Economy and Society II de José Porfiro – Specific

23 de fevereiro de 2009

CARNAVAL

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:38 AM
na folha de 21 ou 22 tem um pequeno texto sobre se ainda existe carnaval, com os espetéculos atuais.
 
Folha de São Paulo, 23-02-2009
ENTREVISTA

FERNANDO PAMPLONA

Comercialização fez o Carnaval virar Broadway

Para ex-carnavalesco, patrocínios tiraram espontaneidade dos desfiles

ESCOLHIDO JURADO do desfile de 1959 por ser professor da Escola Nacional de Belas Artes, Fernando Pamplona viu a Acadêmicos do Salgueiro apresentar "Viagem Pitoresca Através do Brasil – Debret". Virou salgueirense imediatamente. "Todas as escolas vinham de uniforme, capa-e-espada, chapéu de Napoleão, falando de "Brasil, panteão de glórias". Quando vi o Salgueiro com um nome de artista, achei uma evolução fabulosa."
No ano seguinte, já era campeão com "Quilombo dos Palmares" e dava um novo significado à palavra "carnavalesco": a pessoa que cria o enredo e o desenvolve, pautando todo o trabalho da escola.
Após largar a função, em 1978, tornou-se crítico agudo da comercialização dos desfiles, dos quais garante não ser, há cinco anos, sequer telespectador. "Transformaram num espetáculo comercial da Broadway."
Pamplona, 82, faz suas críticas com mais sarcasmo do que ranço. É nesse tom que afirma não ter se interessado pela homenagem que a Unidos de Vila Isabel faria a ele, na noite passada, em seu enredo sobre o Teatro Municipal carioca -onde trabalhou. Seu Carnaval agora, diz, é na casa da filha, na região serrana do Rio, com a TV desligada. (LUIZ FERNANDO VIANA, da Sucursal do Rio)

FOLHA – Por que o sr. se afastou do Carnaval?
FERNANDO PAMPLONA –
O saco encheu. Em primeiro lugar, parei de fazer [desfiles de] escolas de samba porque era muito complicado. Foi em 1978. Depois eu continuei no [júri do prêmio] Estandarte de Ouro, do "Globo", e na TV Manchete. Mas a Manchete estava, dois anos antes de falir [a TV saiu do ar em 1999], pendurada nas imagens da Globo, e a Globo não estava transmitindo direito. Pegava o meio da Portela, ia para o princípio, do princípio para o fim, a gente dizendo uma coisa e a imagem mostrando outra… Então, denunciei isso no ar. E os caras da Globo exigiram que eu me desculpasse. Eu, em vez de me desculpar, me demiti no ar. No Estandarte fiquei um pouco mais.

FOLHA – Desde então, o sr. passa o Carnaval em Itaipava [região serrana do Rio]?
PAMPLONA –
Na serra, sempre. E procurando nem ligar a TV.

FOLHA – Por quê?
PAMPLONA –
Primeiro, porque até o barracão já me enjoava. Hoje é tudo maravilhoso, as facilidades são grandes. Mas, no meu tempo, a gente só trabalhava embaixo da ponte de São Cristóvão [zona norte], não havia dinheiro. Eu não sabia se as coisas iam ficar prontas, era muito agoniante. E, depois, houve uma transformação nas escolas que não me agradou.

FOLHA – O que não agradou?
PAMPLONA –
A comercialização. Começaram a comprar porta-bandeira, mestre-sala, pagar por mês. Começou a comercialização, principalmente, do samba-enredo. E veio a história dos patrocínios. O próprio carnavalesco perdeu a liberdade. A não ser a Rosinha [Rosa Magalhães, da Imperatriz Leopoldinense], que é ultrainteligente e, quando Campos [cidade do norte fluminense] pagou para fazer um enredo [em 2002], ela saiu com a antropofagia dos Goytacazes e foi para a Semana de Arte Moderna. Ela consegue driblar essa artificialidade. O próprio João [Joãosinho Trinta], no último Carnaval que fez [em 2003, pela Grande Rio], tinha a Vale até no título ["O Nosso Brasil que Vale"]. Descobriram que é um veículo de comunicação que rende mais do que comprar página de jornal e revista. Então está todo mundo em cima, principalmente os Estados. Por R$ 3 milhões você faz uma publicidade para 40 milhões de pessoas. As escolas de samba não sabem cobrar. Era para cobrar, no mínimo, R$ 10 milhões.

