Economy and Society II de José Porfiro – Specific

13 de julho de 2008

DANI RODRIK + STIGLITZ

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:19 PM
 
Não chore por Doha

Por Dani Rodrik
05/08/2008
A mais recente rodada de negociações em Genebra, mais uma vez, não produziu um acordo. A julgar pelo que dizem a imprensa financeira e alguns economistas, o que está em jogo não poderia ser mais valioso.



Se concluída com êxito esta denominada "rodada de desenvolvimento", centenas de milhões de agricultores em países pobres serão tirados da pobreza e assegurarão que a globalização continue viva. Se prevalecer um fracasso, o sistema mundial de comércio receberá um golpe quase fatal, fomentando desilusão no Sul e protecionismo no Norte. E, como os editorialistas se apressam a dizer, as eventualidades adversas são particularmente grandes, num período em que o sistema financeiro mundial está atordoado devido à crise no mercado de crédito imobiliário de segunda linha americano e ao fato de os EUA estarem entrando em recessão.



Porém, um exame da agenda Doha numa perspectiva de maior distanciamento nos faz buscar o porquê de toda essa preocupação. É verdade que as políticas de subsídios ao setor agrícola em países ricos tendem a deprimir os preços mundiais e, simultaneamente, as rendas dos produtores agrícolas nos países em desenvolvimento. Mas para a maioria dos produtos agrícolas a eliminação gradual desses subsídios terá provavelmente efeitos apenas modestos sobre os preços mundiais – no máximo alguns pontos percentuais. Isso é café pequeno, se comparado à substancial alta de preços que os mercados mundiais têm vivido recentemente, e de todo modo seriam afogados pela elevada volatilidade a que esses mercados estão normalmente sujeitos.



Embora preços mais altos de produtos agrícolas em todo o mundo ajudem, podem prejudicar os domicílios urbanos em países em desenvolvimento, muitos dos quais são também pobres. É por isso que a recente disparada nos preços dos alimentos levou muitos países que cultivam alimentos a impor restrições às exportações e levou quase ao pânico as pessoas preocupadas com a pobreza mundial.



É difícil conciliar esses temores com a percepção de que a Rodada Doha de negociações comerciais poderia tirar dezenas, se não centenas de milhões, da pobreza. O melhor que pode ser dito é que uma reforma no sistema agrícola dos países ricos traria vantagens e desvantagens para os pobres do mundo. Ganhos muito claros existem apenas para algumas commodities, como algodão e açúcar, não consumidas em grandes quantidades por famílias pobres.



Os grandes beneficiários de reformas no sistema agrícola nos EUA, na UE e em outros países ricos seriam seus contribuintes e consumidores, que há muito tempo vêm arcando com o custo dos subsídios e proteções recebidas por seus compatriotas agricultores. Mas tenha o leitor clareza de que, nesse caso, estamos falando de reforma de política doméstica e redistribuição interna de renda. Isso pode ser bom em termos de eficiência e mesmo por razões de eqüidade, mas deveria ter se tornado a preocupação principal da Organização Mundial de Comércio (OMC)?




Nós vivemos sob o regime de comércio mais liberal na história não porque a OMC o impõe, mas porque maior abertura é do interesse de países importantes




E o que dizer das tarifas sobre produtos da indústria de transformação? Os países ricos exigiram grandes reduções nas tarifas sobre importações em países em desenvolvimento, como Índia e Brasil, em troca da eliminação gradual de seus subsídios à agricultura. (Por que eles precisam ser subornados por países pobres para fazerem o que é bom para eles é um mistério insolúvel). Mas também nessa esfera os possíveis benefícios são escassos. As alíquotas tarifárias aplicadas em países em desenvolvimento, embora mais altas do que nos avançados, já estão em mínimo histórico.



Segundo estimativas do Banco Mundial, uma eliminação total de todas as restrições ao comércio de mercadorias viria, em última instância, a elevar em não mais que 1% as rendas nos países em desenvolvimento. O impacto sobre as rendas em países desenvolvidos seria ainda menor. E, naturalmente, a Rodada Doha viria a apenas reduzir essas barreiras, e não eliminá-las de todo.



A Rodada Doha foi construída em cima de um mito, qual seja, o de que uma agenda de negociações centrada em agricultura constituiria uma "rodada de desenvolvimento". Isso proporcionou a grupos de interesse importantes o que queriam. Proporcionou aos governos de países ricos e ao então diretor-geral da OMC, Mike Moore, uma oportunidade de assumir uma postura de respeitabilidade ética diante dos manifestantes antiglobalização. Isso proporcionou aos EUA um instrumento para destroçar a Política Agrícola Comum (PAC) da União Européia (UE). E foi sob medida para os poucos países em desenvolvimento e renda média (como Brasil, Argentina e Tailândia) que são grandes exportadores agrícolas.



Mas o mito de uma rodada de "desenvolvimento", incentivado por negociadores de comércio e economistas que defendem a "teoria da bicicleta" das negociações de comércio – a visão segundo a qual o regime de comércio só pode permanecer de pé mediante contínuos progressos na liberalização -, revelou-se um tiro pela culatra porque os EUA e países em desenvolvimento cruciais encontraram dificuldades para liberalizar seus setores agrícolas. O que, em última análise, resultou no colapso da mais recente rodada de negociações foi a recusa da Índia de aceitar regras rígidas que, julgaram seus negociadores, colocariam em risco os pequenos proprietários agrícolas indianos.



Ainda mais importante é que os temores subjacentes à teoria da bicicleta são muitíssimo exagerados. Nós vivemos sob o regime de comércio mais liberal na história não porque a OMC o impõe, mas porque países importantes, tanto ricos como pobres, consideram que maior abertura seja de seu melhor interesse.



Os verdadeiros riscos estão em outras esferas. De um lado, há o perigo de que a conseqüência do atual alarmismo seja precisamente o que se teme – que os negociadores de comércio e investidores transformem o cenário apocalíptico em realidade, ao entrar em pânico. Por outro lado, há o risco de que uma concluída "rodada de desenvolvimento" venha a não satisfazer as elevadas expectativas que criou, comprometendo ainda mais a legitimidade das regras do comércio mundial num prazo mais longo. No fim das contas, talvez sejam os imponderáveis – psicologia e expectativas -, em vez de resultados econômicos efetivos, que determinarão resultados finais.



Por isso, não chore por Doha. Doha nunca foi uma rodada de desenvolvimento, e o mundo futuro dificilmente será algo distinto do de ontem.



Dani Rodrik, professor de economia política na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o prêmio Albert O. Hirschman, concedido pelo Social Science Research Council. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org
 
VALOR ECONÔMICO, 14jul2008
A morte do consenso da globalização

Por Dani Rodrik
14/07/2008

Esta não é a primeira vez em que a economia mundial vê o colapso da globalização. A era do padrão-ouro, com sua livre mobilidade de capitais e livre comércio, teve um fim abrupto em 1914 e não pôde ser ressuscitada após a Primeira Guerra Mundial. Estaremos prestes a testemunhar um colapso econômico mundial similar?

A indagação não é extravagante. Embora tenha viabilizado níveis inéditos de prosperidade em países avançados, e tenha sido uma benção para centenas de milhões de trabalhadores pobres na China e em outros países da Ásia, a globalização econômica repousa sobre alicerces frágeis. Diferente de mercados nacionais, que tendem a se apoiar em instituições regulamentadoras e políticas domésticas, os mercados mundiais são apenas "fracamente inseridos". Não existe qualquer autoridade antitruste mundial, nenhum emprestador mundial de última instância, nenhuma agência fiscalizadora mundial, nenhuma rede de segurança mundial e, naturalmente, nenhuma democracia mundial. Em outras palavras, os mercados mundiais sofrem de fraca governança, e portanto de escassa legitimidade popular.

Desdobramentos recentes ressaltaram a urgência com que essas questões estão sendo discutidas. A campanha eleitoral presidencial nos EUA enfatiza a fragilidade do apoio ao livre comércio no país mais poderoso do mundo. A crise no mercado de crédito imobiliário de segunda linha americano evidenciou de que modo a ausência de coordenação e regulamentação internacionais pode exacerbar a fragilidade intrínseca dos mercado financeiros. A alta nos preços dos alimentos expôs o lado negativo da interdependência econômica desacompanhada de esquemas de transferências e compensações mundiais. Por outro lado, o encarecimento do petróleo provocou aumentos nos custos de transportes, levando analistas a ponderar se a era da terceirização está chegando ao fim. E paira sempre a iminência de calamidades resultantes das mudanças climáticas, que podem ser a mais grave ameaça com que o mundo já se defrontou.
Então, se a globalização está em perigo, quais são seus verdadeiros inimigos? Houve um tempo em que as elites mundiais podiam se reconfortar, considerando a oposição ao regime de comércio mundial como gerada por anarquistas violentos, protecionistas preocupados com seus próprios interesses, ativistas sindicais e jovens ignorantes, embora idealistas. Nesse período, as elites podiam considerar-se verdadeiramente progressistas, porque compreendiam que salvaguardar e promover o avanço da globalização era o melhor remédio contra a pobreza e a insegurança.
Mas essa certeza praticamente desapareceu, substituída por dúvidas, questionamentos e ceticismo. Cessaram também os violentos protestos de rua e movimentos de massas contra a globalização. Notícia, hoje, é a crescente lista de economistas ortodoxos que estão questionando as supostamente irrestritas virtudes da globalização.
Assim, Paul Samuelson, autor do livro-texto que se constituiu em marco histórico do pensamento econômico do Pós-Guerra, lembra seus colegas economistas que os ganhos da China com a globalização podem acontecer às custas dos EUA; Paul Krugman, o mais importante teórico atual em comércio internacional, argumenta que o comércio com países de baixa renda já é suficientemente grande para ter efeito sobre a desigualdade; Alan Blinder, ex-vice-presidente do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), preocupado com que a terceirização internacional cause perturbações sem precedentes na força de trabalho americana; Martin Wolf, colunista do Financial Times e um dos mais articulados defensores da globalização, escreve sobre seu desapontamento diante das conseqüências da globalização financeira; e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano e "Sr. Globalização" do governo Clinton, pondera sobre os riscos de um nivelamento por baixo na arena das regulamentações nacionais e sobre a necessidade de padrões trabalhistas internacionais.

A campanha eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos enfatizou a fragilidade do apoio ao livre comércio no país mais poderoso do mundo


Embora essas preocupações não signifiquem um ataque totalmente antagônico desfechado por pensadores como Joseph Stiglitz, agraciado com um Prêmio Nobel de Economia, constituem, mesmo assim, notável guinada no clima intelectual. Além disso, mesmo aqueles que não perderam suas convicções freqüentemente discordam com veemência sobre o rumo desejado para a globalização.
Por exemplo, Jagdish Bhagwati, destacado defensor do livre comércio, e Fred Bergsten, diretor do Peterson Institute for International Economics, um instituto pró-globalização, têm se posicionado na linha de frente, argumentando que os críticos exageram enormemente os males da globalização e subestimam seus benefícios. Mas os debates entre os dois sobre os méritos de acordos de comércio regional – Bergsten a favor, Bhagwati contra – são tão acalorados quanto as divergências com os autores mencionados acima.
Nenhum desses intelectuais, naturalmente, é contra a globalização. O que eles querem não é reverter a globalização, mas criar novas instituições e mecanismos compensatórios – doméstica ou internacionalmente -, que tornem a globalização mais eficaz, justa e sustentável. Suas propostas de políticas são freqüentemente vagas (quando chegam a ser formuladas) e alvo de escasso consenso. Mas as disputas centradas na globalização saíram nitidamente para bem longe das ruas, para os artigos da imprensa financeira e fóruns de respeitados institutos de estudos.
Esse é um ponto importante que precisa ser compreendido pelos entusiastas da globalização, pois freqüentemente comportam-se como se o "campo adversário" fosse integrado por protecionistas e anarquistas. Hoje, a pergunta não é mais: "você é favorável ou contrário à globalização?" A questão agora é, "quais deveriam ser as regras da globalização?" Os verdadeiros antagonistas dos defensores da globalização, hoje, não são jovens em barricadas, mas seus colegas intelectuais.
As primeiras décadas após 1945 foram balizadas pelo Consenso de Bretton Woods – um multilateralismo superficial que permitiu às autoridades econômico-financeiras mirarem nas necessidades sociais e empregatícias internas, ao mesmo tempo em que criaram as condições para que o comércio mundial fosse revitalizado e florescesse. Esse regime foi superado, na década de 80 e 90, por uma agenda de aprofundamento de liberalização e integração econômica.
 
Esse modelo, já aprendemos, é insustentável. Para que a globalização venha a sobreviver, será necessário um novo consenso intelectual que lhe dê sustentação. A economia mundial aguarda desesperadamente seu novo Keynes.
 
Dani Rodrik é professor de economia política na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o prêmio Albert O. Hirschman, concedido pelo Social Science Research Council. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

 

http://www.project-syndicate.org/commentary/stiglitz101

The End of Neo-liberalism?

by Joseph E. Stiglitz

NEW YORK – The world has not been kind to neo-liberalism, that grab-bag of ideas based on the fundamentalist notion that markets are self-correcting, allocate resources efficiently, and serve the public interest well. It was this market fundamentalism that underlay Thatcherism, Reaganomics, and the so-called “Washington Consensus” in favor of privatization, liberalization, and independent central banks focusing single-mindedly on inflation.

For a quarter-century, there has been a contest among developing countries, and the losers are clear: countries that pursued neo-liberal policies not only lost the growth sweepstakes; when they did grow, the benefits accrued disproportionately to those at the top.

Though neo-liberals do not want to admit it, their ideology also failed another test. No one can claim that financial markets did a stellar job in allocating resources in the late 1990’s, with 97% of investments in fiber optics taking years to see any light. But at least that mistake had an unintended benefit: as costs of communication were driven down, India and China became more integrated into the global economy. 

But it is hard to see such benefits to the massive misallocation of resources to housing.  The newly constructed homes built for families that could not afford them get trashed and gutted as millions of families are forced out of their homes, in some communities, government has finally stepped in – to remove the remains. In others, the blight spreads. So even those who have been model citizens, borrowing prudently and maintaining their homes, now find that markets have driven down the value of their homes beyond their worst nightmares.

To be sure, there were some short-term benefits from the excess investment in real estate:  some Americans (perhaps only for a few months) enjoyed the pleasures of home ownership and living in a bigger home than they otherwise would have. But at what a cost to themselves and the world economy! Millions will lose their life savings as they lose their homes. And the housing foreclosures have precipitated a global slowdown. There is an increasing consensus on the prognosis: this downturn will be prolonged and widespread.

Nor did markets prepare us well for soaring oil and food prices. Of course, neither sector is an example of free-market economics, but that is partly the point: free-market rhetoric has been used selectively – embraced when it serves special interests and discarded when it does not.

Perhaps one of the few virtues of George W. Bush’s administration is that the gap between rhetoric and reality is narrower than it was under Ronald Reagan. For all Reagan’s free-trade rhetoric, he freely imposed trade restrictions, including the notorious “voluntary” export restraints on automobiles.

Bush’s policies have been worse, but the extent to which he has openly served America’s military-industrial complex has been more naked. The only time that the Bush administration turned green was when it came to ethanol subsidies, whose environmental benefits are dubious. Distortions in the energy market (especially through the tax system) continue, and if Bush could have gotten away with it, matters would have been worse. 

This mixture of free-market rhetoric and government intervention has worked particularly badly for developing countries. They were told to stop intervening in agriculture, thereby exposing their farmers to devastating competition from the United States and Europe. Their farmers might have been able to compete with American and European farmers, but they could not compete with US and European Union subsidies. Not surprisingly, investments in agriculture in developing countries faded, and a food gap widened.

Those who promulgated this mistaken advice do not have to worry about carrying malpractice insurance. The costs will be borne by those in developing countries, especially the poor. This year will see a large rise in poverty, especially if we measure it correctly.

Simply put, in a world of plenty, millions in the developing world still cannot afford the minimum nutritional requirements. In many countries, increases in food and energy prices will have a particularly devastating effect on the poor, because these items constitute a larger share of their expenditures.

The anger around the world is palpable. Speculators, not surprisingly, have borne more than a little of the wrath. The speculators argue: we are not the cause of the problem; we are simply engaged in “price discovery” – in other words, discovering – a little late to do much about the problem this year – that there is scarcity. 

But that answer is disingenuous. Expectations of rising and volatile prices encourage hundreds of millions of farmers to take precautions. They might make more money if they hoard a little of their grain today and sell it later; and if they do not, they won’t be able to afford it if next year’s crop is smaller than hoped. A little grain taken off the market by hundreds of millions of farmers around the world adds up. 

Defenders of market fundamentalism want to shift the blame from market failure to government failure. One senior Chinese official was quoted as saying that the problem was that the US government should have done more to help low-income Americans with their housing. I agree. But that does not change the facts: US banks mismanaged risk on a colossal scale, with global consequences, while those running these institutions have walked away with billions of dollars in compensation. 

Today, there is a mismatch between social and private returns. Unless they are closely aligned, the market system cannot work well.

Neo-liberal market fundamentalism was always a political doctrine serving certain interests. It was never supported by economic theory. Nor, it should now be clear, is it supported by historical experience. Learning  this lesson may be the silver lining in the cloud now hanging over the global economy.

Joseph E. Stiglitz, Professor at Columbia University, received the 2001 Nobel Prize in economics. He is the co-author, with Linda Bilmes, of The Three Trillion Dollar War: The True Costs of the Iraq Conflict.

Copyright: Project Syndicate, 2008. 
www.project-syndicate.org

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2807200805.htm FOLHA, 28JUL2008

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

A quem serve a globalização?


Países da América Latina perderam o controle de suas taxas de câmbio e ficaram para trás


NOS ANOS 1990, a globalização era a "bête noire" da esquerda e dos países em desenvolvimento -para muitos significava abertura econômica prematura. Na atual década, deixou de ser bandeira ideológica do neoliberalismo para se transformar no fantasma perseguindo os países ricos que, aos poucos, abandonam o discurso neoliberal e se preparam para levantar mais barreiras protecionistas. Nos EUA, o discurso dos dois candidatos à presidência é protecionista. Na Europa, a rejeição aos imigrantes pobres porque eles pressionam para baixo os salários médios aumenta a cada dia, ao mesmo tempo em que leis contra os imigrantes violando direitos humanos são aprovadas pelo parlamento europeu, como bem demonstraram Ricardo Seitenfus e Deisy Ventura nesta Folha (25.7.08). Como explicar esse fato? Afinal, a quem serve a globalização? A globalização é a denominação para o estágio atual do capitalismo; é abertura comercial combinada à formação de uma sociedade global. No plano econômico, a globalização significa abertura de todos os mercados: abertura comercial, necessariamente, porque é parte da própria definição de globalização; abertura financeira -dos fluxos de capital-, perfeitamente evitável, já que aumenta a instabilidade financeira mundial ao tirar dos países em desenvolvimento o controle de suas taxas de câmbio.

Capitalismo arrebata EUA em crise

Por Kevin Hassett
31/07/2008

A crise no Fannie Mae e no Freddie Mac provocou mais um revés numa já cambaleante economia dos Estados Unidos. Com tanta gente atualmente tomada pela possibilidade de a economia caminhar rumo à recessão, o jogo de acusações já começou. Muitos começaram a apontar um dedo acusador para um suspeito improvável: o próprio livre mercado. Há uma nova doença se disseminando nos prognósticos dos especialistas de plantão: o capitalismo de tempos prósperos.



Peter Gosselin capturou bem esse estado de ânimo num artigo recente no "Los Angeles Times". "O país e seus líderes políticos", ele escreveu, "começaram a se irritar com a idéia de que o sistema de mercado atual seria essencial para uma sociedade eficiente, estável e justa".



Apesar de não estar nem um pouco claro se a maioria das pessoas concordará com Gosselin, essa percepção precisa ser levada a sério. A noção de que os mercados não funcionam mais, se for verdadeira, poderá virar o pensamento econômico de cabeça para baixo e se transformar numa importante vitória intelectual para a esquerda americana. A aceitação generalizada desta idéia teria profundas implicações para o futuro das economias de mercado e abriria a porta para uma vasta expansão do governo.



Há dois anos, se perguntássemos a qualquer americano que não fosse um militante da esquerda por que os EUA superaram o desempenho das economias da Europa e do Japão, mais tendentes ao socialismo, ele teria apontado para a nossa maior dependência nos mercados livres. Os americanos dificilmente foram os únicos a aprender essa lição. Os europeus têm reduzido agressivamente as suas elevadas alíquotas de impostos e suas rigorosas regulações e o antigo bloco soviético, em particular, parece ter sido ungido no sacerdócio da doutrina econômica de Reagan.



Por que a vitória intelectual para os pensadores do livre mercado? Não porque tivessem convencido a todos nos seminários acadêmicos: o meio acadêmico dificilmente tem sido receptivo aos economistas conservadores. Não, a vitória aconteceu porque os fatos falaram por si mesmos. Um vasto corpo de pesquisa, que demonstra a relação empírica existente entre mercados livres e crescimento econômico, foi desenvolvido. Um estudo conduzido pelo economista Robert Barro, da Universidade Harvard, apurou que os direitos de propriedade e os mercados livres eram os elementos institucionais mais importantes para a promoção do crescimento econômico.



Igualmente, o Relatório de 2004 sobre a Liberdade Econômica Mundial, do Instituto Fraser, documentou que a receita do livre mercado, de concorrência, espírito empreendedor e atividade de investimento, é a chave para a promoção do crescimento econômico. Segundo o estudo, "países com maior liberdade econômica atraem mais investimentos e obtêm produtividade maior a partir dos seus recursos. Como resultado, eles crescem mais velozmente e atingem níveis de renda mais elevados". Estudos também mostram o impacto negativo da regulação sobre o crescimento. A economista, Silvia Ardagna, de Harvard, e Annamaria Lusardi, do Dartmouth College, concluíram que ambientes com regulação rígida desestimulam empreendedores que são motivados por novas idéias de negócios.



O poderio econômico dos EUA ajudou a vencer a Guerra Fria e países que copiaram, ou até se aprimoraram em relação aos Estados Unidos, viram seus horizontes mudarem dramaticamente. Países, da Irlanda à Estônia, adotaram a ideologia do livre mercado e presenciaram uma transformação econômica sem precedentes historicamente. É importante observar que essa vitória foi em torno de tendências de longo prazo. Há dois anos, o sentimento em prol do livre mercado estava provavelmente no seu auge. A vasta aceitação da idéia de que mercados livres são a melhor rota para a prosperidade foi baseada em décadas de experiência. Contudo, ocorreram graves flutuações.




Dificilmente a atual crise habitacional será suficiente para desfazer décadas de experiência que atestam que os mercados livres funcionam




Tivemos a crise de 1973, quando os preços quadruplicaram e houve a convulsão iraniana de 1979, que também devastou os mercados do petróleo, e a derrocada das instituições financeiras hipotecárias, quando mais de 700 bancos faliram. Até mesmo a gloriosa revolução de Reagan foi prejudicada por flutuações: uma das mais profundas recessões do período do Pós-Guerra aconteceu durante o primeiro mandato de Reagan. Mesmo com esses reveses, o sistema de livre mercado venceu, pois outras abordagens não produziram apenas flutuações, mas miséria constante.



Então, o que aconteceu desta vez, que é tão pior do que tudo o que houve antes? A resposta é: nada. Novas coisas que malograram demandam novas abordagens por parte dos formuladores de política. Mas os mercados por si só não são a raiz do problema. Tratemos de cada um dos elementos negativos.



Primeiramente, os preços do petróleo. Eles estão elevados porque a demanda global subiu vertiginosamente num momento em que países como China e Índia adotaram o livre mercado e começaram a crescer velozmente e a consumir mais energia. Portanto, os preços do petróleo dispararam porque os mercados livres funcionam, e não ao contrário. No setor habitacional, o enredo é mais complexo. As instituições financeiras claramente fizeram terríveis apostas de que os preços continuariam aumentando, e isso colocou a economia em risco. Os proprietários de casas perseveraram nos seus sonhos, apenas para vê-los frustrados assim que as taxas de juros que incidiam sobre financiamentos hipotecários se ajustaram a um nível mais elevado e os preços despencaram. O sofrimento deles é real, e o Congresso está certo em tomar alguma providência para atenuá-lo.



Mas será a crise habitacional suficiente para desfazer décadas de experiência que atestam que os mercados livres funcionam? Dificilmente. A verdade é que preços flutuam e que algumas vezes as pessoas adivinham corretamente, e outras vezes incorretamente. Isso sempre foi verdade, especialmente durante o período que convenceu o mundo de que o sistema de livre mercado é o melhor.



Consideremos da seguinte forma. Quase 68% dos americanos possuem suas casas. Na Alemanha, apenas 40% as detêm. Essas cifras são tão diferentes em grande parte porque os EUA são mais livres economicamente do que a Alemanha. O crescimento maior da renda e crédito mais fácil levaram a maiores taxas de posse de moradias nos EUA e a condições que são mais difíceis de mensurar. Isso abriu caminho para júbilo, e também para tensão.



Mas mesmo depois que a poeira assentar os americanos estarão muito à frente. Ninguém poderá alegar que estaríamos em situação melhor adotando um sistema completamente diferente. Nós definitivamente estaríamos em melhor condição se a regulação bancária tivesse sido mais racional e se a regulação por zoneamento não tivesse contribuído tanto para a disparada nos preços dos imóveis. Mudanças devem ser, naturalmente, introduzidas no nosso sistema.



É praticamente possível assegurar que outra confusão acontecerá logo adiante. Os americanos sempre aceitaram isso como parte do trato do livre mercado e podemos apostar que aceitarão mais essa vez.



Kevin Hassett, diretor de Estudos de Política Econômica no American Enterprise Institute, é colunista da Bloomberg News.

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