Economy and Society II de José Porfiro – Specific

22 de abril de 2009

PACOTE HABITACIONAL

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:53 AM
 
 

22/04/2009 – 07h15

Especialista aponta ‘pobreza arquitetônica’ dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília
O pacote habitacional lançado pelo governo federal no final de março, com o intuito declarado de gerar empregos e reduzir em 14% o déficit habitacional do país, perde a chance de inovar no ponto de vista arquitetônico. A opinião é de Raquel Rolnik, relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para o direito à moradia adequada.

Projeto das casas da Caixa

A cartilha publicada pela Caixa Econômica Federal traz especificações técnicas para as moradias destinadas às famílias com renda de até 3 salários mínimos. As casas de 35m2 (32m2 de área interna) devem ter 2 dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área externa com tanque, com piso cerâmico na cozinha e no banheiro, azulejo e box. O plano prevê ainda laje de concreto ou forro de madeira ou pvc, com cobertura de telha cerâmica, pé-direito de 2,20m na cozinha e banheiro e 2,50m no restante da residência, além da instalação de kit completo de aquecimento solar/térmico

A professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) aponta outro problema do programa: o risco de se isolar a população mais pobre em guetos. A especialista analisou o Minha Casa, Minha Vida nesta entrevista para o UOL.

A procura de famílias com renda de até 3 salários mínimos pelo cadastramento no Minha Casa, Minha Vida tem sido grande. O pacote pode frustrar os interessados?
O pacote habitacional do governo deixou claro que não pretendia resolver um problema acumulado durante décadas. Já no lançamento, o governo disse que a meta era reduzir 14% da necessidade real de moradias no país. É claro que está gerando uma expectativa muito grande, mas não se trata de enganar ninguém, porque já ficou claro que não vai acabar com o problema.

Qual a principal vantagem e qual a principal falha do programa?
A principal vantagem é que, pela primeira vez, se mobiliza uma enorme quantidade de subsídio associado ao crédito. As políticas anteriores de habitação só focavam financiamentos, que não atendem pessoas da faixa de renda de maior necessidade, que não têm a menor possibilidade de acesso ao crédito sem subsídio. O ponto falho é que casa não é geladeira, não se produz em série. Moradia adequada é um lugar na cidade, um ponto a partir do qual se tem acesso à condições dignas, emprego, comércio, equipamentos sociais, a um espaço público de qualidade, à cultura. Vai além do abastecimento de água, luz, pavimentação, sistema de esgoto, que, claro, também são necessários.

O pacote não tem nenhuma medida sequer que estimule a produção adequada das moradias, do ponto de vista urbanístico. Deixar essa questão por conta do mercado fará com que a construção dos imóveis para a faixa de renda mais baixa se dê na não-cidade, criando guetos e dando continuação ao modelo de apartheid social que já existe.

Com a implantação de algumas medidas, é perfeitamente possível reverter isso. Hoje, a regulação urbanística é competência dos municípios, prevista no Estatuto da Cidade, que é uma lei federal. Poderia se estabelecer, por exemplo, que aqueles municípios que aplicarem esse tipo de regulamentação receberão mais recursos, ou mais subsídios. Outro ponto importante seria permitir que esses recursos do programa fossem utilizados também para reformas de imóveis públicos e privados, vazios e subutilizados.

MP da habitação tem
mais de 300 emendas*

O relator da medida provisória 459/09 na Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) terá de avaliar mais de 300 emendas apresentadas por parlamentares. Um dos temas mais abordados por deputados e senadores foi a ampliação do programa para municípios com menos de 100 mil habitantes*Com informações da Agência Câmara

A medida provisória apresentada junto com o pacote não resolveria essas questões de regulamentação urbana?
A MP tem dois elementos. Um deles entra em detalhes sobre como serão liberados os recursos. O outro cuida da regularização de favelas e ocupações irregulares, mas está mais ligado ao PAC das favelas (recursos do Programa de Aceleração do Crescimento destinados à urbanização de favelas); não tem nada a ver com o pacote. No entanto, mais de 300 emendas foram apresentadas à MP e várias delas preveem esses instrumentos de regulação urbanística, então a questão pode ser atendida.

