Economy and Society II de José Porfiro – Specific

3 de abril de 2009

CRISIS – G20 – FOLHA + globalresearch

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:54 PM
 
World Depression: Regional Wars and the Decline of the US Empire

– by Prof. James Petras – 2009-03-30
A world depression, in which upward of a quarter of the world’s labor force will be unemployed, is looming.
 
 
Geithner’s ‘Dirty Little Secret’: The Entire Global Financial System is at Risk

– by F. William Engdahl – 2009-03-30
Another intricate scheme to pour hundreds of billions more to the leading Wall Street banks responsible for the current mess …
 
 
The U.S. payments deficit stems from military spending.
 
 
Preparing for Civil Unrest in America

– by Michel Chossudovsky – 2009-03-18
Legislation to Establish Internment Camps on US Military Bases
 
 
The G20 moves the world a step closer to a global currency

The world is a step closer to a global currency, backed by a global central bank, running monetary policy for all humanity.
– by Ambrose Evans-Pritchard – 2009-04-03
 
 
 
 
 
03-04-2009 – folha
CÚPULA GLOBAL

Consenso de Washington acabou, diz Brown

Premiê britânico, anfitrião do G20, vê "começo" de virada" na crise e puxa coro de elogios de líderes ao resultado do encontro

Obama cita "a mais firme e rápida resposta internacional da história a uma crise internacional", e assessores veem tensões superadas

PEDRO DIAS LEITE
DE LONDRES

Anfitrião do encontro mais importante até agora para tentar resolver a pior crise econômica em décadas, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, decretou ontem o fim do Consenso de Washington, enquanto os principais líderes mundiais eram unânimes em anunciar que a cúpula de Londres do G20 era o "começo da virada".
"O velho Consenso de Washington acabou. Hoje, chegamos a um novo consenso, de que tomamos ação global conjunta para lidar com os problemas que enfrentamos", disse Brown, sobre o receituário liberal hegemônico na América Latina na década de 1990. Agora, afirma o primeiro-ministro trabalhista, tem início a era da cooperação.
Uma das principais preocupações dos líderes mundiais era justamente que o encontro fosse considerado um sucesso -ele ao menos ajudou a turbinar os principais mercados acionários ontem- e por isso um se esforçava mais que o outro para destacar o caráter "histórico" da reunião.
Por trás dos sorrisos na frente das câmeras, nos bastidores a reunião foi "tensa" até os últimos minutos, como revelavam integrantes das comitivas e até alguns dos líderes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou uma discussão entre Brown e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e fontes norte-americanas tentavam dizer que o presidente Barack Obama foi "fundamental" para o final feliz.
Em sua estreia no palco mundial de uma grande reunião multilateral, Obama afirmou que a cúpula era "a hora da virada em nossa busca pela recuperação global", com "a mais firme e rápida resposta internacional da história a uma crise internacional".
Já o francês Sarkozy deixou de lado as ameaças pré-reunião, quando chegou a dizer que podia abandonar o encontro se não gostasse do seu encaminhamento, e tratou de reivindicar parte da responsabilidade pelo desfecho.
Defendeu a pressão que fez ao lado da Alemanha por mais regulação e chegou até a trazer à tona a comparação com Bretton Woods (o encontro em 1944 que definiu as instituições da economia internacional pelas décadas subsequentes), que tinha praticamente desaparecido desde o primeiro encontro do G20 sobre a crise, em novembro passado. Afirmando que era a maior reforma do sistema desde então, falou que acabou "a loucura da desregulação total".
Lula também tirou sua casquinha e afirmou: "Fizemos um momento muito importante na história do mundo".
Nas semanas que antecederam a cúpula, líderes de todo o planeta demonstravam apreensão sobre qual seria a recepção dos mercados e do público para o que quer que fosse anunciado ao final da reunião.
Questionado por repórteres, na semana que antecedeu o encontro, sobre o que seria fundamental para que fosse um "sucesso", Brown foi sincero: "Que vocês digam que foi um sucesso".

