Economy and Society II de José Porfiro – Specific

15 de maio de 2008

POLÍTICA INDUSTRIAL III – RECUPERAÇÃO DA CRISE

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 6:29 AM
 
 
 

Ainda o primeiro ano do resto das nossas vidas

David Kupfer
29/04/2009
Com o título "O primeiro ano do resto das nossas vidas", a coluna anterior, publicada em 1º. de abril, buscou sugerir algumas condições de contorno para a análise das perspectivas da indústria brasileira após o crash de 2008. O centro do argumento desenvolvido estava baseado na convicção de que, para além da convergência das expectativas quanto à necessidade de dois a três anos para que os níveis de atividade pré-crise sejam retomados, o pós-crise vai se dar em um quadro estruturalmente distinto. Nesses novos fundamentos estruturais tenderão a prevalecer, pelo lado da demanda, mudança nos padrões de consumo de volta a uma ressegmentação baseada em diferenciação de produtos; pelo lado da oferta, forte processo de concentração do capital por meio de fusões e aquisições de empresas; e, pelo lado da regulação, não só mais ativismo do Estado como, principalmente, mais seletividade na sua atuação, o que significará mudança de orientação das políticas industriais adotadas pelos países mundo afora.

Tentando extrair implicações para a indústria brasileira, a coluna enfocou possíveis modificações nas diferentes trajetórias estruturais que os diversos setores vinham percorrendo quando da eclosão da crise: nos setores da base da indústria, o retorno da equação da geração de valor ao seu sentido histórico, no qual os produtos mais elaborados são mais valorizados do que os mais básicos, poderá significar a quebra da espinha dorsal da estratégia de aposta nos produtos menos elaborados que vinha sendo adotada pela nata das empresas brasileiras; para os setores do topo da indústria, também estará em cheque e precisará ser revista a estratégia de expansão quase que totalmente dependente de tecnologias incorporadas em insumos e equipamentos importados.

Devido às limitações de espaço, não foi possível abordar nessa análise uma parte muito importante da atividade industrial nacional, localizada entre a base e o topo, que denomino de "miolo da indústria". Formado essencialmente pela indústria tradicional, é constituído por grande número de setores, produtores tanto de insumos e componentes industriais (produtos de metal, embalagens e peças plásticas, químicos diversos e material elétrico, dentre outros) quanto de bens de consumo (alimentos, têxtil e calçados, artefatos plásticos e móveis, dentre outros). Em comum, reúne atividades de menor conteúdo tecnológico e poucos requisitos de escala mínima de produção, o que favorece a variedade empresarial e permite a convivência de empresas de diferentes tamanhos, produtos, capacitações e desempenhos.

No Brasil, historicamente, o miolo da indústria abriga cerca de 70% das empresas, em torno de 60% do pessoal ocupado total e pelo menos um terço do valor adicionado pela atividade industrial. Diferente dos setores da base, que vinham se beneficiando da exuberância da economia mundial e dos setores do topo, que estavam conseguindo responder com a ampliação da integração internacional, os setores do miolo, mesmo no auge cíclico, enfrentavam quadro pouco favorável, evidenciado pelas taxas de crescimento menores que a média da indústria e pelo rápido aumento da penetração de importações. De fato, sobre o miolo da indústria estavam – e estão – concentradas as principais fragilidades competitivas da economia brasileira, sejam as decorrentes das limitações de capacitação produtiva, tecnológica e gerencial das empresas, sejam as de fatores mais sistêmicos como os custos crescentes da infraestrutura, o problemático acesso a capital, as conhecidas distorções tributárias e, especialmente, a taxa de câmbio ultravalorizada.