A ampliação do programa para municípios menores pode trazer algum prejuízo para estas cidades?
A justificativa para se atender a municípios com mais de 100 mil habitantes era que essas são as localidades onde o déficit está mais concentrado. Mas, considerando que no caso das famílias com renda de 0 a 3 salários mínimos o cadastro será feito pelas prefeituras, elas vão ter um grande papel na destinação dessas casas, e isso tem um peso político muito grande, principalmente nas cidades que são base eleitoral de deputados. A pressão e o apelo para se atender a esses municípios menores têm essa natureza.

Mas pode haver algum prejuízo para os municípios menores?
As perversidades e falhas do pacote impactam negativamente tanto os municípios pequenos, como os médios e grandes. O manual de encargos do programa já definiu o tipo de casa ou apartamento a ser construído. Foram critérios que a Caixa Econômica Federal usou apenas para definir o preço dos imóveis. Só que os projetos que forem feitos dentro da tipologia sugerida vão receber recursos mais rapidamente, e esse projeto é de uma pobreza arquitetônica e urbanística impressionante. Com isso, perde-se a chance de os arquitetos terem um campo de experimentação muito rico. É novamente a idéia da fabricação de geladeiras. Casa não é só quatro paredes e um teto. O projeto está mais para Cohab e poderia ser Copan.

A intenção de se incentivar o uso de energia solar em alguns dos imóveis para reduzir o custo com este serviço seria uma tentativa muito tímida de inovação?
Todas as inovações tecnológicas e ambientais são válidas e, se houvesse um pouco menos de pressão e um pouco mais de planejamento, poderíamos trabalhar vários elementos de infraestrutura que não vão ocorrer.

Desenho para apartamentos

Os apartamentos têm área maior, de 42m2 (37m2 de área interna), com 2 dormitórios, sala, cozinha, área de serviço e banheiro. Os prédios devem ter 4 pavimentos com 16 apartamentos por bloco, podendo ser ampliado para até 5 pavimentos com 20 apartamentos. As especificações também preveem piso cerâmico na cozinha e banheiro, laje de concreto, janelas de ferro ou alumínio e portas de madeira. Pé direito de 2,20m na cozinha e banheiro e 2,40 no restante do imóvel. O kit de aquecimento solar também está previsto

As empresas terão interesse em construir casas para as famílias mais pobres?
As empresas têm interesse em vender. Minha grande preocupação é como vão reduzir o custo para poder fazer moradias para este mercado. Fazendo as casas na órbita de saturno, sem viabilizar os instrumentos que permitiriam construí-las em áreas bem localizadas, de forma integrada à cidade.

Quais mecanismos poderiam ser utilizados para se combater de forma permanente o déficit habitacional no país, já que o pacote não acabará com o problema?
Aí cabe uma discussão sobre o próprio conceito de déficit. Todas as abordagens sobre o problema preveem a construção de novas unidades para atender a demanda de 7,2 milhões de moradias. Só que há mais de 6 milhões de casas e apartamentos vazios no Brasil. Então, é mais um problema de acesso ao que está vazio do que de novas construções. E o pacote passa ao largo disso.

Há uma segunda questão que é a seguinte: o governo federal estava seguindo uma trajetória de implantar uma política permanente de moradia, pelo Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, com metas a longo prazo. Mas as prefeituras simplesmente interromperam o processo de construção institucional desse sistema.

O pacote é eleitoreiro?
Isso é irrelevante na discussão, porque se alguém vai ter benefício serão prefeitos e governadores de todos os partidos.

Não há o risco de um município ser menos ou mais beneficiado que outro por conta da disputa política?
O pacote definiu a distribuição de acordo com o déficit habitacional. Isso está escrito. Agora, se os deputados decidirem tirar isso do texto, aí muda. E tem emenda para isso.

