Economy and Society II de José Porfiro – Specific

21 de abril de 2007

CABEÇAS DE PLANILHA

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:07 AM
Crítica/estudo

Nassif discute limites do crescimento

Em "Os Cabeças-de-Planilha", jornalista compara Gustavo Franco a Rui Barbosa e aponta caráter predatório de elites econômicas

MARCOS ANTONIO CINTRA
DA EQUIPE DE EDITORIALISTAS

Em linguagem simples e acessível, Nassif oferece ao leitor um amplo panorama do desenvolvimento econômico e social do capitalismo, desde os primórdios da indústria têxtil, sob a liderança inglesa, até a dinâmica da globalização financeira e produtiva sob a hegemonia dos EUA.
Nesse percurso, mostra que o crescimento econômico acelerado e a redução do atraso relativo entre as nações nada têm de automático ou de natural.
Os Estados nacionais que lograram construir economias mais modernas e sociedades mais democráticas adotaram estratégias internas de desenvolvimento. Criaram mecanismos domésticos de financiamento, estimularam a inovação tecnológica, reorganizaram a política de comércio exterior, viabilizaram investimentos em infra-estrutura, racionalizaram os tributos e promoveram a inclusão social. Dessa forma, recoloca em debate as contradições e os limites do desenvolvimento econômico e da industrialização brasileira.

Desfaçatez das elites
Gostaria nos limites dessa resenha de destacar duas discussões enfrentadas com muita coragem pelo autor. Em primeiro lugar, Nassif explicita de forma contundente o caráter predatório das elites econômicas nacionais. Desde "Machado de Assis: Um Mestre na Periferia do Capitalismo" (ed. 34), de Roberto Schwarz, não aparecia uma pesquisa tão ampla sobre a desfaçatez das nossas elites, inclusive das pensantes.
Nassif compara as políticas e o enriquecimento meteórico do ministro da Fazenda, Rui Barbosa, durante o governo provisório logo após a Proclamação da República (1889-1891), e dos membros da equipe econômica do Plano Real, Gustavo Franco, André Lara Resende, Pérsio Arida, Edmar Bacha, Winston Fritsch, Pedro Malan etc.
O seu ponto de partida é a dissertação de mestrado de Gustavo Franco sobre o Encilhamento, o processo especulativo ocorrido na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro nos primeiros anos da República Velha, fomentado pela expansão monetária promovida pela Reforma Bancária de Rui Barbosa.
Nesse trabalho, publicado em 1983, Franco defende a hipótese de que o malogro da política do ministro da Fazenda decorria da ausência de um Banco Central, que blindasse as operações internas das oscilações provocadas pela libra, com a quebra do Banco Baring na Argentina.

Transferência de riqueza
Como diretor de assuntos internacionais do Banco Central, 11 anos depois, Gustavo Franco promoveu uma valorização desmedida do real e favoreceu o enriquecimento de amigos que operavam "vendidos em dólar". Atuou exatamente como Rui Barbosa, que havia facilitado a transferência de riqueza e de poder aos seus aliados, sobretudo ao banqueiro Francisco de Paula Mayrink. "Quando saiu do Ministério, Rui já era um homem rico, participando de três empresas criadas no Encilhamento. Ainda se tornou presidente da Estrada de Ferro Goiás e Mato Grosso e do Banco Impulsor. Entre fevereiro e maio de 1891, em plena agonia do Encilhamento, o banco patrocinou cinco novos lançamentos no mercado." Como é sabido, os membros da equipe econômica do Plano Real se transformaram em banqueiros e/ou assumiram cargos diretivos no sistema financeiro doméstico. Para o autor, "o discípulo superara o mestre".
A revelação nua e crua do Plano Real, como instrumento de acumulação de riqueza privada por um grupo privilegiado, evidencia, mais uma vez, a ausência de um projeto de desenvolvimento para o país. As decisões, aparentemente universais, mascaram os interesses de poucos. Isso nos leva ao segundo ponto. A decisão de aprofundar a integração financeira doméstica com o mercado de capitais internacional, mediante a entrada de investidores na Bovespa, na BM&F, nas captações externas de empresas e bancos, e na internacionalização da riqueza financeira dos endinheirados tupiniquins.
Aposta-se que essa inserção financeira crescente fará a tão desejada convergência das taxas de juros domésticas com as internacionais, desencadeando um longo ciclo de crescimento econômico.
Até onde a vista alcança, o cosmopolitismo das elites globalizadas promoverá uma farra nos mercados de ações, derivativos, moedas, imóveis, e uma expansão na produção e nas exportações de commodities agrícolas, metálicas e industriais. Nassif sugere, então, como têm mostrado outros pesquisadores, entre eles o professor Carlos Medeiros, da UFRJ, que a dinâmica desse "capitalismo dependente e associado" se aproxima da predominante nos anos 20, integrado aos mercados de capitais e às correntes de comércio. Como naquele momento, porém, o país perde capacidade de implementar de forma autônoma as políticas monetária, cambial e fiscal.
As decisões de política econômica e social, que contrariem os interesses dos mercados financeiros, podem desencadear fugas de capitais. As turbulências externas, que elevam a aversão ao risco, podem resultar em saídas dos capitais especulativos. Os preços das commodities ficam sujeitos às oscilações dos mercados financeiros e da economia internacional. A dinâmica doméstica fica condicionada pela externa. Trata-se, portanto, de uma aposta de alto risco e que beneficia a poucos. Os setores favorecidos possuem baixa propensão ao emprego. O povo não cabe no modelo.

