Economy and Society II de José Porfiro – Specific

25 de março de 2007

HANNAH ARENDT

Filed under: Teoria — Porfiro @ 9:44 AM
+ Livros – folha – 15-04-2007  –  MAIS!

Hannah e sua biógrafa

A francesa Laure Adler faz excelente análise da vida da autora de "Eichmann em Jerusalém", que também é objeto de 2 estudos no BrasilHannah e sua biógrafa

NEWTON BIGNOTTO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A safra atual de publicações sobre Hannah Arendt no Brasil mostra como suas obras passaram a ocupar um lugar de destaque no interior das ciências sociais e da filosofia nacionais. Até o início dos anos 1980, ela era praticamente desconhecida entre nós.
Além dos trabalhos pioneiros de Celso Lafer e dos seminários e escritos de Eduardo Jardim, as referências à pensadora eram escassas e pouco informadas.
Esse quadro, aliás, se repetia na França e em outros países, que até então não haviam dado o devido valor ao conjunto de suas obras.
O livro de Adriano Correia é uma amostra de como a filosofia de Arendt se converteu em objeto de interesse para além das fronteiras dos especialistas.
Correia é autor de uma tese de doutorado sobre a filósofa e se dedicou, em seu pequeno livro, a apresentar a trajetória intelectual da pensadora judia desde sua tese sobre santo Agostinho até seu último livro.
A estratégia adotada pelo autor tem o mérito de guiar o leitor ao longo de uma vida marcada por seu tempo e em permanente diálogo com seus problemas e transformações.
Como se trata, no entanto, de uma obra de introdução, algumas vezes as exposições são por demais sumárias, o que não nos permite apreender toda a complexidade da "démarche" de Arendt. Essa limitação, imposta pela natureza da coleção na qual o livro foi publicado, é compensada pela clareza do texto e pelo domínio conceitual do autor.
O trabalho de Eugênia Sales Wagner é uma demonstração do vigor da produção brasileira atual sobre o pensamento arendtiano. Originariamente uma tese de doutorado, o livro é tecido em torno das idéias do amor e da liberdade, o que o leitor não descobre de imediato dado o título por demais genérico escolhido. Mas o livro não se resume a uma exposição burocrática dos conceitos, longe disso.
Escrito de forma clara e agradável, ele se propõe demonstrar uma tese ousada, que só se revela em toda sua extensão no último capítulo.
Em primeiro lugar, a autora toma o conceito de amor, presente na tese de doutorado de Arendt, como fio condutor de sua exposição. No lugar da tipologia de origem agostiniana, a autora fala de amor da sabedoria, do próximo, da liberdade, da vontade e do mundo.
Esse movimento vai levá-la a concluir que, mesmo não sendo visível em todas as etapas do percurso da autora, o amor deve ser compreendido como o fio da trama conceitual da obra arendtiana. Sua essência só se revela inteiramente quando é reconhecido como a finalidade última da ação humana e se transforma em amor ao mundo.
Eugênia Wagner corre riscos ao tentar, na parte final do livro, deduzir o que seria a filosofia de Arendt sobre a faculdade de julgar a partir apenas de fragmentos. Embora esse passo não destrua a coerência da argumentação, é sempre complicado dizer, no lugar do autor, como teria terminado sua obra.

Tarefa delicada
De natureza muito diversa é o livro de Laure Adler. Diretora por alguns anos da prestigiosa Radio France Culture, ela é autora de uma biografia da escritora Marguerite Duras ["Marguerite Duras", inédito no Brasil].
Dessa vez enfrentou uma tarefa delicada ao propor uma nova biografia de Arendt, pois tinha diante de si o trabalho de Elisabeth Young-Bruehl, referência entre os especialistas.
Adler, que se serviu bastante dos trabalhos da antecessora, acrescentou um bom número de testemunhos e fontes, até aqui inéditos, o que por si só já seria um trabalho meritório.
Mas ela foi capaz de ir mais longe ao propor uma leitura da vida e da obra de Arendt na qual se misturam paixão e identificação com a filósofa, com a busca de uma posição equilibrada e lúcida, que leva a biógrafa a apontar os traços arrogantes da personalidade da filósofa e suas contradições ao mesmo tempo em que esclarece as condições difíceis que presidiram o nascimento de sua obra.

