Economy and Society II de José Porfiro – Specific

2 de abril de 2007

LUC FERRY

Filed under: Teoria — Porfiro @ 10:47 PM

 O sagrado está dentro do homem

Por José Castello, para o Valor, de Curitiba
22/08/2008 – Jornal Valor Econômico

 

Bloomberg

Cerimônia muçulmana: "Em um momento ou outro, qualquer religião repousa sobre argumentos de autoridade que parecem ‘dogmáticos’ aos que não crêem", afirma o filósofo francês

Depois da "morte de Deus", anunciada há um século pelo alemão Friedrich Nietzsche, que lugar resta em nossa vida para o absoluto? Em "Depois da Religião", em um diálogo rico e não ortodoxo, o filósofo francês Luc Ferry e seu colega jornalista Marcel Gauchet encontram um novo lugar para o absoluto no mundo: o coração humano. Se por um lado o mundo se desencanta, se as religiões se tornam mais rígidas, dogmáticas e belicistas, um novo tipo de encanto e de elevação se afirma com o século XXI. Agora é o próprio homem quem carrega dentro de si o sagrado e isso talvez o leve a aumentar o cuidado de si e o respeito pelos outros. Não basta o mundo se guiar por uma ética laica, diz Ferry, ele próprio um agnóstico, como Gauchet. É preciso que a idéia do absoluto persista e ela se guarda agora não no além, não em um ideal longínquo, mas nas próprias limitações do homem.



Um dos maiores intelectuais franceses da atualidade, ex-ministro da Educação do governo de Jacques Chirac (de 2002 a 2004), professor da Sorbonne, autor também de "O Homem-Deus ou o Sentido da Vida" e "Aprender a Viver", entre outros, Ferry conversou com o Valor. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.



AP

Ferry: "É por causa do capitalismo globalizado que não existem mais ideais transcendentais e tudo se torna mercadoria, mas o capitalismo inventou um valor positivo, o casamento por amor e a família moderna"

Valor: O fundamentalismo islâmico, a expansão do dogmatismo cristão e os conflitos e guerras religiosas provam que as religiões estão vivas e muito fortes. Por que isso ocorre? As religiões mudaram e se adaptaram ou, ao contrário, seu poder está justamente na insistência nos valores da tradição?



Luc Ferry: Você conhece a etimologia: "religio", "religere", significa "tornar a ligar", "reunir". São as religiões que, desde os tempos remotos, servem para unir as sociedades. Logo, não é por acaso que elas se tornaram fatores de guerras e de conflitos, isso apesar dos valores em geral pacifistas que pregam. As religiões têm sempre interesse em defender os valores tradicionais. Na Europa, contudo, há mais de um século todo o movimento democrático se expressa numa revolta cada vez maior dos indivíduos contra os valores e as autoridades tradicionais. Eis porque, entre nós, europeus, a religião está em decadência. Quando eu era rapaz, 85% dos franceses eram católicos. Hoje os católicos franceses não chegam a 50% da população.



Valor: O homem contemporâneo parece ter perdido suas referências. O Estado perdeu seu poder, o pai se enfraqueceu e a verdade perdeu parte de seu prestígio. O homem passa a se dedicar à fé – confluência do visível e do invisível. A religião não se tornou, em muitos casos, uma obsessão?



Ferry: É verdade que o século XX se dedicou, ao menos no Ocidente, à desconstrução dos valores tradicionais. As vanguardas estéticas e políticas, opondo a "vida boêmia" à "vida burguesa", desconstruíram tudo: a tonalidade na música, a figuração na pintura, a cronologia e a psicologia dos personagens no romance e no teatro, mas também os valores religiosos e morais da tradição. Mas é preciso compreender o que, no meu entender, é a chave do século XX: paradoxalmente, não são as vanguardas subversivas ou revolucionárias que conduziram as mudanças, mas o capitalismo globalizado. Foi ele que, no fim das contas, liquidificou e liquidou os valores tradicionais, ao exigir que tudo desemboque na lógica de mercado. É por causa do capitalismo globalizado que não existem mais ideais transcendentais e tudo se torna mercadoria. Pois, no mundo de hoje, nós consumimos de tudo, não simplesmente computadores e automóveis, mas também consumimos cultura, religião, escola, política, etc. Porém, e aqui eu não sigo o caminho proposto em sua pergunta, apesar de todos esses aspectos destruidores, o capitalismo inventou um valor novo e positivo: o casamento por amor e a família moderna, fundada sobre a livre escolha e a afinidade eletiva. E essa invenção vai conduzir a uma boa coisa: a sacralização da pessoa humana. Como? Eis o que nos ensinam os melhores historiadores: na Idade Média, não se casava jamais por amor, mas para transmitir um nome, um patrimônio, uma herança. Não se casava ativamente, mas passivamente, pelos pais ou pela cidade. Ao inventar os assalariados e o mercado de trabalho, o capitalismo arranca os indivíduos das comunidades rurais e religiosas de origem. E esses indivíduos passam a ter um salário, logo uma autonomia financeira e material. Assim, em vez de se deixar casar passivamente, eles passam a se casar por escolha, por afinidade, por amor. Como mostro no meu livro, essa invenção moderna altera toda a nossa relação com a infância e conduz à sacralização do humano. Sacralização que provoca repercussões consideráveis, e ao meu ver positivas, também sobre a vida política.



