Economy and Society II de José Porfiro – Specific

16 de março de 2007

BRASIL – FUTURO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:14 PM
10/3/2006
A urgência de um Projeto Nacional

a consultoria britânica PrinceWaterHouseCoopers acaba de divulgar relatório (1) no qual projeta que o Brasil será a quarta maior economia do mundo em 2050, atrás apenas de China, Índia e Estados Unidos, nessa ordem. O estudo da PWC confirma outro estudo (2), este de 2003, na qual o banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs, conclui que Brasil, Rússia, Índia e China (cuja junção é a sigla BRIC’s, analogia com o termo “brick”, tijolo em inglês) na soma de seu PIB em 2050 seriam maiores que as atuais 6 maiores economias capitalistas somadas (Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França e Itália).  

O novo estudo da PWC tem o sugestivo titulo “O mundo em 2050: qual será o tamanho das economias emergentes e como a OCDE poderá competir com elas?”. O da Goldman Sachs, dizia “Sonhando com BRIC’s: trajetória para 2050”. O da GS teve grande repercussão, pois sua conclusão expressa grandes mudanças na situação do mundo em quatro décadas – historicamente um curto espaço de tempo.   

A variável utilizada pela PrinceWaterHouseCoopers para chegar a esse resultado seria a de um crescimento médio do Brasil a uma taxa de 5,4% a.a. Já o estudo do GS projeta taxa média de 3,7% a.a. entre 2000 e 2050 para chegar a seus resultados. Não obstante estarem propostos índices relativamente baixos de crescimento do PIB para o Brasil em ambos estudos, observe-se que o país cresceu entre 1989 e 2005 a uma taxa média real de apenas 2% a.a. – ao qual descontado o crescimento da população observa-se um crescimento per capita de míseros 0,4% a.a. (3) 

Os estudo da GS e da PWC trazem a tona uma discussão de fundo relacionada a qual o projeto nacional que o Brasil deve levar adiante, visando efetivar sua potencialidade.  

Estudo do Professor Reinaldo Gonçalves (4), da UFRJ, faz lembrar a distancia (ou o hiato) entre o poder potencial do Brasil e o poder efetivo, creditando todavia um baixo poder efetivo a nossa vulnerabilidade externa nas diferentes dimensões das relações econômicas internacionais (mas esferas comercial, produtiva, tecnológica e monetária e financeira). Pela metodologia utilizada pelo Professor, o Brasil é ao mesmo tempo o 5º país com maior potencial do mundo ao mesmo tempo em que é o 17º país com maior vulnerabilidade externa do planeta.  

Poderíamos agregar ao estudo do Professor Gonçalves outra dimensão da vulnerabilidade externa, a ideológica. Na visão do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, é “a mais importante, pois influencia todas as políticas e atitudes do Estado e da sociedade brasileira”. Continua o Embaixador dizendo que “a consciência colonizada se expressa em uma atitude mental timorata e subserviente, que alimenta sentimentos de impotência na população, ao atribuir as mazelas brasileiras à escassez de poder do Brasil, à incompetência brasileira, ao nosso caipirismo, ao arcaísmo social, à xenofobia, etc. enfim, à nossa inferioridade como sociedade” (5). É a cabeça colonizada de nossa elites, historicamente  subserviente com os paises ricos e fortes e arrogante com os países vizinhos e em desenvolvimento.  

Essas múltiplas dimensões de vulnerabilidade nacional – ou de ausência de projeto nacional – precisa ser enfrentada urgentemente pelo povo brasileiro, como forma de superar as limitações e afirmar sua imensa potencialidade nacional – confirmada, ademais, por outras variáveis fundamentais, como território, povo laborioso e abundância de riquezas naturais e minerais.  