Caso de amor
Embora o objetivo não seja apresentar ou resumir os trabalhos mais importantes de Arendt, a análise dos principais argumentos e do contexto no qual nasceram certamente ajudam em sua compreensão.
Esse impulso de compreender a vida da filósofa a partir da mistura entre acontecimentos históricos e fatos pessoais se mostra inteiro quando Adler examina a relação de Arendt com Heidegger, a quem dedica muito espaço no livro.
Sem se deixar levar por conjecturas, a biógrafa tenta mergulhar nos meandros de um caso de amor que reuniu dois dos maiores pensadores do século 20, separados, no cenário político, por posições inconciliáveis.
O enigma desse encontro é vasculhado à luz de uma documentação que, ao mostrar de forma inconteste o pertencimento de Heidegger ao Partido Nazista até 1945 e a incapacidade de refletir sobre as conseqüências de seu engajamento pós-1945, só aguça a curiosidade sobre a trajetória de dois seres cuja relação ultrapassou fronteiras quase intransponíveis.
Mas Adler não cede à tentação do sensacionalismo nem da facilidade. Não enuncia teses sem comprovação ao mesmo tempo em que não deixa de manifestar sua antipatia pelo filósofo alemão e sua perplexidade diante do comportamento de Arendt em algumas ocasiões.
Não se trata de julgar o comportamento dos personagens do livro, mas a biógrafa também não se esconde por trás de uma máscara de neutralidade. Mesclando ironia, compaixão e admiração, Adler produz um mosaico cativante de uma vida que se misturou inteiramente com seu tempo.
O resultado é não apenas uma biografia rica e nuançada de Arendt mas um passeio vivo e bem informado pelo cenário intelectual do século 20.


Nos Passos de Hannah Arendt
Autora: Laure Adler
Tradução: Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques
Editora: Record
(tel. 0/xx/21/2585-2000)
Quanto: R$ 75 (644 págs.)

Hannah Arendt – Ética Política
Autora: Eugênia Sales Wagner
Editora: Ateliê
(tel. 0/xx/11/ 4612-9666)
Quanto: R$ 42 (320 págs.)

Hannah Arendt
Autor: Adriano Correia
Editora: Jorge Zahar
(tel. 0/xx/21/2240-0226)
Quanto: R$ 19,90 (84 págs.)

NEWTON BIGNOTTO leciona filosofia política na Universidade Federal de Minas Gerais.

Pensadora investigou a "banalidade do mal"

DA REDAÇÃO

Pensadora americana de origem alemã, Hannah Arendt (1906-75) foi grande estudiosa dos governos totalitários.
Entre suas obras mais conhecidas estão "Origens do Totalitarismo", que trata histórica e filosoficamente da construção dos sistemas políticos e do controle das massas, e "Eichmann em Jerusalém" (ambos pela Cia. das Letras), reunião de artigos que escreveu para a "New Yorker".
Este último, sobre o julgamento do oficial nazista responsável por organizar o envio de judeus a campos de concentração, é um estudo seminal sobre o nazismo.

 
 

Uma das mais importantes pensadoras políticas do século 20 é tema de biografia

Ubiratan Brasil

Descobrir toda a complexidade de Hannah Arendt – a meta da escritora francesa Laure Adler, ao iniciar a pesquisa sobre a vida e obra de uma das mais importantes pensadoras da política do século passado, era estimulante. Autora de uma biografia de Marguerite Duras, Laure não buscava apenas o retrato da intelectual, da filósofa, da escritora, mas principalmente desvendar a mulher que conhecia o sofrimento, a mulher obrigada a procurar seu lugar, tanto intelectual como físico, entre a língua alemã e a cultura judaica, entre uma paixão proibida (pelo filósofo Heidegger) e a rotina de esposa, entre o amor pela filosofia e o gosto pela política.

Hannah acreditava ter vindo ao mundo para cumprir uma sina. ‘Em nome de suas próprias idéias, ela escolheu, durante 60 anos, questionar-se sobre o que produz o mal, sobre o que vai mal: as violências políticas, os totalitarismos, o conflito israelense-palestino, o crescimento incessante da sociedade de consumo, o aumento do número de refugiados no mundo, a redução do espaço público, a degradação de nossas liberdades’, comenta Laure, que não só se debruçou sobra a obra de Hannah Arendt (1906-1975) como visitou os lugares onde ela viveu, pesquisa que resultou no livro Nos Passos de Hannah Arendt (644 páginas, R$ 75), que a editora Record pretende lançar na sexta-feira.

Trata-se de um relato sobre os anos de formação da pensadora, marcados pelo contato com dois mestres (Martin Heidegger e Karl Jaspers), além da construção de sua obra, caracterizada pelo esforço de explicar os acontecimentos políticos de sua época, especialmente o aparecimento dos regimes totalitários. ‘Ela sempre confessou suas incertezas, assumiu sua violência – pronta para ser insultada – e reivindicou seu lugar de pessoa politicamente incorreta, sabendo que pagaria caro por isso.’

Laure visitou lugares onde Hannah viveu e, graças à confiança de Jerome Kohn, herdeiro testamentário da filósofa, teve acesso à sua correspondência inédita e numerosos trabalhos. Descobriu, assim, uma mulher para quem a filosofia não era saber tudo, mas saber de si mesmo como princípio de acesso à liberdade. ‘Seu talento mais evidente era a atividade do espírito’, comenta Laure, em conversa com o Estado por e-mail.

Teórica política do momento pós-totalitário, Hannah exibia capacidades intelectuais que a impediam de desfrutar a existência. Para ela, pensar era um dom. Era como se um raio lhe caísse na cabeça, na visão de Laure. ‘Ela se alongava, inclinava a cabeça para trás, abria os olhos, mirava o teto e colocava os braços embaixo da cabeça. Isso podia acontecer-lhe em qualquer lugar. Seus amigos sabiam. E se retiravam na ponta dos pés para não atrapalhá-la.’  TEM MAIS DOIS na seq.. (O ESTADO SP, 25-03-2007)

 

ELIO GASPARI
São Paulo, domingo, 15 de abril de 2007Folha de São Paulo
Saiu a melhor biografia de Hannah Arendt


Nunca o episódio de sua cobertura do julgamento de Adolf Eichmann foi tão bem contado. O tédio lhe fez mal


ESTÁ NA PRAÇA um grande livro com a vida de uma mulher fenomenal num século de tragédias. É "Nos Passos de Hannah Arendt", de Laure Adler. Formada na elite da academia alemã dos anos 20, Arendt tornou-se uma refugiada judia em 1933, viveu na França, fugiu para Lisboa e foi para os Estados Unidos em 1941. Tinha 35 anos. Lia os clássicos enquanto vivia numa dieta de grão de bico e repolho. Em Nova York, tornou-se uma das maiores pensadoras do século 20. Era judia e anti-sionista, encantava um pedaço da esquerda e expunha o totalitarismo soviético. Sua obra é uma busca de explicações para as malvadezas humanas. (No Brasil, onde seus livros circulavam livremente, era freguesa da censura à imprensa dos anos 70.)
Adler, que trabalhou com o presidente francês François Mitterrand, mostra a alma de uma geração. A generosidade de Raymond Aron e a militância nazista, escrachada e oportunista do filósofo Martin Heidegger (paixão de Arendt). O livro modula suavemente discussões filosóficas. A excelente tradução de Tatiana Salem Levy e Marcelo Jacques assegura uma leitura sem obstáculos.
Hannah Arendt mudou o curso de sua vida em 1961, quando propôs à revista "New Yorker" que a mandasse a Jerusalém para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, o supervisor das deportações do Holocausto. Ele fora seqüestrado por agentes israelenses em Buenos Aires. Numa série de cinco artigos que viraram livro (com algumas alterações), ela criou uma expressão universal: "a banalidade do mal". Arendt evitou a armadilha que explicava tudo a partir da construção de um monstro: "Era difícil não desconfiar que fosse um palhaço". Além disso, foi fundo na condenação das lideranças de sua comunidade na Europa: "Para um judeu, o papel desempenhado pelos líderes judeus na destruição de seu próprio povo é, sem dúvida alguma, o capítulo mais sombrio de toda uma história de sombras".
Nunca esse pedaço da vida de Hannah Arendt foi tão bem contado. A narrativa de Adler mostra que ela foi influenciada pelo tédio que ronda os repórteres em longas coberturas. Aborreceu-se com a cidade, não teve paciência com as testemunhas, irritou-se com a gramática do promotor e largou o tribunal no meio do julgamento.
O debate provocado por "Eichmann em Jerusalém" dividiu a intelectualidade de esquerda de Nova York e apressou a migração de parte dela para a direita. Criticaram-na por ter pegado leve no réu e pesado nas vítimas.
Adler foi além dos papéis de Arendt e, em seis páginas, mexe num caso que dará tristeza ao professor Celso Lafer, aluno e devoto da pensadora. No livro, Arendt louva uma obra monumental, publicada em 1961 pelo professor Raul Hilberg, da Universidade do Vermont. Chama-se "A Destruição dos Judeus da Europa" e discute o comportamento das lideranças judaicas européias. O livro havia sido rejeitado pela Universidade Princeton e pelo Instituto Yad Vashem. Adler entrevistou Hilberg. Ele avisara: "O que vou lhe dizer de Hannah não é agradável. Você quer realmente saber?"
O professor mostrou-lhe uma carta. Em 1960, Hannah Arendt desaconselhara a publicação do trabalho pela editora de Princeton. Sustentara que era obra inútil, sobre um assunto esgotado. Hilberg já se referira ao lance em 1994, mas discutiu melhor o assunto na conversa com Adler. Arendt rejeitara o livro em 1960 e, depois que ele foi publicado, usou-o (11 citações na versão ampliada de "Eichmann em Jerusalém"), fazendo de conta que nada acontecera.
Um episódio ilustra o racionalidade e o esnobismo de Hannah Arendt. Em março de 1962, ela sofreu um acidente de trânsito no Central Park. Retiraram-na de um táxi com a cabeça ferida, seis costelas e um pulso quebrados. Enquanto esperava a ambulância, mexeu-se e concluiu que não estava paralítica. Em seguida, recitou poemas em grego e lembrou os números dos telefones de alguns amigos. O sistema continuava rodando. Fechou os olhos e aguardou o socorro em paz.

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