Lula se gaba de empréstimo para turbinar o FMI

DE LONDRES

O primeiro empréstimo do Brasil ao FMI (Fundo Monetário Internacional) ainda depende de uma decisão fundamental: como fazê-lo de modo que o valor não seja contabilmente descontado das reservas do país.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que técnicos da sua pasta estudam a possibilidade de o Brasil investir em títulos do próprio FMI e se esse valor poderia ser contado como "investimento" -o que permitiria, ao menos pelo lado técnico, que o dinheiro continuasse sendo contado normalmente nas reservas.
O valor do aporte ainda não foi revelado, e Mantega disse que só vai definir o montante depois de conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro se recusou a dizer até em torno de que patamar seria a contribuição, mas aproveitou para cutucar a China, que teria prometido aporte de US$ 40 bilhões. "Se eu tivesse US$ 2 trilhões de reservas, com certeza daria mais."
O anúncio deve sair nos próximos dias. Como condição, o dinheiro deverá servir para ajudar países emergentes, especialmente os latinos.
"Gostaria de passar para a história como o presidente que emprestou dinheiro ao FMI", disse Lula, que já usou amplamente na campanha de 2006 o fato de ter quitado o empréstimo contraído por Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com o Fundo. "Você não acha chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI? Não é uma coisa soberana?", brincou o presidente.
Apesar do tom geral de otimismo, o brasileiro deixou uma porta aberta para tempos mais difíceis: "Agora não precisamos. Mas não tem soberba. Porque, se algum dia precisar e o Fundo por a única fonte, nós vamos atrás".
A reforma do FMI, prevista para ser concluída até janeiro de 2011, está no horizonte do país. A cota do Brasil no FMI atualmente é de apenas 1,7% do total, apesar de o país estar atualmente entre as dez maiores economias do planeta.
Em seu discurso no encerramento da cúpula, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que as reformas vão ocorrer e que a nomeação da direção do Fundo vai passar a ser "por mérito". Atualmente, a escolha é feita basicamente por um acordo entre europeus e norte-americanos.
Em noite inspirada após o aparente sucesso da reunião, Lula disse em entrevista que ninguém deve ter medo de "cara feia". "Se o [boxeador] Cassius Clay tivesse medo de cara feia, tinha perdido para o Foreman naquela luta no Zaire [em 1974]. Eu me considero o Cassius Clay dessa crise, quero dar uma muqueta nessa crise", disse. (PDL)

VINICIUS TORRES FREIRE

Erros, mentiras e omissões do G20


Reunião não fracassou, mas não teve sucesso, apesar de clima político bom, e inexiste o tal US$ 1 trilhão prometido


A REUNIÃO do G20 poderia ter sido um fracasso, mas não foi um sucesso. As mentiras foram várias, algumas vergonhosas, e houve omissões sem vergonha.
Não há pacote de US$ 1,1 trilhão. Não houve, talvez nem pudesse haver por lá, ideia prática a respeito do que fazer da podridão bancária. Não houve acordo nem sobre como deverá ser discutido o problema de bancos que criam crises e quebram de modo transnacional, mas são mal e mal fiscalizadas e socorridas por governos nacionais, como hoje.
Para piorar, a ironia da história fez coincidir o discurso do G20 sobre "maior transparência" de balanços bancários com uma decisão americana de permitir que seus bancos possam maquiar balanços, dando preços de fantasia para papéis que deveriam ser "marcados a mercado" (em tese, o preço na praça).
De positivo, afora o clima político não ter desandado, como se previa, saiu algum dinheiro para socorrer países falidos ou contagiados, como os do Leste Europeu, que ameaçam levar bancos europeus à breca.
Houve um acordo para criar uma entidade parecida com aquela que faz alertas de tsunamis pelo mundo, mas agora dedicada a avisar que o caldo financeiro vai entornar -o Conselho de Estabilidade Financeira (CEF), composto pelo G20 e convidados, que trabalharia com o FMI. O CEF, porém, nem arranha a soberania regulatória de país algum.
Houve um compromisso de vigiar e/ou regular "hedge funds" e derivativos de balcão. Como fazê-lo sem regra ou acordo internacional? E os parlamentos nacionais, sob o lobby da finança, vão aprovar tais coisas?
Prometeram punir paraísos fiscais que não abrirem as contas de bancos e clientes picaretas ("A era do segredo bancário acabou"). Vão acabar com a Suíça? Disseram ainda que vão regular as agências que dão notas para a qualidade de crédito (como S&P, Moody’s e Fitch), cúmplices da mentira de que o papelório ora podre era quase à prova de calote. Não adianta nada, se não houver punição para essas agências.
Há confusão geral sobre como se chegou ao "US$ 1,1 trilhão". Há certeza sobre o fato de que não há US$ 1,1 trilhão. Houve um acordo para que os países coloquem até mais US$ 500 bilhões no FMI. Parte desse dinheiro já havia sido ofertada pelo Japão no ano passado e, para piorar, o programa começa com US$ 250 bilhões. Os EUA devem bancar parte relevante do dinheiro novo -não se sabe quanto.
Ademais, o FMI vai poder "imprimir" US$ 250 bilhões de sua "moeda" (equivalente a uma cesta de dólares, euros, libras, ienes) Houve acordo para colocar mais US$ 100 bilhões em instituições financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e seus equivalentes continentais, como o BID, da América, que emprestam a países pobres.
O braço financeiro do Banco Mundial (IFC) deve oferecer, diz um dos anexos do "communiqué" do G20, US$ 50 bilhões para financiar o comércio mundial (empréstimos que pagam antecipadamente a produção e/ou venda de exportações). Isso nos próximos três anos e com "significativo apoio do setor privado". Por ora, os países arrumaram apenas de "US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões". Os US$ 250 bilhões do comércio são puro "wishful thinking".