É fato: o fato de estarem a frente do governo nacional forças populares, democrática e patriótica tem criado condições para uma trajetória, expressa nesses 38 meses transcorridos desde a posse de Lula, que pode caminhar para um novo modelo de desenvolvimento, numa grande transição em parte já iniciada nesse governo. Não obstante, a ausência de um projeto de país, segue gerando prejuízos ao nosso futuro enquanto nação. Dois exemplos recentes e em curso: 

– A empresa chinesa Chongqing Lifan Group, uma das maiores fabricantes de motocicletas do país é a única participante da licitação para adquirir a Tritec Motors, fabrica de motores de alta tecnologia para carros criadas numa joint venture entre a BMW e a Chrysler em Campo Largo, interior do Paraná. A operação, que envolveu até um membro do Comitê Central do Partido Comunista da China (6), será efetivada com a desmontagem da fabrica, seu transporte à China “peça por peça” e então remontagem. Nada contra os chineses, zelosos de seus interesses nacionais. Tudo contra a falta de visão estratégica, de longo prazo existente no Brasil. Afinal, diz a reportagem citada, “qualquer tentativa de adquirir fabrica semelhante nos Estados Unidos estaria sujeita a bloqueio. Mas Yin disse que o Brasil não tem restrições comparáveis à exportação de alta tecnologia” (6). 

– Um segundo exemplo bastante atual que revela falta de visão de longo prazo e de projeto nacional são as ameaças de retrocessos na política de comércio exterior do Governo Lula –

onde, a propósito, se acumulam conquistas, para o Brasil e para a América Latina/Países em Desenvolvimento, como a interrupção da Alca e a crição do G-20 na OMC. Ocorre que nesse momento estão em curso tentativas de miná-las, por incrível que pareça, desde dentro do governo. É o caso, por exemplo da recente redução unilateral de tarifas de importação  provocada pelo Ministério da Fazenda na Camex (Câmara de Comercio Exterior) sob o argumento de “conter inflação”. Outro é a possível abertura do mercado de serviços aos europeus em troca das suaves concessões agrícolas sinalizada pelos europeus nas negociações da OMC (7). 

 A Globalização saindo da moda 

Esses exemplos de falta de planejamento de longo prazo e de projeto nacional são graves, ainda mais num momento em que o liberalismo dá nítidos sinais de fadiga e desgaste. Vários sintomas apontam para isso. A The Economist desta semana traz um “inventário” de iniciativas de distintos governos pelo mundo que fazem cair por terra as empolgações neoliberais dos anos 90, num editorial ironicamente chamado “Copiando as anotações de Karl Marx”. Transcrevo um trecho traduzido a seguir:  

“Nas últimas semanas temos visto os políticos (norte) americanos atacando a compra de (seis portos norte-americanos) por uma empresa de gerenciamento de portos, a DP World dos Emirados Árabes Unidos, e proposto novas barreiras para os compradores de propriedade estatais; o primeiro-ministro francês Dominique de Villepin, acertou apressadamente uma fusão entre uma empresa de gás estatal, a Gaz de France e outra grande concessionária privada, a Suez a fim de impedir a aquisição desta por uma empresa italiana, e propôs outras medidas contra venda de empresas nacionais; o governo espanhol tentou bloquear a concorrência entre uma firma alemã e a Endesa, um concessionária espanhola; o governo polonês proibiu uma aquisição pela Itália de um Banco alemão porque a concorrência envolvia subsidiarias polonesas; políticos da Coréia do Sul esbravejaram contra a tentativa norte-americana de comprar a KT&G, anteriormente um monopólio estatal de tabaco e ginseng; já os governos da França e de Luxemburgo, juntos, tentaram desestimular a compra da empresa franco-belgo-luxemburguesa Arcelor, pela maior empresa metalúrgica do mundo, a Mittal” (8) 

Por um Projeto Nacional que confirme a potencialidade do Brasil 

Encerro esse curto texto com um exemplo positivo de como devemos (e podemos) conceber as relações nacionais a partir da prioridade para a questão nacional. Trata-se do debate atual sobre a implementação da TV digital no Brasil.  