Não sem razão, o miolo é a parte da indústria brasileira em que se fazia mais visível a gradual perda de densidade das suas cadeias produtivas, fato embasado por números que mostram que nos últimos dez anos houve uma perda de cerca de dez pontos percentuais no peso desses setores na matriz industrial do país. Particularmente desfavorável vinha sendo a situação experimentada pelos setores do miolo que são produtores de insumos industriais. No caso da produção de bens de consumo, o ambiente competitivo era menos hostil devido a uma dose de proteção natural decorrente do vigor ainda exibido pelos valores culturais brasileiros e, talvez mais importante, em vista das relevantes transformações que estavam sendo provocadas pela ascensão das classes C e D ao núcleo de consumo da economia brasileira. Isso porque o setor do grande varejo nacional vinha buscando responder à rápida massificação do consumo no mercado interno com um esforço de desenvolvimento de fornecedores locais que estava, em parte, contrabalançando a tendência geral de aumento do global sourcing.

Para o miolo da indústria, o desafio implícito à saída da crise significará mais uma volta no parafuso que aperta a pressão por aumentos de qualidade e produtividade. Preocupa a possibilidade de que, na ausência do apoio de políticas públicas eficazes, a resposta factível para esse segmento limite-se a um processo de modernização polarizado, em que um pequeno número de grandes empresas consegue evoluir enquanto a maior parte do sistema empresarial é levada para a precarização, informalização ou outras estratégias não virtuosas de redução de custos, recolocando em cena uma trajetória anterior, muito pouco desejável, que foi típica dos anos 1990. Essas preocupações são reforçadas pelos impactos que a crise mundial poderá ter sobre os sistemas produtivos de processamento de exportações altamente fragmentados implantados na Ásia que, para escapar dos riscos de desarticulação trazidos pelas novas condições da demanda internacional, poderão responder por meio de estratégias agressivas de cortes de preços. Como agravante, a isso poderá se somar os efeitos da crise no mercado de trabalho, que certamente impactarão negativamente o mecanismo de compensação que vinha sendo operado pelas redes de varejo brasileiro, levando-as a optarem pelos fornecedores internacionais e aprofundamento a penetração de importações nesses segmentos do miolo da indústria.

Em suma, quando a economia mundial retomar, o fará com base em quadro estruturalmente distinto. O Brasil é um dos poucos países que podem conciliar objetivamente as condições requeridas para desenvolver simultaneamente a base, o miolo e o topo da indústria. No momento em que a Política de Desenvolvimento Produtivo, a política industrial do atual governo, completa seu primeiro ano, essas reflexões talvez possam ser úteis para o necessário trabalho de reformulação de suas metas, diretrizes e ações.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. www.ie.ufrj.br/gic E-mail: gic@ie.ufrj.br)

 
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Folha – 25mai2008
ARTIGO

Tiro no pé

MARCOS DE BARROS LISBOA
ESPECIAL PARA A FOLHA

NOS ÚLTIMOS dois anos, para surpresa e crítica de muitos analistas, a equipe econômica tem anunciado seguidamente propostas que aparentemente conflitam com os fundamentos da política em vigor. Não poucas vezes, a proposta se revela ausente de solidez técnica. No entanto, a seqüência de propostas não tem por objetivo, necessariamente, produzir efeitos econômicos. Desde 2003, há um inevitável desconforto em setores da esquerda com uma política econômica oposta às suas tradicionais palavras de ordem. A ausência de uma alternativa consistente e os resultados da política em vigor têm levado parcela da sociedade, e mesmo alguns economistas de esquerda, a defender posições que até recentemente eram identificadas como a essência do neoliberalismo, como, por exemplo, maior superávit primário.
No debate público, os símbolos são tão importantes quanto os fatos. Parte do governo procura enfrentar o desconforto com propostas que permitam argumentar a sobrevivência de algum resquício do velho discurso. Por isso, a relevância de anúncios que ao menos sugiram a aparência de uma prática distinta. Trata-se da tentativa de criar a impressão de algum aspecto à esquerda em uma política essencialmente tradicional, mesmo que seu impacto seja apenas retórico.
Entretanto, a política econômica da entrevista coletiva, caso utilizada exageradamente, não afeta apenas a militância. Os anúncios ansiosos de que algo será feito (ainda que nada muito relevante, até agora, tenha ocorrido) aumentam a volatilidade dos preços dos ativos e reduzem a segurança para os investimentos de longo prazo.
A ansiedade com o aumento da taxa de juros, por exemplo, gerou diversas propostas que se contrapunham à política monetária, mas que terminaram tendo um efeito perverso: ao contrário do pretendido, o resultado foi a piora tanto da curva de juros como das expectativas, ampliando as conseqüências negativas do ajuste monetário.
O debate sobre metas de inflação em meados do ano passado, as seguidas medidas sobre o crédito, os ajustes tributários que distorcem preços relativos e a série de debates sobre propostas pouco fundamentadas apenas fragilizam, desnecessariamente, as perspectivas econômicas para o próximo ano. Os aumentos do IOF, por exemplo, tiveram como efeito colateral encarecer o financiamento para as empresas, indo na direção contrária à ampliação da capacidade de crescimento sustentável. Pior, essa seqüência de propostas veio precisamente em um momento difícil da economia internacional, que encareceu o crédito e reduziu o acesso à liquidez.
Os adequados fundamentos econômicos, depois de vários anos de uma política consistente, e a firmeza do presidente nos momentos mais críticos têm garantido o bom desempenho da produção e do emprego.
Entretanto, o ajuste macroeconômico neste momento um pouco mais difícil poderia ser bem menos custoso não fossem os ruídos desnecessários que têm sido gerados seguidamente. Na condução da política econômica, muitas vezes, silêncio e serenidade auxiliam mais do que ativismo e declarações sucessivas. Sobretudo quando não se tem nada a dizer.