 
 
 
São Paulo, domingo, 19 de abril de 2009 MAIS!
Cidades velhas

ZUMTHOR DÁ AS COSTAS PARA A EXUBERÂNCIA DO MERCADO, DIZ MENDES DA ROCHA; PARA O ARQUITETO CAPIXABA, PROGRAMAS DE CASAS POPULARES IGNORAM AVANÇOS DEMOCRÁTICOS


Habitação tem de ser onde o acesso ao trabalho é mais fácil


Martin Ruetschi – 16.mai.00/Efe

Peter Zumthor, vencedor do Prêmio Pritzker de 2009, em seu estúdio em Haldenstein, na Suíça

MARIO GIOIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Paulo Mendes da Rocha está debruçado sobre suas origens. Ou melhor, sobre as águas de suas origens. Aos 80 anos, está mais perto de finalmente inaugurar seu primeiro projeto para a cidade natal, Vitória (ES): o Cais das Artes.
Até 2012, deve ser entregue à cidade um edifício de linhas contemporâneas, que invade as águas da baía de Vitória, feito em concreto e metal.
A construção terá um museu em condições de receber mostras internacionais, com área total de 3.000 m2, além de um teatro de 1.300 lugares e outros espaços (reserva técnica, sede de corpos estáveis, salas para oficinas educativas, entre outras coisas).
Em entrevista à Folha, o arquiteto capixaba radicado em São Paulo fala sobre o Pritzker dado ao suíço Peter Zumthor -que ganhou o Mies van der Rohe para arquitetura europeia, outra honraria importante da área, no mesmo ano em que Paulo Mendes da Rocha recebeu a versão latino-americana -1999.
Discute também projetos similares ao Cais, que utilizam engenhosamente a ligação entre território e edificação, em especial em paisagens portuário-marítimas, como os destinados a Montevidéu (Uruguai) e Alexandria (Egito).
Também não deixa de comentar o que considera nocivo para o urbanismo paulistano, como a manutenção do MAM-SP (Museu de Arte Moderna de SP) embaixo da marquise projetada por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera e a não execução de um anexo para a Pinacoteca do Estado, projeto de 1993 que trouxe de novo luzes sobre sua obra arquitetônica.
 
O Pritzker a Zumthor
Peter Zumthor é um arquiteto com uma obra que pensa e reflete profundamente o espaço. O prêmio dado a ele distingue uma arquitetura que está fora da exuberância mercadológica tão presente atualmente no meio. O Pritzker sempre está olhando para o futuro e faz com que uma obra como a dele seja vista e estudada com mais profundidade.

O local do Cais das Artes
É um projeto que, para mim, tem um encanto e uma sedução muito especiais, pois nasci lá. A casa do meu avô era quase em cima do porto, junto do parque Moscoso.
O porto fica na cidade velha, no fundo de um canal formado entre o continente e a própria ilha de Vitória. Na entrada desse canal, portanto, acabou se fazendo uma ponte que liga o continente à ilha, era um território abandonado "in natura" até outro dia.
Há pouco tempo, uns 15, 20 anos, foi feita uma muralha de cais com material da dragagem do próprio canal. Ganhou-se uma área do mar, retificou-se essa frente e prolongou-se uma avenida.

O programa
Este projeto contempla um teatro capaz de exibir óperas. Portanto, deve ter todos os recursos de orquestra, fosso, capacidade para 1.300 pessoas. E há um museu de arte moderna; hoje toda cidade importante do mundo tem seu MAM. O projeto tem de organizar essa praça de 70 metros por 300 metros na frente do mar. O lugar é esplêndido, porque você assiste aos trabalhos do mar, num desfile constante de navios para lá e para cá, rebocadores, lanchas de práticos. Ou seja, é uma cidade que se pode ver ali amparada pelos trabalhos.

Dificuldades
É um território de Marinha, ganho do mar, com problemas de lençol freático superficial.
Nós fizemos o teatro levantado do chão, o que dá a ele uma impostação de liberdade no chão, com galerias laterais.
E, junto da avenida, fica a parte de serviço, a entrada dos artistas, fundo de palco, espaço para cenários.
O grande salão, de onde se desce para a plateia, está debruçado sobre as águas do mar.
Nós pusemos toda a sustentação, os pilares, dentro d’água. Nos fundos do teatro, as janelas abrem para o mar.
De Vila Velha para Vitória, há uma navegação muito interessante de passageiros. Há desde grandes transatlânticos de turistas a lanchas, embarcações menores, que se dirigem para os recintos turísticos da baía, riquíssimos.
Esse lugar, assim, toma um certo ar veneziano. De quem constrói enfrentando as águas.