Valor: A espiritualidade ainda tem sentido no mundo laico de hoje?



Ferry: A questão crucial é a diferença entre moral e espiritualidade. Durante muito tempo, acreditei, como a maior parte de meus colegas filósofos hoje, que era possível se contentar com a moral. Eu era ateu ou, para dizer melhor, era agnóstico, e continuo a ser, mas acreditava que as morais laicas bastavam para nortear a conduta humana, o que é falso. E eis por quê. Na essência, as morais modernas giram em torno da questão do respeito pelo outro. Para simplificar, podemos dizer que a carta básica de nossos princípios éticos é a Declaração dos Direitos do Homem. A idéia de que a minha liberdade deve terminar onde começa a liberdade do outro. Terminei por tomar consciência de uma coisa que me preocupava havia muito tempo: essa visão moral do mundo, qualquer que seja sua grandeza ou utilidade no plano social e político, não leva em conta uma série de questões existenciais essenciais. Se você dispusesse de uma bengala mágica que permitisse que os seres humanos se conduzissem de maneira moral uns diante dos outros, não haveria mais estupros, nem roubos, nem genocídios, nem ainda massacres. Contudo, isso não regularia uma série de questões: como viver o luto de um ser amado, como educar um filho, para que serve o envelhecimento, etc.



Valor: Essas questões não foram desprezadas pelos filósofos durante muitas décadas, em especial desde a morte de Martin Heidegger?



Ferry: A moral laica não é suficiente para refletir sobre a questão do luto, das idades da vida, da banalidade da existência cotidiana, ou do tédio, simplesmente porque essas questões surgem de uma outra esfera: a da espiritualidade, ou da sabedoria, no sentido próprio. Daí a problemática que trabalhamos com André Comte-Sponville no livro "A Sabedoria dos Modernos" [Martins Fontes, 1999]: que sabedoria convém aos indivíduos desencantados ou desiludidos que povoam nossas sociedades laicas?



Valor: O sr. afirma que, hoje, o divino e o humano se misturam. Há uma ruptura na fronteira que separa a fé do real. Vivemos hoje uma nova sacralização do mundo?



Ferry: O verdadeiro critério do sagrado se mostra na hipótese da renúncia à vida, do sacrifício supremo de si. Os valores sagrados são aqueles pelos quais podemos nos sacrificar. Quando observamos os motivos tradicionais do sacrifício, aqueles pelos quais os seres humanos aceitaram arriscar a vida, nos damos conta de que eles desapareceram da Europa. Deus, a Pátria, a Revolução. Esses motivos estão de tal forma corroídos que quase ninguém mais, na Europa de hoje, morre por eles. Eles ainda estavam muito presentes nos anos de antes da guerra e mesmo ainda um pouco depois disso. Minha idéia, contudo, é a de que o sagrado não desapareceu completamente. Ele desertou das entidades tradicionais do sacrifício para se encarnar na humanidade. O século XX é o século do aparecimento de uma nova figura do sagrado, aquela que eu chamo de o sagrado com um rosto humano. A transcendência vai se encarnar na imanência do mundo vivido, para retomar a formulação de Husserl. Nós não descobrimos mais a verdade, ou o amor, como alguma coisa recebida do exterior. Por exemplo, quando nos apaixonamos, entendemos que isso procede do próprio coração humano. Eis a figura da transcendência na imanência: alguma coisa que nós vemos nascer em nós como sui generis e, apesar disso, nos ultrapassa.



