Economy and Society II de José Porfiro – Specific

3 de abril de 2009

LEITE DERRAMADO – Chico Buarque

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VALOR ECONÔMICO, 03/04-04-2009

As raízes do Brasil de Chico

Por Cadão Volpato, para o Valor, de São Paulo
03/04/2009 

Não são poucos os leitores que se aproximam com certa desconfiança dos livros de Chico Buarque. O Chico compositor já representa o que de melhor o Brasil poderia inventar. Ele tem olhos claros num país de mulatos, um pai genial e é pura civilidade. E senso de humor. Pude entrevistá-lo uma vez para a TV, em 1995. Chico veio subindo as escadas do apartamento de Ney Matogrosso e a atmosfera mudou: o ar ficou parado, à sua espera. Ele entrou na sala, cumprimentou cada um de nós e foi até a janela. Depois de coçar o queixo, disse: "Ali naquele prédio fica a minha dentista. Toda vez que eu vinha me consultar, ficava olhando para esta cobertura de boca aberta, pensando: deve ser ótimo morar ali."

A direita não o perdoa por suas ligações nostálgicas com Cuba. Também não deve perdoá-lo por não baixar a cabeça diante dos oficiais do Exército que o interrogaram na ditadura. Era muita afronta para a lei e a ordem daquele tempo.

Isso tudo foi dito para acentuar a estranheza do Chico Buarque escritor. Afinal, só faltava ele escrever bem. Assim como muita gente foi atrás de seus livros empurrada pelo mito, outro tanto de pessoas passou longe deles pelo mesmo motivo.

Pois "Leite Derramado", o quarto romance de Chico Buarque, deveria ser lido por todo brasileiro. Pela simples razão de que é uma das melhores peças literárias dos últimos tempos.

Ao narrar a própria história num leito de hospital, o centenário Eulálio Montenegro d’Assumpção percorre, à sua maneira, a história do Brasil. É uma história narrada do ponto de vista da elite perversa, estúpida e racista com a qual estamos acostumados. Mas é também a história de um amor tão inocente e sensual que seria cômico, não fosse sério.

Chico tem essa capacidade rara de carregar o leitor para dentro do livro, algo que as obras anteriores talvez não tenham conseguido alcançar com tanto sucesso. Em "Leite Derramado" (um título esdrúxulo que faz sentido à medida que avançamos na leitura), o mergulho do leitor é irreversível. Um livro é bom quando se sente falta dele, mal terminada a leitura. "Leite Derramado" é assim, talvez porque a história que conte seja tão verdadeira, embora completamente imaginada.

Ao mexer com os fatos da história do Brasil, da corte até os dias de hoje, por meio da infinidade de antepassados e descendentes solitários e lascivos de Eulálio, Chico se aproxima ainda mais da memória do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Faz uma literatura de alto nível, que tem vários momentos Machado de Assis, mas lembra também o Gabriel García Márquez de "Memória de Minhas Putas Tristes" e uma autora um tanto esquecida, Zulmira Ribeiro Tavares, que escreveu pequenos grandes romances a respeito da decadência de uma elite irmã da carioca, a paulistana. Chico saiu-se melhor do que García Márquez.

Em frases soltas como "A curva é o gesto de um rio", o letrista também aparece. Mas a linguagem de "Leite Derramado", ponto alto do livro, está mais para as tristes, limpas e tortuosas ruelas da Alfama, em Lisboa. O português do romance tem esse quê de castiço ao evocar objetos, fatos e coisas – como as vitrolas e os cavalos da Revolução de 30 amarrados no obelisco – que estão a ponto de sumir do nosso imaginário. E por evocá-los com senso de humor, arte e real conteúdo, matérias-primas escassas em nosso tempo cheio de escritores-blogueiros, é que "Leite Derramado", do escritor Chico Buarque, veio para ser estudado nas boas escolas do futuro.

"Leite Derramado" – Chico Buarque.

Companhia das Letras, 200 págs., R$ 36

 
 
 
 
FOLHA DE SÃO PAULO, 28 MARÇO DE 2009
ESPECIAL CHICO BUARQUE
O bruxo do Leblon

Chega às livrarias o mais novo romance de Chico Buarque, "Leite Derramado", saga familiar que se mistura à história do Brasil e evoca estilo da prosa de Machado de Assis

Daryan Dornelles/Folha Imagem

O cantor, compositor e escritor Chico Buarque, 64, durante sessão de fotos realizada em sua casa, no Rio de Janeiro

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Um idoso centenário agoniza no leito de um hospital. Às enfermeiras que dele tratam, conta, de modo confuso e algo delirante, a história de sua vida. A saga de uma família que tem início na corte portuguesa, atravessa os períodos do Império e da República Velha e desemboca nos dias de hoje é o centro do enredo de "Leite Derramado", quarto romance do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque, 64, que chega hoje às livrarias.
A trama percorre o mapa de um Rio tradicional, revisitado pela reportagem da Folha -que pode ser visto no ensaio de fotos das págs. E6 e E7. Do ponto de vista estilístico, a prosa de Chico evoca características da narrativa machadiana. O diálogo com o "bruxo do Cosme Velho" foi observado pelo crítico Roberto Schwarz e pelo economista Eduardo Giannetti, que resenharam a obra a convite da Ilustrada.
A inspiração inicial para o livro veio da canção "O Velho Francisco", de 1987. O autor a tinha como esquecida até ouvir uma regravação feita pela cantora Monica Salmaso. Em 2008, quando o produtor Rodrigo Teixeira o procurou para falar de um projeto em que escritores fariam textos baseados em músicas do cantor, Chico deu o seu aval, mas pediu que "O Velho Francisco" não fosse utilizada, pois com essa ele mesmo já estava fazendo algo. A letra fala das agruras de um ex-escravo, alforriado "pela mão do imperador".
Ao reescutá-la, Chico pensou em escrever a história de um velho. Só que, quando foi pôr mãos à obra, mudou o enfoque. Trocou o ex-escravo por um homem de nobre estirpe. E é por meio dele, Eulálio Montenegro d’Assumpção, o tal moribundo citado acima, nascido em 16 de junho de 1907, que o escritor narra a decadência de determinada elite brasileira.
A questão racial, porém, continuou sendo central na obra. O protagonista casa-se com uma mulata -ainda que finja não percebê-la como tal- e tem comportamento racista em diversas ocasiões. Aos poucos, porém, os Assumpção vão misturando seu sangue nobre cada vez mais, até que o bisneto de Eulálio nasça negro, algo em que tampouco quer acreditar.
"Leite Derramado" sugere um duplo sentido. O primeiro, mais pontual, refere-se ao abandono de Eulálio pela mulher, Matilde, quando esta ainda amamentava a filha do casal. O segundo indica o significado mais geral da obra -a derrocada fatal de uma casta, tragédia que se mostra irreversível. Um dos primeiros leitores do texto foi o romancista Rubem Fonseca, que não gostou do título e recomendou que fosse trocado. Chico pensou um pouco, mas não mudou de ideia.
O romance começou a ser escrito em agosto de 2007 e dá vida a objetos e lugares que habitam as lembranças do autor, como aparelhos de vitrola, refrigeradores Frigidaire, colégios para moças, ritmos de época. Sua paixão pelo Fluminense se materializa na figura de Xerxes, um fictício jogador indisciplinado dos anos 50.

História
A reportagem visitou locais nos quais o romance se desenvolve. Vistos hoje, os casarões de Botafogo abandonados, a ocupação desordenada da Tijuca e a explosão imobiliária de Copacabana parecem corresponder à degradação proposta pelo enredo.
Por ser filho do mais importante historiador brasileiro, Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), e por ter optado por um enredo sobre o passado do país, alguns acreditaram que "Leite Derramado" fosse fazer aproximações entre literatura e história.
A obra, porém, diz respeito mais à primeira do que à segunda. O próprio Chico deixou claro que partiu da ficção para a pesquisa de fatos, datas e acontecimentos, e não o contrário.

Timidez
Celebrizado por sua discrição e timidez como músico, Chico se mostra ainda mais contido como escritor. Recusa-se a conceder entrevistas, alegando dificuldades em explicar o livro além do que está dito em seu conteúdo. Quando está metido na literatura, trabalha em silêncio e praticamente isola-se para se manter totalmente concentrado, em seu apartamento, no Leblon.
"Leite Derramado" contribui para consolidar o Chico escritor. Sucede livros cuja vendagem vem crescendo. O primeiro, "Estorvo" (1991), vendeu 180 mil cópias; o segundo, "Benjamim" (1995), 85 mil; e o mais recente, "Budapeste" (2003), chegou a 275 mil.


LEITE DERRAMADO
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 36 (200 págs.)
 
Trechos

"A o deparar com gente na calçada, despi o paletó, protegi minhas pernas e me enfiei numa ruela. Mas logo na avenida Beira-Mar eu já podia caminhar como convém a um cavalheiro, a não ser pelo chapéu esquecido no banco da igreja"

"Mas como eu não sabia me desfazer da casa de Matilde, comecei a considerar a hipótese de sacrificar o casarão de Botafogo, que acarretava muitas despesas, com uma dúzia de empregados"

"Os coveiros estavam de má vontade, e quando o caixão bateu com peso no fundo da tumba, o baque abafado me soou como o fim da linha dos Assumpção. Para mim já estava bom, bastava"

"Meu avô foi um figurão do Império, grão-maçom e abolicionista radical, queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África, mas não deu certo"

 
 
Brincalhão, mas não ingênuo

As flutuações entre presente e passado, realidade e fantasia, são asseguradas, com total precisão, pela maestria literária de Chico Buarque

ROBERTO SCHWARZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Leite Derramado" é um livro divertido, que se lê de um estirão. O título refere-se a um casamento estragado pelo ciúme e, indiretamente, ao curso das coisas no Brasil. Aos leitores mais atentos o romance sugere uma porção de perspectivas meio escondidas, que fazem dele uma obra ambiciosa. Os amigos de Machado de Assis notarão o paralelo com "Dom Casmurro".
Entre as façanhas da narrativa está a figura de Matilde, uma garota incrivelmente desejável feita de quase nada. Quando ela entra no mar, daquele jeito dela, é "como se pulasse corda". "Saía da igreja como quem saísse do cinema Pathé" e circulava pela fila de pêsames "como se estivesse numa fila de sorveteria". O ciúme que ela desperta no marido-narrador, Eulálio d’Assumpção (com "p", para não ser confundido com os meros Assunção), é o pivô do livro e dá margem a sequências e análises memoráveis.
Note-se, para contrabalançar a impressão de encantamento juvenil, que o narrador é um homem de cem anos, internado à força num hospital infecto. Entre gritos, vizinhos entubados e baratas andando na parede ele recorda -a 80 anos de distância- o breve casamento em que foi feliz e traído (em sua opinião). De tempos em tempos a boa lembrança ainda é capaz de transformar o macróbio acamado em "maior homem do mundo", metáfora que é uma indecência alegre. Por sua vez, o feitiço irreverente de Matilde, entre modernista e patriarcal, também foge ao decoro: a esposa perturbadora não tem ginásio completo, é mãe aos 16 anos e assobia para chamar os garçons, além de ser aluna-problema do Sacré Coeur e congregada mariana.
Como tudo que é interessante, o ciúme e o amor não se esgotam em si mesmos. Entre várias irmãs claras, Matilde é a única escura, para desgosto da sogra, que entretanto tem um irmão beiçudo. Mais adiante se saberá que a moça é filha adotiva duma escapadela baiana do pai. Os seus conhecimentos de francês e a sua cultura geral deixam a desejar, envergonhando o marido, que nos momentos de ciúme acha que casou com uma mulher vulgar. Para educá-la ou humilhá-la ele gosta de encher a boca "para contar como é um transatlântico por dentro". Em plano diferente mas aparentado, a pele "quase castanha" da menina combina com cetim laranja, o que deslumbra e enfurece Eulálio, que preferiria que ela usasse roupa mais fechada, de tons mais discretos. Em suma, tanto o amor como o ciúme se alimentam da desigualdade de classe e de cor, que segundo a ocasião funcionam como atrativo ou objeção. Estamos em plena comédia brasileira.
Quando é abandonado por Matilde, que vai embora sem dar explicação, Eulálio não se desinteressa das mulheres. Como Dom Casmurro ele recebe visitas femininas em seu casarão, às quais pede que vistam as roupas da outra, insubstituível. A relação desigual, em que nome de família, dinheiro e preconceito de cor e classe se articulam com desejo e ciúme, forma um padrão consistente, que vira cacoete. Os seus desdobramentos mais reveladores ocorrem no hospital, onde o patriarca centenário, agora já sem tostão, faz a corte a praticamente todas as enfermeiras de turno, a que promete casamento, roupas finas, nome ilustre, palacete e baixelas, desde que se dediquem só a ele. A uma delas, como um eco dos atritos com Matilde, ele garante que não irá perguntar o que ela faz durante as suas tardes, quando não está com ele, nem vai se envergonhar dela em sociedade.

