaz . O objetivo, como contou o diretor da agência, João Livi, era reforçar a importância da credibilidade na origem da notícia. ‘Não tivemos intenção de ofender ninguém’, disse ele durante o debate. Livi reconheceu que poderá corrigir alguns aspectos da campanha. ‘Porém a essência é essa mesma, é falar sobre credibilidade’, enfatizou. E, para demonstrar que a agência não tem nada contra blogs, Livi anunciou que, em duas semanas, entrará no ar o próprio blog da Talent. 

ARTIGO

Quem tem medo do hipertexto? (fechado, 02set2007)

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