Economy and Society II de José Porfiro – Specific

28 de março de 2012

CARTA DO ACRE

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 9:03 AM

Carta do Governo do Acre ao Fórum de Governadores da Amazônia

26/03/2012 – 20:02
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FÓRUM DE GOVERNADORES DA AMAZÔNIA
CARTA DO GOVERNO DO ACRE
CONTRIBUIÇÃO À REUNIÃO DOS GOVERNADORES DA AMAZÔNIA PARA A AGENDA RIO+20

Brasao_Acre_____

A agenda Amazônica à qual o Acre está inserido tem como paradigma o desenvolvimento sustentável, interesse direto na materialização da “Economia Verde”, com alta inclusão social e preservação efetiva dos recursos naturais. Tais diretrizes convergem com a história vivida nos últimos 25 anos, por gerações inquietas com a falta de resposta humana e ambiental para os povos do Acre.

Conviver com indicadores sociais dolorosos, qualidade de vida urbana e rural precárias, destruição dos ambientes naturais de modo incoerente, parecia uma sina do viver amazônico Ocidental. É uma necessidade, e uma dívida da nação, uma política para os povos indígenas e outras populações tradicionais com ampla participação dessas comunidades que nunca tiveram a atenção e o direito elementar de serem ouvidas nas diretrizes de Estado que decidem o seu destino.

Forças desenvolvimentistas apontavam modelos de subsistência, ou arranjos econômicos deslocados da realidade com trágicas consequências regionais e, sobretudo, ataque aos ambientes naturais, como, expressados, por exemplo, nos movimentos migratórios, exploratórios e minerais.

Durante mais de cem anos o Acre alternou ciclos econômicos, sem substância socioambiental, prevalecendo traços dos modelos importados alheios ao imenso “jardim de Deus”, e grande patrimônio estratégico nacional que é a nossa região. Fizemos a travessia pouco científica dos ciclos da borracha e da castanha; mesmo que tenham sido tão úteis aos pressupostos da “Revolução Industrial” e, à grande aliança internacional tão necessitada da “Borracha Amazônica”.

Os anos 70 fizeram ecoar mata afora o grito de gerações que diziam não a esses modelos predatórios, mas sim ao que hoje chamam a grande agenda global do socioambientalismo com coerentes respostas econômicas.

Inserimos-nos lado a lado com experiências inovadoras, capazes de gerar curvas afirmativas dos indicadores de desenvolvimento e permitir a preservação do grande patrimônio estratégico natural, que é  o fundamento  para o desenvolvimento sustentável, a mudança do paradigma de vida e do futuro da região amazônica e do Brasil.

Afirmamos o valor das políticas públicas com credibilidade das instituições públicas, avanços sociais, respeito aos povos indígenas e tradicionais, infraestrutura aos eixos de desenvolvimento, manejo florestal com marcos regulatórios respeitados, zoneamento ecológico-econômico, criação do sistema de áreas naturais protegidas, gestão dos recursos hídricos, certificação dos produtos florestais, áreas econômicas especiais para exportação, incorporação de tecnologia para produção de frutas em escalas industriais, cadeias produtivas agroindustriais, de peixes e pequenos animais, tecnologia ao uso de atividades extensivas e tradicionais como a pecuária e o extrativismo vegetal.

Constituímos credibilidade junto aos organismos nacionais e internacionais para o fomento ao desenvolvimento, assim, triplicamos o PIB e alcançamos curvas auspiciosas para os indicadores sociais e econômicos, em 13 anos na construção do Desenvolvimento Sustentável como Política Pública no Estado.

O grande desafio do Acre, hoje, e pressupomos para a Amazônia, é uma agenda de desenvolvimento integrada, com clareza dos grandes eixos de desenvolvimento, direcionados para a Economia Verde, Saneamento Ambiental, Crédito, Infraestrutura Amazônica e, incentivos para Indústria que contemplem a valorização diferencial da produção e cadeia produtiva sustentável e inclusiva.

É urgente criar uma presença forte e articulação permanente do Governo Federal, com protagonismo do Ministério das Relações Exteriores e Ministério do Meio Ambiente, para umaAgenda Integrada de Desenvolvimento com os Estados da Amazônia Legal. O comprometimento do país com a Amazônia pressupõe estabelecer uma política externa protagonista no âmbito internacional que objetive maior cooperação com organismos internacionais de crédito, política comercial internacional e, sobretudo, a definição da Agenda internacional para Amazônia.

Na esteira do apoio e solidariedade sempre presente da presidência da Republica, na gestão do ex-presidente Lula e atualmente com nossa Presidenta Dilma, o Acre propõe como fortalecimento dessa ação integrada para Agenda nacional e internacional da região amazônica uma cooperação do Governo Federal, coordenada pelo Ministério das Relações Exteriores, Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Defesa.

A construção dessa Agenda para um diálogo permanente, conjuntamente com os Estados Federativos preconiza a criação de um Conselho de Desenvolvimento Sustentável para a Amazônia Legal, integrado ao Conselho Mundial de Desenvolvimento Sustentável. Essa é a modesta contribuição do Acre para a Rio+20.

Nesse contexto, destacamos comopontos importantes e prioritários para a Agenda Integrada de Desenvolvimento da Amazônia:

 Os desafios impostos pelo processo de mudanças climáticas globais exigem ações imediatas para a modificação de nossos padrões de consumo, a manutenção da biodiversidade e fontes alternativas de energia para estabelecer uma economia de baixo carbono, intensiva e sustentável que promova a manutenção dos produtos e serviços ecossistêmicos para as atuais e futuras gerações;

 Especial atenção deve ser dispensada ao desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação, como forma de traduzir a grande riqueza em biodiversidade e recursos naturais da região em produtos competitivos e de alto valor agregado, dinamizando a economia regional e contribuindo com a humanidade, principalmente na área de bioprospecção para produção de fármacos.

 A cooperação na área de fronteiriça pressupõe a necessidade de estratégias, planos de ação e mudança nos atuais sistemas de controle territorial dos Estados, de forma a inverter as condições de forte desigualdade social e alto nível de pobreza na região, além de potencializar o capital natural nas bases da economia local e regional e soluções para pressões internacionais sobre questões específicas, ligadas notadamente grupos indígenas, ribeirinhos e seringueiros.

 Formulação de uma política ambiental que vá além das estratégias de comando e controle, e potencialize o uso econômico dos recursos florestais e serviços ambientais, programas de infraestrutura e saneamento que atendam as especificidades da região, financiamento e incentivos direcionados para formação de ativos florestais e ambientais, ciência, tecnologia e inovação, qualificação para formação de capital humano, e mecanismos de inserção da Amazônia na economia global, principalmente, por meio de seus ativos ambientais.

 A diversidade cultural da Amazônia é um patrimônio de valor inestimável que serve de alicerce para qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável, que pressupõe valorizar as identidades e as expressões culturais dos povos da Amazônia; desenvolver programas de pesquisa e de preservação do patrimônio histórico e cultural, com especial atenção para os sítios arqueológicos; incluir conteúdo regionalizado sobre a diversidade cultural nos programas de ensino, em todos os níveis de formação;

 A Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) é um instrumento primordial para salvaguardar os direitos indígenas já conquistados e garantir a qualidade de vida, a soberania alimentar e a manutenção dos seus modos de vida tradicionais.

Belém – PA, 26 de março de 2012

Tião Viana

Governador do Estado do Acre

24 de fevereiro de 2012

Public Sector Economics

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 4:32 PM

Governança das Organizações do Setor Público
Ementa: Apresentação dos marcos teóricos da governança no setor público, compreendendo sua aplicação na gestão das organizações públicas e na gestão de políticas públicas.
Programa: Princípios de Governança no Setor Público; O Estado Rede e papel da governança – as contribuições da economia (teoria da agência), da ciência política (análise de stakeholders) e da administração (modelos de gestão e estrutura organizacional); Transparência, qualidade e informação nas organizações públicas; A intersetorialidade nas políticas públicas e a coordenação inter-organizacional. Mecanismos de articulação entre Estado e Sociedade. l
Bibliografia básica:
MOORE, Mark. Criando Valor Público. Brasília: Ed. Uniletras/ ENAP, 2002.
ROSSETI, José Paschoal; ANDRADE, Adriana de. Governança Corporativa: Fundamentos, Desenvolvimento e Tendências. São Paulo: Ed. Atlas. 2004;
STIGLITZ, Joseph. Mejorando la eficiencia y la capacidad de respuesta del sector publico: lecciones de la experiencia reciente. Reforma y Democracia, Revista del CLAD, n. 22, 2002

http://www.fea.usp.br/feaecon//posgraduacao.php?i=206

EAE5705 – Macroeconomia do Setor Público

EAE5829 – Economia do Setor Público

EAE5983 – Políticas Públicas

Especialização em Políticas Públicas IE

 

Agências reguladoras: basta vigiar e punir?
Autor(es): Floriano de Azevedo Marques Neto
Correio Braziliense – 27/02/2012

17 de dezembro de 2010

FPA COMPENSANDO XAPURI – FIM DO 3º GOVERNO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:05 AM

Obras e homenagens marcam a data do aniversário de Chico Mendes

Jornal Página 20 – 17-Dez-2010

Prêmio que leva o nome do líder seringueiro encerrou a programação da Semana Chico Mendes em Xapuri

Se Chico Mendes fosse vivo teria completado 66 anos no dia 15. Uma extensão programação foi montada em Xapuri para comemorar a data, encerrada com a entrega do Prêmio Chico Mendes. Este ano a cerimônia ocorreu dentro da Igreja de São Sebastião, que carrega um simbolismo na história do líder seringueiro.

Oito importantes obras foram entregues à população, incluindo um Centro de Assistência Social (CRAS), 28 unidades habitacionais e a ponte que liga o bairro Braga Sobrinho, também conhecido como Bolívia, ao centro da cidade. Este é o segundo ano que o Prêmio Chico Mendes, iniciativa que premia personalidades e instituições que tenham um trabalho que segue os ideais do líder seringueiro, acontece em Xapuri.

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  • Reforma da Fonte do Bosque e da ponte do bairro Bolívia
  • Complexo turístico do entorno da Casa de Chico Mendes (Memorial do Seringueiro, Café Regional e Casa do Artesão)
  • Reforma do Ginásio Álvaro da Silva Mota
  • Iluminação do Estádio de Futebol
  • Reforma do CRAS
  • Fábrica de Bolas Ecológicas
  • Núcleo de Artesanato e Oficina Entalhe em Madeira
  • 28 Unidades habitacionais

(Agência de Notícias do Acre)

25 de novembro de 2010

POLO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL – XAPURI

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 3:16 AM

Xapuri será Polo do Conhecimento Sustentável no Brasil

Qua, 24 de Novembro de 2010 14:17 Agazeta

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Xapuri se tornará um município polo do conhecimento sustentável. O Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (CATIE), instituição internacional de estudo com sede na Costa Rica, implantou oficialmente nesta terça-feira, 24, seu escritório técnico nacional naquele município, cujo prefeito, Bira Vasconcelos, assinou o decreto número 42/2010 criando o Polo de Conhecimento de Xapuri. Além disso, o governador Binho Marques encaminhou à Assembleia Legislativa a mensagem do projeto de lei que cria o Programa Estadual de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável.

 A cerimônia, parte da programação do Seminário Desenvolvimento Sustentável nas Florestas Tropicais, foi realizada no auditório da Biblioteca Pública do Acre. Entre outros, são instituições membros do programa o Banco de Cooperação Alemã (GTZ); Associação Brasileira de Sorvetes; Institute os Soil Science and Site Ecology – Dresden University of Technology; Center For Sustainable Resource Development; CIAT (agência da Colômbia); e Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE). 
Participaram do ato o presidente da Assembleia Legislativa, Edvaldo Magalhães; o prefeito de Xapuri, Bira Vasconcelos; a reitora da Universidade Federal do Acre, Olinda Batista; Helmuth Eger, diretor do GTZ Brasil; além de secretários estaduais, estudantes, ativistas socioambientais e pesquisadores nacionais e internacionais. “Avaliamos dois fatos neste evento: primeiro é um marco para o Acre e para o Brasil a organização do conhecimento e, depois, faz parte de um sonho, o sonho de Chico Mendes.

O CATIE é uma instituição internacional cuja missão é de reduzir a pobreza rural por meio da educação, pesquisa e cooperação técnica, além de promover a gestão sustentável da agricultura e recursos naturais. “Estar aqui é uma oportunidade muito grande. Quando o governador esteve na Costa Rica e falou de uma Nova Economia, baseada em baixo carbono e alta inclusividade eu disse: esta é a proposta do Catie”, disse José Joaquím Campos Arce, diretor geral do CATIE, resumindo a interatividade das propostas do Acre e de sua instituição.

O governador Binho Marques esteve na sede do CATIE em maio passado, onde deu importantes passos para a instalação do escritório da organização em solo brasileiro. O Catie estabelece no Acre formando uma capacidade de recursos humanos essencial ao projeto de desenvolvimento sustentável que ao mesmo faz com que o Estado tenha maior distribuição de riqueza preservando o ambiente. O CATIE agrega empreendedorismo às questões da sustentabilidade no Acre. O governador sintetizou os resultados dos 12 anos de governo da Frente Popular: “estamos concluindo esse período de três governos com realizações que nós mesmos não imaginávamos”.

Antigo parceiro do Acre, o GTZ se mantém como grande colaborador do trabalho desenvolvido no Estado. “O desenvolvimento do Acre nos últimos anos é mais que a concretização de um sonho. É um exemplo de implementação de políticas públicas”, observou Helmuth Eger, diretor do GTZ no Brasil.

“O que começou como sonho termina como marco institucional.
Eufran Amaral, secretário de Estado do Meio Ambiente, sobre o conjunto de leis e ações da política de sustentabilidade no Acre

A grande aliança em favor da sustentabilidade
A Costa Rica é o país-sede do CATIE, que tem 13 outras nações como membros. O país desenvolveu instrumentos que ao mesmo tempo valorizam, mantêm e geram renda a partir de sua biodiversidade e do conhecimento acerca dela. A Costa Rica chegou a ter apenas 20% de suas florestas, mas trabalhou para recuperá-la e hoje tem mais de 50%, projetando chegar a 60% em breve. 
O CATIE combina a ciência, a pós-graduação e de cooperação técnica para alcançar essa meta. Instituição sem fins lucrativos, o CATIE gera renda e recebe contribuições de países membros para financiar parcialmente suas atividades para cumprir a sua investigação, educação e sensibilização da comunidade. Ele também tem o apoio de patrocinadores e doadores de vários países que se comprometeram a cumprir a sua missão.

No ato desta terça-feira, a instituição também assinou acordo de cooperação técnica com a Ufac. O documento foi firmado entre Olinda Batista e José Joaquín Campos Arce.  “A Ufac segue avançando em suas propostas e desafios”, resumiu a reitora, agradecendo ao esforço do Governo do Estado no fortalecimento da universidade pública.

O que é o Programa de Promoção e Fomento do Conhecimento Sustentável?
O Programa Estadual de Promoção e Fomento do Conhecimento Sustentável será implantado pela Secretaria de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia. Prioritariamente, o programa será concretizado através do Polo de Conhecimento de Xapuri, instituído pelo projeto de lei encaminhado à Aleac como uma unidade territorial integradora do conjunto de ações de promoção e fomento às atividades voltadas para o conhecimento, seja de ensino, formação, pesquisa ou desenvolvimento tecnológico no Estado do Acre.  O programa está baseado nos seguintes princípios: 1) uso dos recursos naturais com responsabilidade e conhecimento técnico para proteção e integridade do sistema climático em benefício das presentes e futuras gerações; 2) desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias orientadas para o uso racional dos recursos ambientais; difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente, divulgação de dados e informações ambientais e formação de uma consciência pública sobre a necessidade  de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico.     
A manutenção do programa se dará também  pela captação de recursos junto aos Fundos de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e de Florestas. O programa prevê renúncia de impostos para atividades de estudo e pesquisas em Xapuri. “Queremos transformar uma região rica em alternativa de desenvolvimento sustentável”, disse o governador Binho Marques. (Agência Acre)

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Xapuri se consolida como pólo de conhecimento Imprimir E-mail
Escrito por Edmilson Ferreira   
14-Dez-2010
Instituto Federal de Educação Profissional amplia rede e garante campus com cursos técnicos e de nível superior em Xapuri
Parceria entre as três esferas de Governo – federal, estadual e municipal – faz Xapuri seguir se consolidando como pólo do conhecimento na região Norte. Em reunião com o governador Binho Marques e o prefeito de Xapuri, Bira Vasconcelos,  o secretário nacional de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação, Eliezer Pacheco,  assegurou a implantação do Campus Avançado de Xapuri do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre  (Ifac), que já em 2011 estará ofertando 80 vagas de nível superior em Ciências da Natureza e de Gestão Ambiental, além   de ampliar a oferta de cursos técnicos possivelmente com o ensino médio integrado.  

“Queremos fazer daquele município um ambiente do conhecimento”, disse o governador, lembrando que grandes passos foram dados nessa direção: o  Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (CATIE), instituição internacional de estudo com sede na Costa Rica, implantou oficialmente este mês  seu escritório técnico nacional naquele município, e o prefeito  Bira Vasconcelos  decretou a criação do  Polo de Conhecimento de Xapuri. Além disso, Universidade de Brasília (UnB e Universidade Federal do Acre (Ufac) mantém cursos de graduação e especialização. Os cursos são voltados ao desenvolvimento sustentável.

Na base do acordo está a transferência de uma escola estadual para o MEC implantar o campus do Ifac. O encontro foi realizado no Gabinete do Governador e estiveram presentes assessores do MEC e o diretor-presidente do Instituto Dom Moacyr de Educação Profissional, Irailton Lima. Ainda no começo de dezembro, o governador Binho Marques pediu a aprovação do  Programa Estadual de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável, que prioritariamente  será concretizado através do Polo de Conhecimento de Xapuri, instituído pelo projeto de lei encaminhado à Assembleia Legislativa  como uma unidade territorial integradora do conjunto de ações de promoção e fomento às atividades voltadas para o conhecimento, seja de ensino, formação, pesquisa ou desenvolvimento tecnológico no Estado do Acre.  O programa está baseado nos seguintes princípios: 1) uso dos recursos naturais com responsabilidade e conhecimento técnico para proteção e integridade do sistema climático em benefício das presentes e futuras gerações; 2) desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias orientadas para o uso racional dos recursos ambientais; difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente, divulgação de dados e informações ambientais e formação de uma consciência pública sobre a necessidade  de preservação da qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico.    

A manutenção do programa se dará também  pela captação de recursos junto aos Fundos de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e de Florestas. O programa prevê renúncia de impostos para atividades de estudo e pesquisas em Xapuri. “Buscamos  atender a sociedade acreana com ensino técnico e superior neste próximo ano em Rio Branco, Sena Madureira e Cruzeiro do Sul também, e em Xapuri as condições são ainda mais especiais, pois atualmente não há nenhum curso superior na região que atenda a demanda de formação dos jovens. Com mais esta parceria com o Governo do Estado, ofereceremos neste primeiro semestre de 2011, o tecnólogo em Gestão Ambiental e mais uma licenciatura”, afirmou o reitor do Ifac, Marcelo Minghelli, lembrando que a demanda pelos cursos superiores veio da socieadade. “É mais um presente que o Governo Federal e o governador BInho Marques dá ao povo de Xapuri”, comemorou o prefeito Bira Vasconcelos.  

No encontro  com o governador, o reitor do Ifac reforçou a proposta de manter a ampliação das atividades dialogando verticalmente e harmonicamente com os atores institucionais do Estado. Entre outras ações, existe a proposta de realização de um  fórum no início do próximo ano para discutir com a sociedade a expansão do Ifac,  criando, por exemplo,  o Núcleo de Certificação, mais dois campus  e a escola binacional.

Eliezer Pacheco, acompanhou  Marcelo Minghelli  em visita técnica as obras do campus Rio Branco no bairro Xavier Maia.  Pacheco prestou esclarecimentos públicos sobre investimento na educação técnica e profissional, oferta de cursos técnicos e superiores gratuitos para a população do Acre e  construção  de núcleos em Cruzeiro do Sul,  Xapuri e Rio Branco. “A partir de agora podemos garantir já para 2011 dois cursos importantes que certamente irão favorecer muito a comunidade de Xapuri”, reafirmou Pacheco.

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23 de novembro de 2010

TIÃO VIANA

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 4:06 PM
já tem vários nomes para integrar sua equipe
23/11/2010 14:28
Apesar do clima de mistério, nossa reportagem conseguiu informações de alguns nomes que poderão assumir cargos importantes no Governo do Acre.
Wânia Pinheiro, da Agência ContilNet
O professor Rego comanda a equipe de transição
O professor Rego comanda a equipe de transição

O terceiro andar do prédio do Mira Shoping, que abriga a equipe que trabalha a transição do futuro governo do senador Tião Viana (PT) apresentou um aumento em sua movimentação durante esta semana.

Na ampla sala, dividida por vários módulos, dezenas de pessoas trabalham em mesas provisórias, abrindo espaços para diálogos reservados, cujo objetivo é o de definir de forma plural e ao mesmo tempo discreta o grupo que comandará o quarto mandato da Frente Popular do Acre (FPA) frente ao Governo do Estado. …SEGUE

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GOVERNO TIÃO

Começa a transição

Escrito por Da redação

04-Nov-2010 – Jornal Pagina 20
Tião Viana e Binho Marques preparam equipes que vão formular plano do próximo governo
O governador eleito Tião Viana e o governador atual, Binho Marques, acabam de pôr em marcha o processo de transição entre o governo que se encerra em 31 de dezembro e o que toma posse em 1º de janeiro de 2011. Os nomes dos futuros secretários e assessores do próximo governo só serão de fato conhecidos no dia 18 de dezembro, um dia após a diplomação pela Justiça Eleitoral dos eleitos em 3 de outubro, anunciou o próprio Tião Viana. Até aqui, apenas o professor José Fernandes do Rego, ex-vice-governador do Estado (governo Joaquim Macedo) e um dos técnicos de confiança da Frente Popular do Acre (FPA), foi anunciado pelo governador eleito. Ele será o coordenador da equipe de transição e de formação do plano de governo a ser executado até 2014.

 

 

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20 de novembro de 2010

ACRE x BNDES

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:08 PM

Binho assina contrato de R$ 70 milhões com BNDES para fortalecer ações ambientais no Acre

Da Agência de Notícias do Acre ; Sáb, 20 de Novembro de 2010 09:30

O governador Binho Marques e dirigentes do BNDES assinaram nesta sexta-feira, 19, contrato que destina R$ 70 milhões para um projeto de fortalecimento das ações ambientais no Estado, com recursos provenientes do Fundo Amazônia. São R$ 60 milhões do BNDES e R$ 10 milhões de contrapartida do governo acreano.

A assinatura ocorreu em Brasília, com a presença de secretários de estado e assessores. Pelo BNDES, participou o diretor das áreas de Inclusão Social e de Crédito, Elvio Gaspar.
Os recursos, não reembolsáveis, irão para o projeto Valorização do Ativo Ambiental Florestal. O objetivo da iniciativa, com duração de 36 meses, é fortalecer e ampliar a atual política pública estadual de valorização do ativo ambiental por meio da gestão territorial integrada, de ações de fomento às cadeias produtivas florestais e agroflorestais e de incentivo técnico e financeiro aos serviços ambientais.

“Não estamos criando um projeto novo, mas fortalecendo o que já existe. O futuro governador Tião Viana poderá dar continuidade à esses projetos que começaram em 1999. Fico feliz em saber que uma instituição sólida como o BNDES vê no Acre uma referência”, afirmou o governador Binho Marques. “Dizemos aos outros estados que só financiamos projetos que tenham um bom planejamento e que eles podem aprender muito com o Acre”, ressaltou Elvio Gaspar.

O Estado do Acre é considerado modelo na promoção de políticas para o desenvolvimento sustentável e para a implementação de atividades produtivas alinhadas com a conservação da floresta. O projeto, que complementa uma série de ações integradas e articuladas entre diversos órgãos do governo estadual e outras instituições parceiras, está estruturado em dois grandes blocos de atuação independentes.

No primeiro deles, o foco é a consolidação da estratégia de gestão territorial fundamentada no Zoneamento Ecológico-Econômico. Entre as ações previstas estão: fortalecimento do Instituto de Meio Ambiente do Acre e da Secretaria Estadual de Florestas; modernização da Unidade Central de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto (UCEGEO); e elaboração de Planos de Prevenção e Controle de Desmatamento e Queimadas Municipais, a ser realizado em parceria com as prefeituras.

O segundo componente do projeto prevê ações de fomento às cadeias produtivas florestais e agroflorestais para a redução do desmatamento e de incentivos aos serviços ambientais em duas áreas definidas como prioritárias pelo governo, por sofrerem influência direta das obras da rodovia BR-364 (que liga a capital, Rio Branco, à cidade de Cruzeiro do Sul).

Com  2,1 milhões de hectares – sendo 895 mil no município de Tarauacá (Área 1) e 1,2 milhões nos municípios de Feijó e Manuel Urbano (Área 2) -, essas duas áreas envolvem 10 cooperativas de manejadores florestais e de pequenos agricultores, além de três associações indígenas. Aproximadamente 12 mil pessoas serão beneficiadas.

O foco nas pequenas propriedades é resultado da dinâmica de desmatamento registrada atualmente no Acre. Apesar da queda contínua dos últimos anos – houve redução de 72% entre 2005 e 2009, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) – há uma crescente participação dos desmatamentos em áreas inferiores a 5 hectares, que correspondem a cerca de 60% dos polígonos de desmatamento. Do desmatamento total do Estado até 2009, 35% ocorreu em projetos de assentamento, que concentra metade da população rural do Estado.

Um laboratório para seleção de mudas florestais e frutíferas também deverá ser criado, aperfeiçoando a eficácia de plantio e dando escala para atender ao crescimento da demanda. Cabe ressaltar que a produção florestal do Acre (madeireira e não madeireira) é a atividade econômica mais importante do Estado, responsável por 16,8% do valor bruto da produção, enquanto que a agropecuária participa com 4,8%. A floresta da região possui uma variedade de produtos demandados pelas indústrias cosmética, alimentícia e farmacêutica, entre eles açaí, copaíba, unha-de-gato, andiroba e buriti.

“Esse projeto permite que não sejam apenas investimentos em fiscalização, mas em alternativas de produção sustentável”, salienta Binho Marques. “O Acre está trilhando um caminho de sucesso. Temos como exemplo a sanção da Lei que cria o Sistema de Informações Ambientais (SISA) e o ato de hoje mostrou que nosso estado está no rumo certo”, afirmou o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Edvaldo Magalhães, que também esteve presente na ocasião.

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Assinatura do contrato garante novos investimentos no Acre (Foto:
 
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Binho entrega O Casarão revitalizado ao povo do Acre

Sáb, 11 de Dezembro de 2010 20:07 Agazeta
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O Governo do Estado investiu R$ 834.805,36, sendo que R$ 256.583,50 são recursos do Governo Federal, obtidos através de emenda parlamentar proposta pela deputada Perpétua Almeida; R$ 75.672,19 do BNDES e R$ 502.549,67 do Tesouro Estadual.
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19 de novembro de 2010

JOSÉ FERNANDES DO RÊGO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 7:01 AM

A MISSÃO, LA MISIÓN, LA MISSIONE, THE MISSON

Link

 

 

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13 de novembro de 2010

INFRAESTRUTURA ACRE

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:15 PM
Federações das Indústrias da Amazônia Legal promovem revolução logística Imprimir E-mail
Escrito por   
13-Nov-2010 jornal página 20
Resultado do Projeto Norte Competitivo sobre a infraestrutura logística da região é apresentado para empresários e autoridadesA implantação de uma infraestrutura logística, englobando todos os modais de transportes (ferrovias, hidrovias, rodovias e portos), é uma das maiores demandas do setor produtivo brasileiro e será um dos grandes desafios do próximo governo. Pela primeira vez, surge um estudo aprofundado, o Projeto Norte Competitivo, indicando quais são os eixos de integração de transportes e quais as obras prioritárias demandadas. O estudo, que demandou mais de um ano, foi encomendado à consultoria Macrologística pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio da Ação Pró-Amazônia, que engloba as Federações das Indústrias dos nove Estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins).O resultado deste levantamento e a real situação da infraestrutura logística da região foi apresentado a autoridades e classe empresarial local, na noite de quinta-feira, 11, no auditório da Federação das Indústrias do Estado do Acre (FIEAC), pelo diretor da Macrologística, Olivier Girard. “Estamos começando a apresentação pelo Estado do Acre, vocês estão recebendo os resultados em primeira mão”, destacou Girard. Além de expoentes do setor produtivo, estiveram presentes os senadores eleitos, Jorge Viana e Sérgio Oliveira (Petecão), deputados, prefeito Raimundo Angelim e secretários de Estado. Trata-se de um estudo único, que analisa a complexa realidade socioambiental e geográfica da região e propõe a implementação de uma infraestrutura de transporte – baseada em eixos de desenvolvimento – que forme um sistema de logística integrado, sem fronteiras estaduais, e intermodal, privilegiando aqueles de menor custo.PROJETO Norte Competitivo indica eixos de integração de transportes e obras prioritárias para a região “Esta iniciativa é de fundamental importância para o crescimento do setor produtivo do nosso Estado, da nossa região e até mesmo dos países vizinhos”, acredita João Francisco Salomão, presidente da FIEAC. “Vocês estão de parabéns pelo projeto, que é de suma importância e um momento oportuno”, elogiou Gilberto Siqueira, secretário de Estado de Planejamento. “Este é um trabalho muito bonito”, endossou George Pinheiro, presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado do Acre (Federacre).

O Projeto Norte Competitivo aponta quais são os nove eixos de integração prioritários que permitirão reduzir os custos logísticos da Amazônia Legal, aumentando a competitividade da região. Para viabilizar o desenvolvimento desses eixos principais, são necessários investimentos da ordem de R$ 14,1 bilhões. A estimativa de economia no custo de logística total da Amazônia Legal, que atualmente está em R$ 17 bilhões e que chegará em R$ 33,5 bilhões com o volume de produção previsto para 2020, alcançará R$ 3,8 bilhões anuais. Ou seja, o investimento total previsto se pagaria em menos de quatro anos com as economias obtidas.

“Outro ponto fundamental é que obtivemos a união de todas as Federações das Indústrias da região. Não tenho dúvidas de que esse projeto vai revolucionar a logística não só da região como de todo o país. Precisamos unir esforços para trazer desenvolvimento sustentável para a Amazônia Legal e, por consequência, para o Brasil”, afirma José Conrado Santos, vice-coordenador da Ação Pró-Amazônia e presidente da Federação das Indústrias do Pará (Fiepa). O dirigente lembra também que o Projeto Norte Competitivo recebeu total respaldo da CNI, presidida por Robson Braga de Andrade, também pelo potencial de integração nacional, já que as análises levaram em consideração eixos de transportes nacionais e internacionais (saída pelo Oceano Pacífico e pelo Caribe).

De acordo com o engenheiro Renato Pavan, sócio da Macrologística, que já desenvolveu projetos similares para Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, além de Santa Catarina, a estratégia foi identificar os sistemas de logística de menor custo, compostos por grandes eixos de transporte intermodais que pudessem tornar a Amazônia Legal mais competitiva. “Mapeamos as 16 principais cadeias produtivas, responsáveis por 95% da produção local e 98% de tudo o que é exportado ou importado pela região, e também projetamos o aumento da produção até 2020. A situação hoje já é ruim. Temos que investir fortemente em infraestrutura para suportar o crescimento da produção até 2020 e também nos tornarmos mais competitivos, por meio da redução do custo”, explica. A análise das cadeias produtivas englobou mais de 50 produtos diferentes, que foram mapeados e projetados em âmbito municipal e para os quais foram feitas matrizes origem-destino, já que isso influencia no custo de transporte.

Uma equipe de mais de dez pessoas trabalhou em tempo integral no levantamento completo da atual infraestrutura da Amazônia Legal. Portos, aeroportos, armazéns, hidrovias, ferrovias, dutovias e rodovias de uma região quase do tamanho da Europa foram mapeados e tiveram suas condições de uso analisadas, com a identificação das obras necessárias para modernização e ampliação. “Chegamos a 151 obras necessárias: 112 em eixos no Brasil e 39 em eixos internacionais. Para realizar todas essas obras, seriam necessários R$ 51,8 bilhões, dos quais R$ 45,8 bilhões em território nacional. O país não tem condições de investir esses recursos de uma só vez. Por isso, é preciso priorizar os projetos estruturantes com base em uma análise sistêmica dos fluxos de transporte”, comenta Olivier Girard, sócio da Macrologística e responsável direto pelo projeto. Assim, foi possível identificar quais eram os principais gaps de infraestrutura, que necessitariam de investimentos prioritários.