Valor: O sr. diz que a moral laica não responde às necessidades fundamentais do ser humano. Isso significa que existe, hoje, um novo lugar para o sagrado?



Ferry: Sim, é exatamente isso. O sagrado não desapareceu: mudou de lugar. É claro, hoje, sobretudo na Europa e também em boa parte do Ocidente, quase ninguém mais desejaria morrer por abstrações religiosas ou patrióticas. Contudo, em vez de isso me desolar, como acontece com muitas pessoas, vejo aí uma excelente novidade. Como eu lhe dizia, na Idade Média ninguém se casava por amor. O objetivo do casamento não era só a transmissão do nome, do patrimônio, mas também a necessidade econômica: tratava-se de fabricar crianças para continuar a exploração agrícola. O aparecimento do salário desordenou essa situação. O mercado de trabalho que aparece com o capitalismo obriga os indivíduos a trabalhar nas cidades. Com isso, os indivíduos se libertam das formas tradicionais de contrato social, sejam religiosas ou agrícolas. E ao mesmo tempo adquirem autonomia financeira. O que os leva, também, a desejar não mais casar à força, mas por escolha e, se possível, por amor. E esse amor vai se transferir, por intermédio das crianças, para as gerações futuras. Na Idade Média a morte de uma criança era, freqüentemente, menos importante do que a morte de um cavalo. Hoje, é a pior coisa que pode acontecer a uma família. E esse amor, por extensão, é a origem do desenvolvimento da ação humanitária, cuja história é rigorosamente paralela à da família moderna, fundada sobre o sentimento, não mais sobre a obrigação. Bem entendido, toda essa evolução levou séculos e está apenas se completando no Ocidente.



Valor: "Depois da Religião" é um longo diálogo com Gauchet. A religião contemporânea, marcada pelo fundamentalismo e pelo dogmatismo, exclui o diálogo? Ela prefere o monólogo?



Ferry: Em um momento ou outro, qualquer religião repousa sobre argumentos de autoridade que parecem "dogmáticos" aos que não crêem. A partir de certo ponto, a razão e a argumentação cedem lugar à fé e isso não se discute. Com Gauchet, foi fácil: nenhum de nós possui uma fé, ainda que tenhamos em comum uma característica, bastante rara entre os que não crêem: respeitar profundamente o sentimento religioso.



Valor: O sr. afirma que, hoje, não se dá mais importância à sabedoria. Não será porque, em um mundo de filosofias, ciências e saberes dogmáticos, ela ficou nas mãos da religião?



Ferry: Não digo exatamente isso. Digo apenas que a filosofia contemporânea, universitária, deserdou o tema da sabedoria. Habermas, Rawls ou Foucault não falam dela. Nem Deleuze ou Sartre. Esse é, no entanto, aos meus olhos, o tema que sustenta a filosofia. A única questão verdadeiramente interessante é a da boa vida e para falar de justiça, de argumentação ou de desconstrução dos asilos e prisões não temos mais necessidade da filosofia. A sociologia parece suficiente. As religiões nos convidam a crer em uma vida depois da morte, enquanto as grandes filosofias retomam todas, à sua maneira, a questão posta por Homero e pela filosofia grega: como encontrar uma sabedoria para os mortais, uma boa vida para os que vão morrer? Você se lembra da "Odisséia" e da famosa passagem em que Ulisses se encontra prisioneiro de Calipso. A ninfa é sublime. Loucamente apaixonada por Ulisses, ela não se cansa de fazer amor com ele. Disposta a tudo para conservá-lo, ela lhe oferece a imortalidade. No entanto, Ulisses a deixa, retorna para Ítaca, sua terra natal, e reencontra a família. Prova de que uma vida de mortal consegue ser talvez superior a uma vida de imortal fracassada. Aceitação da aventura e da morte, sabedoria não religiosa. A filosofia começa na Grécia com essa idéia genial de que sábio é aquele que consegue viver no presente, sem ser constantemente submetido a estes dois males que são o passado e o futuro. Por quê? Porque todas as angústias vêm disso. Quando o passado foi feliz, permanecemos na nostalgia. Quando foi penoso, sentimos arrependimentos e culpas. Então, nos refugiamos no futuro, tentando nos convencer de que ele será melhor quando mudarmos de carro, de sapato, de penteado, de mulher, de marido, de casa… E, é claro, isso é uma grande ilusão. O sábio é aquele que consegue vencer o medo ou, como disse Marco Aurélio, aquele que consegue se lastimar um pouco menos, esperar um pouco menos e amar um pouco mais. Encontramos essa idéia em Spinoza, mas também em Nietzsche, na noção de "amor ao destino", amor ao que está lá. O que mostra bem que os grandes filósofos, mesmo os menos religiosos, se interessam pela questão da sabedoria.