Segundo a imprensa divulgou nessa semana, o Brasil teria optado pelo padrão japonês (ISDB) contra as alternativas européia (DVB) e norte-americana (ATSC). Dentre outras razões técnicas a razão fundamental da decisão se deu em função do compromisso dos japoneses em instalar uma fabrica de semicondutores no Brasil, de altíssima tecnologia.  

Eis um exemplo de utilização da oportunidade para fazer política industrial. Segundo a imprensa, a Fabrica de Semicondutores gerará investimentos entre US$ 1 e 2 bilhões, e poderia reduzir substancialmente o déficit na balança comercial de componentes, que atualmente é de US$ 7,5 bilhões, dos quais somente o setor de semicondutores é responsável pó US$ 2,5 bilhões desse total (9). Recordo que a instalação de um setor de semicondutores do país é uma dos quatro objetivos da Política Industrial do Governo Lula (os outros três são fármacos, software e bens de capital). 

A vitória das forças avançadas nas eleições desse ano, e assim, um segundo governo Lula será fundamental não apenas para seguir adiante com a transição para além do neoliberalismo como também é parte desse processo o planejamento do desenvolvimento do país de longo prazo.  

O Brasil já teve esboços de Projetos Nacionais de Desenvolvimento em execução. O primeiro e segundo governo de Getulio Vargas; o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek; o Plano Trienal de Jango Goulart e Celso Furtado; o I e o II PND (Programa Nacional de Desenvolvimento) dos regimes militares são exemplos disto. Mesmo no governo Lula chegou a projetar algo, em dimensões reduzidas, o Projeto “Brasil em Três Tempos”, que previa metas nacionais para 2007 (final do primeiro mandato de Lula), 2015 (data para o cumprimentos das Metas do Milênio das Nações Unidas) e 2022 (Bicentenário da Independência). Infelizmente, a crise política e o calendário eleitoral parecem ter atropelado o Plano.  

Projetar o Brasil para o futuro é buscar confirmar as imensas potencialidades de nosso país descritos, por exemplo, nos estudos da PrinceWaterHouseCoopers e da Goldman Sachs. Mas sua consecução inequívoca passa por aprofundar a transição do neoliberalismo e aproximar as tarefas de transformações socialistas do Brasil. Afinal, de fato, a existência de um projeto nacional de desenvolvimento é algo que se confunde com a luta pelo socialismo, sendo parte da transição para essa nova sociedade. 

___________________________________________ 

Notas  

(1)  (1) Ver“Brasil será a quarta economia, diz consultoria”, Folha de São Paulo, 04/03/06, pg B3 e“México and Indonesia ‘will overtake British economy’”, The Times, 03/03/06 (edição eletrônica). Comentários adicionais disponíveis em www.pwc.com  

(2)  (2) O estudo sobre os BRIC’s foi por nós comentado quando de seu lançamento num texto denominado 2050. Para ler, clique em www.vermelho.org.br 

(3)  (3) Média compilada por Dilermando Toni 

(4)  (4) Ver “Poder potencial, vulnerabilidade externa e hiato de poder do Brasil”, Cadernos de Estudos Estratégicos, Centro de Estudos Estratégicos, Escola Superior de Guerra (ESG), disponível em www.esg.br/cadernos/001.pdf 

(5)  (5) Macunaíma: subdesenvolvimentos e cultura”, Samuel Pinheiro Guimarães, mimeo.  

(6)  (6) China que desmontar e levar fabrica do PR”, Folha de São Paulo, 18/02/2006, pagina B10 (matéria traduzida do The New York Times

(7)  (7) Brasil proporá abrir serviços a europeus”, Folha de São Paulo, 07/03/2006, pagina B6.  

(8)  (8) The Economist, 04 a 10 de março de 2006, pagina 10.  

(9)  (9)Pais negocia fabrica de semicondutores”, O Estado de São Paulo, 25/02/2006 e  “Lula escolhe padrão japonês para TV digital”, Folha de São Paulo, 08/03/2006.

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