vinit@uol.com.br

CÚPULA GLOBAL

É o fim da "era do segredo bancário", diz G20

Comunicado após a cúpula menciona ações contra paraísos fiscais e fortalecimento de controles sobre o setor financeiro

Regulação será estendida às agências de avaliação de risco; texto também destaca o início da transição rumo a uma economia mais verde

DO ENVIADO ESPECIAL A LONDRES

Em meio a um comunicado essencialmente técnico de 29 parágrafos, os líderes do G20 encontraram uma brecha para uma proclamação política forte: "A era do segredo bancário acabou".
É uma alusão às prometidas ações contra os paraísos fiscais, parte do capítulo talvez mais suculento do documento, que trata do fortalecimento da regulação/supervisão financeiras, cujo fracasso é consensualmente apontado como responsável pela crise.
Os principais pontos do texto são os seguintes:
 

INJEÇÃO DE RECURSOS
O US$ 1,1 trilhão anunciado ontem divide-se em US$ 500 bilhões para elevar os recursos disponíveis do FMI a US$ 750 bilhões; nova alocação de Direitos Especiais de Saque, a moeda contábil do FMI, no valor de US$ 250 bilhões, uma forma de disponibilizar recursos relativamente baratos a países em dificuldades; US$ 100 bilhões de empréstimos adicionais dos bancos multilaterais de desenvolvimento (Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco da Ásia etc.); US$ 250 bilhões para financiamento ao comércio internacional, por meio das agências de crédito à exportação dos países-membros e também dos bancos regionais.

PACOTES FISCAIS
O texto calcula que os pacotes oficiais de gastos para estimular a economia chegarão até o fim de 2010 a US$ 5 trilhões [mais de três Brasis], com o que a produção aumentará 4%.

JUROS
"Nossos bancos centrais se comprometeram a manter políticas expansionistas pelo período que for necessário e a usar toda a gama de instrumentos de política monetária."
Tradução: uma era possivelmente longa de juros bastante baixos. O Banco Central Europeu, aliás, reduziu ontem mesmo os seus para o nível mais baixo da história.

CRESCIMENTO
O texto lembra que o FMI previu, no mês passado, que o crescimento da economia mundial seria retomado e subiria a mais de 2% até o fim de 2010. O novo pacote "acelerará o retorno à tendência de crescimento", diz o documento.

DÉFICITS
O G20 compromete-se a manter "a sustentabilidade fiscal no longo prazo e a estabilidade de preços", para o que "colocará em prática estratégicas críveis de saída das medidas que precisam ser tomadas".
Traduzindo: os líderes sabem que elevam perigosamente os déficits fiscais, o que pode ser combustível para a inflação, pelo que se comprometem a retornar à normalidade assim que possível. Como, não dizem.

DESVALORIZAÇÕES
O documento se compromete a evitar "desvalorizações competitivas de nossas moedas" para facilitar exportações.