Valor: O que é, hoje, o absoluto? Ele pertence somente aos padres, aos rabinos e aos imames islâmicos?



Ferry: Não, o absoluto é uma coisa importante demais para ser entregue aos padres. O absoluto se encarnou na humanidade e eu diria que todos somos responsáveis por ele. Nesse sentido, acredito que nosso século XXI começa muito bem e não é tão ruim quanto se diz freqüentemente, sem pensar, simplesmente porque o pessimismo empresta sempre um ar mais inteligente que o otimismo.



"Depois da Religião – O Que Será do Homem depois Que a Religião Deixar de Ditar a Lei?"

Entrevista – Luc Ferry: Problemas privados são os problemas políticos de hoje

FOLHA 28JUL2008

ENTREVISTA

LUC FERRY

Problemas privados são os problemas políticos de hoje

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

ESCRITOR BEST-SELLER , Luc Ferry defende que os pensadores mais profundos, de Platão a Nietzsche, renunciaram muitas vezes ao jargão em nome de uma filosofia mais acessível, como seria o caso de "Aprender a Viver", seu mais famoso livro. No recém-lançado "Família, Amo Vocês", Ferry tenta simplificar sua teoria de que a política, esfera pública por excelência, tem muito o que aprender com a família, esfera privada. Leia trechos da entrevista feita por e-mail.

FOLHA – Segundo o senso comum, a estrutura familiar é essencial para a lógica do capitalismo e do consumo. Isso mudou com as famílias fragmentadas, monoparentais?
LUC FERRY
– Houve três eras da família. Na Idade Média não se casava por amor, mas para transmissão do nome e patrimônio, "fabricar" crianças e fazer viver a exploração agrícola. De resto, não se casava, se era casado pela família ou pelo vilarejo. É a invenção do assalariado pelo capitalismo incipiente que abala a situação. E vai levar o indivíduo a se emancipar do peso das comunidades tradicionais, por uma razão simples: o mercado de trabalho que logo irá se globalizar força os indivíduos a trabalhar nas grandes cidades. Os indivíduos se livram das formas tradicionais de controle social e adquirem autonomia financeira. A jovem que no campo casa-se à força encontra-se autônoma na cidade. Isso vai levá-la a querer não mais se casar à força, mas por afinidade eletiva. É o nascimento do casamento por amor. É preciso acrescentar que, antes do casamento por amor se tornar a regra, ou quase, como é o caso de hoje, há uma época intermediária, da família burguesa, em que não se divorciava. Mas isso é uma ilusão, porque o divórcio é o avesso do casamento por amor: se você fundamenta o laço familiar no sentimento e não mais na economia, o fundamenta em algo que pode variar. Paradoxalmente, as famílias monoparentais são um resultado do casamento por amor.

FOLHA – Em sua opinião, qual tipo de ligação existe entre as famílias modernas: não são também determinadas pelo individualismo?
FERRY
– O individualismo não tem muito a ver com o egoísmo. O individualismo é ligado à emancipação em relação às tradições comunitárias. Uma mulher que hoje se recusa a se casar à força no Irã tem um comportamento "individualista", não egoísta. E o amor, na esfera privada, tem sido fator de ampliação do pensamento e dos horizontes. Nunca demonstramos tanta preocupação com o outro como nas sociedades modernas. Na Europa, passamos nosso tempo pensando no mal que causamos com a colonização, nos erros cometidos pela globalização em relação aos pobres etc. Isso está ligado à história da família moderna. A humanidade moderna é ligada diretamente à história do casamento por amor. É o amor privado que fez com que o mundo ocidental tivesse simpatia por outras civilizações. Antes, ninguém se interessava por elas senão com o olhar do colonizador. A oposição clássica do privado e do público não reside mais onde pensamos. Como todos temos os mesmos problemas de casamentos fracassados ou bem-sucedidos, divórcio etc., agora o privado não é mais tão privado como pensávamos. A tese do meu livro é a de que os problemas aparentemente privados são os políticos de hoje: a dívida pública ou o choque de civilizações não teriam tanta importância política se a questão por trás não fosse a do mundo que queremos deixar às nossas crianças ou, de modo mais chique, às gerações futuras.