Lembranças e digressões
Por momentos Eulálio acha que está ditando as suas memórias às enfermeiras, em cuja gramática não confia. Como elas não lhe dão maior bola, o leitor conclui que estão apenas preenchendo o prontuário hospitalar, pedindo o ano de nascimento e a filiação do paciente que fala pelos cotovelos. Seja como for, entre anedotas familiares, lembranças e digressões, ele vai desenrolando a história dos Assumpção, começando no século 15 e chegando a um incerto tataraneto em 2007.
Quanto aos antepassados, as memórias têm algo dum samba do crioulo doido da classe dominante. Depois de chegar ao Brasil na comitiva de dom João 6º, quando um trisavô serviu de confidente a dona Maria, a louca, a família dedica-se ao tráfico negreiro e, mais adiante, a negociatas propiciadas pelo abolicionismo, visando repatriar os negros à África. Já na República, o pai de Eulálio é um senador belle époque, fixado em loiras e ruivas, de preferência sardentas, além de ser homem de confiança dos armeiros franceses, que através dele vendem canhões obsoletos ao exército brasileiro. Quanto aos descendentes, a filha baixa o nível ao casar com um filho de imigrante, o neto sai comunista da linha chinesa e o bisneto, nascido na cadeia onde o pai esteve preso e foi morto, é um crioulo, pai por sua vez de um garotão traficante de drogas, que aparecerá no "Jornal Nacional" de cara encoberta pela jaqueta. Do ângulo senhorial, a degringolada não podia ser maior. Do ângulo a que o livro deve a sua acidez e qualidade, alguma coisa na família pode ter melhorado, nada piorou, e no essencial ficaram elas por elas.
A nulidade do próprio Eulálio é quase total, uma verdadeira proeza artística a seu modo. Como ele mesmo é o narrador, temos uma situação literária machadiana, em que a crítica social não se faz diretamente, mas pela autoexposição "involuntária" de um figurão. Recapitulando sua vida com propósito sentimental, este sem querer vai entregando os segredos de sua classe, em especial os podres. O pressuposto desta solução formal -trata-se de uma forma em sentido pleno- é uma certa conivência maldosa entre o autor e o leitor esperto, às expensas do canastrão que está com a palavra. O virtuosismo com que Chico encarna em primeira pessoa a mediocridade e os preconceitos oligárquicos de seu narrador, tornando-o extremamente interessante, e aliás sempre engraçado, é notável. Além da referência machadiana, provavelmente deliberada, há uma afinidade de fundo com a ficção de Paulo Emílio Salles Gomes, outro mestre na denúncia travestida de recordação.
Assim, quando perde o pai, Eulálio trata de lhe seguir os passos ilustres. Enverga uma das gravatas inglesas do senador, vai tomar cafezinho com políticos nos respectivos gabinetes, passa pelo escritório da Le Creusot, a firma francesa cujas negociatas o grande homem facilitava, leva bombons à secretária, fuma uns charutos, dá uma chegada ao banco e antes das quatro volta para casa. Como não é senador, agora ficou tudo mais difícil e precisa ele mesmo fazer a fila para desembaraçar a mercadoria na alfândega. As coisas já não funcionam como antes, mas ainda assim o esquema da família "cujo nome abre portas" é luminoso como um sonho e vale uma citação extensa. À maneira do Machado da "Teoria do Medalhão", o romancista fixa um tipo nacional.
"Mas eu não tinha dúvidas de que, para mim, a porta certa se abriria sozinha. De trás dela, me chamaria pelo nome justamente a pessoa que eu procurava. E esta me anunciaria com presteza à pessoa influente, que desceria as escadas para me buscar. E me abriria seu gabinete, onde já me aguardariam varias chamadas telefônicas. E pelo telefone, poderosas pessoas me soprariam as palavras que desejavam ouvir. E de olhos fechados, eu molharia pelo caminho as mãos que meu pai molhava. E pelo triplo do preço tratado me comprariam os canhões, os obuses, os fuzis, as granadas e toda a munição que a Companhia tivesse para vender. Meu nome é Eulálio d’Assumpção, não por outro motivo a Le Creusot & Cie. me confirmou como seu representante no país."
Dito isso, há um ponto em que Eulálio não é medíocre. O seu gosto pelas mulheres é forte e lhe dita condutas e análises surpreendentes, em dissonância com a sua frouxidão geral, com seus preconceitos de toda ordem e as obnubilações do ciúme. Longe de ser um erro na construção da personagem, o desnível compõe um tipo. Ainda aqui estamos em águas machadianas, onde também a fibra amatória é a exceção que escapa a certo rebaixamento genérico e derrisório imposto pela condição de ex-colônia às elites brasileiras. Como marca local, a desproporção entre a intensidade da vida amorosa e a irrelevância da vida do espírito é uma caracterização profunda, com alcance histórico, a que o romance de Chico Buarque acrescenta uma figura.

Sem resposta
O núcleo romanesco da intriga -o seu elemento de sensação- é o desaparecimento inexplicado de Matilde. Ela se foi com o engenheiro francês? Fugiu aos ciúmes do marido? Caiu na vida? Pegou uma doença e quis morrer fora da vista dos seus? Morreu num acidente de carro, acompanhada de um homem? Ao sabor da oportunidade, as explicações são adotadas pelo próprio marido, pela sogra, pela mãe adotiva, pela filha, pelas coleguinhas desta, pelo pároco da Candelária, que veio tomar chá, e pela voz anônima da cidade. Como em "Dom Casmurro", não há resposta segura para o traiu-não-traiu, e o livro é construído de maneira a alimentar o ânimo fofoqueiro dos leitores. Em duas ocasiões antológicas, atormentado pelo ciúme, que o empurra a barbarizar, Eulálio vê a sua certeza se desfazer em nada. Por outro lado, se a incerteza dos fatos, da cronologia e da memória está no centro da intriga, a realidade que se forma à sua volta é clara e sólida, sem nada de indecidível, e as dúvidas do narrador se encaixam nela com naturalidade, compondo um panorama social amplo, de muita vivacidade. A carpintaria atrás do jorro aleatório das recordações é realista e controlada até o último pormenor.
Pelo foco nos Assumpção, pelo arco de tempo abarcado e pelas questões de classe e raça, "Leite Derramado" pareceria ser um romance histórico ou uma saga familiar, coisas que não é. Como nos filmes em que a ambientação diz tanto ou mais do que a intriga, o pano de fundo contemporâneo talvez seja a personagem principal, a que Eulálio, a despeito das presunções, se integra como um anônimo qualquer. A pretexto disso e daquilo, da petulância popular de Matilde, das surras de chicote que são tradição na família, do horror aos hospitais públicos ou do samba na vitrola, o que se configura é a modernização na variante brasileira, em que tudo desemboca.
Os Assumpção, que passam de acompanhantes de dom João 6º a barões negreiros, a aproveitadores do abolicionismo e a traficantes de influência na República Velha, são antes uma categoria social do que uma família e importam menos do que o tempo que os atravessa.
Não há encadeamento interno individualizando e separando as estações, as quais compartem a condição antediluviana, recuada de uma era. Elas funcionam como o passado senhorial em bloco por oposição ao presente moderno, ou também, pelo contrário, como a prefiguração deste e de sua desqualificação. A tônica recai na diferença entre os tempos? Na superação de um pelo outro?
Na decadência? Na continuidade secreta? Quem configura a resposta, que não é simples, é o vaivém entre antes e agora, operado pela agilidade da prosa. Os jardins dos casarões de Botafogo são substituídos por estacionamentos, os chalés de Copacabana por arranha-céus, as fazendas por favelas e rodovias, e as negociatas antigas por outras novas, talvez menos exclusivas. A relação desconcertante dessa periodização com as ideias correntes de progresso -ou de retrocesso- faz a força do livro, que é brincalhão, mas não ingênuo. As flutuações entre presente e passado, realidade e fantasia, ângulo familiar e ângulo público são caucionadas, no plano da verossimilhança psicológica, pela confusão mental do narrador. No plano da técnica narrativa elas são asseguradas, com total precisão, pela maestria literária de Chico Buarque, o romancista, para quem o narrador de anteontem é um artifício que permite sobrepor e confrontar as épocas.
É claro que não se trata aqui das derivas da memória de um ancião, mas de invenções do artista, sempre intencionais, carregadas de humorismo e ambiguidade. Para não perder a nota específica, ligada à história nacional, é preciso ter em mente a substância polêmica de cada situação, com a sua parte de alta comédia. O barão negreiro, por exemplo, foi uma glória da família, continua a sê-lo para Eulálio, mas é um malfeitor para os pósteros.
Mesma coisa para o avô abolicionista, um benfeitor tão problemático quanto o outro: em vez de integrar os negros à sociedade brasileira, como quer a consciência de hoje, ele quer devolvê-los à África e ganhar dinheiro na operação. Já o pai senador, um pró-homem da República, representa bem o que pouco tempo depois se chamaria um lacaio do imperialismo.
Assim, trazendo escravos ou mandando-os de volta, cobrando e torrando comissões ilegais, os Assumpção vão cumprindo o seu papel de classe dominante, europeizadíssimos e fazendo tudo fora da lei. A dissonância entre a autoimagem e a imagem que a história fixaria deles em seguida -mas será que fixou?- impregna a narrativa de comicidade politicamente incorreta do começo ao fim.

Senso crítico
O padrão da prosa, que tem correspondência profunda com esse quadro geral, é muito brilhante. Por um lado, a fala de Eulálio é salpicada de expressões um pouco fora de uso, indicando idade e privilégio social; por outro, a sua leveza e alegria são netas do modernismo e de uma estética contrária à afetação. Assim, a fala é e não é de Eulálio, ou melhor, ela é uma imitação cheia de humor, impregnada de senso crítico.
O seu andamento ligeiro dissolve as presunções senhoriais, que se transformam em ilustrações quase didáticas dos despropósitos de outrora. "Nunca uma nódoa, uma ruga na roupa, meu pai de manhã sai do quarto tão alinhado quanto entrou de noite, e quando menor eu acreditava que ele dormia em pé feito cavalo".
Esquematizando, digamos que os termos antigos ora são de gente graúda, marcando autoridade ou truculência, ora são familiares, marcando a informalidade também tradicional. Esta segunda vertente envelheceu menos e guarda parentesco de fundo com a familiaridade sem família de nossos dias, representada no caso pela TV sempre ligada no mais alto, pela polícia trafegando na contramão, pela desgraceira nos hospitais populares, pela trambicagem geral, pela cidade que não termina, pela sem-cerimônia em público, pela gramática desautorizada. É como se o presente continuasse a informalidade do passado patriarcal, multiplicando-a por mil, dando-lhe a escala das massas, para melhor ou para pior.
Talvez seja isso o "leite derramado" que não adianta chorar: persistiu a desigualdade, desapareceram o decoro e a autoridade encasacada, e não se instalaram o direito e a lei. É o que no interregno entre antigamente e agora se chamava modernização sem revolução burguesa. Sem saudosismo nem adesão subalterna ao que está aí, a invenção realista de Chico Buarque é uma soberba lufada de ar fresco.


Avaliação: ótimo

ROBERTO SCHWARZ, 70, é crítico literário, autor de "Ao Vencedor as Batatas", entre outros.

A vida desde o fim

A obra impressiona mais pela beleza e astúcia de peças isoladas do que pelo efeito conjunto do quebra-cabeça que instiga a montar

EDUARDO GIANNETTI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Farsa e profundidade. "Leite Derramado" é o relato em primeira pessoa de um duplo malogro: a decadência da família Assumpção, egressa do patronato político brasileiro, e o colapso de um casamento carioca, provocado pelo misterioso sumiço da jovem esposa do narrador.
Obra de alta carpintaria literária, o quarto romance de Chico Buarque impressiona mais pela beleza e astúcia de peças isoladas -soluções felizes de linguagem espalhadas como dádivas pelo texto- do que pelo efeito conjunto do quebra-cabeça que ele nos instiga a montar. A leitura encanta e arrebata, mas o todo é menor que a soma das partes. O romance se desmancha em sopro assim que termina.
Eulálio Montenegro d’Assumpção, o narrador, tem mais de cem anos, está à beira da morte e conta sua história, entremeada de delírios, incongruências e devaneios, a partir de um leito de hospital. Ele é um elo -frágil ponto de inflexão- numa vasta linhagem de Eulálios que medrou no Brasil desde a vinda da corte portuguesa.
O seu bisavô paterno, feito barão por dom Pedro 1º, traficava escravos moçambicanos; o seu bisneto, nascido em hospital do Exército onde os pais comunistas estavam presos pela ditadura, morre assassinado num motel; o derradeiro Eulálio, tataraneto do narrador, é traficante de drogas para a elite carioca. Do barão negreiro ao baronato do pó, o ciclo se fecha. É "o fim da linha dos Assumpção".
Duas preocupações soberanas governam a autobiografia ficcional de Eulálio: o furor de se distinguir da ralé com que ele cada vez mais se confunde e o amor possessivo por Matilde, a jovem "escurinha", filha adotiva de um ex-correligionário de seu pai senador, com quem se casa à revelia da mãe viúva. O valor supremo de Eulálio, um oportunista ingênuo cercado de aproveitadores espertos por todos os lados, é se dar bem a qualquer preço. Mas os resultados trucidam as intenções.
Paixões egoístas, deformações egocêntricas. A insegurança social, insuflada pelo declínio da família, leva o narrador a perder-se em delírios de grandeza: quanto mais infla o seu prestígio, mais ele murcha. O ciúme corrosivo da esposa desemboca no grande mistério da trama -mote de ótimos momentos de suspense- que é o sumiço de Matilde, sem bilhete e sem mala, ainda lactante, poucos meses depois do nascimento da primeira filha.
Qual o motivo da fuga? "Doença de pobre" (tuberculose) ou "doença da luxúria" (adultério)? As hipóteses proliferam como gatas de rua. Claramente, ela era mais mulher do que ele era homem. As pegadas de "Dom Casmurro" surgem a cada passo do livro; o parentesco Eulálio-Bentinho e Matilde-Capitu seguramente dará ensejo a rica produção acadêmica.

Labirinto de espelhos
O que é real? Na construção da trama, Chico Buarque impele o leitor a um exercício finamente calculado de buscar pontos de apoio e informações confiáveis em meio ao labirinto de espelhos que são as memórias movediças do narrador. O toque de mestre está na arte sutil que faz do relato crepuscular de Eulálio uma confissão involuntária e poderosa o bastante para dar ao leitor a sensação de que sabe mais sobre o personagem e seu mundo que o próprio autor. Os achados estilísticos da obra são um banquete de mil talheres.
E, não obstante, algo se frustra. A primeira pessoa confessional é um gênero exigente. Os delírios da decrepitude de Eulálio são fiéis à vida, mas a situação narrativa do autor decrépito não convence. Não se sabe por que ele conta sua história e, menos ainda, como o relato se fixa e vira texto. Ora ele dita à enfermeira-taquígrafa, ora fala com o teto; ora sonha em voz alta, ora conversa com mortos; ora dirige-se à filha, ora ao leitor. A trama do ato de contar é tecnicamente débil -não para em pé.
Simplismos esporádicos à parte, "Leite Derramado" cutuca e devassa com olhar cortante as mazelas da vida brasileira: a desigualdade obscena; a promiscuidade público-privada; a subserviência colonizada; o preconceito velado pela cordialidade. O que falta, porém, é a construção de ao menos um personagem com o qual se possa ter um vínculo de empatia. Os Eulálios senhoriais são calhordas; os Balbinos da estirpe servil, quando aparecem em cena, mais parecem boçais, e Matilde não tem vida interior. A sociologia festeja, mas a filosofia rasteja.
Se o novo romance de Chico Buarque fosse uma partida de futebol, seria um daqueles jogos repletos de lances memoráveis, fintas deslumbrantes, toques de gênio, mas em que o conjunto do time e o desenrolar da peleja deixam a desejar. Falta armação de jogo. O autor de "Deus lhe Pague" e "Futuros Amantes" foi mais longe.


Avaliação: bom

EDUARDO GIANNETTI, 52, é economista, cientista social e professor do Ibmec-SP.

 
 
 
BRAVO

Qual a melhor obra de Chico Buarque?

Chico Buarque acaba de lançar seu novo livro, Leite Derramado, já considerado por alguns a melhor produção do escritor. O crítico Heitor Ferraz resenhou o livro e artistas consagrados como Mart’nália, Zé Celso e Toquinho nos contaram qual sua obra preferida do artista. Qual a sua?

 Veja a galeria de imagens do making-of da seção de fotos exclusivas com Chico e Caetano e as capas alternativas dessa edição

 

• A matéria completa – A Palavra e o Som

 

• "Chega de Verdade" – A íntegra da entrevista que Caetano Veloso concedeu a BRAVO!

 

 

"Toda vez que penso em Chico Buarque me vem aquela música do ‘Anjo Safado’ (Até o Fim) (risos). Mas as canções que mais gosto são mesmo Desalento com Vinícius, Morena dos Olhos d’Água e Carolina com ele mesmo.

As peças, eu nunca assisti nenhuma – ainda. Livros, só mesmo o Budapeste.

Discos, o Chico Buarque de Hollanda Vol. 2 (1967) foi a iniciação. Pô, eu era pequena, né? (risos)

O Chico Buarque e Maria Bethânia Ao Vivo é o CD da minha vida! É o que mais gosto e o que mais ouvi na vida, com a minha Cabloca (modo como Martinália chama Bethânia). Os dois me ajudaram muito na mesma época, sinistro! (Bethânia com o CD Menino do Rio, produzido e dirigido por ela e no qual canta São Sebastião. Chico, no disco Berlim ao vivo, cantando as músicas Sem Compromisso e Deixa a Menina)".

Mart’nália, cantora, compositora e percussionista, estreou na carreira artística aos 16 anos fazendo backing vocal no disco do pai, Martinho da Vila.

 

"É obvio que meu voto é para a dramaturgia Roda Viva. Mas prefiro um milhão de vezes Sem Fantasia à música título da peça".

Zé Celso Martinez Correa, autor, ator e diretor de montagens históricas como Pequenos Burgueses e O Rei da Vela. Em 1968, no ápice dos embates entre os profissionais de teatro e a ditadura no poder, montou Roda Viva, de Chico Buarque. O grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC) agrediu o elenco e destruiu parte do cenário na temporada paulista. O espetáculo foi censurado durante suas apresentações em Porto Alegre.


 

"Impossível escolher uma só. Cito minhas três preferidas de épocas diferentes: Ela desatinou, O que será e Construção".

Toquinho, compositor, cantor e instrumentista. Sua primeira melodia a receber uma letra foi Lua Cheia. Quem a compôs foi Chico Buarque, a quem conheceu em 1963.


E a sua obra preferida de Chico Buarque, qual é?

 

Leia a seguir a resenha crítica do novo Leite Derramado, de Heitor Ferraz:

 

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