MARCOS LISBOA , 43, doutor em economia pela Universidade da Pensilvânia (EUA), é diretor-executivo no Unibanco. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda de 2003 a 2005 e diretor-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) de 2005 a 2006.

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FOLHA DE SÃO PAULO, 19MAI2008
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Política industrial e câmbio

A POLÍTICA industrial que o governo anunciou na última semana merece apoio porque envolve um conjunto de medidas que estimularão o desenvolvimento tecnológico e a competitividade da indústria nacional. É uma política desenvolvimentista da melhor estirpe, semelhante às políticas que outros países adotam para promover sua indústria. Nenhum país rico deixa de apoiar suas empresas, não há razão para que não o façamos também. Entretanto, conforme observou o jornal "Valor" (13/5), "a segunda versão da política industrial do governo Lula é uma continuação ampliada da primeira, cujos resultados foram escassos". E o jornal prevê que o mesmo destino está reservado a essa segunda versão. CONTINUA………………

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Dani Rodrik is producing some very interesting stuff these days. Below the fold are extensive extracts from his new paper Industrial Development: Stylized Facts and Policies. Trust me, it’s more exciting than it sounds. The main message, for me, is the importance to development of increasing the ’sophistication’ of manufactured exports, and the importance to that in turn of learning, spillovers and technology transfer. There’s also some good theory on why the results of import liberalisation have been so disappointing in many cases. He contrasts the failure of governments like those in Latin America who, following orthodox advice, tried to just ‘get out of the way’ of businesses and watched their economies stagnate with the deliberately interventionist (though not always in the ways you might expect) approach adopted by the more succesful East Asian countries.

Economic globalization has greatly increased the premium on manufacturing, particularly of the exportable kind. In recent decades rapidly growing developing countries have been able to grow much faster than earlier antecedents (Britain during the industrial revolution, the United States during its catch-up with Britain in the late 19th century, or European recovery in the postwar period). The reason for this is that world markets provide near-limitless demand for manufactured exports from developing countries. An expansion of non-tradables is self-limiting, as the domestic terms of trade eventually turns against non-tradables, choking off further investment and growth. And there are natural limits to export-led growth based on primary products, as country after country has discovered. Developing countries exporting manufactured products do not face such limits as long as they can latch on to new activities which face dynamic demand in rich countries’ markets.

