Economy and Society II de José Porfiro – Specific

22 de julho de 2008

CONSENSO COPENHAGUE 2008

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:30 PM

 

VALOR ECONÔMICO, 22jul2008

Fazendo o bem de forma eficiente

Por Finn E. Kydland
22/07/2008

As autoridades políticas podem conceber várias desculpas para não investir em projetos mundiais de auxílio e desenvolvimento. No início de junho, juntei-me a um grupo de cinco prêmios Nobel e três renomados economistas para debilitar uma dessas escusas, gerando informações sobre quais usos para o dinheiro trariam os melhores resultados.



Para cada questão examinada, nos focamos nos benefícios em relação aos custos. Para direcionar nossos esforços, nos perguntamos: se tivéssemos, digamos, US$ 75 bilhões adicionais para gastar, onde poderíamos proporcionar o máximo de benefícios? Colocamos cada desafio em condições de igualdade. Os exageros da mídia de massa sobre alguns dos problemas não tiveram relevância.



No fim de nossa lista, ficaram os investimentos menos efetivos em termos de custos que o mundo poderia fazer, enquanto os melhores usos para o dinheiro foram para o topo. O último lugar (veja lista) seria destiná-lo para lidar com as mudanças climáticas por meio de cortes nas emissões de gás carbônico. A conclusão foi baseada, em parte, em uma pesquisa feita por um dos principais autores dos informes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), grupo premiado em 2007 com o prêmio Nobel da Paz. O estudo destacou que gastar US$ 800 bilhões durante 100 anos apenas para mitigar as emissões reduziria os inevitáveis aumentos de temperatura em apenas 0,2 graus Celsius até o fim do século. Mesmo se levássemos em conta alguns dos principais danos ambientais do aquecimento, perderíamos dinheiro com o investimento, com retorno de apenas US$ 685 bilhões.



Isso não significa que o planeta deveria ignorar a mudança climática. Uma resposta mais adequada seria aumentar drasticamente a pesquisa e desenvolvimento de fontes de energia com baixa emissão de carbono, opção que ganhou um respeitável ponto intermediário em nossa lista. Para o mundo, faz pouco sentido empobrecer com a adoção de soluções deficientes para um problema, quando há desafios mais prementes que podem ser resolvidos a um custo menor.



Da mesma forma, conferimos uma baixa classificação para as soluções contra a poluição atmosférica. Muitas medidas usadas em países desenvolvidos para reduzir a fumaça provocada pelos veículos – incluindo filtros de partículas e esquemas de "inspeção e manutenção" – têm custo proibitivo para o mundo em desenvolvimento.



Poderíamos ter benefícios um pouco melhores focando-nos na poluição em recintos fechados. A cada ano, 1,5 milhão de pessoas morrem dos efeitos do uso de combustível sólido em aquecedores deficientes, sem ventilação. Conseguir aparelhos melhores para metade das pessoas afetadas custaria US$ 2,3 bilhões.




A redução das barreiras comerciais traria crescimento da renda per capita, deixando os países mais pobres aptos para resolverem outros problemas




Nossas soluções com classificações mais altas foram em áreas das quais não se ouve falar muito. Intervenções pouco glamourosas, como o combate às verminoses, permitiriam uma melhor nutrição das crianças; a redução do custo da educação beneficiaria as crianças e os países.



Concluímos que o benefício máximo viria do fornecimento de micronutrientes – particularmente vitaminas A e zinco – para crianças subnutridas no Sudeste Asiático e África Subsaariana. Isso ajudaria a evitar mortes de recém-nascidos. O custo é minúsculo: alcançar 80% das cerca de 140 milhões de crianças subnutridas do mundo exigiria o comprometimento anual de US$ 60 milhões. Os ganhos econômicos futuros seriam de US$ 1 bilhão ao ano.



Fornecer ferro e sal iodado é outro dos investimentos no topo da lista. Fortificar alimentos com ferro pode custar apenas US$ 0,12 por pessoa por ano. Sabemos que a deficiência de ferro leva a problemas cognitivos e de desenvolvimento. Por US$ 286 milhões, poderíamos ter sal iodado e alimentos básicos fortificados para 80% dos que vivem nas áreas mais afetadas. Os benefícios estimados seriam equivalentes a aproximadamente nove vezes essa soma.



Uma solução de outro tipo seria a remoção de barreiras ao comércio. Mesmo contando os custos para os que perderiam no curto prazo (alguns setores em particular ou trabalhadores com determinadas capacitações), os benefícios gerais no longo prazo seriam grandes. A menos que as economias dos países em desenvolvimento cresçam, continuarão atoladas na pobreza. A redução das barreiras comerciais traria crescimento da renda per capita, possibilitando aos países mais pobres resolver outros problemas por conta própria.



Este foi o segundo Consenso de Copenhague. Embora nossas soluções colocadas no final da lista tenham continuado sendo mais ou menos as mesmas de há quatro anos, o item melhor classificado em 2004, a prevenção contra o HIV/Aids, ficou mais abaixo neste ano porque houve progressos desde a data.



Este projeto proporciona base sólida para medir e comparar os diferentes usos de recursos escassos. Pode ser algo badalado falar sobre alguns dos desafios globais, mas poderemos alcançar muito mais se nos focarmos, primeiro, naquilo que nossos gastos seriam mais racionais.



Abaixo, a classificação dos investimentos mundiais: 1) Suplementos de micronutrientes para crianças (vitamina A e zinco); 2) Agenda de desenvolvimento de Doha; 3) Fortificação com micronutrientes (ferro e sal iodado); 4) Expansão da abrangência da imunização para crianças; 5) Melhoria das tecnologias agrícolas; 6) Combate a verminoses e outros programas nutricionais baseados nas escolas; 7) Redução do preço da educação escolar; 8) Aumento e melhoria da educação de garotas, pagando às mães para enviá-las à escola; 9) Promoção da nutrição com base na comunidade. 10) Apoio ao papel reprodutivo das mulheres para reduzir a iniqüidade de gênero; 11) Remédios de baixo custo contra ataques cardíacos para países em desenvolvimento; 12) Prevenção e tratamento da malária; 13) Identificação e tratamento da tuberculose; 14) Pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de fontes de energia com baixa emissão de carbono para combater o aquecimento global; 15) Filtros de areia (bio-sand) para tratamento de água doméstica; 16) Bombas e poços para melhorar a cobertura de sistemas de água em áreas rurais; 17) Transferências condicionais de dinheiro para aumentar o número de crianças recebendo educação; 18) Manutenção da paz em situações de pós-conflito para reduzir o risco de guerra civil; 19) Pacote de prevenção do HIV com "combinação" de estratégias; 20) Campanha sanitária total para reduzir o número de áreas "abertas de defecação"; 21) Aperfeiçoamento da capacidade cirúrgica na esfera dos hospitais de bairro; 22) Microfinanças para mulheres para reduzir a iniqüidade de gênero; 23) Aperfeiçoamento da intervenção em aquecedores para melhorar a poluição em recintos fechados; 24) Barragem grande e de múltiplos usos na África para melhorar o alcance da distribuição de água; 25) Inspeção e manutenção de veículos a diesel para reduzir a poluição atmosférica; 26) Diesel com baixo teor de enxofre para veículos urbanos para reduzir a poluição atmosférica; 27) Tecnologia de controle de partículas para veículos a diesel para reduzir a poluição atmosférica; 28) Imposto sobre o tabaco para reduzir doenças cardíacas e câncer; 29) Pacote de pesquisa e desenvolvimento e de atenuação para combater o aquecimento global; 30) Atenuação das emissões de carbono para reduzir o aquecimento global.



Finn E. Kydland é prêmio Nobel de Economia em 2004, é titular da Cátedra de Ciências Econômicas na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, e foi membro da Comissão de Especialistas do Consenso de Copenhague 2008.

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