A influência de Reidy
O museu é desenvolvido de modo linear ao longo do mar, mas levantado do chão, para que desde a avenida você não tenha tolhida a visão do mar, dos navios e do lado de lá do canal. É bom lembrar que o MAM do Rio de Janeiro, do [Affonso Eduardo] Reidy, já é assim também -ou seja, diante de uma paisagem belíssima, você procura, sempre que pode, que um grande edifício não seja uma pedra no chão.

A influência portuária
Eu nunca saí de Vitória, não é? Do ponto de vista da minha formação, essa cidade sempre teve uma importância grande. Quem nasce num porto de mar, tem uma educação peculiar.
Há uma visão das virtudes da natureza, dos seus fenômenos, mas também das engenhosidades humanas. Um porto atrai e abriga inexoravelmente catraieiros, estaleiros, máquinas, ligações especiais com o tempo, com os horários…
Quem nasce num porto de mar tem tudo para ser sábio. Acostuma-se a ver a natureza não como uma simples paisagem, mas sim como um conjunto de fenômenos. Se o outro diz que é doce morrer no mar, nós, entretanto, achamos que não convém [risos].

A Biblioteca de Alexandria
Você deve ter uma atenção especial com essa disposição espacial "sui generis" para o enfrentamento das águas, é uma questão universal e muito interessante. Basta ver a Holanda toda, por exemplo.
A necessidade de saneamento nessas áreas alagadas, inundadas, de baixios, abrir canais, corrigir as marés.
Santos teve um trabalho magnífico do Saturnino de Brito. A população não tem consciência disso. E é por isso que as nossas cidades vão para o brejo.
No concurso para a Biblioteca de Alexandria [Egito], em 1988, saí do terreno exclusivo que deram, na frente do mar, mas separado por uma avenida.
E, avançando sobre as águas, há o que chamam de Península dos Faraós. Fizemos um grande túnel, que atravessa a avenida. Você rompe a avenida como obstáculo e usa toda a península como se fossem os jardins da biblioteca, com dois anexos.
É um partido arquitetônico que enfrenta uma espacialidade nova e necessária, num lugar extraordinário.
Não é simplesmente destinar um terreno para fazer um casarão como outro qualquer, para resolver um programa da biblioteca. Isso é fácil resolver.
A própria biblioteca também teria um pequeno porto. Você desembarcaria na biblioteca livre do trânsito de automóveis, pelas águas de um lugar que tem uma história, uma monumentalidade.

Montevidéu
Ao seminário que eu fui, em 1998, o tema era a baía de Montevidéu. É uma baía rasa, imprópria para a navegação.
A ideia era fazer uma avenida circular em volta da baía. A mesma questão de sempre, você fica com uma avenida de tráfego intenso, que impede a aproximação com a frente das águas. A própria avenida tem um lado só, o outro lado não serve para nada.
Como a baía não produz praias, não tem atrativos, surgiu a ideia de retificar as frentes, aterrar as esplanadas horizontais, inclusive com material dragado da própria baía, e mostrar que essa água morta passa a ter uma virtude incrível.
Ou seja, ela pode ser intensamente navegável de um lado para o outro, aliviando o tráfego de automóveis e criando um hábito novo para a população.

