Economy and Society II de José Porfiro – Specific

31 de maio de 2008

CRISE DOS ALIMENTOS – FALTA E PREÇOS III

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 3:15 PM
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03/06/2008
A necessidade de alimentar – parte 1: o fim da abundância

Pânico em relação à comida gera apelos por uma segunda "revolução verde"

De Javier Blas

A humanidade estava prestes a passar fome e, segundo as previsões apocalípticas da década de 1960, a batalha para alimentar todos os seres humanos já estava perdida. A fome era comum em alguns dos países mais densamente povoados do mundo. As previsões da catástrofe malthusiana alcançaram a lista dos livros mais vendidos com "The Population Bomb"
("A Bomba Populacional"), de Paul R. Ehrlich, segundo o qual, por volta dos anos 70 e 80, as vítimas da fome chegariam à casa das centenas de milhões.

Mas a engenhosidade humana impediu o desastre. Um programa maciço de investimento em pesquisa e infra-estrutura agrícolas -apoiado avidamente pelos Estados Unidos, devido ao medo embasado pela guerra fria de que os países famintos pudessem cair na esfera de influência da União Soviética- gerou uma explosão da produtividade no campo. Nações que jamais sonharam em serem capazes de atingir a auto-suficiência alimentar tornaram-se exportadoras de alimentos.

 

Vegetais vendidos em Manila, nas Filipinas, dobraram de preço no início deste ano

Esses esforços, liderados por Norman Borlaug, um agrônomo norte-americano que mais tarde recebeu o Prêmio Nobel da Paz, resultaram na criação de sementes altamente produtivas e no aumento excepcional do uso de irrigação, fertilizantes e pesticidas nos países em desenvolvimento.

Por volta de 1968 o salto da produtividade agrícola era tão evidente -a Índia, por exemplo, teve uma safra de trigo recorde, assim como as Filipinas no caso do arroz- que William Gaud, administrador da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), afirmou que o mundo testemunhava a "gênese de uma nova revolução".

"Não se trata de uma revolução vermelha violenta como a dos soviéticos, e tampouco de uma revolução branca como a do xá do Irã", disse Gaud em um discurso proferido 40 anos atrás. "Eu a chamo de revolução verde", acrescentou, criando assim um termo que sobreviveu ao seu autor.

Entretanto, assim como as suas congêneres de todas as tendências, a revolução verde acabou perdendo força. Hoje em dia, o mundo está novamente em situação delicada, já que os preços dos alimentos dispararam, provocando rebeliões em diversos países, do Haiti a Bangladesh. Porém, desta vez, as tentativas de aumentar a oferta de alimentos -e o apoio político de Washington e outras capitais- parecem bem mais débeis. Ao mesmo tempo, a tarefa de incrementar a produtividade tornou-se mais difícil devido aos preços recordes do petróleo, que tornam os fertilizantes mais caros.

Das dezenas de entrevistas com autoridades e especialistas em questões agrícolas emerge um consenso: mesmo que a atual crise de alimentos seja o resultado de múltiplos fatores, tais como a demanda por biocombustíveis ou um clima planetário marcado por extremos, as suas raízes encontram-se no enfraquecimento da revolução verde: "A base da crise atual é a desaceleração da produtividade agrícola", afirma Leenart Bage, presidente do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento Agrícola, em Roma.

Sob vários aspectos, a revolução verde foi uma vítima do seu próprio sucesso. O aumento da produção de alimentos a partir do início da década de 1960 foi tão grande que não só afastou o espectro da fome mundial, como também abriu o caminho para quase 40 anos de oferta barata e abundante de comida. Por exemplo, a produtividade de trigo por hectare saltou de menos de 500 quilogramas para os quase 3.000 quilogramas atuais. De fato, durante a maior parte da década de 1990 o problema não era excesso de comida, sendo que na Europa falava-se de "montanhas" de grãos e de "lagos" de leite e vinho.

A NECESSIDADE DE ALIMENTAR

Agricultor semeia plantação de arroz, na região central do Japão. Navegue pela reportagem através dos links abaixo
PARTE 1: O FIM DA ABUNDÂNCIA

PARTE 2: SEMENTES DA MUDANÇA

MAIS MÍDIA GLOBAL

Akinwumi Adesina, vice-presidente da Aliança por uma Revolução Verde na África, diz que a cornucópia de comida barata gerou um profundo senso de complacência. "Passou-se a pensar que o apoio à pesquisa agrícola não era mais necessário para incrementar ainda mais a produtividade, já que havia comida de sobra e os preços caíam".

Como resultado, o investimento em pesquisa e infra-estrutura agrícolas caiu drasticamente. Organizações multilaterais como o Banco Mundial e países ricos que atuam como doadores individuais reduziram a parcela dos seus gastos com agricultura destinada à assistência para o desenvolvimento para menos de 3% do total em 2005. Em 1979 esta proporção era de 18%, de acordo com a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento. Em termos monetários, até mesmo após o ajuste relativo à inflação, o auxílio à agricultura caiu para menos da metade, passando dos US$ 8 bilhões registrados em 1979 para US$ 3 bilhões em 2005.

Embora o financiamento do setor privado à pesquisa agrícola tenha aumentado, os preços reduzidos dos alimentos nos mercados mundiais significavam que esse trabalho focava-se geralmente em inovações cujo objetivo era reduzir os custos, e não aumentar o volume das safras. De acordo com Ronald Trostle, do serviço de pesquisas econômicas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as pesquisas financiadas pelo governo sempre foram aquelas com maior probabilidade de concentrarem-se em inovações que aumentariam o volume das colheitas, especialmente naquelas partes do mundo onde os agricultores não têm condições de pagar royalties sobre novas variedades de sementes.

O menor investimento traduziu-se em desaceleração do aumento da produtividade. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as safras de grãos aumentaram anualmente, em média, 1,1% de 1990 a 2007.
A média anual no período 1970-1990 foi de 2%. O impacto sobre o aumento das safras de alimentos básicos importantes, como o trigo e o arroz, foi ainda mais intenso. No que se refere a estas culturas, o ritmo de crescimento das safras caiu de 10%, no início da década de 1960, para o índice atual de cerca de 1% ao ano.