Principais rotas de escoamento

Identificados os locais de produção, os tipos de produtos e o destino final, foi possível traçar as principais rotas de escoamento. Nessa etapa, um modelo otimizador desenvolvido especialmente para o projeto identificou os eixos de transportes mais eficientes (mais rápidos e baratos). Esse software analisou 32 origens, 38 destinos e 33 diferentes tipos de produtos que se utilizam de uma malha logística composta por 932 rotas de ligação entre as diferentes origens e destinos. Foram também imputados parâmetros de custos de frete interno, transbordo, tarifas portuárias e frete marítimo para todo o tipo de transporte (hidro, ferro, aéreo, rodo, portos, aeroportos) e carga (granel agrícola, granel mineral, carga geral, granel líquido, contêineres).

Assim, foram identificados 42 eixos de integração de transporte, incluindo 13 eixos internacionais. Cada um deles teve sua competitividade analisada. Desse total, 32 geraram economias significativas. A hidrovia Juruena/Tapajós, por exemplo, foi a que apresentou maior potencial de redução no custo logístico, tanto com o volume de produção de 2008 (economia anual de R$ 921 milhões) quanto na projeção para 2020 (R$ 1,857 bilhão). 

A partir das informações dos eixos de transporte mais eficientes e também das obras necessárias para a modernização/implementação/ampliação desses corredores intermodais, passou-se à próxima etapa, que colocou uma variável fundamental: o custo das obras, para encontrar o retorno sobre o investimento. Levou-se em consideração também o estágio atual das construções. Algumas precisariam começar do zero. Em outras já foram feitos investimentos.

Quando se fala de infraestrutura, no entanto, não é possível analisar somente questões financeiras. Impacto no meio ambiente, ainda mais em uma região tão importante quanto a Amazônia, possibilidade de integração regional e potencial de desenvolvimento socioeconômico também foram levados em consideração. Cada uma dessas mais de 150 obras de infraestrutura listadas ganhou notas conceituais após o estudo dos impactos ambientais, dos benefícios sociais, da integração regional e do potencial de geração de empregos e tributos. Eficiência gera menos impacto no meio ambiente. A relação de emissão de monóxido de carbono é de 1 para hidrovia, 10 para ferrovia e 50 para rodovia. Como, nos dias de hoje, o transporte da produção da região é realizado, em grande parte, por rodovias precárias, sem qualquer condição de uso, o aprimoramento do sistema de transporte vai automaticamente se traduzir na mitigação do impacto ambiental, com o tratamento adequado de todos os problemas.

Com dados sobre retorno de investimento e também de impacto socioambiental, foi desenhada uma matriz de priorização dos investimentos para essas obras, seguindo a lógica econômica de atratividade para o investidor privado e as diferentes modelagens de financiamento: serem financiadas pelo poder público, pela iniciativa privada ou mesmo a partir do modelo de Parceria Público-Privada (PPP), administrativa ou patrocinada. “Temos que acordar para a urgência dos investimentos em infraestrutura. Somos um dos países mais competitivos do mundo em diversos produtos. No entanto, basta sair da fábrica ou da fazenda e já começamos a perder competitividade”, afirma Olivier Girard.

O Projeto Norte Competitivo passa agora à fase de implantação, com a criação de uma força-tarefa com dedicação plena, formada por um grupo multidisciplinar, que elaborará e implementará um Plano de Ação conjunto. Isso tem como objetivo implantar os projetos, com cronograma e responsabilidades bem definidas, possibilitando a mobilização dos atores envolvidos – sejam os governos estaduais e federal, bancadas estaduais e federais, organismos estaduais e federais, na iniciativa privada envolvida, organizações não-governamentais e universidades. No curto prazo, elegeu-se uma lista de 34 projetos, totalizando R$ 6,8 bilhões em investimentos, que passarão a ser foco da força-tarefa a ser criada nos próximos meses. (Assessoria Fieac)

 

IBGE: PIB acreano registra 7º maior crescimento do país Imprimir E-mail
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19-Nov-2010 Jornal Página 20
Contas Regionais confirmam a solidez da economia acreanaO Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou na quarta-feira, 17, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados, tendo 2008 como ano de referência, confirmando a grande evolução econômica do Estado na última década. Com crescimento de 6,9% em termos reais – superior à média nacional de 5,2% -, o Acre registrou o segundo melhor desempenho da Região Norte e o sétimo do Brasil. Apresentando PIB de R$ 6,73 milhões (0,2% do PIB brasileiro) em 2008 contra R$ 5,76 milhões em 2007, o Estado encontra-se na 26ª posição no ranking em 2008. Na série 2002-2008, apresentou o quarto maior crescimento em volume (44,1%). “O Acre é pelo segundo ano consecutivo o sétimo do país”, confirmou Cláudia Saldanha, do Departamento de Estatística da Secretaria de Estado do Planejamento.

PRODUÇÃO de milho e mandioca impulsionou crescimento do PIB acreano
PRODUÇÃO de milho e mandioca impulsionou crescimento do PIB acreano

O PIB per capita acreano foi de R$ 9.896 em 2008 contra R$ 8.789 no ano anterior, mantendo o Estado na 17º posição do ranking nacional pelo segundo ano consecutivo. A maioria dos setores econômicos apresentou crescimento substancial do PIB no período: com taxa de crescimento do volume de 14,7%, a agropecuária foi responsável por 18,6% do valor adicionado do Estado em 2008. A atividade cultivo de outros produtos da lavoura temporária representa aproximadamente 50% do valor da produção agropecuária acreana, com destaque para o aumento da produção da mandioca, que cresceu 19%. Contribuíram ainda para o bom desempenho da agropecuária em 2008, o aumento da produção de milho (8%) e da atividade criação de aves (35%).

A indústria teve 12,4% de participação do valor adicionado do Estado em 2008, e seu crescimento em volume foi de 5,8%. A indústria acreana foi impulsionada pela construção civil que expandiu 6,9% e aumentou de 54% sua participação em 2007 para 60% em 2008 no valor total do setor. As outras atividades que colaboraram para o incremento foram a indústria de transformação com expansão de 4,8% e participação na indústria total de 27,3%; e, o crescimento obtido pelos serviços industriais de utilidade pública (4,3%).

PRODUÇÃO de milho e mandioca impulsionou crescimento do PIB acreano

 O setor de serviços cresceu 4,8% em 2008 em relação ao ano anterior. As atividades que mais impulsionaram o setor de serviços foram o comércio e serviços de manutenção e reparação que expandiu 8,1% e respondeu por 20,1% dos serviços; e a administração, saúde e educação públicas e seguridade social que cresceu 2,6% em 2008, com participação no valor adicionado do Estado de 33,4%.

No geral, Piauí foi o Estado que teve o maior crescimento real do PIB em 2008 (8,8%), embora tenha mantido uma participação relativamente baixa no PIB nacional (0,6%). O crescimento se deveu, em grande parte, aos resultados positivos da agricultura, cujo volume de 62,1% foi incrementado pela cultura de soja.

Norte vem ganhando posições e Acre segue avançando na região

Os dados apontados pelas Contas Regionais do Brasil 2004-2008, que revelaram, ainda, que a região Sudeste continua perdendo participação no PIB. A perda foi de 0,4%, um recuo em relação a 2007. Em seis anos, a queda foi de 0,7%. Já o Sul, apesar do decréscimo de 0,3% nos últimos seis anos, manteve a mesma participação em relação ao ano anterior, cerca de 16,6%. As demais regiões vêm ganhando participação desde 2002.

Apesar disso, a concentração ainda é forte no Brasil, já que, em 2008, oito Estados detinham quase 80% do PIB nacional. Naquele ano, a participação de São Paulo era da ordem de 33%, mas esta apresenta tendência de queda desde 1995, quando era de 37%. Mesmo assim, o estado registrou PIB recorde, ultrapassando pela primeira vez a marca de R$ 1 trilhão. Desde o início da série, os seis primeiros colocados no ranking não mudavam de posição. Porém, em 2008 Santa Catarina ultrapassou a Bahia, ficando com a sexta posição. As regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste vêm ganhando participação no PIB desde 2002. As duas primeiras avançaram, cada uma, 0,4% no período, enquanto a última cresceu 0,1%. Sul e Sudeste perderam 0,3% e 0,7% de participação, respectivamente. (Agência de Notícias do Acre)

 

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26 de dezembro de 2009

Falando sobre YouTube – Bengt Ake Lundvall

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 1:23 AM

Bengt-Åke Lundvall as EU ambassador for Creativity and Innovation

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 1:00 AM

28 de julho de 2009

COMISSÃO STIGLITZ-SEN-FITOUSSI – PIB

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 5:12 PM

 

Comissão sobre as medidas do desempenho econômico e progresso social
(Relatório provisório, em inglês) – Link http://www.stiglitz-sen-fitoussi.fr/documents/draft_summary.pdf
J. Stiglitz, A. Sen e J-P. Fitoussi / Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress  Junho 2009

Comentário por Ladislau Dowbor – 17/06/2009

O documento provisório elaborado pela Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress, sob a coordenação de J. Stiglitz, A. Sen e J-P Fitoussi, não renova o debate, limita-se essencialmente a sistematizar as principais metodologias existentes, com pouco a acrescentar em termos propositivos. No entanto, com o impacto que está tendo, traz à tona uma série de visões que há tempo vêm sendo apontadas por pesquisadores cansados das simplificações e êrros técnicos do PIB, e as coloca na mesa de discussões com grande visibilidade. Isto só já ajuda bastante.

As equipes trabalharam de maneira bastante clássica, dividindo as tarefas em torno de 1)avaliação dos processos econômicos; 2) metodologias na área social; 3) metodologias na área ambiental. O relatório, em consequência, está constituído em tres partes, com fragil articulação, coisa que deverá ser enfrentada nas conclusões, ainda ausentes neste relatório provisório. Qualidade importante, o relatório é perfeitamente legível por não especialistas, e afirma claramente que as contas nacionais e os indicadores correspondentes devem justamente ser compreensíveis para ter os impactos de reorientação de rumos que se deseja.

Em termos de enfrentamento das deficiências do próprio PIB, há cinco propostas: 1) resgatar dimensões das contas nacionais que representam melhor os interesses da sociedade, em particular a renda nacional disponível líquida (net national disposable income), o que desagregado para a perspectiva domiciliar permite avaliar melhor o impacto econômico para a sociedade; 2) trazer à tona setores produtivos hoje centrais como a educação e a saúde; 3) assegurar a centralidade da renda domiciliar de forma a dar visibilidade às condições de vida; 4) assegurar uma contabilidade que reflita efetivamente a distribuição, de forma a dar visibilidade à desigualdade de renda e riqueza; 5) resgatar as atividades que não pertencem à economia de mercado.(8)
Não tem o mínimo sentido fazer resumos aqui, apenas salientaremos alguns conceitos que vale a pena acompanhar:

• Há uma clara consciência da dimensão estrutural da revisão necessária nas nossas estatísticas: “O nosso aparelho estatístico, que talvez tenha nos servido num passado não muito distante, está carecendo de sérias revisões” (3)
• Não se pode reduzir tudo a um denominador comum monetário: precisamos sim da avaliação em dinheiro, mas combinada com outras unidades de medida. Resgata-se a importância da unidade de território (hectares) por exemplo para a pegada ecológica; da unidade de tempo (horas) por exemplo para lazer; das unidades físicas para um conjunto de fatores de difícil representação monetária. Reduzir os processos complexos modernos a uma unidade só, o dinheiro, e uma cifra só, o PIB, simplesmente não é sério.
• A educação e outras áreas sociais deixam de ser vistos como “consumo”, ou “gasto”, para serem classificadas como investimento no capital humano, ou como atividades produtivas “production activities”. (75) (8)
• Há uma forte guinada para valorizar o domicílio (household perspective) como unidade básica de avaliação, o que traz à tona tanto as questões sociais, como a dimensão de qualidade de vida dos problemas ambientais. (18)
• Há uma clara crítica das médias, evoluindo a contabilização formal da questão chave que é a desigualdade de renda e de riqueza. (27)
• Aponta-se para a provável necessidade de uma conta chave, e outras assessórias (core and satellite accounts).
• O tempo passa a ser visto como um valor importante (para as pessoas, e não só para as empresas), calculado a partir das horas de tempo livre das pessoas em idade ativa multiplicado pelo valor da hora de trabalho médio na economia. (We multiply the average leisure time per day by the working age population and by the average wage rate in the economy). (33, 48)
• O trabalho doméstico não remunerado passa a ser incluído, ainda que o relatório não apresente opções quanto à metodologia. O relatório apresenta sim avaliações existentes, que representaram por exemplo 35% do PIB na França, e 30% nos EUA. (32)
• A importância das conexões sociais (social connections), numa definição próxima da do capital social, traz à tona o fato que a riqueza do convívio é essencial para a nossa qualidade de vida. (51)
• Independentemente das propostas propriamente ligadas à sustentabilidade ambiental do ponto de vista da sobrevivência do planeta, há uma forte percepção da importância da qualidade do meio ambiente para a nossa própria qualidade de vida. (52, 53)
• Nas contas da sustentabilidade ambiental em geral, avalia-se metodologias diversificadas para a avaliação monetária (pricing)dos produtos retirados da natureza (natural assets), e para a avaliação monetária da degradação ambiental (poluição e semelhantes) (73, 77)
• Há uma clara tendência para a utilização de uma forma mais sofisticada da metodologia de poupança líquida ajustada (Adjusted Net Savings, ANS) desenvolvida pelo Banco Mundial, como forma de incluir nas contas o consumo de recursos naturais. (A exploração de petróleo, por exemplo, passa a ser vista como descapitalização de um país, a ser balanceada com eventuais investimentos que compensam a riqueza retirada). (76, 78)
• O conceito de estoque constante de riqueza (constant stock of wealth) é interessante, pois introduz o balanço entre a riqueza que temos hoje e a que entregaremos às futuras gerações.
• O conceito de pegada ecológica é apresentado como fundamental, com recomendações no sentido de se valorizar as pegadas específicas, como a pegada de carbono (carbon footprint)que permite avaliações mais precisas. (79). O relatório nos lembra o evidente: o planeta tem 12,2 bilhões de hectares de área útil, ou seja, 1,8 ha. por habitante. O europeu usa 4,9 há. por pessoa, o americano 10. Há pessoas claramente mais espaçosas que outras. (79)
• Enfim, o relatório traz dimensões “transversais”, que nos obrigam a pensar de forma integrada os diversos processos. É o caso da desigualdade de gênero e racial, dos impactos cumulativos em termos de exclusão (nascer pobre e sem acesso à educação), e das dimensões supranacionais que tornam comparações entre países frequentemente limitadas.

Salientamos aqui de maneira pouco sistemática alguns pontos que nos pareceram relevantes. É evidente que se trata de um processo lento, mas se olharmos para a última década, os avanços são muito significativos. Muitas organizações que vêm apontando os êrros de enfoque do PIB e avançaram com novas propostas, pesquisadores como Hazel Henderson nos Estados Unidos, Patrick Viveret e Jean Gadrey na França e tantos outros, reconhecerão alguns dos seus aportes, inclusive porque a discussão se tornou planetária.

Quem esperava muito mais da comissão poderá eventualmente ficar decepcionado.
Pessoalmente, acho um instrumento importante de trabalho. Como não acredito em milagres, um avanço modesto, mas na direção certa, me parece positivo. Fato não desprezível, a Comissão disponibilizou este documento preliminar, abrindo espaço para críticas e contribuições da comunidade em geral, que podem ser enviadas até 5 de julho. Endereço: http://www.stiglitz-sen-fitoussi.fr/en/index.htm

Sexta-Feira, 24 de Julho de 2009 | ESTADÃO

Sábios dizem como mudar nosso olhar

Washington Novaes

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Há poucas semanas (3/7) foi mencionado aqui o relatório produzido pela chamada Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, liderada pelos Prêmios Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen e encarregada pelo presidente da França de definir novos caminhos para avaliar a situação do mundo que superem as limitações dos indicadores apenas econômicos e financeiros – cuja precariedade ficou evidenciada na não-previsão da atual crise global. Seria importante que muitas pessoas tomassem conhecimento dessa primeira versão já trabalhada durante mais de um ano e a discutissem, já que os autores pedem "contribuições da sociedade".

O texto começa pela afirmação de que "há grande distância" entre as medidas comumente usadas por especialistas para avaliar importantes variáveis socioeconômicas (como crescimento, inflação, desigualdades sociais, etc.) e a percepção que delas tem a sociedade. O "gap" é tão profundo e universal, diz a comissão, que não pode ser explicado apenas por ilusões monetárias ou pela psicologia humana. Por isso, enfatiza, "o aparato estatístico precisa ser revisto". A começar pela tendência de avaliar o progresso apenas pelo crescimento do produto interno bruto (PIB) – e aí é preciso ver quais são as limitações desse caminho para calcular o desempenho econômico e o progresso social. Em seu trabalho, a comissão tentou listar que informações adicionais precisam ser acrescentadas, de modo a poder apreciar igualmente o bem-estar social e a sustentabilidade (econômica, social, ambiental).

Tentar medir tudo isso com apenas um indicador, um número, é inadequado, diz. Adicionar muitos números pode simplesmente gerar confusão. Por isso a comissão escolheu três caminhos:

Avaliar as limitações do PIB como indicador de progresso socioeconômico;

incluir formatos de avaliação da qualidade de vida;

adicionar formatos de avaliação da sustentabilidade do desenvolvimento e do meio ambiente.

O problema com o PIB, afirma a comissão, começa em que ele só mede a produção em valores de mercado, mas é comumente encarado como se fosse medida de bem-estar econômico. É um critério que não leva em conta o fato de não existirem preços para certos bens e serviços, como a qualidade dos serviços de saúde e educação, o trabalho doméstico ou em lares que cuidam de crianças e muitos outros. Mas como avaliá-los? O PIB é também um indicador que não considera danos ambientais na produção ou no consumo que não estejam embutidos nos preços de mercado (neste ponto, é inevitável lembrar mais uma vez o falecido secretário nacional do Meio Ambiente José Lutzenberger, segundo quem não há nada melhor para o crescimento do PIB que um terremoto, porque os prejuízos não entram na conta, enquanto as obras de reconstrução o fazem subir). Além disso, há certas mudanças de qualidade muito rápidas – como nas áreas de comunicação e informação, entre outras – que são difíceis de medir e deixam de ser incorporadas. Isso ocorre também com transações por via eletrônica. O resultado final é que o PIB pode superestimar ou subestimar muitas coisas.

Cinco caminhos foram então escolhidos nessa tentativa de lidar com as deficiências do PIB:

Considerar nas contas nacionais outros indicadores além do PIB;

avaliar melhor o desempenho de atividades-chave hoje esquecidas, principalmente serviços de educação e saúde;

incorporar nos cálculos atividades domésticas e até valorar o padrão de vida;

levar em consideração informações sobre distribuição da riqueza e da renda;

e ampliar a avaliação de atividades fora do mercado que hoje não se refletem nas contas nacionais.

Um dos exemplos mencionados com mais ênfase é o dos serviços domésticos, que, para a comissão, podem equivaler a 30% do PIB. Atividades de lazer podem valer mais ainda. E seria preciso também levar em conta diferenças hoje esquecidas, como as que separam duas pessoas com a mesma renda – por exemplo, morar em casa própria ou em residência alugada. Ou a depreciação rápida de bens de vida curta, como computadores e softwares, que não podem ser avaliados pelos mesmos critérios de uma usina de fabricação de aço, por exemplo, em geral de vida longa.

Mais grave e complicado ainda é não levar em conta, hoje, a depleção de recursos naturais já escassos, assim como a deterioração do meio ambiente. São ângulos decisivos na grave crise ambiental enfrentada pelo planeta, mas que não se refletem nas contas do PIB. Como lembra essa comissão, há até lobbies em plena ação para impedir que essas contas sejam feitas, dada a repercussão que terão em certos setores de atividades econômicas.

Outro aspecto: as atuais contas, por exemplo, não consideram no PIB remessas de lucros para fora dos países onde foram gerados, que têm forte influência tanto nas contas nacionais como no cálculo da renda total e pessoal. É citado o caso da Irlanda, onde a contabilização desse tipo de remessa reduziria o PIB em 10%. Mais um aspecto: capital humano, que pode significar 80% de toda a riqueza, também não entra nas contas do PIB.

Um dos ângulos mais complexos está nos campos da educação e da saúde, na valoração de seus benefícios. Um exemplo dado é a avaliação de recursos aplicados pelos governos em educação: deve-se julgar apenas pelo montante de dinheiro ou pelas transformações resultantes? Como deve ser calculado o investimento por aluno se se decide ter menos alunos por classe e dar-lhes mais qualidade e tempo de ensino?

São muitos os ângulos e questões. Vale a pena conhecê-los, acompanhar as discussões, delas participar. Afinal, de encaminhamentos como esse depende a evolução dos nossos modos de avaliar governos e sociedades, encontrar rumos mais adequados para sair da atual crise e assim seguir vida afora.

Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

 

JC e-mail 3799, de 07 de Julho de 2009.
 
12. Onde há fumaça há fogo, artigo de José Eli da Veiga
 
“Embora suas mensagens não cheguem a ser convergentes, esse par de relatórios ilumina alguns dos mais sérios problemas da ciência econômica”

José Eli da Veiga é professor titular da Faculdade de Economia (FEA) e orientador do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Universidade de São Paulo. Artigo publicado no “Valor Econômico”:

Como monitorar o Desenvolvimeto Sustentável – J. E. Veiga – resposta a Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi – jun2009

De onde vem a força do PIB Data: 02/09/2008
José Eli da Veiga

 

http://www.cofecon.org.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=721

 

http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:C:2009:100:0053:0059:PT:PDF

 

 

O reequilíbrio do mundo 

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26 de maio de 2009

SOJA x SÉCULO XXI

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 7:12 AM
DE ALIMENTO ATÉ BASE PARA TINTAS, COSMÉTICOS E BIODIESEL, GRÃO ALAVANCOU ECONOMIAS COMO BRASIL E ARGENTINA, MAS INFLACIONOU CULTURAS DE SUBSISTÊNCIA E AMEAÇA O CERRADO E A AMAZÔNIA, DIZ ORGANIZADORA DE "O MUNDO DA SOJA"


Alguns desinformados fazem a relação entre a expansão da soja e o desflorestamento


Moacyr Lopes Junior – 13.mai.09/Folha Imagem
Funcionário de empresa de carga acompanha o armazenamento de soja no porto de Santos, em SP

EUCLIDES SANTOS MENDES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Produto em franca expansão no mercado internacional, a soja é hoje uma das principais commodities brasileiras (o país é o segundo produtor mundial), cultivada do Rio Grande do Sul ao Norte-Nordeste do Brasil. Além do uso na alimentação do ser humano, é utilizada também no fabrico de ração para animais, tintas e biodiesel, entre outras aplicações.
A função estratégica desse grão vital em vários áreas é tema de "The World of Soy" (O Mundo da Soja, University of Illinois Press, 337 págs., US$ 40, R$ 83), lançado nos EUA e no Reino Unido.
Uma das organizadoras do livro (com Chee-Beng Tan e Sidney Mintz), a antropóloga norte-americana Christine Du Bois ressalta o papel da soja na modernização da agricultura, no mercado de commodities, na indústria e na transformação de produtos alimentares. Mas não esquece da ameaça ambiental que representa a expansão do cultivo da soja. "É preocupante", diz Du Bois, que também é pesquisadora vinculada à Universidade Johns Hopkins, nos EUA.
Já Ivan Sergio Freire de Sousa, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e coautor de dois artigos publicados no livro, considera que, no caso brasileiro, o produto "não pede mais expansão de áreas", mas "demanda tecnologias cada vez mais eficientes".
Na entrevista abaixo, discutem também os impactos econômicos e a relevância do grão como commodity: sozinhos, Brasil, EUA e Argentina respondem por 81% da produção.
 

FOLHA – Como a soja se tornou um dos sustentáculos do processo de modernização da agricultura?
IVAN SERGIO FREIRE DE SOUSA
– Há cerca de 40 anos a produção de soja no Brasil era inexpressiva.
As variedades que utilizávamos vinham do sul dos EUA, algumas outras eram desenvolvidas pelos nossos institutos de pesquisa, como o Instituto Agronômico de Campinas (SP).
Quando se falava em soja no Brasil, a lembrança que vinha à mente era a região Sul, Rio Grande do Sul principalmente, onde existia a famosa dobradinha trigo/soja, sendo o trigo, na época, o principal produto.
Isso mudou, e por vários fatores. A partir dos anos 1980, os pesquisadores conseguiram desenvolver variedades de soja cada vez menos dependentes da latitude, tornando possível a produção em todo o país.
Juntando tudo isso com o dinamismo do agricultor brasileiro e o forte apoio governamental nas áreas de financiamento e infraestrutura, houve a modernização do setor.
CHRISTINE DU BOIS – Nos EUA, pesquisas com apoio do governo realizadas na metade do século 20 mostraram muitos caminhos em que a soja poderia ser usada de modo rentável.
Eles vão desde aplicações industriais (por exemplo, no fabrico de tintas), na produção animal (especialmente para a alimentação de porcos e galinhas) e na alimentação humana (sobretudo o óleo utilizado em muitos alimentos processados em todo o mundo).
Esses variados usos da soja, juntamente com várias políticas privadas e governamentais de sustentação de preços, incentivaram fazendeiros do Meio-Oeste dos EUA a cultivá-la em grande escala.
Muita modernização na agricultura, mercado de commodity, indústria e a transformação de produtos alimentares alinharam-se a essa agricultura, embora a colheita da soja não seja a única a ter semelhante impacto.

FOLHA – A soja teve, então, papel decisivo na modernização da agricultura brasileira?
SOUSA
– A agricultura moderna é, em grande medida, um empreendimento científico envolvendo sociedade, ciência, tecnologia e natureza. Não foi só a soja que se modernizou no Brasil, outros cultivos também passaram por esse processo.
Mas, no caso da soja, os agricultores foram aos centros de pesquisa solicitar tecnologias e houve resposta rápida para essa demanda.
DU BOIS – O que podemos chamar de "complexo industrial da soja" exige equipamento agrícola pesado, fertilizantes, inseticidas, sementes, unidades de armazenamento dos grãos, transporte por barco, trens, caminhões.
Além disso, são necessárias facilidades para pesquisas agrícolas, operações bancárias, especialistas em comercialização, advogados, migração da força de trabalho e o desenvolvimento das cidades para abrigar, alimentar e cuidar dos trabalhadores e suas famílias.
O cultivo de soja em grande escala traz, assim, múltiplos níveis de modernização e desenvolvimento em seu rastro, onde quer que aconteça, incluindo o Brasil.

FOLHA – A soja terá a importância que o trigo já representou para a humanidade?
DU BOIS
– A soja talvez já seja o "novo trigo". Pelo volume, é a colheita mais internacionalmente comercializada.
Como populações em países em via de desenvolvimento começam a comer mais carne (especialmente os chineses), a demanda para a soja como ração animal continuará a crescer firmemente.

FOLHA – Como se configura o mapa da produção mundial de soja hoje?
SOUSA
– Originária de regiões de altas latitudes, a soja pode hoje ser produzida em quase todas as partes do mundo.
Sua produção, porém, está concentrada em alguns poucos países, como EUA, Brasil, Argentina e China, principalmente. A soja produzida na China é para consumo interno, mas devido a sua grande população, é um país importador.
É a produção desses países que dita os preços internacionais da soja. DU BOIS – Os EUA são ainda o maior país produtor de soja, mas o Brasil e a Argentina não ficam para trás.

FOLHA – E quanto ao mapa brasileiro da produção de soja?
SOUSA
– O Centro-Oeste é a grande região produtora, mas a soja é plantada do Rio Grande do Sul ao Norte do país.
Há municípios baianos [na região de Barreiras, no oeste do Estado] especializados na produção de soja.
Utilizando-se de critérios como período de plantio, área plantada e uso intenso de tecnologia, sua produção no Brasil pode ser dividida em três regiões distintas: a tradicional, a de expansão e a potencial.
A região tradicional corresponde aos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, onde a introdução da soja foi baseada na tecnologia importada do sul dos EUA, com suprimentos locais que cresceram durante o tempo. A situação atual é completamente diferente, com oferta de tecnologia competitiva originada localmente.
A região de expansão é formada pelos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão, oeste de Minas Gerais e Bahia.
Em contraste com a região tradicional, o solo típico da região de expansão é o do cerrado. Essa expansão somente se tornou possível quando a pesquisa agropecuária nacional fez importantes conquistas, incluindo a criação de variedades menos suscetíveis aos problemas das baixas latitudes e o desenvolvimento de novas técnicas de fertilidade de solo. A região potencial inclui o restante do país. Germoplasmas [material genético contido na semente] adaptados a todas as latitudes encontradas no Brasil tornaram possível a produção de soja em qualquer parte do território nacional.

FOLHA – Qual o impacto da soja no desenvolvimento do agronegócio e na abertura e ocupação de novas fronteiras agrícolas no Brasil?
SOUSA
– Esse impacto tem sido grande. A cadeia produtiva da soja cresceu bastante, principalmente quando comparamos com os anos 1970, época do início da expansão. Hoje se pensa mais em produtividade, e o papel da tecnologia é fundamental. Essa fronteira agrícola chegou ao seu limite.

FOLHA – Quais as principais consequências, do ponto de vista econômico e ambiental, do modelo agroindustrial de produção de soja no país? A expansão das regiões produtoras representa uma ameaça ambiental para a Amazônia?
SOUSA
– Alguns desinformados costumam fazer a relação entre a expansão da soja e o desflorestamento. Mas o que ocorre é o aproveitamento parcial das áreas desmatadas, integrando-as ao processo produtivo.
O economista e engenheiro agrônomo Alfredo Kingo Homma, um estudioso da área, costuma lembrar que, num período de 30 anos, a safra de grãos do Brasil quadruplicou, mas a área plantada nem sequer dobrou de tamanho. A pesquisa agropecuária tem oferecido resultados tecnológicos significativos, do ponto de vista ambiental, em várias áreas, como é o caso do controle biológico de pragas. Com isso se tem evitado ou diminuído o uso intensivo de pesticidas.
Não conheço casos em que sojicultores estejam clamando por desmatamento. Isso não existe.
DU BOIS – Economicamente, o agronegócio da soja no Brasil é sem dúvida rentável, embora a riqueza seja distribuída de maneira desigual.
Além disso, em algumas regiões como o Nordeste, a conversão da terra para o consumo de alimento local em terra para a produção de soja para exportação tem feito com que os preços dos alimentos locais aumentem. E, com isso, os pobres são atingidos.
Do ponto de vista ambiental, a conversão do cerrado -uma savana com biodiversidade extremamente rica- numa terra para a monocultura agrícola da soja é preocupante.
A região da Amazônia está também ameaçada, porque mesmo que se diga aos fazendeiros que eles não devem desmatar, a menos que sigam regras estabelecidas, o desmatamento continuará. A Amazônia precisa, de fato, da aplicação de regras. O cerrado precisa de áreas extensas preservadas. Esses recursos naturais selvagens são o patrimônio do Brasil, com grande valor para as futuras gerações -e devem ser protegidos.

FOLHA – A soja é, hoje, uma das principais commodities brasileiras. Qual o futuro do país como um "commodity country"?
SOUSA
– O Brasil precisa ser mais do que um "commodity country", embora suas commodities agrícolas venham trazendo garantia de empregos no campo e nas pequenas cidades, além de gerarem divisas.

FOLHA – Na América Latina, a soja é predominantemente usada como um componente básico da nutrição animal. No Brasil, qual o papel da soja e dos seus derivados (como o óleo) na economia alimentar?
SOUSA
– Em todo o mundo, a soja é predominantemente utilizada como ração animal. No Brasil deu-se um caso interessante. O óleo foi um derivado de muita importância.
Antes da soja, os óleos alimentícios disponíveis no mercado eram os de amendoim, algodão e milho, principalmente. O óleo vegetal era caro e difícil. Consumia-se muito a gordura animal, vendida em latas.
O óleo de soja foi o óleo vegetal que modificou drasticamente esse quadro. Os demais apenas complementaram o que a soja realmente fez.



Folha Online
Leia trecho do capítulo "Grãos de Soja e Comidas de Soja no Brasil", de Ivan Sergio Freire de Sousa e Rita de Cássia M.T. Vieira, que faz parte do livro "O Mundo da Soja", em
www.folha.com.br/0913410

 
Vale por um bifinho

PESQUISADORA DA EMBRAPA DIZ QUE COMMODITY SERÁ A MATÉRIA-PRIMA DOS PRÓXIMOS SÉCULOS


Hoje, quase todas as grandes indústrias de alimento têm uma linha à base de soja


COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Produto que compõe a dieta alimentar do brasileiro, a soja possui, segundo a pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa Mercedes Carrão Panizzi, características que a fazem benéfica para o consumo humano: é fonte de proteínas, minerais e compostos bioativos.
Em entrevista à Folha, diz também que alguns trabalhos de pesquisa "têm mostrado que a soja pode atuar na redução do colesterol".
Panizzi ressalta ainda que a soja geneticamente modificada não apresenta desvantagens.
"A obtenção de melhores variedades favorecem produtores pela redução no uso de insumos e pelo aumento de rendimento. Os consumidores são favorecidos pela melhor qualidade dos produtos."
Na entrevista abaixo, ela diz que o consumo de alimentos à base de soja tem crescido nos EUA e na Europa, apesar de o grande negócio envolvendo esse grão no Brasil e no mundo ainda ser o do fornecimento de matéria-prima para a composição de ração animal.
A soja também é usada em produtos como o biodiesel, lubrificantes, tintas, plásticos e cosméticos. Por isso, argumenta, "podemos afirmar que a soja pode ser a matéria-prima dos próximos séculos".
 

FOLHA – A soja será o "novo trigo", pela sua potencial importância na cadeia alimentar?
MERCEDES CARRÃO PANIZZI
– Prefiro dizer que não será o trigo, porque também precisamos do trigo, e sabemos que da combinação de leguminosas (soja) e cereais (trigo) temos a oferta de proteínas de alta qualidade, semelhante às proteínas de origem animal.
Entretanto, podemos afirmar que a soja poderá ser a matéria-prima dos próximos séculos.
Pois é uma das únicas plantas produzidas em larga escala que podem fornecer matéria-prima para a produção de alimentos e também pode ser utilizada em produtos industriais não-alimentares, tais como lubrificantes, tintas, plásticos e cosméticos, além de também poder ser fonte de energia (biodiesel).

FOLHA – Quais as consequências da soja geneticamente modificada para produtores e consumidores?
PANIZZI
– Sempre que se faz melhoramento genético por meio de métodos tradicionais ou por meio da biotecnologia, o objetivo é aperfeiçoar o desempenho da planta para o aumento de rendimento e adaptação. Isso pode ser conseguido pela melhora de características da planta ou pela tolerância a diferentes "estresses" (bióticos e abióticos).
Vários componentes de qualidade podem ser modificados por melhoramento genético clássico ou por biotecnologia. A obtenção de melhores variedades favorecem produtores pela redução no uso de insumos e pelo aumento de rendimento.
Os consumidores são favorecidos pela melhor qualidade dos produtos.
Na minha opinião, não há desvantagens, porque todo o trabalho é conduzido para a obtenção de melhores variedades -as quais só são lançadas após extensivas avaliações, que são ainda mais rigorosas para a soja geneticamente modificada.

FOLHA – Qual o papel da soja na economia alimentar no Brasil?
PANIZZI
– O grande negócio da soja no Brasil e no mundo ainda é ser matéria-prima para a composição de ração animal.
Entretanto, o uso da soja e de seus derivados devem agregar valor nutricional nos alimentos, como também, dependendo dos custos de processamento, podem, em alguns casos, fornecer alimentos mais econômicos para a população.

FOLHA – Quais as vantagens da utilização da soja como alimento?
PANIZZI
– A soja é fonte de proteínas de excelente qualidade (boa composição de aminoácidos), além de ser fonte de minerais e de compostos bioativos, tais como isoflavonas e saponinas, entre outros, que são benéficos para a saúde humana. Tecnologias de processamento adequadas transformam a soja em produtos com qualidade e boa aceitabilidade pelos consumidores, como no caso das bebidas à base de extrato de soja.
Alguns trabalhos mostram que a soja pode atuar na redução do colesterol.
É, portanto, um alimento disponível no Brasil, que é o segundo produtor mundial, e deveria ser mais consumido pela população.

FOLHA – O que falar do uso da soja na culinária de países como China, Japão e Coreia do Sul?
PANIZZI
– A soja é uma leguminosa utilizada há milênios no Oriente como constituinte de diferentes pratos da culinária daqueles países.
Entre esses pratos tradicionais, tem-se os fermentados, como shoyu, miso e natto, por exemplo.
Todos esses pratos demandam variedades de soja com características específicas. O processo de fermentação também agrega alguns aspectos nutricionais importantes, como biodisponibilidade de alguns minerais, de vitaminas e de compostos bioativos.

FOLHA – Qual a relevância e a taxa de consumo de alimentos feitos à base de soja nos EUA e na Europa?
PANIZZI
– Observa-se um crescimento muito significativo no consumo de alimentos à base de soja nos EUA e em países europeus, algo que também vem acontecendo no Brasil. O de bebidas à base de extrato de soja, por exemplo, cresce cerca de 25% ao ano. Esse crescimento se deve ao processamento tecnológico adequado, o qual permite a obtenção de produtos de excelente qualidade.
Atualmente, quase todas as grandes indústrias de alimento têm uma linha à base de soja. Também se observa uma constante disponibilidade de novos produtos alimentares à base de soja no mercado.



Folha Online
Conheça receita de hambúrguer de soja da chef Rita Taraborelli feita para o restaurante Maní, de São Paulo, em www.folha.com.br/091349

25 de maio de 2009

BOLONHA II x EDUCAÇÃO SUPERIOR

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:13 PM
 

Ensino Superior
Conselhos de pesquisa divulgam plano para cortar R$ 342 milhões; entre “ações”, comunicado fala em reformular “áreas de pesquisa”

Os conselhos de pesquisa do Reino Unido, principais órgãos públicos britânicos para financiamento a ciência e tecnologia, anunciaram oficialmente no dia 18 de maio as cinco áreas de pesquisa “dentro dos programas multidisciplinares” dos conselhos em que serão investidos 106 milhões de libras (cerca de R$ 342 milhões). O comunicado lista as áreas: economia verde, setor de ciências da vida (incluindo saúde e alimentos), economia digital, serviços e manufaturas de alto valor agregado, indústria cultural e criativa. O texto informa que os recursos vieram de cortes na área administrativa e também de mudanças na direção do investimento: para economizar e aumentar a eficiência, os conselhos vão “aumentar o cofinanciamento nos portfolios de pesquisa e redefinir as áreas prioritárias existentes”. 

A lista faz parte da implementação do plano de cortes; e o anúncio é mais um lance no debate que Ensino Superior relatou em reportagem publicada dia 30 de março. Os conselhos, subordinados ao Departamento de Inovação, Universidades e Especializações (DIUS, na sigla em inglês), vêm formalmente buscando engajar a produção científica a objetivos mais diretamente econômicos. Os resumos de impacto são um passo nessa direção. Em resposta a eles, um grupo de 20 cientistas britânicos endereçou uma carta aos organismos, publicada na revista Times Higher Education, a THE. A carta enfatiza que “prioridades” geralmente excluem projetos de pesquisa batizados de “blue-skies” (céus azuis).

Por isso, o comunicado do dia 18 explicita em seu terceiro parágrafo que permanece “inteiramente comprometido” com o financiamento a pesquisas blue-skies — uma resposta a esse argumento. Também explicita — no segundo parágrafo — a expectativa dos conselhos: que os resultados da pesquisa concentrada nas cinco áreas listadas gerem “crescimento econômico e melhorem a saúde e o bem-estar no Reino Unido”. No pé do comunicado, o texto remete as medidas ao documento “Research for Our Future” (veja aqui o site sobre o documento).

A reação dos cientistas

A lista de cinco áreas não é nova: logo depois da apresentação do orçamento do Reino Unido para 2009, feita no dia 22 de abril, vários grupos de cientistas criticaram a decisão do governo britânico de retirar recursos dos conselhos para realizar investimentos nas áreas prioritárias. As críticas não foram direcionadas à realização dos investimentos, mas à possibilidade de que o dinheiro saísse do financiamento às pesquisas blue-skies.

“Apesar de o orçamento fornecer apoio adicional para áreas tecnológicas fundamentais, o Tesouro enfraqueceu o potencial inovador do Reino Unido no futuro ao interferir na verba para ciência”, declarou Nick Dusic, presidente do grupo Campaing for Science and Engineering (CaSE), no próprio dia 22 de abril. Dusic também acusou o governo britânico de ter enfraquecido a independência dos conselhos. “É necessária uma revisão urgente dessa decisão, uma vez que ela destrói completamente a ideia de que os conselhos operam à distância do governo. Em vez de impulsionar o investimento na base de pesquisa, como nossos competidores internacionais, o governo moveu dinheiro para outro lugar”, criticou.

“Como o governo pode dizer que está mantendo o apoio às pesquisas blue-skies quando cada requerente é obrigado a preencher uma ‘declaração de impacto’ sobre os benefícios que sua pesquisa trará antes mesmo de o pedido de financiamento ser considerado?”, questionou o físico Donald Braben, fervoroso defensor da “liberdade para pesquisar”, em mais um e-mail enviado à redação de Inovação. O físico de partículas Braben foi o principal autor da carta à revista THE. Na opinião dele, a exigência de que os conselhos economizem 106 milhões de libras é “absurda”. “‘Economia por meio de eficiência’ é discurso burocrático para cortes”, acrescentou, citando a expressão utilizada pelo governo no texto do orçamento para 2009.

Vitória da resistência?

No começo de maio, o Conselho de Pesquisa em Engenharia e Ciências Físicas (EPSRC, na sigla em inglês) preferiu adiar para abril de 2010 a implementação de outra medida impopular: a de proibir que pesquisadores com sucessivos pedidos de financiamento rejeitados no currículo fizessem novas solicitações ao órgão durante o período de um ano. O EPSRC pretendia que a vigência da medida começasse em 1º de junho deste ano. A revista Nature, na edição de 7 de maio, informou que a nova política afetaria 229 pesquisadores. Agora, disse a revista inglesa, esses pesquisadores terão mais tempo para “mudar seu comportamento” a fim de não se enquadrar nos critérios de fracasso repetitivo. Quem não conseguir terá uma punição mais branda: ao invés de ser excluído automaticamente do sistema de financiamento por um ano, o pesquisador ficará limitado a pedir recursos para apenas um projeto durante esse mesmo período.

  

Ensino Superior
Conferência ministerial registra os avanços para criação da Zona Europeia de Ensino Superior; acordo já inclui 46 países

Rachel Bueno

As cidades belgas de Leuven e Louvain-la-Neuve sediaram na última semana de abril a quinta conferência ministerial europeia sobre o andamento do Processo de Bolonha. A conferência foi marcada pela comemoração do décimo aniversário da Declaração de Bolonha, em que governos de 26 países se comprometeram com a meta de implantação, em 2010, da Zona Europeia de Educação Superior. No comunicado divulgado ao final da conferência, que resume a discussão dos últimos dois anos, a meta foi mantida.

Para a implantação da Zona Europeia de Educação Superior, os países do Processo de Bolonha — hoje são 46 — precisam organizar-se internamente de modo a tornar intercomunicáveis seus sistemas de ensino superior. A uniformização dos níveis — graduação em três anos, mestrado em dois e doutorado em até quatro — e a atribuição equivalente de créditos a disciplinas são duas das medidas mais conhecidas, que pretendem garantir mobilidade aos estudantes. 

Na manhã do dia 28 de abril, o primeiro da conferência, houve a apresentação de seis estudos de avaliação do processo. No dia 29, Inovação acompanhou pela Internet a última atividade do encontro: um fórum aberto a representantes de países não europeus, como Brasil, China e Estados Unidos. Terminado o fórum, foi lido o comunicado da conferência. Todas as cinco reuniões realizadas até agora terminaram com a elaboração de comunicados, que apontam os avanços e problemas do processo.

Os documentos da reunião

Dois seis estudos apresentados na conferência, três tratam do Processo de Bolonha como um todo, dois concentram-se em objetivos específicos do processo (um deles, na dimensão social e na mobilidade; o outro, na educação continuada) e um mostra como os estudantes estão vendo a criação da Zona Europeia de Educação Superior.

Objetivos do processo

O mais importante dos estudos é o “Bologna Process Stocktaking Report 2009“, que analisa o cumprimento dos objetivos do processo. Segundo seus autores, a análise feita para a conferência deste ano é mais rigorosa do que as feitas para as reuniões de 2005 (em Bergen, na Noruega) e de 2007 (em Londres, na Inglaterra).

A adoção do sistema de formação em três ciclos (bacharelado, mestrado e doutorado) por todos os países da Zona Europeia de Educação Superior é o primeiro objetivo analisado no relatório. De acordo com o documento, a implementação dos dois primeiros ciclos “parece ser apenas uma questão de tempo” e, no geral, a do terceiro também está progredindo. Os autores observam, no entanto, que alguns países ainda não entenderam completamente a necessidade de incluir no doutorado habilidades que sejam úteis para a futura vida profissional do estudante, seja ela dentro ou fora da academia. Quanto ao acesso dos graduados em um ciclo ao ciclo seguinte, foi constatado que vários países ainda exigem outras coisas além do diploma do ciclo anterior, como desempenho em exames e experiência profissional.

Em relação à implantação de estruturas nacionais de qualificações de nível superior, o relatório é mais pessimista: como vários países estão começando ou ainda nem começaram a fazê-la no nível institucional, não será possível concluí-la até 2010 em toda a Zona Europeia de Educação Superior. Outro objetivo que progrediu pouco, de acordo com o documento, foi a criação de meios para facilitar a educação continuada. Os autores descobriram que em muitos países ainda é difícil obter o reconhecimento de estudos feitos fora do sistema educacional convencional. Além disso, são poucos os que estabeleceram elos entre sua estrutura de qualificações e formas flexibilizadas de ensino, ou que mantêm dados estatísticos referentes ao aumento da participação de populações minoritárias em cursos superiores flexíveis.

Sobre a garantia da qualidade do ensino, o relatório diz que todos os países da Zona Europeia de Educação Superior já introduziram sistemas externos de avaliação; e que as instituições da maior parte deles também já adotaram procedimentos internos, embora alguns desses procedimentos sejam muito mais fortes do que outros. No entanto, o reconhecimento dos estudos realizados em instituições de diferentes países do bloco ainda precisa avançar. Segundo o relatório, o Suplemento ao Diploma, documento bilíngue contendo a descrição do sistema de ensino superior do país de origem do diploma, as características da instituição que o emitiu e informações sobre a formação realizada, por enquanto só é fornecido automática e gratuitamente em cerca de metade dos países do bloco. Também pesa o fato de nem todos terem terminado de instituir o Sistema Europeu de Acumulação e Transferência de Créditos, instrumento criado para estimular a mobilidade estudantil.

A mobilidade não só de estudantes, mas também de pesquisadores e funcionários de instituições de educação superior, é um dos principais objetivos do Processo de Bolonha; porém, segundo o relatório, os dados disponíveis sobre o fluxo de pessoas dentro da Zona Europeia de Educação Superior ainda são insuficientes. Da mesma forma, os autores encontraram pouca informação estatística sobre a dimensão social do processo — ou seja, sobre o aumento da participação de pessoas pertencentes a grupos minoritários no sistema oficial de educação superior. O documento diz que ainda vai levar tempo para que o corpo estudantil reflita a diversidade da população europeia, e observa que as abordagens nacionais visando à inclusão social ainda não estão perfeitamente integradas a outros aspectos do processo.

A respeito da cooperação entre instituições de ensino, o relatório informa que três quartos dos países do bloco já alteraram suas legislações para permitir a concessão de diplomas conjuntos. O documento também diz que o Processo de Bolonha fez crescer a cooperação entre países, organizações e instituições dentro e fora da Europa. Mas faz uma ressalva: “Enquanto muitos países relatam que promovem seus próprios sistemas de educação superior internacionalmente, muito poucos parecem focar na promoção da Zona Europeia de Educação Superior”.

Ponto de vista estudantil

O documento que relata o ponto de vista dos estudantes foi muito discutido durante a conferência e trechos dele foram incorporados ao comunicado final durante as discussões. O destaque do “Bologna with Students Eyes 2009” é a afirmação de que o relatório é quase uma cópia do que foi produzido em 2007 para a conferência de Londres. Segundo a União Europeia dos Estudantes (ESU, na sigla em inglês), responsável pela preparação de ambos os documentos, os países que comporão a futura Zona Europeia de Educação Superior continuam olhando para as linhas de ação do Processo de Bolonha como se elas estivessem em um “cardápio ‘à la carte‘”: selecionando as de seu interesse e simplesmente ignorando o restante. A mais comumente negligenciada, apontam os autores, é a que trata da dimensão social — o único elemento que, na visão deles, impede todo o processo de ser visto “como pouco mais que um esqueleto vazio de reformas estruturais”.

A lista com os objetivos que os estudantes consideram ter evoluído pouco de 2007 para 2009 é extensa: dimensão social, participação estudantil no processo, mobilidade, educação continuada, estruturas de qualificações e, diferentemente do que constatou o “Bolonga Process Stocktaking Report 2009“, implantação do sistema de formação em três ciclos. Sobre a dimensão social, a ESU informa que os estudantes continuam a relatar “ampla descriminação” em relação àqueles que pertencem a classes socioeconômicas inferiores, são deficientes físicos, têm filhos ou já estão empregados; sobre a mobilidade, a entidade observa que a falta de uma meta e de uma estratégia comuns para toda a Zona Europeia de Educação Superior está levando os países a adotar abordagens diferentes da questão. Já a implantação do sistema de formação em três ciclos é apontada como a área em que o processo teve “a mais notável perda de força” desde 2007: “apenas 61% das uniões [de estudantes] informaram que seus países têm o sistema de três ciclos completamente estabelecido, um aumento de apenas 5% em comparação com dois anos atrás”.

Mas o relatório da ESU não é totalmente pessimista: “no meio dos sentimentos de desânimo, há alguns feixes de luz encorajadores que mantêm a promessa de coisas melhores por vir”, diz a entidade em um trecho do Sumário Executivo. De acordo com o documento, houve avanços no estabelecimento do Sistema Europeu de Acumulação e Transferência de Créditos, na adoção de estratégias para garantir a qualidade do ensino e na participação dos estudantes nessas estratégias. “Na verdade, o cenário não é de total estagnação, mas de progresso irregular em algumas áreas e não em outras, e de um ritmo de mudança que é muito mais lento do que pretendiam os compromissos políticos declarados.”

Fórum

No dia 29 de abril, Inovação acompanhou pela Internet o Bologna Policy Forum, que prometia discutir as políticas do Processo de Bolonha, mas acabou tendo seu tempo quase inteiramente ocupado pelos comentários dos representantes dos 15 países convidados: Austrália, Brasil, Canadá, Cazaquistão, China, Egito, Estados Unidos, Etiópia, Israel, Japão, Marrocos, México, Nova Zelândia, Quirguistão e Tunísia. Cada representante teve cinco minutos para falar. A maioria deles chamou a atenção para a importância da mobilidade de estudantes e professores e da garantia da qualidade do ensino, e disse esperar o aumento da cooperação entre as instituições de educação superior de seus países e as europeias.

Em sua fala, a representante do Brasil afirmou que a avaliação da qualidade do ensino é algo que os brasileiros deveriam aprender com o Processo de Bolonha. Já a do Canadá disse que o processo pode mostrar para seu país como trabalhar em conjunto. Segundo ela, o fato de o Canadá ter diferentes jurisdições dificulta o estabelecimento de acordos no nível federal. Outro que mencionou a possibilidade de aprendizado com a iniciativa europeia foi o representante da Etiópia, país que ainda está construindo seu sistema de educação superior. “Quando 46 países estão envolvidos em um processo como este, há muito que aprender”, apontou.

Os representantes da China e de Israel destacaram a participação de seus países no Erasmus Mundus, programa da Comissão Europeia que promove a cooperação e o intercâmbio de estudantes entre instituições de ensino superior do mundo inteiro — do qual a Unicamp faz parte. O representante de Israel também lembrou que as sete universidades israelenses estão entre as 500 melhores do mundo e são consideradas de primeira classe em muitas áreas. De acordo com ele, Israel é um dos vizinhos mais próximos da Europa em termos de cooperação em pesquisa e terá muito a oferecer à região se for incluído no Processo de Bolonha. O representante da Tunísia, por sua vez, disse que seu país quer adaptar-se ao processo, mas sem deixar de lado a natureza específica de suas próprias instituições.

 

3 de maio de 2009

THATCHERISMO

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:17 PM
 
 

Como Margaret Thatcher chegou ao poder

DER SPIEGEL – 05-05-2009

Carsten Volkery
Os soviéticos a apelidaram de "dama de ferro"; o presidente Ronald Reagan a chamava de "melhor homem da Inglaterra" -há 30 anos, Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido. Foi o início de uma revolução radical do mercado livre que ainda não foi desfeita.

"Sabe, tem épocas, talvez uma vez a cada 30 anos, quando há uma mudança de maré na política", disse o primeiro-ministro britânico James Callagham a um jovem confidente nos últimos dias das eleições parlamentares de 1979. "Aí, não importa o que você diga ou faça. Há uma mudança no que o público quer e naquilo que aprova. Suspeito que agora esteja havendo uma mudança de maré e é pela senhora Thatcher."

Antes dos eleitores irem às urnas, Callaghan já estava deixando seu cargo. A mensagem de "mudança", ao menos para ele, parecia estar levando ao poder a líder da oposição conservadora Margaret Thatcher. Mas sua ascensão não foi tão inevitável quanto Callaghan depois fez crer.

Poucos meses antes, no verão de 1878, a carreira de Thatcher parecia estar no fim. A economia britânica mostrava sinais de recuperação. A inflação, que tinha sido de 26,9% poucos anos antes, estava de volta à faixa de um dígito. O ambiente político melhorara para o Partido Trabalhista, que começou a liderar as pesquisas. Nas listas dos políticos favoritos, o moderado Callaghan deixava Thatcher, com sua fama de extremista, no chinelo.

O "inverno do descontentamento"
De fato, parecia uma época tão boa para o Partido Trabalhista, que o primeiro-ministro considerou pedir um adiantamento das eleições para o outono de 1978. Se assim tivesse feito, Thatcher talvez tivesse perdido, e seus dias à frente dos Conservadores teriam sido contados, segundo seu biógrafo John Campbell em "The Grocer’s Daughter".

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FOLHA DE SÃO PAULO – tem uns rodapés e gráficos que não aparecem na online
São Paulo, domingo, 03 de maio de 2009
Thatcherismo resiste à crise que fomentou

Consenso ideológico alcançado pela ex-primeira-ministra, que chegou ao poder há 30 anos, resiste às turbulências atuais do capitalismo

Queda da renda do trabalho e boom financeiro criados por Thatcher, diz analista, explicam padrão de gastos a crédito e sua crise atual

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

Quando Margaret Thatcher chegou ao poder, exatamente 30 anos atrás, a inflação caminhava para uma taxa anual de 18%, valor muito alto para os padrões históricos no Reino Unido. A nova primeira-ministra lançou mão, então, de uma das primeiras e mais radicais experiências de controle monetário dos preços.
Cortou drasticamente os gastos públicos e elevou taxas de juros, empurrando o país para uma forte recessão. A reação inicial foi de dúvidas e, mais tarde, de aberta oposição, mesmo dentro de seu partido. Preocupados com seus votos, os conservadores pressionavam.
Em 1980, numa conferência do partido, a Dama de Ferro deu uma resposta pública às expectativas então generalizadas de reversão da política econômica: "Se vocês querem dar meia-volta, que deem. A dama não dá voltas".
Trinta anos e outras tantas reformas depois, o thatcherismo é responsabilizado, mesmo por alguns de seus defensores, por criar as bases econômicas e ideológicas que iniciaram o processo que desaguou na atual crise econômica global.
Exatamente como a sua inspiradora, no entanto, o thatcherismo -o atual consenso sobre a melhor relação possível entre Estado, economia e sociedade- não voltará atrás, dizem economistas e historiadores ouvidos pela Folha.
Com o mesmo fervor com que combateu a inflação, Thatcher levaria adiante políticas de privatização, destruição dos sindicatos e desregulamentação financeira que mudariam a relação dos cidadãos comuns com o mercado.
Um amplo processo de privatizações reduziu a contribuição de empresas estatais para o PIB do país de 9%, em 1979, para 3,5%, em 1990. A venda de ações das novas empresas privadas contribuiu para que a parcela da população adulta com ações de negócios britânicos passasse de 7%, em 1979, para 22% em 1993.
Outro impulso para o mercado financeiro veio em 1986, quando o governo desregulamentou os preços de serviços financeiros na bolsa de valores londrina. O fim do "tabelamento" incentivou a disputa entre bancos e financeiras pelas carteiras dos investidores. Os impostos sobre ganhos financeiros também foram reduzidos.
A soma das novas medidas, diz Tim Leunig, professor de história econômica da London School of Economics, atraiu novos bancos e empresas financeiras para a praça londrina e "os volumes de negócios aumentaram enormemente".
Ao mesmo tempo, reformas na legislação trabalhista restringiram a liberdade de greve e o poder dos sindicatos. "A quebra da espinha do movimento sindical fez a economia voltar a respirar", diz Eduardo Giannetti, professor do Ibmec-SP. "O tipo de bloqueio que faziam à modernização da economia destruía o país."
O economista, no entanto, vê na reforma financeira o calcanhar de Aquiles do thatcherismo. "A desregulamentação foi longe demais. Nesse ponto o "modelo Thatcher", na verdade implementado de maneira incremental [também em outras partes e por outros governos], foi longe demais."

Efeitos combinados
Para Massimo Florio, economista da Universidade de Milão, "as raízes da crise atual se relacionam com a combinação" de algumas políticas de Thatcher, especialmente as reformas sindicais e financeiras.
"O enfraquecimento dos sindicatos pode ter tido algum resultado positivo, já que eles resistiam a reformas corporativas que eram necessárias", diz.
"Mas o efeito principal foi contribuir para um decréscimo da renda do trabalho, e para uma distribuição de renda pior. Isso criou as bases para dívidas insustentáveis pelas famílias, que tinham que recorrer a hipotecas e cartões de crédito, que por muitos anos fomentaram um crescimento artificial."
Os efeitos dessa reconfiguração não foram só materiais -para os críticos, a criação de um país mais injusto e desigual; para os seguidores, a revitalização de uma economia antes decadente e paralisada- mas também ideológicos.
"Quando deixei a universidade, nenhum dos meus colegas pensava em trabalhar com negócios. Isso mudou radicalmente", afirma o historiador inglês Kenneth Maxwell. "Não creio que possamos voltar para um modelo de Estado maior."
Segundo Tony Judt, professor da Universidade de Nova York, "as mudanças partidárias foram profundas". "Não há partido político que conte uma história diferente. Mesmo que haja agora maior pressão por gastos do governo, não há a pressuposição de que deve haver uma forte presença do Estado na estrutura da vida econômica."
Também para Giannetti, "não se voltará para o período anterior". "Não há perspectiva. A ideia de que o Estado empresário faz sentido acabou."

Nossa derrota serviu de exemplo político, dizem ex-mineiros grevistas

PEDRO DIAS LEITE
ENVIADO ESPECIAL A BARNSLEY E ORGREAVE

Antes do confronto, eles somavam 200 mil, espalhados por 130 minas de carvão. Vinte cinco anos depois, não passam de 1.800, em apenas seis minas restantes. Nenhuma trajetória expõe tão bem a visão econômica dos anos Thatcher quanto a dos mineiros britânicos, reduzidos a pó depois de uma greve de 16 meses, em 1984 e 1985, que terminou em nada.
Ao quebrar o então mais poderoso sindicato do país, Thatcher fez valer seu programa de fechar as minas, mas conseguiu mais do que isso. Daquele ponto em diante, todos os sindicatos do país sabiam que não era possível contestar o governo, que o neoliberalismo e o enfraquecimento dos direitos trabalhistas estavam ali para ficar.
Nas ruas de casinhas iguais, os tempos difíceis provocados pela recessão dos anos 80 parecem mais distantes, ao menos na superfície. Mas basta surgir o nome de Thatcher para ódios antigos surgirem das profundezas onde estavam enterrados.
"A maioria dos sindicatos viu como ela nos destruiu, então perceberam que não havia nada a fazer, porque senão seriam destruídos também", afirma Chris Kitchen, 42, secretário-geral do que restou da NUM (Sindicato Nacional dos Mineiros, na sigla em inglês), na sede da entidade, em Barnsley.
A economia sofreu uma mudança radical, mas os efeitos das mudanças dos anos Thatcher ainda deixam a região comparativamente pior que outras partes do país.
"Algumas partes do país continuam a sofrer dos problemas econômicos resultantes do declínio do emprego tradicional -especialmente em mineração, aço e manufatura. Esses problemas têm raízes profundas e tem havido progresso em remediá-los", dizia um relatório encomendado pelo então premiê, Tony Blair, em 1999.
O quadro não mudou muito, uma década depois. Outro levantamento, do ano passado, mostra que a diferença entre essa região e as outras estava aumentando. O salário semanal por aqui era um terço menor do que no resto do país.
Na sala que reunia centenas de trabalhadores durante a greve, agora vazia, Kitchen relembra com amargor daquele tempo. Então com 16 anos, ele participou de um dos momentos definidores daquela greve, a "Batalha de Orgreave", quando milhares de grevistas e policiais se enfrentaram, há 25 anos.
"Aquele dia foi o ponto em que me dei conta de que era muito mais do que uma disputa industrial, era uma questão política", diz Kitchen, reclamando da "brutalidade policial" e da "manipulação da mídia".

Descampado
Desde então, o mineiro nunca mais pisou lá. "Não há nada para ver lá."
De fato, no lugar onde milhares de homens trabalhavam em minas de carvão existe hoje apenas um grande descampado, algumas máquinas paradas e meia dúzia de trabalhadores.
"O carvão que tinha aqui acabou faz uns dois anos. Depois que fecharam as minas, a empresa que comprou a área tirou o que restava do carvão a céu aberto e agora não há nada", conta Sam Willoughby, 48, um dos homens que cuidam do local, ele próprio há 28 anos na indústria mineradora.
"A greve foi muito triste. Quando você saía do colégio, se sua família era de mineiros, só havia uma coisa a fazer, e era ir trabalhar nas minas. Meus dois avós trabalhavam, meu pai, meus tios, meus irmãos. A minha geração é a última, isso acabou", afirma.
Entre os que participaram ativamente da greve, a profissão ficou para trás, mas as lembranças continuam. "É tão estranho, toda vez que vou ao trabalho eu sempre passo por ali, onde trabalhei por 18 anos, não tem como deixar a memória para trás", diz John Bebe, 55, que hoje em dia cuida de crianças autistas. "Passei dois anos sem saber o que fazer, me separei, não sei onde foram parar os amigos. Muita coisa fechou, não é o que costumava ser."
O ódio a Thatcher, comum entre os ex-trabalhadores, só é amenizado pela lembrança da Guerra das Falklands (nessa região ninguém se refere ao conflito como Guerra das Malvinas). "Daquilo eu gostei, a velha Maggie foi lá e protegeu o que era nosso, era uma mulher forte, tipo [Winston] Churchill", defende Martin Wainwright, 58, num pub local.

 

Estilo da "dama de ferro" refletia embate de classes

Ascensão de nova classe média não sindicalizada explica triunfos e autoritarismo de Thatcher

Vitória britânica na Guerra das Malvinas também ajudou a consolidar poder e imagem de uma governante que tinha "força e decisão"

DA REPORTAGEM LOCAL
DE LONDRES

As sucessivas eleições e o estilo duro, quase autoritário, de Margaret Thatcher foram o resultado das conquistas e conflitos -econômicos e sociais- do modelo de país que ela ajudou a enterrar.
Uma dessas conquistas foi o poder dos sindicatos e a elevação do padrão de vida dos trabalhadores britânicos. Entre 1978 e 1979, na tentativa de conter a inflação, o então governo trabalhista determinou limites ao aumento de salários de funcionários públicos.
Ferroviários, motoristas de ambulância, lixeiros e coveiros, entre outros, fizeram paralisações em protesto.
Um dos grupos mais insatisfeitos com a "chantagem" e a "desordem" -como viam a situação- impostas ao país pelos sindicatos era uma nova classe média cuja ascensão social se deu justamente como resultado das conquistas do Estado de bem-estar social britânico, vigente desde a década de 40.
Há um exemplo "clichê", diz Tony Judt, autor de "Pós-Guerra" (Objetiva), do representante dessa nova classe, que em 1979 pendeu para Thatcher. "Um corretor imobiliário, cujo pai havia sido operário numa fábrica de carros, e que agora usa gravata, tem sua própria casa, embora na verdade não tenha lá muito dinheiro."
"Essa classe de pessoas que ascenderam socialmente, que não eram sindicalizadas, e pertenciam majoritariamente ao setor de serviços, compunha a "foto" sociológica do eleitor de Thatcher", ele diz.
O também historiador Kenneth Maxwell diz que havia claramente uma oposição entre os dois grupos.
"Era uma situação de crise, e ela recebeu o mandato para enfrentá-la. Capturou essa fantasia de uma classe média que se acreditava o que havia de melhor no Reino Unido do pós-guerra, e entregou o que prometia -uma política fiscal restritiva, limpar e acabar com o poder dos sindicatos."
É possível entender, assim, que seu estilo de confronto -com sindicatos, com a oposição- fizesse tanto sucesso político com os eleitores.

Mineiros e Malvinas
Assim foi forjada a ideia da "dama de ferro", que em 1984 e 1985 enfrentou uma dura greve de mineiros, que durou um ano, sem fazer concessões. Ao final, a derrota desse grupo, somada a reformas trabalhistas, representou uma pá de cal no movimento operário no país.
A consolidação de sua liderança, dizem os historiadores, viera antes, em 1982, durante a Guerra das Malvinas. A vitória britânica sobre a Argentina, que reclamava como suas as ilhas que eram território do Reino Unido desde o século 19, reforçou não só sua imagem como a do próprio país.
Para Tony Judt, Thatcher usou a guerra como "um símbolo duplo": "Da sua força e decisão, e da recuperação do Reino Unido de sua decadência -econômica e imperial- e fraqueza nos anos 70."
Maxwell vê num "comprometimento pessoal" da primeira-ministra a possibilidade de vitória contra a Argentina. "Quando você pensa que as frotas tiveram que atravessar o Atlântico… . Um outro líder, eu creio, teria cedido. Foi aí que o seu caráter durão funcionou", ele diz. "Depois disso, ela se tornou mais e mais autoritária."
O uso que Thatcher fez do apoio e poder acumulados criou uma espécie de paradoxo entre sua atuação política e seus ideais liberais nos campos social e econômico.
A grande defensora da redução dos poderes do Estado centralizou o poder, limitando e até cassando poderes locais. Sete grandes administrações regionais, todas encabeçadas por trabalhistas, foram extintas em 1986, entre eles o Greater London Council.
Em 2000, já sob governo trabalhista, a figura de um "prefeito" para Londres foi recriada. O eleito de certa forma reassumia o poder, embora formalmente os cargos fossem distintos, já que o trabalhista Ken Livingstone administrava a cidade quando sua função foi extinta, em 1986.
No dia da posse, começou assim o seu discurso para os londrinos: "Como eu estava falando antes de ser tão rudemente interrompido 14 anos atrás…".
(RAFAEL CARIELLO E PEDRO DIAS LEITE)

Primeira-ministra restaurou grandeza britânica, diz biógrafo

DE LONDRES

Margaret Thatcher, a mulher mais poderosa do século 20, subiu ao poder muito insegura, para ao longo dos anos 80 se tornar confiante até demais, o que acabou por torná-la arrogante. Hoje, é uma "velhinha" de 83 anos, de memória frágil, mas saúde estabilizada, diz Charles Moore, 52, seu biógrafo autorizado (mas não oficial).
Um dos poucos a terem acesso à vida de Thatcher depois que ela deixou o poder, o ex-editor do jornal conservador "Daily Telegraph" conta que a antiga "dama de ferro" sofreu uma série de pequenos derrames e perdeu a prodigiosa capacidade para os detalhes. (PDL)
 

FOLHA – Qual a importância da infância e do pai para definir a futura baronesa Thatcher?
CHARLES MOORE
– Ela vivia numa cidade provinciana, que não estava em contato com o mundo lá fora. Veio de uma família relativamente humilde, porque seu pai, Alfred Roberts, era um dono de quitanda. Quando ela se tornou política, acreditava fortemente que podia aplicar as lições de comandar uma quitanda para a esfera nacional, o que a tornava muito hostil à presença governamental, a grandes negócios e a impostos pesados. Seu pai deu a ela um forte sentimento de acreditar nos pequenos negócios, na liberdade e no que vem de fora da elite.

FOLHA – Nos últimos anos, o senhor teve um acesso raro à vida de Thatcher. O que mudou dos tempos em que ela estava no poder?
MOORE
– Quando ela entrou no poder, há 30 anos, era muito nervosa, porque sabia que, se desse errado, ninguém iria salvá-la, porque não fazia parte do establishment conservador. Constantemente temia ser derrubada, o que a tornou extremamente ansiosa e batalhadora para fazer o melhor que pudesse. Mas venceu três eleições, e com o tempo ficou mais autoconfiante. A grande mudança foi quando venceu a Guerra das Falklands. Foi aí que soube que não podia ser derrotada dentro do partido e tinha uma enorme chance de vencer as próximas eleições. Mas isso foi em 1982, e no final dos anos 80 ela se tornou confiante em excesso. Em 1990, quando foi tirada do poder por seus colegas, ficou raivosa e confusa sobre o que fazer. Gradualmente, ela se tornou mais distante da política.

FOLHA – O que o sr. definiria como o legado do governo Thatcher?
MOORE
– Ela era obcecada com a ideia de que o Reino Unido tinha fracassado política e economicamente depois da [Segunda] Guerra, e queria restaurar o que ela acreditava serem as qualidades britânicas. De certo modo, não era revolucionária, mas uma restauradora.
Acreditava que o Reino Unido tinha grandes qualidades, que estavam perdidas, e por vários ângulos ela foi bem sucedida nisso, em termos de liberdade econômica e oportunidade e coragem em questões globais.

Frase

"Ela era obcecada com a ideia de que o Reino Unido tinha fracassado política e economicamente depois da [Segunda] Guerra, e queria restaurar o que ela acreditava serem as qualidades britânicas. Acreditava que o Reino Unido tinha grandes qualidades, que estavam perdidas"
CHARLES MOORE
biógrafo de Thatcher

Cena pós-punk pôs Thatcher na mira

Morrissey pediu a cabeça da primeiro-ministra, enquanto outros artistas a culparam pelo desemprego e pela apatia social

Para jornalista, o pop virou manifestação de classe média dirigida ao lucro, alijando uma parcela dos jovens da agitação cultural

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

"Quando você vai morrer?", perguntava sem rodeios o cantor Morrissey em "Margaret on the Guillotine", faixa de seu primeiro disco-solo, "Viva Hate", de 1988. A mensagem violenta da canção do ex-vocalista dos Smiths estava longe de ser um grito isolado no mundo pop durante a gestão Thatcher.
"Eu a odiava com todo o meu coração", contou à Folha Sheryl Garrett, que editou a revista "The Face" nos anos 80, e depois a seção de cultura do jornal "Observer".
Para intelectuais e artistas, Thatcher representava não apenas um governo conservador e autoritário, mas também a principal responsável pelo alto nível de desemprego e por exportar ao mundo a ideia de uma Inglaterra tirânica, que travou uma batalha injusta e desigual contra a Argentina durante a Guerra das Malvinas.
Quando Thatcher tomou posse, o movimento punk já estava em seus estertores. Sua herança, porém, foi expandir o alcance das mensagens que o rock era capaz de transmitir.
Com esse clima favorável ao engajamento político, os grupos de pós-punk, ska e pop tiveram mais liberdade para expressar posições ideológicas.
O ódio contra o regime thatcherista virou então a principal bandeira da música feita nessa época (leia trechos de algumas canções ao lado).
No clipe de "Ghost Town" (1981), os integrantes do The Specials passeiam pelas ruas desertas de uma cidade, fazendo referência ao desemprego e à falta de mobilização social.
Na letra de "Shipbuilding" (1982), Elvis Costello posicionava-se contra a guerra nas Falklands cantando a partir da perspectiva de operários ingleses que construíam os barcos que levavam o exército até lá.
Uma das principais vozes desse período foi o hoje lendário roqueiro socialista Billy Bragg que, ao lado de Paul Weller (The Jam) e Jimmy Sommerville (Communards), fundou, em 1985, o Red Wedge.
A ideia era arregimentar músicos para tentar engajar os jovens na política. Apoiaram greves e, em 1987, pediram que as pessoas votassem no Partido Trabalhista, para evitar uma nova vitória de Thatcher.
De um modo geral, os anos 80 na Inglaterra marcaram o auge da música de protesto. Um dos álbuns emblemáticos dessa época foi "Sandinista" (1980), do The Clash, cujo título referia-se à guerrilha de esquerda nicaraguense.

Arte classe média
Para Garrett, uma das consequências mais importantes das transformações daquele período foi o fato de a nova ordem ter forçado as artes a virarem negócios rentáveis.
"Antes de Thatcher, era comum haver grupos de punk e de artistas de vanguarda de classes mais baixas. Ela pôs fim a isso. No sistema capitalista e individualista que implementou, a arte tinha de dar dinheiro." Para a jornalista, o brit-pop e a gêneros mais comerciais, como a acid house, viraram coisa de classe média ou alta e os jovens com menos recursos foram alijados do cenário.
"Se formos ver com os olhos de hoje, o punk foi um gênero que atingiu diretamente muito pouca gente em números absolutos. Depois dele viriam essas raves para multidões, o pop comercial", explica. Para ela, Thatcher acabou com o espaço para manifestações mais alternativas. "O mal que ela fez está aí até hoje e deve perdurar por muito tempo", conclui.

Para o cineasta Ken Loach, "tudo o que ela fez foi ruim"

DA REPORTAGEM LOCAL

O cineasta britânico Ken Loach, 72, celebrizou-se por suas convicções esquerdistas e pelo teor político que sempre imprimiu a seus filmes.
Exemplos disso são "Terra e Liberdade" (1995), que tratou da Guerra Civil Espanhola, e "Ventos da Liberdade" (2006), sobre o enfrentamento entre rebeldes irlandeses e tropas britânicas, em 1920 -produção que lhe rendeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Mesmo tendo começado sua militância antes do período Thatcher, foi durante esses anos que suas preocupações com as questões sociais da Inglaterra afloraram. Desempregados, sindicalistas e sem-teto passaram a ser tema de seus programas para TV e filmes.
Hoje, Loach segue crítico ao legado thatcherista. Continua achando que "tudo o que ela fez foi muito ruim para o país".
Na opinião do cineasta, a pior transformação pela qual a Inglaterra passou no período foi a perda do espírito de colaboração que havia no pós-guerra para dar lugar a um "individualismo capitalista", disse, em entrevista à Folha, por telefone.
Nos anos 80, Loach teve alguns programas de TV impedidos de irem ao ar. Entre eles, um documentário sobre as dificuldades de líderes de sindicatos para conseguir armar protestos, "A Question of Leadership" (uma questão de liderança) e outro sobre a greve dos mineradores de carvão, "Which Side Are You On? (de que lado você está?)".
"Obviamente não sofri uma censura explícita, mas as emissoras foram pressionadas para não exibi-los. E isso só foi possível porque todos estávamos mais vulneráveis. Ela tinha conseguido diluir esforços e protestos coletivos."
Filho de operários e membro do Partido Trabalhista desde os anos 60, Loach abandonou-o em meados da década de 90. Hoje, critica os líderes que reconheceram coisas positivas do thatcherismo, como o ministro Peter Mandelson e o ex-premiê Tony Blair. "Quando dizem que herdaram algo dela, estão falando a verdade. O problema é que afirmam isso quase comemorando, quando essa herança foi, na verdade, ruim."
Para ele, Thatcher desvalorizou o trabalho e, por consequência, piorou a vida dos que dele dependiam. "Do ponto de vista dela, valorizar o capital era o caminho, e é verdade que fortaleceu a economia. Mas o preço foi empobrecer os operários e a população em geral."
No que diz respeito ao cinema, Loach acha que a era foi negativa por fazer da Inglaterra um país menos variado culturalmente. "Por que vemos cada vez menos filmes da América do Sul, da Ásia e do resto do mundo? Porque cada vez mais só temos grandes cadeias comerciais de cinema no mercado. E isso só vai piorar. A Inglaterra era rica em promover e consumir coisas de fora. Começamos a nos fechar com ela e seguimos nessa trilha." (SC)

 

The iron age

By Brian Groom

Published: May 2 2009 01:42 | Last updated: May 2 2009 01:42

Thatcher’s Britain: The Politics and Social Upheaval of the 1980s
By Richard Vinen
Simon & Schuster £20 403 pages
FT Bookshop price: £16

Margaret Thatcher: Grocer’s Daughter to Iron Lady
By John Campbell
Vintage £14.99, 564 pages
FT Bookshop price: £11.99

A Swim-on Part in the Goldfish Bowl: A Memoir
By Carol Thatcher
Headline Review £18.99 310 pages
FT Bookshop price: £15.19

It is 30 years on Monday since Margaret Thatcher was elected as Britain’s first woman prime minister and 18 years since she was ejected from power by her Conservative colleagues. Yet still it seems that her legacy and significance are being reassessed daily. … … … … … … …. … …. …. … …. …. …. …. …. …. …. …

 

 

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22 de abril de 2009

PACOTE HABITACIONAL

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:53 AM
 
 

22/04/2009 – 07h15

Especialista aponta ‘pobreza arquitetônica’ dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida

Claudia Andrade
Do UOL Notícias
Em Brasília
O pacote habitacional lançado pelo governo federal no final de março, com o intuito declarado de gerar empregos e reduzir em 14% o déficit habitacional do país, perde a chance de inovar no ponto de vista arquitetônico. A opinião é de Raquel Rolnik, relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para o direito à moradia adequada.

Projeto das casas da Caixa

A cartilha publicada pela Caixa Econômica Federal traz especificações técnicas para as moradias destinadas às famílias com renda de até 3 salários mínimos. As casas de 35m2 (32m2 de área interna) devem ter 2 dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área externa com tanque, com piso cerâmico na cozinha e no banheiro, azulejo e box. O plano prevê ainda laje de concreto ou forro de madeira ou pvc, com cobertura de telha cerâmica, pé-direito de 2,20m na cozinha e banheiro e 2,50m no restante da residência, além da instalação de kit completo de aquecimento solar/térmico

A professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) aponta outro problema do programa: o risco de se isolar a população mais pobre em guetos. A especialista analisou o Minha Casa, Minha Vida nesta entrevista para o UOL.

A procura de famílias com renda de até 3 salários mínimos pelo cadastramento no Minha Casa, Minha Vida tem sido grande. O pacote pode frustrar os interessados?
O pacote habitacional do governo deixou claro que não pretendia resolver um problema acumulado durante décadas. Já no lançamento, o governo disse que a meta era reduzir 14% da necessidade real de moradias no país. É claro que está gerando uma expectativa muito grande, mas não se trata de enganar ninguém, porque já ficou claro que não vai acabar com o problema.

Qual a principal vantagem e qual a principal falha do programa?
A principal vantagem é que, pela primeira vez, se mobiliza uma enorme quantidade de subsídio associado ao crédito. As políticas anteriores de habitação só focavam financiamentos, que não atendem pessoas da faixa de renda de maior necessidade, que não têm a menor possibilidade de acesso ao crédito sem subsídio. O ponto falho é que casa não é geladeira, não se produz em série. Moradia adequada é um lugar na cidade, um ponto a partir do qual se tem acesso à condições dignas, emprego, comércio, equipamentos sociais, a um espaço público de qualidade, à cultura. Vai além do abastecimento de água, luz, pavimentação, sistema de esgoto, que, claro, também são necessários.

O pacote não tem nenhuma medida sequer que estimule a produção adequada das moradias, do ponto de vista urbanístico. Deixar essa questão por conta do mercado fará com que a construção dos imóveis para a faixa de renda mais baixa se dê na não-cidade, criando guetos e dando continuação ao modelo de apartheid social que já existe.

Com a implantação de algumas medidas, é perfeitamente possível reverter isso. Hoje, a regulação urbanística é competência dos municípios, prevista no Estatuto da Cidade, que é uma lei federal. Poderia se estabelecer, por exemplo, que aqueles municípios que aplicarem esse tipo de regulamentação receberão mais recursos, ou mais subsídios. Outro ponto importante seria permitir que esses recursos do programa fossem utilizados também para reformas de imóveis públicos e privados, vazios e subutilizados.

MP da habitação tem
mais de 300 emendas*

O relator da medida provisória 459/09 na Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) terá de avaliar mais de 300 emendas apresentadas por parlamentares. Um dos temas mais abordados por deputados e senadores foi a ampliação do programa para municípios com menos de 100 mil habitantes*Com informações da Agência Câmara

A medida provisória apresentada junto com o pacote não resolveria essas questões de regulamentação urbana?
A MP tem dois elementos. Um deles entra em detalhes sobre como serão liberados os recursos. O outro cuida da regularização de favelas e ocupações irregulares, mas está mais ligado ao PAC das favelas (recursos do Programa de Aceleração do Crescimento destinados à urbanização de favelas); não tem nada a ver com o pacote. No entanto, mais de 300 emendas foram apresentadas à MP e várias delas preveem esses instrumentos de regulação urbanística, então a questão pode ser atendida.

A ampliação do programa para municípios menores pode trazer algum prejuízo para estas cidades?
A justificativa para se atender a municípios com mais de 100 mil habitantes era que essas são as localidades onde o déficit está mais concentrado. Mas, considerando que no caso das famílias com renda de 0 a 3 salários mínimos o cadastro será feito pelas prefeituras, elas vão ter um grande papel na destinação dessas casas, e isso tem um peso político muito grande, principalmente nas cidades que são base eleitoral de deputados. A pressão e o apelo para se atender a esses municípios menores têm essa natureza.

Mas pode haver algum prejuízo para os municípios menores?
As perversidades e falhas do pacote impactam negativamente tanto os municípios pequenos, como os médios e grandes. O manual de encargos do programa já definiu o tipo de casa ou apartamento a ser construído. Foram critérios que a Caixa Econômica Federal usou apenas para definir o preço dos imóveis. Só que os projetos que forem feitos dentro da tipologia sugerida vão receber recursos mais rapidamente, e esse projeto é de uma pobreza arquitetônica e urbanística impressionante. Com isso, perde-se a chance de os arquitetos terem um campo de experimentação muito rico. É novamente a idéia da fabricação de geladeiras. Casa não é só quatro paredes e um teto. O projeto está mais para Cohab e poderia ser Copan.

A intenção de se incentivar o uso de energia solar em alguns dos imóveis para reduzir o custo com este serviço seria uma tentativa muito tímida de inovação?
Todas as inovações tecnológicas e ambientais são válidas e, se houvesse um pouco menos de pressão e um pouco mais de planejamento, poderíamos trabalhar vários elementos de infraestrutura que não vão ocorrer.

Desenho para apartamentos

Os apartamentos têm área maior, de 42m2 (37m2 de área interna), com 2 dormitórios, sala, cozinha, área de serviço e banheiro. Os prédios devem ter 4 pavimentos com 16 apartamentos por bloco, podendo ser ampliado para até 5 pavimentos com 20 apartamentos. As especificações também preveem piso cerâmico na cozinha e banheiro, laje de concreto, janelas de ferro ou alumínio e portas de madeira. Pé direito de 2,20m na cozinha e banheiro e 2,40 no restante do imóvel. O kit de aquecimento solar também está previsto

As empresas terão interesse em construir casas para as famílias mais pobres?
As empresas têm interesse em vender. Minha grande preocupação é como vão reduzir o custo para poder fazer moradias para este mercado. Fazendo as casas na órbita de saturno, sem viabilizar os instrumentos que permitiriam construí-las em áreas bem localizadas, de forma integrada à cidade.

Quais mecanismos poderiam ser utilizados para se combater de forma permanente o déficit habitacional no país, já que o pacote não acabará com o problema?
Aí cabe uma discussão sobre o próprio conceito de déficit. Todas as abordagens sobre o problema preveem a construção de novas unidades para atender a demanda de 7,2 milhões de moradias. Só que há mais de 6 milhões de casas e apartamentos vazios no Brasil. Então, é mais um problema de acesso ao que está vazio do que de novas construções. E o pacote passa ao largo disso.

Há uma segunda questão que é a seguinte: o governo federal estava seguindo uma trajetória de implantar uma política permanente de moradia, pelo Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, com metas a longo prazo. Mas as prefeituras simplesmente interromperam o processo de construção institucional desse sistema.

O pacote é eleitoreiro?
Isso é irrelevante na discussão, porque se alguém vai ter benefício serão prefeitos e governadores de todos os partidos.

Não há o risco de um município ser menos ou mais beneficiado que outro por conta da disputa política?
O pacote definiu a distribuição de acordo com o déficit habitacional. Isso está escrito. Agora, se os deputados decidirem tirar isso do texto, aí muda. E tem emenda para isso.

 
 
 
São Paulo, domingo, 19 de abril de 2009 MAIS!
Cidades velhas

ZUMTHOR DÁ AS COSTAS PARA A EXUBERÂNCIA DO MERCADO, DIZ MENDES DA ROCHA; PARA O ARQUITETO CAPIXABA, PROGRAMAS DE CASAS POPULARES IGNORAM AVANÇOS DEMOCRÁTICOS


Habitação tem de ser onde o acesso ao trabalho é mais fácil


Martin Ruetschi – 16.mai.00/Efe

Peter Zumthor, vencedor do Prêmio Pritzker de 2009, em seu estúdio em Haldenstein, na Suíça

MARIO GIOIA
DA REPORTAGEM LOCAL

Paulo Mendes da Rocha está debruçado sobre suas origens. Ou melhor, sobre as águas de suas origens. Aos 80 anos, está mais perto de finalmente inaugurar seu primeiro projeto para a cidade natal, Vitória (ES): o Cais das Artes.
Até 2012, deve ser entregue à cidade um edifício de linhas contemporâneas, que invade as águas da baía de Vitória, feito em concreto e metal.
A construção terá um museu em condições de receber mostras internacionais, com área total de 3.000 m2, além de um teatro de 1.300 lugares e outros espaços (reserva técnica, sede de corpos estáveis, salas para oficinas educativas, entre outras coisas).
Em entrevista à Folha, o arquiteto capixaba radicado em São Paulo fala sobre o Pritzker dado ao suíço Peter Zumthor -que ganhou o Mies van der Rohe para arquitetura europeia, outra honraria importante da área, no mesmo ano em que Paulo Mendes da Rocha recebeu a versão latino-americana -1999.
Discute também projetos similares ao Cais, que utilizam engenhosamente a ligação entre território e edificação, em especial em paisagens portuário-marítimas, como os destinados a Montevidéu (Uruguai) e Alexandria (Egito).
Também não deixa de comentar o que considera nocivo para o urbanismo paulistano, como a manutenção do MAM-SP (Museu de Arte Moderna de SP) embaixo da marquise projetada por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera e a não execução de um anexo para a Pinacoteca do Estado, projeto de 1993 que trouxe de novo luzes sobre sua obra arquitetônica.
 
O Pritzker a Zumthor
Peter Zumthor é um arquiteto com uma obra que pensa e reflete profundamente o espaço. O prêmio dado a ele distingue uma arquitetura que está fora da exuberância mercadológica tão presente atualmente no meio. O Pritzker sempre está olhando para o futuro e faz com que uma obra como a dele seja vista e estudada com mais profundidade.

O local do Cais das Artes
É um projeto que, para mim, tem um encanto e uma sedução muito especiais, pois nasci lá. A casa do meu avô era quase em cima do porto, junto do parque Moscoso.
O porto fica na cidade velha, no fundo de um canal formado entre o continente e a própria ilha de Vitória. Na entrada desse canal, portanto, acabou se fazendo uma ponte que liga o continente à ilha, era um território abandonado "in natura" até outro dia.
Há pouco tempo, uns 15, 20 anos, foi feita uma muralha de cais com material da dragagem do próprio canal. Ganhou-se uma área do mar, retificou-se essa frente e prolongou-se uma avenida.

O programa
Este projeto contempla um teatro capaz de exibir óperas. Portanto, deve ter todos os recursos de orquestra, fosso, capacidade para 1.300 pessoas. E há um museu de arte moderna; hoje toda cidade importante do mundo tem seu MAM. O projeto tem de organizar essa praça de 70 metros por 300 metros na frente do mar. O lugar é esplêndido, porque você assiste aos trabalhos do mar, num desfile constante de navios para lá e para cá, rebocadores, lanchas de práticos. Ou seja, é uma cidade que se pode ver ali amparada pelos trabalhos.

Dificuldades
É um território de Marinha, ganho do mar, com problemas de lençol freático superficial.
Nós fizemos o teatro levantado do chão, o que dá a ele uma impostação de liberdade no chão, com galerias laterais.
E, junto da avenida, fica a parte de serviço, a entrada dos artistas, fundo de palco, espaço para cenários.
O grande salão, de onde se desce para a plateia, está debruçado sobre as águas do mar.
Nós pusemos toda a sustentação, os pilares, dentro d’água. Nos fundos do teatro, as janelas abrem para o mar.
De Vila Velha para Vitória, há uma navegação muito interessante de passageiros. Há desde grandes transatlânticos de turistas a lanchas, embarcações menores, que se dirigem para os recintos turísticos da baía, riquíssimos.
Esse lugar, assim, toma um certo ar veneziano. De quem constrói enfrentando as águas.

A influência de Reidy
O museu é desenvolvido de modo linear ao longo do mar, mas levantado do chão, para que desde a avenida você não tenha tolhida a visão do mar, dos navios e do lado de lá do canal. É bom lembrar que o MAM do Rio de Janeiro, do [Affonso Eduardo] Reidy, já é assim também -ou seja, diante de uma paisagem belíssima, você procura, sempre que pode, que um grande edifício não seja uma pedra no chão.

A influência portuária
Eu nunca saí de Vitória, não é? Do ponto de vista da minha formação, essa cidade sempre teve uma importância grande. Quem nasce num porto de mar, tem uma educação peculiar.
Há uma visão das virtudes da natureza, dos seus fenômenos, mas também das engenhosidades humanas. Um porto atrai e abriga inexoravelmente catraieiros, estaleiros, máquinas, ligações especiais com o tempo, com os horários…
Quem nasce num porto de mar tem tudo para ser sábio. Acostuma-se a ver a natureza não como uma simples paisagem, mas sim como um conjunto de fenômenos. Se o outro diz que é doce morrer no mar, nós, entretanto, achamos que não convém [risos].

A Biblioteca de Alexandria
Você deve ter uma atenção especial com essa disposição espacial "sui generis" para o enfrentamento das águas, é uma questão universal e muito interessante. Basta ver a Holanda toda, por exemplo.
A necessidade de saneamento nessas áreas alagadas, inundadas, de baixios, abrir canais, corrigir as marés.
Santos teve um trabalho magnífico do Saturnino de Brito. A população não tem consciência disso. E é por isso que as nossas cidades vão para o brejo.
No concurso para a Biblioteca de Alexandria [Egito], em 1988, saí do terreno exclusivo que deram, na frente do mar, mas separado por uma avenida.
E, avançando sobre as águas, há o que chamam de Península dos Faraós. Fizemos um grande túnel, que atravessa a avenida. Você rompe a avenida como obstáculo e usa toda a península como se fossem os jardins da biblioteca, com dois anexos.
É um partido arquitetônico que enfrenta uma espacialidade nova e necessária, num lugar extraordinário.
Não é simplesmente destinar um terreno para fazer um casarão como outro qualquer, para resolver um programa da biblioteca. Isso é fácil resolver.
A própria biblioteca também teria um pequeno porto. Você desembarcaria na biblioteca livre do trânsito de automóveis, pelas águas de um lugar que tem uma história, uma monumentalidade.

Montevidéu
Ao seminário que eu fui, em 1998, o tema era a baía de Montevidéu. É uma baía rasa, imprópria para a navegação.
A ideia era fazer uma avenida circular em volta da baía. A mesma questão de sempre, você fica com uma avenida de tráfego intenso, que impede a aproximação com a frente das águas. A própria avenida tem um lado só, o outro lado não serve para nada.
Como a baía não produz praias, não tem atrativos, surgiu a ideia de retificar as frentes, aterrar as esplanadas horizontais, inclusive com material dragado da própria baía, e mostrar que essa água morta passa a ter uma virtude incrível.
Ou seja, ela pode ser intensamente navegável de um lado para o outro, aliviando o tráfego de automóveis e criando um hábito novo para a população.

As vias elevadas em Vigo
Na Universidade de Vigo [projeto para a cidade espanhola, de 2004, em construção], a questão é enfrentar uma topografia muito enérgica e violenta. O terreno é escabrosamente vertiginoso, pode-se dizer assim. A partir de uma certa costa, mais ou menos numa posição de anfiteatro natural. Portanto, não surgiu a ideia de continuar fazendo muro de arrimo, estradas difíceis.
Era melhor construir uma via elevada na mesma cota, fazendo os novos prédios de maneira vertical, associados a essa rua elevada.
Os novos edifícios nascem todos desse viaduto. Aqui em São Paulo é fácil entender isso: o edifício Matarazzo, o Conde Prates e o antigo prédio da Companhia Light são edifícios que têm entradas pela cota do viaduto e pela cota do vale do Anhangabaú.
Vigo, assim, não tem nada de extraordinário nem de novo. A via elevada resolve uma série de problemas e facilita o encontro dos estudantes, a frequência e a convivência entre eles, que é muito difícil no descalabro de uma cidade feita num terreno montanhoso.

Minha Casa, Minha Vida
De maneira geral, todos os chamados planos habitacionais são erráticos porque não amparam a questão essencial da moradia, que é o endereço.
Habitação tem de ser junto do transporte público, nas áreas mais centrais, onde o acesso ao trabalho é fácil.
A grande questão da habitação é a construção da cidade.
Se você considerar uma cidade como as nossas, com mais de 5 milhões de habitantes, não pode fazê-la inteira pensando em palácios, museus, teatros.
Isso são adereços indispensáveis à cidade. Mas ela é feita de milhões de casas, que têm de saber conviver com o comércio, com acesso à saúde, à educação, ao transporte público.
Portanto, é um problema muito mais complexo do que simplesmente fazer um determinado número de casas, no caso 1 milhão.
Esse contrassenso de se afastar das áreas centrais é até explicável pela ideologia das classes mais ricas.
Mas a cidade bem feita é sempre um espaço democrático. Isso apavora esse pessoal que gosta de morar afastado.
Não percebem que, com isso, destroem a sua própria cidade, a sua própria moradia. Eu não sei como é que se faz para educar os filhos na adolescência em condomínios fechados. Estão produzindo monstrengos.

O anexo da Pinacoteca
É uma ideia do Emanoel Araujo, que era o diretor da Pinacoteca no tempo da reforma que fiz lá.
A ideia era transformar o que hoje é uma escola estadual em uma instituição de caráter museológico, que formaria de carpinteiros, eletricistas e montadores de exposições até museólogos, críticos, como um anexo da Pinacoteca do Estado.
Queria até fazer uma pequena ponte para a passagem de pedestres, alta, que ligasse um daqueles terraços altos da Pinacoteca atual ao outro lado do novo edifício.
A ideia é brilhante. Hoje, uma grande dificuldade dos museus é arranjar um corpo de funcionários capaz de gerir tudo aquilo. É uma coisa para fazer, não há o que discutir.
Esse é um projeto da cidade de São Paulo, qualquer arquiteto pode fazer, um pouco mais assim, um pouco mais assado.
Não estou dizendo que quero fazer, não sou catador de projetos. É um projeto que qualquer pessoa de bom senso faz.

O MAM-SP
A tragédia do parque Ibirapuera é o MAM, porque é fruto de um engano absurdo. Se é um museu, tem de respeitar as artes e, muito particularmente, a arquitetura, como manifestação artística.
O museu se enfiar embaixo da marquise é uma estupidez que não é possível ser feita por um museu. O grande empenho do MAM deveria ser de sair debaixo da marquise e liberar a entrada do Pavilhão da Bienal. Você não pode usar um quadro de Picasso como tela para pintar outro quadro e dizer que aproveitou a tela. Foi o que fizeram com a marquise.
Não vejo razão para ficar inventando novos museus [o antigo prédio da Prodam se tornará um museu de arte popular até 2011] enquanto um está desamparado, como o MAM.

QUEM É PETER ZUMTHOR

DA REDAÇÃO

Nascido em 1943, o suíço Peter Zumthor fabricou móveis em madeira e foi mestre de obras antes de ser reconhecido como um dos principais arquitetos do mundo. No domingo passado, foi anunciado como o ganhador do Prêmio Pritzker deste ano, que lhe será entregue em 29 de maio.
O trabalho de Zumthor, que estudou em Basileia e Nova York, é reconhecido por aliar a austeridade e a rigidez do estilo moderno às condições histórico-geográficas de cada obra -como o Museu de Arte Kolumba, em Colônia (Alemanha), construído sobre uma igreja bombardeada.
As termas de Vals (Suíça) são consideradas sua obra-prima; nas palavras do professor australiano Miles Lewis, "um soberbo exemplo do detalhamento simples que é usado para criar espaços altamente atmosféricos", em que "luz e água são empregados para esculpir os espaços".
Recluso, Zumthor habita uma vila suíça onde, com sua equipe reduzida -não mais de 15 pessoas-, cultiva os hábitos de recusar a maioria das encomendas que recebe e de controlar todas as fases da elaboração de seus projetos.

 
A indústria da forma

FRANK LLOYD WRIGHT, MORTO HÁ 50 ANOS, E A BAUHAUS, CRIADA HÁ 90 ANOS, REDEFINIRAM O DESIGN E A ARQUITETURA DO SÉCULO 20

EUCLIDES SANTOS MENDES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Dos materiais aos conceitos que determinaram o surgimento da arquitetura moderna, o norte-americano Frank Lloyd Wright e os alemães da Bauhaus -encabeçados por Walter Gropius- tiveram papel de destaque em sua renovação, em meio à cultura industrial em ascensão nas primeiras décadas do século 20.
Em entrevista à Folha, o professor do departamento de arquitetura e urbanismo na USP, em São Carlos, Luiz Recamán explica que Lloyd Wright é responsável por algumas das conquistas definitivas da arquitetura no século 20, como a ruptura com as formas tradicionais e a relação entre espaço construído e paisagem.
A Bauhaus, por sua vez, vinculava, segundo Recamán, "indústria e artesanato, artes e ofícios, até a sua configuração definitiva, que aproximava essa escola da indústria alemã e da produção serial".
Recamán também fala da contribuição fundamental desses dois símbolos modernistas na formação da arquitetura contemporânea.
 

FOLHA – Qual é o legado de Lloyd Wright para a arquitetura hoje?
LUIZ RECAMÁN
– Um dos mestres da arquitetura moderna, ele desenvolveu uma obra original na qual enfrentou os dilemas da modernização norte-americana e a tentativa de constituir uma civilização de massa, moderna e democrática.
A ruptura com o espaço da tradição, em sua nova configuração moderna, contínua e infinita, e a relação da arquitetura com a paisagem foram conquistas definitivas para a arquitetura do século 20.
Pode-se destacar a grande relação que estabeleceu entre a arquitetura e a existência concreta das formas da vida social.

FOLHA – "O importante é a vida cotidiana": como essa frase de Lloyd Wright reflete sua percepção sobre como deve ser a arquitetura?
RECAMÁN
– Sua arquitetura pretendia ser o abrigo das relações humanas, entendidas como o enfrentamento direto com o ambiente -que, no caso dos EUA, deveria ser instaurado.
Família, comunidade e trabalho criariam o sentido da existência em um mundo moderno a ser construído, ao mesmo tempo livre da tradição e preservado dos impulsos alienantes e de abstração da sociedade de massas.

FOLHA – A "honestidade" -isto é, o uso explícito de materiais disponíveis- e a "simplicidade" -construções sem muitos detalhes vistosos-, palavras de peso dos arquitetos e críticos de vanguarda do modernismo, também nortearam o trabalho de Lloyd Wright?
RECAMÁN
– Parcialmente, já que essa intensificação do sentido do espaço não poderia abrir mão de certa sobrecarga simbólica da matéria, ainda que livre dos estilos históricos.
Então, a pureza dos materiais implicava seu significado humano e cultural alcançado nesse isolamento violento do homem americano em uma natureza adversa.
Pedra, madeira e tijolo não poderiam ser aliviados de sua carga experiencial. De maneira contrária, a vanguarda europeia se empenhou, por motivos vários, na "dessemantização" das formas na arquitetura, procurando sua racionalidade construtiva objetiva, sua funcionalidade programática e uma sensibilidade abstrata do espaço.

FOLHA – Em artigo de 1901, "Arte e Ofício da Máquina", Lloyd Wright diz que "o único futuro da arte e do ofício está na máquina". A Bauhaus propunha, por sua vez, uma interação entre arte e indústria. De que maneira a arquitetura teve sua face alterada pela entrada das máquinas em ação na vida cotidiana?
RECAMÁN
– Mesmo percebendo o sentido transformador da civilização da máquina, Lloyd Wright pretendeu atrelar à manufatura um sentido criativo, próximo das "artes e ofícios" da virada do século na Europa. Isso pode soar estranho hoj
e, mas a coincidência plena entre indústria e standard é um fenômeno do século 20, a partir do fordismo. Esse debate (entre "tipo" e "unidade") esteve presente na Bauhaus até 1923, quando o produto em série passa a ser seu objetivo principal.
Essa "guinada" marcou definitivamente a arquitetura moderna, que passou a ser então a elaboração da "célula" e sua articulação no território neutro (tábula rasa), até a grande crise dos anos 1930.

FOLHA – Como se expressava, na Bauhaus, o gosto radical do seu fundador Walter Gropius?
RECAMÁN
– Gropius formulou as principais teses da Bauhaus desde sua origem, que vinculava indústria e artesanato, artes e ofícios, até a sua configuração definitiva, que aproximava essa escola da indústria alemã e da produção serial, no contexto de crise política dos anos 1920.

FOLHA – Como dois dos maiores símbolos da arquitetura moderna no século 20 (Lloyd Wright, nos EUA, e a Bauhaus, na Alemanha) se influenciaram mutuamente?
RECAMÁN
– A conquista da espacialidade moderna na arte e arquitetura se deu no início do século 20 pelas vanguardas europeias e pelas experiências de Wright das "casas de pradaria".
Mas, se essa liberação do "espaço da tradição" foi como que simultânea e pode ser detectada uma influência mútua (como é o caso do neoplasticismo e de Mies van der Rohe), deve-se considerar uma grande diferença entre os construtos.
Pois o "eixo" wrightiano, pelo qual orbitavam os espaços da casa, possuía um sentido instaurador da nova significação da natureza pelos pioneiros americanos -elemento inexistente na configuração moderna europeia.

FOLHA – Quem teve mais influência sobre a arquitetura brasileira: Lloyd Wright ou a Bauhaus?
RECAMÁN
– A grande influência na arquitetura moderna brasileira foi [o arquiteto suíço] Le Corbusier, por motivos que não podem ser discutidos aqui.
A ênfase habitacional e "social" da Bauhaus não fazia, e continua não fazendo, muito sentido no nosso processo de modernização. Seu "racionalismo frio e europeu", determinado pela aceleração fordista, não poderia ser transportado para o Brasil moderno.
Quanto a Wright, sua influência é indireta, já que o espírito instaurador e ilimitado da ocupação pioneira é de outra ordem no sistema colonizador brasileiro.
Mas, sem dúvida, a necessidade de criar espaços a partir do nada -territorial, simbólico e social- deve ser uma angústia que compartilhamos.
A mais importante aproximação foi com a obra de Vilanova Artigas [1915-85; projetou o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, onde ensinou], na conformação do amplo espaço de uma sociabilidade que deveria ser inaugurada em ambiente hostil (no caso de Wright, a vastidão do território e das pradarias; no caso de Artigas, a iniqüidade das nossas cidades).

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12 de abril de 2009

CHE GUEVARA – FILME

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:46 AM
 

Mentiras sobre Che me levaram a escrever sobre meu amigo de infância, diz autor de livro

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias – 12/04/2009
Em São Paulo

 

SINOPSE

O diretor Steven Soderbergh filma com distanciamento quase documental dois momentos na vida do lider revolucionário Ernesto "Che" Guevara: a campanha para a tomada do poder em Cuba, em 1959, e a visita à ONU em Nova York, em 1964.

 
 
Revolucionário e guerrilheiro latino-americano

Ernesto "Che" Guevara

14/6/1928, Rosário, Argentina
9/10/1967, Higuera, Bolívia

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

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Ernesto Guevara, também conhecido como CHE

”Filme chega em boa hora aos EUA”

Sexta-Feira, 27 de Março de 2009 – O Estado do São Paulo

Rodrigo Santoro, que vive Raúl Castro em Che, fala do sucesso americano do longa e de sua carreira, no Brasil e no exterior

Luiz Carlos Merten

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Rodrigo Santoro não se esquece da emoção que sentiu ao assistir a Che com uma plateia de 4 mil pessoas no gigantesco Teatro Karl Marx, durante o Festival de Havana, em dezembro. Após a Mostra Internacional de São Paulo, a que compareceu para acompanhar Benicio Del Toro na exibição do díptico de Steven Soderbergh sobre o lendário guerrilheiro, na noite de encerramento do evento, Santoro foi à Espanha para prestigiar, também lá, a estreia do filme. Che bateu a bilheteria dos blockbusters de fim de ano na Espanha e, nos EUA, encontrou seu público na costa Oeste e na Leste. Em Los Angeles, as duas partes foram lançadas simultaneamente. Não houve ainda, pelo menos por enquanto, lançamento no meio-Oeste, onde habita a maioria silenciosa dos EUA, o eleitorado de George W. Bush. … … … … … continua
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"Che foi meu personagem mais díficil"

Premiado pelo papel do guerrilheiro no longa de Steven Soderbergh, Benicio Del Toro diz que a obra "respeita a história’

À Folha, ator afirma que se vê em Rodrigo Santoro, intérprete de Raúl Castro no longa, e conta que tem planos de se tornar diretor

Sexta-Feira, 27 de Março de 2009 – Folha de São Saulo

 

O ator mexicano Demián Bichir, como Fidel Castro, e o porto-riquenho Benicio Del Toro, como Che, discutem a estratégia da Revolução Cubana, em cena do filme

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

"Como se sente sendo um símbolo?", pergunta a repórter de TV ao guerrilheiro Ernesto Che Guevara (Benicio Del Toro), em "Che", épico do americano Steven Soderbergh, cuja primeira parte -"O Argentino" (2h06)- estreia hoje no Brasil.
É 1964, e Che está em Nova York, onde desafiou a assembleia da ONU com um discurso afirmativo da Revolução Cubana, incluindo a execução de dissidentes: "A pátria ou a morte!". Del Toro, 42, nascido em Porto Rico e criado nos EUA, fala sobre como foi dar corpo ao símbolo Che, na entrevista a seguir, feita durante a Mostra de Cinema de São Paulo, em outubro passado.

 

FOLHA – Notou diferença ao interpretar um personagem que de fato existiu em relação aos ficcionais?

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CINEMA/ESTREIAS Crítica/"Che" –  Folha de São Paulo – 27mar2009

Biografia desafia tabus de Hollywood e busca a verdade por trás do guerrilheiro

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Em "Che", o prazer vem em grande medida da coincidência entre o mito e o filme. Steven Soderbergh vê Ernesto Guevara como o seu tempo o enxergou: jovem intrépido, idealista, inteligente, acima da pátria. Em suma, um revolucionário, o revolucionário latino-americano por excelência num tempo em que isso dizia alguma coisa.
"Che" funciona antes de tudo por contraste. Trata-se de mostrar alguém disposto a mudar o mundo, que fazia disso o sentido da existência mesmo que à custa da própria vida. Ainda há algo mais: o reencontro com uma época em que esse tipo de ideal não era uma aberração.
E daí? -pode-se sempre objetar. Com o marxismo fora de combate, o reencontro com um personagem como Che seria inócuo, desprovido de eficácia política. Pode ser. Mas política não é tudo na vida. A verdade é mais. E a empreitada consiste em aproximar mito e fatos, em buscar a verdade de Guevara.
Aqui, encontramos o Che em dois tempos: antes e depois da vitória da Revolução Cubana. Ele começa como um médico disciplinado, mas já líder cuja responsabilidade cresce até tornar-se comandante da guerrilha de Fidel Castro. Depois da vitória, torna-se ministro e responsável por defender Cuba na ONU, quando as Américas unem-se para combatê-la.

Aventura
O filme é um desafio a vários tabus hollywoodianos. O primeiro, biografar sem prejulgamentos um líder político contrário aos EUA. Ou seja, esse Che não é homem admirável pelo seu idealismo e condenável pelas suas crenças. Os dois vão juntos. Ou os mais de dois: o médico, o revolucionário, o estrategista e, por que não, o galã por quem as mulheres ficavam caídas. O segundo tabu não é mais simples de vencer: cercar-se de atores latinos e filmar na língua certa, espanhol.
Estamos no reino da aventura, como em "Onze Homens e um Segredo". Só que agora não se rouba um cassino: toma-se o poder. Não é inconsequente este movimento: existe um bocado de aventura a recuperar na revolução. Nesse sentido, é um filme da euforia: quase o "Cantando na Chuva" de um século que se abre com poucas perspectivas.
Pois o fundamento político do filme está menos nos regimes em causa do que na observação, a partir da trajetória do Che, este Prometeu moderno, de que, se a Revolução Cubana mudou nos últimos 50 anos, e não necessariamente para melhor, o resto do mundo também caminhou, e não necessariamente para frente. A que se opõe Guevara, além do capitalismo? A um mundo de especialistas, de falas autorizadas, de autoridades nisso e naquilo. Ou seja, o nosso.


CHE

Direção: Steven Soderbergh
Produção: EUA, Espanha, França, 2008
Com: Benicio Del Toro, Catalina Sandino Moreno, Rodrigo Santoro
Onde: em cartaz no Espaço Unibanco Augusta, Villa-Lobos e circuito
Classificação: não indicado a menores de 12 anos
Avaliação: ótimo

PARTE DOIS NÃO TEM DATA DE ESTREIA

"A Guerrilha" (2h11 de duração), segunda parte de "Che", enfoca os 341 dias que o guerrilheiro passou na selva boliviana, planejando a revolução naquele país, até ser capturado e morto. O diretor queria lançamento simultâneo dos filmes. No Brasil, não há data fixada para a estreia da parte dois.

 

 
 

SINOPSE

Aos 23 anos, Ernesto Guevara, antes de se tornar "Che", sai de Buenos Aires para uma viagem de moto pela América do Sul com o amigo Alberto Granado

DADOS DO DVD

  • Extras: Três cenas inéditas: "Roubando Vinho" (o jovem Guevara rouba vinho), "Sobrevivendo ao Felix", "O Piloto Cego"; "Ouvindo os Leprosos" (cena que parece improvisada em que Gael ouve testemunho dos doentes); entrevista com Alberto Granado com seqüência de fotos
 
 
 
 
 
 
 
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7 de abril de 2009

DILMA ROUSSEFF

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 9:03 AM

 

Jornalista denuncia má fé da Folha e armadilha contra Dilma – 06/04/2009

Jornalista denuncia má fé do jornal Folha de S.Paulo em matéria que tenta envolver a ministra Dilma Rousseff em um suposto plano para sequestrar Delfim Neto durante a ditadura militar. "Chocou-me a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário", denuncia Antonio Roberto Espinosa.

Redação – Carta Maior

O jornalista Antonio Roberto Espinosa, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), autor de "Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe", encaminhou uma carta à redação da Folha de São Paulo, protestando contra a edição da entrevista por telefone que concedeu ao jornal. Segundo ele, a Folha preparou uma “armadilha” para a ministra Dilma Rousseff usando uma entrevista que concedeu a uma das suas repóteres da sucursal de Brasília. Na carta que encaminhou à redação, ele denuncia a má fé dos editores do jornal. Segue a íntegra da correspondência:

Prezados senhores,

Chocado com a matéria publicada na edição de hoje (domingo, 5), páginas A8 a A10 deste jornal, a partir da chamada de capa “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Neto”, e da repercussão da mesma nos blogs de vários de seus articulistas e no jornal Agora, do mesmo grupo, solicito a publicação desta carta na íntegra, sem edições ou cortes, na edição de amanhã, segunda-feira, 6 de abril, no “Painel do Leitor” (ou em espaço equivalente e com chamada de capa), para o restabelecimento da verdade, e sem prejuízo de outras medidas que vier a tomar. Esclareço preliminarmente que:

1) Não conheço pessoalmente a repórter Fernanda Odilla, pois fui entrevistado por ela somente por telefone. A propósito, estranho que um jornal do porte da Folha publique matérias dessa relevância com base somente em “investigações” telefônicas;

2) Nossa primeira conversa durou cerca de 3 horas e espero que tenha sido gravada. Desafio o jornal a publicar a entrevista na íntegra, para que o leitor a compare com o conteúdo da matéria editada. Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica, inclusive com a abertura dos arquivos da ditadura. Já concedi dezenas de entrevistas semelhantes a historiadores, jornalistas, estudantes e simples curiosos, e estou sempre disponível a todos os interessados;

3) Quem informou à Folha que o Superior Tribunal Militar (STM) guarda um precioso arquivo dos tempos da ditadura fui eu. A repórter, porém, não conseguiu acessar o arquivo, recorrendo novamente a mim, para que lhe fornecesse autorização pessoal por escrito, para investigar fatos relativos à minha participação na luta armada, não da ministra Dilma Rousseff. Posteriormente, por e-mail, fui novamente procurado pela repórter, que me enviou o croquis do trajeto para o sítio Gramadão, em Jundiaí, supostamente apreendido no aparelho em que eu residia, no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro. Ela indagou se eu reconhecia o desenho como parte do levantamento para o seqüestro do então ministro da Fazenda Delfim Neto. Na oportunidade disse-lhe que era a primeira vez que via o croquis e, como jornalista que também sou, lhe sugeri que mostrasse o desenho ao próprio Delfim (co-signatário do Ato Institucional número 5, principal quadro civil do governo ditatorial e cúmplice das ilegalidades, assassinatos e torturas).

Afirmo publicamente que os editores da Folha transformaram um não-fato de 40 anos atrás (o seqüestro que não houve de Delfim) num factóide do presente (iniciando uma forma sórdida de anticampanha contra a Ministra). A direção do jornal (ou a sua repórter, pouco importa) tomou como provas conclusivas somente o suposto croquis e a distorção grosseria de uma longa entrevista que concedi sobre a história da VAR-Palmares. Ou seja, praticou o pior tipo de jornalismo sensacionalista, algo que envergonha a profissão que também exerço há mais de 35 anos, entre os quais por dois meses na Última Hora, sob a direção de Samuel Wayner (demitido que fui pela intolerância do falecido Octávio Frias a pessoas com um passado político de lutas democráticas). A respeito da natureza tendenciosa da edição da referida matéria faço questão de esclarecer:

1) A VAR-Palmares não era o “grupo da Dilma”, mas uma organização política de resistência à infame ditadura que se alastrava sobre nosso país, que só era branda para os que se beneficiavam dela. Em virtude de sua defesa da democracia, da igualdade social e do socialismo, teve dezenas de seus militantes covardemente assassinados nos porões do regime, como Chael Charles Shreier, Yara Iavelberg, Carlos Roberto Zanirato, João Domingues da Silva, Fernando Ruivo e Carlos Alberto Soares de Freitas. O mais importante, hoje, não é saber se a estratégia e as táticas da organização estavam corretas ou não, mas que ela integrava a ampla resistência contra um regime ilegítimo, instaurado pela força bruta de um golpe militar;

2) Dilma Rousseff era militante da VAR-Palmares, sim, como é de conhecimento público, mas sempre teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares. O responsável nacional pelo setor militar da organização naquele período era eu, Antonio Roberto Espinosa. E assumo a responsabilidade moral e política por nossas iniciativas, denunciando como sórdidas as insinuações contra Dilma;

3) Dilma sequer teria como conhecer a idéia da ação, a menos que fosse informada por mim, o que, se ocorreu, foi para o conjunto do Comando Nacional e em termos rápidos e vagos. Isto porque a VAR-Palmares era uma organização clandestina e se preocupava com a segurança de seus quadros e planos, sem contar que “informação política” é algo completamente distinto de “informação factual”. Jamais eu diria a qualquer pessoa, mesmo do comando nacional, algo tão ingênuo, inútil e contraproducente como “vamos seqüestrar o Delfim, você concorda?”. O que disse à repórter é que informei politicamente ao nacional, que ficava no Rio de Janeiro, que o Regional de São Paulo estava fazendo um levantamento de um quadro importante do governo, talvez para seqüestro e resgate de companheiros então em precárias condições de saúde e em risco de morte pelas torturados sofridas. A esse propósito, convém lembrar que o próprio companheiro Carlos Marighela, comandante nacional da ALN, não ficou sabendo do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Por que, então, a Dilma deveria ser informada da ação contra o Delfim? É perfeitamente compreensível que ela não tivesse essa informação e totalmente crível que o próprio Carlos Araújo, seu então companheiro, diga hoje não se lembrar de nada;

4) A Folha, que errou a grafia de meu nome e uma de minhas ocupações atuais (não sou “doutorando em Relações Internacionais”, mas em Ciência Política), também informou na capa que havia um plano detalhado e que “a ação chegou a ter data e local definidos”. Se foi assim, qual era o local definido, o dia e a hora? Desafio que os editores mostrem a gravação em que eu teria informado isso à repórter;

5) Uma coisa elementar para quem viveu a época: qualquer plano de ação envolvia aspectos técnicos (ou seja, mais de caráter militar) e políticos. O levantamento (que é efetivamente o que estava sendo feito, não nego) seria apenas o começo do começo. Essa parte poderia ficar pronta em mais duas ou três semanas. Reiterando: o Comando Regional de São Paulo ainda não sabia com certeza sequer a freqüência e regularidade das visitas de Delfim a seu amigo no sítio. Depois disso seria preciso fazer o plano militar, ou seja, como a ação poderia ocorrer tecnicamente: planejamento logístico, armas, locais de esconderijo etc. Somente após o plano militar seria elaborado o plano político, a parte mais complicada e delicada de uma operação dessa natureza, que envolveria a estratégia de negociações, a definição das exigências para troca, a lista de companheiros a serem libertados, o manifesto ou declaração pública à nação etc. O comando nacional só participaria do planejamento , portanto, mais tarde, na sua fase política. Até pode ser que, no momento oportuno, viesse a delegar essa função a seus quadros mais experientes, possivelmente eu, o Carlos Araújo ou o Carlos Alberto, dificilmente a Dilma ou Mariano José da Silva, o Loiola, que haviam acabado de ser eleitos para a direção; no caso dela, sequer tinha vivência militar;

6) Chocou-me, portanto, a seleção arbitrária e edição de má-fé da entrevista, pois, em alguns dias e sem recursos sequer para uma entrevista pessoal – apelando para telefonemas e e-mails, e dependendo das orientações de um jornalista mais experiente, no caso o próprio entrevistado -, a repórter chegou a conclusões mais peremptórias do que a própria polícia da ditadura, amparada em torturas e num absurdo poder discricionário. Prova disso é que nenhum de nós foi incriminado por isso na época pelos oficiais militares e delegados dos famigerados Doi-Codi e Deops e eu não fui denunciado por qualquer um dos três promotores militares das auditorias onde respondi a processos, a Primeira e a Segunda auditorias de Guerra, de São Paulo, e a Segunda Auditoria da Marinha, do Rio de Janeiro.

Osasco, 5 de abril de 2009

Antonio Roberto Espinosa

Jornalista, professor de Política Internacional, doutorando em Ciência Política pela USP, autor de Abraços que sufocam – E outros ensaios sobre a liberdade e editor da Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.

 
 

"Folha produz manchete para aparecer na propaganda de Serra"

Neste domingo, tivemos mais um capítulo da Operação 2010 patrocinada pela Folha de São Paulo. A quem serve a manchete que o jornal pôs em sua primeira página? "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto", diz o jornal da famílias Frias. No texto da primeira página, e na matéria interna, há a negativa de Dilma. Mas, a manchete está aí: prontinha pra ser usada no programa eleitoral em 2010. O artigo é de Rodrigo Vianna.

Rodrigo Vianna

Do blog Escrevinhador, de Rodrigo Vianna:

A Operação 2010 já começou. Neste domingo, tivemos mais um capítulo, na "Folha". A quem serve a manchete que o jornal pôs em sua primeira página? "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto", diz o jornal da família Frias.

Vejam: trata-se de uma afirmação. O jornal não atribui a informação, no título, a ninguém. Afirma. E ponto.

No texto da primeira página, e na matéria interna, há a negativa de Dilma. Mas, a manchete está aí: prontinha pra ser usada no programa eleitoral em 2010.

Serra sabe que não poderá atacar Lula (o presidente seguirá popular até 2010). O negócio é desconstruir Dilma. Colar nela a imagem de "guerrilheira".

Ah, dirão alguns: a "Folha" fez só o seu trabalho. Expôs fatos. Trouxe de volta a "memória da ditadura". Esse é o "chapéu" (pequeno título) que aparece acima da matéria, nas páginas internas da "Folha".

Louvo o objetivo do jornal. A "Folha" quer vasculhar a "memória da ditadura"? Ótimo! Mas, queremos memórias completas. Não pedaços de dossiês, vazados sob interesse eleitoral. Queremos memórias completas também sobre a atuação de empresários como Otávio Frias no apoio a torturadores aqui no Brasil. Material e testemunhas não faltam.

Mas, voltando à “reportagem” sobre Dilma: a ministra reagiu à repórter e ao jornal. Dilma não é besta. Sabe o que se arma contra ela.

Gostei de uma das respostas que ela deu à repórter. "minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado (…) Não dá pra chamar de ditabranda, não."

A moça da “Folha” também perguntou se Dilma faz “mea culpa” por ter feito guerrilha.

A “Folha” quer “mea culpa” dos outros. E o “mea culpa” do jornal sobre seu apoio a torturadores?

“Cidadão Boilesen” ganhou prêmio de “melhor filme no festival “É tudo Verdade”. Agora, falta um outro filme: “Cidadão Frias”.

 
 
FOLHA DE SÃO PAULO, 05-04-2009
O texto abaixo contém um Erramos, clique aqui para conferir a correção na versão eletrônica da Folha de S.Paulo.

MEMÓRIA DA DITADURA

Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim

Ex-integrante da cúpula da organização terrorista dá detalhes do plano, do qual a ministra declara jamais ter tido conhecimento

Delfim confirma localização de sítio mostrado em um mapa, apreendido durante a ditadura, que indicava onde o sequestro seria realizado

FERNANDA ODILLA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Luiza, 22, abandonou a faculdade de economia e agora sabe montar e desmontar um fuzil de olhos fechados. Na clandestinidade, seu grupo planeja uma das ações ousadas da luta armada em 1969 contra a ditadura militar: o sequestro de Delfim Netto, símbolo do milagre econômico e civil mais poderoso do governo federal.
Quarenta anos depois, o antigo alvo é agora aliado de Luiza, aliás Dilma Rousseff, na empreitada que tenta fazer da ex-guerrilheira, também conhecida à época como Estella, Wanda, Marina e Patrícia, a sucessora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ambicioso sequestro era uma espécie de "lenda urbana" entre poucos militantes de esquerda nos anos 70. Sem mencionar o nome de Dilma, foi citado de passagem no livro "Os Carbonários" (1981), do hoje vereador carioca Alfredo Sirkis (PV), e esquecido. Na página 180, há uma citação ao possível sequestro do ministro: "Preparavam, na época, o sequestro do ministro Delfim Netto". A Folha obteve documentos inéditos e o primeiro testemunho de um dos idealizadores do plano.
Antonio Roberto Espinosa, 63, doutorando em Relações Internacionais na USP, contou à reportagem segredos que diz não ter revelado sob tortura. Ex-comandante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), assumiu que coordenou o plano.
Mais: afirmou que os quatro outros integrantes da cúpula da VAR-Palmares concordaram com o sequestro do então ministro da Fazenda, que sustentava a popularidade dos generais com um crescimento econômico de 9,5% em 1969.
"O grupo foi informado. Os cinco [ele, Dilma e os outros três dirigentes da VAR] sabiam", disse Espinosa, no primeiro relato que aponta o envolvimento de Dilma, negado, porém, "peremptoriamente" pela ministra à Folha.
Em um dos processos que condenou militantes da VAR, consultados no Superior Tribunal Militar, há um mapa da emboscada e outro que sugere o local do cativeiro do sequestro planejado.
A ação tinha data e local definidos. Seria num final de semana de dezembro, durante uma das visitas do ministro a um sítio no interior de São Paulo.

A "juba", o cofre, o Fusca
Em 1969, a hoje ministra experimentava a vida clandestina com audácia. No Rio de Janeiro, ela e a amiga Iara Iavelberg, namorada do líder guerrilheiro Carlos Lamarca, foram cortar o cabelo no salão Jambert, que servia champanhe aos clientes. Iara, de acordo com o livro "Iara – Reportagem Biográfica", de Judith Patarra (editora Rosa dos Tempos), quis arrumar a "juba fora de moda" da companheira -para valorizar o rosto e os olhos dela- e sugeriu também roupas novas.
A extravagância foi bancada depois da ação que deu fama à VAR-Palmares: o assalto ao cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, guardado na casa da amante dele, com cerca de US$ 2,4 milhões. Dilma não participou diretamente do crime.
Mas, de acordo com depoimentos e relatórios policiais, ela administrou parte do dinheiro roubado para bancar salários de militantes, achar abrigo para eles e comprar um Fusca cinza. Como não sabia dirigir, ela escalava uma colega da VAR como motorista.
Do carro, Dilma se lembra. Do dinheiro, não. "Não me lembro que eu era do dinheiro. Se fosse, eles tinham me matado a pau. Tudo o que eles queriam era o dinheiro", afirma.
Dilma-Luiza havia chegado ao comando da organização após um racha que, logo depois do roubo do cofre, levara à saída de Lamarca, Iara e um expressivo grupo de militantes em um tumultuado congresso em Teresópolis (RJ).
A ministra ficou na VAR, trocou o Rio por São Paulo e assumiu a missão de evitar debandada ainda maior.
A VAR priorizava o recrutamento de estudantes e de operários, sem abandonar os planos de ações armadas esporádicas. De forma colegiada, de acordo com Espinosa, a cúpula decidiu sequestrar Delfim e montar uma fábrica de explosivos acionados por controle remoto em uma fazenda na serra da Mantiqueira (entre São Paulo e Minas Gerais).
Além de Dilma, assumiram o comando do grupo Espinosa (Hélio), Carlos Araújo (codinome Max, o segundo marido da ministra) e os hoje mortos Carlos Alberto Soares de Freitas (Breno) e Mariano Joaquim da Silva (Loyola).
Ouvido pela Folha, Araújo afirmou que não se recorda do plano nem de nenhuma ação armada depois do racha. Ressaltou, no entanto, que não é "boa fonte", pois perdeu parte da memória do período depois de ter sido torturado.
Ao longo de uma hora de conversa com a Folha, Dilma disse algumas vezes não se lembrar da ideia de capturar o ministro e duvidar "que alguém lembre".
Ao saber do testemunho dado por Espinosa, ela declarou que o ex-colega "fantasiou". No final da entrevista, pediu que registrasse a sua "negativa peremptória".

O sítio, o plano, a queda
Classificado como "alvo fácil" por militantes e militares, Delfim era também um alvo antigo. Antes da fusão entre Colina (Comando de Libertação Nacional) e VPR, que resultou na VAR-Palmares, Juarez Guimarães de Brito, militante da Colina e mentor do roubo ao cofre de Adhemar, havia utilizado o emprego no Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) para levantar os passos do pai do milagre econômico.
O sequestro nunca foi executado porque os principais envolvidos na ação começaram a ser presos semanas antes.
Coordenador do plano, Espinosa foi capturado em 21 de novembro de 1969, no Rio. "Ainda levaria 15 ou 20 dias. Aconteceria por volta de dezembro. O comando nacional sabia, não houve nenhum veto. Mas não detalhou o plano do ponto de vista político. Havia uma preparação militar que não estava concluída", disse ele.
Caberia aos outros integrantes do comando nacional decidir os procedimentos políticos, como o conteúdo do manifesto e as exigências para libertar o refém. A repressão, contudo, foi mais rápida.
O mapa com a indicação do local onde a organização planejava agir foi apreendido em um "aparelho" em Lins de Vasconcelos, no Rio. Dividiam a casa de dois andares o casal Espinosa e Maria Auxiliadora Lara Barcelos, além do estudante de medicina Chael Schreier, que foi preso vivo e chegou morto ao Hospital Central do Exército. Com o trio, foi encontrado um arsenal de armas, munições e explosivos, além de levantamentos de áreas onde o grupo tencionava agir.
Espinosa disse à Folha que os mapas apreendidos só podiam ser os dele. "Tínhamos o endereço, sabíamos tudo. Era um local em que ele [Delfim] ia sem segurança porque imaginava que ninguém soubesse."
A Folha encaminhou cópia do mapa a Delfim, que confirmou ter frequentado um sítio na região indicada em vermelho de forma simplificada na folha de papel já amarelada. Trata-se do Sítio Gramadão (cujo nome aparece no mapa), de propriedade do cunhado e melhor amigo, Mario Nicoli, próximo a Itu e Jundiaí, no interior paulista.
Delfim contou à Folha que recebeu recomendações para redobrar o cuidado diante da onda de atentados promovida pela esquerda contra o regime. Mas disse não saber do plano da VAR e que nunca deixou de andar com pouca, ou nenhuma, segurança.

Ex-guerrilheira é elogiada por militares e vista como "cérebro" do grupo

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Gritos de "mata", "tira a roupa" e "terrorista filha da puta" receberam Luiza-Dilma no primeiro dia de prisão no pátio do prédio da rua Tutoia, no Paraíso, zona sul de São Paulo. No local funcionava a Oban, sigla da Operação Bandeirante, estrutura que integrava as polícias civis e os serviços de inteligência das Forças Armadas.
As sessões de palmatórias, choques, chutes e socos até hoje são tratadas com reticências pela ex-guerrilheira. "Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha." Segundo o Tortura Nunca Mais, ela ficou 22 dias no local. Para Dilma, "foi muito tempo" a ponto de não entender por que todo mundo ia embora, menos ela.
"A Oban era pau, puramente interrogatório. O preso ficava lá até considerarem que não havia mais como conseguir informações", recorda o hoje economista José Olavo Leite Ribeiro.
A ministra foi uma guerrilheira que até hoje impressiona os militares. Colecionou epítetos superlativos nos relatórios da repressão, que a definiram como "um dos cérebros" de esquemas revolucionários.
"Era a grande dirigente da VAR-Palmares. Era realmente boa guerrilheira. A gente tem que respeitar ambos os lados", disse à Folha Maurício Lopes Lima, integrante de uma equipe de busca da Oban, na época capitão do Exército e agora militar da reserva de 73 anos.
Foi a primeira vez que aceitou falar de Dilma. Ele nega tê-la torturado, mas não diz o mesmo dos colegas. "A história dela era furada demais."
Com a militante a tiracolo, ele visitou diferentes pontos de São Paulo em busca de informações. "Ela se preparou mais para jogar conosco. É gato e rato. Ela tenta fugir, a gente tenta encontrar", explicou ele.
À Justiça Militar Dilma citou Lima como um dos torturadores. Disse ter recebido visita no presídio Tiradentes, onde ficou por três anos, da equipe chefiada pelo capitão, que a ameaçou com novas agressões uma semana antes desse depoimento, em 21 de outubro de 1970. À Folha, porém, ela afirmou que o militar jamais a torturou, mas não o eximiu de responsabilidade. "Ele entrava na sala e via tortura, tenho certeza."

Depoimento
Em 26 de fevereiro, 40 dias depois de presa, Dilma havia assinado depoimento à Polícia Civil com detalhes de sua trajetória e nomes de colegas das organizações em que militou.
Diante da Justiça Militar, ela reconheceu sua assinatura, mas repeliu todas as declarações -segundo ela, obtidas sob tortura. A Folha obteve a íntegra dos dois depoimentos, assim como dos relatórios dos órgãos da repressão que mencionam Dilma, hoje arquivados no Superior Tribunal Militar.
Em 20 de janeiro de 1969, sem saber que ela estava presa, o operário Natael Custódio foi a um encontro marcado com Luiza-Dilma. Foi capturado. "Ela foi muito torturada e levou a polícia. Não teve jeito", diz o agora caminhoneiro que vive em Londrina (PR).
Custódio, 65, não se diz atormentado com o passado. Lamenta, sim, o fato de a ministra nunca ter respondido a carta que ele enviou. "Depois que chegam lá em cima, fica difícil. Mas gosto demais dela." O caminhoneiro há cinco anos escreveu pedindo ajuda para ser anistiado. Ainda não desistiu de receber a indenização.
Quando ficou presa no prédio da Oban, Dilma indicou endereços e acompanhou policiais a ao menos uma casa de militantes. Segundo ela, indicavam-se "pontos [local de encontro] para parar de apanhar". Custódio, contudo, não é um dos quatro nomes de companheiros presos logo depois da captura da guerrilheira. No depoimento da auditoria militar, Dilma citava que "em consequência direta de sua queda caíram Maria Joana [Teles Cubas], João Ruaro, Savério [Carlos Savério Ferrante] e Vicente [José Vicente Corrêa]".
Dilma confirmou à Folha ter dito que os quatro colegas caíram porque ela havia sido presa. "É. Caíram, ponto." A reportagem localizou Ferrante, que não quis falar sobre a prisão.
Para o delegado Newton Fernandes, que investigou a VAR em São Paulo e traçou o perfil de 30 dos 70 integrantes, Dilma era muito mais do que a responsável pela distribuição do dinheiro. "Através de seu interrogatório, verifica-se ser uma das molas mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais", diz no relatório, cujo conteúdo nem a ministra conhecia.
O promotor que denunciou a VAR disse que Dilma "chefiou greves e assessorou assaltos a bancos" e a definiu como "Joana d’Arc da subversão". A comparação hoje provoca gargalhadas da ministra. (FO)

 

MEMÓRIA DA DITADURA

Aos 19, 20 anos, achava que eu estava salvando o mundo

Dilma diz não ter a mesma cabeça da época em que era guerrilheira, mas se orgulha de não ter mudado de lado, e sim de métodos

Reprodução

Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu

FERNANDA ODILLA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

UMA DAS três sentenças de prisão de Dilma Rousseff, de 1971, a descreve como a inimiga que "jamais esmoreceu" desde que ingressou na luta armada contra o regime instalado pelo golpe de 31 de março de 1964 e dissolvido 21 anos depois. Leia a entrevista da ministra sobre a vida na clandestinidade durante a ditadura.

FOLHA – A sra. se lembra dos planos para sequestrar Delfim e montar fábrica de explosivos?
DILMA ROUSSEFF
– Ah, pelo amor de Deus. Nenhuma das duas eu lembro. Nunca ninguém do Exército, da Marinha e da Aeronáutica me perguntou isso. Não sabia disso. Acho que não era o que a gente [queria], não era essa a posição da VAR.

FOLHA – A sra. logo percebeu que a clandestinidade seria o caminho natural?
DILMA
– Percebi. Todo mundo achava que podia haver no Brasil algo muito terrível. O receio de que um dia eles amanheceriam e começariam a matar era muito forte. Sou bem velha, comecei em 1964. Com o passar do tempo, o Brasil foi se fechando, as coisas foram ficando cada vez mais qualificadas como subversivas. Era subversivo até uma música, uma peça de teatro, qualquer manifestação de rua. Discutir reforma universitária era subversivíssimo. Coisas absolutamente triviais hoje eram muito subversivas.

FOLHA – Foi escolha da sra. o trabalho no setor de mobilização urbana?
DILMA
– Qual era a outra alternativa?

FOLHA – Havia a expropriação.
DILMA
– Disso eu nunca quis ser. Nós não achávamos isso grande coisa. A partir de um determinado momento houve uma visão crítica disso, do que a gente chamava militarismo. É muito difícil falar isso porque as pessoas ficam achando que a gente está limpando a barra. Não me interessa ficar falando nisso, é da época e deu. Eu sei que havia uma tensão eterna. Nunca concordávamos uns com os outros porque pensávamos diferente. Bota todo mundo junto, você imagina. Não posso dizer o que aconteceu dentro da direção.

FOLHA – No Rio, a sra. acompanhou a fusão e acompanhou o racha [da VAR] em Teresópolis.
DILMA
– Na minha cabeça, eu só lembro que a gente conversava e discutia muito, debatia. Tinha uma infraestrutura complexa porque a gente não saía de lá, não podia aparecer. Bom não era. Mas, naquela época, você achava que estava fazendo tudo pelo bem da humanidade. Nunca se esqueça que a gente achava que estava salvando o mundo de um jeito que só acha aos 19, 20 anos. Sem nenhum ceticismo, com uma grande generosidade. Tudo fica mais fácil. Tudo fica mais justificado, todas as dificuldades. Você não ter roupa não tem problema. Às vezes, andava com uma calça xadrez e uma blusa xadrez.

FOLHA – A sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?
DILMA
– Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. Seria estranho que tivesse a mesma cabeça. Seria até caso patológico. As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão. Inclusive, por causa daquilo, eu entendi muito mais coisas.

FOLHA – Como o quê?
DILMA
– O valor da democracia, por exemplo. Por causa daquilo, eu entendi os processos absolutamente perversos. A tortura é um ato perverso. Tem um componente da tortura que é o que fizeram com aqueles meninos, os arrependidos, que iam para a televisão. Além da tortura, você tira a honra da pessoa. Acho que fizeram muito isso no Brasil. Por isso, minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Não dá para chamar isso de ditabranda, não.

FOLHA – Quando a sra. foi presa, foram apreendidos documentos falsos, desenho da VAR e um bilhete de amor com as iniciais TG. Era do Cláudio Galeno Linhares?
DILMA
– Não, era do Carlos Araújo. Era apelido dele. Se você quiser me mandar, eu agradeço. Onde que está isso, hein?

FOLHA – No inquérito arquivado no STM. O bilhete está assim: "Nêga querida, infelizmente não poderei estar aí [no Natal]. Verás na prática, prometo-te…" DILMA – Essa quantidade de te, você acha que é de mineiro, pô? Isso é de gaúcho. Tudo no te… Não falei do Carlos no depoimento. Eles acreditavam que era o Galeno. Carlos era da direção, eu não podia abrir a boca. Depois eles descobriram.

FOLHA – Como foi, durante os dias de Oban, para conseguir proteger a direção? Pelo que vi, alguns nomes não foi possível proteger como Maria Joana Telles, Ruaro, Vicente…
DILMA
– Eles sabiam deles porque tinha caído outra pessoa que era da direção. Foi por isso que caí. Eu caí porque caiu outra pessoa.

FOLHA – Era com quem a sra. teria um encontro. O José Olavo?
DILMA
– Essas coisas eu não quero falar, minha filha. Não quero dar responsabilidade para ninguém. Estou muito velha para fazer isso.

FOLHA – No depoimento da Justiça, a sra. cita os quatro como tendo caído em consequência direta de sua queda. A sra. dá os quatro nomes?
DILMA
– É. Caíram, ponto.

FOLHA – Eu conversei com o hoje coronel, antigo capitão Maurício… DILMA – Ele existe ainda? Ele já não batia bem da bola. Ele continua sem bater?

FOLHA – Eu perguntei se ele votaria na sra. para presidente. Primeiro, disse não. Depois, pediu para retificar dizendo que "depende com quem vai concorrer".
DILMA
– Minha querida, pelo amor de Deus. A vida é um pouquinho mais complicada que isso. Mas respeito o que ele falou.

FOLHA – Ele participava das sessões [de tortura]?
DILMA – Ele era da equipe de busca, nunca participou. Mérito dele. Pelo menos enquanto estive na Oban. Não posso dizer depois. Você tinha aquele negócio de dar ponto para parar de apanhar, e ele levava as pessoas. Ele fez a busca em toda a minha casa. Pegava minhas coisas e perguntava sobre elas.

FOLHA – No depoimento à Justiça, a sra. cita ele como responsável pelas sessões de torturas.
DILMA
– Que ele torturava pessoalmente, nunca vi. A mim não foi. Que ele entrava na sala e via tortura, tenho certeza. Qualquer um entrava. Te torturavam com a porta aberta.

FOLHA – Li uma entrevista em que a sra. diz que fez treinamento no exterior, mas não consegui encontrar o período em que isso pode ter acontecido. Deu tempo de sair do Brasil para treinar?
DILMA
– Acho engraçadíssimo porque quando me perguntaram isso, eu neguei que tivesse feito. É que nem aquela lista que sai aí dizendo que eu fiz dez assaltos armados. Nunca fiz uma ação armada. Se tivesse feito, eu estaria condenada por isso. É a mesma coisa essa história do treinamento. Nunca fiz nem treinamento no exterior nem ação armada. É só perguntar para as pessoas.

FOLHA – Incomoda a sra. atribuírem essas ações a seu nome?
DILMA
– É chato. Não sou supermulher para dizer que não me incomoda. Agora não perco a cabeça por isso. Estão mentindo, têm segunda intenção.

FOLHA – Não teve treinamento no exterior, mas o básico todo mundo sabia como montar e desmontar uma arma. Era questão de segurança do dia a dia?
DILMA
– Sempre fui muito dedicada, mas não achava isso grande coisa. Nunca fiquei avaliando se devia fazer isso ou aquilo. Não se colocava assim para nós. Falavam assim: "Vai ali e aprende a montar e desmontar a arma". Você ia e aprendia. "Vai ali e escreve um documento." Você também ia.

FOLHA – Como era o dia a dia da prisão? Algumas companheiras de cela dizem que a sra. dava aula de macroeconomia, mas não gostava muito dos trabalhos manuais de tricô e crochê…
DILMA
– Aprendi bem. Sei fazer tricô e crochê. Você sabe que faço tapete? Mas não aprendi tapete lá, não. Fazia muito bem crochê. Podem falar que eu não fazia… (risos) No fim, gostava de fazer crochê. A gente lia muito, escutava muita música, conversava muito, jogava vôlei. [As aulas] estão fantasiando…

FOLHA – A sra. tinha consciência que continuava na mira da polícia mesmo depois da prisão?
DILMA
– Tinha. Não podia fazer aniversário que ficavam pendurados nas árvores, olhando.

FOLHA – Quando tem o racha, quem assume a VAR?
DILMA
– Não me lembro. Se o Espinosa tá dizendo que eu estava… Não sei se fui, se não fui [do comando]. É um período muito pequeno até a queda. Fui uma das primeiras a cair. Eu lembro que eu fui em outubro para São Paulo e nunca mais voltei [ao Rio]. Fiquei lá junto com todo mundo que dirigia a VAR na época. Só me lembro do José Olavo e de mais um. Tinha mais. Tinha quatro.

FOLHA – Muita gente dizia que a sra. era a responsável pelo dinheiro da organização. A sra. era o caixa de São Paulo, para manter militantes, aparelhos?
DILMA
– Também não me lembro disso, não, que eu era do dinheiro. Se eu fosse do dinheiro, eles tinham me matado a pau. Tudo o que eles queriam era o dinheiro. Não lembro isso, não. Não me lembro de ter caído com um tostão. Se eu tivesse dinheiro, ia ser um festival.

FOLHA – O delegado ficou bem impressionado com a sra. depois do interrogatório. A ponto de defini-la como uma pessoa com dotação intelectual apreciável.
DILMA
– Interessante… Da onde ele tirou isso, né? Nem me lembro dele. A gente não dava importância para o delegado do Dops, só para a Oban. Deve ter vindo da Oban. Tinha um juiz auditor louco (risos). Ele fez uma denúncia dizendo que eu era a Joana d’Arc do terror. Era ridículo. Ele era dado a essas…

FOLHA – É muito divertido o perfil que o delegado traça.
DILMA
– Essa parte não era pública, essa parte do delegado. Você conseguiu um documento único. A Oban classificava a gente pelo nível de perigo. O major Linguinha [Waldir Coelho] só interrogava quem ele achava que era direção. Ele falava comigo sempre.

FOLHA – A sra. não pegou o delegado Sérgio Fleury no Dops?
DILMA
– Quando entrei no Dops, o Fleury estava em viagem. Passei quase um mês na Oban e um mês no Dops. Eu custei a ir embora da Oban. Achava estranho eu não ir embora. Todo mundo ia, e eu ficava. Eu não lembro a data. Vai ficando muito obscuro, como foi e como é que não foi.

FOLHA – Vocês passavam por um treinamento intensivo para deletar as coisas. Tinha que esquecer para não contar?
DILMA
– Uma parte você tentava esquecer. Sabe que teve uma época em que eu falei uma coisa que eu achava que era verdade e não era. Era mentira que eu tinha contado e aí depois eu descobri que era mentira. Você conta e se convence.

FOLHA – Informação obtida sob tortura é de responsabilidade de quem tortura e não de quem fala? Dá para culpar a pessoa que falou?
DILMA
– Não dá mesmo. Até porque ali, naquela hora, tinha uma coisa muito engraçada que eu vi. Aconteceu com muita gente, não foi só comigo. É por isso que aquela pergunta é absurda, a do senador [Agripino Maia, do DEM]. A mentira é uma imensa vitória e a verdade é a derrota. Na chegada do presídio [Tiradentes], estava escrito "Feliz do povo que não tem heróis", que era uma frase do Brecht que tem um sentido amplo. Esse fato de não precisar de heróis mostra uma grande civilidade. É preciso que cada um tenha um pouco de heroísmo.

FOLHA – Quando a sra. chegou à Oban, houve muitos gritos?
DILMA
– Teve. Fazia parte do script. É uma luta eterna entre a sua autodestruição e sua luta para ficar inteiro psicologicamente. A palavra correta é uma disputa moral no sentido amplo da palavra moral. É uma disputa entre éticas diferentes, entre princípios diferentes. Uma pessoa que se dispõe a fazer a outra ter dor tem um processo de difícil identificação. Fico imaginando o que foi Abu Ghraib, porque bota de um lado americanos e de outro lado um outro mundo. Você tem de ser desqualificado como ser humano para ser torturado, santa, senão você não é.

FOLHA – E a família da sra., como reagiu a isso tudo?
DILMA
– Minha mãe foi absolutamente fantástica. Eles tinham horror de mãe.

FOLHA – Só para deixar claro, a sra. não se recorda desse plano para sequestrar o Delfim?
DILMA
– Não. Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. E acho que não compadece com a época, entendeu? Nós acabamos de rachar com um grupo, houve um racha contra a ação armada e vai sequestrar o Delfim? Tem dó de mim. Alguém da VAR que você entrevistou lembrava-se disso? Isso é por conta do Espinosa, santa. Ao meu conhecimento jamais chegou. Não me lembro disso, minha filha. E duvido que alguém lembre. Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim. Agora é o sequestro do Delfim? Ele vai morrer de rir.

FOLHA – De qualquer forma, obrigada por tocar nesse assunto delicado…
DILMA
– Eu estou te fazendo uma negativa peremptória. Para mim, não disseram. Tá?

 

3 de abril de 2009

CRISIS – G20 – FOLHA + globalresearch

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:54 PM
 
World Depression: Regional Wars and the Decline of the US Empire

– by Prof. James Petras – 2009-03-30
A world depression, in which upward of a quarter of the world’s labor force will be unemployed, is looming.
 
 
Geithner’s ‘Dirty Little Secret’: The Entire Global Financial System is at Risk

– by F. William Engdahl – 2009-03-30
Another intricate scheme to pour hundreds of billions more to the leading Wall Street banks responsible for the current mess …
 
 
The U.S. payments deficit stems from military spending.
 
 
Preparing for Civil Unrest in America

– by Michel Chossudovsky – 2009-03-18
Legislation to Establish Internment Camps on US Military Bases
 
 
The G20 moves the world a step closer to a global currency

The world is a step closer to a global currency, backed by a global central bank, running monetary policy for all humanity.
– by Ambrose Evans-Pritchard – 2009-04-03
 
 
 
 
 
03-04-2009 – folha
CÚPULA GLOBAL

Consenso de Washington acabou, diz Brown

Premiê britânico, anfitrião do G20, vê "começo" de virada" na crise e puxa coro de elogios de líderes ao resultado do encontro

Obama cita "a mais firme e rápida resposta internacional da história a uma crise internacional", e assessores veem tensões superadas

PEDRO DIAS LEITE
DE LONDRES

Anfitrião do encontro mais importante até agora para tentar resolver a pior crise econômica em décadas, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, decretou ontem o fim do Consenso de Washington, enquanto os principais líderes mundiais eram unânimes em anunciar que a cúpula de Londres do G20 era o "começo da virada".
"O velho Consenso de Washington acabou. Hoje, chegamos a um novo consenso, de que tomamos ação global conjunta para lidar com os problemas que enfrentamos", disse Brown, sobre o receituário liberal hegemônico na América Latina na década de 1990. Agora, afirma o primeiro-ministro trabalhista, tem início a era da cooperação.
Uma das principais preocupações dos líderes mundiais era justamente que o encontro fosse considerado um sucesso -ele ao menos ajudou a turbinar os principais mercados acionários ontem- e por isso um se esforçava mais que o outro para destacar o caráter "histórico" da reunião.
Por trás dos sorrisos na frente das câmeras, nos bastidores a reunião foi "tensa" até os últimos minutos, como revelavam integrantes das comitivas e até alguns dos líderes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou uma discussão entre Brown e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e fontes norte-americanas tentavam dizer que o presidente Barack Obama foi "fundamental" para o final feliz.
Em sua estreia no palco mundial de uma grande reunião multilateral, Obama afirmou que a cúpula era "a hora da virada em nossa busca pela recuperação global", com "a mais firme e rápida resposta internacional da história a uma crise internacional".
Já o francês Sarkozy deixou de lado as ameaças pré-reunião, quando chegou a dizer que podia abandonar o encontro se não gostasse do seu encaminhamento, e tratou de reivindicar parte da responsabilidade pelo desfecho.
Defendeu a pressão que fez ao lado da Alemanha por mais regulação e chegou até a trazer à tona a comparação com Bretton Woods (o encontro em 1944 que definiu as instituições da economia internacional pelas décadas subsequentes), que tinha praticamente desaparecido desde o primeiro encontro do G20 sobre a crise, em novembro passado. Afirmando que era a maior reforma do sistema desde então, falou que acabou "a loucura da desregulação total".
Lula também tirou sua casquinha e afirmou: "Fizemos um momento muito importante na história do mundo".
Nas semanas que antecederam a cúpula, líderes de todo o planeta demonstravam apreensão sobre qual seria a recepção dos mercados e do público para o que quer que fosse anunciado ao final da reunião.
Questionado por repórteres, na semana que antecedeu o encontro, sobre o que seria fundamental para que fosse um "sucesso", Brown foi sincero: "Que vocês digam que foi um sucesso".

Lula se gaba de empréstimo para turbinar o FMI

DE LONDRES

O primeiro empréstimo do Brasil ao FMI (Fundo Monetário Internacional) ainda depende de uma decisão fundamental: como fazê-lo de modo que o valor não seja contabilmente descontado das reservas do país.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que técnicos da sua pasta estudam a possibilidade de o Brasil investir em títulos do próprio FMI e se esse valor poderia ser contado como "investimento" -o que permitiria, ao menos pelo lado técnico, que o dinheiro continuasse sendo contado normalmente nas reservas.
O valor do aporte ainda não foi revelado, e Mantega disse que só vai definir o montante depois de conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro se recusou a dizer até em torno de que patamar seria a contribuição, mas aproveitou para cutucar a China, que teria prometido aporte de US$ 40 bilhões. "Se eu tivesse US$ 2 trilhões de reservas, com certeza daria mais."
O anúncio deve sair nos próximos dias. Como condição, o dinheiro deverá servir para ajudar países emergentes, especialmente os latinos.
"Gostaria de passar para a história como o presidente que emprestou dinheiro ao FMI", disse Lula, que já usou amplamente na campanha de 2006 o fato de ter quitado o empréstimo contraído por Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com o Fundo. "Você não acha chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI? Não é uma coisa soberana?", brincou o presidente.
Apesar do tom geral de otimismo, o brasileiro deixou uma porta aberta para tempos mais difíceis: "Agora não precisamos. Mas não tem soberba. Porque, se algum dia precisar e o Fundo por a única fonte, nós vamos atrás".
A reforma do FMI, prevista para ser concluída até janeiro de 2011, está no horizonte do país. A cota do Brasil no FMI atualmente é de apenas 1,7% do total, apesar de o país estar atualmente entre as dez maiores economias do planeta.
Em seu discurso no encerramento da cúpula, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que as reformas vão ocorrer e que a nomeação da direção do Fundo vai passar a ser "por mérito". Atualmente, a escolha é feita basicamente por um acordo entre europeus e norte-americanos.
Em noite inspirada após o aparente sucesso da reunião, Lula disse em entrevista que ninguém deve ter medo de "cara feia". "Se o [boxeador] Cassius Clay tivesse medo de cara feia, tinha perdido para o Foreman naquela luta no Zaire [em 1974]. Eu me considero o Cassius Clay dessa crise, quero dar uma muqueta nessa crise", disse. (PDL)

VINICIUS TORRES FREIRE

Erros, mentiras e omissões do G20


Reunião não fracassou, mas não teve sucesso, apesar de clima político bom, e inexiste o tal US$ 1 trilhão prometido


A REUNIÃO do G20 poderia ter sido um fracasso, mas não foi um sucesso. As mentiras foram várias, algumas vergonhosas, e houve omissões sem vergonha.
Não há pacote de US$ 1,1 trilhão. Não houve, talvez nem pudesse haver por lá, ideia prática a respeito do que fazer da podridão bancária. Não houve acordo nem sobre como deverá ser discutido o problema de bancos que criam crises e quebram de modo transnacional, mas são mal e mal fiscalizadas e socorridas por governos nacionais, como hoje.
Para piorar, a ironia da história fez coincidir o discurso do G20 sobre "maior transparência" de balanços bancários com uma decisão americana de permitir que seus bancos possam maquiar balanços, dando preços de fantasia para papéis que deveriam ser "marcados a mercado" (em tese, o preço na praça).
De positivo, afora o clima político não ter desandado, como se previa, saiu algum dinheiro para socorrer países falidos ou contagiados, como os do Leste Europeu, que ameaçam levar bancos europeus à breca.
Houve um acordo para criar uma entidade parecida com aquela que faz alertas de tsunamis pelo mundo, mas agora dedicada a avisar que o caldo financeiro vai entornar -o Conselho de Estabilidade Financeira (CEF), composto pelo G20 e convidados, que trabalharia com o FMI. O CEF, porém, nem arranha a soberania regulatória de país algum.
Houve um compromisso de vigiar e/ou regular "hedge funds" e derivativos de balcão. Como fazê-lo sem regra ou acordo internacional? E os parlamentos nacionais, sob o lobby da finança, vão aprovar tais coisas?
Prometeram punir paraísos fiscais que não abrirem as contas de bancos e clientes picaretas ("A era do segredo bancário acabou"). Vão acabar com a Suíça? Disseram ainda que vão regular as agências que dão notas para a qualidade de crédito (como S&P, Moody’s e Fitch), cúmplices da mentira de que o papelório ora podre era quase à prova de calote. Não adianta nada, se não houver punição para essas agências.
Há confusão geral sobre como se chegou ao "US$ 1,1 trilhão". Há certeza sobre o fato de que não há US$ 1,1 trilhão. Houve um acordo para que os países coloquem até mais US$ 500 bilhões no FMI. Parte desse dinheiro já havia sido ofertada pelo Japão no ano passado e, para piorar, o programa começa com US$ 250 bilhões. Os EUA devem bancar parte relevante do dinheiro novo -não se sabe quanto.
Ademais, o FMI vai poder "imprimir" US$ 250 bilhões de sua "moeda" (equivalente a uma cesta de dólares, euros, libras, ienes) Houve acordo para colocar mais US$ 100 bilhões em instituições financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e seus equivalentes continentais, como o BID, da América, que emprestam a países pobres.
O braço financeiro do Banco Mundial (IFC) deve oferecer, diz um dos anexos do "communiqué" do G20, US$ 50 bilhões para financiar o comércio mundial (empréstimos que pagam antecipadamente a produção e/ou venda de exportações). Isso nos próximos três anos e com "significativo apoio do setor privado". Por ora, os países arrumaram apenas de "US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões". Os US$ 250 bilhões do comércio são puro "wishful thinking".

vinit@uol.com.br

CÚPULA GLOBAL

É o fim da "era do segredo bancário", diz G20

Comunicado após a cúpula menciona ações contra paraísos fiscais e fortalecimento de controles sobre o setor financeiro

Regulação será estendida às agências de avaliação de risco; texto também destaca o início da transição rumo a uma economia mais verde

DO ENVIADO ESPECIAL A LONDRES

Em meio a um comunicado essencialmente técnico de 29 parágrafos, os líderes do G20 encontraram uma brecha para uma proclamação política forte: "A era do segredo bancário acabou".
É uma alusão às prometidas ações contra os paraísos fiscais, parte do capítulo talvez mais suculento do documento, que trata do fortalecimento da regulação/supervisão financeiras, cujo fracasso é consensualmente apontado como responsável pela crise.
Os principais pontos do texto são os seguintes:
 

INJEÇÃO DE RECURSOS
O US$ 1,1 trilhão anunciado ontem divide-se em US$ 500 bilhões para elevar os recursos disponíveis do FMI a US$ 750 bilhões; nova alocação de Direitos Especiais de Saque, a moeda contábil do FMI, no valor de US$ 250 bilhões, uma forma de disponibilizar recursos relativamente baratos a países em dificuldades; US$ 100 bilhões de empréstimos adicionais dos bancos multilaterais de desenvolvimento (Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco da Ásia etc.); US$ 250 bilhões para financiamento ao comércio internacional, por meio das agências de crédito à exportação dos países-membros e também dos bancos regionais.

PACOTES FISCAIS
O texto calcula que os pacotes oficiais de gastos para estimular a economia chegarão até o fim de 2010 a US$ 5 trilhões [mais de três Brasis], com o que a produção aumentará 4%.

JUROS
"Nossos bancos centrais se comprometeram a manter políticas expansionistas pelo período que for necessário e a usar toda a gama de instrumentos de política monetária."
Tradução: uma era possivelmente longa de juros bastante baixos. O Banco Central Europeu, aliás, reduziu ontem mesmo os seus para o nível mais baixo da história.

CRESCIMENTO
O texto lembra que o FMI previu, no mês passado, que o crescimento da economia mundial seria retomado e subiria a mais de 2% até o fim de 2010. O novo pacote "acelerará o retorno à tendência de crescimento", diz o documento.

DÉFICITS
O G20 compromete-se a manter "a sustentabilidade fiscal no longo prazo e a estabilidade de preços", para o que "colocará em prática estratégicas críveis de saída das medidas que precisam ser tomadas".
Traduzindo: os líderes sabem que elevam perigosamente os déficits fiscais, o que pode ser combustível para a inflação, pelo que se comprometem a retornar à normalidade assim que possível. Como, não dizem.

DESVALORIZAÇÕES
O documento se compromete a evitar "desvalorizações competitivas de nossas moedas" para facilitar exportações.

REGULAÇÃO
"Cada um de nós concorda em assegurar que nossos sistemas regulatórios domésticos sejam fortes. Mas também concordamos em estabelecer uma consistência muito maior e uma cooperação sistemática entre países, e uma moldura de elevados padrões, internacionalmente acordados, que um sistema financeiro global requer". O texto parece indicar que prevalecerá a ideia de que a regulação/supervisão seguirá padrões internacionais, mas a aplicação será nacional.
– O Fórum de Estabilização Financeira, composto pelos bancos centrais, passa a ser Diretoria de Estabilidade Financeira. Antes da cúpula, já estava decidido que passa a ser integrada por todos os países do G20 mais a Espanha e a Comissão Europeia. Antes, apenas os países ricos faziam parte.
A nova Diretoria (FSB, na sigla em inglês) "colaborará com o FMI para prover aviso antecipado de riscos financeiros e macroeconômicos e as ações necessárias para enfrentá-los".
– A regulação/supervisão será estendida a todas as instituições financeiras "sistemicamente importantes", a todos os instrumentos [financeiros] e a todos os mercados. "Inclui, pela primeira vez, "hedge funds" sistemicamente importantes."
– Implementar "novos e duros princípios de pagamento e compensação" [para executivos de instituições financeiras].
– Adequar a disponibilidade de capital nos bancos aos seus empréstimos, mas apenas "depois que a recuperação [da economia] estiver assegurada". O texto diz, ainda, que, "no futuro, a regulação deve evitar excessiva alavancagem".