REGULAÇÃO
"Cada um de nós concorda em assegurar que nossos sistemas regulatórios domésticos sejam fortes. Mas também concordamos em estabelecer uma consistência muito maior e uma cooperação sistemática entre países, e uma moldura de elevados padrões, internacionalmente acordados, que um sistema financeiro global requer". O texto parece indicar que prevalecerá a ideia de que a regulação/supervisão seguirá padrões internacionais, mas a aplicação será nacional.
– O Fórum de Estabilização Financeira, composto pelos bancos centrais, passa a ser Diretoria de Estabilidade Financeira. Antes da cúpula, já estava decidido que passa a ser integrada por todos os países do G20 mais a Espanha e a Comissão Europeia. Antes, apenas os países ricos faziam parte.
A nova Diretoria (FSB, na sigla em inglês) "colaborará com o FMI para prover aviso antecipado de riscos financeiros e macroeconômicos e as ações necessárias para enfrentá-los".
– A regulação/supervisão será estendida a todas as instituições financeiras "sistemicamente importantes", a todos os instrumentos [financeiros] e a todos os mercados. "Inclui, pela primeira vez, "hedge funds" sistemicamente importantes."
– Implementar "novos e duros princípios de pagamento e compensação" [para executivos de instituições financeiras].
– Adequar a disponibilidade de capital nos bancos aos seus empréstimos, mas apenas "depois que a recuperação [da economia] estiver assegurada". O texto diz, ainda, que, "no futuro, a regulação deve evitar excessiva alavancagem".

PARAÍSOS FISCAIS
O G20 promete adotar ações contra o que chama de "jurisdições não-cooperativas, inclusive paraísos fiscais".
Afirma estar pronto para adotar sanções "para proteger nossas finanças públicas e sistemas financeiros".
O texto lembra que ontem mesmo a OCDE divulgou uma lista de países investigados por seu Fórum Global que não cumprem padrões internacionais de troca de informações.

AGÊNCIAS DE RATING
O G20 estenderá a supervisão às agências de avaliação de risco, muito criticadas por terem dado atestado de boa saúde a ativos tóxicos.

FMI
Além de aumentar os recursos à disposição do Fundo, o texto reafirma que "economias emergentes e em desenvolvimento, incluindo as mais pobres, devem ter mais voz e representação" na instituição. Reafirma igualmente que até janeiro de 2011 deve estar completada a reforma das cotas que darão voz a países emergentes.

PROTECIONISMO
O texto repete promessas anteriores de não adotar novas barreiras ao comércio de bens e serviços ou aos investimentos.
Promete também não cair em "protecionismo financeiro", neologismo para designar o fato de que os bancos com sede nos países ricos retiraram capital dos países em desenvolvimento para cobrir buracos.

AJUDA AOS POBRES
O G20 promete US$ 50 bilhões para apoio à proteção social, estimular o comércio e proteger o desenvolvimento nos países de baixa renda.
Adicionalmente US$ 6 bilhões provenientes do FMI serão usados, nos próximos dois a três anos para países pobres.

AMBIENTE
O documento promete "uma transição para tecnologias e infraestrutura limpas, inovadoras e eficientes no uso de recursos naturais".
Reafirma também o compromisso de enfrentar a mudança climática, com base no princípio de "responsabilidades comuns e diferenciadas", ou seja, os países ricos pagarão mais que os outros. Recoloca ainda a decisão de alcançar um acordo na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a realizar-se em dezembro em Copenhague.
(CLÓVIS ROSSI)

OCDE: URUGUAI CONSTA EM LISTA NEGRA DE PARAÍSOS FISCAIS

Uruguai, Costa Rica, Malásia e Filipinas são os países que não tomaram nenhuma atitude para respeitar os padrões internacionais na troca de informações tributárias, segundo lista apresentada ontem pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Outros 38 países se comprometeram a seguir os padrões internacionais, mas não implementaram.

CÚPULA GLOBAL

Números trilionários do G20 ocultam ação tímida

Maior parte dos valores anunciados ao final do encontro não é recurso novo

Quando todos os números são somados, em lugar de US$ 1,1 tri, total de novos compromissos parece ficar abaixo de US$ 100 bilhões

CHRIS GILES
DO "FINANCIAL TIMES", EM LONDRES

O premiê britânico, Gordon Brown, declarou que ontem foi "o dia em que o mundo se uniu para combater a recessão, não com palavras, e sim com um plano para a recuperação e a reforma econômica". Ele afirmou que os estímulos fiscais globais, os maiores "que o mundo já viu", chegam a US$ 5 trilhões e que haveria um novo "programa de apoio para restaurar o crédito, o crescimento e os empregos, na economia mundial", de US$ 1,1 trilhão.
Os números apresentados ao final de uma conferência de cúpula internacional precisam sempre ser examinados com atenção, especialmente se quem os estiver apresentando for o primeiro-ministro britânico. A reputação de Brown por inflar números, anunciar mais de uma vez as mesmas medidas e contar duplamente os valores envolvidos é bem conhecida.
O número de US$ 5 trilhões para as medidas de estímulo fiscal fica bem distante do valor total de estímulo que os EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI) desejavam. Não foi oferecido nenhum dinheiro novo, e o Tesouro britânico, embora tentasse atribuir o número ao FMI, na verdade afirmou que ele se referia à elevação cumulativa na captação dos governos do G20 para o período de 2008 a 2010, ante os resultados de 2007.
Até mesmo os funcionários do governo britânico pareciam sem graça quanto ao número. Mas como é que aquele total de US$ 1,1 trilhão foi obtido? Cerca de metade do valor -US$ 500 bilhões- representa a injeção de dinheiro novo no FMI, de modo que este possa ter fundos disponíveis em volume suficiente para emprestar aos países apanhados na crise.
O Japão já havia feito uma doação unilateral de US$ 100 bilhões, enquanto a União Europeia prometeu outros 75 bilhões (US$ 101 bilhões). Não houve novos anúncios de verbas por parte de EUA, China e Arábia Saudita, mas apenas uma promessa genérica de bancar um novo esquema de financiamento de US$ 500 bilhões, no qual todos esses compromissos já existentes e dinheiro novo seriam colocados.
Se novos compromissos de verbas para o FMI pareciam conspícuos pela ausência, os US$ 250 bilhões em dinheiro para DES (Direitos Especiais de Saque) -a unidade contábil própria do Fundo- eram novos, mas não tudo o que pareciam ser. Essa política de criar novos DES, com valor baseado numa cesta de moedas, é o equivalente a um relaxamento quantitativo em escala mundial.
O FMI criará os novos DES no valor de US$ 250 bilhões e os alocará a seus 186 países integrantes na proporção de suas cotas no Fundo.
É uma medida significativa, pois representa dinheiro novo que países pobres poderão converter em dólares, euros, ienes e libras, mas ainda assim são os países ricos que receberão a maior parte das novas reservas cambiais. O grupo das sete maiores economias mundiais receberá, só ele, 44% do total.
No que tange aos financiamentos comerciais, o número de US$ 250 bilhões não sobrevive a qualquer teste. Um anexo ao comunicado diz que o dinheiro novo oferecido fica entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, e o valor de US$ 250 bilhões representa uma aspiração quanto ao montante de comércio a ser financiado em dois anos, e não quanto ao valor a ser oferecido para financiamento comercial em si. Em contraste, os US$ 100 bilhões em dinheiro novo para empréstimos por instituições multilaterais de desenvolvimento ficam bem mais perto da realidade. Parte do dinheiro está sendo trazida do futuro, mas larga proporção desses recursos adicionais será financiada com captação nos mercados internacionais de capital.
Quando todos os números são somados, em lugar de US$ 1,1 trilhão, a soma de novos compromissos parece ficar abaixo de US$ 100 bilhões, e a maioria das medidas já estava em curso antes da conferência do G20. Embora inflar compromissos relativamente modestos e antigos de forma a atingir um número imenso não faça da reunião um fracasso, o desejo de produzir números altos a fim de capturar manchetes -aparentemente o principal resultado do encontro- sugere que as divisões e disputas quanto a outras questões devem ter sido consideráveis.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

"Eu adoro esse cara", diz Obama para Lula

DE LONDRES

Ontem foi o dia em que o "político mais popular do planeta" se encontrou com o primeiro presidente da história dos EUA que, "se você encontra na Bahia, acha que é baiano": "O Obama tem a cara da gente".

Num vídeo que correu a internet e foi muito comemorado pelo governo brasileiro, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Meu chapa" ("my man"), eu adoro esse cara!". "É o político mais popular da Terra." Observando a conversa, o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, emendou: "É o político há muito tempo no cargo mais popular da Terra". E Obama conclui: "É porque ele é boa-pinta", disse o americano, como se falasse com um amigo numa quadra de basquete de Chicago.

A adulação do político mais adulado dos últimos tempos deixou Lula feliz da vida. De excelente humor e cheio de piadinhas em entrevista de meia hora na Embaixada do Brasil em Londres, o presidente agradeceu ao "gesto de gentileza" e deu a receita: "Eu trato as pessoas muito bem, eu gosto de ser companheiro".

O brasileiro chegou perto de dizer que era torcedor de Obama desde criancinha: "Torço para ele desde quando ele era [pré-candidato] democrata [nas eleições primárias] e enfrentava a Hillary [Clinton], depois contra o [republicano John] McCain", disse Lula -ele mesmo avesso a prévias.

O presidente também foi todo elogios à "humildade" do colega americano, sem discussão o homem mais poderoso do planeta: "Você acha que é fácil um americano dizer isso?", disse Lula, contando que Obama falou que era "o mais novo" e estava ali "para aprender".

Lula se torna um dos poucos líderes do planeta a poder dizer que teve uma boa relação tanto com o republicano George W. Bush como com Obama. A ponto de poder falar para o democrata que "o pepino que você tem para descascar é infinitamente maior do que o meu".

O vídeo com Obama é o maior sucesso de marketing de uma longa campanha para ampliar a presença do Brasil no cenário internacional, que conseguiu alguns resultados positivos nas últimas semanas.

A comitiva do presidente fez questão de que os jornalistas que acompanham a visita soubessem logo da cena.

Em todos os eventos de que participou em Londres, Lula ficou sempre muito bem posicionado. Na recepção com a rainha Elizabeth 2ª, uma das melhores oportunidades de foto de toda a viagem, o presidente ficou ao lado da soberana. A explicação oficial é que o brasileiro era o líder havia mais tempo no cargo (seis anos).

Em entrevista recente, o premiê britânico, Gordon Brown, chegou a dizer que Lula era encarado como uma espécie de "porta-voz dos países pobres do mundo". Como mostrou a cena de ontem, com Obama o brasileiro também se ajeitou.

Na mídia internacional, a visão geral também é favorável a Lula, que em 2005 chegou a sentir a ameaça de processo de impeachment por conta do escândalo do mensalão.

Há alguns dias, o "Guardian", principal jornal liberal do Reino Unido, publicou reportagem em que elogiava o brasileiro por se preocupar com a baixa emissão de carbono, por ter viajado de Paris a Londres de trem, e não de avião, como a maioria dos seus colegas.

Nem menção à notícia de que o brasileiro tinha usado antes seu Aerolula para ir a Santiago, a Doha e a Paris. Tampouco ao fato de que o avião mesmo assim viajou para Londres, para levar o presidente de volta ao Brasil, hoje à tarde. (PEDRO DIAS LEITE)

Folha Online

Veja o vídeo em que Obama diz que Lula é o político mais popular da Terra

www.folha.com.br/090924

 

análise

Brasil pode ter poder real, diz especialista

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

Para os analistas políticos, os comentários sobre Luiz Inácio Lula da Silva feitos pelo presidente americano, Barack Obama, são um sinal de que o Brasil está começando a ter alguma influência real entre as nações.
"Apareceram indicações, nos últimos meses, de que Lula se encontra acima de qualquer outro líder não só na América Latina como no mundo", afirma Albert Fishlow, professor emérito da Universidade Columbia e da Universidade Berkeley.
E, na avaliação de especialistas, Obama pode estar certo quando aponta Lula como o presidente mais popular atualmente. Enquanto o brasileiro tinha um índice de aprovação de 76,2% em março, de acordo com a pesquisa CNT/Sensus, o americano contava 61% ontem, segundo a medição diária do Gallup. O britânico Gordon Brown estava com 23% no fim do mês passado e o francês Nicolas Sarkozy tinha 49% em janeiro, segundo os dados mais recentes. O venezuelano Hugo Chávez estava com 61%, pelo Datanalisis.

Moderação
"Os brasileiros geralmente não gostam de ouvir isso, porque acham que o presidente comete gafes e ficam com receio de que passe uma imagem ruim do país, mas quem observa de fora vê o Lula como um líder respeitado, simpático, moderado -em meio a tantos descontrolados entre seus vizinhos- e que está à frente de uma nação de enorme potencial econômico", diz Thomas Trebat, diretor-executivo do Instituto para Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, nos EUA. "Entretanto, o ganho de poder é um longo processo. O país precisa levantar a voz e ser agressivo nas reivindicações."
Fishlow concorda: "No final deste ano, no começo do próximo, será o momento de o Brasil avançar nas negociações de Doha e em outras áreas nas quais tem interesse legítimo, como o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas)." Não é fácil abraçar o papel de protagonista verdadeiro, ressalva o pesquisador. "É preciso assumir posições claras diante das questões e se comprometer."

 

ARTIGO

Cúpula de egos

RUBENS RICUPERO
COLUNISTA DA FOLHA

A ÚLTIMA vez em que se anunciou que nova ordem mundial estava emergindo foi em dezembro de 1990, quando Bush pai pediu emprestada a expressão a Gorbatchov. Ambos são hoje simpáticos aposentados, depois que o primeiro fracassou na reeleição e o último acabou destruindo o comunismo que pretendia restaurar.
Oxalá o precedente não traga má sorte a Gordon Brown. Autêntico herói que não se poupou para garantir o êxito da cúpula do G20 poderá terminar como Churchill, vencedor da guerra, mas rejeitado pelos eleitores britânicos. Lutando contra a maré conservadora, Brown demonstrou que nem um escocês austero, filho de pastor presbiteriano, consegue resistir à hipérbole quando se trata de exagerar o êxito de uma reunião para impressionar o eleitorado.
Mas, se o encontro de Londres está longe de se comparar ao nascimento da nova ordem da ONU e do FMI, merece ser visto como contribuição útil, embora não espetacular, para restabelecer a confiança. Retomando os três critérios que sugeri ontem nesta Folha, vou invertê-los da cabeça para baixo por ordem de importância dos resultados.
De longe a ação mais concreta e nova consistiu no aumento dos recursos do FMI para US$ 750 bilhões, mais que o Fundo pedira, e a decisão de emitir US$ 250 bilhões em Direitos Especiais de Saque. Na mesma linha destacam-se os US$ 250 bilhões para financiar o comércio. Nada disso é imediato; levará meses, talvez um ano, para que esse dinheiro entre de fato e comece a ser desembolsado.
Não obstante, não há dúvida de que os países necessitados se sentirão mais tranquilos. O México não esperou para se candidatar a US$ 47 bilhões da Linha de Crédito Flexível.
No critério da regulamentação, a parte conceitual do comunicado vai na boa direção: todos, entidades cinzentas como os fundos de hedge e instrumentos financeiros tóxicos, serão disciplinados, e os padrões internacionais para evitar risco excessivo ou contágio passarão por reforço. Mas os americanos lograram resistir à ideia de transnacionalizar as regras. Os EUA gostam de globalização só quando se trata de abrir fronteiras para as transnacionais, o capital e o comércio. Na hora de regular e fiscalizar, preferem a soberania. O primeiro critério, o de substanciais estímulos adicionais, pecou pela ausência. Figura apenas como veleidade de fazer mais, caso necessário. Os europeus e os que dependem da demanda alheia para crescer não se emocionaram.
Um sucesso de relações públicas, para não usar palavra mais feia, foi convencer a imprensa de que era pertinente fazer o êxito da cúpula depender de tema periférico, sem relação direta com as causas da crise: os paraísos fiscais, preocupação dos fiscos alemão e francês. Aqui, como na questão da regulação, tudo dependerá da qualidade e do rigor das regras internacionais a serem definidas nos próximos meses. Afinal, antes da crise já existiam os padrões de Basileia, que se revelaram frouxos e complacentes. No caso do protecionismo e da conclusão da Rodada Doha, ouvimos a mesma canção com letra um pouco modificada.
Quanto ao mais, Obama saiu-se bem na modéstia de pretender ter vindo para escutar, Brown teve sua "finest hour" e todos os atores voltaram para casa convencidos de que o sucesso se deveu a eles. Que mais desejar de uma Cúpula de Egos?

RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).

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