Crescimento econômico
Como unir as elites nativas, as empresas transnacionais e a "malta" numa "vontade coletiva", que restaure o crescimento econômico acelerado e a mobilidade social ascendente, passando pela democratização da terra, da renda, da riqueza, do sistema de educação e de saúde? Como recuperar os núcleos estratégicos do Estado brasileiro, fortalecendo-os para antecipar acontecimentos e sustentar iniciativas de longo prazo? No último capítulo, Nassif delineia uma proposta.
Em uma próxima edição, a fim de aperfeiçoar o livro, sugiro maior rigor com as fontes bibliográficas -vários trabalhos citados no corpo do texto não aparecem nas referências e inúmeros dados são apresentados sem as respectivas fontes. Sugiro ainda corrigir a caracterização da ordem econômica do século 19 como "semifeudal" (pág. 75). A própria discussão realizada pelo autor desfigura essa imagem. Boa leitura!


OS CABEÇAS-DE-PLANILHA
Autor:
Luís Nassif
Editora: Ediouro
Quanto: R$ 39,90 (320 págs.)
Avaliação: ótimo

 
LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1508200310.htm
O câmbio e os cabeças de planilha – 15-08-2003

Uma das maiores extravagâncias dos cabeças de planilha do mercado financeiro foi a abolição da variável câmbio de seus modelitos. É o mais importante preço da economia, é fundamental para resolver a questão da vulnerabilidade externa brasileira, para garantir uma melhor presença do país no mercado internacional, mas eles se comportam como se o câmbio fosse uma derivada de outras políticas.
Se o Banco Central trabalha com o nível de reservas cambiais de US$ 15 bilhões, o valor do câmbio é um; se aumenta as reservas, o valor do câmbio é outro. No próprio ato de definir o volume das reservas cambiais o BC interfere no câmbio. E como é que se ousa dizer que não é papel de governo definir o nível do câmbio?
Recentemente, o economista-chefe de grande banco -em um seminário em que estava presente o economista José Alexandre Scheinkman- enalteceu a performance da economia brasileira, que, no ano passado, conseguiu equilíbrio nas contas correntes com o aumento expressivo das exportações. Atribuiu ao recém-descoberto ímpeto, engenho e arte do exportador brasileiro. No ano passado não houve nenhuma revolução tecnológica, nenhuma inovação, não se lançaram marcas brasileiras no mercado, não se lançaram novos produtos com valor agregado, a recessão mundial acirrou a competição entre países. A única variável que mudou no Brasil foi o preço, o câmbio, que se desvalorizou. Só provocado o economista admitiu a influência do câmbio. Nenhuma palavra sobre o que significaria para as contas externas a apreciação do câmbio para não ter que discutir a inevitabilidade ou não de uma nova desvalorização cambial -depois de o BC ter jogado fora a desvalorização que recebeu.
Uma das alegações dos cabeças de planilha é sustentar que o país não pode perseguir superávits comerciais elevados -fundamentais para eliminar a volatilidade cambial- porque significaria uma recessão cavalar. Pode-se obter superávits no curto prazo ou com recessão ou desvalorizando a moeda. Como não existe desvalorização cambial no seu modelo, só conseguem conceber superávits comerciais com recessão.
Em geral, sua retórica repousa em sofismas rasos. O primeiro é que o país tem que buscar o aumento das exportações por meio de aumento de produtividade, competitividade, inovação etc. Apenas se esquecem de explicar que agregar valor à exportação não é questão de querer, é de poder e leva tempo, anos, décadas. Enquanto não há essas condições, ou se equilibram as contas mantendo a recessão ou com uma desvalorização controlada do câmbio.
Todos os casos bem-sucedidos de inserção global das últimas décadas começaram por um câmbio que assegurava preços baixos para, gradativamente, com o impulso inicial, ir se avançando em pesquisas e inovação. Esses cabeças de planilha apregoam um mundo ideal ao qual se chega num passe de mágica, sem processos intermediários pela frente.
Nem São Roberto Campos, Santo Octávio de Gouvêa de Bulhões e São Celso Furtado juntos conseguiriam salvar o país da lógica desse povo.