A redução do aumento da produtividade não poderia ter surgido em um pior momento. A demanda por alimentos está crescendo nesta década, à medida que a população mundial aumenta e uma classe média em expansão em países como a China consome mais proteínas na forma de produtos como a carne e o leite. O desenvolvimento da indústria de biocombustíveis fez aumentar ainda mais a demanda, e neste ano o setor consumirá um terço da safra de milho dos Estados Unidos.

Agora, pela primeira vez desde a década de 1970, o mundo está vagarosamente consumindo as suas reservas de alimentos, já que a cada ano consome-se mais do que se produz. Outro motivo para as reservas estarem atingindo níveis baixos recordes, ao mesmo tempo em que os preços disparam, são os problemas climáticos, incluindo secas. "Este era um acidente esperando para acontecer", afirma Adesina.

Os elaboradores de políticas estão despertando para a gravidade da situação. Manmohan Singh, o primeiro-ministro da Índia, declarou
recentemente: "Há a sensação persistente de que a primeira revolução verde perdeu o rumo". Ele prosseguiu, afirmando que o mundo necessita de uma segunda transformação do gênero para resolver a crise dos alimentos.
"A comunidade e as agências globais precisam articular uma resposta coletiva que conduza a um salto substancial da produtividade e do tamanho das colheitas, de forma que o espectro da falta de comida volte a sumir do horizonte".

Isto estará no topo da agenda da reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que teve início nesta segunda-feira (02/06) e que deverá contar com a participação de 40 chefes de Estado e de governo.

Jacques Diouf, presidente da FAO, diz que este é um momento
raro: "Pela primeira vez em 25 anos, um incentivo fundamental -os elevados preços dos alimentos básicos- está presente para estimular o setor agrícola. Os governos, apoiados pelos seus parceiros internacionais, têm agora que fazer o investimento público necessário e criar um ambiente favorável para os investimentos privados". Ou, conforme disse recentemente o secretário da Agricultura dos Estados Unidos, Ed Schafer: "Se os países não aumentarem as safras, as pessoas passarão fome. É simples assim".

Mas reproduzir a primeira revolução verde será difícil. Cada um dos três pilares sobre os quais ela foi construída -tecnologia de sementes, irrigação e o uso generalizado de fertilizantes e pesticidas- parecem ser, atualmente, menos sólidos. Mais uma vez, isto é, em grande parte, o reflexo do legado da forma como os problemas foram enfrentados pela primeira vez.

Quando milhões de vidas corriam risco devido à fome e necessitava-se rapidamente de resultados, os cientistas e os governantes concentraram-se no aumento da produção a qualquer custo. Tom Mew, que foi o principal cientista do Instituto Internacional de Pesquisas Sobre o Arroz, em Los Baños, nas Filipinas, na década de 1960, reconheceu essa tendência em um discurso feito alguns anos atrás: "Foi uma escolha difícil, de forma que nos concentramos na agricultura de alta produtividade que garantiria alimentos para todos".

O resultado é um sistema agrícola global que hoje em dia é altamente intensivo e baseia-se na disponibilidade de energia barata e prontamente disponível para ser utilizada em cada parte da cadeia de produção: tanto diretamente, como combustível, quando indiretamente, para a fabricação de fertilizantes e pesticidas. Mas com os preços do petróleo em alta, o custo de certos fertilizantes saltou para mais de US$ 1.000 a tonelada. Há dois anos esse custo era de US$ 300 a tonelada. Além disso, o uso de fertilizantes e pesticidas químicos enfrenta oposição pública.

A revolução verde original também exigiu enormes quantidades de água para irrigação -um recurso que está tornando-se mais e mais escasso devido à mudança climática e ao rápido crescimento das cidades e das operações industriais, especialmente no mundo em desenvolvimento.

Finalmente, depois que o aperfeiçoamento da tecnologia de sementes da década de 1960 resultou em maiores colheitas, bem como em maior resistência a secas e insetos, os cientistas estão se aproximando do limite daquilo que podem fazer por meio de técnicas naturais. O próximo passo -o uso de organismos geneticamente modificados- encontra forte oposição, especialmente na Europa, mas também, por exemplo, em alguns países africanos.

Em suma, os ganhos fáceis já foram obtidos, exceto na África. Shivaji Pandey, que esteve envolvido na primeira revolução verde e agora lidera a divisão de produção de plantas da FAO, em Roma, diz que o mundo necessita de uma revolução verde "mais inteligente".

"Precisaremos incrementar a produção agrícola com menos água e com um uso mais eficiente de fertilizantes", diz ele. Alexander Evans, do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York, diz que a exigência fundamental é tornar a revolução verde "mais verde". Ele
argumenta: "O processo precisa ser bem mais eficiente sob o ponto de vista da aplicação de insumos".

Os especialistas dizem que, para isso, o setor de gerenciamento da água precisa abandonar a irrigação por inundação de terrenos, relativamente barata, utilizada sobremaneira em alguns países do sudeste asiático, e adotar os sistemas bem mais caros de aspersão e gotejamento. Segundo as autoridades do setor, isso exigiria investimentos com os quais os países em desenvolvimento só poderiam arcar se contassem com o apoio de doadores. "A água será o fator limitante", explica Adesina.

Já os fertilizantes representam um desafio maior. Os técnicos da FAO acreditam ser possível economizar o uso de adubos, especialmente em alguns países do sudeste asiático, por meio de programas que ensinam aos agricultores que quantidade de fertilizantes precisam espalhar nas suas lavoura e o momento de utilizar esses produtos. Mas, segundo os especialistas, o uso de fertilizantes aumentará no longo prazo, principalmente na África, o que significa que os países doadores provavelmente precisarão subsidiar esses produtos químicos para as nações pobres.

Alguns especialistas, como Tom Lumpkin, diretor do Centro Internacional para a Melhoria do Trigo e do Milho, em El Batán, no México, acrescenta que, à luz desta crise, os países precisarão reconsiderar a sua oposição aos organismos geneticamente modificados. "É necessário que a ciência retorne ao setor agrícola", afirma Lumpkin.

Atualmente, 100 milhões de hectares, ou aproximadamente 8% das terras cultivadas em todo o mundo, já são semeados com organismos geneticamente modificados. Os países que apóiam esta tecnologia, como os Estados Unidos e o Brasil, provavelmente enfatizarão ainda mais a sua posição segundo a qual a adoção das culturas geneticamente modificadas poderia ajudar a resolver o problema. Gaddi Vasquez, o embaixador dos Estados Unidos da FAO, em Roma, diz: "A utilização das sementes geneticamente modificadas é uma das formas mais promissoras de aumentar as safras".

Neste ano, o Banco Mundial anunciou que a agricultura está prestes a passar por uma outra revolução tecnológica, que desta vez ocorrerá devido à utilização das ferramentas da biotecnologia. "Mas existe uma grande incerteza quanto à possibilidade de essa revolução tornar-se uma realidade para a produção de alimentos nos países em desenvolvimento devido ao baixo investimento público nessas tecnologias e às controvérsias a respeito dos possíveis riscos", advertiu o banco.

Além dos problemas relativos a sementes, fertilizantes e irrigação, o clima político de hoje é menos propício a transferências monetárias maciças das nações ricas para os países em desenvolvimento. Atualmente ninguém teme uma tomada de poder por comunistas; o investimento necessário precisaria ser feito como uma simples tentativa de melhorar as vidas de milhões de seres humanos.

Independentemente do rumo que os elaboradores de políticas para o setor decidam seguir esta semana na reunião da FAO, autoridades e especialistas concordam que o mundo precisa se mobilizar rapidamente para aliviar a atual crise -e prevenir outra nos próximos anos. Na semana passada a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento e a FAO afirmaram no seu documento "Cenário Agrícola 2008-2017" que os investimentos públicos e privados em inovação e no aumento de produtividade agrícola "melhorariam bastante as perspectivas de fornecimento de alimentos ao contribuir para ampliar a base de produção e reduzir a possibilidade de disparadas constantes dos preços".

Mas o tempo para a ação é exíguo. Robert Zeigler, diretor do Instituto Internacional de Pesquisas sobre o Arroz, afirma que levará décadas para que se desenvolvam variedades de sementes e construa-se a infra-estrutura necessárias para uma segunda revolução verde: "Na verdade, deveríamos ter começado dez anos atrás para evitar os problemas de hoje", afirma Zeigler.

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03/06/2008
A necessidade de alimentar – parte 2: sementes da mudança

África busca promover uma revolução agrícola

De Alan Beattie

Procura-se: uma rápida transformação para um dos problemas mais complexos no continente mais pobre do mundo, para ocorrer em meio a uma crise de alimentos.

Trinta anos após a primeira "revolução verde" ter transformado a agricultura na Ásia e na América Latina, à medida que novas variedades de sementes e abundância de fertilizantes permitiram aos agricultores escaparem da armadilha da subsistência, a África está tentando fazer o mesmo.

Por todos os anos 80 e 90, a produtividade da agricultura africana não conseguiu acompanhar o ritmo do crescimento populacional. Quaisquer aumentos refletem um maior área de terras cultivadas do que uma maior produtividade. Agricultores, agrônomos e especialistas em desenvolvimento dizem que apenas nova tecnologia, particularmente a curto prazo, promoverá uma transformação radical. Ganhos mais rápidos podem ser obtidos com melhoria dos mercados e do transporte, o que ajudará a expandir as tecnologias existentes, subutilizadas.

 

Agricultor recolhe espigas de arroz em fazenda na região de Bagre, Burkina Fasso

Mas há um desacordo sobre se a África deve buscar um modelo de agronegócio baseado em grandes fazendas comerciais ou se concentrar na melhoria do fardo de seus milhões de pequenos agricultores. Além disso, as dificuldades para transformar a agricultura africana são muitas. Algumas são topológicas: o continente contém uma imensa variedade de solos e climas, que variam de um clima mediterrâneo no Magreb a ambientes tropicais até climas temperados na África do Sul. Os produtos cultivados e técnicas utilizadas em uma parte freqüentemente não podem ser transferidos para outras.

Então, quais são as perspectivas para melhorias que ajudarão a alimentar uma população que se aproxima de 1 bilhão? A causa recebeu um impulso quando a Aliança por uma Revolução Verde na África (Agra, na sigla em inglês), uma associação de produtores rurais, empresas de agronegócio e instituições de pesquisa, foi fundada em 2006 com US$ 150 milhões da Fundação Rockefeller -que também teve um papel central no financiamento da primeira revolução verde- e da Fundação Gates.

Namanga Ngongi, presidente da Agra, disse que apesar dos sistemas agrícolas asiáticos serem dominados por variedades semelhantes de trigo e arroz, a África tem uma variedade maior de produtos, incluindo mandioca, sorgo, painço e milho. "Uma fórmula única não servirá", ele disse.

Mpoko Bokanga, diretor executivo da Fundação Africana de Tecnologia Agrícola (AATF, na sigla em inglês), uma parceria público-privada de pesquisa com sede em Nairóbi, apontou para os grandes contrastes mesmo dentro de um único país. "No oeste do Quênia, no norte do Vale do Rift, há áreas muito férteis com fazendas de alta produtividade, cujo potencial comercial está bem desenvolvido", ele diz. "Então, a 50 quilômetros de distância, se encontram distritos esquecidos cujas fazendas apresentam um terço ou um quarto de sua produtividade."

A NECESSIDADE DE ALIMENTAR

Agricultor semeia plantação de arroz, na região central do Japão. Navegue pela reportagem através dos links abaixo
PARTE 1: O FIM DA ABUNDÂNCIA

PARTE 2: SEMENTES DA MUDANÇA

MAIS MÍDIA GLOBAL

Apesar da existência de grandes sistemas fluviais e algumas áreas terem alta precipitação, grande parte da agricultura no continente depende de chuvas não confiáveis: menos de 5% da terra cultivada é irrigada na África, em comparação a 40% no Sul da Ásia.

Levará algum tempo para que novas tecnologias sejam desenvolvidas. A capacidade de pesquisa agrícola da África recebeu quase tão pouca atenção quanto seus solos nas últimas décadas, com seus governos carentes de recursos cortando pesadamente o financiamento de ciência básica. E dada a dessemelhança das condições agronômicas no continente às de outros lugares, não é fácil aproveitar avanços científicos desenvolvidos para outros mercados.

Um dos projetos da AATF, por exemplo, visa desenvolver um "milho de uso eficiente de água" capaz de tolerar períodos mais longos de seca, uma característica que se tornará cada vez mais importante se, como parece ser o caso, a mudança climática tornar as chuvas mais variáveis. A fundação usará pesquisa básica doada pela Monsanto, o grupo de agronegócio com sede nos Estados Unidos. O Centro Internacional de Melhoramento do Milho e Trigo no México, um instituto de pesquisa sem fins lucrativos que teve um grande papel na primeira revolução verde, a transplantará para variedades de milho de grande rendimento adaptadas a ambientes tropicais. As variedades então serão distribuídas para empresas de sementes africanas sem pagamento de royalties. Mas Bokanga diz que levará cinco ou seis anos até que as variedades estejam disponíveis para serem testadas no campo.

Mais adiante, a revolução verde terá que enfrentar uma das questões mais controversas no mundo agrícola: os produtos transgênicos. Os países africanos têm sido lentos na adoção de transgênicos. A África do Sul é o único país que aprovou uma variedade de transgênico, apesar de Burkina Fasso estar prestes a aprovar uma variedade de algodão, após seu amplo uso na Índia, e o Egito estar analisando um milho transgênico.

Parte da aversão aos transgênicos na África, entre governos assim como ativistas, é visceral. Em 2002, a Zâmbia se recusou a aceitar um grão transgênico como ajuda de emergência em meio a uma crise alimentar, temendo uma possível contaminação da agricultura local. O governo até mesmo rejeitou ofertas da União Européia, que tem suas próprias reservas em relação aos transgênicos, de moer o grão antes de distribuí-lo, para impedi-lo de ingressar no sistema agrícola.

Mas Bokanga diz que a oposição é exagerada e que os agricultores são muito mal informados em vez de firmemente contrários. "Não é verdade que todos os governos africanos são contrários à adoção de transgênicos", ele disse. "Há muitos oponentes da biotecnologia que fazem muito estardalhaço e dominam a mídia local, e então a mídia externa acha que os agricultores são contrários. A maioria dos agricultores não sabe nada sobre transgênicos."

Para aqueles preocupados com o impacto ambiental, ele aponta que milho transgênico resistente a herbicida permitirá uma "agricultura de plantio direto", boa para o solo, no qual não há necessidade de revolver a terra para se livrar das ervas daninhas. Mas dada a necessidade de realização de testes e de protocolos de segurança -uma tarefa que testará seriamente a capacidade de alguns dos Estados africanos- a adoção disseminada de transgênicos, particularmente para produção de alimentos, parece pelo menos uma década distante.

Enquanto isso, muito pode ser feito para ampliar o uso da tecnologia existente. Em muitos países africanos, particularmente os mais pobres, não é que fertilizantes ou sementes híbridas melhores não existam. É que uma combinação de pobreza, um setor privado atrasado e um mercado fraco os impedem de chegar aos agricultores.

Grande parte do aparato de apoio agrícola que os governos africanos usavam nos anos 70 -conselhos estatais de comercialização para os quais os agricultores vendiam seus produtos, subsídios para fertilizantes e sementes, reservas estratégicas de grãos para o caso de crises de alimentos, preços mantidos por intervenção oficial- foram desmontados, freqüentemente a pedido do Banco Mundial e de outros doadores de ajuda, que os consideravam esbanjadores, propensos a corrupção ou danosos. (Mas instituições semelhantes persistem nos setores agrícolas europeu e americano.) Mas o vácuo deixado pela saída do Estado freqüentemente não foi preenchido pelo setor privado, deixando os agricultores desconectados dos mercados doméstico e internacional.

A Agra, por exemplo, está gastando US$ 40,5 milhões para estabelecer uma rede de 10 mil fornecedores para venda de fertilizantes e outros insumos nas áreas rurais. Alguns países, como Maláui, no sul da África, estão experimentando com subsídios voltados ao mercado, projetados para complementar e estimular em vez de substituir o setor privado.

Mas há mais envolvido no impacto de uma revolução verde sobre a pobreza e a disponibilidade de alimentos do que um aumento da produção. A forma como o crescimento ocorre, e a melhor forma de distribuir seus benefícios, também são motivo de debate.

Jon Maguire, um administrador de fundo de investimento britânico, iniciou o fundo Africa Invest após visitar Maláui e encontrar aldeões incapazes de gerar uma colheita por falta de chuva, apesar de viverem à beira do Lago Maláui. "Eu perguntei por que não investiam na irrigação e eles me disseram que nenhum dinheiro circulava nas aldeias há três anos", ele disse. Sem ter nenhum conhecimento de agricultura, ele levantou US$ 16 milhões em um fundo, contratou administradores agrícolas locais e comprou US$ 3,5 milhões em irrigadores e outros sistemas de irrigação.

Sua operação agora administra mais de 1.000 hectares de fazendas, com outras 9 mil famílias de pequenos produtores contratadas para fornecerem produtos. Elas vendem pimentão-doce e pimenta piri-piri para o mercado externo, incluindo a Espanha. "Os espanhóis ficaram impressionados com a qualidade do pimentão-doce", ele disse. No ano que vem, sua operação pretende comprar o que ele diz ser a primeira colhedora combinada de Maláui.

A solução de Maguire é fazendas grandes, voltadas para exportação, com investimento pesado em irrigação. "A base toda do desenvolvimento agrícola tem sido: como ajudar o pequeno agricultor?", ele disse. "Você nunca resolverá os problemas da África assim. É preciso uma rotatividade de pequenos e médios empreendimentos ao redor de grandes fazendas que estarão conectadas à economia global. Nossos pequenos produtores agora conseguem um pouco do preço mundial e se beneficiam da crise do preço dos alimentos."

Muitos agrônomos discordam. Glenn Denning, diretor do Centro de Metas de Desenvolvimento do Milênio no Quênia, disse que em países muito pobres como Maláui, o primeiro passo é melhorar a produção e a condição dos pequenos agricultores, que precisam assegurar suas próprias necessidades alimentares antes de diversificarem. "Os pequenos agricultores provaram que podem competir se dispuserem dos insumos certos", ele disse. "Foi o que aconteceu na revolução verde asiática." Os superávits aumentarão e os agricultores poderão então passar para cultivos comerciais. Uma maior produção de grãos básicos por parte dos pequenos agricultores também beneficiará os pobres urbanos e os sem terra, aumentando a oferta e moderando os preços dos alimentos.

De fato, a forma como as tecnologias novas e existentes interagem com as economias e sociedades da África é crítico, não apenas para que uma revolução verde funcione tecnicamente, mas para que também leve amplos benefícios para os pobres da África. Andrew Dorward, um acadêmico da Escola de Estudos Orientais e Africanos, em Londres, disse que a adoção de transgênicos resistentes a herbicidas seria, por exemplo, desastroso para muitos lares pobres: as plantações provocariam o fim da eliminação manual de ervas daninhas, que é uma grande fonte de renda para muitos.

Os críticos de esquerda da idéia de uma revolução verde não duvidam que a África pode aumentar a produtividade com novas sementes e insumos, mas dizem que os benefícios irão para grandes corporações e produtores rurais ricos. Raj Patel, um membro do Instituto para o Alimento e Política de Desenvolvimento nos Estados Unidos, de inclinação esquerdista, disse recentemente a um comitê do Congresso que projetos como o Agra, "apesar de talvez bem-intencionados, são modelos de investimento tecnológico inexplicável e insustentável". Ele pediu por "programas que estimulem a adoção e pesquisa de métodos agroecológicos localmente apropriados e democraticamente controlados".

Pergunte a cinco pessoas diferentes no debate da revolução verde e você terá sete respostas diferentes. A África precisa de fornecedores agrícolas privados. A África precisa de água. A África precisa de estradas. A África precisa de transgênicos. A África precisa de grandes produtores rurais. A África precisa dos pequenos produtores rurais. A realidade parece ser a de que em um continente tão diverso, a África provavelmente precisará de todos eles -e mais.

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04/06/2008
Cúpula da FAO em Roma: "em pouco tempo haverá menos famintos", diz número 2 da FAO

Miguel Mora e Miguel González
Em Roma

O número 2 da FAO, o catalão José María Sumpsi, acredita que o mundo será um pouco menos desigual daqui a alguns anos. O colapso da agricultura trouxe novamente a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) ao primeiro plano, e Sumpsi viu na última terça-feira sinais de uma mudança histórica. "A França e a Espanha despertaram, a ONU também, Ban Ki-moon vai liderar este projeto e em alguns anos se notará a mudança."

El País – Continua havendo 820 milhões de famintos no mundo, como há 15 anos. Vocês fracassaram.
José María Sumpsi –
Foi o que disse Nicolas Sarkozy, nos equivocamos. Pensávamos que a agricultura fosse um assunto resolvido, há 15 anos havia excedentes e hoje vemos que não. A demanda cresceu e o sistema não agüentou.

EP – Um caso clássico de oferta e procura?
Sumpsi –
Sim, não se esperava que os países emergentes, China, Índia, Indonésia, Brasil, crescessem tanto. Mas cresceram 10%-12% anuais acumulados, e isso produziu uma explosão da demanda. Não estávamos prontos. Esse novo mundo começou a comer e de repente não há comida para todos.

EP – Então os fatores que explicam o aumento dos preços são uma fábula?
Sumpsi –
Em uma situação de oferta e procura muito justa, que vem de longe, qualquer circunstância -um ciclone, um desastre, o preço do petróleo- produz um cataclismo.

EP – O que fazer?
Sumpsi –
Primeiro, salvar a vida das pessoas, distribuir comida. Segundo, criar regras internacionais de comércio agrícola que evitem que cada país faça o que quiser.

EP – Mas acabar com o protecionismo não será fácil.
Sumpsi –
Essa é a chave. Se o primeiro mundo começar a eliminar os subsídios agrícolas será o princípio de um mundo diferente. França e Espanha defenderam a regulamentação, e essa idéia deve se impor. Alguns países dão sinais de levantar as barreiras à exportação. Se a China, Japão, Vietnã exportassem suas reservas de arroz, grande parte do problema se resolveria. De Roma não sairá um grande acordo, mas assentará as bases para o futuro imediato.

EP – Mas a estrutura da ajuda internacional também deve mudar.
Sumpsi –
E vai mudar. Ki-moon está liderando o Plano de Ação e em abril acionou as agências em Berna. Não vai permitir solapamentos nem descoordenação. A ONU vai trabalhar de forma coordenada com o Banco Mundial, o FMI e a OMC.

EP – E as ONGs?
Sumpsi –
Será feito um plano de ação global e nos 45 ou 50 países prioritários serão formadas equipes entre governos, setor privado e ONGs para levar ajuda em campo.

EP – Então estamos diante de uma revolução da cooperação.
Sumpsi –
Veremos em alguns meses. Estamos aplicando o remédio. Em pouco tempo haverá menos famintos.

EP – Lula tem razão em sua batalha do etanol?
Sumpsi –
Em boa parte. E sua descoberta do etanol bom e do etanol mau, como o colesterol, é genial. O bom é o dele, claro. Mas é verdade: é inovador e parece que realmente ecológico. Que haja uma campanha dos petroleiros contra ele já é discutível, apesar de o Banco Mundial e o FMI terem insistido na responsabilidade dos biocombustíveis pela inflação.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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02/06/2008
A verdade sobre os alimentos
Robert Paarlberg*
Como é do conhecimento geral, o preço de muitos gêneros alimentícios registrou uma súbita alta no último semestre. O arroz triplicou de preço nos quatro primeiros meses de 2008, o trigo dobrou e o milho subiu 46%. O New York Times considerou isso uma "crise mundial de alimentos" e a revista The Economist a chamou de um "tsunami silencioso". Os elevados preços de importação de grãos, além dos altos preços de combustíveis, impõem um intenso aperto econômico sobre os consumidores urbanos nos países em desenvolvimento que dependem fortemente do mercado mundial. No Haiti, no Egito, em Camarões, na Costa do Marfim, no Senegal e na Etiópia, os pobres das regiões urbanas saíram às ruas. continua
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Global Food Crisis 2008 

Food prices have been rising for a while. In some countries this has resulted in food riots and in the case of Haiti where food prices increased by 50-100%, the Prime Minister was forced out of office. Elsewhere people have been killed, and many more injured. While media reports have been concentrating on the immediate causes, the deeper issues and causes have not been discussed as much.

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02/06/2008 – 09h08

Biocombustíveis ameaçam terras de camponeses, diz relatório

Robin Pomeroy
Em Roma
A expansão dos biocombustíveis não só está agravando a crise alimentar global como também ameaça expulsar os pequenos lavradores de suas terras, devido à demanda por cultivos intensivos para fins energéticos, segundo relatório a ser apresentado nesta semana numa cúpula da ONU sobre alimentos.

Cúpula começa amanhã

O diretor da FAO, Jacques Diouf, disse em entrevista publicada no jornal "Financial Times" que a única maneira de enfrentar a alta mundial dos alimentos em escala global é aumentando a produção. Chefes de Estado de todo o mundo chegam a partir de hoje em Roma, Itália, onde participarão de cúpula sobre segurança alimentar nessa terça-feira (03).

O uso de cultivos alimentícios (como milho, óleo de palma e açúcar) para a produção de etanol e biodiesel é um dos fatores apontados como responsável pelo aumento de preços neste ano, o principal tema da cúpula da FAO (órgão da ONU para alimentação e agricultura), em Roma, de terça a quinta-feira.

Condenado no ano passado como um "crime contra a humanidade" pelo então relator alimentar da ONU, Jean Ziegler, os biocombustíveis são acusados por muita gente de estarem usando terras que poderiam ser empregadas no cultivo de alimentos.

Tanto os Estados Unidos quanto a União Européia têm políticas oficiais de promoção do uso de biocombustíveis como alternativa ao petróleo.

O relatório, publicado na segunda-feira pela FAO e pelo Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, cita vários riscos sociais e ambientais dos biocombustíveis, mas isenta-os de serem a principal causa da crise alimentar.

"Os recentes aumentos nos preços alimentares não foram causados primariamente pelos biocombustíveis", disse o texto, citando quebras de safras, estoques baixos e uma maior demanda por alimentos e rações na Ásia.

O estudo, intitulado "Alimentando a exclusão? O ‘boom’ dos biocombustíveis e o acesso dos pobres à terra", diz que o impulso aos biocombustíveis representa uma grave ameaça a milhões de lavradores.

Estima-se que 1 por cento das terras aráveis do mundo seja usada por biocombustíveis, cifra que tende a subir para 2,5 a 3,8 por cento até 2030, dependendo dos incentivos oficiais, segundo dados da Agência Internacional de Energia.

Alguns camponeses podem se beneficiar da situação caso tenham terras para produzir matéria-prima para biocombustíveis, mas muitos devem ser expulsos de suas pequenas lavouras para darem espaço a grandes plantações.

"Grupos sociais específicos, como pastores, cultivadores nômades e mulheres, estão especialmente suscetíveis a sofrer a exclusão da terra provocada pelo crescente valor das terras, enquanto as pessoas que já são sem-terra devem ver as barreiras para o acesso à terra crescerem ainda mais", afirma o relatório.

O documento recomenda a adoção de novos padrões para garantir o direito à terra para pessoas pobres, incluindo esquemas de certificação de biocombustíveis que garantam que eles sejam produzidos sem danos ao meio-ambiente ou abusos aos direitos da população local.

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http://economia.uol.com.br/ultnot/lusa/2008/06/02/ult3679u3871.jhtm

02/06/2008 – 09h22

Países ricos devem aumentar ajuda a países pobres, diz FAO

Londres, 2 jun (Lusa) – Os países ricos devem aumentar de forma significativa sua ajuda na luta contra o aumento do preço dos alimentos, disse o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, em entrevista ao jornal inglês Financial Times .

A ajuda aos países em desenvolvimento deveria chegar a US$ 30 bilhões por ano, afirmou Jacques Diouf ao Financial Times .

"A única forma de sair da crise é aumentar a produção, em especial nos países pobres. Esta crise implica todos os países do mundo", defendeu.

Líderes de todo o mundo são esperados entre terça e quinta-feira, em Roma, para a cúpula da FAO sobre segurança alimentar, durante a qual tentarão alinhar posições para encontrar uma solução para a alta do preço dos alimentos.

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02/06/2008 – 09h54

UE aponta Portugal como o menos afetado em crise alimentar

Lisboa, 2 jun (Lusa) – Portugal foi o país da União Européia (UE) onde os bens alimentares menos aumentaram, com uma alta de 3,2% em abril de 2007, abaixo dos 6,2% da zona do euro.

Segundo o gabinete de estatísticas do bloco, Eurostat, com base no Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), indicador para a comparação de inflação entre os Estados-membros da UE, os preços dos alimentos na zona do euro registraram um aumento anual de 6,2% em abril, contra 3,3% de inflação anual global.

Portugal foi o país que menos sofreu com o aumento dos preços, registrando uma alta de 3,2%, ao contrário da Bulgária, que foi o mais afetado, com um aumento de 25%, seguida pelos países bálticos (21,7% na Letônia, 18,3% na Estónia e 18,1% na Lituânia).

Em março o aumento anual dos preços dos bens alimentares foi de 7,2% na média comunitária, contra uma inflação anual global de 3,6%.

Também na UE, os preços dos alimentos registraram um crescimento de 7,1% em abril em relação ao mesmo mês do ano anterior contra a inflação global de 3,6%.

Entre as grandes economias européias, destaque também para o aumento dos preços na Alemanha (6,4%), França (5,5%), Espanha (6,8%), Itália (5,9%) e Reino Unido (7,2%).

Já o impacto do aumento dos preços dos produtos alimentares sobre a inflação global variou entre os Estados-membros, em função do peso dos alimentos no IHPC e das variações anuais dos seus preços.

A Bulgária, a Lituânia e a Romênia sentiram os maiores impactos, enquanto Portugal e o Luxemburgo registraram os menores impactos, com uma subida de 0,1 pontos percentuais e 0,2 pontos percentuais respectivamente.

O Eurostat destaca que os preços dos alimentos têm registrado um aumento mais rápido do que o da taxa de inflação global, desde finais de 2006, sobretudo a partir de julho de 2007, tanto na zona do euro como nos 27 Estados-membros.

Março e abril foram os meses em que os preços dos alimentos mais subiram, desde o início das estatísticas em 1996, acrescenta.

Contudo, entre 1996 e abril de 2008, os preços dos produtos alimentares aumentaram no total a um ritmo semelhante ao da inflação: mais 31% e mais 27% respectivamente na UE-27 e mais 30% e mais 27% respectivamente na zona do euro.

Em abril, o leite, o queijo e os ovos foram os produtos que mais subiram de preço (14,9%), seguindo-se os óleos e gorduras (13,2%), o pão e os cereais (10,7%) e depois as frutas (10,7%).

Os produtos menos afetados pela subida dos preços foram os vegetais, cujo preço baixou 1,2%, o peixe e mariscos (aumento de 3,3%) e a carne (aumento de 4,1%).

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31/05/2008
Os ricos ficam mais famintos

Amartya Sen*

Será que a crise de alimentos que está ameaçando a vida de muitos vai se abrandar – ou irá piorar cada vez mais? A reposta pode ser as duas coisas. O aumento recente no preço dos alimentos foi causado em grande parte por problemas temporários como a seca na Austrália, na Ucrânia em vários outros lugares. Apesar de a necessidade de grandes operações de auxílio ser urgente, a crise aguda atual irá eventualmente chegar ao fim. Mas por detrás dela está um problema que irá apenas se agravar a menos que o reconheçamos e tentemos remediá-lo.

É a história de dois povos. Em uma versão da história, um país com muitos pobres de repente passa por uma rápida expansão econômica, mas apenas metade de seus habitantes desfruta da nova prosperidade. Os favorecidos gastam grande parte de sua nova receita em alimentos, e a menos que a oferta se expanda muito rápido, os preços disparam. O restante de pobres então se depara com alimentos a preços altos e nada de aumento em suas rendas, e começam a passar fome. Tragédias como essa acontecem repetidamente no mundo.

Um exemplo cruel foi a fome em Bengala em 1943, durante os últimos dias de dominação britânica na Índia. Os pobres que viviam nas cidades viram seus ganhos aumentarem rapidamente, especialmente em Calcutá, onde os gastos gigantescos da guerra contra o Japão causaram um boom que quadruplicou o preço dos alimentos. Os pobres da zona rural viram os preços subirem vertiginosamente, mas tiveram apenas um pequeno aumento em seus ganhos.

A política governamental equivocada agravou a disparidade. Os governantes britânicos estavam determinados a evitar o descontentamento urbano durante a guerra, então o governo comprou comida dos vilarejos e vendeu, com altos subsídios, nas cidades, uma medida que fez com que o preço dos alimentos na zona rural aumentasse ainda mais. Aqueles que ganhavam pouco nos vilarejos passaram fome. Dois a três milhões de pessoas morreram por causa da fome e suas conseqüências.

Há muita discussão em torno da divisão entre os que têm e os que não têm na economia mundial, mas os pobres do mundo estão eles próprios divididos entre aqueles que experimentam o alto crescimento e os que não. A rápida expansão econômica em países como a China, a Índia e o Vietnã tende a aumentar dramaticamente a demanda por alimentos. Isso é, obviamente, algo excelente por si só, e se esses países conseguirem reduzir repartição desigual do crescimento, até mesmo os que estão de fora poderão se alimentar melhor.

Mas o mesmo crescimento também coloca pressão no mercado internacional de alimentos – às vezes através do aumento das importações, mas também por meio de restrições ou boicotes nas exportações para atenuar o aumento nos preços dos alimentos nos países exportadores, como aconteceu recentemente na Índia, China, Vietnã e Argentina. Os que foram afetados de forma mais dura foram os pobres, especialmente na África.

Há também uma versão high-tech da história dos dois povos. Plantações agrícolas como o milho e a soja podem ser usadas para fabricar etanol como combustível de motores. Então o estômago dos famintos também tem de competir com os tanques de combustível.

Políticas governamentais mal direcionadas também desempenham seu papel nesse caso. Em 2005, o Congresso dos EUA começou a exigir o uso extensivo do etanol como combustível. A lei, combinada com um subsídio para esse uso, criou um mercado florescente de milho nos Estados Unidos, mas também desviou os recursos agrícolas dos alimentos para o combustível. Isso faz com que a competição seja ainda mais difícil para o estômago dos famintos.

O uso do etanol faz muito pouco para prevenir o aquecimento global e a deterioração do meio ambiente, e reformas políticas claras poderiam ser realizadas com urgência se os políticos americanos permitissem. O uso do etanol poderia ser reduzido, em vez de ser subsidiado e incentivado.

A crise mundial de alimentos não é causada por uma tendência decrescente na produção mundial, ou por causa da oferta per capita (isso é afirmado com freqüência sem muita comprovação). Ela é o resultado da aceleração da demanda. Todavia, um problema induzido pela demanda também pede uma rápida expansão na produção de alimentos, que pode ser conseguida por meio de uma maior cooperação global.

Enquanto o crescimento da população é responsável por apenas uma parte modesta da crescente demanda por comida, ele pode contribuir para o aquecimento global, e as mudanças climáticas de longo prazo podem ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento da população já está diminuindo e há uma enorme evidência de que o aumento do poder das mulheres (incluindo a expansão da educação para garotas) pode reduzi-lo ainda mais.

O mais desafiador é descobrir políticas efetivas para lidar com as conseqüências da expansão extremamente assimétrica da economia global. As reformas na economia doméstica são extremamente necessárias em muitos países de crescimento lento, mas também há uma necessidade grande de maior cooperação e assistência mundiais. A primeira tarefa é compreender a natureza do problema.

*Amartya Sen, que ensina economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de economia em 1998 e é autor do recém-lançado "Identity and Violence: The Illusion of Destiny" ["Identidade e Violência: A Ilusão do Destino"]

Tradução: Eloise De Vylder

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30/05/2008
Peru guarda excrementos de aves à medida que cresce de novo a demanda

Simon Romero
Em Isla de Asia, Peru

O boom mundial dos preços das commodities chegou a este ponto: até mesmo o guano, o excremento de aves que foi motivo de uma disputa imperialista em alto-mar no século 19, apresenta forte demanda novamente.

O aumento dos preços de fertilizantes sintéticos e alimentos orgânicos estão deslocando a atenção para o guano, um fertilizante orgânico antes encontrado em abundância nesta ilha e mais 20 outras além da costa do Peru, onde um clima excepcionalmente seco preserva o excremento de aves marinhas como o cormorão e o atobá peruano.

Aves voam ao entardecer em Isla Guanape, litoral norte do Peru
VEJA FOTOS DA RECOLHA DE GUANO

Nas mesmas ilhas onde milhares de presos, desertores do exército e trabalhadores chineses morreram coletando guano há um século e meio, equipes de trabalhadores de língua quechua das montanhas agora raspam o excremento do solo duro e o colocam em barcaças com destino ao continente.

"Nós estamos recuperando parte do último guano que resta no Peru", disse Victor Ropon, 66 anos, um supervisor da província de Ancash cuja pele curtida reflete os anos que passou trabalhando nas ilhas de guano, desde que tinha 17 anos.

"Deve restar uns 10 anos de oferta, talvez 20, e então estará completamente esgotado", disse Ropon, se referindo aos temores de que a população de aves marinhas deverá decrescer acentuadamente nos próximos anos. É um pequeno milagre que algum guano ainda esteja disponível aqui hoje, refletindo um esforço de mais de um século saudado por biólogos como um raro exemplo de exploração sustentável de um recurso antes tão cobiçado, a ponto dos Estados Unidos terem autorizado seus cidadãos a se apossarem de ilhas ou ilhas de corais onde o guano era encontrado.

Enquanto transcorre o debate sobre se a produção global de petróleo atingiu seu pico, pode existir uma parábola na história do guano, com sua disputa marítima, o desenvolvimento de alternativas sintéticas na Europa e um esforço desesperado aqui para impedir que os depósitos fossem esgotados.

"Antes de haver o petróleo, havia o guano, então é claro que travamos guerras por ele", disse Pablo Arriola, diretor da Proabonos, a empresa estatal que controla a produção de guano, se referindo aos conflitos como a Guerra das Ilhas Chincha, na qual o Peru impediu a Espanha de reassumir o controle sobre as ilhas de guano. "Guano é um empreendimento altamente desejoso."

O guano também é um empreendimento inegavelmente árduo do ponto de vista dos trabalhadores que migram para as ilhas para colher o excremento a cada ano. Em cenas que lembram as minas de ouro a céu aberto no continente, os trabalhadores se levantam antes do amanhecer para raspar o guano endurecido com pás e pequenas enxadas.

Muitos trabalham descalços, com seus pés e pernas cobertos com guano quando o turno deles termina no início da tarde. Alguns usam lenços sobre suas bocas e narinas para evitar respirar o pó do guano, que, infelizmente, é quase inodoro fora o leve cheiro de amônia.

"Esta não é uma vida fácil, mas é a que eu escolhi", disse Bruno Sulca, 62 anos, que supervisiona o carregamento de sacos de guano nas barcas na Isla Guanape, além da costa norte do Peru. Sulca e outros trabalhadores ganham cerca de US$ 600 por mês, mais de três vezes o que os trabalhadores braçais ganham nas montanhas.

O comércio de guano do Peru persiste de forma quixotesca após quase ser eliminado pela exploração excessiva. O excremento provavelmente nunca será foco de um boom tão intenso quanto o do século 19, quando os depósitos tinham 45 metros de altura e a receita das exportações representava grande parte do orçamento nacional.

O guano na maioria das ilhas, incluindo a Isla de Asia, ao sul da capital, Lima, agora chega a menos de 30 centímetros de altura. Mas o guano que permanece aqui é cobiçado quando visto no contexto do frenesi no Peru e no exterior em torno de fertilizantes sintéticos, como a uréia, que dobraram de preço, chegando a mais de US$ 600 a tonelada no ano passado.

O guano peruano é vendido por cerca de US$ 250 a tonelada, chegando a US$ 500 a tonelada quando exportado para a França, Israel e Estados Unidos. Apesar do guano ser menos eficiente do que a uréia na liberação de nitratos no solo, seus status como fertilizante orgânico tem provocado o aumento da demanda, o transformando em um fertilizante de nicho de mercado procurado em todo o mundo.

"O guano tem a vantagem de ser livre de produtos químicos", disse Enrique Balmaceda, que cultiva mangas orgânicas em Piura, uma província no norte do Peru. "O problema é que não há o suficiente dele para atender a demanda, com as novas plantações de bananas orgânicas competindo pelo que está disponível."

Isto explica por que o Peru é tão cuidadoso a respeito da preservação do guano restante, um esforço que teve início há um século, com a criação da empresa de Administração do Guano, quando o Peru nacionalizou as ilhas, algumas das quais controladas pelos britânicos, para impedir a extinção da indústria.

De lá para cá, o governo do Peru restringiu a coleta de guano para cerca de duas ilhas por ano, permitindo o acúmulo dos excrementos. Os trabalhadores alisam os montes e constroem muros para reter o guano. Os cientistas até mesmo introduziram lagartos para caçar os carrapatos que infestavam as aves marítimas.

Os administradores do guano até mesmo posicionam guardas armados em cada ilha para afastar as ameaças aos pássaros, que produzem 12 mil a 15 mil toneladas de guano por ano.

"Os pescadores são os responsáveis pelos maiores prejuízos aqui", disse Romulo Ybarra, 40 anos, um dos dois guardas posicionados na Isla de Asia, que caso contrário não teria habitantes regulares. (A ilha tem uma cabine minúscula chamada Casa del Chino, uma referência ao ancestral asiático do ex-presidente Alberto K. Fujimori, que costumava vir aqui para relaxar na solidão.)

"Quando os pescadores se aproximam da ilha, seus motores afugentam os cormorões", disse Ybarra. "E no mar, os barcos pesqueiros pescam as anchovas, algo que não podemos controlar."

A anchova, um peixe de 15 centímetros, é o principal alimento das aves marinhas que deixam seus excrementos nestas ilhas nas quais não chove. O maior temor dos coletores de guano do Peru é que a pesca comercial esgote o estoque delas, que é cada vez mais procurada como ração para aves e outros animais à medida que aumenta a produção de carne na Ásia.

Apesar da população de aves ter aumentado de 3,2 milhões para 4 milhões nos últimos dois anos, este número ainda é minúsculo em comparação às 60 milhões de aves no auge da primeira corrida pelo guano. Diante do encolhimento da população de anchovas, as autoridades da Proabonos estão considerando suspender a exportação de guano para assegurar sua oferta ao mercado doméstico.

Uriel de la Torre, um biólogo especializado na conservação do cormorão e de outras aves marinhas, disse que a menos que alguma medida seja adotada para impedir a pesca excessiva, tanto as anchovas quanto as aves marinhas daqui poderão desaparecer até 2030.

"Seria um final inglório para algo que sobreviveu a guerras e outras coisas estúpidas de autoria do homem", disse De la Torre. "Mas este é o cenário que estamos enfrentando: o fim do guano."

*Andrea Zarate, em Lima, Peru, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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