FOLHA – Em que medida a vida privada pode ser um modelo para o Estado e as políticas públicas?
FERRY
– A sacralização da esfera privada como elo principal do sentido da vida como se vê hoje na Europa não representa, como se costuma afirmar de modo blasé, recuo individualista, mas, ao contrário, uma formidável ampliação de horizontes. Diante da valorização da intimidade, o reflexo político mais corrente consiste em declarar, com nostalgia na voz, que, como as instituições "grandiosas" (Deus, pátria, a república etc.) subsistiram por tanto tempo, nós nos conformamos, de modo mais ou menos medíocre, com o que resta: a família com, no máximo, um pouco de senso humanitário e ecológico. Acredito no oposto. Os problemas aparentemente individuais são coletivos. Todos temos mais ou menos os mesmos problemas, de modo que o individual não é o contrário do político. Como a política, esfera pública por excelência, pode tirar partido das revoluções que abalam seu oposto natural, a esfera privada? Como não perder de vista questões cruciais de economia e geopolítica, ao mesmo tempo conduzindo em escala nacional uma política que, enfim, libera a vida privada e ajuda os indivíduos a superar as desigualdades que os impedem de desabrochar? Uma coisa é certa: quem achar a resposta será o grande político do século!

Frases

"A dívida pública ou a relação com o choque de civilizações não teriam tanta importância política se a questão por trás não fosse aquela do mundo que queremos deixar às nossas crianças"
LUC FERRY

"O amor, na esfera privada, tem sido fator de ampliação do pensamento e dos horizontes. Nunca demonstramos tanta preocupação com o outro como nas sociedades modernas"
IDEM

AUTOR TEVE BEST-SELLER NO BRASIL

"Aprender a Viver" (Objetiva; R$ 37,90, 304 págs.) é o livro mais famoso de Luc Ferry. No Brasil, chegou às listas de mais vendidos. Para o autor, o livro traz respostas profundas para questões filosóficas, ligadas ao desejo de uma vida "boa, livre, generosa, aberta aos outros".

RAIO-X

Quem é Luc Ferry

Nasceu em 1º de janeiro de 1951, em Paris

Filósofo, é defensor do humanismo secular -visão de mundo que se contrapõe à religião, privilegiando a razão em detrimento da fé ou do misticismo

Foi ministro da Educação na França entre 2002 e 2004, época em que foi aprovada a polêmica proibição do uso de trajes religiosos, como véus sobre cabeça e rosto de mulheres islâmicas, em escolas públicas daquele país

Venceu em 2006 o prêmio Aujourd’hui de não-ficção por seu livro "Aprender a Viver"

Crítica

Obra está mais para plataforma de candidato

MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

O filósofo francês Luc Ferry foi ministro da Juventude e da Educação no governo de Jacques Chirac, durante cerca de dois anos. Guardou da experiência uma forte incompatibilidade com reivindicações corporativas. Está convencido da irracionalidade econômica de muitas bandeiras de esquerda, e não se empolga com os lemas da antiglobalização. Tampouco está engajado numa volta aos velhos ideais políticos do século 20, sejam de esquerda ou de direita. Em nome da "honra nacional" ou da "revolução proletária", milhões foram massacrados. É também crítico com relação ao mundo do hiperconsumismo e da desregulamentação econômica, onde as disparidades sociais se agravam e não há nenhum valor profundo capaz de justificar o status quo. Não parecem sobrar grandes idéias para quem quer, como Ferry, manter-se crítico das desigualdades sociais e ao mesmo tempo preservar a suposta racionalidade econômica dos governantes europeus.

Ovo de Colombo
O que fazer? Neste livro curto e fluente, que poderia quase ser reduzido a uma entrevista de televisão, o filósofo nos apresenta uma espécie de "ovo de Colombo". Seu raciocínio é o seguinte. É comum lamentar o "declínio da política", a decadência das grandes questões de Estado. Tudo se recolhe para a esfera do privado, do doméstico, das famílias. Pois bem, e se virássemos a lamúria de cabeça para baixo? Por que não celebrar, justamente, o âmbito da felicidade pessoal, a dedicação dos pais pelos filhos, o advento moderno do casamento por amor? São fenômenos recentes na história humana (e o livro cita alguns contra-exemplos apavorantes de épocas passadas). Não seria melhor esquecer de vez certos mitos como a Revolução e a Glória Nacional, e dizer que a política deve servir aos indivíduos, ajudando-os a alcançar uma vida mais realizada e feliz? O leitor tende a concordar com propostas tão modestas; o difícil é classificar este livro de "polêmico e inovador", como fez o crítico Pascal Bruckner, numa frase reproduzida na capa da edição brasileira. Afinal, os ideais da auto-realização individual foram reconhecidos na vida política desde, pelo menos, a Revolução Americana de 1776. Além disso, esquerda e direita nunca se mobilizaram apenas em torno de bandeiras como a Pátria ou a Revolução. Quando um "falcão" do Pentágono quer a guerra contra comunistas ou muçulmanos, acredita que esta é a única maneira de defender um ideal de vida não muito diferente daquele apoiado por Ferry. E, durante o apogeu da esquerda, também se dizia que o capitalismo, trazendo guerras e miséria, era incapaz de propiciar os ideais que Ferry defende. Seria este o motivo, afinal, para se fazer uma Revolução. Há futuro para o capitalismo globalizado? Sofre ameaças, externas e internas? Quais as contradições entre ciência e lucro, entre consumismo e ecologia, aceleração tecnológica e desemprego, desencantamento do mundo e frustração individual? São perguntas que não se resolvem propondo novos "valores" no mercado intelectual -mesmo em suas praças mais depauperadas, como a França. Com sua simpática honestidade, "Família, Amo Vocês" parece mais a plataforma de um bom candidato ao parlamento do que um ensaio político inovador.

FAMÍLIA, AMO VOCÊS
Autor: Luc Ferry
Tradução: Jorge Bastos
Editora: Objetiva
Quanto: R$ 24,90 (144 págs.)
Avaliação: regular

 

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A filosofia depois da filosofia
Reflexões sobre a obra de Luc Ferry
– Paulo Bentancur

Boris Fausto: Certezas e dúvidas (04-04-2007)-sobre livro: aprender a viver

Luc Ferry 

 

29/03/2007

 

Elis Martini – Fotos: Cleber Passus/Divulgação

 

Como foi, para um filósofo, ter exercido um cargo público na França, já que geralmente os pensadores são muito críticos em relação ao governo?
Normalmente na tradição francesa os intelectuais tendem a uma postura crítica ao poder público. Se você considerar os grandes nomes da cultura francesa como Sartre ou Foucault, eles estão antes do lado da contracultura do que do lado do poder, portanto essa pergunta é muito pertinente. Eu sempre achei que a crítica deveria vir do lado interno do sistema, e não do lado de fora. Foi isso que o grande sociólogo alemão Max Weber chamou de "ética da responsabilidade". Na França existe uma tradição de exercício de poder pelos intelectuais, outros intelectuais foram ministros antes de mim. Eu acho então que ser um filósofo é um "plus" que eu tinha para cuidar da educação e pensar a educação no interior do poder público.

E que experiências você tirou desse mandato?
A sensação que eu tenho é que os homens políticos têm muito menos poder do que imaginam os cidadãos. A primeira razão é a globalização, que retirou uma grande parte de poder desses homens políticos. E a segunda razão são os jornalistas. É uma profissão que eu respeito muito, que eu inclusive exerci, fui conselheiro de grandes jornais franceses. Mas ao mesmo tempo a midiatização da política hoje em dia torna a sua prática extremamente difícil. Por que, por exemplo, quando se entra para um ministério, temos projetos de fundo, como melhorar as condições de aprendizado, melhorar o nível dos professores, projetos básicos e de extrema importância para o mandato do ministro. Mas depois vemos que os imperativos da comunicação acabam falando mais alto que todo o resto. Uma pequena história para ilustrar isso didaticamente: quando eu fui nomeado para o ministério da educação por Jacques Chirac, falei que o ministério era como um cavalo magnífico que vai nos permitir ir longe. Em seguida eu me dei conta que eu estava num jogo que se chama rodeio, cujo objetivo não é ir longe, mas manter-se sobre o cavalo.

No livro "Aprender a viver", recentemente lançado no Brasil, fica muito clara a sua preocupação em desacralizar e desmistificar a filosofia e o seu ensino. Há uma preocupação em trazer os jovens e as crianças mais para perto da filosofia. O senhor acredita que essa aproximação com a filosofia pode tornar o mundo mais tolerante?
Sim, porque se nós prestarmos atenção, todos os conflitos que acontecem no mundo hoje são de ordem religiosa seja para que lado nos olharmos, no Sudão, na Irlanda, na Iugoslávia, em todo o Iraque. Isso não significa que eu não tenha respeito à religião. Mas a filosofia trata de todos os temas dos quais tratam as grandes religiões, mas pela razão e não pela fé, então se adotarmos a ótica da filosofia para tratar desses temas isso certamente iria tornar o mundo mais tolerante.

Essa teoria parece sólida em países como a França e a Alemanha, onde o sistema educacional é bem desenvolvido, mas não se tornaria frágil num país como o Brasil, onde a religião ainda tem um papel muito importante em relação à filosofia?
Eu acho que em qualquer situação é sempre melhor utilizar-se da lucidez. O grande problema da filosofia é quando um indivíduo se depara com a perda de um ser amado, um filho, um entre querido, e nesse momento a pessoa levanta uma série de perguntas que causam uma dificuldade de respostas. Por exemplo, uma das passagens mais importantes do evangelho é a da morte de Lázaro, amigo de Jesus. E quando Jesus é informado da morte de Lázaro ele chora e diz que o amor é capaz de ressuscitar. A grande mensagem da religião cristã então é a que nós iremos reencontrar as pessoas que amamos após a morte. Se vocês acreditam nisso, formidável. Se vocês não acreditam, eu vos aconselho a analisarem o problema sob a ótica das grandes filosofias, que abordam a mesma questão, mas com mais lucidez. Dizem que o grande problema da filosofia, de Platão a Nietzsche, é como ultrapassar a questão da morte sem passar pela fé e por Deus. Ou seja, se vocês têm uma crença não é necessário olharem esses assuntos sob a ótica de filosofia, mas se não têm eu aconselho a fazerem um pequeno desvio para esse caminho.

Você publicou o livro "A Nova ordem Ecológica" no mesmo ano da Eco-92, um dos eventos sobre ecologia que mais tiveram repercussão nos anos 90. Qual a sua visão da ecologia e dos movimentos ambientais 15 anos depois desses acontecimentos?
Esse é um livro sobre a história da ecologia e que apresenta suas duas grandes correntes. Primeiro há uma ecologia romântica, que pensa que o mundo moderno é ruim, o que nos Estados Unidos chamam de "deep ecology" ou seja, ecologia profunda. Esse tipo de ecologia é encontrado em muitos filmes americanos, como, por exemplo, "Dança com Lobos", que narra a história de um soldado que precisa ir até a fronteira com o mundo selvagem ou seja, a reflexão é de que esse mundo selvagem é melhor do que a nossa sociedade. E há uma segunda ecologia, a reformista, que defende a idéia de que é preciso haver um desenvolvimento sustentável. Na primeira vez que vim a Porto Alegre, durante o Primeiro Fórum Social Mundial, eu encontrei muitos ecologistas da primeira categoria, os românticos. Eu acho que seria interessante, embora seja uma ecologia menos "sexy", que a segunda categoria, a reformista, fosse mais valorizada que a primeira, porque eu não gosto da idéia romântica do retorno ao paraíso perdido. Embora ela seja bonita, ela me parece um pouco perigosa. Por isso, em lugares como a Alemanha e o Canadá, a ecologia reformista é a que está sendo mais valorizada hoje em dia.

Você, como ministro da educação, já abordou o tema da "mercantilização da educação", onde as faculdades não vendem ensino, mas sim diplomas. O que tem sido feito em relação a isso, no seu mandato na França?
É verdade que hoje há uma mercantilização dos serviços educativos e eu defendo fortemente a idéia de que a educação seja um serviço público. Nós não só podemos como devemos estabelecer relações com empresas privadas para financiar pesquisas, mas os princípios da educação devem permanecer absolutamente na filosofia de um serviço público. É muito importante que nas nossas universidades nós possamos manter departamentos como História da Arte, Filosofia, mesmo quando eles não são rentáveis, não tenham um retorno econômico. Eu mesmo defendi, em uma reunião com mais 38 ministros da educação europeus, que os princípios da educação devem permanecer acadêmicos e científicos e não comerciais.

A carência de um sistema de educação é seguidamente relacionada com a violência e a criminalidade, em especial em países como o Brasil. Como você vê essa relação?
Eu acho que no mundo de hoje nós devemos fazer a diferença entre uma violência "hard" e uma violência "soft". A nossa tendência, como herdeiros do século das luzes, é de pensarmos que a violência provém de fatores sociais, da educação, etc. Mas se nós olharmos hoje em dia nós veremos pessoas com um alto nível de educação que são extremamente violentas. Se nós lembrarmos do nazismo, do fanatismo islâmico, do movimento revolucionário da Argélia – onde os terroristas são na sua maioria profissionais formados em universidades, como médicos, advogados, etc – nós nos damos conta de que o nível de educação não erradica a violência. Ou seja, no século XVIII havia o sonho de que levantando o nível cultural e educacional de uma população, a violência seria erradicada, mas não é o que se vê hoje. E há também o outro tipo de violência, a violência "soft", que é, por exemplo, o tipo de violência que acontece nas escolas e que hoje em dia inferniza a vida dos professores. Essa violência não tem nada a ver como o fanatismo, ela vem de outros fatores. Um deles é um problema que é o número um na França e na Europa, que é o individualismo. Há mais ou menos quarenta anos, desde maio de 68, se teve um processo de resgate constante do indivíduo e do distanciamento das referências que tinham de suas heranças. Dois fatores fundamentais da questão educacional são baseados nas heranças. Nós temos primeiro a herança da língua, nós herdamos a nossa língua materna, nós não a inventamos. Vocês não inventaram o português do Brasil assim como eu não inventei o francês, então isso é uma herança pura. O segundo aspecto é a herança das regras de polidez e de etiqueta dentro da sociedade. Por exemplo, quando se termina uma carta, existem fórmulas corretas pré-existentes de fazê-lo. O nosso problema na Europa acontece justamente porque foi havendo um progresso constante, mas hoje em dia o individualismo está arrancando o indivíduo da coletividade. Atualmente, se analisarmos todos os países europeus, não só a França, nós veremos que há dois declínios importantes. Em primeiro lugar um declínio no plano da língua, é a primeira vez que os jovens e as crianças dominam menos a língua materna do que os seus pais ou avós. E há também um declínio das regras do viver junto, em sociedade, ou seja, as regras de polimento e de etiqueta, as regras de respeito ao outro. Há quarenta anos os métodos educacionais da Europa repousam na auto aprendizagem, ou seja, os alunos têm a capacidade de aprender de uma forma autônoma, e na realidade nós estamos nos dando conta de que isso não funciona.

O que você acha das novas propostas de se formar uma escola mais democrática, que ouça mais os alunos e que mude a disposição das salas de aula?
É importante pensar no contexto dos diferentes países, por exemplo, eu estive recentemente no Chile, um país que teve uma educação muito autoritária e tradicional durante muitos anos e no qual é realmente necessário trazer uma abertura e permitir que os alunos desenvolvam uma espécie de auto-construção. Em contrapartida, na França se foi tão longe nessa mudança, se deu tanta abertura e autonomia e se suprimiu completamente as aulas tradicionais que nós acabamos caindo no inverso. Nós inventamos, por exemplo, um método que se chama "a mão na massa", ou seja, as crianças aprendem através de suas experiência práticas. No início funciona muito bem, as crianças criam elas mesmas brinquedos, jogos, fabricam moinhos, então quando se inicia a prática de uma pedagogia como essa o resultado é excelente. Mas quando as criaças chegam em biologia, quando vão estudar a estrutura de uma proteína, do DNA, por exemplo, é impossível passar esse conteúdo sem que se retorne as aulas magistrais convencionais. Então nós nos demos conta com o tempo que não era possível dispensar esse tipo de trabalho mais tradicional. Há quarenta anos as pedagogias européias repousam sobre uma ilusão complexa. A tentativa tem sido sempre de partir da motivação, de um método interessante: o professor traz um violão para a aula, passa um filme, as coisas começam num tom leve. Mas contrariamente ao que essa nova pedagogia tem pensado, o que se revela é que métodos diferentes se desenvolvem mas as pessoas se interessam mais pelas disciplinas na medida em que precisam trabalhar bastante no já início.

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