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2308200307.htm
Economia e visão sistêmica – 23-08-2003

Os anos 90 trouxeram enormes avanços nas formas de pensar de diversos setores do país. Na medicina, consolidou-se, finalmente, a chamada visão de equilíbrio do organismo. Hoje em dia, as boas práticas médicas sugerem ao paciente entregar sua saúde à responsabilidade de um clínico geral. Caberá a ele analisar o equilíbrio geral do organismo e acionar o especialista para os casos crônicos específicos, mas sempre monitorando o todo.
Essa mesma evolução se deu no âmbito das empresas. Até alguns anos atrás, sempre havia a preponderância de um setor sobre o todo. Nos anos 70 o marketing era absoluto. Privilegiava-se a conquista do mercado acima de qualquer preocupação de ordem financeira. Empresas morriam pelo caixa. Com a inflação e as crises sucessivas dos anos 80, o comando passou para o financeiro. Matou-se a visão estratégica de longo prazo.
Nos anos 90, com o fim da inflação e a abertura da economia, houve notável evolução na cultura empresarial. Os funcionários e departamentos passaram a ser avaliados por sua contribuição ao resultado final da companhia, e não por seu sucesso específico. Se um financeiro vier falar em "matar e esquartejar" os custos, sem subordinar sua ação à visão estratégica da companhia, será demitido na hora.
Nas universidades brasileiras, só agora, lentamente, começa a ganhar corpo a visão interdisciplinar. Nos Estados Unidos, a interdisciplinaridade e a noção de visão sistêmica, trazidas pela física, ajudaram a mudar até conceitos econômicos.
Na política econômica brasileira nada disso ocorreu. Desde que se inaugurou a era dos "pacotes", a política econômica tornou-se virtual, monofásica, burra, cabeça de planilha, sem interagir com outras áreas do conhecimento. Primeiro foi a visão monotemática da luta contra a inflação, presente no Plano Cruzado, implantado sem que houvesse o ambiente adequado prévio -abertura da economia desindexação etc. Depois o padrão financista dos anos 90, que considerava que bastava abrir a economia e permitir o livre fluxo de capitais para automaticamente garantir o investimento e o paraíso. Levou-se a tal extremo que, para acelerar o processo, eliminaram-se os superávits comerciais, a fim de facilitar mais ainda a vinda do capital de curto prazo.
Considera-se hoje o Real um sucesso de plano de estabilização. Essa visão fez o Brasil ser um dos últimos países do mundo a estabilizar sua economia, e a um custo que exigirá pelo menos mais oito anos de arrocho fiscal para pagar a conta. Agora, consideram que o modelo não deu certo porque faltou ousadia na sua implementação. Fantástico!
Dos anos 50 aos anos 70, os economistas brasileiros tinham muito claro essa visão sistêmica e pragmática da economia, do desenvolvimento integrado, contemplando políticas regionais, instituições de mercado, modernização institucional, desenvolvimento de formas de financiamento, do mercado de capitais, incentivo à inovação etc.
A redescoberta do desenvolvimento passa pela recuperação dessa visão sistêmica, pela devolução da política econômica ao clínico geral, ao CEO, pelo uso da teoria para resolver problemas reais, e não essa história atual de permitir ao financeiro avançar além do caixa.
 