Despite all this, recent economic thinking on policy reforms pays scant attention to structural transformation and industrial development. The implicit view is that once the “economic fundamentals”—macroeconomic stability and well-functioning markets—are in place, structural transformation is an automatic process. As long as an economy is open to international trade, comparative advantage directs resources to where their contribution to national product is maximized. And even though there is a long tradition of studies on the natural-resource curse, contemporary thinking on policy has been very reluctant to favor some economic activities over others. Economic policies promoting manufacturing, or some manufacturing sub-sectors over others, are still frowned upon. In reality, the expansion of manufacturing activities in low-income environments is fraught with externalities and spillovers of all kind. Entrepreneurs who make investments in non-traditional economic activities provide valuable demonstration effects for prospective entrants, they train workers and managers who can be employed in other firms, they generate technological learning which they cannot fully appropriate, and they provide inputs (and demand) for other activities which may not have started up otherwise. The social value of such investments greatly exceeds their private value…

I begin by presenting some important empirical regularities that recent research on patterns of economic growth has highlighted. These regularities underscore the importance of industrial development as an engine of economic growth. None of them will come as a big surprise to close observers of developing countries…

1. Economic development requires diversification, not specialization …

2. Rapidly growing countries are those with large manufacturing sectors …

3. Growth accelerations are associated with structural changes in the direction of manufacturing …

4. Specialization patterns are not pinned down by factor endowments …

5. Countries that promote exports of more “sophisticated” goods grow faster …

6. There is “unconditional” convergence at the level of individual products

One reason that latching on to more sophisticated manufactured products promotes growth is that such products have productivity frontiers that are further away and therefore present greater room for technological catch-up. By starting to produce goods that countries much richer than them are currently producing, poor countries enlarge the scope of productivity improvements. Convergence in productivity levels with rich countries becomes an important force for economic growth.

This claim needs some explanation. Begin first with the neoclassical model of economic growth, which posits that countries have access to the same technologies. In this model, poorer countries converge to the income levels of rich countries through a process of human and physical capital accumulation. This theoretical prediction has found little support in the data, however. When one looks at the cross-national evidence on growth, there is no indication that poorer countries grow systematically more rapidly than richer countries.

This kind of convergence exercise is usually performed on aggregate data, typically GDP per capita. When Hwang (forthcoming) recently carried out a similar exercise using detailed, product-level data, he made a surprising and important discovery: economic convergence at the level of individual products is unconditional. In other words, when a country starts to produce a particular good, the productivity with which that good is produced—measured by either labor productivity or unit prices (an indicator of product quality)—converges to the frontier for that good unconditionally, regardless of any of the characteristics of the country in question. Moreoever, the rate of convergence is quite rapid.

Note how different this finding is from the conditional convergence results that dominate the work on economic growth. The message of the conditional convergence literature is as follows: “what you need to do to converge to the income levels of rich countries is to get your policies and institutions in order.” Hwang’s (forthcoming) results say: “what you need to do to converge is to get a foothold in the goods that rich countries produce.” The absence of unconditional convergence at the aggregate level must be due, in turn, to structural features of low-income economies. Poor countries remain poor because they are not producing the kind of goods that will carry them towards riches …

countries starting to produce low unit-value goods within a product category will eventually experience significant increases in their unit values. In fact, the lower the unit value you start out with, the greater is the growth you will experience. And this will happen more or less automatically, without any special supportive policies in place.

But what is far from automatic is getting these new industries off the ground in the first place. Unconditional convergence kicks off only after entrepreneurs (and sometimes the state) decide to undertake the investments needed to get an industry going. And as we know, the process of economic diversification is rife with market failures. Coordination and learning externalities of many kinds block investment and entrepreneurship in new activities.

7. Some specialization patterns are more conducive to others in promoting industrial upgrading …

I present a model that illustrates the key features discussed earlier and elucidates some of the policy issues that arise in this context. The central idea behind the model is that growth is driven through learning and enhanced capabilities accumulating in the industrial sector …

In principle, one of the main advantages of import liberalization is that it ends up stimulating the production of exportables. By the Lerner symmetry theorem, removing import restrictions is tantamount to removing restrictions on exports. That is good news in the kind of framework modeled above, where exportables are a source of learning and productivity spillovers. But the model also identifies two important sources of bad news for import liberalization. First, to the extent that production of importcompeting goods is also a source of productivity spillovers, import liberalization works at cross purposes with the need to generate new learning. Second, and more subtly, when only nontraditional exportables generate learning spillovers, import liberalization is also a very blunt instrument for producing the desirable export response.

The second point is an important one that is often overlooked in policy discussions, so it is worth spending some time on it. The fundamental rationale of the Lerner Symmetry theorem is a general equilibrium one. When import tariffs are removed, the resources released by import competing activities have to be deployed elsewhere in the economy. When aggregate demand is managed appropriately so that neither unemployment nor trade deficits are allowed to become problems, exportables constitute those activities “elsewhere.” But the theorem says nothing about the composition of the export supply response, which will depend on the supply elasticities of different export activities in general equilibrium. In the context of our model, we have two types of exportables, with the one that matters for growth being the non-traditional type. If import liberalization stimulates mainly traditional exports (say garments or agricultural products with minimal processing) rather than non-traditional products, the end result is bound to be disappointing. We end up with export growth but with little economic growth overall …

We are now in a better position to understand why across-the-board import liberalization, of the type that countries in Latin America and elsewhere adopted in the late 1980s and thereafter have produced such disappointing results. While not intended that way, these reforms weakened the industrial base of their economies, and reduced productive dynamism overall. They squeezed the import-competing sectors without sufficiently stimulating new non-traditional exportables. We see the results in poor figures for growth and economy-wide TFP.

Contrast now the Latin American reform strategy with the archetypal Asian one. Asian countries reformed their economies in a different way, by focusing initially on providing nontraditional export activities direct inducements and subsidies. The specific policies employed varied, from export subsidies (in South Korea and Taiwan in the 1960s) to export processing zones (in Singapore and Malaysia in the 1970s) to Special Economic Zones (in China in the 1980s and 1990s). But in each case the focus was on targeted new exportables, rather than on import liberalization. In fact, in all of these countries, significant import liberalization was undertaken only after growth had reached a significant momentum …

The robust industrial base which generates economic growth requires strategic policies directed specifically to new economic activities. The trickledown effects of import liberalization cannot be relied on to produce the intended effects. That is a key lesson from the comparative experience with policy reform …

The preceding discussion points to a two-pronged strategy in support of industrial development. What is needed is both a robust industrial policy targeted at new exportables, and a supportive exchange-rate policy that promotes production of tradables across the board. Without a relatively stable and competitive exchange rate, it is practically impossible to induce investment and entrepreneurship in tradables of any kind. But without more directly targeted industrial policies, exchange rate policies alone cannot be a very powerful tool for promoting diversification. A cheap domestic currency helps both traditional exporters and non-traditional ones. The secret of the success of high-growth economies lies in a combination of these two types of policies.

Let me end with one word on industrial policy, since there is much opposition to (and confusion on) this kind of policy intervention. What I understand by “industrial policy” is not an effort by the government to select particular sectors and subsidize them through a range of instruments (directed credit, subsidies, tax incentives, and so on). The critics of industrial policy are correct when they argue that governments do not have adequate knowledge to pick “winners.” As discussed in Rodrik (2004), industrial policy is more appropriately conceived as a process whereby the state and the private sector jointly arrive at diagnoses about the sources of blockage in new economic activities and propose solutions to them. Industrial policy requires the government to take an ex-ante stand neither on the activities to be promoted nor on the instruments to be deployed. It simply requires it to build the public-private institutional arrangements whereby information on profitable activities and useful instruments of intervention can be elicited.

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http://www.inovacao.unicamp.br/report/noticias/index.php?cod=259

Publicada em 22 de abril 2008

Conjuntura Econômica
Continua a série de Inovação: como o crescimento recente do País,
baseado em mercado interno e commodities, influi em P&D&I?

Janaína Simões

"Há inércia e relativa lentidão na resposta da estrutura industrial brasileira a desafios dessa natureza", afirmou David Kupfer, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre o papel da inovação no crescimento recente do País. Ele é o quarto economista entrevistado na série de Inovação Unicamp sobre as perspectivas para inovação, pesquisa e desenvolvimento no cenário atual da economia brasileira. 