FOLHA – Mas, sem patrocínios e essa comercialização, não seria difícil que o Carnaval crescesse e surgisse, por exemplo, a Cidade do Samba?
PAMPLONA –
A Cidade do Samba é uma coisa maravilhosa. Mas acho que quem organiza o desfile resolveu acelerar muito o andamento da música. Com ele acelerado, perdeu-se a ginga, a síncope, o balanço. Hoje, 90% das escolas desfilam com marchinhas, inclusive a minha. O Salgueiro, há muito tempo, só tem marchinhas. Quem se salvava era a Beija-Flor, que vinha com samba, e a Unidos da Tijuca. Neste ano, elas embarcaram na marchinha também. A que está melhorzinha é a Grande Rio. O Salgueiro já ganhou um Carnaval com uma marchinha muito bonita: "Explode coração…" ["Peguei um Ita no Norte", em 1993]. Não é que a marcha seja feia. Mas não é samba.

FOLHA – Então, o sr. continua ouvindo os sambas-enredo?
PAMPLONA –
Você liga a televisão nesta época e está passando Carnaval. Não há como fugir.

FOLHA – O que, surgido nessa era de comercialização, foi positivo?
PAMPLONA –
Acho que foi só negativo. Perdeu a espontaneidade, a naturalidade. Anos atrás, uma grande personalidade me ligou: "Fernando, estamos convidando você para ver um desfile de protótis". Eu disse: "O que é protótis?". "É o modelo que a gente desfila." Eram protótipos. Aí você faz um desfile com modelos antes do Carnaval, com as fantasias todas prontas, industrializadas, e um gringo qualquer do Japão, da Suécia ou do interior do Rio pode comprar até a véspera do Carnaval uma fantasia da escola. Na última vez em que eu transmiti um desfile, falei para a [cantora] Alcione: "Olha uma ala da Mangueira toda branca, só tem um negro!". E ela mesma balançou os dedos como se dissesse: "Dinheiro". Pagou, levou. Você não vê mais a Mangueira, só na bateria. Nem na comissão de frente, porque agora elas têm bailarinas com sapato de ponta. Inventaram frescuras que…, sei lá, transformaram num espetáculo comercial da Broadway.

FOLHA – Essa comercialização é resultado do surgimento da Liesa [Liga Independente das Escolas de Samba], em 1984?
PAMPLONA –
Não foi só isso. Um interesse geral fez com que houvesse uma transformação nas escolas de samba. Antigamente, cada ala representava uma associação dentro da escola. O produto gerado era resultado da socialização do morro.

FOLHA – O Salgueiro é acusado de ter iniciado a fase dos sambas acelerados com "Festa para um Rei Negro" [do refrão "Pega no ganzê/ Pega no ganzá"], de Zuzuca, em 1971.
PAMPLONA –
Não foi o samba do Zuzuca, não. Foi a inteligência de gente que quer andar mais rápido do que o relógio e depois fica amarrando a escola olhando para o cronômetro. O Zuzuca foi um dos melhores compositores do Salgueiro e fazia muito samba de quadra [que não é de enredo]. Mas mataram o samba de quadra, que era uma preparação melódica que os compositores faziam para vir com o samba-enredo. Como acabou, os sambas-enredo ficaram estandardizados, iguais.

FOLHA – É comum dizer que o sr. inaugurou a era dos carnavalescos.
PAMPLONA –
Não, não fui eu. Já tinha o Julinho [Mattos], que fazia o Paraíso do Tuiuti, a Mangueira, tinha uma fábrica de papel machê e fazia carro alegórico para o país inteiro. Teve o [Carlos Haraldo] Sörensen, que era profissional, cobrava da Portela 2.000 cruzeiros por risco [desenho de fantasia]. Ele não era amador como sempre fomos no Salgueiro. Nunca levamos um tostão. Nem eu nem Arlindo [Rodrigues] nem João Trinta. No Salgueiro, não. Depois, eles se tornaram profissionais, compraram apartamento e eu não fui para lugar nenhum.

FOLHA – De alguma forma, a TV atrapalhou o Carnaval?
PAMPLONA –
A TV não atrapalhou nada. Nenhum processo de divulgação atrapalha, mesmo quando tem gente babaca escrevendo ou narrando. Divulgação é fundamental.

FOLHA – E os bicheiros atrapalharam? Eles são criticados, mas Natal [Natalino José do Nascimento, 1905-75], figura mítica da Portela, era bicheiro.
PAMPLONA –
O Natal, se fosse padre, seria igual. Era um sujeito maravilhoso. Era bicheiro por acaso. Fez 300 casamentos, 300 batizados… Era um cara de verdade que atendia à região dele [Madureira, zona norte].

FOLHA – Os bicheiros não são os vilões do Carnaval, então?
PAMPLONA –
Não. O bicheiro aproveitou a deixa para ser bem recebido pelo prefeito. É questão de status. Tem uns que são maravilhosos. O Anísio [Aniz Abrahão David, presidente de honra da Beija-Flor, hoje em prisão domiciliar por suposto envolvimento com caça-níqueis e lavagem de dinheiro] não dá o menor palpite na Beija-Flor. Ele até segurava a barra [financeiramente]. Mas o Joãosinho já disse que a Beija-Flor não precisava de patrono, porque o que davam a Liga, o disco [dos sambas-enredo] e a TV era suficiente para o Carnaval.

FOLHA – Mas todo mundo quer patrocínio…
PAMPLONA –
É porque todos querem pôr dinheiro no bolso.

FOLHA – E como tem visto o renascimento do Carnaval de rua no Rio?
PAMPLONA –
Ah, acho ótimo! Aí o que dizia a [historiadora] Eneida vira mais verdade ainda: o Carnaval não acaba, se transforma. É Lavoisier. A Banda de Ipanema foi o primeiro esforço, do Albino Pinheiro, e se espalhou pelo Brasil. Agora são os blocos. É maravilhoso. O Carnaval não vai morrer nunca.

FOLHA – E o sr. sabe que vai ser homenageado pela Vila Isabel, não?
PAMPLONA –
O que sei é que o presidente [Wilson Vieira Alves, o Moisés] disse que sou um merda, porque dei nota ruim para a marchinha deles neste ano [no jornal "Extra"]. [A homenagem] será à revelia [risos].

 

Folha – 22-02-2009

CARLOS HEITOR CONY

Contra tudo e todos

RIO DE JANEIRO – Nunca fui entusiasta do Carnaval, nem do do Rio nem do de outras cidades tidas como folionas, como Salvador e Recife. Tampouco sou entendido no assunto. Por isso mesmo, o Carnaval que melhor conheço é do Rio -o mais badalado ainda, embora discutido em suas raízes epistemológicas e na semiótica de suas propostas.
Vai daí, é do Carnaval carioca que falo, abrindo a necessária ressalva: é possível que em Recife e Salvador a momesca festa esteja florescente e bela. No Rio, realmente, o Carnaval mudou tanto que ficou chato. Ainda é belo -à custa de uma superprodução cada vez mais complicada e cada vez mais financiada.
Durante alguns anos, era obrigado a passar os três dias trabalhando, cobrindo folias, bailes e desfiles. A primeira constatação, que salta aos olhos, é a velhice do nosso Carnaval. São sempre as mesmas figuras, os mesmos colunáveis, os mesmos pândegos, os mesmos esquemas, sobretudo, as mesmas mulheres.
Ah, as mulheres! São as mesmas, sombras e sobras de outros carnavais. Colocaram botox, cortaram quadris e coxas, fizeram lipoaspiração para manter a silhueta -temos nos arquivos profissionais as mesmas mulheres de dez, 15 anos atrás. Descobrimos o roteiro do bisturi que modificou a antiga deusa -hoje recauchutada.
A própria animação é à antiga. Por isso, os jovens de hoje estão definitivamente em outra. Compreendo-os ao menos nisso: eles se afastam do inarredável tríduo momesco.
Aos poucos, a festa está mesmo ficando para a meia-idade e para velhos que esperam o Carnaval para rodar a baiana. Os jovens fazem isso com naturalidade, durante o ano todo -embora em inglês e em som estereofônico, o que dá para desconfiar que também eles não estão com nada.

22-02-2009

FERREIRA GULLAR

Coisas de outros Carnavais


Éramos boêmios que frequentavam bares como o Luna e o Degrau, para jogar conversa fora


NININHA E Sabino Barroso são duas figuras representativas da geração que, nos anos 60, descobriu o universo das escolas de samba cariocas, a exemplo de Thereza Aragão, que criou, em 1965, no Teatro Opinião, a Fina Flor do Samba. Tratava-se da exibição, todas as segundas-feiras, de cantores, compositores, passistas e ritmistas da Mangueira, Salgueiro, Portela, Império Serrano e de várias outras escolas, enfim, de artistas talentosos e desconhecidos pela zona sul do Rio.
Abria-se o canal de comunicação, que levou gente de Copacabana, Ipanema e Leblon, a desfilar nas escolas de samba. Thereza chegou a criar uma ala no Salgueiro, e Sabino passou a integrar, tocando tamborim, a bateria da Mangueira.
Éramos uma turma boêmia (na acepção moderna), que frequentava assiduamente bares como o Luna e o Degrau, para jogar conversa fora e beber, uns mais, outros menos. Armando Costa bebia vodca com laranjada; Thereza, uísque; Sabino e Nininha, chope, como até hoje. Eu também, mas ficava num só copo a noite inteira.
Um dos frequentadores dessas noites ipanamenhas era Albino Pinheiro, cuja vocação carnavalesca se confirmaria com a criação da Banda de Ipanema, que fez renascer o Carnaval de rua no Rio de Janeiro.
Um sábado antes do Carnaval, a banda saía (e ainda sai) da praça General Osório e, animada por um grupo de músicos, percorria o bairro e retornava à mesma praça donde saíra. Ali, dava-se a dispersão, quando nos dirigíamos ao Jangadeiro para, com chopes e batatas fritas, encerrarmos a festa.
Sabino, além de ritmista da bateria da Mangueira, é arquiteto e amigo de Oscar Niemeyer, com quem trabalhou no projeto de Brasília, isolado na solidão do Planalto Central. Finda a tarefa pioneira, voltou para o Rio e, como se viu, ainda que mineiro de origem, tornou-se um carioca da gema. Já sua mulher, Nininha, é carioca de nascença, oriunda da Urca.
Mas a vida muda. Os anos se passaram e as noitadas foram se tornando cada vez mais raras. A última etapa de minha participação foi no Luna, já na rua Farme de Amoedo, quando Sabino e Nininha estavam sempre presentes.
Com os anos, passamos a nos ver esporadicamente, na casa de algum amigo ou amiga. Esta última vez foi no apartamento de Ceres Feijó, que, com sua generosidade e afeto, acolhe a todos. E pudemos conversar demoradamente, lembrando de amigos e episódios, que se foram. E o fizemos numa boa, rindo às gargalhadas em muitos casos. Também, como lembrar do Roniquito, sem rir? "Fui assaltado, nesta manhã, por quatro juízes togados, na Barra da Tijuca", garantiu ele, certa vez, para comprovar que nossa Justiça é corrupta. Armando Costa levava a noite toda passando na testa o copo gelado de vodca com laranjada.
Certa vez, sentou-se à mesa uma senhora que buscava pela filha e reclamava da vida em geral. "Não se preocupe", disse-lhe Armando, "no fim tudo acabará mal".
Certa noite, uma de nossas amigas surgiu no Luna com um namorado novo, que era moreno, alto, magro, cabeludo e com bigodes apontados para o alto, lembrando os de Salvador Dalí. Ganhou o apelido de "Salvador Daqui". Ele se engraçou com a namorada de outro colega nosso, do que resultou um arranca-rabo. Salvador Daqui partiu o copo de chope na cabeça do rival, que foi parar no Miguel Couto. Depois disso, sumiu, com bigode e tudo.
Minha conversa com Nininha e Sabino derivou para o mundo das escolas de samba, onde eles dois conhecem muita gente interessante, dos colegas na bateria da Mangueira aos membros da ala de compositores da escola. Um dos membros dessa ala era o famoso Jamelão, de voz melodiosa e áspero humor. Não obstante, foi ele que, comentando a visita do ex-presidente americano Bill Clinton à Mangueira, saiu-se com esta: "Ele estava ali tão contente como pinto no lixo".
De Jamelão, passamos a Geraldo das Neves,um dos compositores que surgiram para nós na Fina Flor do Samba. Outro foi Marinho da Vila, quando ainda era sargento do Exército. Geraldo é o autor de uma célebre frase que a Nininha me citou, certo domingo, na praia, em frente à Farme de Amoedo, onde ficávamos: "A verdade é esta, dona Nininha, a gente ou morre ou murcha".
E ela logo lembrou do que lhe dissera, certa vez, Nelson Sargento, autor de alguns sambas célebres: "A senhora sabe qual é o maior inimigo do pobre?". E ela: "É o rico?". "Não, o maior inimigo do pobre é o outro pobre."
Chegara a essa conclusão porque, quando comprou um aparelho de som incrementado, os vizinhos, por inveja, inventaram que ele tinha entrado para o tráfico.

21-02-2009

ANTONIO CICERO

Zizek, Fukuyama e o "fim da história"


Zizek, ostentando tédio, manifesta nos seus textos o desejo de fazer a história "recomeçar"


"É FÁCIL zombar da ideia do "fim da história" de Francis Fukuyama", diz Slavoj Zizek, "mas hoje a maioria é fukuyamista: o capitalismo liberal-democrático é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível, e tudo o que se pode fazer é torná-la mais justa, tolerante etc.". À primeira vista, Zizek pretende, ao contrário da "maioria" que despreza, ser antifukuyamista. Será?
Uma semelhança óbvia é que ambos são hegelianos ou pretendem sê-lo. Assim, ninguém ignora que a própria tese do fim da história, de Fukuyama, origina-se no pensamento de Hegel. Quanto a Zizek, ele mesmo declarou, em entrevista recente, ser "profundamente hegeliano". Mas há uma ligação ainda mais profunda entre o pensamento de Zizek e o de Fukuyama. É que ambos se entediam com a época em que vivemos.
Fukuyama pensa, como diz com inconfundível sotaque hegeliano, que não há mais lugar para "a luta pelo reconhecimento, a disposição de arriscar a vida por um fim puramente abstrato, a luta ideológica mundial, que havia suscitado audácia, coragem, imaginação e idealismo". Comentando que, além de sentir em si próprio "poderosa nostalgia pelo tempo em que a história existia", percebe esse mesmo sentimento nos outros, arremata: "Talvez a própria perspectiva de séculos de tédio ao fim da história servirá para fazer a história recomeçar".
Observo, en passant, que, assim como não entendo que haja quem precise acreditar no sobrenatural para não achar a vida tediosa, tampouco entendo que haja quem, para o mesmo fim, precise acreditar na História (com agá maiúsculo).
Então tais pessoas não se admiram com o mistério já da própria existência, do próprio ser? Não se espantam com o excesso de terror e de esplendor a que estão expostos pelo mero fato de existirem? Ou o percebem e renegam, ocultando-o por trás da cortina do tédio? E será que não sabem que a noção de história está longe de ser universal? A maior parte das culturas jamais produziu tal noção. Devemos supor que quase toda a humanidade sempre se tenha sentido brutalmente entediada com a vida?
Pois bem, Zizek, ostentando tédio, manifesta nos seus textos o desejo de fazer a história "recomeçar". Julgando que a lógica interna do capitalismo não levará automaticamente à sua própria superação, ele crê que, de certo modo, "Fukuyama ESTAVA certo, o capitalismo global É o "fim da história’", de modo que teme que, "no interior da nossa clausura tardo-capitalista do fim da história", já não sejamos capazes de experimentar o "impacto assustador" de uma "abertura histórica autêntica".
De que maneira Zizek, que despreza a "democracia liberal global", cujo verdadeiro conteúdo lhe parece ser, como para Foucault, a "administração biopolítica da vida", imagina que seja possível "fazer a história começar de novo"?
A resposta é clara: por meio da pura vontade "revolucionária". Trata-se da apologia do voluntarismo, da violência e do terror. Segundo ele, a incapacidade de aceitar a violência e de suspender a ética constituem limitações da posição liberal. São esses os limites que quer superar, para recomeçar a história.
Não admira, portanto, que Zizek chame os direitos humanos de "obscenos" ou que faça a apologia de Robespierre, Lênin, Stálin e Mao. Isso mostra porém que, no fundo, a "abertura histórica autêntica" que busca não passa da lamentável -e reacionária- tentativa não só de reabilitar, mas de tornar paradigmáticas algumas das mais abomináveis experiências políticas dos tempos modernos.
Ora, é em parte como repúdio ao horror dessas experiências que hoje se dá o reconhecimento crescente do caráter universal dos direitos humanos; e é a partir desse reconhecimento que todo ser humano é capaz de se sentir autorizado a criticar qualquer manifestação de barbárie, quer esta se manifeste na Coreia do Norte, no Irã ou nos Estados Unidos. O verdadeiro progresso jamais poderia estar em ignorar ou limitar esses direitos, mas sim em reconhecer que eles incluem, como quer Amartya Sen, direitos não apenas políticos, mas também direitos à segurança social, ao trabalho, à educação, à proteção contra o desemprego, à sindicalização e mesmo a uma remuneração justa e favorável.
Só mesmo uma espantosa cegueira ideológica pode levar Zizek a considerar enclausuradas as sociedades em que tem lugar a luta pelo reconhecimento e pela aplicação de tais direitos; e só a mesma razão pode levá-lo a considerar aistórico um mundo em incessante e evidente transformação, como este em que vivemos.

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