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi3008200305.htm
As fontes na economia -30-08-2003

Nos últimos meses me empenhei em uma cruzada contra os "cabeças de planilha". Dou a tarefa por provisoriamente encerrada.
A intenção não foi atacar este ou aquele economista nem investir contra a categoria dos economistas de mercado, mas denunciar um tipo de cobertura jornalística extraordinariamente mediocrizante, que acabou privilegiando o palpite em lugar da análise e aceitou como verdades slogans que não resistiriam a nenhuma prova de consistência.
É hora de começar a avaliar melhor a qualidade do que é entregue ao público, principalmente porque a proliferação de palpites inconsequentes, quando ecoado por grandes meios de comunicação, acabam tendo peso político relevante.
Um dos vícios da cobertura é supor que todo economista está apto a falar de todos os temas econômicos e a fazer análise de conjuntura. Não é assim. A análise de conjuntura é um exercício intrincado, em que o analista precisa pesar muitos fatores, nem todos quantificáveis. Assemelha-se muito ao raciocínio desenvolvido no jogo do xadrez, no qual cada movimento de peça provoca um novo equilíbrio (ou desequilíbrio) no tabuleiro, implicando tantas variáveis que a intuição passa a ser elemento relevante de decisão.
É preciso entender as diversas classes de economistas. No topo da pirâmide há os formuladores, os economistas de visão geral, que sabem mesclar conhecimento de macroeconomia com mercado, agricultura, indústria etc. São poucos os que se enquadram nessa categoria -e não são os mais ouvidos.
Abaixo deles há os especialistas. O próprio mercado financeiro tem analistas com trabalhos relevantes sobre pontos específicos da economia e do mercado. Alguns deles até têm visão bastante crítica sobre o cabeça de planilha -que continua apostando em tendências já superadas pelos centros avançados de pensamento econômico.
Abaixo deles vêm os "arrumadinhos-detalhistas". São economistas especializados em levantar bancos de dados, indicadores, com especial apego aos detalhes e pouco empenho em teses inovadoras, sem nenhuma espécie de visão sistêmica.
Num quarto nível vêm os economistas de slogan, aqueles que cheiram a idéia que está na moda e se limitam a despejar conceitos sem conseguir amarrá-los a modelos de pensamento. São os economistas padrão "Caras" -para eles, as idéias econômicas se dividem entre as "in" (que estão na moda) e as "out". Diria que são os mais ouvidos pela mídia, inclusive por colegas seniores.
Alguns deles até conseguem destaque em áreas específicas da economia, mas se põem a chutar sobre conjuntura porque o mercado demanda.
Seja qual for o nível do economista, ele não se pode furtar a ser questionado sobre a lógica do que propõe. A virtude maior da nossa profissão é a capacidade e a obrigação do jornalista de arrancar do especialista o raciocínio despido dos conceitos fechados, definir o objetivo a ser alcançado por determinada proposta e detalhar todas as consequências de cada passo, para conferir se há lógica ou não.

 

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0212200306.htm
Macro e microeconomia -02-12-=2003

Que se percam as esperanças. Essa história de que bastarão marcos regulatórios adequados para o investimento externo afluir é auto-ilusão. É a velhíssima história de "fazer a lição de casa", enquanto se permitem políticas macroeconômicas que desarrumam completamente o ambiente econômico.
Como lembra em e-mail Fernando Pinto Ferreira, sócio-diretor da Global Invest, de Curitiba -em reforço ao que escrevi na coluna "O país dos Mandrakes"-, "a China, é um pais com praticamente zero de marco regulatório, uma ditadura com todas as imprevisibilidades que lhe são naturais. E por que um país desses se torna tão atraente, a despeito dos riscos que apresenta? A resposta é simples (como para outros asiáticos): carga tributaria baixa e câmbio desvalorizado, tornando o custo de produção em dólar (principalmente salários) baixo o suficiente para tornar o investimento compensador".
Desenvolvimento depende de investimento de risco. Investimento de risco depende de taxa de retorno que seja superior às taxas de renda fixa. E isso passa por juros baixos, tributação módica, redução da burocracia, câmbio competitivo e expectativa de crescimento da renda e do consumo. O resto é macumba planilheira.
Dias atrás, o "Valor" publicou artigo magistral de Dani Rodrik -professor de economia política na John F. Kennedy School of Government, da Universidade Harvard-, em que analisou os desastres acarretados pela apropriação da política pelos economistas cabeças de planilha. Demonstra a maneira como simplificam as análises, a dificuldade que têm de estabelecer raciocínios complexos, de buscar soluções que fujam do manual.
A Coréia do Sul se desenvolveu, a do Norte, não. Na hora de analisar o fenômeno, o estrategista levantaria todos os fatores de diferença: câmbio depreciado, investimento em tecnologia, educação, abertura comercial gradativa e, depois do ambiente favorável, abertura ao capital externo. E trataria de atuar sobre esses fatores. O cabeça de planilha pegaria a abertura ao capital externo e derivaria para trás.
A essa altura já deve ter caído a ficha do governo sobre essa manobra da criação sucessiva de expectativas por parte do mercado. O ano terminou com um superávit primário recorde de 4,25%, apresentado como condição necessária para o espetáculo do crescimento. O que se acena para 2004? Com mais um superávit primário, um aumento descomunal da Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), a manutenção de formas diretas e indiretas de tributação (por meio dos lucros das empresas públicas), a manutenção da extraordinária transferência de renda para o setor financeiro. Ou seja, promete-se o crescimento com tudo aquilo que compromete o crescimento.
É importante que o governo comece a fazer o Banco Central trabalhar. A alegação de que o modelo é perfeito, o país é que não ajuda, não cola mais. Fazer política monetária com taxas reais de 10% é moleza. O desafio é como sair dessa armadilha da dívida pública e dos juros descomunais.
É esse o trabalho que se espera do Banco Central, se o governo Lula almeja terminar seu período deixando algum legado para a história.

 

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1612200308.htm
Modelo econômico e crime – 16-12-2003

Um dos problemas dos cabeças de planilha é a incapacidade de correlacionar a teoria e a realidade. Aplicam acriticamente fórmulas aprendidas no exterior. Não fossem cabeças de planilha, adaptariam o conhecimento às condições do país, já que modelos econômicos não são universais.
Como não conseguem, aplicam a teoria, desequilibram a economia, começam a pipocar as sequelas. E aí se metem em um exercício inútil de encontrar uma "explicação" para cada desajuste.
O caso mais flagrante tem sido essa tentativa de descolar a questão da segurança do modelo econômico. Há um aumento enorme não apenas da criminalidade das ruas, mas do crime organizado. Não é necessário nenhum exercício intelectual complexo para perceber relações diretas entre estagnação econômica e aumento da criminalidade. Mas esse pessoal ignora todos os sinais, todas as evidências.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo decidiu montar séries estatísticas e cruzar os dados. Pegou um período longo -janeiro de 2001 (base 100) a abril de 2003. Em uma linha, colocou o índice de roubo a transeuntes (assalto à mão armada). Na outra, a taxa de desemprego. A correlação foi de 0,83 (o chamado nível de aderência vai de -1 a +1).
Depois comparou o índice de roubos com o rendimento médio mensal dos assalariados. A correlação foi de -0,81 (com sinal negativo porque são inversamente proporcionais: menos renda, mais assalto).
Essa é a parte visível da correlação. A parte mais tenebrosa é o avanço do crime organizado. Quando começou o grande nó no modelo econômico, com a política de juros de 1995, seguida do aumento brutal da carga de impostos (para pagar os juros), milhares de pequenas e médias empresas deixaram de recolher impostos.
O primeiro passo foi a inadimplência. Ocorre que todo aparato regulador no país é contra a economia formal. Ao deixar de pagar impostos, mas continuando na formalidade, esses empresários foram alvo de fiscalização intensa. Ilegal por ilegal, passaram a se abastecer de mercadorias ilegais desde cargas roubadas a produtos falsificados. Os empresários que se mantiveram na ilegalidade se viram sem condições de competir com esse novo e sombrio Brasil que emergiu da crise econômica. A cada dia que passa, essa economia do crime vai se robustecendo cada vez mais. A cada dia que passa, os cabeças de planilha terão de inventar novas explicações para o fenômeno.
A razão é uma só. Este país começou a agonizar no dia em que caiu na armadilha da abertura cambial com câmbio apreciado. E, aparentemente, o governo Lula não terá coragem política para desfazer esse nó.
E, aqui no meu canto, fico pensando em quem causou mais mal ao país: esse crime que está tomando todos os cantos da pátria, ou os economistas que nos jogaram nessa sinuca de bico e persistem nesse caminho por absoluta falta de coragem de encarar o problema.

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1305200408.htm
Mesmos erros, explicações iguais -13-05-2004

Em dezembro do ano passado, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, declarou pela enésima vez que a taxa de juros do país só cairia com a queda do risco Brasil. E pela enésima vez assegurou que o risco Brasil cairia com a melhora dos fundamentos da economia.
O risco Brasil é definido, entre outros fatores, principalmente pelas cotações do C-Bond -o título com maior negociação da dívida brasileira. As cotações desse papel dependem não apenas da situação do país em si, mas das alternativas que os investidores dispõem para seus investimentos.
Criou-se a seguinte lógica:
1) a retomada da atividade econômica do país depende de uma queda substancial dos juros, que
2) depende da queda do risco Brasil, que
3) depende da melhoria do valor do C-Bond, que
4) depende da disposição dos investidores internacionais, que
5) pode ser alterada por qualquer evento relevante internacional, sem nenhuma relação direta com o país.
Aí o Fed norte-americano acena com a possibilidade de aumento das taxas de juros internas. Parte dos investimentos em papéis mais especulativos retornará para os EUA. Como não há idéia do volume que será atraído pelos juros norte-americanos, criam-se o chamado efeito manada -os investidores fogem de papéis de maior risco para não serem atropelados pelos investidores que se anteciparem- e um maremoto internacional com essa realocação de portfólio. E o Brasil amarrado a essa irracionalidade.
Agora se é obrigado a ouvir os mesmos cabeças de planilha de sempre, do mercado, da imprensa e do BC, explicando que a crise tem razões externas, portanto nada a ver com os fundamentos da economia brasileira. Mas dói do mesmo jeito.
E que o risco Brasil é alto pelo temor de que sobrevenham controles administrativos -temores que são fruto exclusivo das distorções da liberalização cambial à brasileira.

Amadorismo
Na reportagem sobre Lula, o correspondente do "New York Times" cometeu o que comumente se chama de "esquentamento de matéria". Pegou um boato, o hábito de beber de Lula. Associou-o a duas características de Lula que nada têm a ver com o álcool: as gafes nas declarações de improviso e o desânimo atual. Juntou declarações de três fontes não apropriadas, um cronista cultural que interpreta um personagem, um colunista político especializado em "potins" de Brasília e um adversário político. Não apresentou nenhum fato ou aparição pública que mostrasse Lula embriagado. Limitou-se a mencionar fotos com faces vermelhas.
Nestes tempos em que a grande mídia norte-americana está fragilizada perante seus leitores com acusações de "esquentamento" e de ficção nas reportagens, que se sabe que o correspondente era do grupo do ex-diretor de Redação do jornal, que se demitiu após os escândalos com reportagens falsas, seria facílimo desqualificar a obra e o criador. Bastaria uma carta bem fundamentada ao jornal, escrita em tom sóbrio e superior, demonstrando tecnicamente o "esquentamento" ocorrido.
Em vez disso, transformaram um jornalista de "esquentamento" em mártir da liberdade de imprensa.

 

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2112200411.htm
Cadê o economista? – 21-12-2004

Em que se transformou o estudo de economia no Brasil nas últimas décadas? Autor de um pequeno clássico sobre o pensamento da escola de economia da PUC-Rio, o consultor André Araújo sustenta: o Brasil não tem mais pensadores de economia, "tem papagaios repetidores e copistas-detalhistas de subteses vindas de fora".
Basta ver os incríveis "Working Paper Series" (assim mesmo, em inglês) do site do Banco Central. É um deserto de pensamento econômico, diz ele, completamente diferente da matriz intelectual deles, os Estados Unidos, onde o debate entre escolas é intenso e enriquecedor.
Essa escola de economistas está no poder há 13 anos, desde o ministro Marcílio Marques Moreira, no governo Collor. Nesse período, não conseguiu emplacar um único economista brasileiro no segundo ou terceiro escalões do FMI. O máximo que conseguiram (e estufam o currículo com isso, diz Araújo) é figurar no banco de consultores pagos por trabalho, uma vala comum de milhares de nomes de terceira categoria.
Enquanto argentinos e chilenos se revezam nos melhores postos do Departamento do Hemisfério Ocidental, que jurisdiciona o Brasil -o melhor cliente devedor do Fundo desde a criação deste, em 1945-, os professores-doutores brasileiros nem chegam perto desse importante centro de decisões, pago pelo Brasil. Desde 2002 a fatura apresentada ao caixa do Tesouro em Brasília pelo FMI paga a totalidade das despesas administrativas do Fundo, inclusive sua folha de bons salários para 2.000 servidores, dos quais 1.000 são economistas. São US$ 800 milhões que o Brasil paga de encargos ao FMI e são US$ 800 milhões que o Fundo gasta por ano com despesas.
Mesmo assim, não há um único economista brasileiro que tenha apresentado qualquer trabalho original, de repercussão no exterior, que dissesse respeito às grandes questões que interessam ao Brasil. A razão disso é a ausência de debate público sobre a economia brasileira. Há uma torre de marfim, onde os grão-vizires desse pensamento cabeça-de-planilha desfilam platitudes e obviedades, com ares de sábios, reduzindo a economia a duas ou três variáveis, como poetastros que discutem métricas e filigranas em tertúlias literárias.
A discussão econômica se restringe, nesses centros, a discutir fórmulas vagas, se perder em detalhes estatísticos, sem nenhuma visão do todo. Como as teses originais são mais difíceis de serem apreendidas, a cobertura acaba se fixando em clichês e lugares-comuns. Há a elegia permanente da mediocrização.
Nos EUA -insiste Araújo-, o debate econômico está longe de ser exclusivo de economistas. Todo mundo fala, economia tem muito de arte e bom senso, não é preciso ser acadêmico para ter boa cabeça econômica.
Dentro do próprio mercado, há uma safra de economistas que não entrou nesse jogo marqueteiro dos cabeças-de-planilha. Faltam apenas uma articulação maior e um maior esforço da cobertura para captar as boas idéias que circulam.

 

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0906200512.htm
A estratégia e a planilha – 09-06-2005

Na semana passada o economista David Kupfer escreveu no "Valor" um artigo irretocavelmente simples sobre a política monetária. Mandei-lhe um e-mail parabenizando-o. Ele respondeu dizendo-se surpreso com a repercussão, porque achou que tinha escrito apenas o óbvio.
A discussão econômica brasileira perdeu a referência do óbvio. Hoje em dia, a parte mais consistente do pensamento econômico brasileiro está sendo desenvolvida no Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ao qual pertence David. Não se trata de nenhuma teoria nova, de nenhuma formulação revolucionária. Seus economistas estão simplesmente repondo nos eixos princípios econômicos básicos de economia, o óbvio.
Por mais sofisticadas que sejam as teorias, elas visam, no fundo, descobrir novas maneiras de relacionar variáveis, quase todas tão antigas como o mercado. Esse entendimento das co-relações não é tarefa trivial.
Os grandes analistas trabalham com grandes números, não com o detalhe do detalhe do detalhe. Seu trabalho é criativo. Depende de conhecimento amplo e diversificado sobre teoria econômica, mercado, política, economia real, noção de proporção. Depois que ele enxerga a estratégia ou o diagnóstico correto, é que vem o economista e faz seus cálculos.
O mercado -esperto como ele só- já identificou claramente as diferenças desses dois tipos de profissionais: o estrategista e o economista. Não peça para o estrategista dissecar as partes do Orçamento. Esse trabalho braçal-intelectual é do economista. Seu trabalho é pensar o todo.
Os que dominam esse ferramental analítico pensam claro e escrevem claro. E isso é fatal, nessa terra de bacharéis: se é simples assim, por que só você percebeu? Os interlocutores não sabem que, por trás daquele modelo, das co-relações estabelecidas, há uma variedade enorme de variáveis e uma quantidade infinita de combinações, sobre as quais o estrategista exerceu uma faculdade de difícil domínio: o julgamento, o discernimento. Depois que se definem as variáveis essenciais, e se estabelecem as co-relações certas, está se extraindo o sumo do conhecimento econômico.
O que ocorreu nos últimos anos foi uma epidemia do matematismo, daquilo que o empresário Paulo Cunha chama de "mediocridade detalhista", do sujeito capaz de ir ao centro do detalhe e não dispor de nenhum discernimento para analisar o todo.
A banalização da discussão econômica, dessa chamada visão financista da cobertura, decorre disso, de um simulacro de teoria econômica sem pé nem cabeça, em que se define primeiro a resposta para depois se buscar a explicação.
David Kupfer escreve claro. Delfim Netto escreve claro, assim como Yoshiaki Nakano, João Sayad, a turma da UFRJ, Dionísio Dias Carneiro. Nos seus escritos, as co-relações estão claramente explicitadas. Se você não entender as co-relações levantadas por economistas que escrevem hermeticamente, fique sossegado: possivelmente não existem ou são falsas.

 

LUÍS NASSIF
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1409200515.htm
Banco Central e Tesouro -14-09-2005

Nos debates do 2º Fórum de Economia da FGV (Fundação Getulio Vargas), consolidaram-se algumas conclusões -não unânimes, dada a diversidade dos debatedores- sobre as razões da crise brasileira e sobre mitos que deram vida e alimentaram esses erros.
Um deles é o mito da poupança externa, que legitimou a loucura da apreciação cambial de 1994. A lógica era a de que havia insuficiência de poupança interna. O caminho seria apreciar o câmbio e abrir espaço para o ingresso de poupança externa. Apreciou-se o câmbio, criou-se uma brutal dívida externa e interna e a poupança não apareceu. Nos últimos anos, com a mudança do câmbio e a melhoria das contas externas, em pouco tempo a poupança interna aumentou cinco pontos do PIB (Produto Interno Bruto).
Em seu trabalho no encontro, o economista Yoshiaki Nakano procurou se debruçar sobre as razões dos juros elevados, compilando idéias dele e de outros economistas ao longo dos últimos anos.
Um dos problemas centrais é a falta de coragem do Banco Central e da Secretaria do Tesouro Nacional até de aprofundar a ortodoxia. Ambos operam a dívida pública. Mas o BC atua na política monetária (controle da liquidez da economia) em cima das sobras de caixa das empresas e das reservas bancárias. E o Tesouro deveria atuar em um segundo mercado, de títulos de médio e longo prazo. Depois dos dois primeiros anos de estabilização, esses dois mercados deveriam ter sido devidamente separados, permitindo uma curva de juros normal no país -aquela em que as taxas de curto prazo são baixas e depois vão aumentando à medida que os prazos dos títulos vão se alongando.
Essa separação não foi feita. Como o Banco Central tem uma estratégia única de política monetária -batizada por Nakano de "doidos contra a inflação"- , a taxa altíssima de curto prazo acaba funcionando como piso dos juros da economia.
Com essas taxas de juros, mais o desemprego estrutural e a má distribuição de renda, o único caminho da indústria para crescer deveria ser a busca do mercado externo. É por isso que a taxa de crescimento da economia passou a ser determinada pela demanda externa e pela taxa de crescimento das exportações.
Nesses anos todos, o pagamento de juros da dívida pública passou a representar de cinco a dez pontos percentuais do PIB, criando um efeito riqueza ao contrário. Em economias normais, quando a autoridade monetária quer desaquecer a economia, aumenta os juros, reduzindo a demanda. Aqui é o contrário. Aumentam os juros, aumenta a riqueza rentista, e os bancos passam a ter mais caixa para emprestar.
O grande desafio do próximo governo será como transitar da situação atual para um quadro de equilíbrio virtuoso, em que se tenha um câmbio competitivo, mas estável. Essa história de que câmbio flutuante foi feito para flutuar só pode caber em cabeças de planilha. A taxa tem que ser competitiva o suficiente para impedir crises cambiais futuras e garantir a estabilidade da moeda.

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