Economy and Society II de José Porfiro – Specific

3 de maio de 2007

POWERPOINT

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:55 PM

A interface cultural do PowerPoint
Por Abel Reis <!–[IMAGEM]

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O mecanismo de um dos programas mais usados por acadêmicos e executivos não é ingênuo nem ideologicamente neutro

Pesquisas e debates sobre interfaces humano-computador (IHC) são pautados, em geral, pela psicologia cognitiva e pela engenharia de software. Dá-se, por conseguinte, uma espécie de “naturalização” do tema, de modo que, para desenvolvedores e consumidores, tudo se passa como se interfaces de software fossem culturalmente ou ideologicamente “neutras”.

Não é por outra razão que os aspectos ergonômicos da experiência do usuário diante de seu desktop, passam ser os únicos “dados de realidade” a merecer atenção e análise, quando se trata de avaliar uma particular IHC.

Porém, creio que assim como não há “ideologias ingênuas” -já o dizia Luckács- não há interfaces ingênuas. Toda ferramenta de software traz embarcada uma “interface cultural”, no sentido em que a define Lev Manovich, ou seja: apresenta uma gramática de ações que estrutura, no espaço e no tempo, a experiência humana de acesso à informação.

Quando falamos de produtos de mercado de massa, como é o caso do PowerPoint, um dos programas mais utilizados por acadêmicos e executivos em suas apresentações, parece legítimo perguntar: que interface cultural está nele embutida?

Sou usuário intensivo dessa ferramenta e claramente noto que seus recursos e templates (modelos) são portadores de uma “disciplina mental” certamente útil, mas que, como toda abordagem disciplinadora, traz consigo opções de caráter ideológico, ou seja, certos pressupostos que configuram um espaço de possibilidades para a ação e expressão de idéias.

Vale notar que o modelo de apresentações por slides não nasceu com o PowerPoint. Muito antes, seja usando transparências (com retroprojetor) ou slides fotográficos, o modelo “slideware” já reinava no mundo das apresentações de negócios.

O PowerPoint não é obviamente a única ferramenta de software voltada para esse tipo de aplicação, mas com certeza é a mais difundida no âmbito de empresas, de um modo geral, como também mais recentemente, chegou às escolas.

Estratégias disciplinadoras

Analisando o PowerPoint e considerando o que dele diz um de seus críticos, o designer de informação Edward Tufte, apontarei, em linhas gerais, o que parecem ser indícios de alguns dos mecanismos disciplinadores assumidos em sua IHC:

Economia de texto: O espaço físico restrito do slide PowerPoint força a elaboração de frases curtas, de modo a formar conjuntos de itens que enunciam ou caracterizam pontos da exposição;

Organização seqüencial da exposição: A restrição de espaço no slide, da mesma forma, leva ao desmembramento da exposição em slides seqüenciais, o que acaba por dificultar a exposição bem articulada de raciocínios complexos. Normalmente esse problema é resolvido mantendo-se, nos slides subseqüentes, vestígios visuais que referem aspectos relevantes do raciocínio, anteriormente enunciados. O efeito colateral dessa técnica é a sobrecarga dos slides com elementos visuais remissivos.

Itemização dos assuntos: Induz o desmembramento recursivo de temas em sub-tópicos. Esse modelo força a compactação de idéias em frases “telegráficas”, deixando para o apresentador a tarefa de “ligar as idéias” presentes no slide, conduzindo o público sem integrá-lo à discussão.

Expressão visual de conceitos: Considerando a aparente inadequação do Powerpoint para expressão verbal e argumentativa de idéias, há uma natural tendência à formatação visual (fluxos, caixas, linhas, setas) de conceitos e argumentos (relações lógicas e temporais) como substituto de palavras e sua capacidade polissêmica.

Se isso é verdade, então três perguntas me ocorrem:

Que modelo mental 1 está por trás desses mecanismos?

Que disciplinas de argumentação e exposição há por trás desses mecanismos?

O que “perdemos” quando usamos tais mecanismos?

Tais questões parecem-me extremamente relevantes, se considerarmos que o PowerPoint firmou-se como um recurso para consolidação e difusão de informação e conhecimento nas empresas e congressos universitários e vem sendo empregado como ferramenta de suporte ao ensino infantil em algumas escolas do país. Será neutro esse emprego? Será necessariamente positivo?

Críticas e comentários serão bem recebidos em http://noema.typepad.com

.

link-se

Power Point – http://office.microsoft.com/en-us/FX010857971033.aspx

Mental Models Web Site – http://www.tcd.ie/Psychology/Ruth_Byrne/mental_models/theory.html

Edward R. Tufte – http://www.edwardtufte.com/tufte/

Lev Manovich – http://www.manovich.net/

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Abel Reis
É um dos top creatives do mundo, segundo o livro "How to catch the big idea", do consultor Ralf Langwost. Mestre em Engenharia de Computação pela UFRJ, é doutorando em comunicação e semiótica na PUC-SP e VP de Tecnologia e Projetos da AgênciaClick.

1 – “Modelo mental” é aqui entendido como um modelo em pequena escala que permite uma pessoa, mentalmente, explicar e prever eventos e comportamentos do mundo. Exemplo trivial: abrir uma torneira com cuidado prevendo que, se aberta bruscamente, jorrará água no usuário. Para mais informações sobre o tema, acesse o “link-se” no final deste artigo.

 

A Interface Cultural do Powerpoint

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