"O discurso, a retórica da inovação, ganha uma densidade, uma generalidade, que não imaginávamos ser possível quando, na década de 1980, na academia, começamos a insistir na importância schumpeteriana da inovação na criação, destruição, dinamização do processo econômico", destaca Kupfer. Ele faz uma analogia com o que ocorreu em relação à questão da qualidade no início da década de 1980. A preocupação com qualidade, segundo ele, ajudou a indústria brasileira a dar um salto, a introduzir técnicas de garantia e controle de qualidade, aprimorando processos produtivos e produtos, o que, em parte, permitiu o salto exportador que aconteceu agora, 20 anos depois de as idéias sobre qualidade e tecnologia industrial básica terem surgido no País. Mas o economista afirma ter muito pouco de inovação nesse salto.

"O fato de a inovação ter se tornado uma peça de discurso, mesmo que de retórica, mas com grau de generalidade tão grande, significa que os empresários vão buscar incluir em sua agenda estratégica a inovação. Ao mesmo tempo, não vejo uma capacidade de resposta rápida da estrutura industrial brasileira", comenta. Kupfer diz que os elementos de inércia vão predominar e aposta que a inovação vai ganhar certo espaço, mas numa linha voltada para a modernização, e, portanto, relacionada a tecnologias incorporadas, e não propriamente a um crescimento exponencial ou rápido no esforço de pesquisa da indústria brasileira.

David Kupfer, da UFRJ

O senhor disse que não vamos aumentar as atividades de inovação por meio do incremento de atividades de pesquisa na indústria. Por quê?
A indústria brasileira não reuniu massa crítica ainda e nem parece ter uma inserção econômica, no cenário internacional, que permita a ela ter as atividades de pesquisa como base das estratégias de competição das empresas. As empresas brasileiras ainda estão, na melhor hipótese, na fase de buscar competir por custo, usando elementos de qualidade e diferenciação de produtos. Estão muito distantes de ter competência, capacitação para disputar mercados na base da inovação stricto sensu, porque isso é muito custoso e exige elementos de estrutura que são incipientes no Brasil.

Que elementos de estrutura seriam esses?
A inovação é mais exigente em capacidade laboratorial, em capacitação para recursos humanos, em sistema de educação superior e de pós-graduação, em estrutura de informação tecnológica. Depende pesadamente da constituição de um sistema nacional de inovação de que tanto se fala e que aos poucos está avançando. No futuro, será mais fácil estabelecer as conexões desse sistema. A indústria brasileira mudou nas questões relacionadas à inovação nos últimos dez anos. Temos mais experiências, ainda tópicas, isoladas, mas, ainda assim, um maior número de episódios de empresas envolvidas com estratégias de inovação.

Mas ainda uma inovação mais incremental, não?
Passamos da modernização, da imitação, da tecnologia incorporada para inovações incrementais. Não vejo massa crítica científica para inovações mais radicais. Será uma etapa para o futuro. É uma questão muito mais da produção e da oferta de conhecimento.

Um lugar comum entre nós é dizer que a posição brasileira é boa quando se trata da produção científica: seriam bons os indicadores de publicação, de formação de mestres e doutores…
Não vejo conexão entre o mundo da ciência brasileira e o da produção. Nossos programas de pesquisa estão voltados para questões que mimetizam programas de pesquisa internacionais, e nosso sistema de incentivos para pesquisa hoje em dia favorece isso. O setor de petróleo é uma exceção. Seu sistema de pesquisa está focado em gerar inovação na indústria local. Temos um maior número de episódios bem-sucedidos, nesse nível de sistemas setoriais de inovação, como petróleo, alguma coisa em determinadas áreas de genética e biotecnologia para agricultura e saúde, em bioquímica, em aeronáutica e aeroespacial, em materiais. Alguns sistemas setoriais ganharam mais sinapses. Nesse momento temos alguns elos, mas não os nós da rede. Essa é a questão do País para os próximos dez anos, fazer a ligação desses diversos sistemas entre si.

Temos inovação no crescimento recente do País? De que forma esse crescimento ajudou em relação à inovação?
Na fase do investimento, incorpora-se tecnologia por meio de máquinas. No ciclo econômico, nas fases mais aquecidas há substituição tecnológica. À medida que a tecnologia incorporada vai se tornando up-to-date e esses episódios bem-sucedidos de esforço inovador ganham mais dimensão, podemos criar a massa crítica para estratégias tecnológicas mais ousadas. Contudo, esses episódios isolados podem também fracassar e retroceder, alguns sistemas setoriais de inovação mais fortes podem enfrentar dificuldades econômicas. Aí, estaremos mais dependentes da tecnologia incorporada.

Em que tipo de cenário essa reversão pode ocorrer?
Em meados de 2007, quase todo mundo entendia que estávamos em um período de longo crescimento sustentável. Hoje, metade das pessoas, por causa de certo retorno da inflação, do problema norte-americano, do recuo muito rápido da balança comercial, acha que o País está no final de uma boa fase, que não foi tão sustentável assim essa onda de crescimento. Não é porque a macroeconomia vai bem que a inovação irá bem também. A situação é o contrário: a macroeconomia indo mal, dificilmente a inovação irá bem. Entendo que além da macroeconomia não atrapalhar, e alguns entendem que vai, é preciso uma capacidade de construção que só pode ocorrer por uma política tecnológica bem-feita.

O crescimento recente tem se dado pelo acesso ao crédito e inserção de novos consumidores. Como é a inovação para esse tipo de mercado?
Pode-se baratear um produto com progresso ou com regresso técnico. Você pode baratear um chocolate porque desenvolve técnicas de plantio de cacau, aprimora o processo produtivo industrial, desenvolve fontes de calor, usa nanotecnologia, ou pode fazer chocolate de baixa qualidade, com pouco cacau, tirando a embalagem de alumínio que o envolve. Esse é o divisor de águas. Para onde o Brasil vai? Se o Brasil for pelo primeiro caminho, é um mundo tecnológico, se for pelo outro, será o oposto.

O senhor diria que o Brasil está seguindo qual caminho?
O fato de a inovação ter chegado a esse grau de generalidade retórica indica que vamos andar na direção da tecnologia. Não tanto quanto poderíamos, mas vamos andar.

Quando vemos o comportamento de outras economias, como a da China, achamos desanimador o caminhar do Brasil…
A China tinha um projeto de indústria que envolvia a construção sucessiva de setores industriais com intensidade tecnológica crescente. O Brasil não tem uma estratégia para isso.

Mas e a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE)?
A PITCE não quis ser muito ativa na conformação da estrutura industrial brasileira. Escolheu setores de uso generalizado que poderiam favorecer o aumento do conteúdo tecnológico da indústria como um todo. Mas não deu uma cara para a indústria.

E a nova política industrial?
Quando sair, veremos se vai mexer com esse tema. É delicado. Muita gente entende que a estrutura industrial não pode ser alvo da política industrial, que esse processo tem de ser resultado da evolução natural das indústrias — "cresce quem tem competência, desaparece quem não tem". Não concordo. Precisamos ter um horizonte, saber que tipo de estrutura produtiva é mais capaz de gerar crescimento econômico, desenvolvimento, renda, empregos. E no caso brasileiro não vai ser uma indústria de altíssimo conteúdo tecnológico. Não é esse nosso caminho, não devemos fazer uma mudança da estrutura A para a B. Temos de retomar e avançar o processo de diversificação da matriz industrial brasileira. Essa matriz precisa ser completa para que exista produção relevante no Brasil de bens tradicionais, que gerem demanda para a tecnologia incorporada nas máquinas e insumos que possam ser desenvolvidos aqui. Precisamos ter usuários de inovação. O que mais falta no Brasil não é produtor de inovação, mas usuário. Muitos tentam produzir e quebram por falta de usuário. Precisamos de um tecido industrial bastante pró-tecnologia para que os inovadores possam encontrar mercado, realizar seus negócios, investir mais em inovação, ter retorno dos seus investimentos.

Com base nas informações já divulgadas na imprensa, o senhor acha que a nova política industrial caminha para esse sentido?
Pelo que li, acho que ela vai optar pela diversidade, por adotar múltiplos focos, o que é positivo. É consistente com essa minha idéia de diversificação. A política oferecerá um cardápio de instrumentos para diferentes estágios competitivos. Vai apoiar empresas que querem se internacionalizar, empresas que estão sob pesada concorrência internacional, precisando de reestruturação. Parece ser um conjunto de instrumentos que vai ser dosado em função de situações específicas.

E a institucionalidade nessa nova política?
Ainda não vimos nada sobre isso na mídia, precisamos aguardar o lançamento. A institucionalidade é um ponto-chave da política. Essa política com múltiplos focos será mais dependente da capacidade institucional do que a anterior.

O senhor considera a PITCE bem-sucedida?
Não. Ela teve a opção de não ser muito ativa na estruturação industrial, em função de tentar atuar na parte tecnológica da indústria. Ela não conseguiu montar a institucionalidade. A ABDI [Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial] faz muito bem certas coisas, mas não teria como carregar a PITCE, que está dispersa em órgãos públicos e semipúblicos. A ABDI não é uma instituição pública, é mais assemelhada ao Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], por exemplo. A política desenhada em 2003 também ficou um pouco ultrapassada porque era voltada para uma realidade de vulnerabilidade externa, de dólar em alta e real desvalorizado. Quando entrou em operação, o Brasil havia mudado, começava a ter reservas elevadas, não havia vulnerabilidade externa, o real valorizou. Mas a PITCE foi importante porque trouxe o assunto política industrial de volta.

Esse crescimento atual das exportações não tem a ver com a PITCE?
Não. O crescimento das exportações tem a ver com fatos que ocorreram na década de 1990. A explosão de 2003 para frente tem a ver com a década de 1990. A modernização e a melhoria da qualidade aumentaram a produtividade, reduziram custo. Tivemos a construção da Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportaacoes e Investimentos] e um esforço de venda, de marketing no exterior. As empresas passaram a enxergar o mercado externo como uma área de negócio, e não apenas como uma estratégia para escoamento de excedentes. Curiosamente, são mudanças provocadas na década de 1990 pela necessidade de sobrevivência. Não houve inovação nisso. A inovação foi o quarto elemento que faltou na década de 1990.

Como o senhor analisa os novos instrumentos para inovação?
São, de um modo geral, de redução de custo da inovação. E a principal restrição à inovação no Brasil não é o custo, mas o risco. Ela é custosa e arriscada.

Mas reduzindo o custo, não diminui o risco?
Para estimular a inovação, preciso reduzir ambos. A inovação custa mil, vai me dar retorno de 1,5 mil. Se custasse 500, eu investiria. Isso é uma questão de custo. O risco tem a ver com a chance que eu tenho de obter os 1,5 mil de retorno. Quando uma ação de política tecnológica leva empresas que já gastam com tecnologia a investir mais, é uma política de intensificação. A outra é uma política de extensão, para fazer aqueles que não gastam passar a investir. Uma política para o primeiro ator, provavelmente, só reduziu custo. Precisamos de instrumentos de redução de risco, como as várias formas de capital de risco.

Mas os incentivos da Lei do Bem, a subvenção, não são mecanismos redutores de risco?
A Lei do Bem vai reduzir custo. A subvenção pode ser usada para redução de custo e risco, se acoplada a outras modalidades de apoio tecnológico. Mas nossos instrumentos, em geral, são mais propícios para favorecer interação universidade-empresa. Essa é uma questão importante, mas não suficiente para superação dos gargalos tecnológicos das empresas. Não existe uma capacidade ociosa de pesquisa nas universidades que as empresas possam colocar na direção certa. Não é que a tal massa crítica existe e está sendo mal-utilizada; ela não existe.

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