PARAÍSOS FISCAIS
O G20 promete adotar ações contra o que chama de "jurisdições não-cooperativas, inclusive paraísos fiscais".
Afirma estar pronto para adotar sanções "para proteger nossas finanças públicas e sistemas financeiros".
O texto lembra que ontem mesmo a OCDE divulgou uma lista de países investigados por seu Fórum Global que não cumprem padrões internacionais de troca de informações.

AGÊNCIAS DE RATING
O G20 estenderá a supervisão às agências de avaliação de risco, muito criticadas por terem dado atestado de boa saúde a ativos tóxicos.

FMI
Além de aumentar os recursos à disposição do Fundo, o texto reafirma que "economias emergentes e em desenvolvimento, incluindo as mais pobres, devem ter mais voz e representação" na instituição. Reafirma igualmente que até janeiro de 2011 deve estar completada a reforma das cotas que darão voz a países emergentes.

PROTECIONISMO
O texto repete promessas anteriores de não adotar novas barreiras ao comércio de bens e serviços ou aos investimentos.
Promete também não cair em "protecionismo financeiro", neologismo para designar o fato de que os bancos com sede nos países ricos retiraram capital dos países em desenvolvimento para cobrir buracos.

AJUDA AOS POBRES
O G20 promete US$ 50 bilhões para apoio à proteção social, estimular o comércio e proteger o desenvolvimento nos países de baixa renda.
Adicionalmente US$ 6 bilhões provenientes do FMI serão usados, nos próximos dois a três anos para países pobres.

AMBIENTE
O documento promete "uma transição para tecnologias e infraestrutura limpas, inovadoras e eficientes no uso de recursos naturais".
Reafirma também o compromisso de enfrentar a mudança climática, com base no princípio de "responsabilidades comuns e diferenciadas", ou seja, os países ricos pagarão mais que os outros. Recoloca ainda a decisão de alcançar um acordo na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a realizar-se em dezembro em Copenhague.
(CLÓVIS ROSSI)

OCDE: URUGUAI CONSTA EM LISTA NEGRA DE PARAÍSOS FISCAIS

Uruguai, Costa Rica, Malásia e Filipinas são os países que não tomaram nenhuma atitude para respeitar os padrões internacionais na troca de informações tributárias, segundo lista apresentada ontem pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Outros 38 países se comprometeram a seguir os padrões internacionais, mas não implementaram.

CÚPULA GLOBAL

Números trilionários do G20 ocultam ação tímida

Maior parte dos valores anunciados ao final do encontro não é recurso novo

Quando todos os números são somados, em lugar de US$ 1,1 tri, total de novos compromissos parece ficar abaixo de US$ 100 bilhões

CHRIS GILES
DO "FINANCIAL TIMES", EM LONDRES

O premiê britânico, Gordon Brown, declarou que ontem foi "o dia em que o mundo se uniu para combater a recessão, não com palavras, e sim com um plano para a recuperação e a reforma econômica". Ele afirmou que os estímulos fiscais globais, os maiores "que o mundo já viu", chegam a US$ 5 trilhões e que haveria um novo "programa de apoio para restaurar o crédito, o crescimento e os empregos, na economia mundial", de US$ 1,1 trilhão.
Os números apresentados ao final de uma conferência de cúpula internacional precisam sempre ser examinados com atenção, especialmente se quem os estiver apresentando for o primeiro-ministro britânico. A reputação de Brown por inflar números, anunciar mais de uma vez as mesmas medidas e contar duplamente os valores envolvidos é bem conhecida.
O número de US$ 5 trilhões para as medidas de estímulo fiscal fica bem distante do valor total de estímulo que os EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI) desejavam. Não foi oferecido nenhum dinheiro novo, e o Tesouro britânico, embora tentasse atribuir o número ao FMI, na verdade afirmou que ele se referia à elevação cumulativa na captação dos governos do G20 para o período de 2008 a 2010, ante os resultados de 2007.
Até mesmo os funcionários do governo britânico pareciam sem graça quanto ao número. Mas como é que aquele total de US$ 1,1 trilhão foi obtido? Cerca de metade do valor -US$ 500 bilhões- representa a injeção de dinheiro novo no FMI, de modo que este possa ter fundos disponíveis em volume suficiente para emprestar aos países apanhados na crise.
O Japão já havia feito uma doação unilateral de US$ 100 bilhões, enquanto a União Europeia prometeu outros 75 bilhões (US$ 101 bilhões). Não houve novos anúncios de verbas por parte de EUA, China e Arábia Saudita, mas apenas uma promessa genérica de bancar um novo esquema de financiamento de US$ 500 bilhões, no qual todos esses compromissos já existentes e dinheiro novo seriam colocados.
Se novos compromissos de verbas para o FMI pareciam conspícuos pela ausência, os US$ 250 bilhões em dinheiro para DES (Direitos Especiais de Saque) -a unidade contábil própria do Fundo- eram novos, mas não tudo o que pareciam ser. Essa política de criar novos DES, com valor baseado numa cesta de moedas, é o equivalente a um relaxamento quantitativo em escala mundial.
O FMI criará os novos DES no valor de US$ 250 bilhões e os alocará a seus 186 países integrantes na proporção de suas cotas no Fundo.
É uma medida significativa, pois representa dinheiro novo que países pobres poderão converter em dólares, euros, ienes e libras, mas ainda assim são os países ricos que receberão a maior parte das novas reservas cambiais. O grupo das sete maiores economias mundiais receberá, só ele, 44% do total.
No que tange aos financiamentos comerciais, o número de US$ 250 bilhões não sobrevive a qualquer teste. Um anexo ao comunicado diz que o dinheiro novo oferecido fica entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, e o valor de US$ 250 bilhões representa uma aspiração quanto ao montante de comércio a ser financiado em dois anos, e não quanto ao valor a ser oferecido para financiamento comercial em si. Em contraste, os US$ 100 bilhões em dinheiro novo para empréstimos por instituições multilaterais de desenvolvimento ficam bem mais perto da realidade. Parte do dinheiro está sendo trazida do futuro, mas larga proporção desses recursos adicionais será financiada com captação nos mercados internacionais de capital.
Quando todos os números são somados, em lugar de US$ 1,1 trilhão, a soma de novos compromissos parece ficar abaixo de US$ 100 bilhões, e a maioria das medidas já estava em curso antes da conferência do G20. Embora inflar compromissos relativamente modestos e antigos de forma a atingir um número imenso não faça da reunião um fracasso, o desejo de produzir números altos a fim de capturar manchetes -aparentemente o principal resultado do encontro- sugere que as divisões e disputas quanto a outras questões devem ter sido consideráveis.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

"Eu adoro esse cara", diz Obama para Lula

DE LONDRES

Ontem foi o dia em que o "político mais popular do planeta" se encontrou com o primeiro presidente da história dos EUA que, "se você encontra na Bahia, acha que é baiano": "O Obama tem a cara da gente".

Num vídeo que correu a internet e foi muito comemorado pelo governo brasileiro, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Meu chapa" ("my man"), eu adoro esse cara!". "É o político mais popular da Terra." Observando a conversa, o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, emendou: "É o político há muito tempo no cargo mais popular da Terra". E Obama conclui: "É porque ele é boa-pinta", disse o americano, como se falasse com um amigo numa quadra de basquete de Chicago.

A adulação do político mais adulado dos últimos tempos deixou Lula feliz da vida. De excelente humor e cheio de piadinhas em entrevista de meia hora na Embaixada do Brasil em Londres, o presidente agradeceu ao "gesto de gentileza" e deu a receita: "Eu trato as pessoas muito bem, eu gosto de ser companheiro".

O brasileiro chegou perto de dizer que era torcedor de Obama desde criancinha: "Torço para ele desde quando ele era [pré-candidato] democrata [nas eleições primárias] e enfrentava a Hillary [Clinton], depois contra o [republicano John] McCain", disse Lula -ele mesmo avesso a prévias.

O presidente também foi todo elogios à "humildade" do colega americano, sem discussão o homem mais poderoso do planeta: "Você acha que é fácil um americano dizer isso?", disse Lula, contando que Obama falou que era "o mais novo" e estava ali "para aprender".

Lula se torna um dos poucos líderes do planeta a poder dizer que teve uma boa relação tanto com o republicano George W. Bush como com Obama. A ponto de poder falar para o democrata que "o pepino que você tem para descascar é infinitamente maior do que o meu".

O vídeo com Obama é o maior sucesso de marketing de uma longa campanha para ampliar a presença do Brasil no cenário internacional, que conseguiu alguns resultados positivos nas últimas semanas.

A comitiva do presidente fez questão de que os jornalistas que acompanham a visita soubessem logo da cena.

Em todos os eventos de que participou em Londres, Lula ficou sempre muito bem posicionado. Na recepção com a rainha Elizabeth 2ª, uma das melhores oportunidades de foto de toda a viagem, o presidente ficou ao lado da soberana. A explicação oficial é que o brasileiro era o líder havia mais tempo no cargo (seis anos).

Em entrevista recente, o premiê britânico, Gordon Brown, chegou a dizer que Lula era encarado como uma espécie de "porta-voz dos países pobres do mundo". Como mostrou a cena de ontem, com Obama o brasileiro também se ajeitou.

Na mídia internacional, a visão geral também é favorável a Lula, que em 2005 chegou a sentir a ameaça de processo de impeachment por conta do escândalo do mensalão.

Há alguns dias, o "Guardian", principal jornal liberal do Reino Unido, publicou reportagem em que elogiava o brasileiro por se preocupar com a baixa emissão de carbono, por ter viajado de Paris a Londres de trem, e não de avião, como a maioria dos seus colegas.

Nem menção à notícia de que o brasileiro tinha usado antes seu Aerolula para ir a Santiago, a Doha e a Paris. Tampouco ao fato de que o avião mesmo assim viajou para Londres, para levar o presidente de volta ao Brasil, hoje à tarde. (PEDRO DIAS LEITE)

Folha Online

Veja o vídeo em que Obama diz que Lula é o político mais popular da Terra

www.folha.com.br/090924

 

análise

Brasil pode ter poder real, diz especialista

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

Para os analistas políticos, os comentários sobre Luiz Inácio Lula da Silva feitos pelo presidente americano, Barack Obama, são um sinal de que o Brasil está começando a ter alguma influência real entre as nações.
"Apareceram indicações, nos últimos meses, de que Lula se encontra acima de qualquer outro líder não só na América Latina como no mundo", afirma Albert Fishlow, professor emérito da Universidade Columbia e da Universidade Berkeley.
E, na avaliação de especialistas, Obama pode estar certo quando aponta Lula como o presidente mais popular atualmente. Enquanto o brasileiro tinha um índice de aprovação de 76,2% em março, de acordo com a pesquisa CNT/Sensus, o americano contava 61% ontem, segundo a medição diária do Gallup. O britânico Gordon Brown estava com 23% no fim do mês passado e o francês Nicolas Sarkozy tinha 49% em janeiro, segundo os dados mais recentes. O venezuelano Hugo Chávez estava com 61%, pelo Datanalisis.

Moderação
"Os brasileiros geralmente não gostam de ouvir isso, porque acham que o presidente comete gafes e ficam com receio de que passe uma imagem ruim do país, mas quem observa de fora vê o Lula como um líder respeitado, simpático, moderado -em meio a tantos descontrolados entre seus vizinhos- e que está à frente de uma nação de enorme potencial econômico", diz Thomas Trebat, diretor-executivo do Instituto para Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, nos EUA. "Entretanto, o ganho de poder é um longo processo. O país precisa levantar a voz e ser agressivo nas reivindicações."
Fishlow concorda: "No final deste ano, no começo do próximo, será o momento de o Brasil avançar nas negociações de Doha e em outras áreas nas quais tem interesse legítimo, como o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas)." Não é fácil abraçar o papel de protagonista verdadeiro, ressalva o pesquisador. "É preciso assumir posições claras diante das questões e se comprometer."

 

ARTIGO

Cúpula de egos

RUBENS RICUPERO
COLUNISTA DA FOLHA

A ÚLTIMA vez em que se anunciou que nova ordem mundial estava emergindo foi em dezembro de 1990, quando Bush pai pediu emprestada a expressão a Gorbatchov. Ambos são hoje simpáticos aposentados, depois que o primeiro fracassou na reeleição e o último acabou destruindo o comunismo que pretendia restaurar.
Oxalá o precedente não traga má sorte a Gordon Brown. Autêntico herói que não se poupou para garantir o êxito da cúpula do G20 poderá terminar como Churchill, vencedor da guerra, mas rejeitado pelos eleitores britânicos. Lutando contra a maré conservadora, Brown demonstrou que nem um escocês austero, filho de pastor presbiteriano, consegue resistir à hipérbole quando se trata de exagerar o êxito de uma reunião para impressionar o eleitorado.
Mas, se o encontro de Londres está longe de se comparar ao nascimento da nova ordem da ONU e do FMI, merece ser visto como contribuição útil, embora não espetacular, para restabelecer a confiança. Retomando os três critérios que sugeri ontem nesta Folha, vou invertê-los da cabeça para baixo por ordem de importância dos resultados.
De longe a ação mais concreta e nova consistiu no aumento dos recursos do FMI para US$ 750 bilhões, mais que o Fundo pedira, e a decisão de emitir US$ 250 bilhões em Direitos Especiais de Saque. Na mesma linha destacam-se os US$ 250 bilhões para financiar o comércio. Nada disso é imediato; levará meses, talvez um ano, para que esse dinheiro entre de fato e comece a ser desembolsado.
Não obstante, não há dúvida de que os países necessitados se sentirão mais tranquilos. O México não esperou para se candidatar a US$ 47 bilhões da Linha de Crédito Flexível.
No critério da regulamentação, a parte conceitual do comunicado vai na boa direção: todos, entidades cinzentas como os fundos de hedge e instrumentos financeiros tóxicos, serão disciplinados, e os padrões internacionais para evitar risco excessivo ou contágio passarão por reforço. Mas os americanos lograram resistir à ideia de transnacionalizar as regras. Os EUA gostam de globalização só quando se trata de abrir fronteiras para as transnacionais, o capital e o comércio. Na hora de regular e fiscalizar, preferem a soberania. O primeiro critério, o de substanciais estímulos adicionais, pecou pela ausência. Figura apenas como veleidade de fazer mais, caso necessário. Os europeus e os que dependem da demanda alheia para crescer não se emocionaram.
Um sucesso de relações públicas, para não usar palavra mais feia, foi convencer a imprensa de que era pertinente fazer o êxito da cúpula depender de tema periférico, sem relação direta com as causas da crise: os paraísos fiscais, preocupação dos fiscos alemão e francês. Aqui, como na questão da regulação, tudo dependerá da qualidade e do rigor das regras internacionais a serem definidas nos próximos meses. Afinal, antes da crise já existiam os padrões de Basileia, que se revelaram frouxos e complacentes. No caso do protecionismo e da conclusão da Rodada Doha, ouvimos a mesma canção com letra um pouco modificada.
Quanto ao mais, Obama saiu-se bem na modéstia de pretender ter vindo para escutar, Brown teve sua "finest hour" e todos os atores voltaram para casa convencidos de que o sucesso se deveu a eles. Que mais desejar de uma Cúpula de Egos?

RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).

LEITE DERRAMADO – Chico Buarque

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VALOR ECONÔMICO, 03/04-04-2009

As raízes do Brasil de Chico

Por Cadão Volpato, para o Valor, de São Paulo
03/04/2009 

Não são poucos os leitores que se aproximam com certa desconfiança dos livros de Chico Buarque. O Chico compositor já representa o que de melhor o Brasil poderia inventar. Ele tem olhos claros num país de mulatos, um pai genial e é pura civilidade. E senso de humor. Pude entrevistá-lo uma vez para a TV, em 1995. Chico veio subindo as escadas do apartamento de Ney Matogrosso e a atmosfera mudou: o ar ficou parado, à sua espera. Ele entrou na sala, cumprimentou cada um de nós e foi até a janela. Depois de coçar o queixo, disse: "Ali naquele prédio fica a minha dentista. Toda vez que eu vinha me consultar, ficava olhando para esta cobertura de boca aberta, pensando: deve ser ótimo morar ali."

A direita não o perdoa por suas ligações nostálgicas com Cuba. Também não deve perdoá-lo por não baixar a cabeça diante dos oficiais do Exército que o interrogaram na ditadura. Era muita afronta para a lei e a ordem daquele tempo.

Isso tudo foi dito para acentuar a estranheza do Chico Buarque escritor. Afinal, só faltava ele escrever bem. Assim como muita gente foi atrás de seus livros empurrada pelo mito, outro tanto de pessoas passou longe deles pelo mesmo motivo.

Pois "Leite Derramado", o quarto romance de Chico Buarque, deveria ser lido por todo brasileiro. Pela simples razão de que é uma das melhores peças literárias dos últimos tempos.

Ao narrar a própria história num leito de hospital, o centenário Eulálio Montenegro d’Assumpção percorre, à sua maneira, a história do Brasil. É uma história narrada do ponto de vista da elite perversa, estúpida e racista com a qual estamos acostumados. Mas é também a história de um amor tão inocente e sensual que seria cômico, não fosse sério.

Chico tem essa capacidade rara de carregar o leitor para dentro do livro, algo que as obras anteriores talvez não tenham conseguido alcançar com tanto sucesso. Em "Leite Derramado" (um título esdrúxulo que faz sentido à medida que avançamos na leitura), o mergulho do leitor é irreversível. Um livro é bom quando se sente falta dele, mal terminada a leitura. "Leite Derramado" é assim, talvez porque a história que conte seja tão verdadeira, embora completamente imaginada.

Ao mexer com os fatos da história do Brasil, da corte até os dias de hoje, por meio da infinidade de antepassados e descendentes solitários e lascivos de Eulálio, Chico se aproxima ainda mais da memória do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Faz uma literatura de alto nível, que tem vários momentos Machado de Assis, mas lembra também o Gabriel García Márquez de "Memória de Minhas Putas Tristes" e uma autora um tanto esquecida, Zulmira Ribeiro Tavares, que escreveu pequenos grandes romances a respeito da decadência de uma elite irmã da carioca, a paulistana. Chico saiu-se melhor do que García Márquez.

Em frases soltas como "A curva é o gesto de um rio", o letrista também aparece. Mas a linguagem de "Leite Derramado", ponto alto do livro, está mais para as tristes, limpas e tortuosas ruelas da Alfama, em Lisboa. O português do romance tem esse quê de castiço ao evocar objetos, fatos e coisas – como as vitrolas e os cavalos da Revolução de 30 amarrados no obelisco – que estão a ponto de sumir do nosso imaginário. E por evocá-los com senso de humor, arte e real conteúdo, matérias-primas escassas em nosso tempo cheio de escritores-blogueiros, é que "Leite Derramado", do escritor Chico Buarque, veio para ser estudado nas boas escolas do futuro.

"Leite Derramado" – Chico Buarque.

Companhia das Letras, 200 págs., R$ 36

 
 
 
 
FOLHA DE SÃO PAULO, 28 MARÇO DE 2009
ESPECIAL CHICO BUARQUE
O bruxo do Leblon

Chega às livrarias o mais novo romance de Chico Buarque, "Leite Derramado", saga familiar que se mistura à história do Brasil e evoca estilo da prosa de Machado de Assis

Daryan Dornelles/Folha Imagem

O cantor, compositor e escritor Chico Buarque, 64, durante sessão de fotos realizada em sua casa, no Rio de Janeiro

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Um idoso centenário agoniza no leito de um hospital. Às enfermeiras que dele tratam, conta, de modo confuso e algo delirante, a história de sua vida. A saga de uma família que tem início na corte portuguesa, atravessa os períodos do Império e da República Velha e desemboca nos dias de hoje é o centro do enredo de "Leite Derramado", quarto romance do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque, 64, que chega hoje às livrarias.
A trama percorre o mapa de um Rio tradicional, revisitado pela reportagem da Folha -que pode ser visto no ensaio de fotos das págs. E6 e E7. Do ponto de vista estilístico, a prosa de Chico evoca características da narrativa machadiana. O diálogo com o "bruxo do Cosme Velho" foi observado pelo crítico Roberto Schwarz e pelo economista Eduardo Giannetti, que resenharam a obra a convite da Ilustrada.
A inspiração inicial para o livro veio da canção "O Velho Francisco", de 1987. O autor a tinha como esquecida até ouvir uma regravação feita pela cantora Monica Salmaso. Em 2008, quando o produtor Rodrigo Teixeira o procurou para falar de um projeto em que escritores fariam textos baseados em músicas do cantor, Chico deu o seu aval, mas pediu que "O Velho Francisco" não fosse utilizada, pois com essa ele mesmo já estava fazendo algo. A letra fala das agruras de um ex-escravo, alforriado "pela mão do imperador".
Ao reescutá-la, Chico pensou em escrever a história de um velho. Só que, quando foi pôr mãos à obra, mudou o enfoque. Trocou o ex-escravo por um homem de nobre estirpe. E é por meio dele, Eulálio Montenegro d’Assumpção, o tal moribundo citado acima, nascido em 16 de junho de 1907, que o escritor narra a decadência de determinada elite brasileira.
A questão racial, porém, continuou sendo central na obra. O protagonista casa-se com uma mulata -ainda que finja não percebê-la como tal- e tem comportamento racista em diversas ocasiões. Aos poucos, porém, os Assumpção vão misturando seu sangue nobre cada vez mais, até que o bisneto de Eulálio nasça negro, algo em que tampouco quer acreditar.
"Leite Derramado" sugere um duplo sentido. O primeiro, mais pontual, refere-se ao abandono de Eulálio pela mulher, Matilde, quando esta ainda amamentava a filha do casal. O segundo indica o significado mais geral da obra -a derrocada fatal de uma casta, tragédia que se mostra irreversível. Um dos primeiros leitores do texto foi o romancista Rubem Fonseca, que não gostou do título e recomendou que fosse trocado. Chico pensou um pouco, mas não mudou de ideia.
O romance começou a ser escrito em agosto de 2007 e dá vida a objetos e lugares que habitam as lembranças do autor, como aparelhos de vitrola, refrigeradores Frigidaire, colégios para moças, ritmos de época. Sua paixão pelo Fluminense se materializa na figura de Xerxes, um fictício jogador indisciplinado dos anos 50.

História
A reportagem visitou locais nos quais o romance se desenvolve. Vistos hoje, os casarões de Botafogo abandonados, a ocupação desordenada da Tijuca e a explosão imobiliária de Copacabana parecem corresponder à degradação proposta pelo enredo.
Por ser filho do mais importante historiador brasileiro, Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), e por ter optado por um enredo sobre o passado do país, alguns acreditaram que "Leite Derramado" fosse fazer aproximações entre literatura e história.
A obra, porém, diz respeito mais à primeira do que à segunda. O próprio Chico deixou claro que partiu da ficção para a pesquisa de fatos, datas e acontecimentos, e não o contrário.

Timidez
Celebrizado por sua discrição e timidez como músico, Chico se mostra ainda mais contido como escritor. Recusa-se a conceder entrevistas, alegando dificuldades em explicar o livro além do que está dito em seu conteúdo. Quando está metido na literatura, trabalha em silêncio e praticamente isola-se para se manter totalmente concentrado, em seu apartamento, no Leblon.
"Leite Derramado" contribui para consolidar o Chico escritor. Sucede livros cuja vendagem vem crescendo. O primeiro, "Estorvo" (1991), vendeu 180 mil cópias; o segundo, "Benjamim" (1995), 85 mil; e o mais recente, "Budapeste" (2003), chegou a 275 mil.


LEITE DERRAMADO
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 36 (200 págs.)
 
Trechos

"A o deparar com gente na calçada, despi o paletó, protegi minhas pernas e me enfiei numa ruela. Mas logo na avenida Beira-Mar eu já podia caminhar como convém a um cavalheiro, a não ser pelo chapéu esquecido no banco da igreja"

"Mas como eu não sabia me desfazer da casa de Matilde, comecei a considerar a hipótese de sacrificar o casarão de Botafogo, que acarretava muitas despesas, com uma dúzia de empregados"

"Os coveiros estavam de má vontade, e quando o caixão bateu com peso no fundo da tumba, o baque abafado me soou como o fim da linha dos Assumpção. Para mim já estava bom, bastava"

"Meu avô foi um figurão do Império, grão-maçom e abolicionista radical, queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África, mas não deu certo"

 
 
Brincalhão, mas não ingênuo

As flutuações entre presente e passado, realidade e fantasia, são asseguradas, com total precisão, pela maestria literária de Chico Buarque

ROBERTO SCHWARZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Leite Derramado" é um livro divertido, que se lê de um estirão. O título refere-se a um casamento estragado pelo ciúme e, indiretamente, ao curso das coisas no Brasil. Aos leitores mais atentos o romance sugere uma porção de perspectivas meio escondidas, que fazem dele uma obra ambiciosa. Os amigos de Machado de Assis notarão o paralelo com "Dom Casmurro".
Entre as façanhas da narrativa está a figura de Matilde, uma garota incrivelmente desejável feita de quase nada. Quando ela entra no mar, daquele jeito dela, é "como se pulasse corda". "Saía da igreja como quem saísse do cinema Pathé" e circulava pela fila de pêsames "como se estivesse numa fila de sorveteria". O ciúme que ela desperta no marido-narrador, Eulálio d’Assumpção (com "p", para não ser confundido com os meros Assunção), é o pivô do livro e dá margem a sequências e análises memoráveis.
Note-se, para contrabalançar a impressão de encantamento juvenil, que o narrador é um homem de cem anos, internado à força num hospital infecto. Entre gritos, vizinhos entubados e baratas andando na parede ele recorda -a 80 anos de distância- o breve casamento em que foi feliz e traído (em sua opinião). De tempos em tempos a boa lembrança ainda é capaz de transformar o macróbio acamado em "maior homem do mundo", metáfora que é uma indecência alegre. Por sua vez, o feitiço irreverente de Matilde, entre modernista e patriarcal, também foge ao decoro: a esposa perturbadora não tem ginásio completo, é mãe aos 16 anos e assobia para chamar os garçons, além de ser aluna-problema do Sacré Coeur e congregada mariana.
Como tudo que é interessante, o ciúme e o amor não se esgotam em si mesmos. Entre várias irmãs claras, Matilde é a única escura, para desgosto da sogra, que entretanto tem um irmão beiçudo. Mais adiante se saberá que a moça é filha adotiva duma escapadela baiana do pai. Os seus conhecimentos de francês e a sua cultura geral deixam a desejar, envergonhando o marido, que nos momentos de ciúme acha que casou com uma mulher vulgar. Para educá-la ou humilhá-la ele gosta de encher a boca "para contar como é um transatlântico por dentro". Em plano diferente mas aparentado, a pele "quase castanha" da menina combina com cetim laranja, o que deslumbra e enfurece Eulálio, que preferiria que ela usasse roupa mais fechada, de tons mais discretos. Em suma, tanto o amor como o ciúme se alimentam da desigualdade de classe e de cor, que segundo a ocasião funcionam como atrativo ou objeção. Estamos em plena comédia brasileira.
Quando é abandonado por Matilde, que vai embora sem dar explicação, Eulálio não se desinteressa das mulheres. Como Dom Casmurro ele recebe visitas femininas em seu casarão, às quais pede que vistam as roupas da outra, insubstituível. A relação desigual, em que nome de família, dinheiro e preconceito de cor e classe se articulam com desejo e ciúme, forma um padrão consistente, que vira cacoete. Os seus desdobramentos mais reveladores ocorrem no hospital, onde o patriarca centenário, agora já sem tostão, faz a corte a praticamente todas as enfermeiras de turno, a que promete casamento, roupas finas, nome ilustre, palacete e baixelas, desde que se dediquem só a ele. A uma delas, como um eco dos atritos com Matilde, ele garante que não irá perguntar o que ela faz durante as suas tardes, quando não está com ele, nem vai se envergonhar dela em sociedade.

Lembranças e digressões
Por momentos Eulálio acha que está ditando as suas memórias às enfermeiras, em cuja gramática não confia. Como elas não lhe dão maior bola, o leitor conclui que estão apenas preenchendo o prontuário hospitalar, pedindo o ano de nascimento e a filiação do paciente que fala pelos cotovelos. Seja como for, entre anedotas familiares, lembranças e digressões, ele vai desenrolando a história dos Assumpção, começando no século 15 e chegando a um incerto tataraneto em 2007.
Quanto aos antepassados, as memórias têm algo dum samba do crioulo doido da classe dominante. Depois de chegar ao Brasil na comitiva de dom João 6º, quando um trisavô serviu de confidente a dona Maria, a louca, a família dedica-se ao tráfico negreiro e, mais adiante, a negociatas propiciadas pelo abolicionismo, visando repatriar os negros à África. Já na República, o pai de Eulálio é um senador belle époque, fixado em loiras e ruivas, de preferência sardentas, além de ser homem de confiança dos armeiros franceses, que através dele vendem canhões obsoletos ao exército brasileiro. Quanto aos descendentes, a filha baixa o nível ao casar com um filho de imigrante, o neto sai comunista da linha chinesa e o bisneto, nascido na cadeia onde o pai esteve preso e foi morto, é um crioulo, pai por sua vez de um garotão traficante de drogas, que aparecerá no "Jornal Nacional" de cara encoberta pela jaqueta. Do ângulo senhorial, a degringolada não podia ser maior. Do ângulo a que o livro deve a sua acidez e qualidade, alguma coisa na família pode ter melhorado, nada piorou, e no essencial ficaram elas por elas.
A nulidade do próprio Eulálio é quase total, uma verdadeira proeza artística a seu modo. Como ele mesmo é o narrador, temos uma situação literária machadiana, em que a crítica social não se faz diretamente, mas pela autoexposição "involuntária" de um figurão. Recapitulando sua vida com propósito sentimental, este sem querer vai entregando os segredos de sua classe, em especial os podres. O pressuposto desta solução formal -trata-se de uma forma em sentido pleno- é uma certa conivência maldosa entre o autor e o leitor esperto, às expensas do canastrão que está com a palavra. O virtuosismo com que Chico encarna em primeira pessoa a mediocridade e os preconceitos oligárquicos de seu narrador, tornando-o extremamente interessante, e aliás sempre engraçado, é notável. Além da referência machadiana, provavelmente deliberada, há uma afinidade de fundo com a ficção de Paulo Emílio Salles Gomes, outro mestre na denúncia travestida de recordação.
Assim, quando perde o pai, Eulálio trata de lhe seguir os passos ilustres. Enverga uma das gravatas inglesas do senador, vai tomar cafezinho com políticos nos respectivos gabinetes, passa pelo escritório da Le Creusot, a firma francesa cujas negociatas o grande homem facilitava, leva bombons à secretária, fuma uns charutos, dá uma chegada ao banco e antes das quatro volta para casa. Como não é senador, agora ficou tudo mais difícil e precisa ele mesmo fazer a fila para desembaraçar a mercadoria na alfândega. As coisas já não funcionam como antes, mas ainda assim o esquema da família "cujo nome abre portas" é luminoso como um sonho e vale uma citação extensa. À maneira do Machado da "Teoria do Medalhão", o romancista fixa um tipo nacional.
"Mas eu não tinha dúvidas de que, para mim, a porta certa se abriria sozinha. De trás dela, me chamaria pelo nome justamente a pessoa que eu procurava. E esta me anunciaria com presteza à pessoa influente, que desceria as escadas para me buscar. E me abriria seu gabinete, onde já me aguardariam varias chamadas telefônicas. E pelo telefone, poderosas pessoas me soprariam as palavras que desejavam ouvir. E de olhos fechados, eu molharia pelo caminho as mãos que meu pai molhava. E pelo triplo do preço tratado me comprariam os canhões, os obuses, os fuzis, as granadas e toda a munição que a Companhia tivesse para vender. Meu nome é Eulálio d’Assumpção, não por outro motivo a Le Creusot & Cie. me confirmou como seu representante no país."
Dito isso, há um ponto em que Eulálio não é medíocre. O seu gosto pelas mulheres é forte e lhe dita condutas e análises surpreendentes, em dissonância com a sua frouxidão geral, com seus preconceitos de toda ordem e as obnubilações do ciúme. Longe de ser um erro na construção da personagem, o desnível compõe um tipo. Ainda aqui estamos em águas machadianas, onde também a fibra amatória é a exceção que escapa a certo rebaixamento genérico e derrisório imposto pela condição de ex-colônia às elites brasileiras. Como marca local, a desproporção entre a intensidade da vida amorosa e a irrelevância da vida do espírito é uma caracterização profunda, com alcance histórico, a que o romance de Chico Buarque acrescenta uma figura.

Sem resposta
O núcleo romanesco da intriga -o seu elemento de sensação- é o desaparecimento inexplicado de Matilde. Ela se foi com o engenheiro francês? Fugiu aos ciúmes do marido? Caiu na vida? Pegou uma doença e quis morrer fora da vista dos seus? Morreu num acidente de carro, acompanhada de um homem? Ao sabor da oportunidade, as explicações são adotadas pelo próprio marido, pela sogra, pela mãe adotiva, pela filha, pelas coleguinhas desta, pelo pároco da Candelária, que veio tomar chá, e pela voz anônima da cidade. Como em "Dom Casmurro", não há resposta segura para o traiu-não-traiu, e o livro é construído de maneira a alimentar o ânimo fofoqueiro dos leitores. Em duas ocasiões antológicas, atormentado pelo ciúme, que o empurra a barbarizar, Eulálio vê a sua certeza se desfazer em nada. Por outro lado, se a incerteza dos fatos, da cronologia e da memória está no centro da intriga, a realidade que se forma à sua volta é clara e sólida, sem nada de indecidível, e as dúvidas do narrador se encaixam nela com naturalidade, compondo um panorama social amplo, de muita vivacidade. A carpintaria atrás do jorro aleatório das recordações é realista e controlada até o último pormenor.
Pelo foco nos Assumpção, pelo arco de tempo abarcado e pelas questões de classe e raça, "Leite Derramado" pareceria ser um romance histórico ou uma saga familiar, coisas que não é. Como nos filmes em que a ambientação diz tanto ou mais do que a intriga, o pano de fundo contemporâneo talvez seja a personagem principal, a que Eulálio, a despeito das presunções, se integra como um anônimo qualquer. A pretexto disso e daquilo, da petulância popular de Matilde, das surras de chicote que são tradição na família, do horror aos hospitais públicos ou do samba na vitrola, o que se configura é a modernização na variante brasileira, em que tudo desemboca.
Os Assumpção, que passam de acompanhantes de dom João 6º a barões negreiros, a aproveitadores do abolicionismo e a traficantes de influência na República Velha, são antes uma categoria social do que uma família e importam menos do que o tempo que os atravessa.
Não há encadeamento interno individualizando e separando as estações, as quais compartem a condição antediluviana, recuada de uma era. Elas funcionam como o passado senhorial em bloco por oposição ao presente moderno, ou também, pelo contrário, como a prefiguração deste e de sua desqualificação. A tônica recai na diferença entre os tempos? Na superação de um pelo outro?
Na decadência? Na continuidade secreta? Quem configura a resposta, que não é simples, é o vaivém entre antes e agora, operado pela agilidade da prosa. Os jardins dos casarões de Botafogo são substituídos por estacionamentos, os chalés de Copacabana por arranha-céus, as fazendas por favelas e rodovias, e as negociatas antigas por outras novas, talvez menos exclusivas. A relação desconcertante dessa periodização com as ideias correntes de progresso -ou de retrocesso- faz a força do livro, que é brincalhão, mas não ingênuo. As flutuações entre presente e passado, realidade e fantasia, ângulo familiar e ângulo público são caucionadas, no plano da verossimilhança psicológica, pela confusão mental do narrador. No plano da técnica narrativa elas são asseguradas, com total precisão, pela maestria literária de Chico Buarque, o romancista, para quem o narrador de anteontem é um artifício que permite sobrepor e confrontar as épocas.
É claro que não se trata aqui das derivas da memória de um ancião, mas de invenções do artista, sempre intencionais, carregadas de humorismo e ambiguidade. Para não perder a nota específica, ligada à história nacional, é preciso ter em mente a substância polêmica de cada situação, com a sua parte de alta comédia. O barão negreiro, por exemplo, foi uma glória da família, continua a sê-lo para Eulálio, mas é um malfeitor para os pósteros.
Mesma coisa para o avô abolicionista, um benfeitor tão problemático quanto o outro: em vez de integrar os negros à sociedade brasileira, como quer a consciência de hoje, ele quer devolvê-los à África e ganhar dinheiro na operação. Já o pai senador, um pró-homem da República, representa bem o que pouco tempo depois se chamaria um lacaio do imperialismo.
Assim, trazendo escravos ou mandando-os de volta, cobrando e torrando comissões ilegais, os Assumpção vão cumprindo o seu papel de classe dominante, europeizadíssimos e fazendo tudo fora da lei. A dissonância entre a autoimagem e a imagem que a história fixaria deles em seguida -mas será que fixou?- impregna a narrativa de comicidade politicamente incorreta do começo ao fim.

Senso crítico
O padrão da prosa, que tem correspondência profunda com esse quadro geral, é muito brilhante. Por um lado, a fala de Eulálio é salpicada de expressões um pouco fora de uso, indicando idade e privilégio social; por outro, a sua leveza e alegria são netas do modernismo e de uma estética contrária à afetação. Assim, a fala é e não é de Eulálio, ou melhor, ela é uma imitação cheia de humor, impregnada de senso crítico.
O seu andamento ligeiro dissolve as presunções senhoriais, que se transformam em ilustrações quase didáticas dos despropósitos de outrora. "Nunca uma nódoa, uma ruga na roupa, meu pai de manhã sai do quarto tão alinhado quanto entrou de noite, e quando menor eu acreditava que ele dormia em pé feito cavalo".
Esquematizando, digamos que os termos antigos ora são de gente graúda, marcando autoridade ou truculência, ora são familiares, marcando a informalidade também tradicional. Esta segunda vertente envelheceu menos e guarda parentesco de fundo com a familiaridade sem família de nossos dias, representada no caso pela TV sempre ligada no mais alto, pela polícia trafegando na contramão, pela desgraceira nos hospitais populares, pela trambicagem geral, pela cidade que não termina, pela sem-cerimônia em público, pela gramática desautorizada. É como se o presente continuasse a informalidade do passado patriarcal, multiplicando-a por mil, dando-lhe a escala das massas, para melhor ou para pior.
Talvez seja isso o "leite derramado" que não adianta chorar: persistiu a desigualdade, desapareceram o decoro e a autoridade encasacada, e não se instalaram o direito e a lei. É o que no interregno entre antigamente e agora se chamava modernização sem revolução burguesa. Sem saudosismo nem adesão subalterna ao que está aí, a invenção realista de Chico Buarque é uma soberba lufada de ar fresco.


Avaliação: ótimo

ROBERTO SCHWARZ, 70, é crítico literário, autor de "Ao Vencedor as Batatas", entre outros.

A vida desde o fim

A obra impressiona mais pela beleza e astúcia de peças isoladas do que pelo efeito conjunto do quebra-cabeça que instiga a montar

EDUARDO GIANNETTI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Farsa e profundidade. "Leite Derramado" é o relato em primeira pessoa de um duplo malogro: a decadência da família Assumpção, egressa do patronato político brasileiro, e o colapso de um casamento carioca, provocado pelo misterioso sumiço da jovem esposa do narrador.
Obra de alta carpintaria literária, o quarto romance de Chico Buarque impressiona mais pela beleza e astúcia de peças isoladas -soluções felizes de linguagem espalhadas como dádivas pelo texto- do que pelo efeito conjunto do quebra-cabeça que ele nos instiga a montar. A leitura encanta e arrebata, mas o todo é menor que a soma das partes. O romance se desmancha em sopro assim que termina.
Eulálio Montenegro d’Assumpção, o narrador, tem mais de cem anos, está à beira da morte e conta sua história, entremeada de delírios, incongruências e devaneios, a partir de um leito de hospital. Ele é um elo -frágil ponto de inflexão- numa vasta linhagem de Eulálios que medrou no Brasil desde a vinda da corte portuguesa.
O seu bisavô paterno, feito barão por dom Pedro 1º, traficava escravos moçambicanos; o seu bisneto, nascido em hospital do Exército onde os pais comunistas estavam presos pela ditadura, morre assassinado num motel; o derradeiro Eulálio, tataraneto do narrador, é traficante de drogas para a elite carioca. Do barão negreiro ao baronato do pó, o ciclo se fecha. É "o fim da linha dos Assumpção".
Duas preocupações soberanas governam a autobiografia ficcional de Eulálio: o furor de se distinguir da ralé com que ele cada vez mais se confunde e o amor possessivo por Matilde, a jovem "escurinha", filha adotiva de um ex-correligionário de seu pai senador, com quem se casa à revelia da mãe viúva. O valor supremo de Eulálio, um oportunista ingênuo cercado de aproveitadores espertos por todos os lados, é se dar bem a qualquer preço. Mas os resultados trucidam as intenções.
Paixões egoístas, deformações egocêntricas. A insegurança social, insuflada pelo declínio da família, leva o narrador a perder-se em delírios de grandeza: quanto mais infla o seu prestígio, mais ele murcha. O ciúme corrosivo da esposa desemboca no grande mistério da trama -mote de ótimos momentos de suspense- que é o sumiço de Matilde, sem bilhete e sem mala, ainda lactante, poucos meses depois do nascimento da primeira filha.
Qual o motivo da fuga? "Doença de pobre" (tuberculose) ou "doença da luxúria" (adultério)? As hipóteses proliferam como gatas de rua. Claramente, ela era mais mulher do que ele era homem. As pegadas de "Dom Casmurro" surgem a cada passo do livro; o parentesco Eulálio-Bentinho e Matilde-Capitu seguramente dará ensejo a rica produção acadêmica.

Labirinto de espelhos
O que é real? Na construção da trama, Chico Buarque impele o leitor a um exercício finamente calculado de buscar pontos de apoio e informações confiáveis em meio ao labirinto de espelhos que são as memórias movediças do narrador. O toque de mestre está na arte sutil que faz do relato crepuscular de Eulálio uma confissão involuntária e poderosa o bastante para dar ao leitor a sensação de que sabe mais sobre o personagem e seu mundo que o próprio autor. Os achados estilísticos da obra são um banquete de mil talheres.
E, não obstante, algo se frustra. A primeira pessoa confessional é um gênero exigente. Os delírios da decrepitude de Eulálio são fiéis à vida, mas a situação narrativa do autor decrépito não convence. Não se sabe por que ele conta sua história e, menos ainda, como o relato se fixa e vira texto. Ora ele dita à enfermeira-taquígrafa, ora fala com o teto; ora sonha em voz alta, ora conversa com mortos; ora dirige-se à filha, ora ao leitor. A trama do ato de contar é tecnicamente débil -não para em pé.
Simplismos esporádicos à parte, "Leite Derramado" cutuca e devassa com olhar cortante as mazelas da vida brasileira: a desigualdade obscena; a promiscuidade público-privada; a subserviência colonizada; o preconceito velado pela cordialidade. O que falta, porém, é a construção de ao menos um personagem com o qual se possa ter um vínculo de empatia. Os Eulálios senhoriais são calhordas; os Balbinos da estirpe servil, quando aparecem em cena, mais parecem boçais, e Matilde não tem vida interior. A sociologia festeja, mas a filosofia rasteja.
Se o novo romance de Chico Buarque fosse uma partida de futebol, seria um daqueles jogos repletos de lances memoráveis, fintas deslumbrantes, toques de gênio, mas em que o conjunto do time e o desenrolar da peleja deixam a desejar. Falta armação de jogo. O autor de "Deus lhe Pague" e "Futuros Amantes" foi mais longe.


Avaliação: bom

EDUARDO GIANNETTI, 52, é economista, cientista social e professor do Ibmec-SP.

 
 
 
BRAVO

Qual a melhor obra de Chico Buarque?

Chico Buarque acaba de lançar seu novo livro, Leite Derramado, já considerado por alguns a melhor produção do escritor. O crítico Heitor Ferraz resenhou o livro e artistas consagrados como Mart’nália, Zé Celso e Toquinho nos contaram qual sua obra preferida do artista. Qual a sua?

 Veja a galeria de imagens do making-of da seção de fotos exclusivas com Chico e Caetano e as capas alternativas dessa edição

 

• A matéria completa – A Palavra e o Som

 

• "Chega de Verdade" – A íntegra da entrevista que Caetano Veloso concedeu a BRAVO!

 

 

"Toda vez que penso em Chico Buarque me vem aquela música do ‘Anjo Safado’ (Até o Fim) (risos). Mas as canções que mais gosto são mesmo Desalento com Vinícius, Morena dos Olhos d’Água e Carolina com ele mesmo.

As peças, eu nunca assisti nenhuma – ainda. Livros, só mesmo o Budapeste.

Discos, o Chico Buarque de Hollanda Vol. 2 (1967) foi a iniciação. Pô, eu era pequena, né? (risos)

O Chico Buarque e Maria Bethânia Ao Vivo é o CD da minha vida! É o que mais gosto e o que mais ouvi na vida, com a minha Cabloca (modo como Martinália chama Bethânia). Os dois me ajudaram muito na mesma época, sinistro! (Bethânia com o CD Menino do Rio, produzido e dirigido por ela e no qual canta São Sebastião. Chico, no disco Berlim ao vivo, cantando as músicas Sem Compromisso e Deixa a Menina)".

Mart’nália, cantora, compositora e percussionista, estreou na carreira artística aos 16 anos fazendo backing vocal no disco do pai, Martinho da Vila.

 

"É obvio que meu voto é para a dramaturgia Roda Viva. Mas prefiro um milhão de vezes Sem Fantasia à música título da peça".

Zé Celso Martinez Correa, autor, ator e diretor de montagens históricas como Pequenos Burgueses e O Rei da Vela. Em 1968, no ápice dos embates entre os profissionais de teatro e a ditadura no poder, montou Roda Viva, de Chico Buarque. O grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC) agrediu o elenco e destruiu parte do cenário na temporada paulista. O espetáculo foi censurado durante suas apresentações em Porto Alegre.


 

"Impossível escolher uma só. Cito minhas três preferidas de épocas diferentes: Ela desatinou, O que será e Construção".

Toquinho, compositor, cantor e instrumentista. Sua primeira melodia a receber uma letra foi Lua Cheia. Quem a compôs foi Chico Buarque, a quem conheceu em 1963.


E a sua obra preferida de Chico Buarque, qual é?

 

Leia a seguir a resenha crítica do novo Leite Derramado, de Heitor Ferraz:

 

31 de março de 2009

OTAN x CRISE ECONÔMICA + AMÉRICA LATINA

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 7:12 AM
 
 
World Depression: Regional Wars and the Decline of the US Empire

– by Prof. James Petras – 2009-03-30
A world depression, in which upward of a quarter of the world’s labor force will be unemployed, is looming.

 

 
 
A Otan está buscando US$ 2 bilhões por ano junto à comunidade internacional para reforçar as forças de segurança do Afeganistão, segundo Jaap de Hoop Scheffer, o secretário-geral da aliança.

O aumento do apoio aos planos americanos de expandir e manter o exército nacional e a polícia afegãos será uma questão central da conferência internacional de quarta-feira sobre o Afeganistão e no encontro de cúpula da Otan neste fim de semana, disse De Hoop Scheffer.

"Isto se trata de somas imensas de dinheiro", ele disse. "Os americanos realizarão muito treinamento, mas não é possível treinar as forças e não sustentá-las."

Um dos pontos principais da revisão americana da semana passada é o envio de 4 mil soldados americanos adicionais para o Afeganistão para treinamento das forças de segurança afegãs.

De Hoop Scheffer disse que outros países, particularmente aqueles de fora da aliança de 26 membros da Otan, devem fornecer fundos para o pagamento de salários e sustentar estas forças ao longo dos próximos cinco anos.

O "grande encontro" de quarta-feira de vizinhos do Afeganistão em Haia, que incluirá o Irã, será um momento simbólico. "Haia enviará uma mensagem poderosa de que não são apenas a Otan, a ONU e a União Europeia que estão engajados no Afeganistão, mas que uma comunidade maior está comprometida com seu futuro."

Uma tarefa central do encontro será fazer com que os governos se comprometam a fornecer os US$ 2 bilhões por ano para um fundo da Otan que sustentará os 134 mil soldados do exército afegão, disse De Hoop Scheffer. Até o momento, ele tem apenas US$ 25 milhões.

"Os principais países doadores potenciais – Japão, Arábia Saudita e os países do Golfo – estarão todos em Haia", ele disse. "Eu não estou dizendo que os recursos devem vir exclusivamente destes círculos. Mas é difícil ver como os aliados da Otan – dado os valores enormes que já gastam para manter as forças lá – podem contribuir para os US$ 2 bi ao ano. É impossível para eles."

Na cúpula da Otan em Estrasburgo e Kehl, na sexta-feira, De Hoop Scheffer buscará uma direção a respeito de como o treinamento deve ser coordenado, em meio aos sinais de que há tensões entre os americanos e franceses em torno da questão.

Os representantes da Otan dizem que os Estados Unidos estão buscando uma coordenação altamente centralizada de todas as missões de treinamento no Afeganistão, enquanto a França deseja que a União Europeia mantenha o controle do treinamento da polícia paramilitar.

"Eu gostaria de ver a criação de uma missão nacional de treinamento para o Afeganistão, onde dobraríamos a função do oficial de comando americano para fazê-lo trabalhar para o lado americano e para o lado da Otan", ele disse, acrescentando que uma missão desse tipo funcionou de forma eficaz no Iraque. "Mas há vozes que dizem que a União Europeia poderia assumir o treinamento da polícia separadamente. Eu preferiria que o treinamento ocorresse sob a Ntma, onde também poderia haver uma contribuição da UE."

De Hoop Scheffer deixou implícito que os Estados Unidos não esperam que os aliados europeus enviem um número significativo de soldados adicionais ao Afeganistão. "Os aliados europeus não têm como igualar os números americanos. Eles não podem enviar repentinamente uma brigada de combate aéreo com 100 helicópteros. Não é assim que funciona na UE."

Mas ele disse que os países membros da Otan devem concluir seus planos neste fim de semana para o envio de cerca de 4 mil soldados adicionais ao Afeganistão no meio deste ano, para garantir a segurança das eleições afegãs em 20 de agosto e um possível segundo turno em outubro. "Eu estou no processo de preparar isto e tenho esperança de que conseguiremos", ele acrescentou.

Tradução: George El Khouri Andolfato

 
 
FOLHA DE SÃO PAULO
São Paulo, segunda-feira, 20 de abril de 2009
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Cúpula das Américas


O conceito geográfico de América é naturalmente verdadeiro, mas, além disso, o que significa a América?


QUANDO ESCREVO este artigo, não sei ainda qual foi o resultado da Cúpula das Américas, mas, apesar da esperança que o mundo deposita em Barack Obama, não creio que ele possa mudar um fato simples: a reunião é inconsequente, porque o conceito político e econômico de América não faz sentido. O conceito geográfico de América, ou das três Américas, é naturalmente verdadeiro, mas, além disso, o que significa a América?
Para que uma região do mundo tenha um sentido econômico e político, é necessário que entre os países que a compõem existam interesses comuns que não se estendem aos demais. Além de comuns, portanto, os interesses devem ser relativamente exclusivos. É difícil, porém, ver quais são os interesses exclusivos que os países em desenvolvimento da América Latina têm com os Estados Unidos e o Canadá. Esses dois países partilham interesses reais e exclusivos com os europeus porque seus níveis de desenvolvimento e de salários são semelhantes. Com os demais países do continente americano -sejam os pobres ou os de nível médio-, a relação ou é de conflito devido aos salários menores destes ou é simplesmente imperial.
A relação dos Estados Unidos com a América Latina foi sempre a do império com a colônia. A célebre frase do presidente Monroe -"a América para os americanos"- poderia ser pensada como uma manifestação de solidariedade continental, mas é apenas a expressão do nacionalismo e do caráter imperial do grande país que estava então se formando. Até 1930, a América Latina era o "quintal dos Estados Unidos"; alcançou razoável autonomia entre essa década e os anos 1980, mas nos anos 1990 voltou à condição anterior, semicolonial, então expressa na subordinação ao Consenso de Washington.
Desde os anos 2000, vários países vêm recuperando autonomia -algo que desagrada às elites americanas e principalmente às suas empresas multinacionais, que dispõem dos mercados internos da América Latina como seus mercados-reserva em troca de quase nada.
Barack Obama terá condições de mudar essa relação? Terá condição de abandonar a ideia de que os países latino-americanos necessitam da "ajuda" dos Estados Unidos e tratar de encontrar interesses realmente comuns? Não creio, até porque mudança dessa natureza não está na agenda de ninguém. O que está na agenda latino-americana é apenas o fim do bloqueio econômico a Cuba, enquanto os Estados Unidos estão interessados em assinar acordos bilaterais com países latino-americanos que, em troca de modesta abertura do mercado americano, têm as vantagens de dividir a região e limitar gravemente a autonomia do país contratante. Para os países da América do Sul, não faz mais sentido sequer o conceito de América Latina depois que o México aceitou a dependência aos Estados Unidos por meio do Nafta.
O que pode fazer sentido, como bem sabe nossa diplomacia, é uma maior união com os países da América do Sul. A condição essencial para que haja um acordo real -um nível de salários semelhante- existe. Mas alguns países, como o Chile, a Colômbia e o Peru, ainda não estão convencidos de que seu real interesse é o de se associarem a seus semelhantes em vez de se subordinarem aos Estados Unidos. A Cúpula das Américas pode ser útil para algumas ações coletivas internacionais como o combate à droga e ao crime organizado, mas mesmo em relação a esses problemas não há por que pensar nas Américas -é melhor pensar a nível maior porque são questões mundiais.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".
Internet: www.bresserpereira.org.br
lcbresser@uol.com.br

 
 

Um continente sem teoria

José Luís Fiori
22/04/2009 

 

No século XIX, o pensamento social europeu dedicou pouquíssima atenção ao continente americano. Mesmo os socialistas e marxistas que discutiram a "questão colonial", no final do século, só estavam preocupados com a Ásia e a África. Nunca tiveram interesse teórico e político nos novos Estados americanos, que alcançaram sua independência, mas se mantiveram sob a tutela diplomática e financeira da Grã Bretanha. Foi só no início do Século XX que a teoria marxista do imperialismo se dedicou ao estudo específico da internacionalização do capital e seu papel no desenvolvimento capitalista a escala global. Assim mesmo, seu objeto seguiu sendo a competição e a guerra entre os europeus. A maior parte dos autores marxistas ainda compartilhava a visão evolucionista de Marx, com relação ao futuro econômico dos países atrasados, seguros de que "os países mais desenvolvidos industrialmente mostram aos menos desenvolvidos, a imagem do que será o seu próprio futuro".

Foi só depois da década de 20, que a III Internacional Comunista transformou o imperialismo num adversário estratégico e num obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas nos países "coloniais e semi-coloniais". De qualquer forma, o objeto central de todas as análises e propostas revolucionárias foi sempre a Índia, a China, o Egito e Indonésia, muito mais do que a América Latina. Na primeira metade do Século XX, os Estados Unidos já haviam se transformado numa grande potência imperialista, e o resto da América Latina foi incluída pela III Internacional, depois de 1940, na mesma estratégia geral das "revoluções nacionais", ou das "revoluções democrático-burguesas", contra a aliança das forças imperialistas com as oligarquias agrárias feudais, e a favor da industrialização nacional dos países periféricos.

Um pouco mais à frente, na década de 1950, a tese da "revolução democrático-burguesa", e sua defesa do desenvolvimento industrial, foi reforçada pela "economia política da Cepal" (Comissão Econômica para a América Latina) que analisava a economia latino-americana no contexto de uma divisão internacional do trabalho entre países "centrais" e países "periféricos". A Cepal criticava a tese das "vantagens comparativas" da teoria do comércio internacional de David Ricardo, e considerava que as relações comerciais entre as duas "fatias" do sistema econômico mundial prejudicavam o desenvolvimento industrial dos países periféricos. Tratava-se de uma crítica econômica heterodoxa, de filiação keynesiana, mas do ponto de vista prático acabou convergindo com as propostas "nacional-desenvolvimentista", que foram hegemônicas no continente depois da II Guerra Mundial.

Na década da de 60, entretanto, a Revolução Cubana, a crise econômica e a multiplicação dos golpes militares em toda a América Latina provocaram um desencanto generalizado com a estratégia "democrático-burguesa", e com a proposta "cepalina" da industrialização por "substituição de importações". Sua crítica intelectual deu origem às três grandes vertentes da "teoria da dependência", que talvez tenha sido a última tentativa de teorização latino-americana do Século XX. A primeira vertente – de filiação marxista – considerava o desenvolvimento dos países centrais e o imperialismo um obstáculo intransponível para o desenvolvimento capitalista periférico. Por isto, falavam do "desenvolvimento do subdesenvolvimento" e defendiam a necessidade de uma revolução socialista imediata, inclusive como estratégia de desenvolvimento econômico. A segunda vertente – de filiação "cepalina" – também identificava obstáculos à industrialização do continente, mas considerava possível superá-los através de uma série de "reformas estruturais" que se transformaram em tema central da agenda política latino-americana durante toda a década de 60. Na verdade, a própria teoria da Cepal, sobre a relação "centro-periferia", já não dava conta da relação dos EUA com o seu "território econômico supranacional", que era diferente do que havia acontecido com a Grã Bretanha. Por fim, a terceira vertente da teoria de dependência – de filiação a um só tempo marxista e cepalina – foi a que teve vida mais longa e efeitos mais surpreendentes, por três razões fundamentais: primeiro, porque defendia a viabilidade do capitalismo latino-americano; segundo, porque defendia uma estratégia de desenvolvimento "dependente e associado" com os países centrais; e terceiro, porque saíram deste correntes alguns dos principais líderes políticos e intelectuais da "restauração neoliberal" dos anos 90.

Como se tivesse ocorrido um apagão mental, velhos marxistas, nacionalistas e desenvolvimentistas abandonaram suas teorias latino-americanistas e aderiram à visão do sistema mundial e do capitalismo, própria do liberalismo europeu do século XVIII. Nesta linha de pensamento, ainda em 2009, um importante intelectual desta corrente de ideias defendia – por cima de tudo o que passou no mundo, desde o início do Século XXI – que "não existe mais geopolítica nem imperialismo no novo mundo pós-colonial, da globalização, do sistema político e da democracia global… [e que] a estratégia clássica da geopolítica de garantir acesso exclusivo a recursos naturais na periferia do capitalismo já não faz sentido não só por seus custos, mas também porque, com a globalização, todos os mercados estão abertos, e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado… [donde], as guerras entre as grandes potências já não fazem sentido porque todas as fronteiras já estão definidas…" (Bresser Pereira, L. C. "O mundo menos sombrio. Política e economia nas relações internacionais entre os grandes países", in Jornal de Resenhas. Março de 2009, Nº 1. Discurso Editorial, São Paulo, pp: 6 e 7). Ingenuidade à parte, os liberais nunca tiveram uma teoria original a respeito da América Latina, nem precisam dela. A repetição recorrente de algumas platitudes cosmopolitas foi mais do que suficiente para sustentar sua visão da economia mundial e legitimar sua ação política e econômica idêntica em todos os países. Mas no caso dos intelectuais progressistas do continente é uma má notícia saber que não existe mais uma teoria capaz de ler e interpretar a história do continente, e fundamentar uma estratégia coerente de construção do futuro, respeitada a imensa heterogeneidade latino-americana.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Boitempo, 2007). Escreve mensalmente às quartas-feiras.

 
 
 
 
 
 

La crisis económica, la izquierda y la dinámica geopolítica

José Luis Fiori · · · ·

A esquerda e a crise

Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial, e é provável que algumas destas rebeliões voltem a se colocar objetivos socialistas. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de modo de produção em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma superação hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. A análise é de José Luís Fiori.

José Luís Fiori

 
 
 
 
 

Guerra imperialista no século XXI

do site red por ti america

Nenhuma análise ao imperialismo estaria completa sem a discussão da tendência sistemática do imperialismo na direcção da guerra.

O carácter guerreiro do imperialismo e a sua dependência do militarismo podem mesmo criar uma crise social profunda e instabilidade nos Estados Unidos.

Portanto, é importante discutir algumas das características salientes do militarismo imperial ao longo dos últimos 130 anos.

Três fases da guerra imperialista

 
 
 
 

Lições da experiência neoliberal – Brasil, Argentina e México
 

Renildo Souza

Mesmo diante do fracasso do modelo neoliberal na América Latina, os representantes da ortodoxia econômica, paradoxalmente, reafirmam as suas recomendações de necessidade de extensão e aprofundamento da liberalização dos mercados e das chamadas reformas estruturais. Para eles, a vulnerabilidade externa decorreria de insuficiência, limitação e erros na implementação do modelo neoliberal
 

 
 
 
 

6 DE FEVEREIRO DE 2009 – 20h46

O fim do regime de Bretton Woods como reação do império norteamericano
por Marcelo Fernandes*

Uma das explicações correntes sobre a crise que levou o fim do regime monetário de Bretton Woods refere-se à combinação de dois fatores. Em primeiro lugar, o forte aumento da circulação de dólares devido aos sucessivos déficits no balanço de pagamentos dos EUA após a Segunda Guerra. Em segundo lugar, o crescimento exponencial do mercado de Eurodólares na segunda metade dos anos 1960, levando ao aumento desordenado da liquidez internacional fora do controle do Fed.
 
 
Existe uma opinião quase unânime entre economistas de vários matizes de que a crise atual tem suas origens no processo de desregulamentação e liberalização dos mercados financeiros nas últimas décadas. Essa constatação vem reforçando o apelo por iniciativas de reconstrução do sistema monetário e financeiro internacional, através de discussões nos moldes do antigo acordo de Bretto…
 
 
 

22/04/2009

Brasil pretende dividir com os EUA a liderança continental

Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires
"O trabalho duro começa depois da cúpula. Todos sabemos que o futuro da América Latina depende em boa parte do papel predominante dos dois países decisivos no hemisfério: Estados Unidos e Brasil. O futuro depende das relações de compreensão e equilíbrio que se construam entre Washington e Brasília". A análise de David Rothkopf, especialista americano que ocupou um alto cargo no Departamento do Comércio, resume um dos grandes temas que permeiam a cúpula de Trinidad e Tobago. Como o governo de Barack Obama responderá às tentativas do Brasil de imprimir sua marca no continente e de exercer uma liderança pouco dissimulada?
… …. ….. ….
 
 

5 DE MAIO DE 2009 – 11h25

Emir Sader defende protecionismo regional na América Latina

O filósofo Emir Sader analisou, em entrevista ao diário argentino Página 12, o posicionamento da América Latina frente a crise econômica mundial. Para o secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), os países do sul não estão preparados para oferecer soluções coletivas à crise. Ele defendeu um protecionismo regional para potencializar o consumo interno, política que deveria ser complementada com a criação de uma moeda comum para a região.

Neste processo, ele considera necessária a integração da Venezuela ao Mercosul. Em relação ao plano político, assegurou que o conflito entre o governo e as entidades agropecuárias deixou desnuda a "nova direita" argentina. Sader também defendeu a designação, por parte do Estado, de diretores nas empresas privadas.

 

A REORDENAÇÃO PÓS-CRISE

Moeda é poder. Há hegemonia em uma nota de dólar

O Brasil atrelou seu destino à lógica dos mercados financeiros desregulados a partir dos anos 90. A prerrogativa da intervenção pública – sobretudo no setor financeiro – ficou subordinada a regras que protegem grupos de interesses locais e internacionais; os mesmos que ameaçam pôr em movimento uma montanha desordenada de capitais voláteis, cuja força é suficiente para reverter a retomada do desenvolvimento.

Redação – Carta Maior

Moeda é poder. O consenso aparente em torno da regulação dos mercados nesse momento esconde a dimensão política da crise. Existe hegemonia embutida em uma nota de dólar; explorados e exploradores na definição da taxa de juro. Está em jogo a reordenação da hierarquia entre moedas abalada pelo colapso da ordem neoliberal. A prática não ecoa o consenso reformista dos discursos oficiais. Foi assim também em 1929. … … … … …. ….. …… BOM

 

6 DE MAIO DE 2009 – 19h18

O fim do padrão-dólar na America Latina?
por Altamiro Borges*

Segundo reportagem desta semana no jornal Valor, “o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já marcou data para anunciar seus planos ambiciosos para o uso do real nas transações da América do Sul… Na próxima reunião da Unasul, que agrega os países da região, ainda neste semestre, Lula quer apresentar aos parceiros proposta que pode ampliar o uso do real nas relações entre os vizinhos”. Caso a notícia se confirme, será um acontecimento inédito nesta sofrida região, tratada como “quintal dos EUA”, e poderá representar o fim do “império do dólar” no continente.

 

 

 

O lugar da China, Índia, Brasil e Àfrica do Sul – A nova geopolítica das nações

José Luís Fiori

 

 

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E PODER: Contribuição para a Economia Política da Comunicação – Mônica Yukie Kuwahara – TESE

 

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