As vias elevadas em Vigo
Na Universidade de Vigo [projeto para a cidade espanhola, de 2004, em construção], a questão é enfrentar uma topografia muito enérgica e violenta. O terreno é escabrosamente vertiginoso, pode-se dizer assim. A partir de uma certa costa, mais ou menos numa posição de anfiteatro natural. Portanto, não surgiu a ideia de continuar fazendo muro de arrimo, estradas difíceis.
Era melhor construir uma via elevada na mesma cota, fazendo os novos prédios de maneira vertical, associados a essa rua elevada.
Os novos edifícios nascem todos desse viaduto. Aqui em São Paulo é fácil entender isso: o edifício Matarazzo, o Conde Prates e o antigo prédio da Companhia Light são edifícios que têm entradas pela cota do viaduto e pela cota do vale do Anhangabaú.
Vigo, assim, não tem nada de extraordinário nem de novo. A via elevada resolve uma série de problemas e facilita o encontro dos estudantes, a frequência e a convivência entre eles, que é muito difícil no descalabro de uma cidade feita num terreno montanhoso.

Minha Casa, Minha Vida
De maneira geral, todos os chamados planos habitacionais são erráticos porque não amparam a questão essencial da moradia, que é o endereço.
Habitação tem de ser junto do transporte público, nas áreas mais centrais, onde o acesso ao trabalho é fácil.
A grande questão da habitação é a construção da cidade.
Se você considerar uma cidade como as nossas, com mais de 5 milhões de habitantes, não pode fazê-la inteira pensando em palácios, museus, teatros.
Isso são adereços indispensáveis à cidade. Mas ela é feita de milhões de casas, que têm de saber conviver com o comércio, com acesso à saúde, à educação, ao transporte público.
Portanto, é um problema muito mais complexo do que simplesmente fazer um determinado número de casas, no caso 1 milhão.
Esse contrassenso de se afastar das áreas centrais é até explicável pela ideologia das classes mais ricas.
Mas a cidade bem feita é sempre um espaço democrático. Isso apavora esse pessoal que gosta de morar afastado.
Não percebem que, com isso, destroem a sua própria cidade, a sua própria moradia. Eu não sei como é que se faz para educar os filhos na adolescência em condomínios fechados. Estão produzindo monstrengos.

O anexo da Pinacoteca
É uma ideia do Emanoel Araujo, que era o diretor da Pinacoteca no tempo da reforma que fiz lá.
A ideia era transformar o que hoje é uma escola estadual em uma instituição de caráter museológico, que formaria de carpinteiros, eletricistas e montadores de exposições até museólogos, críticos, como um anexo da Pinacoteca do Estado.
Queria até fazer uma pequena ponte para a passagem de pedestres, alta, que ligasse um daqueles terraços altos da Pinacoteca atual ao outro lado do novo edifício.
A ideia é brilhante. Hoje, uma grande dificuldade dos museus é arranjar um corpo de funcionários capaz de gerir tudo aquilo. É uma coisa para fazer, não há o que discutir.
Esse é um projeto da cidade de São Paulo, qualquer arquiteto pode fazer, um pouco mais assim, um pouco mais assado.
Não estou dizendo que quero fazer, não sou catador de projetos. É um projeto que qualquer pessoa de bom senso faz.

O MAM-SP
A tragédia do parque Ibirapuera é o MAM, porque é fruto de um engano absurdo. Se é um museu, tem de respeitar as artes e, muito particularmente, a arquitetura, como manifestação artística.
O museu se enfiar embaixo da marquise é uma estupidez que não é possível ser feita por um museu. O grande empenho do MAM deveria ser de sair debaixo da marquise e liberar a entrada do Pavilhão da Bienal. Você não pode usar um quadro de Picasso como tela para pintar outro quadro e dizer que aproveitou a tela. Foi o que fizeram com a marquise.
Não vejo razão para ficar inventando novos museus [o antigo prédio da Prodam se tornará um museu de arte popular até 2011] enquanto um está desamparado, como o MAM.

QUEM É PETER ZUMTHOR

DA REDAÇÃO

Nascido em 1943, o suíço Peter Zumthor fabricou móveis em madeira e foi mestre de obras antes de ser reconhecido como um dos principais arquitetos do mundo. No domingo passado, foi anunciado como o ganhador do Prêmio Pritzker deste ano, que lhe será entregue em 29 de maio.
O trabalho de Zumthor, que estudou em Basileia e Nova York, é reconhecido por aliar a austeridade e a rigidez do estilo moderno às condições histórico-geográficas de cada obra -como o Museu de Arte Kolumba, em Colônia (Alemanha), construído sobre uma igreja bombardeada.
As termas de Vals (Suíça) são consideradas sua obra-prima; nas palavras do professor australiano Miles Lewis, "um soberbo exemplo do detalhamento simples que é usado para criar espaços altamente atmosféricos", em que "luz e água são empregados para esculpir os espaços".
Recluso, Zumthor habita uma vila suíça onde, com sua equipe reduzida -não mais de 15 pessoas-, cultiva os hábitos de recusar a maioria das encomendas que recebe e de controlar todas as fases da elaboração de seus projetos.

 
A indústria da forma

FRANK LLOYD WRIGHT, MORTO HÁ 50 ANOS, E A BAUHAUS, CRIADA HÁ 90 ANOS, REDEFINIRAM O DESIGN E A ARQUITETURA DO SÉCULO 20

EUCLIDES SANTOS MENDES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dos materiais aos conceitos que determinaram o surgimento da arquitetura moderna, o norte-americano Frank Lloyd Wright e os alemães da Bauhaus -encabeçados por Walter Gropius- tiveram papel de destaque em sua renovação, em meio à cultura industrial em ascensão nas primeiras décadas do século 20.
Em entrevista à Folha, o professor do departamento de arquitetura e urbanismo na USP, em São Carlos, Luiz Recamán explica que Lloyd Wright é responsável por algumas das conquistas definitivas da arquitetura no século 20, como a ruptura com as formas tradicionais e a relação entre espaço construído e paisagem.
A Bauhaus, por sua vez, vinculava, segundo Recamán, "indústria e artesanato, artes e ofícios, até a sua configuração definitiva, que aproximava essa escola da indústria alemã e da produção serial".
Recamán também fala da contribuição fundamental desses dois símbolos modernistas na formação da arquitetura contemporânea.
 

FOLHA – Qual é o legado de Lloyd Wright para a arquitetura hoje?
LUIZ RECAMÁN
– Um dos mestres da arquitetura moderna, ele desenvolveu uma obra original na qual enfrentou os dilemas da modernização norte-americana e a tentativa de constituir uma civilização de massa, moderna e democrática.
A ruptura com o espaço da tradição, em sua nova configuração moderna, contínua e infinita, e a relação da arquitetura com a paisagem foram conquistas definitivas para a arquitetura do século 20.
Pode-se destacar a grande relação que estabeleceu entre a arquitetura e a existência concreta das formas da vida social.

FOLHA – "O importante é a vida cotidiana": como essa frase de Lloyd Wright reflete sua percepção sobre como deve ser a arquitetura?
RECAMÁN
– Sua arquitetura pretendia ser o abrigo das relações humanas, entendidas como o enfrentamento direto com o ambiente -que, no caso dos EUA, deveria ser instaurado.
Família, comunidade e trabalho criariam o sentido da existência em um mundo moderno a ser construído, ao mesmo tempo livre da tradição e preservado dos impulsos alienantes e de abstração da sociedade de massas.

FOLHA – A "honestidade" -isto é, o uso explícito de materiais disponíveis- e a "simplicidade" -construções sem muitos detalhes vistosos-, palavras de peso dos arquitetos e críticos de vanguarda do modernismo, também nortearam o trabalho de Lloyd Wright?
RECAMÁN
– Parcialmente, já que essa intensificação do sentido do espaço não poderia abrir mão de certa sobrecarga simbólica da matéria, ainda que livre dos estilos históricos.
Então, a pureza dos materiais implicava seu significado humano e cultural alcançado nesse isolamento violento do homem americano em uma natureza adversa.
Pedra, madeira e tijolo não poderiam ser aliviados de sua carga experiencial. De maneira contrária, a vanguarda europeia se empenhou, por motivos vários, na "dessemantização" das formas na arquitetura, procurando sua racionalidade construtiva objetiva, sua funcionalidade programática e uma sensibilidade abstrata do espaço.

FOLHA – Em artigo de 1901, "Arte e Ofício da Máquina", Lloyd Wright diz que "o único futuro da arte e do ofício está na máquina". A Bauhaus propunha, por sua vez, uma interação entre arte e indústria. De que maneira a arquitetura teve sua face alterada pela entrada das máquinas em ação na vida cotidiana?
RECAMÁN
– Mesmo percebendo o sentido transformador da civilização da máquina, Lloyd Wright pretendeu atrelar à manufatura um sentido criativo, próximo das "artes e ofícios" da virada do século na Europa. Isso pode soar estranho hoj
e, mas a coincidência plena entre indústria e standard é um fenômeno do século 20, a partir do fordismo. Esse debate (entre "tipo" e "unidade") esteve presente na Bauhaus até 1923, quando o produto em série passa a ser seu objetivo principal.
Essa "guinada" marcou definitivamente a arquitetura moderna, que passou a ser então a elaboração da "célula" e sua articulação no território neutro (tábula rasa), até a grande crise dos anos 1930.

FOLHA – Como se expressava, na Bauhaus, o gosto radical do seu fundador Walter Gropius?
RECAMÁN
– Gropius formulou as principais teses da Bauhaus desde sua origem, que vinculava indústria e artesanato, artes e ofícios, até a sua configuração definitiva, que aproximava essa escola da indústria alemã e da produção serial, no contexto de crise política dos anos 1920.

FOLHA – Como dois dos maiores símbolos da arquitetura moderna no século 20 (Lloyd Wright, nos EUA, e a Bauhaus, na Alemanha) se influenciaram mutuamente?
RECAMÁN
– A conquista da espacialidade moderna na arte e arquitetura se deu no início do século 20 pelas vanguardas europeias e pelas experiências de Wright das "casas de pradaria".
Mas, se essa liberação do "espaço da tradição" foi como que simultânea e pode ser detectada uma influência mútua (como é o caso do neoplasticismo e de Mies van der Rohe), deve-se considerar uma grande diferença entre os construtos.
Pois o "eixo" wrightiano, pelo qual orbitavam os espaços da casa, possuía um sentido instaurador da nova significação da natureza pelos pioneiros americanos -elemento inexistente na configuração moderna europeia.

FOLHA – Quem teve mais influência sobre a arquitetura brasileira: Lloyd Wright ou a Bauhaus?
RECAMÁN
– A grande influência na arquitetura moderna brasileira foi [o arquiteto suíço] Le Corbusier, por motivos que não podem ser discutidos aqui.
A ênfase habitacional e "social" da Bauhaus não fazia, e continua não fazendo, muito sentido no nosso processo de modernização. Seu "racionalismo frio e europeu", determinado pela aceleração fordista, não poderia ser transportado para o Brasil moderno.
Quanto a Wright, sua influência é indireta, já que o espírito instaurador e ilimitado da ocupação pioneira é de outra ordem no sistema colonizador brasileiro.
Mas, sem dúvida, a necessidade de criar espaços a partir do nada -territorial, simbólico e social- deve ser uma angústia que compartilhamos.
A mais importante aproximação foi com a obra de Vilanova Artigas [1915-85; projetou o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, onde ensinou], na conformação do amplo espaço de uma sociabilidade que deveria ser inaugurada em ambiente hostil (no caso de Wright, a vastidão do território e das pradarias; no caso de Artigas, a iniqüidade das nossas cidades).

.

1 Comentário »

  1. Olá professor,Sua escola realiza algum trabalho voluntário? Então participe do 9° Prêmio Escola Voluntária, da rádio Bandeirantes e da Fundação Itaú Social. Dez colégios, escolhidos por uma comissão julgadora, receberão a visita de um profissional da rádio Bandeirantes para ensinar aos alunos como fazer uma reportagem, que irá ao ar na própria rádio! Além disso, as dez escolas finalistas participam também de um grande encontro em São Paulo. E os vencedores ainda ganham muitos prêmios e reconhecimento da comunidade. Participe! As inscrições podem ser feitas através do site http://www.escolavoluntaria.com.br até o dia 30 de junho. Não perca!

    Comentário por Prêmio — 22 de abril de 2009 @ 5:23 PM


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: