Economy and Society II de José Porfiro – Specific

18 de abril de 2007

CONTRA FELICIDADE

Filed under: Teoria — Porfiro @ 4:47 PM
18/04/2007
Contra a felicidade

Pesquisas questionáveis apontam que o aumento do PIB ou de serviços prestados pelo Estado não torna necessariamente as pessoas mais felizes

Paul Ormerod e Helen Johns*

Ao longo dos últimos 40 anos, o produto interno bruto (PIB) por pessoa aumentou consideravelmente nos países ocidentais e, ainda assim, o nível médio de felicidade manifestado pelas pessoas sofreu pouco ou nenhum aumento. Esta aparente incompetência do crescimento econômico em tornar as pessoas mais felizes é uma das polêmicas centrais no debate político contemporâneo.

Eminentes advogados da felicidade reivindicam grandes mudanças nas políticas seguidas pelos Estados. Uma delas é fazer com que os impostos sejam mais graduais, de modo a reduzir as desigualdades na distribuição da renda, isso porque, segundo eles, são níveis de renda relativos e não absolutos que afetam a felicidade. Além disso, eles propõem que a felicidade da nação seja medida regularmente, assim como é feito com o PIB, e que essas pesquisas sejam utilizadas no sentido de nortear as decisões políticas.

Contudo, o que nós estamos questionando aqui é a validade de grande parte das pesquisas relativas à felicidade nas quais tais recomendações se baseiam. Em caso algum estamos insinuando que os objetivos mais abrangentes abraçados pelos advogados da felicidade, como o de reduzir as desigualdades, sejam inválidos em si. O que nós dizemos é que as pesquisas sobre a felicidade não oferecem embasamentos suficientes para tais propostas.

O artigo seminal sobre a questão foi publicado por Richard Easterlin, da Universidade da Califórnia do Sul, em 1974. Ele queria demonstrar que a felicidade média nos Estados Unidos havia permanecido no mesmo nível no decorrer do período de 1946 a 1970, mesmo que o nível de renda por cabeça tivesse duplicado. A falta de qualquer aumento marcante na felicidade média enquanto a renda vai crescendo parece não estar limitada aos países de renda elevada do Ocidente. Uma amostragem de 15.000 indivíduos entrevistados pelo Instituto Gallup na China aponta que não houve aumento algum do número de pessoas que se disseram satisfeitas com a sua vida entre 1994 e 2005, apesar de um aumento real do nível de vida por cabeça de cerca de 150%.

Esses resultados se definem em parte em função da metodologia empregada. A felicidade é medida em muitos casos por meio de uma escala de três pontos, na qual o grau 3 equivale a "muito feliz". O grau médio de felicidade só pode aumentar quando aparece um fluxo claro de pessoas migrando das categorias mais baixas para as mais elevadas na escala, enquanto níveis mais elevados do que o 3 não são permitidos.

Considerando que o quociente médio em tais pesquisas tende a situar-se por volta de 2.2, muitos entrevistados devem ter respondido 3. Portanto, mesmo se eles conseguiram alcançar níveis de felicidade mais elevados ao longo do tempo, a pesquisa não poderia detectar esta tendência. Além disso, pequenos incrementos nos benefícios oferecidos pela sociedade não seriam suficientes para que uma maioria de pessoas troque o "bastante feliz" pelo "muito feliz". Com isso, a tendência de tais pesquisas a registrar apenas parcos aumentos no grau de felicidade relatado ao longo do tempo é em parte um produto artificial gerado pelo próprio instrumento de medição que elas utilizam.

Mas existem muito mais dúvidas fundamentais em relação ao que esses dados significam. Nas discussões políticas, os devotos das pesquisas sobre felicidade enfatizam a falta de correlação entre a felicidade ao longo do tempo e o PIB, ou o nível de renda, por cabeça. Ao passo que existe uma longa lista de outras variáveis que poderiam ser consideradas como contribuindo para o bem-estar humano, mas que também não foram postas em relação com a felicidade ao longo do tempo – por exemplo, os gastos públicos. Uma vez descontada a inflação, os gastos públicos nos Estados Unidos dobraram praticamente entre 1973 e 2004. Na Grã-Bretanha, eles cresceram 60%. Nos dois países, entretanto, a felicidade registrada aumentou em apenas 2%. Se nós tivéssemos que recorrer aos dados das pesquisas sobre felicidade como referências para definir a política de um Estado, muitos poderiam indagar a justo título para que servem todas aquelas escolas e aqueles hospitais?

O tempo dedicado ao lazer aumentou, principalmente na Europa. Entre 1979 e 2002, o número anual médio de horas trabalhadas na Grã-Bretanha caiu de 6%. Na Alemanha ocidental, a queda foi de 16%; ainda assim, a felicidade diminuiu de 5% ao longo deste período. As taxas de criminalidade nos países europeus estão muito mais elevadas do que eram 30 ou 40 anos atrás, ainda que isso não tenha exercido nenhum efeito negativo discernível sobre a felicidade. Em contrapartida, desde o início dos anos 1990, a criminalidade decaiu consideravelmente tanto nos Estados Unidos como na Grã-Bretanha, depois dos aumentos sensíveis dos índices registrados nas décadas anteriores, embora essas variações tampouco tivessem sido relacionadas como os dados sobre felicidade.

Não existe tampouco qualquer conexão entre a felicidade e as desigualdades dos níveis de renda. Os Estados Unidos tiveram o maior aumento dessas desigualdades em décadas recentes, ao passo que se essa tendência estiver prejudicando o bem-estar dos indivíduos, ela certamente não está sendo acrescentada aos dados sobre felicidade. Recorrendo a medições padrões das desigualdades de renda, como o coeficiente Gini, os dados mostram que as desigualdades aumentaram no decorrer do período, enquanto a felicidade aumentou e baixou alternadamente.

Portanto, se as medições da felicidade mostram que décadas de crescimento econômico não fizeram diferença alguma para o bem-estar social dos cidadãos ocidentais, o mesmo pode ser dito das tarefas políticas de toda natureza. As despesas públicas, o tempo de lazer e a criminalidade geram desigualdades, desigualdades de renda – embora nenhuma dessas tendências tenha sido de modo algum cruzada com as medições da felicidade ao longo do tempo. Além disso, embora os índices de depressão tivessem aumentado durante o período do pós-guerra, isso tampouco é refletido por uma eventual tendência de queda nos índices de felicidade. Portanto, são duas as conclusões a que podemos chegar: ou a tentativa de melhorar a condição humana por meio das políticas social e econômica é fútil, ou os dados não nos dizem nada que tenha valor.

Por que os dados estariam nos dizendo pouca coisa de real valor? Vamos deixar de lado por um momento a economia para considerar a cena final de "1984", de George Orwell. Winston Smith, o personagem central, finalmente alcança a felicidade. Ele ama Big Brother. Os anos de cuidados com a sua saúde mental dedicados por O’Brien foram bem-sucedidos. Smith está finalmente contente e reconciliado com a sociedade na qual ele vive.

É claro, trata-se de uma ficção, mas fatos tão estranhos quanto este aconteceram de fato. A morte de Stalin em 1953 deu origem a um luto maciço por toda a União Soviética. Verificações posteriores deixaram claro que aquele era um extravasamento de emoção de uma espontaneidade genuína. A felicidade fictícia de Winston Smith e a felicidade aparentemente genuína de muitos cidadãos da União Soviética sob Stalin sugerem que a felicidade não pode ser separada do seu contexto social. As pessoas se adaptam às suas circunstâncias, e é possível ser feliz em vários contextos diferentes.

Ocorre que a felicidade admitida ao longo do tempo pode ajustar-se rapidamente às mudanças na economia ou a outras circunstâncias, o que explica por que não aparece nenhuma tendência para cima ao longo do tempo.

Muitas das pesquisas sobre felicidade apontam para modelos sociais que não são atraentes para os liberais modernos. Por exemplo, diversos estudos sobre a felicidade e as desigualdades de renda mostram que uma sociedade onde as classes sociais são estáticas, onde as pessoas se relacionam apenas com aquelas situadas numa faixa de renda similar e onde ninguém tenta melhorar o seu status ou a sua riqueza em relação aos seus pares, pode ser menos inclinada a sofrer da "ansiedade do status" e se revelar menos insatisfeita do que outra que seria mais fluida socialmente falando, baseada no modelo da "meritocracia".

Além do mais, existe um país onde as argumentações em defesa da felicidade já produziram efeitos moralmente questionáveis. O reino do Butão é citado favoravelmente por destacados advogados da felicidade por ser o primeiro país a utilizar o conceito de "felicidade interna bruta" como base principal da sua política. Nesta nação muito rica, é obrigatório usar trajes típicos do vestuário nacional, e, até 1999, a televisão esteve banida. O Butão quer proteger e manter a sua cultura; com isso, nos anos 1980 e 1990, o governo expulsou efetivamente muitos membros da minoria étnica constituída pela população nepalesa, a qual se refugiou em campos no Nepal.

O exemplo do Butão sublinha o fato de que sempre haverá um julgamento político e moral visando a determinar quais tipos de medidas destinadas a aumentar a felicidade são aceitáveis; não existe nenhuma medida objetiva. Em vez disso, nós deveríamos presumir que os indivíduos são os árbitros daquilo que os torna ou não felizes e pressupor que eles têm alguma capacidade de transmitir isso aos seus concidadãos.

Transmitir às pessoas infelizes a mensagem de que elas são chamadas a serem felizes sem qualquer esforço da sua parte não as tornará felizes. Além disso, se o Estado estiver lutando para ser considerado como democrático em função das suas responsabilidades atuais, a última coisa que ele deveria fazer seria expandi-las de modo ambicioso.

Em 1944, Friedrich Hayek previu que, à medida que o Estado fosse expandir as suas responsabilidades ele se tornaria esclerosado e esgotaria a sua capacidade de corresponder às demandas e aspirações da população. Como resultado disso, esta última perderia suas ilusões em relação à democracia e haveria pressões para que as decisões sejam "tomadas fora da política" e colocadas nas mãos de especialistas. A aspiração de que os governos deveriam promover algo tão complexo como a felicidade tem tudo para impulsionar mais ainda a sua desilusão.

*Paul Ormerod é um economista; Helen Johns é uma economista ambiental

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: