Economy and Society II de José Porfiro – Specific

3 de abril de 2009

CRISIS – G20 – FOLHA + globalresearch

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:54 PM
 
World Depression: Regional Wars and the Decline of the US Empire

– by Prof. James Petras – 2009-03-30
A world depression, in which upward of a quarter of the world’s labor force will be unemployed, is looming.
 
 
Geithner’s ‘Dirty Little Secret’: The Entire Global Financial System is at Risk

– by F. William Engdahl – 2009-03-30
Another intricate scheme to pour hundreds of billions more to the leading Wall Street banks responsible for the current mess …
 
 
The U.S. payments deficit stems from military spending.
 
 
Preparing for Civil Unrest in America

– by Michel Chossudovsky – 2009-03-18
Legislation to Establish Internment Camps on US Military Bases
 
 
The G20 moves the world a step closer to a global currency

The world is a step closer to a global currency, backed by a global central bank, running monetary policy for all humanity.
– by Ambrose Evans-Pritchard – 2009-04-03
 
 
 
 
 
03-04-2009 – folha
CÚPULA GLOBAL

Consenso de Washington acabou, diz Brown

Premiê britânico, anfitrião do G20, vê "começo" de virada" na crise e puxa coro de elogios de líderes ao resultado do encontro

Obama cita "a mais firme e rápida resposta internacional da história a uma crise internacional", e assessores veem tensões superadas

PEDRO DIAS LEITE
DE LONDRES

Anfitrião do encontro mais importante até agora para tentar resolver a pior crise econômica em décadas, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, decretou ontem o fim do Consenso de Washington, enquanto os principais líderes mundiais eram unânimes em anunciar que a cúpula de Londres do G20 era o "começo da virada".
"O velho Consenso de Washington acabou. Hoje, chegamos a um novo consenso, de que tomamos ação global conjunta para lidar com os problemas que enfrentamos", disse Brown, sobre o receituário liberal hegemônico na América Latina na década de 1990. Agora, afirma o primeiro-ministro trabalhista, tem início a era da cooperação.
Uma das principais preocupações dos líderes mundiais era justamente que o encontro fosse considerado um sucesso -ele ao menos ajudou a turbinar os principais mercados acionários ontem- e por isso um se esforçava mais que o outro para destacar o caráter "histórico" da reunião.
Por trás dos sorrisos na frente das câmeras, nos bastidores a reunião foi "tensa" até os últimos minutos, como revelavam integrantes das comitivas e até alguns dos líderes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou uma discussão entre Brown e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e fontes norte-americanas tentavam dizer que o presidente Barack Obama foi "fundamental" para o final feliz.
Em sua estreia no palco mundial de uma grande reunião multilateral, Obama afirmou que a cúpula era "a hora da virada em nossa busca pela recuperação global", com "a mais firme e rápida resposta internacional da história a uma crise internacional".
Já o francês Sarkozy deixou de lado as ameaças pré-reunião, quando chegou a dizer que podia abandonar o encontro se não gostasse do seu encaminhamento, e tratou de reivindicar parte da responsabilidade pelo desfecho.
Defendeu a pressão que fez ao lado da Alemanha por mais regulação e chegou até a trazer à tona a comparação com Bretton Woods (o encontro em 1944 que definiu as instituições da economia internacional pelas décadas subsequentes), que tinha praticamente desaparecido desde o primeiro encontro do G20 sobre a crise, em novembro passado. Afirmando que era a maior reforma do sistema desde então, falou que acabou "a loucura da desregulação total".
Lula também tirou sua casquinha e afirmou: "Fizemos um momento muito importante na história do mundo".
Nas semanas que antecederam a cúpula, líderes de todo o planeta demonstravam apreensão sobre qual seria a recepção dos mercados e do público para o que quer que fosse anunciado ao final da reunião.
Questionado por repórteres, na semana que antecedeu o encontro, sobre o que seria fundamental para que fosse um "sucesso", Brown foi sincero: "Que vocês digam que foi um sucesso".

Lula se gaba de empréstimo para turbinar o FMI

DE LONDRES

O primeiro empréstimo do Brasil ao FMI (Fundo Monetário Internacional) ainda depende de uma decisão fundamental: como fazê-lo de modo que o valor não seja contabilmente descontado das reservas do país.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que técnicos da sua pasta estudam a possibilidade de o Brasil investir em títulos do próprio FMI e se esse valor poderia ser contado como "investimento" -o que permitiria, ao menos pelo lado técnico, que o dinheiro continuasse sendo contado normalmente nas reservas.
O valor do aporte ainda não foi revelado, e Mantega disse que só vai definir o montante depois de conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro se recusou a dizer até em torno de que patamar seria a contribuição, mas aproveitou para cutucar a China, que teria prometido aporte de US$ 40 bilhões. "Se eu tivesse US$ 2 trilhões de reservas, com certeza daria mais."
O anúncio deve sair nos próximos dias. Como condição, o dinheiro deverá servir para ajudar países emergentes, especialmente os latinos.
"Gostaria de passar para a história como o presidente que emprestou dinheiro ao FMI", disse Lula, que já usou amplamente na campanha de 2006 o fato de ter quitado o empréstimo contraído por Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com o Fundo. "Você não acha chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI? Não é uma coisa soberana?", brincou o presidente.
Apesar do tom geral de otimismo, o brasileiro deixou uma porta aberta para tempos mais difíceis: "Agora não precisamos. Mas não tem soberba. Porque, se algum dia precisar e o Fundo por a única fonte, nós vamos atrás".
A reforma do FMI, prevista para ser concluída até janeiro de 2011, está no horizonte do país. A cota do Brasil no FMI atualmente é de apenas 1,7% do total, apesar de o país estar atualmente entre as dez maiores economias do planeta.
Em seu discurso no encerramento da cúpula, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, disse que as reformas vão ocorrer e que a nomeação da direção do Fundo vai passar a ser "por mérito". Atualmente, a escolha é feita basicamente por um acordo entre europeus e norte-americanos.
Em noite inspirada após o aparente sucesso da reunião, Lula disse em entrevista que ninguém deve ter medo de "cara feia". "Se o [boxeador] Cassius Clay tivesse medo de cara feia, tinha perdido para o Foreman naquela luta no Zaire [em 1974]. Eu me considero o Cassius Clay dessa crise, quero dar uma muqueta nessa crise", disse. (PDL)

VINICIUS TORRES FREIRE

Erros, mentiras e omissões do G20


Reunião não fracassou, mas não teve sucesso, apesar de clima político bom, e inexiste o tal US$ 1 trilhão prometido


A REUNIÃO do G20 poderia ter sido um fracasso, mas não foi um sucesso. As mentiras foram várias, algumas vergonhosas, e houve omissões sem vergonha.
Não há pacote de US$ 1,1 trilhão. Não houve, talvez nem pudesse haver por lá, ideia prática a respeito do que fazer da podridão bancária. Não houve acordo nem sobre como deverá ser discutido o problema de bancos que criam crises e quebram de modo transnacional, mas são mal e mal fiscalizadas e socorridas por governos nacionais, como hoje.
Para piorar, a ironia da história fez coincidir o discurso do G20 sobre "maior transparência" de balanços bancários com uma decisão americana de permitir que seus bancos possam maquiar balanços, dando preços de fantasia para papéis que deveriam ser "marcados a mercado" (em tese, o preço na praça).
De positivo, afora o clima político não ter desandado, como se previa, saiu algum dinheiro para socorrer países falidos ou contagiados, como os do Leste Europeu, que ameaçam levar bancos europeus à breca.
Houve um acordo para criar uma entidade parecida com aquela que faz alertas de tsunamis pelo mundo, mas agora dedicada a avisar que o caldo financeiro vai entornar -o Conselho de Estabilidade Financeira (CEF), composto pelo G20 e convidados, que trabalharia com o FMI. O CEF, porém, nem arranha a soberania regulatória de país algum.
Houve um compromisso de vigiar e/ou regular "hedge funds" e derivativos de balcão. Como fazê-lo sem regra ou acordo internacional? E os parlamentos nacionais, sob o lobby da finança, vão aprovar tais coisas?
Prometeram punir paraísos fiscais que não abrirem as contas de bancos e clientes picaretas ("A era do segredo bancário acabou"). Vão acabar com a Suíça? Disseram ainda que vão regular as agências que dão notas para a qualidade de crédito (como S&P, Moody’s e Fitch), cúmplices da mentira de que o papelório ora podre era quase à prova de calote. Não adianta nada, se não houver punição para essas agências.
Há confusão geral sobre como se chegou ao "US$ 1,1 trilhão". Há certeza sobre o fato de que não há US$ 1,1 trilhão. Houve um acordo para que os países coloquem até mais US$ 500 bilhões no FMI. Parte desse dinheiro já havia sido ofertada pelo Japão no ano passado e, para piorar, o programa começa com US$ 250 bilhões. Os EUA devem bancar parte relevante do dinheiro novo -não se sabe quanto.
Ademais, o FMI vai poder "imprimir" US$ 250 bilhões de sua "moeda" (equivalente a uma cesta de dólares, euros, libras, ienes) Houve acordo para colocar mais US$ 100 bilhões em instituições financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e seus equivalentes continentais, como o BID, da América, que emprestam a países pobres.
O braço financeiro do Banco Mundial (IFC) deve oferecer, diz um dos anexos do "communiqué" do G20, US$ 50 bilhões para financiar o comércio mundial (empréstimos que pagam antecipadamente a produção e/ou venda de exportações). Isso nos próximos três anos e com "significativo apoio do setor privado". Por ora, os países arrumaram apenas de "US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões". Os US$ 250 bilhões do comércio são puro "wishful thinking".

vinit@uol.com.br

CÚPULA GLOBAL

É o fim da "era do segredo bancário", diz G20

Comunicado após a cúpula menciona ações contra paraísos fiscais e fortalecimento de controles sobre o setor financeiro

Regulação será estendida às agências de avaliação de risco; texto também destaca o início da transição rumo a uma economia mais verde

DO ENVIADO ESPECIAL A LONDRES

Em meio a um comunicado essencialmente técnico de 29 parágrafos, os líderes do G20 encontraram uma brecha para uma proclamação política forte: "A era do segredo bancário acabou".
É uma alusão às prometidas ações contra os paraísos fiscais, parte do capítulo talvez mais suculento do documento, que trata do fortalecimento da regulação/supervisão financeiras, cujo fracasso é consensualmente apontado como responsável pela crise.
Os principais pontos do texto são os seguintes:
 

INJEÇÃO DE RECURSOS
O US$ 1,1 trilhão anunciado ontem divide-se em US$ 500 bilhões para elevar os recursos disponíveis do FMI a US$ 750 bilhões; nova alocação de Direitos Especiais de Saque, a moeda contábil do FMI, no valor de US$ 250 bilhões, uma forma de disponibilizar recursos relativamente baratos a países em dificuldades; US$ 100 bilhões de empréstimos adicionais dos bancos multilaterais de desenvolvimento (Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco da Ásia etc.); US$ 250 bilhões para financiamento ao comércio internacional, por meio das agências de crédito à exportação dos países-membros e também dos bancos regionais.

PACOTES FISCAIS
O texto calcula que os pacotes oficiais de gastos para estimular a economia chegarão até o fim de 2010 a US$ 5 trilhões [mais de três Brasis], com o que a produção aumentará 4%.

JUROS
"Nossos bancos centrais se comprometeram a manter políticas expansionistas pelo período que for necessário e a usar toda a gama de instrumentos de política monetária."
Tradução: uma era possivelmente longa de juros bastante baixos. O Banco Central Europeu, aliás, reduziu ontem mesmo os seus para o nível mais baixo da história.

CRESCIMENTO
O texto lembra que o FMI previu, no mês passado, que o crescimento da economia mundial seria retomado e subiria a mais de 2% até o fim de 2010. O novo pacote "acelerará o retorno à tendência de crescimento", diz o documento.

DÉFICITS
O G20 compromete-se a manter "a sustentabilidade fiscal no longo prazo e a estabilidade de preços", para o que "colocará em prática estratégicas críveis de saída das medidas que precisam ser tomadas".
Traduzindo: os líderes sabem que elevam perigosamente os déficits fiscais, o que pode ser combustível para a inflação, pelo que se comprometem a retornar à normalidade assim que possível. Como, não dizem.

DESVALORIZAÇÕES
O documento se compromete a evitar "desvalorizações competitivas de nossas moedas" para facilitar exportações.

REGULAÇÃO
"Cada um de nós concorda em assegurar que nossos sistemas regulatórios domésticos sejam fortes. Mas também concordamos em estabelecer uma consistência muito maior e uma cooperação sistemática entre países, e uma moldura de elevados padrões, internacionalmente acordados, que um sistema financeiro global requer". O texto parece indicar que prevalecerá a ideia de que a regulação/supervisão seguirá padrões internacionais, mas a aplicação será nacional.
– O Fórum de Estabilização Financeira, composto pelos bancos centrais, passa a ser Diretoria de Estabilidade Financeira. Antes da cúpula, já estava decidido que passa a ser integrada por todos os países do G20 mais a Espanha e a Comissão Europeia. Antes, apenas os países ricos faziam parte.
A nova Diretoria (FSB, na sigla em inglês) "colaborará com o FMI para prover aviso antecipado de riscos financeiros e macroeconômicos e as ações necessárias para enfrentá-los".
– A regulação/supervisão será estendida a todas as instituições financeiras "sistemicamente importantes", a todos os instrumentos [financeiros] e a todos os mercados. "Inclui, pela primeira vez, "hedge funds" sistemicamente importantes."
– Implementar "novos e duros princípios de pagamento e compensação" [para executivos de instituições financeiras].
– Adequar a disponibilidade de capital nos bancos aos seus empréstimos, mas apenas "depois que a recuperação [da economia] estiver assegurada". O texto diz, ainda, que, "no futuro, a regulação deve evitar excessiva alavancagem".

PARAÍSOS FISCAIS
O G20 promete adotar ações contra o que chama de "jurisdições não-cooperativas, inclusive paraísos fiscais".
Afirma estar pronto para adotar sanções "para proteger nossas finanças públicas e sistemas financeiros".
O texto lembra que ontem mesmo a OCDE divulgou uma lista de países investigados por seu Fórum Global que não cumprem padrões internacionais de troca de informações.

AGÊNCIAS DE RATING
O G20 estenderá a supervisão às agências de avaliação de risco, muito criticadas por terem dado atestado de boa saúde a ativos tóxicos.

FMI
Além de aumentar os recursos à disposição do Fundo, o texto reafirma que "economias emergentes e em desenvolvimento, incluindo as mais pobres, devem ter mais voz e representação" na instituição. Reafirma igualmente que até janeiro de 2011 deve estar completada a reforma das cotas que darão voz a países emergentes.

PROTECIONISMO
O texto repete promessas anteriores de não adotar novas barreiras ao comércio de bens e serviços ou aos investimentos.
Promete também não cair em "protecionismo financeiro", neologismo para designar o fato de que os bancos com sede nos países ricos retiraram capital dos países em desenvolvimento para cobrir buracos.

AJUDA AOS POBRES
O G20 promete US$ 50 bilhões para apoio à proteção social, estimular o comércio e proteger o desenvolvimento nos países de baixa renda.
Adicionalmente US$ 6 bilhões provenientes do FMI serão usados, nos próximos dois a três anos para países pobres.

AMBIENTE
O documento promete "uma transição para tecnologias e infraestrutura limpas, inovadoras e eficientes no uso de recursos naturais".
Reafirma também o compromisso de enfrentar a mudança climática, com base no princípio de "responsabilidades comuns e diferenciadas", ou seja, os países ricos pagarão mais que os outros. Recoloca ainda a decisão de alcançar um acordo na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a realizar-se em dezembro em Copenhague.
(CLÓVIS ROSSI)

OCDE: URUGUAI CONSTA EM LISTA NEGRA DE PARAÍSOS FISCAIS

Uruguai, Costa Rica, Malásia e Filipinas são os países que não tomaram nenhuma atitude para respeitar os padrões internacionais na troca de informações tributárias, segundo lista apresentada ontem pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Outros 38 países se comprometeram a seguir os padrões internacionais, mas não implementaram.

CÚPULA GLOBAL

Números trilionários do G20 ocultam ação tímida

Maior parte dos valores anunciados ao final do encontro não é recurso novo

Quando todos os números são somados, em lugar de US$ 1,1 tri, total de novos compromissos parece ficar abaixo de US$ 100 bilhões

CHRIS GILES
DO "FINANCIAL TIMES", EM LONDRES

O premiê britânico, Gordon Brown, declarou que ontem foi "o dia em que o mundo se uniu para combater a recessão, não com palavras, e sim com um plano para a recuperação e a reforma econômica". Ele afirmou que os estímulos fiscais globais, os maiores "que o mundo já viu", chegam a US$ 5 trilhões e que haveria um novo "programa de apoio para restaurar o crédito, o crescimento e os empregos, na economia mundial", de US$ 1,1 trilhão.
Os números apresentados ao final de uma conferência de cúpula internacional precisam sempre ser examinados com atenção, especialmente se quem os estiver apresentando for o primeiro-ministro britânico. A reputação de Brown por inflar números, anunciar mais de uma vez as mesmas medidas e contar duplamente os valores envolvidos é bem conhecida.
O número de US$ 5 trilhões para as medidas de estímulo fiscal fica bem distante do valor total de estímulo que os EUA e o Fundo Monetário Internacional (FMI) desejavam. Não foi oferecido nenhum dinheiro novo, e o Tesouro britânico, embora tentasse atribuir o número ao FMI, na verdade afirmou que ele se referia à elevação cumulativa na captação dos governos do G20 para o período de 2008 a 2010, ante os resultados de 2007.
Até mesmo os funcionários do governo britânico pareciam sem graça quanto ao número. Mas como é que aquele total de US$ 1,1 trilhão foi obtido? Cerca de metade do valor -US$ 500 bilhões- representa a injeção de dinheiro novo no FMI, de modo que este possa ter fundos disponíveis em volume suficiente para emprestar aos países apanhados na crise.
O Japão já havia feito uma doação unilateral de US$ 100 bilhões, enquanto a União Europeia prometeu outros 75 bilhões (US$ 101 bilhões). Não houve novos anúncios de verbas por parte de EUA, China e Arábia Saudita, mas apenas uma promessa genérica de bancar um novo esquema de financiamento de US$ 500 bilhões, no qual todos esses compromissos já existentes e dinheiro novo seriam colocados.
Se novos compromissos de verbas para o FMI pareciam conspícuos pela ausência, os US$ 250 bilhões em dinheiro para DES (Direitos Especiais de Saque) -a unidade contábil própria do Fundo- eram novos, mas não tudo o que pareciam ser. Essa política de criar novos DES, com valor baseado numa cesta de moedas, é o equivalente a um relaxamento quantitativo em escala mundial.
O FMI criará os novos DES no valor de US$ 250 bilhões e os alocará a seus 186 países integrantes na proporção de suas cotas no Fundo.
É uma medida significativa, pois representa dinheiro novo que países pobres poderão converter em dólares, euros, ienes e libras, mas ainda assim são os países ricos que receberão a maior parte das novas reservas cambiais. O grupo das sete maiores economias mundiais receberá, só ele, 44% do total.
No que tange aos financiamentos comerciais, o número de US$ 250 bilhões não sobrevive a qualquer teste. Um anexo ao comunicado diz que o dinheiro novo oferecido fica entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, e o valor de US$ 250 bilhões representa uma aspiração quanto ao montante de comércio a ser financiado em dois anos, e não quanto ao valor a ser oferecido para financiamento comercial em si. Em contraste, os US$ 100 bilhões em dinheiro novo para empréstimos por instituições multilaterais de desenvolvimento ficam bem mais perto da realidade. Parte do dinheiro está sendo trazida do futuro, mas larga proporção desses recursos adicionais será financiada com captação nos mercados internacionais de capital.
Quando todos os números são somados, em lugar de US$ 1,1 trilhão, a soma de novos compromissos parece ficar abaixo de US$ 100 bilhões, e a maioria das medidas já estava em curso antes da conferência do G20. Embora inflar compromissos relativamente modestos e antigos de forma a atingir um número imenso não faça da reunião um fracasso, o desejo de produzir números altos a fim de capturar manchetes -aparentemente o principal resultado do encontro- sugere que as divisões e disputas quanto a outras questões devem ter sido consideráveis.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

"Eu adoro esse cara", diz Obama para Lula

DE LONDRES

Ontem foi o dia em que o "político mais popular do planeta" se encontrou com o primeiro presidente da história dos EUA que, "se você encontra na Bahia, acha que é baiano": "O Obama tem a cara da gente".

Num vídeo que correu a internet e foi muito comemorado pelo governo brasileiro, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Meu chapa" ("my man"), eu adoro esse cara!". "É o político mais popular da Terra." Observando a conversa, o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, emendou: "É o político há muito tempo no cargo mais popular da Terra". E Obama conclui: "É porque ele é boa-pinta", disse o americano, como se falasse com um amigo numa quadra de basquete de Chicago.

A adulação do político mais adulado dos últimos tempos deixou Lula feliz da vida. De excelente humor e cheio de piadinhas em entrevista de meia hora na Embaixada do Brasil em Londres, o presidente agradeceu ao "gesto de gentileza" e deu a receita: "Eu trato as pessoas muito bem, eu gosto de ser companheiro".

O brasileiro chegou perto de dizer que era torcedor de Obama desde criancinha: "Torço para ele desde quando ele era [pré-candidato] democrata [nas eleições primárias] e enfrentava a Hillary [Clinton], depois contra o [republicano John] McCain", disse Lula -ele mesmo avesso a prévias.

O presidente também foi todo elogios à "humildade" do colega americano, sem discussão o homem mais poderoso do planeta: "Você acha que é fácil um americano dizer isso?", disse Lula, contando que Obama falou que era "o mais novo" e estava ali "para aprender".

Lula se torna um dos poucos líderes do planeta a poder dizer que teve uma boa relação tanto com o republicano George W. Bush como com Obama. A ponto de poder falar para o democrata que "o pepino que você tem para descascar é infinitamente maior do que o meu".

O vídeo com Obama é o maior sucesso de marketing de uma longa campanha para ampliar a presença do Brasil no cenário internacional, que conseguiu alguns resultados positivos nas últimas semanas.

A comitiva do presidente fez questão de que os jornalistas que acompanham a visita soubessem logo da cena.

Em todos os eventos de que participou em Londres, Lula ficou sempre muito bem posicionado. Na recepção com a rainha Elizabeth 2ª, uma das melhores oportunidades de foto de toda a viagem, o presidente ficou ao lado da soberana. A explicação oficial é que o brasileiro era o líder havia mais tempo no cargo (seis anos).

Em entrevista recente, o premiê britânico, Gordon Brown, chegou a dizer que Lula era encarado como uma espécie de "porta-voz dos países pobres do mundo". Como mostrou a cena de ontem, com Obama o brasileiro também se ajeitou.

Na mídia internacional, a visão geral também é favorável a Lula, que em 2005 chegou a sentir a ameaça de processo de impeachment por conta do escândalo do mensalão.

Há alguns dias, o "Guardian", principal jornal liberal do Reino Unido, publicou reportagem em que elogiava o brasileiro por se preocupar com a baixa emissão de carbono, por ter viajado de Paris a Londres de trem, e não de avião, como a maioria dos seus colegas.

Nem menção à notícia de que o brasileiro tinha usado antes seu Aerolula para ir a Santiago, a Doha e a Paris. Tampouco ao fato de que o avião mesmo assim viajou para Londres, para levar o presidente de volta ao Brasil, hoje à tarde. (PEDRO DIAS LEITE)

Folha Online

Veja o vídeo em que Obama diz que Lula é o político mais popular da Terra

www.folha.com.br/090924

 

análise

Brasil pode ter poder real, diz especialista

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

Para os analistas políticos, os comentários sobre Luiz Inácio Lula da Silva feitos pelo presidente americano, Barack Obama, são um sinal de que o Brasil está começando a ter alguma influência real entre as nações.
"Apareceram indicações, nos últimos meses, de que Lula se encontra acima de qualquer outro líder não só na América Latina como no mundo", afirma Albert Fishlow, professor emérito da Universidade Columbia e da Universidade Berkeley.
E, na avaliação de especialistas, Obama pode estar certo quando aponta Lula como o presidente mais popular atualmente. Enquanto o brasileiro tinha um índice de aprovação de 76,2% em março, de acordo com a pesquisa CNT/Sensus, o americano contava 61% ontem, segundo a medição diária do Gallup. O britânico Gordon Brown estava com 23% no fim do mês passado e o francês Nicolas Sarkozy tinha 49% em janeiro, segundo os dados mais recentes. O venezuelano Hugo Chávez estava com 61%, pelo Datanalisis.

Moderação
"Os brasileiros geralmente não gostam de ouvir isso, porque acham que o presidente comete gafes e ficam com receio de que passe uma imagem ruim do país, mas quem observa de fora vê o Lula como um líder respeitado, simpático, moderado -em meio a tantos descontrolados entre seus vizinhos- e que está à frente de uma nação de enorme potencial econômico", diz Thomas Trebat, diretor-executivo do Instituto para Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, nos EUA. "Entretanto, o ganho de poder é um longo processo. O país precisa levantar a voz e ser agressivo nas reivindicações."
Fishlow concorda: "No final deste ano, no começo do próximo, será o momento de o Brasil avançar nas negociações de Doha e em outras áreas nas quais tem interesse legítimo, como o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas)." Não é fácil abraçar o papel de protagonista verdadeiro, ressalva o pesquisador. "É preciso assumir posições claras diante das questões e se comprometer."

 

ARTIGO

Cúpula de egos

RUBENS RICUPERO
COLUNISTA DA FOLHA

A ÚLTIMA vez em que se anunciou que nova ordem mundial estava emergindo foi em dezembro de 1990, quando Bush pai pediu emprestada a expressão a Gorbatchov. Ambos são hoje simpáticos aposentados, depois que o primeiro fracassou na reeleição e o último acabou destruindo o comunismo que pretendia restaurar.
Oxalá o precedente não traga má sorte a Gordon Brown. Autêntico herói que não se poupou para garantir o êxito da cúpula do G20 poderá terminar como Churchill, vencedor da guerra, mas rejeitado pelos eleitores britânicos. Lutando contra a maré conservadora, Brown demonstrou que nem um escocês austero, filho de pastor presbiteriano, consegue resistir à hipérbole quando se trata de exagerar o êxito de uma reunião para impressionar o eleitorado.
Mas, se o encontro de Londres está longe de se comparar ao nascimento da nova ordem da ONU e do FMI, merece ser visto como contribuição útil, embora não espetacular, para restabelecer a confiança. Retomando os três critérios que sugeri ontem nesta Folha, vou invertê-los da cabeça para baixo por ordem de importância dos resultados.
De longe a ação mais concreta e nova consistiu no aumento dos recursos do FMI para US$ 750 bilhões, mais que o Fundo pedira, e a decisão de emitir US$ 250 bilhões em Direitos Especiais de Saque. Na mesma linha destacam-se os US$ 250 bilhões para financiar o comércio. Nada disso é imediato; levará meses, talvez um ano, para que esse dinheiro entre de fato e comece a ser desembolsado.
Não obstante, não há dúvida de que os países necessitados se sentirão mais tranquilos. O México não esperou para se candidatar a US$ 47 bilhões da Linha de Crédito Flexível.
No critério da regulamentação, a parte conceitual do comunicado vai na boa direção: todos, entidades cinzentas como os fundos de hedge e instrumentos financeiros tóxicos, serão disciplinados, e os padrões internacionais para evitar risco excessivo ou contágio passarão por reforço. Mas os americanos lograram resistir à ideia de transnacionalizar as regras. Os EUA gostam de globalização só quando se trata de abrir fronteiras para as transnacionais, o capital e o comércio. Na hora de regular e fiscalizar, preferem a soberania. O primeiro critério, o de substanciais estímulos adicionais, pecou pela ausência. Figura apenas como veleidade de fazer mais, caso necessário. Os europeus e os que dependem da demanda alheia para crescer não se emocionaram.
Um sucesso de relações públicas, para não usar palavra mais feia, foi convencer a imprensa de que era pertinente fazer o êxito da cúpula depender de tema periférico, sem relação direta com as causas da crise: os paraísos fiscais, preocupação dos fiscos alemão e francês. Aqui, como na questão da regulação, tudo dependerá da qualidade e do rigor das regras internacionais a serem definidas nos próximos meses. Afinal, antes da crise já existiam os padrões de Basileia, que se revelaram frouxos e complacentes. No caso do protecionismo e da conclusão da Rodada Doha, ouvimos a mesma canção com letra um pouco modificada.
Quanto ao mais, Obama saiu-se bem na modéstia de pretender ter vindo para escutar, Brown teve sua "finest hour" e todos os atores voltaram para casa convencidos de que o sucesso se deveu a eles. Que mais desejar de uma Cúpula de Egos?

RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).

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LEITE DERRAMADO – Chico Buarque

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 4:05 PM
 
 
VALOR ECONÔMICO, 03/04-04-2009

As raízes do Brasil de Chico

Por Cadão Volpato, para o Valor, de São Paulo
03/04/2009 

Não são poucos os leitores que se aproximam com certa desconfiança dos livros de Chico Buarque. O Chico compositor já representa o que de melhor o Brasil poderia inventar. Ele tem olhos claros num país de mulatos, um pai genial e é pura civilidade. E senso de humor. Pude entrevistá-lo uma vez para a TV, em 1995. Chico veio subindo as escadas do apartamento de Ney Matogrosso e a atmosfera mudou: o ar ficou parado, à sua espera. Ele entrou na sala, cumprimentou cada um de nós e foi até a janela. Depois de coçar o queixo, disse: "Ali naquele prédio fica a minha dentista. Toda vez que eu vinha me consultar, ficava olhando para esta cobertura de boca aberta, pensando: deve ser ótimo morar ali."

A direita não o perdoa por suas ligações nostálgicas com Cuba. Também não deve perdoá-lo por não baixar a cabeça diante dos oficiais do Exército que o interrogaram na ditadura. Era muita afronta para a lei e a ordem daquele tempo.

Isso tudo foi dito para acentuar a estranheza do Chico Buarque escritor. Afinal, só faltava ele escrever bem. Assim como muita gente foi atrás de seus livros empurrada pelo mito, outro tanto de pessoas passou longe deles pelo mesmo motivo.

Pois "Leite Derramado", o quarto romance de Chico Buarque, deveria ser lido por todo brasileiro. Pela simples razão de que é uma das melhores peças literárias dos últimos tempos.

Ao narrar a própria história num leito de hospital, o centenário Eulálio Montenegro d’Assumpção percorre, à sua maneira, a história do Brasil. É uma história narrada do ponto de vista da elite perversa, estúpida e racista com a qual estamos acostumados. Mas é também a história de um amor tão inocente e sensual que seria cômico, não fosse sério.

Chico tem essa capacidade rara de carregar o leitor para dentro do livro, algo que as obras anteriores talvez não tenham conseguido alcançar com tanto sucesso. Em "Leite Derramado" (um título esdrúxulo que faz sentido à medida que avançamos na leitura), o mergulho do leitor é irreversível. Um livro é bom quando se sente falta dele, mal terminada a leitura. "Leite Derramado" é assim, talvez porque a história que conte seja tão verdadeira, embora completamente imaginada.

Ao mexer com os fatos da história do Brasil, da corte até os dias de hoje, por meio da infinidade de antepassados e descendentes solitários e lascivos de Eulálio, Chico se aproxima ainda mais da memória do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. Faz uma literatura de alto nível, que tem vários momentos Machado de Assis, mas lembra também o Gabriel García Márquez de "Memória de Minhas Putas Tristes" e uma autora um tanto esquecida, Zulmira Ribeiro Tavares, que escreveu pequenos grandes romances a respeito da decadência de uma elite irmã da carioca, a paulistana. Chico saiu-se melhor do que García Márquez.

Em frases soltas como "A curva é o gesto de um rio", o letrista também aparece. Mas a linguagem de "Leite Derramado", ponto alto do livro, está mais para as tristes, limpas e tortuosas ruelas da Alfama, em Lisboa. O português do romance tem esse quê de castiço ao evocar objetos, fatos e coisas – como as vitrolas e os cavalos da Revolução de 30 amarrados no obelisco – que estão a ponto de sumir do nosso imaginário. E por evocá-los com senso de humor, arte e real conteúdo, matérias-primas escassas em nosso tempo cheio de escritores-blogueiros, é que "Leite Derramado", do escritor Chico Buarque, veio para ser estudado nas boas escolas do futuro.

"Leite Derramado" – Chico Buarque.

Companhia das Letras, 200 págs., R$ 36

 
 
 
 
FOLHA DE SÃO PAULO, 28 MARÇO DE 2009
ESPECIAL CHICO BUARQUE
O bruxo do Leblon

Chega às livrarias o mais novo romance de Chico Buarque, "Leite Derramado", saga familiar que se mistura à história do Brasil e evoca estilo da prosa de Machado de Assis

Daryan Dornelles/Folha Imagem

O cantor, compositor e escritor Chico Buarque, 64, durante sessão de fotos realizada em sua casa, no Rio de Janeiro

SYLVIA COLOMBO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Um idoso centenário agoniza no leito de um hospital. Às enfermeiras que dele tratam, conta, de modo confuso e algo delirante, a história de sua vida. A saga de uma família que tem início na corte portuguesa, atravessa os períodos do Império e da República Velha e desemboca nos dias de hoje é o centro do enredo de "Leite Derramado", quarto romance do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque, 64, que chega hoje às livrarias.
A trama percorre o mapa de um Rio tradicional, revisitado pela reportagem da Folha -que pode ser visto no ensaio de fotos das págs. E6 e E7. Do ponto de vista estilístico, a prosa de Chico evoca características da narrativa machadiana. O diálogo com o "bruxo do Cosme Velho" foi observado pelo crítico Roberto Schwarz e pelo economista Eduardo Giannetti, que resenharam a obra a convite da Ilustrada.
A inspiração inicial para o livro veio da canção "O Velho Francisco", de 1987. O autor a tinha como esquecida até ouvir uma regravação feita pela cantora Monica Salmaso. Em 2008, quando o produtor Rodrigo Teixeira o procurou para falar de um projeto em que escritores fariam textos baseados em músicas do cantor, Chico deu o seu aval, mas pediu que "O Velho Francisco" não fosse utilizada, pois com essa ele mesmo já estava fazendo algo. A letra fala das agruras de um ex-escravo, alforriado "pela mão do imperador".
Ao reescutá-la, Chico pensou em escrever a história de um velho. Só que, quando foi pôr mãos à obra, mudou o enfoque. Trocou o ex-escravo por um homem de nobre estirpe. E é por meio dele, Eulálio Montenegro d’Assumpção, o tal moribundo citado acima, nascido em 16 de junho de 1907, que o escritor narra a decadência de determinada elite brasileira.
A questão racial, porém, continuou sendo central na obra. O protagonista casa-se com uma mulata -ainda que finja não percebê-la como tal- e tem comportamento racista em diversas ocasiões. Aos poucos, porém, os Assumpção vão misturando seu sangue nobre cada vez mais, até que o bisneto de Eulálio nasça negro, algo em que tampouco quer acreditar.
"Leite Derramado" sugere um duplo sentido. O primeiro, mais pontual, refere-se ao abandono de Eulálio pela mulher, Matilde, quando esta ainda amamentava a filha do casal. O segundo indica o significado mais geral da obra -a derrocada fatal de uma casta, tragédia que se mostra irreversível. Um dos primeiros leitores do texto foi o romancista Rubem Fonseca, que não gostou do título e recomendou que fosse trocado. Chico pensou um pouco, mas não mudou de ideia.
O romance começou a ser escrito em agosto de 2007 e dá vida a objetos e lugares que habitam as lembranças do autor, como aparelhos de vitrola, refrigeradores Frigidaire, colégios para moças, ritmos de época. Sua paixão pelo Fluminense se materializa na figura de Xerxes, um fictício jogador indisciplinado dos anos 50.

História
A reportagem visitou locais nos quais o romance se desenvolve. Vistos hoje, os casarões de Botafogo abandonados, a ocupação desordenada da Tijuca e a explosão imobiliária de Copacabana parecem corresponder à degradação proposta pelo enredo.
Por ser filho do mais importante historiador brasileiro, Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), e por ter optado por um enredo sobre o passado do país, alguns acreditaram que "Leite Derramado" fosse fazer aproximações entre literatura e história.
A obra, porém, diz respeito mais à primeira do que à segunda. O próprio Chico deixou claro que partiu da ficção para a pesquisa de fatos, datas e acontecimentos, e não o contrário.

Timidez
Celebrizado por sua discrição e timidez como músico, Chico se mostra ainda mais contido como escritor. Recusa-se a conceder entrevistas, alegando dificuldades em explicar o livro além do que está dito em seu conteúdo. Quando está metido na literatura, trabalha em silêncio e praticamente isola-se para se manter totalmente concentrado, em seu apartamento, no Leblon.
"Leite Derramado" contribui para consolidar o Chico escritor. Sucede livros cuja vendagem vem crescendo. O primeiro, "Estorvo" (1991), vendeu 180 mil cópias; o segundo, "Benjamim" (1995), 85 mil; e o mais recente, "Budapeste" (2003), chegou a 275 mil.


LEITE DERRAMADO
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 36 (200 págs.)
 
Trechos

"A o deparar com gente na calçada, despi o paletó, protegi minhas pernas e me enfiei numa ruela. Mas logo na avenida Beira-Mar eu já podia caminhar como convém a um cavalheiro, a não ser pelo chapéu esquecido no banco da igreja"

"Mas como eu não sabia me desfazer da casa de Matilde, comecei a considerar a hipótese de sacrificar o casarão de Botafogo, que acarretava muitas despesas, com uma dúzia de empregados"

"Os coveiros estavam de má vontade, e quando o caixão bateu com peso no fundo da tumba, o baque abafado me soou como o fim da linha dos Assumpção. Para mim já estava bom, bastava"

"Meu avô foi um figurão do Império, grão-maçom e abolicionista radical, queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África, mas não deu certo"

 
 
Brincalhão, mas não ingênuo

As flutuações entre presente e passado, realidade e fantasia, são asseguradas, com total precisão, pela maestria literária de Chico Buarque

ROBERTO SCHWARZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Leite Derramado" é um livro divertido, que se lê de um estirão. O título refere-se a um casamento estragado pelo ciúme e, indiretamente, ao curso das coisas no Brasil. Aos leitores mais atentos o romance sugere uma porção de perspectivas meio escondidas, que fazem dele uma obra ambiciosa. Os amigos de Machado de Assis notarão o paralelo com "Dom Casmurro".
Entre as façanhas da narrativa está a figura de Matilde, uma garota incrivelmente desejável feita de quase nada. Quando ela entra no mar, daquele jeito dela, é "como se pulasse corda". "Saía da igreja como quem saísse do cinema Pathé" e circulava pela fila de pêsames "como se estivesse numa fila de sorveteria". O ciúme que ela desperta no marido-narrador, Eulálio d’Assumpção (com "p", para não ser confundido com os meros Assunção), é o pivô do livro e dá margem a sequências e análises memoráveis.
Note-se, para contrabalançar a impressão de encantamento juvenil, que o narrador é um homem de cem anos, internado à força num hospital infecto. Entre gritos, vizinhos entubados e baratas andando na parede ele recorda -a 80 anos de distância- o breve casamento em que foi feliz e traído (em sua opinião). De tempos em tempos a boa lembrança ainda é capaz de transformar o macróbio acamado em "maior homem do mundo", metáfora que é uma indecência alegre. Por sua vez, o feitiço irreverente de Matilde, entre modernista e patriarcal, também foge ao decoro: a esposa perturbadora não tem ginásio completo, é mãe aos 16 anos e assobia para chamar os garçons, além de ser aluna-problema do Sacré Coeur e congregada mariana.
Como tudo que é interessante, o ciúme e o amor não se esgotam em si mesmos. Entre várias irmãs claras, Matilde é a única escura, para desgosto da sogra, que entretanto tem um irmão beiçudo. Mais adiante se saberá que a moça é filha adotiva duma escapadela baiana do pai. Os seus conhecimentos de francês e a sua cultura geral deixam a desejar, envergonhando o marido, que nos momentos de ciúme acha que casou com uma mulher vulgar. Para educá-la ou humilhá-la ele gosta de encher a boca "para contar como é um transatlântico por dentro". Em plano diferente mas aparentado, a pele "quase castanha" da menina combina com cetim laranja, o que deslumbra e enfurece Eulálio, que preferiria que ela usasse roupa mais fechada, de tons mais discretos. Em suma, tanto o amor como o ciúme se alimentam da desigualdade de classe e de cor, que segundo a ocasião funcionam como atrativo ou objeção. Estamos em plena comédia brasileira.
Quando é abandonado por Matilde, que vai embora sem dar explicação, Eulálio não se desinteressa das mulheres. Como Dom Casmurro ele recebe visitas femininas em seu casarão, às quais pede que vistam as roupas da outra, insubstituível. A relação desigual, em que nome de família, dinheiro e preconceito de cor e classe se articulam com desejo e ciúme, forma um padrão consistente, que vira cacoete. Os seus desdobramentos mais reveladores ocorrem no hospital, onde o patriarca centenário, agora já sem tostão, faz a corte a praticamente todas as enfermeiras de turno, a que promete casamento, roupas finas, nome ilustre, palacete e baixelas, desde que se dediquem só a ele. A uma delas, como um eco dos atritos com Matilde, ele garante que não irá perguntar o que ela faz durante as suas tardes, quando não está com ele, nem vai se envergonhar dela em sociedade.

Lembranças e digressões
Por momentos Eulálio acha que está ditando as suas memórias às enfermeiras, em cuja gramática não confia. Como elas não lhe dão maior bola, o leitor conclui que estão apenas preenchendo o prontuário hospitalar, pedindo o ano de nascimento e a filiação do paciente que fala pelos cotovelos. Seja como for, entre anedotas familiares, lembranças e digressões, ele vai desenrolando a história dos Assumpção, começando no século 15 e chegando a um incerto tataraneto em 2007.
Quanto aos antepassados, as memórias têm algo dum samba do crioulo doido da classe dominante. Depois de chegar ao Brasil na comitiva de dom João 6º, quando um trisavô serviu de confidente a dona Maria, a louca, a família dedica-se ao tráfico negreiro e, mais adiante, a negociatas propiciadas pelo abolicionismo, visando repatriar os negros à África. Já na República, o pai de Eulálio é um senador belle époque, fixado em loiras e ruivas, de preferência sardentas, além de ser homem de confiança dos armeiros franceses, que através dele vendem canhões obsoletos ao exército brasileiro. Quanto aos descendentes, a filha baixa o nível ao casar com um filho de imigrante, o neto sai comunista da linha chinesa e o bisneto, nascido na cadeia onde o pai esteve preso e foi morto, é um crioulo, pai por sua vez de um garotão traficante de drogas, que aparecerá no "Jornal Nacional" de cara encoberta pela jaqueta. Do ângulo senhorial, a degringolada não podia ser maior. Do ângulo a que o livro deve a sua acidez e qualidade, alguma coisa na família pode ter melhorado, nada piorou, e no essencial ficaram elas por elas.
A nulidade do próprio Eulálio é quase total, uma verdadeira proeza artística a seu modo. Como ele mesmo é o narrador, temos uma situação literária machadiana, em que a crítica social não se faz diretamente, mas pela autoexposição "involuntária" de um figurão. Recapitulando sua vida com propósito sentimental, este sem querer vai entregando os segredos de sua classe, em especial os podres. O pressuposto desta solução formal -trata-se de uma forma em sentido pleno- é uma certa conivência maldosa entre o autor e o leitor esperto, às expensas do canastrão que está com a palavra. O virtuosismo com que Chico encarna em primeira pessoa a mediocridade e os preconceitos oligárquicos de seu narrador, tornando-o extremamente interessante, e aliás sempre engraçado, é notável. Além da referência machadiana, provavelmente deliberada, há uma afinidade de fundo com a ficção de Paulo Emílio Salles Gomes, outro mestre na denúncia travestida de recordação.
Assim, quando perde o pai, Eulálio trata de lhe seguir os passos ilustres. Enverga uma das gravatas inglesas do senador, vai tomar cafezinho com políticos nos respectivos gabinetes, passa pelo escritório da Le Creusot, a firma francesa cujas negociatas o grande homem facilitava, leva bombons à secretária, fuma uns charutos, dá uma chegada ao banco e antes das quatro volta para casa. Como não é senador, agora ficou tudo mais difícil e precisa ele mesmo fazer a fila para desembaraçar a mercadoria na alfândega. As coisas já não funcionam como antes, mas ainda assim o esquema da família "cujo nome abre portas" é luminoso como um sonho e vale uma citação extensa. À maneira do Machado da "Teoria do Medalhão", o romancista fixa um tipo nacional.
"Mas eu não tinha dúvidas de que, para mim, a porta certa se abriria sozinha. De trás dela, me chamaria pelo nome justamente a pessoa que eu procurava. E esta me anunciaria com presteza à pessoa influente, que desceria as escadas para me buscar. E me abriria seu gabinete, onde já me aguardariam varias chamadas telefônicas. E pelo telefone, poderosas pessoas me soprariam as palavras que desejavam ouvir. E de olhos fechados, eu molharia pelo caminho as mãos que meu pai molhava. E pelo triplo do preço tratado me comprariam os canhões, os obuses, os fuzis, as granadas e toda a munição que a Companhia tivesse para vender. Meu nome é Eulálio d’Assumpção, não por outro motivo a Le Creusot & Cie. me confirmou como seu representante no país."
Dito isso, há um ponto em que Eulálio não é medíocre. O seu gosto pelas mulheres é forte e lhe dita condutas e análises surpreendentes, em dissonância com a sua frouxidão geral, com seus preconceitos de toda ordem e as obnubilações do ciúme. Longe de ser um erro na construção da personagem, o desnível compõe um tipo. Ainda aqui estamos em águas machadianas, onde também a fibra amatória é a exceção que escapa a certo rebaixamento genérico e derrisório imposto pela condição de ex-colônia às elites brasileiras. Como marca local, a desproporção entre a intensidade da vida amorosa e a irrelevância da vida do espírito é uma caracterização profunda, com alcance histórico, a que o romance de Chico Buarque acrescenta uma figura.

Sem resposta
O núcleo romanesco da intriga -o seu elemento de sensação- é o desaparecimento inexplicado de Matilde. Ela se foi com o engenheiro francês? Fugiu aos ciúmes do marido? Caiu na vida? Pegou uma doença e quis morrer fora da vista dos seus? Morreu num acidente de carro, acompanhada de um homem? Ao sabor da oportunidade, as explicações são adotadas pelo próprio marido, pela sogra, pela mãe adotiva, pela filha, pelas coleguinhas desta, pelo pároco da Candelária, que veio tomar chá, e pela voz anônima da cidade. Como em "Dom Casmurro", não há resposta segura para o traiu-não-traiu, e o livro é construído de maneira a alimentar o ânimo fofoqueiro dos leitores. Em duas ocasiões antológicas, atormentado pelo ciúme, que o empurra a barbarizar, Eulálio vê a sua certeza se desfazer em nada. Por outro lado, se a incerteza dos fatos, da cronologia e da memória está no centro da intriga, a realidade que se forma à sua volta é clara e sólida, sem nada de indecidível, e as dúvidas do narrador se encaixam nela com naturalidade, compondo um panorama social amplo, de muita vivacidade. A carpintaria atrás do jorro aleatório das recordações é realista e controlada até o último pormenor.
Pelo foco nos Assumpção, pelo arco de tempo abarcado e pelas questões de classe e raça, "Leite Derramado" pareceria ser um romance histórico ou uma saga familiar, coisas que não é. Como nos filmes em que a ambientação diz tanto ou mais do que a intriga, o pano de fundo contemporâneo talvez seja a personagem principal, a que Eulálio, a despeito das presunções, se integra como um anônimo qualquer. A pretexto disso e daquilo, da petulância popular de Matilde, das surras de chicote que são tradição na família, do horror aos hospitais públicos ou do samba na vitrola, o que se configura é a modernização na variante brasileira, em que tudo desemboca.
Os Assumpção, que passam de acompanhantes de dom João 6º a barões negreiros, a aproveitadores do abolicionismo e a traficantes de influência na República Velha, são antes uma categoria social do que uma família e importam menos do que o tempo que os atravessa.
Não há encadeamento interno individualizando e separando as estações, as quais compartem a condição antediluviana, recuada de uma era. Elas funcionam como o passado senhorial em bloco por oposição ao presente moderno, ou também, pelo contrário, como a prefiguração deste e de sua desqualificação. A tônica recai na diferença entre os tempos? Na superação de um pelo outro?
Na decadência? Na continuidade secreta? Quem configura a resposta, que não é simples, é o vaivém entre antes e agora, operado pela agilidade da prosa. Os jardins dos casarões de Botafogo são substituídos por estacionamentos, os chalés de Copacabana por arranha-céus, as fazendas por favelas e rodovias, e as negociatas antigas por outras novas, talvez menos exclusivas. A relação desconcertante dessa periodização com as ideias correntes de progresso -ou de retrocesso- faz a força do livro, que é brincalhão, mas não ingênuo. As flutuações entre presente e passado, realidade e fantasia, ângulo familiar e ângulo público são caucionadas, no plano da verossimilhança psicológica, pela confusão mental do narrador. No plano da técnica narrativa elas são asseguradas, com total precisão, pela maestria literária de Chico Buarque, o romancista, para quem o narrador de anteontem é um artifício que permite sobrepor e confrontar as épocas.
É claro que não se trata aqui das derivas da memória de um ancião, mas de invenções do artista, sempre intencionais, carregadas de humorismo e ambiguidade. Para não perder a nota específica, ligada à história nacional, é preciso ter em mente a substância polêmica de cada situação, com a sua parte de alta comédia. O barão negreiro, por exemplo, foi uma glória da família, continua a sê-lo para Eulálio, mas é um malfeitor para os pósteros.
Mesma coisa para o avô abolicionista, um benfeitor tão problemático quanto o outro: em vez de integrar os negros à sociedade brasileira, como quer a consciência de hoje, ele quer devolvê-los à África e ganhar dinheiro na operação. Já o pai senador, um pró-homem da República, representa bem o que pouco tempo depois se chamaria um lacaio do imperialismo.
Assim, trazendo escravos ou mandando-os de volta, cobrando e torrando comissões ilegais, os Assumpção vão cumprindo o seu papel de classe dominante, europeizadíssimos e fazendo tudo fora da lei. A dissonância entre a autoimagem e a imagem que a história fixaria deles em seguida -mas será que fixou?- impregna a narrativa de comicidade politicamente incorreta do começo ao fim.

Senso crítico
O padrão da prosa, que tem correspondência profunda com esse quadro geral, é muito brilhante. Por um lado, a fala de Eulálio é salpicada de expressões um pouco fora de uso, indicando idade e privilégio social; por outro, a sua leveza e alegria são netas do modernismo e de uma estética contrária à afetação. Assim, a fala é e não é de Eulálio, ou melhor, ela é uma imitação cheia de humor, impregnada de senso crítico.
O seu andamento ligeiro dissolve as presunções senhoriais, que se transformam em ilustrações quase didáticas dos despropósitos de outrora. "Nunca uma nódoa, uma ruga na roupa, meu pai de manhã sai do quarto tão alinhado quanto entrou de noite, e quando menor eu acreditava que ele dormia em pé feito cavalo".
Esquematizando, digamos que os termos antigos ora são de gente graúda, marcando autoridade ou truculência, ora são familiares, marcando a informalidade também tradicional. Esta segunda vertente envelheceu menos e guarda parentesco de fundo com a familiaridade sem família de nossos dias, representada no caso pela TV sempre ligada no mais alto, pela polícia trafegando na contramão, pela desgraceira nos hospitais populares, pela trambicagem geral, pela cidade que não termina, pela sem-cerimônia em público, pela gramática desautorizada. É como se o presente continuasse a informalidade do passado patriarcal, multiplicando-a por mil, dando-lhe a escala das massas, para melhor ou para pior.
Talvez seja isso o "leite derramado" que não adianta chorar: persistiu a desigualdade, desapareceram o decoro e a autoridade encasacada, e não se instalaram o direito e a lei. É o que no interregno entre antigamente e agora se chamava modernização sem revolução burguesa. Sem saudosismo nem adesão subalterna ao que está aí, a invenção realista de Chico Buarque é uma soberba lufada de ar fresco.


Avaliação: ótimo

ROBERTO SCHWARZ, 70, é crítico literário, autor de "Ao Vencedor as Batatas", entre outros.

A vida desde o fim

A obra impressiona mais pela beleza e astúcia de peças isoladas do que pelo efeito conjunto do quebra-cabeça que instiga a montar

EDUARDO GIANNETTI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Farsa e profundidade. "Leite Derramado" é o relato em primeira pessoa de um duplo malogro: a decadência da família Assumpção, egressa do patronato político brasileiro, e o colapso de um casamento carioca, provocado pelo misterioso sumiço da jovem esposa do narrador.
Obra de alta carpintaria literária, o quarto romance de Chico Buarque impressiona mais pela beleza e astúcia de peças isoladas -soluções felizes de linguagem espalhadas como dádivas pelo texto- do que pelo efeito conjunto do quebra-cabeça que ele nos instiga a montar. A leitura encanta e arrebata, mas o todo é menor que a soma das partes. O romance se desmancha em sopro assim que termina.
Eulálio Montenegro d’Assumpção, o narrador, tem mais de cem anos, está à beira da morte e conta sua história, entremeada de delírios, incongruências e devaneios, a partir de um leito de hospital. Ele é um elo -frágil ponto de inflexão- numa vasta linhagem de Eulálios que medrou no Brasil desde a vinda da corte portuguesa.
O seu bisavô paterno, feito barão por dom Pedro 1º, traficava escravos moçambicanos; o seu bisneto, nascido em hospital do Exército onde os pais comunistas estavam presos pela ditadura, morre assassinado num motel; o derradeiro Eulálio, tataraneto do narrador, é traficante de drogas para a elite carioca. Do barão negreiro ao baronato do pó, o ciclo se fecha. É "o fim da linha dos Assumpção".
Duas preocupações soberanas governam a autobiografia ficcional de Eulálio: o furor de se distinguir da ralé com que ele cada vez mais se confunde e o amor possessivo por Matilde, a jovem "escurinha", filha adotiva de um ex-correligionário de seu pai senador, com quem se casa à revelia da mãe viúva. O valor supremo de Eulálio, um oportunista ingênuo cercado de aproveitadores espertos por todos os lados, é se dar bem a qualquer preço. Mas os resultados trucidam as intenções.
Paixões egoístas, deformações egocêntricas. A insegurança social, insuflada pelo declínio da família, leva o narrador a perder-se em delírios de grandeza: quanto mais infla o seu prestígio, mais ele murcha. O ciúme corrosivo da esposa desemboca no grande mistério da trama -mote de ótimos momentos de suspense- que é o sumiço de Matilde, sem bilhete e sem mala, ainda lactante, poucos meses depois do nascimento da primeira filha.
Qual o motivo da fuga? "Doença de pobre" (tuberculose) ou "doença da luxúria" (adultério)? As hipóteses proliferam como gatas de rua. Claramente, ela era mais mulher do que ele era homem. As pegadas de "Dom Casmurro" surgem a cada passo do livro; o parentesco Eulálio-Bentinho e Matilde-Capitu seguramente dará ensejo a rica produção acadêmica.

Labirinto de espelhos
O que é real? Na construção da trama, Chico Buarque impele o leitor a um exercício finamente calculado de buscar pontos de apoio e informações confiáveis em meio ao labirinto de espelhos que são as memórias movediças do narrador. O toque de mestre está na arte sutil que faz do relato crepuscular de Eulálio uma confissão involuntária e poderosa o bastante para dar ao leitor a sensação de que sabe mais sobre o personagem e seu mundo que o próprio autor. Os achados estilísticos da obra são um banquete de mil talheres.
E, não obstante, algo se frustra. A primeira pessoa confessional é um gênero exigente. Os delírios da decrepitude de Eulálio são fiéis à vida, mas a situação narrativa do autor decrépito não convence. Não se sabe por que ele conta sua história e, menos ainda, como o relato se fixa e vira texto. Ora ele dita à enfermeira-taquígrafa, ora fala com o teto; ora sonha em voz alta, ora conversa com mortos; ora dirige-se à filha, ora ao leitor. A trama do ato de contar é tecnicamente débil -não para em pé.
Simplismos esporádicos à parte, "Leite Derramado" cutuca e devassa com olhar cortante as mazelas da vida brasileira: a desigualdade obscena; a promiscuidade público-privada; a subserviência colonizada; o preconceito velado pela cordialidade. O que falta, porém, é a construção de ao menos um personagem com o qual se possa ter um vínculo de empatia. Os Eulálios senhoriais são calhordas; os Balbinos da estirpe servil, quando aparecem em cena, mais parecem boçais, e Matilde não tem vida interior. A sociologia festeja, mas a filosofia rasteja.
Se o novo romance de Chico Buarque fosse uma partida de futebol, seria um daqueles jogos repletos de lances memoráveis, fintas deslumbrantes, toques de gênio, mas em que o conjunto do time e o desenrolar da peleja deixam a desejar. Falta armação de jogo. O autor de "Deus lhe Pague" e "Futuros Amantes" foi mais longe.


Avaliação: bom

EDUARDO GIANNETTI, 52, é economista, cientista social e professor do Ibmec-SP.

 
 
 
BRAVO

Qual a melhor obra de Chico Buarque?

Chico Buarque acaba de lançar seu novo livro, Leite Derramado, já considerado por alguns a melhor produção do escritor. O crítico Heitor Ferraz resenhou o livro e artistas consagrados como Mart’nália, Zé Celso e Toquinho nos contaram qual sua obra preferida do artista. Qual a sua?

 Veja a galeria de imagens do making-of da seção de fotos exclusivas com Chico e Caetano e as capas alternativas dessa edição

 

• A matéria completa – A Palavra e o Som

 

• "Chega de Verdade" – A íntegra da entrevista que Caetano Veloso concedeu a BRAVO!

 

 

"Toda vez que penso em Chico Buarque me vem aquela música do ‘Anjo Safado’ (Até o Fim) (risos). Mas as canções que mais gosto são mesmo Desalento com Vinícius, Morena dos Olhos d’Água e Carolina com ele mesmo.

As peças, eu nunca assisti nenhuma – ainda. Livros, só mesmo o Budapeste.

Discos, o Chico Buarque de Hollanda Vol. 2 (1967) foi a iniciação. Pô, eu era pequena, né? (risos)

O Chico Buarque e Maria Bethânia Ao Vivo é o CD da minha vida! É o que mais gosto e o que mais ouvi na vida, com a minha Cabloca (modo como Martinália chama Bethânia). Os dois me ajudaram muito na mesma época, sinistro! (Bethânia com o CD Menino do Rio, produzido e dirigido por ela e no qual canta São Sebastião. Chico, no disco Berlim ao vivo, cantando as músicas Sem Compromisso e Deixa a Menina)".

Mart’nália, cantora, compositora e percussionista, estreou na carreira artística aos 16 anos fazendo backing vocal no disco do pai, Martinho da Vila.

 

"É obvio que meu voto é para a dramaturgia Roda Viva. Mas prefiro um milhão de vezes Sem Fantasia à música título da peça".

Zé Celso Martinez Correa, autor, ator e diretor de montagens históricas como Pequenos Burgueses e O Rei da Vela. Em 1968, no ápice dos embates entre os profissionais de teatro e a ditadura no poder, montou Roda Viva, de Chico Buarque. O grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC) agrediu o elenco e destruiu parte do cenário na temporada paulista. O espetáculo foi censurado durante suas apresentações em Porto Alegre.


 

"Impossível escolher uma só. Cito minhas três preferidas de épocas diferentes: Ela desatinou, O que será e Construção".

Toquinho, compositor, cantor e instrumentista. Sua primeira melodia a receber uma letra foi Lua Cheia. Quem a compôs foi Chico Buarque, a quem conheceu em 1963.


E a sua obra preferida de Chico Buarque, qual é?

 

Leia a seguir a resenha crítica do novo Leite Derramado, de Heitor Ferraz:

 

31 de março de 2009

OTAN x CRISE ECONÔMICA + AMÉRICA LATINA

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 7:12 AM
 
 
World Depression: Regional Wars and the Decline of the US Empire

– by Prof. James Petras – 2009-03-30
A world depression, in which upward of a quarter of the world’s labor force will be unemployed, is looming.

 

 
 
A Otan está buscando US$ 2 bilhões por ano junto à comunidade internacional para reforçar as forças de segurança do Afeganistão, segundo Jaap de Hoop Scheffer, o secretário-geral da aliança.

O aumento do apoio aos planos americanos de expandir e manter o exército nacional e a polícia afegãos será uma questão central da conferência internacional de quarta-feira sobre o Afeganistão e no encontro de cúpula da Otan neste fim de semana, disse De Hoop Scheffer.

"Isto se trata de somas imensas de dinheiro", ele disse. "Os americanos realizarão muito treinamento, mas não é possível treinar as forças e não sustentá-las."

Um dos pontos principais da revisão americana da semana passada é o envio de 4 mil soldados americanos adicionais para o Afeganistão para treinamento das forças de segurança afegãs.

De Hoop Scheffer disse que outros países, particularmente aqueles de fora da aliança de 26 membros da Otan, devem fornecer fundos para o pagamento de salários e sustentar estas forças ao longo dos próximos cinco anos.

O "grande encontro" de quarta-feira de vizinhos do Afeganistão em Haia, que incluirá o Irã, será um momento simbólico. "Haia enviará uma mensagem poderosa de que não são apenas a Otan, a ONU e a União Europeia que estão engajados no Afeganistão, mas que uma comunidade maior está comprometida com seu futuro."

Uma tarefa central do encontro será fazer com que os governos se comprometam a fornecer os US$ 2 bilhões por ano para um fundo da Otan que sustentará os 134 mil soldados do exército afegão, disse De Hoop Scheffer. Até o momento, ele tem apenas US$ 25 milhões.

"Os principais países doadores potenciais – Japão, Arábia Saudita e os países do Golfo – estarão todos em Haia", ele disse. "Eu não estou dizendo que os recursos devem vir exclusivamente destes círculos. Mas é difícil ver como os aliados da Otan – dado os valores enormes que já gastam para manter as forças lá – podem contribuir para os US$ 2 bi ao ano. É impossível para eles."

Na cúpula da Otan em Estrasburgo e Kehl, na sexta-feira, De Hoop Scheffer buscará uma direção a respeito de como o treinamento deve ser coordenado, em meio aos sinais de que há tensões entre os americanos e franceses em torno da questão.

Os representantes da Otan dizem que os Estados Unidos estão buscando uma coordenação altamente centralizada de todas as missões de treinamento no Afeganistão, enquanto a França deseja que a União Europeia mantenha o controle do treinamento da polícia paramilitar.

"Eu gostaria de ver a criação de uma missão nacional de treinamento para o Afeganistão, onde dobraríamos a função do oficial de comando americano para fazê-lo trabalhar para o lado americano e para o lado da Otan", ele disse, acrescentando que uma missão desse tipo funcionou de forma eficaz no Iraque. "Mas há vozes que dizem que a União Europeia poderia assumir o treinamento da polícia separadamente. Eu preferiria que o treinamento ocorresse sob a Ntma, onde também poderia haver uma contribuição da UE."

De Hoop Scheffer deixou implícito que os Estados Unidos não esperam que os aliados europeus enviem um número significativo de soldados adicionais ao Afeganistão. "Os aliados europeus não têm como igualar os números americanos. Eles não podem enviar repentinamente uma brigada de combate aéreo com 100 helicópteros. Não é assim que funciona na UE."

Mas ele disse que os países membros da Otan devem concluir seus planos neste fim de semana para o envio de cerca de 4 mil soldados adicionais ao Afeganistão no meio deste ano, para garantir a segurança das eleições afegãs em 20 de agosto e um possível segundo turno em outubro. "Eu estou no processo de preparar isto e tenho esperança de que conseguiremos", ele acrescentou.

Tradução: George El Khouri Andolfato

 
 
FOLHA DE SÃO PAULO
São Paulo, segunda-feira, 20 de abril de 2009
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Cúpula das Américas


O conceito geográfico de América é naturalmente verdadeiro, mas, além disso, o que significa a América?


QUANDO ESCREVO este artigo, não sei ainda qual foi o resultado da Cúpula das Américas, mas, apesar da esperança que o mundo deposita em Barack Obama, não creio que ele possa mudar um fato simples: a reunião é inconsequente, porque o conceito político e econômico de América não faz sentido. O conceito geográfico de América, ou das três Américas, é naturalmente verdadeiro, mas, além disso, o que significa a América?
Para que uma região do mundo tenha um sentido econômico e político, é necessário que entre os países que a compõem existam interesses comuns que não se estendem aos demais. Além de comuns, portanto, os interesses devem ser relativamente exclusivos. É difícil, porém, ver quais são os interesses exclusivos que os países em desenvolvimento da América Latina têm com os Estados Unidos e o Canadá. Esses dois países partilham interesses reais e exclusivos com os europeus porque seus níveis de desenvolvimento e de salários são semelhantes. Com os demais países do continente americano -sejam os pobres ou os de nível médio-, a relação ou é de conflito devido aos salários menores destes ou é simplesmente imperial.
A relação dos Estados Unidos com a América Latina foi sempre a do império com a colônia. A célebre frase do presidente Monroe -"a América para os americanos"- poderia ser pensada como uma manifestação de solidariedade continental, mas é apenas a expressão do nacionalismo e do caráter imperial do grande país que estava então se formando. Até 1930, a América Latina era o "quintal dos Estados Unidos"; alcançou razoável autonomia entre essa década e os anos 1980, mas nos anos 1990 voltou à condição anterior, semicolonial, então expressa na subordinação ao Consenso de Washington.
Desde os anos 2000, vários países vêm recuperando autonomia -algo que desagrada às elites americanas e principalmente às suas empresas multinacionais, que dispõem dos mercados internos da América Latina como seus mercados-reserva em troca de quase nada.
Barack Obama terá condições de mudar essa relação? Terá condição de abandonar a ideia de que os países latino-americanos necessitam da "ajuda" dos Estados Unidos e tratar de encontrar interesses realmente comuns? Não creio, até porque mudança dessa natureza não está na agenda de ninguém. O que está na agenda latino-americana é apenas o fim do bloqueio econômico a Cuba, enquanto os Estados Unidos estão interessados em assinar acordos bilaterais com países latino-americanos que, em troca de modesta abertura do mercado americano, têm as vantagens de dividir a região e limitar gravemente a autonomia do país contratante. Para os países da América do Sul, não faz mais sentido sequer o conceito de América Latina depois que o México aceitou a dependência aos Estados Unidos por meio do Nafta.
O que pode fazer sentido, como bem sabe nossa diplomacia, é uma maior união com os países da América do Sul. A condição essencial para que haja um acordo real -um nível de salários semelhante- existe. Mas alguns países, como o Chile, a Colômbia e o Peru, ainda não estão convencidos de que seu real interesse é o de se associarem a seus semelhantes em vez de se subordinarem aos Estados Unidos. A Cúpula das Américas pode ser útil para algumas ações coletivas internacionais como o combate à droga e ao crime organizado, mas mesmo em relação a esses problemas não há por que pensar nas Américas -é melhor pensar a nível maior porque são questões mundiais.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".
Internet: www.bresserpereira.org.br
lcbresser@uol.com.br

 
 

Um continente sem teoria

José Luís Fiori
22/04/2009 

 

No século XIX, o pensamento social europeu dedicou pouquíssima atenção ao continente americano. Mesmo os socialistas e marxistas que discutiram a "questão colonial", no final do século, só estavam preocupados com a Ásia e a África. Nunca tiveram interesse teórico e político nos novos Estados americanos, que alcançaram sua independência, mas se mantiveram sob a tutela diplomática e financeira da Grã Bretanha. Foi só no início do Século XX que a teoria marxista do imperialismo se dedicou ao estudo específico da internacionalização do capital e seu papel no desenvolvimento capitalista a escala global. Assim mesmo, seu objeto seguiu sendo a competição e a guerra entre os europeus. A maior parte dos autores marxistas ainda compartilhava a visão evolucionista de Marx, com relação ao futuro econômico dos países atrasados, seguros de que "os países mais desenvolvidos industrialmente mostram aos menos desenvolvidos, a imagem do que será o seu próprio futuro".

Foi só depois da década de 20, que a III Internacional Comunista transformou o imperialismo num adversário estratégico e num obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas nos países "coloniais e semi-coloniais". De qualquer forma, o objeto central de todas as análises e propostas revolucionárias foi sempre a Índia, a China, o Egito e Indonésia, muito mais do que a América Latina. Na primeira metade do Século XX, os Estados Unidos já haviam se transformado numa grande potência imperialista, e o resto da América Latina foi incluída pela III Internacional, depois de 1940, na mesma estratégia geral das "revoluções nacionais", ou das "revoluções democrático-burguesas", contra a aliança das forças imperialistas com as oligarquias agrárias feudais, e a favor da industrialização nacional dos países periféricos.

Um pouco mais à frente, na década de 1950, a tese da "revolução democrático-burguesa", e sua defesa do desenvolvimento industrial, foi reforçada pela "economia política da Cepal" (Comissão Econômica para a América Latina) que analisava a economia latino-americana no contexto de uma divisão internacional do trabalho entre países "centrais" e países "periféricos". A Cepal criticava a tese das "vantagens comparativas" da teoria do comércio internacional de David Ricardo, e considerava que as relações comerciais entre as duas "fatias" do sistema econômico mundial prejudicavam o desenvolvimento industrial dos países periféricos. Tratava-se de uma crítica econômica heterodoxa, de filiação keynesiana, mas do ponto de vista prático acabou convergindo com as propostas "nacional-desenvolvimentista", que foram hegemônicas no continente depois da II Guerra Mundial.

Na década da de 60, entretanto, a Revolução Cubana, a crise econômica e a multiplicação dos golpes militares em toda a América Latina provocaram um desencanto generalizado com a estratégia "democrático-burguesa", e com a proposta "cepalina" da industrialização por "substituição de importações". Sua crítica intelectual deu origem às três grandes vertentes da "teoria da dependência", que talvez tenha sido a última tentativa de teorização latino-americana do Século XX. A primeira vertente – de filiação marxista – considerava o desenvolvimento dos países centrais e o imperialismo um obstáculo intransponível para o desenvolvimento capitalista periférico. Por isto, falavam do "desenvolvimento do subdesenvolvimento" e defendiam a necessidade de uma revolução socialista imediata, inclusive como estratégia de desenvolvimento econômico. A segunda vertente – de filiação "cepalina" – também identificava obstáculos à industrialização do continente, mas considerava possível superá-los através de uma série de "reformas estruturais" que se transformaram em tema central da agenda política latino-americana durante toda a década de 60. Na verdade, a própria teoria da Cepal, sobre a relação "centro-periferia", já não dava conta da relação dos EUA com o seu "território econômico supranacional", que era diferente do que havia acontecido com a Grã Bretanha. Por fim, a terceira vertente da teoria de dependência – de filiação a um só tempo marxista e cepalina – foi a que teve vida mais longa e efeitos mais surpreendentes, por três razões fundamentais: primeiro, porque defendia a viabilidade do capitalismo latino-americano; segundo, porque defendia uma estratégia de desenvolvimento "dependente e associado" com os países centrais; e terceiro, porque saíram deste correntes alguns dos principais líderes políticos e intelectuais da "restauração neoliberal" dos anos 90.

Como se tivesse ocorrido um apagão mental, velhos marxistas, nacionalistas e desenvolvimentistas abandonaram suas teorias latino-americanistas e aderiram à visão do sistema mundial e do capitalismo, própria do liberalismo europeu do século XVIII. Nesta linha de pensamento, ainda em 2009, um importante intelectual desta corrente de ideias defendia – por cima de tudo o que passou no mundo, desde o início do Século XXI – que "não existe mais geopolítica nem imperialismo no novo mundo pós-colonial, da globalização, do sistema político e da democracia global… [e que] a estratégia clássica da geopolítica de garantir acesso exclusivo a recursos naturais na periferia do capitalismo já não faz sentido não só por seus custos, mas também porque, com a globalização, todos os mercados estão abertos, e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado… [donde], as guerras entre as grandes potências já não fazem sentido porque todas as fronteiras já estão definidas…" (Bresser Pereira, L. C. "O mundo menos sombrio. Política e economia nas relações internacionais entre os grandes países", in Jornal de Resenhas. Março de 2009, Nº 1. Discurso Editorial, São Paulo, pp: 6 e 7). Ingenuidade à parte, os liberais nunca tiveram uma teoria original a respeito da América Latina, nem precisam dela. A repetição recorrente de algumas platitudes cosmopolitas foi mais do que suficiente para sustentar sua visão da economia mundial e legitimar sua ação política e econômica idêntica em todos os países. Mas no caso dos intelectuais progressistas do continente é uma má notícia saber que não existe mais uma teoria capaz de ler e interpretar a história do continente, e fundamentar uma estratégia coerente de construção do futuro, respeitada a imensa heterogeneidade latino-americana.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Boitempo, 2007). Escreve mensalmente às quartas-feiras.

 
 
 
 
 
 

La crisis económica, la izquierda y la dinámica geopolítica

José Luis Fiori · · · ·

A esquerda e a crise

Neste período haverá resistência e haverá conflitos sociais agudos, e se a crise se prolongar, deverão se multiplicar as rebeliões sociais e as guerras civis nas zonas de fratura do sistema mundial, e é provável que algumas destas rebeliões voltem a se colocar objetivos socialistas. Mas do nosso ponto de vista, não haverá uma mudança de modo de produção em escala mundial, nem tampouco ocorrerá uma superação hegeliana do sistema inter-estatal capitalista. A análise é de José Luís Fiori.

José Luís Fiori

 
 
 
 
 

Guerra imperialista no século XXI

do site red por ti america

Nenhuma análise ao imperialismo estaria completa sem a discussão da tendência sistemática do imperialismo na direcção da guerra.

O carácter guerreiro do imperialismo e a sua dependência do militarismo podem mesmo criar uma crise social profunda e instabilidade nos Estados Unidos.

Portanto, é importante discutir algumas das características salientes do militarismo imperial ao longo dos últimos 130 anos.

Três fases da guerra imperialista

 
 
 
 

Lições da experiência neoliberal – Brasil, Argentina e México
 

Renildo Souza

Mesmo diante do fracasso do modelo neoliberal na América Latina, os representantes da ortodoxia econômica, paradoxalmente, reafirmam as suas recomendações de necessidade de extensão e aprofundamento da liberalização dos mercados e das chamadas reformas estruturais. Para eles, a vulnerabilidade externa decorreria de insuficiência, limitação e erros na implementação do modelo neoliberal
 

 
 
 
 

6 DE FEVEREIRO DE 2009 – 20h46

O fim do regime de Bretton Woods como reação do império norteamericano
por Marcelo Fernandes*

Uma das explicações correntes sobre a crise que levou o fim do regime monetário de Bretton Woods refere-se à combinação de dois fatores. Em primeiro lugar, o forte aumento da circulação de dólares devido aos sucessivos déficits no balanço de pagamentos dos EUA após a Segunda Guerra. Em segundo lugar, o crescimento exponencial do mercado de Eurodólares na segunda metade dos anos 1960, levando ao aumento desordenado da liquidez internacional fora do controle do Fed.
 
 
Existe uma opinião quase unânime entre economistas de vários matizes de que a crise atual tem suas origens no processo de desregulamentação e liberalização dos mercados financeiros nas últimas décadas. Essa constatação vem reforçando o apelo por iniciativas de reconstrução do sistema monetário e financeiro internacional, através de discussões nos moldes do antigo acordo de Bretto…
 
 
 

22/04/2009

Brasil pretende dividir com os EUA a liderança continental

Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires
"O trabalho duro começa depois da cúpula. Todos sabemos que o futuro da América Latina depende em boa parte do papel predominante dos dois países decisivos no hemisfério: Estados Unidos e Brasil. O futuro depende das relações de compreensão e equilíbrio que se construam entre Washington e Brasília". A análise de David Rothkopf, especialista americano que ocupou um alto cargo no Departamento do Comércio, resume um dos grandes temas que permeiam a cúpula de Trinidad e Tobago. Como o governo de Barack Obama responderá às tentativas do Brasil de imprimir sua marca no continente e de exercer uma liderança pouco dissimulada?
… …. ….. ….
 
 

5 DE MAIO DE 2009 – 11h25

Emir Sader defende protecionismo regional na América Latina

O filósofo Emir Sader analisou, em entrevista ao diário argentino Página 12, o posicionamento da América Latina frente a crise econômica mundial. Para o secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), os países do sul não estão preparados para oferecer soluções coletivas à crise. Ele defendeu um protecionismo regional para potencializar o consumo interno, política que deveria ser complementada com a criação de uma moeda comum para a região.

Neste processo, ele considera necessária a integração da Venezuela ao Mercosul. Em relação ao plano político, assegurou que o conflito entre o governo e as entidades agropecuárias deixou desnuda a "nova direita" argentina. Sader também defendeu a designação, por parte do Estado, de diretores nas empresas privadas.

 

A REORDENAÇÃO PÓS-CRISE

Moeda é poder. Há hegemonia em uma nota de dólar

O Brasil atrelou seu destino à lógica dos mercados financeiros desregulados a partir dos anos 90. A prerrogativa da intervenção pública – sobretudo no setor financeiro – ficou subordinada a regras que protegem grupos de interesses locais e internacionais; os mesmos que ameaçam pôr em movimento uma montanha desordenada de capitais voláteis, cuja força é suficiente para reverter a retomada do desenvolvimento.

Redação – Carta Maior

Moeda é poder. O consenso aparente em torno da regulação dos mercados nesse momento esconde a dimensão política da crise. Existe hegemonia embutida em uma nota de dólar; explorados e exploradores na definição da taxa de juro. Está em jogo a reordenação da hierarquia entre moedas abalada pelo colapso da ordem neoliberal. A prática não ecoa o consenso reformista dos discursos oficiais. Foi assim também em 1929. … … … … …. ….. …… BOM

 

6 DE MAIO DE 2009 – 19h18

O fim do padrão-dólar na America Latina?
por Altamiro Borges*

Segundo reportagem desta semana no jornal Valor, “o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já marcou data para anunciar seus planos ambiciosos para o uso do real nas transações da América do Sul… Na próxima reunião da Unasul, que agrega os países da região, ainda neste semestre, Lula quer apresentar aos parceiros proposta que pode ampliar o uso do real nas relações entre os vizinhos”. Caso a notícia se confirme, será um acontecimento inédito nesta sofrida região, tratada como “quintal dos EUA”, e poderá representar o fim do “império do dólar” no continente.

 

 

 

O lugar da China, Índia, Brasil e Àfrica do Sul – A nova geopolítica das nações

José Luís Fiori

 

 

INFORMAÇÃO, CONHECIMENTO E PODER: Contribuição para a Economia Política da Comunicação – Mônica Yukie Kuwahara – TESE

 

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24 de fevereiro de 2009

CIÊNCIA NOS EUA + INDÚSRIA AUTOMOBILÍSTICA

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 9:00 AM
Jornal Valor Econômico 
 

A história atribulada da GM nos tempos de Bill Durant

De São Paulo
03/04/2009
 

William "Bill" Crapo Durant (1861-1947) era um sujeito de pouco estudo e muita ambição. Neto de um ex-governador de Michigan, cresceu numa família de influência no Estado que depois entraria para a história do capitalismo americano como um emblema da indústria automobilística. Vendedor convincente, experimentou suas habilidades em algumas áreas do comércio, fez-se sócio de uma corretora de seguros e, afinal, entrou para o negócio de carruagens, carroças e charretes, com Josiah Dallas Dort. Sucesso total. Em 1900, a Durant-Dort era a maior do país nesse ramo.

Automóvel, na época, era coisa estranha num mundo puxado a cavalo. Durant não apreciava as geringonças barulhentas, capazes de desencadear incontroláveis situações de perigo, que começavam a aparecer pelas ruas. Nem acreditava que fossem além de um modismo inconsequente. Mudou de idéia quando, a convite de um conhecido, deu umas voltas num carro projetado por um escocês morador de Detroit, David Buick. Não demorou muito para que se dispusesse a socorrer a endividada Buick Motor Car Co. Tomou conta da diretoria, revitalizou a empresa. Passou a produzir Buicks numa fábrica de carruagens desativada em Jackson, Michigan. Começava aí sua carreira de comprador de empresas que nasciam às centenas com o propósito de fabricar carros. Em 1907, dizem biógrafos, ele alimentava a intenção de controlar toda a indústria. Quis a Ford, que Henry admitia vender. Mas não chegaram a um entendimento, por falta de banqueiros dispostos a financiar o negócio na ocasião. Durant ficou sem a Ford, mas, manobrando para cá e para lá, levantou recursos e comprou a Cadillac, a Oldsmobile, a Northway, a Oakland (Pontiac) e outras companhias menores. Assim nasceu a General Motors, em 1908, reunião de marcas, modelos e apelos à variedade de gostos – que, intuiu Durant, navegando na direção contrária à que fazia o sucesso da Ford, com seu Modelo T, único e sempre preto -, constituiria a chama da moderna sociedade de consumo.

Empreendedor, ele era. Mas entre carroças e automóveis havia uma distância, em matéria de competências gerenciais, que escapavam às pretensões de Durant. Durante se afogou em dívidas e foi exilado da GM em 1910, quando um grupo de banqueiros assumiu o controle da empresa. Associou-se a Louis Chevrolet, voltou a fabricar carros. Acabaram se desentendendo e Durant ficou sozinho no negócio. Comprou outras pequenas companhias e também umas tantas fabricantes de autopeças, que reuniu numa só empresa, a United Motors. Entregou a presidência a Alfred Sloan, de quem comprara, em 1916, uma fábrica de rolamentos. Nesse mesmo ano, com a ajuda da família Du Pont, recobrou o controle da GM – que em 1919 já era uma das maiores empresas industriais dos Estados Unidos. A crise da bolsa de 1920 o encontrou demasiadamente exposto no mercado de ações. Tentou, mas não conseguiu sustentar o preço dos papéis da GM. Os Du Pont lhe tomaram a cadeira. A Durant Motors, que criou em 1921, foi sua última tentativa de permanecer no ramo. Seu negócio já não era dos mais equilibrados quando veio a crise de 1929 e a depressão dos anos seguintes. A empresa foi dissolvida em 1933. Dois anos depois, Durant declarou-se formalmente falido, com dívidas de US$ 814 mil. Seus "ativos" resumiam-se a US$ 250 em roupas.

Quando Alfred Pritchard Sloan Jr. (1875-1966) assumiu a presidência da GM, em 1923, a empresa tinha menos de um quinto do mercado, enquanto a Ford dominava mais da metade. Em 1931, a GM tinha ultrapassado a Ford, e não mais perderia essa posição.

Alguém disse que Sloan, engenheiro pelo MIT (onde a escola de administração leva seu nome), inventou a moderna empresa americana, no princípio do século passado. Nos anos 1920 e 1930, ele foi a grande cabeça da GM. Pôs ordem na casa, organizou o que era caótica informalidade. Racionalizou. Descentralizou operações, instituindo divisões. Estimulou a busca de excelência recompensando gerentes pelos resultados alcançados. Implantou a medição de produção. Uma revolução, para a época. De Durant, Sloan conservou o princípio da diversidade de produtos. Adotou práticas pioneiras de pesquisa de mercado, publicidade e relações públicas. Sob seu comando, a GM tornou-se a maior corporação industrial do mundo, com enorme influência, década após década, no processo de modelagem da cultura de consumo americana e global. (CA)

 

Conflito de gerações

Por Cyro Andrade, de São Paulo
03/04/2009 

A indústria automobilística americana poderia estar hoje na liderança do mercado mundial, colhendo os louros consagrados a uma campeã de inovação e tecnologia? A derrocada da General Motors poderia ter continuado onde sempre esteve, lá no reino das fatalidades impensáveis? Descontem-se os efeitos da crise econômica e ainda assim restarão evidências de que as Três de Detroit teriam perdido o rumo da competitividade. Por falta de vontade de competir.

Este é um caso de estagnação por escolha própria de uma indústria tão grande, que tão solidamente americana se fizera, na sua dimensão industrial e no mercado doméstico dominado, que se julgava imune a qualquer possibilidade de ameaça a seu poderio – inclusive nas suas extensões externas. Ostentam tal soberba "as grandes civilizações que acabaram desaparecendo", compara Luiz Carlos Mello, diretor do Centro de Estudos Automotivos, ex-presidente da Ford Brasil. A metáfora é adequada.

Deu-se, no caso, uma mistura potencialmente fatal de arrogância e leniência auto-aplicada. E os japoneses, batalhadores sistemáticos e pacientes, acabaram levando a taça, dentro e fora do maior mercado do mundo. Com o troféu, apossaram-se também de signos culturais nele implícitos, para uso em demolidoras ações de marketing, a começar pelo mais genérico, de modernidade, que as Três de Detroit ajudaram a estabelecer enquanto desempenhavam papel fundamental na modelagem da sociedade de consumo americana e mundial nos últimos cem anos.

 

Aos poucos, os japoneses apossaram-se do que estava incrustado na sociedade americana – a inclinação para o consumo desabrido num país de alta renda e aberta exposição aos ventos da globalização intensificada – e passaram a servir-se de suas fragilidades, pelas bordas do prato, para influir sobre a própria construção de signos, renovando o imaginário orientador daquelas mesmas forças consumistas.

O Gran Torino Cobra de Walt Kowalski, personagem de Clint Eastwood no filme recente, é de uma linha que a Ford fabricou de 1968 a 1976, época em que os japoneses começavam a chegar ao mercado americano. Esses "muscle cars", com seus formidáveis motores de 8 cilindros, parecem hoje simplesmente ridículos nas suas exorbitâncias de aço e consumo. Mas têm valor histórico. Foram eles, com tudo que representavam da estagnação inventiva de Detroit, os feiticeiros que acabaram provando do próprio feitiço, cozinhado na determinação visionária dos japoneses.

Há o ilustrativo registro da visita que o engenheiro Eiji Toyoda, primo de Kiichiro Toyoda, que fundou a Toyota em 1938, fez à linha de montagem da Ford, no começo dos anos 1950. Impressionado com as ineficiências que viu, tirou daí a inspiração para aperfeiçoar processos na fábrica de que era diretor-gerente no Japão. Em 1968, um ano depois de ter assumido a presidência da Toyota , Eiji exportou para os Estados Unidos os primeiros Corolla, um carro compacto, de baixo preço (uma primeira experiência, com o Toyota Crown, não foi bem-sucedida, por que o carro era lento para os padrões de velocidade das auto-estradas americanas). A receptividade ao Corolla foi bastante boa, sobretudo naquela faixa de consumidores, os "baby boomers", geração mais jovem que iniciava seus muitos anos de influência sobre os costumes dos consumidores americanos. Começava também a inexorável investida japonesa, movida a competência, pertinácia e um tanto de presságio. O nome Toyota, com a sutil mudança em relação ao do fundador, surgiu de uma consulta popular em que vingou a idéia de que daria sorte. Em "katakana", alfabeto japonês, Toyoda tem dez traços, enquanto Toyota tem oito, número considerado de sorte e representativo de prosperidade.

Os americanos repousavam sobre glórias antigas. Ainda no princípio dos anos 1990, outro Ford, o Explorer, avantajado como ele só, seria responsável por colocar os Estados Unidos "na espiral da obesidade veicular", como disse o colunista de assuntos automobilísticos do "Los Angeles Times", Dan Neil (Pullitzer de crítica em 2004, pelos méritos de estilo e conteúdo de sua coluna), em comentário, escrito em 2007, numa seleção dos "50 piores carros de todos os tempos" que fez para a revista "Time". A GM compareceria mais tarde ao espetáculo de grandiosidades com um de seus mais espantosos símbolos de distração mercadológica, o Hummer, enormidade no tamanho, na feiura militaresca e no consumo de combustível (como o Explorer), surgida pouco depois do fatídico 11 de setembro. A coisa circularia também pelas areias do Iraque.

No mês passado, Neil desmanchava-se em elogios à nova pickup Dodge Ram, da Chrysler. E dizia que, sim, os alemães são donos, com justiça, do negócio de sedans de luxo, os italianos fazem carros esportivos inalcançáveis e, "that´s us", os americanos são imbatíveis no mercado das pickups "full-size", como a Ram, "this monster". As Três de Detroit são, então, as "deusas" desse ramo, em que Nissans e Toyotas, observa Neil, perdem feio (mas os japoneses literalmente destruíram a concorrência no segmento de pickups leves).

Gosto não se discute, é a máxima capitalista fundamental – como a preferência dos mais de 515.513 americanos que no ano passado compraram grandes pickups Ford, líderes antigas do segmento. A mesma possibilidade de escolha, porém, tirou-lhes a primazia absoluta na totalidade do mercado americano, posição de que desfrutaram, sozinhas e tranquilas, até que, no ano passado, foram ultrapassadas pelo Honda Civic, seguido de perto pelo Camry e o Corolla, ambos da Toyota. Os japoneses chegavam ao ponto mais alto da conquista do mercado americano pela primeira vez em 17 anos.

A disputa continua acirrada, mas fica evidente, se alguma dúvida ainda houvesse, que nada jamais será como antes nesse mercado, o de automóveis, que responde, com US$ 700 bilhões, por cerca de 20% das vendas do varejo americano. Também está claro que as Três de Detroit foram abusivas na exploração das tendências consumistas dos americanos. Não viram limites. Julgaram-se donas do processo. Os japoneses procuraram detalhes nas dobras de verdades supostamente estabelecidas. Examinaram os mesmos símbolos do imaginário consumista americano. Chegaram a outras conclusões.

Os desatentos americanos talvez tenham lido Honoré de Balzac, ou dele ouviram falar, mas não se deram conta de que o romancista francês escrevia na metade do século XIX. Sua obra é lembrada por Richard Sennett em seu livro "The Culture of the New Capitalism" (Yale University Press, 2006) para explicar a evolução de nuances das relações de consumo.

Balzac, diz Sennett, foi o grande artista das paixões que se auto-consomem. Seus personagens, tão ardentes no desejar o que não possuem, perdem esse ardor ao alcançar a posse do objeto almejado. São paixões que se extinguem na própria intensidade. Em outras palavras: ao usarmos as coisas, mesmo aquelas que desejávamos ardentemente – um automóvel, por exemplo -, a excitação inicial evanesce, vai diminuindo até apagar-se por completo.

O excesso e o desperdício, típicos do espírito consumista, andam juntos nessa paixão que se auto-consome, que, era comum dizer-se no século XX, tinha duas explicações – nenhuma delas inteiramente satisfatória, segundo Sennett. Uma era o "motor da moda", embutido na suposição de que a publicidade e a mídia de massa aprenderam como moldar desejos, de maneira que as pessoas sentem-se insatisfeitas com aquilo que têm. Foi a explicação muito difundida pela influência das idéias de Vance Packard, expostas em seu livro "The Hidden Persuaders" (Pocket, 1984). Aqui, o marketing é o mal. A outra explicação era a "obsolescência planejada", significando que as coisas eram produzidas não para durar, de forma que as pessoas seriam induzidas a comprar novas coisas. Os fatos em que esta última explicação se assentava vieram da indústria automobilística e da indústria de vestuário, com os carros tão mal soldados, as roupas tão mal costuradas que se tornavam imprestáveis depois de dois ou três anos. Aqui, a produção é o mal. Nos dois casos, entende-se que o consumidor desempenha um papel passivo. Na verdade, como Sennet observa, as pessoas podem, sim, envolver-se ativamente nessa paixão que se auto-consome.

Os japoneses perceberam isso com clareza e puderam compor uma nova equação para as relações entre suas empresas e produtos e o consumidor, na qual a gestão da qualidade seria a variável principal. A obsolescência planejada saía de cena.

Quando o americano W. Edwards Deming expôs suas idéias sobre gestão de qualidade total, ele tratava de uma realidade de produção na qual produtos defeituosos eram aceitos pelo consumidor como normais – um pouco como a situação de hoje, compara Sennett, em que os consumidores aceitam como normal a pobreza de qualidade inicial de um novo software. Os fabricantes japoneses de automóveis e eletrônicos, que adotaram as idéias de Deming, procuraram criar produtos que não se tornavam obsoletos propositalmente – e assim abriram novas avenidas de marketing. Empresas como Toyota e Sony sairam-se muito bem nisso. Seus produtos eram "fit-for-purpose", na expressão de Deming, que tem o duplo significado de uma máquina fazer exatamente o que deve fazer, e faz isso com robustez. É como um atleta: é "fit". A produção automatizada e a verificação eletrônica do produto permitiram, desde então, que a gestão de qualidade total se tornasse "normal".

Luiz Carlos Mello não tem a menor dúvida: os japoneses só poderiam mesmo derrubar as Três de Detroit por que se doutrinaram, disciplinadamente, para fazer as coisas certas a qualquer custo, sempre colocando a qualidade acima de tudo. Ou seja, nada que chegasse ao final da produção deveria ser o resultado de processos que de alguma forma, em algum momento, por qualquer razão, principalmente de natureza econômica, fizesse com que determinado produto fosse de menor qualidade. "A qualidade era percebida como um fator rigorosamente objetivo. A qualidade não seria aquela possível, mas rigorosamente aquela que se procurava que fosse."

O problema está em que, uma vez atingido esse padrão elevado, a demanda pelo produto pode cair. É onde entra o que os americanos chamam de "gold-plating", que se poderia traduzir por "atrativos de superfície". Quando Henry Ford disse nos anos 1920 que o consumidor podia ter qualquer Modelo T que quisesse, desde que fosse preto, seu filho Edsel (é o que se conta) retrucou: a variedade de cores é que faz os lucros. William Capro Durante, fundador da General Motors, percebeu isso desde o início e optou pela variedade de modelos. O que mudou, com o passar do tempo, é que o consumidor tomou para si um bom pedaço da magnificação das diferenças entre bens crescentemente homogeneizados. O fabricante se contenta em manter-se atuante na gestão de diferenças que são rapida e facilmente introduzidas em produtos de base padronizada. E aí a marca acaba sendo mais importante, para o consumidor, do que a coisa em si.

Tudo se dá num processo contínuo de "reprodução cultural", explica a professora Tania Maria Vidigal Limeira, titular da cadeira de comportamento do consumidor na Escola de Administração de Empresas da FGV/SP. A produção de bens se orienta pela interpretação-absorção de valores vigentes na sociedade, e "o consumo fica atrelado à cultura". A importância das pickups "full-size" no mercado americano reflete traços de reprodução cultural. A penetração crescente dos carros japoneses de tamanho médio, mais econômicos e mais ambientalmente corretos, também se explica por aí.

Hoje, as diferenças que o consumidor deve tomar em conta para fazer suas escolhas têm coloração especialmente forte no campo da inovação tecnológica. Nos Estados Unidos, o Prius, da Toyota, movido a eletricidade e a gasolina (de uso que se alterna conforme as condições de trabalho do motor), distingue-se, pelo sucesso de vendas, como símbolo mais expressivo de uma nova caracterização do mercado americano, essa do hibridismo de fontes de energia. Os japoneses foram de novo pioneiros, mas não pela tecnologia aplicada, e sim na disposição para investir num produto que, por suas características ambientalmente corretas, correspondia a uma tendência de reprodução cultural em franca afirmação.

"Os americanos não deram nenhuma importância ao carro híbrido, bem no momento em que a discussão sobre combustíveis limpos começava a tomar força", diz Mello. "Mais uma vez, a grande civilização automotiva americana se deixou levar pelo apego ao poderio que tinha e que pensava ser absolutamente protegido de qualquer ameaça. Nos anos 1990 e princípio deste século, a produção americana de utilitários esportivos, os SUVs, grandes beberrões de gasolina, aumentava consideravelmente por que dava lucros extraordinários e o americano comprava, fiel à sua tradição de consumidor inveterado daquilo que considera melhor." Enquanto isso, os japoneses, que tinham uma visão "muito mais arguta", entenderam que "era inevitável que se caminhasse para a produção de veículos ambientalmente corretos". Não apenas por que o petróleo é um produto finito, diz Mello, mas principalmente por que esse ‘feeling’ "passou a tomar de assalto as políticas de governo e, por extensão, o entendimento do próprio consumidor". Os japoneses enxergavam longe: o Prius chegou aos Estados Unidos em 1996. Era o resultado de investimentos que a Toyota fazia em pesquisa e desenvolvimento desde 1969, ainda quando a legislação de controle da poluição do ar estava em discussão no Congresso americano.

 
 
 
 

A crise veio atualizar a tragédia americana

De São Paulo
03/04/2009 

A indústria americana tem condições de retomar a competitividade perdida para os japoneses, a começar pela capacidade de inovar? Já era muito difícil, e ficou ainda mais complicado com a crise, diz Glauco Arbix, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e coordenador-geral do Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados da USP.

"A General Motors está enfrentando uma situação generalizada de queda de vendas e, ao mesmo tempo, uma pressão muito forte, por que não consegue manter os beneficios dos empregados. Tem dívidas, tem custos gigantescos. Vários de seus modelos colocam em questão unidades produtivas inteiras. São modelos que não têm viabilidade, situação agora escancarada pela crise, que foram mantidos por decisão executiva. Tem a divisão do Hummer, um jipe de guerra que transformaram numa van. Os americanos adoram essas coisas, carro que sobe em parede, só que esse carro é uma fonte inesgotável de prejuizo. São problemas muito grandes." Arbix lembra ainda que há rumores de que se pensa em descontinuar a divisão do Saturn, "a mais importante decisão que a GM tomou para combater a invasão japonesa", em termos de produção, de tecnologia, de design, amigável para as pessoas, para o ambiente.

A seguir, trechos selecionados da entrevista que Arbix concedeu ao Valor.

Valor: Todo o empenho colocado no Saturn foi inútil? Perdeu-se tudo?

Glauco Arbix : Em certo sentido, funcionou, mas não totalmente, por que o declinio das montadoras americanas em relação aos japoneses, e depois aos coreanos, continuou, ainda que não linearmente. Dos anos 1970 para cá há periodos em que a indústria se recupera, basicamente a partir do final dos anos 1980. Ganha mais força, fôlego, vai se remodelando, mas se você traçar uma mediana vai ver que o declinio é longo e durável, até chegar à situação de hoje, em que a principal montadora americana é a Toyota. A Honda vinha numa trajetória ascendente até o ano passado. A única montadora que deu dinheiro em 2008 foi a Subaru. Em matéria de inovação e tecnologia, as japonesas continuam dando de virada. A vantagem é muito grande.

Valor: Então não tem recuperação…

Arbix : As montadoras americanas têm que se recuperar do ponto de vista da tecnologia, da inovação, da gestão. Elas têm relações históricas com o público americano, das quais é dificil se livrarem. Vão ter que jogar uma parte dos clientes fora, que não sustenta a produção. São decisões muito difíceis de tomar. Além do que fica todo mundo esperando a recuperação do mercado, dos velhos tempos dos dias de ouro. Então, você tem várias dimensões de recuperação das montadoras americanas. Pego a GM como símbolo, por que é a maior. É muito difícil elas se recuperarem. Estão atrasadas do ponto de vista tecnológico. O único carro que se tem mostrado viável, com procura, carro mais avançado do ponto de vista energético, do ambiente, é o Prius, da Toyota, que agora tem uma nova versão, mais avançada ainda. A Honda já lançou o seu híbrido. A GM também. São vários carros desse tipo no mercado, mas o que vende, que dá dinheiro, é o Prius.

Valor: Qual é a grande vantagem do Prius?

Arbix : O grande problema é que até hoje não se descobriu como estocar energia. Bateria tem validade. Energia se dissipa, você não consegue conter. Então, os japoneses fizeram uma coisa inteligente: eles introduziram a troca da matriz. Quando a energia elétrica está acabando, ele passa para a gasolina e a bateria volta a ser carregada. Estou simplificando, por que é mais sofisticado que isso. O carro faz esse tipo de alteração de matriz em situações, por exemplo, de subida, de descida, de arranque rápido. Parece simples, mas é hipercomplicado. A Toyota conseguiu resolver, não totalmente a contento, mas pelo menos do ponto de vista comercial, por que vende o Prius e consegue ganhar dinheiro. O que é um problema, por que é um carro caro (cerca des 30 mil dólares, praticamente o dobro de um Corolla, de um Accura, de um Accord, que são carros do mesmo padrão). E eles tiveram uma estratégia de vendas muito importante: foram para a Califórnia, que é o estado mais preocupado com o meio ambiente, e de lá partiram para o resto dos Estados Unidos. Fizeram tudo direitinho, e têm um produto bom.

Valor: O Prius será o padrão?

Arbix : Depende do público. O momento é ingrato para dizer isso. Não por causa da crise, mas do ponto de vista da tecnologia é dificil, por que todas as montadoras estão na beira de lançar produtos tecnologicamente mais avançados do que o Prius. O Prius é a primeira geração que deu certo de um carro híbrido, e ele está na verdade no fim do seu ciclo. Se você falar para um público leigo que o Prius é hoje o carro mais avançado, tudo bem, mas pessoas de um público mais especializado vão dizer que tem um monte de coisas prestes a sair. É verdade.

Valor: A Ford, a própria GM, a Renault, todas estão vivendo esse momento de transição?

Arbix : Inclusive a própria Toyota. Existem pesquisas avançadas com outra matriz energética, aquilo que é chamado célula-combustível, que é o carro movido a célula de hidrogênio. É praticamente emissão zero.Não existe emissão zero, mas é uma espécie de metáfora.Tem um pouquinho, que, perto dos outros, seria zero. A célula é capaz de gerar energia não só para carro. Tem várias usinas que já funcionam com geração de eletricidade a partir do hidrogênio. O problema é que são gigantescas e não cabem num carro. O sistema de desagregação do hidrogênio, para que ele gere energia, é complicado e não cabe no motorzinho. Tem vários projetos nessa direção, várias montadoras estão desenvolvendo pesquisas de forma intensa nessa área e é bem possível que se consiga ter isso em curto espaço de tempo. Seria uma revolução. O carro de motor a combustão é muito avançado, sofreu mil evoluções, mas é praticamente o mesmo princípio de quando nasceu, no século XIX. É sofisticado, mas tudo parte da explosão, o mesmo princípio de 120 anos atrás.

Valor: Então todo mundo está se mexendo, inclusive a GM, a Ford…

Arbix : O problema é que ninguém sabe se elas vão conseguir desenvolver isso a tempo…

Valor: A tempo de quê?

Arbix : A tempo de se recuperar e de encurtar a distância, por que elas não estão sozinhas. A GM não está sozinha. Ela tem que fazer um carro diferente, mas tem que ser antes e melhor do que os japoneses, os alemães etc.

Valor: Isso continua a ser possível? Tem-se a impressão de que os americanos estão perdidos…

Arbix : Se não houvesse a crise… A crise atualiza o drama, atualiza a tragédia, por que acende uma lâmpada vermelha, dizendo que os japoneses, os coreanos, os alemães, os franceses, estão todos atrás dos americanos, ou na frente. Além de tudo, você vai perder musculatura. Vai ter que cortar gastos, inclusive de pesquisa e desenvolvimento. O drama é esse. A crise financeira e econômica coloca em questão a lógica industrial, que diz o seguinte: tenho que investir em novas tecnologias, ambientalmente mais legais, mais eficientes e de matrizes diferentes da do petróleo, que são poluentes. A incerteza e a insegurança da pesquisa joga contra aquilo que seria a única salvação dessas empresas. É um dilema gigantesco.

Valor: É dilema também para os japoneses…

Arbix : Mas eles estão na frente…

Valor: Mas precisam continuar pedalando…

Arbix : Todo mundo. Se a gente voltar mais ao mundo que existe, real, não aquilo que está sendo pesquisado, é interessante lembrar que a GM vive uma crise gigantesca na sua unidade européia, a Opel, que comprou há décadas e se transformou na subsidiária na Alemanha, que é o principal ponto de apoio da GM no mercado europeu, o segundo mundo. O que a Opel tem que a GM não tem? A Opel, pela tradição européia, sabe fazer carro pequeno. É a unidade da GM que desenvolve carros pequenos, com tecnologia mais capaz de atender um mercado que quer poupar gasolina cara, que quer respeitar o meio ambiente. A lógica faz com que a GM se utilize muito mais da unidade Opel, a única que em 2007 deu dinheiro para a matriz, além da brasileira.

Valor: Como a GM brasileira se situa nessa história?

Arbix : Pela explosão do mercado brasileiro nos últimos quatro ou cinco anos, todas as montadoras deram dinheiro, mas há o fato de que essas fábricas não são modelares. São boas plantas, atendem o mercado interno, exportam, mas não são modelares. A GM do Brasil não tem nada a ver no esquema da GM como um todo É como se eu dissesse assim: a GM do Brasil é importante? Claro, está dando dinheiro. Mas é só a mão direita da matriz, ou o pé esquerdo. É uma parte importante, mas a Opel é o fígado, o coração, o pulmão. Ocupa um lugar, na estrutura orgânica da GM, de natureza distinta da brasileira. Comparar as duas, pelo balanço financeiro, dá uma idéia muito baixa. Posso ganhar muito dinheiro vendendo um produto sem nenhuma tecnologia. A Opel é a divisão que consegue trabalhar design, novos produtos, desenvolve novas tecnologias, consegue compactar novas tecnologias, consegue fazer muita coisa que a GM não consegue, inclusive no Brasil. A Opel é peça-chave para a GM, mas ao mesmo tempo vive uma situação muito difícil. Pediu ajuda financeira ao governo alemão. E fala-se que o governo de Essen, onde fica a fábrica, poderia comprar uma parte da empresa. (CA)

 
 
 
Findings

Politics in the Guise of Pure Science

Published: February 23, 2009

Why, since President Obama promised to “restore science to its rightful place” in Washington, do some things feel not quite right?

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Viktor Koen

TierneyLab

Is the president getting scientific advice from honest brokers? Join the discussion.

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First there was Steven Chu, the physicist and new energy secretary, warning The Los Angeles Times that climate change could make water so scarce by century’s end that “there’s no more agriculture in California” and no way to keep the state’s cities going, either.

Then there was the hearing in the Senate to confirm another physicist, John Holdren, to be the president’s science adviser. Dr. Holdren was asked about some of his gloomy neo-Malthusian warnings in the past, like his calculation in the 1980s that famines due to climate change could leave a billion people dead by 2020. Did he still believe that?

“I think it is unlikely to happen,” Dr. Holdren told the senators, but he insisted that it was still “a possibility” that “we should work energetically to avoid.”

Well, I suppose it never hurts to go on the record in opposition to a billion imaginary deaths. But I have a more immediate concern: Will Mr. Obama’s scientific counselors give him realistic plans for dealing with global warming and other threats? To borrow a term from Roger Pielke Jr.: Can these scientists be honest brokers?

Dr. Pielke, a professor in the environmental studies program at the University of Colorado, is the author of “The Honest Broker,” a book arguing that most scientists are fundamentally mistaken about their role in political debates. As a result, he says, they’re jeopardizing their credibility while impeding solutions to problems like global warming.

Most researchers, Dr. Pielke writes, like to think of themselves in one of two roles: as a pure researcher who remains aloof from messy politics, or an impartial arbiter offering expert answers to politicians’ questions. Either way, they believe their research can point the way to correct public policies, and sometimes it does — when the science is clear and people’s values aren’t in conflict.

But climate change, like most political issues, isn’t so simple. While most scientists agree that anthropogenic global warming is a threat, they’re not certain about its scale or its timing or its precise consequences (like the condition of California’s water supply in 2090). And while most members of the public want to avoid future harm from climate change, they have conflicting values about which sacrifices are worthwhile today.

A scientist can enter the fray by becoming an advocate for certain policies, like limits on carbon emissions or subsidies for wind power. That’s a perfectly legitimate role for scientists, as long as they acknowledge that they’re promoting their own agendas.

But too often, Dr. Pielke says, they pose as impartial experts pointing politicians to the only option that makes scientific sense. To bolster their case, they’re prone to exaggerate their expertise (like enumerating the catastrophes that would occur if their policies aren’t adopted), while denigrating their political opponents as “unqualified” or “unscientific.”

“Some scientists want to influence policy in a certain direction and still be able to claim to be above politics,” Dr. Pielke says. “So they engage in what I call ‘stealth issue advocacy’ by smuggling political arguments into putative scientific ones.”

In Dr. Pielke’s book, one example of this stealthy advocate is the nominee for White House science adviser, Dr. Holdren, a longtime proponent of policies to slow population growth and control energy use. (See TierneyLab, for more on his background.) He appears in a chapter analyzing the reaction of scientists to “The Skeptical Environmentalist,” a 2001 book arguing that many ecological dangers had been exaggerated.

Dr. Holdren called it his “scientific duty” to expose the “complete incompetence” of the book’s author, Bjorn Lomborg, a Danish political scientist. Dr. Holdren was one of the authors of an extraordinary 11-page attack on the book that ran in Scientific American under the headline, “Science defends itself against ‘The Skeptical Environmentalist’ ” — as if “science” spoke with one voice.

After reviewing the criticisms, Dr. Pielke concludes that a more accurate headline would have been, “Our political perspective defends itself against the political agenda of ‘The Skeptical Environmentalist.’ ”

“Public debates over climate change,” Dr. Pielke says, “often are about seemingly technical questions when they are really about who should have authority in the political debate. The debate over the science thus politicizes the science and distracts from policy.”

Dr. Pielke suggests that scientists could do more good if, instead of discrediting rivals’ expertise, they acknowledge political differences and don’t expect them to be resolved by science. Instead of steering politicians to a preferred policy, these honest brokers would use their expertise to expand the array of technically feasible options.

What would honest brokers tell the president about global warming? Dr. Pielke, who calls himself an Obamite, says he’s concerned that the presidents’ advisers seem uniformly focused on cutting carbon emissions through a domestic cap-and-trade law and a new international treaty.

It’s fine to try that strategy, he says, but there are too many technological, economic and political uncertainties to count on it making a significant global difference. If people around the world can’t be cajoled — or frightened by apocalyptic scenarios — into cutting carbon emissions, then politicians need backup strategies.

One possibility, Dr. Pielke says, would be to remove carbon dioxide from the atmosphere in the future. He calculates that it could cost about the same, in the long run, as making drastic cuts in emissions today, and could be cheaper if the technology improves. It could also be a lot easier sell to the public.

Yet research into this strategy has received little financing in past budgets or the new stimulus package because it doesn’t jibe with the agenda of either side in the global-warming debate. Greens don’t want this sort of “technological fix”; their opponents don’t want to admit there’s anything to fix. And neither side’s advocates will compromise as long as they think that science will prove them right.

 

Beaker-Ready Projects? Colleges Have Quite a Few

Published: February 23, 2009

WASHINGTON — The acting director of the National Institutes of Health begged university administrators on Wednesday to avoid even applying for stimulus money unless the universities planned to hire people almost immediately.

“It would be the height of embarrassment,” the official, Dr. Raynard S. Kington, said, “if we give these grants and find out that institutions are not spending them to hire people and make purchases and advance the science the way they’re designed to do.”

Not a problem, the administrators said, in interviews. After working under flat federal research financing for years, scientists are ecstatic. “This is a miracle, I think,” A. J. Stewart Smith, the dean for research at Princeton, said. “It is redressing this terrible problem where the success rate for excellent proposals was very low.”

From proposed animal research laboratories at the University of Arizona, the University of Nebraska and the University of Pennsylvania to empty floors in laboratory buildings at the University of California, Irvine, Ohio State University and Southern Illinois University, colleges across the country have hundreds of shovel- and beaker-ready projects in the sciences that could collectively cost tens of billions and begin within weeks.

“We’re grateful for the money, but it’s not such a large number that anybody’s going to have to look very hard for good projects to fund,” said Leslie Tolbert, the vice president for research at the University of Arizona.

When President Obama signed the $787 billion stimulus measure last Tuesday, one of the law’s most surprising provisions was a 36 percent increase in the budget for the National Institutes of Health. The law gives the health institutes $10.4 billion in addition to its annual budget of $29 billion, and the new money must be allocated by September 2010 on grants and other projects that can extend no more than two years.

The law gives the National Science Foundation $2 billion in stimulus financing for research grants, and the foundation also has until September 2010 to spend the money. But the foundation will act much faster, pushing nearly all of that money out to scientists within 120 days, said Jeffrey Nesbit, an N.S.F. spokesman. (Last year, the science foundation’s $6.1 billion budget included $4.8 billion for research grants; Congress has not finished work on the budget for the current fiscal year.)

The spending increase comes after six years of nearly flat research budgets at the N.I.H., the National Science Foundation, the Department of Energy and other agencies, and growing desperation at research universities, which depend on the agencies to underwrite much of their scientific faculty and laboratory infrastructure.

To speed the process, the science foundation will not put out any new calls for proposals from researchers, but will instead use the money to finance a higher fraction of proposals already under review and to finance old ones that were judged meritorious last year but were rejected for lack of funds.

The one opportunity that will require new applications is for a pool of $200 million for universities to refurbish laboratories. The foundation will provide more details about its spending plans after officials meet this week with the National Science Board, which oversees the N.S.F.

Dr. Kington of the N.I.H. provided only a broad outline of the agency’s new financing priorities. And while he insisted that the health institutes would rely on its traditional method of committee reviews for approving grant proposals, he also said that agency administrators would have unusual discretion in financing proposals.

Even politics — long taboo in agency financing decisions — could play a role.

“We will be sensitive to geographic distribution,” said Dr. Kington, who emphasized that the money was intended to stimulate “the nation’s” economy.

Grant proposals that scientific review committees have already deemed worthy will receive top priority for the financing, Dr. Kington said. Nearly all such proposals seek four years of financing, but agency administrators will pick out the grants for projects that they believe could be completed in two years.

Although Congress has pressed the agency in recent years to increase financing for clinical research, such trials tend to take many years and thus would be unlikely to receive stimulus financing, Dr. Kington said.

A significant share of the new money will be used to bolster grants that have already received some financing, Dr. Kington said. Some of this supplemental financing will be approved by committees and others by administrators.

And agency administrators will “soon” send out instructions on how universities can apply for grants in special areas that will be given priority by administrators, Dr. Kington said.

The agency must spend $1 billion to support construction projects at universities and $300 million to help buy equipment and scientific instruments. An additional $500 million will be spent on federal buildings, mostly at the N.I.H. campus in Bethesda, Md. University administrators said they were eager to get the money and promised that any grants they received would immediately stimulate local economies.

At the University of Pennsylvania, architectural plans are ready and a site is picked for the Singh Nanotechnology Center, an 80,000-square-foot building for which the university has been able to raise only $60 million of the estimated $95 million cost. The center could be financed by the N.I.H. or the N.S.F., said Steven Fluharty, vice provost for research at the university.

“At Singh, a shovel could go into the ground tomorrow if we had the money,” Dr. Fluharty said.

In addition to three new science buildings, the University of Pennsylvania has definitive plans for more than a dozen scientific renovation projects that each need $3 million to $15 million to complete, Dr. Fluharty said.

Susan Bryant, the vice chancellor for research at the University of California, Irvine, said her university could start more than $100 million in construction projects in the next two months if money were available.

“We have several buildings where we didn’t have the money to finish part of the building,” Dr. Bryant said.

Although Dr. Kington serves in an acting capacity, he will have more power to distribute more money than any agency director in history. The legislation gives his office about $1 billion to distribute as he sees fit, with few of the agency’s usual restrictions.

But Dr. Kington promised to follow the agency’s traditions of rewarding scientific merit, providing opportunity and being transparent.

“We’re not going to sell our soul for $10 billion,” he said and then added as a joke, “It would cost much more.”

 

Op-Ed Contributors

The I’s Have It

By PATRICIA T. O’CONNER and STEWART KELLERMAN
Published: February 23, 2009

WHEN President Obama speaks before Congress and the nation tonight, he will be facing some of his toughest critics.

Grammar junkies.

Since his election, the president has been roundly criticized by bloggers for using “I” instead of “me” in phrases like “a very personal decision for Michelle and I” or “the main disagreement with John and I” or “graciously invited Michelle and I.”

The rule here, according to conventional wisdom, is that we use “I” as a subject and “me” as an object, whether the pronoun appears by itself or in a twosome. Thus every “I” in those quotes ought to be a “me.”

So should the president go stand in a corner of the Oval Office (if he can find one) and contemplate the error of his ways? Not so fast.

For centuries, it was perfectly acceptable to use either “I” or “me” as the object of a verb or preposition, especially after “and.” Literature is full of examples. Here’s Shakespeare, in “The Merchant of Venice”: “All debts are cleared between you and I.” And here’s Lord Byron, complaining to his half-sister about the English town of Southwell, “which, between you and I, I wish was swallowed up by an earthquake, provided my eloquent mother was not in it.”

It wasn’t until the mid-1800s that language mavens began kvetching about “I” and “me.” The first kvetch cited in Merriam-Webster’s Dictionary of English Usage came from a commencement address in 1846. In 1869, Richard Meade Bache included it in his book “Vulgarisms and Other Errors of Speech.”

Why did these 19th-century wordies insist “I” is “I” and “me” is “me”? They were probably influenced by Latin, with its rigid treatment of subject and object pronouns. For whatever reason, their approach stuck — at least in the rule books.

Then, why do so many scofflaws keep using “I” instead of “me”? Perhaps it’s because they were scolded as children for saying things like “Me want candy” instead of “I want candy,” so they began to think “I” was somehow more socially acceptable. Or maybe it’s because they were admonished against “it’s me.” Anybody who’s had “it is I” drummed into his head is likely to avoid “me” on principle, even when it’s right. The term for this linguistic phenomenon is “hypercorrection.”

A related crime that Mr. Obama stands accused of is using “myself” to dodge the “I”-versus-“me” issue, as when he spoke last November of “a substantive conversation between myself and the president.” The standard practice here is to use “myself” for emphasis or to refer to the speaker (“I’ll do it myself”), not merely as a substitute for “me.” But some language authorities accept a looser usage, and point out that “myself” has been regularly used in place of “me” since Anglo-Saxon days.

Our 44th president isn’t the first occupant of the White House to suffer from pronounitis. Nos. 43 and 42 were similarly afflicted. The symptoms: “for Laura and I,” “invited Hillary and I,” and so on. (For the record, Nos. 41 and 40 had no problem with the objective case, regularly using “Barbara and me” or “Nancy and me” when appropriate.)

But an educated speaker is expected to keep his pronouns in line. Here, then, is a tip, Mr. President. Nobody chooses the wrong pronoun when it’s standing on its own. If you’re tempted to say “for Michelle and I” in tonight’s speech, just mentally omit Michelle (sorry, Mrs. Obama), and you’ll get it right. And no one will get on your case.

Patricia T. O’Conner and Stewart Kellerman are the authors of the forthcoming “Origins of the Specious: Myths and Misconceptions of the English Language.”

23 de fevereiro de 2009

CARNAVAL

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:38 AM
na folha de 21 ou 22 tem um pequeno texto sobre se ainda existe carnaval, com os espetéculos atuais.
 
Folha de São Paulo, 23-02-2009
ENTREVISTA

FERNANDO PAMPLONA

Comercialização fez o Carnaval virar Broadway

Para ex-carnavalesco, patrocínios tiraram espontaneidade dos desfiles

ESCOLHIDO JURADO do desfile de 1959 por ser professor da Escola Nacional de Belas Artes, Fernando Pamplona viu a Acadêmicos do Salgueiro apresentar "Viagem Pitoresca Através do Brasil – Debret". Virou salgueirense imediatamente. "Todas as escolas vinham de uniforme, capa-e-espada, chapéu de Napoleão, falando de "Brasil, panteão de glórias". Quando vi o Salgueiro com um nome de artista, achei uma evolução fabulosa."
No ano seguinte, já era campeão com "Quilombo dos Palmares" e dava um novo significado à palavra "carnavalesco": a pessoa que cria o enredo e o desenvolve, pautando todo o trabalho da escola.
Após largar a função, em 1978, tornou-se crítico agudo da comercialização dos desfiles, dos quais garante não ser, há cinco anos, sequer telespectador. "Transformaram num espetáculo comercial da Broadway."
Pamplona, 82, faz suas críticas com mais sarcasmo do que ranço. É nesse tom que afirma não ter se interessado pela homenagem que a Unidos de Vila Isabel faria a ele, na noite passada, em seu enredo sobre o Teatro Municipal carioca -onde trabalhou. Seu Carnaval agora, diz, é na casa da filha, na região serrana do Rio, com a TV desligada. (LUIZ FERNANDO VIANA, da Sucursal do Rio)

FOLHA – Por que o sr. se afastou do Carnaval?
FERNANDO PAMPLONA –
O saco encheu. Em primeiro lugar, parei de fazer [desfiles de] escolas de samba porque era muito complicado. Foi em 1978. Depois eu continuei no [júri do prêmio] Estandarte de Ouro, do "Globo", e na TV Manchete. Mas a Manchete estava, dois anos antes de falir [a TV saiu do ar em 1999], pendurada nas imagens da Globo, e a Globo não estava transmitindo direito. Pegava o meio da Portela, ia para o princípio, do princípio para o fim, a gente dizendo uma coisa e a imagem mostrando outra… Então, denunciei isso no ar. E os caras da Globo exigiram que eu me desculpasse. Eu, em vez de me desculpar, me demiti no ar. No Estandarte fiquei um pouco mais.

FOLHA – Desde então, o sr. passa o Carnaval em Itaipava [região serrana do Rio]?
PAMPLONA –
Na serra, sempre. E procurando nem ligar a TV.

FOLHA – Por quê?
PAMPLONA –
Primeiro, porque até o barracão já me enjoava. Hoje é tudo maravilhoso, as facilidades são grandes. Mas, no meu tempo, a gente só trabalhava embaixo da ponte de São Cristóvão [zona norte], não havia dinheiro. Eu não sabia se as coisas iam ficar prontas, era muito agoniante. E, depois, houve uma transformação nas escolas que não me agradou.

FOLHA – O que não agradou?
PAMPLONA –
A comercialização. Começaram a comprar porta-bandeira, mestre-sala, pagar por mês. Começou a comercialização, principalmente, do samba-enredo. E veio a história dos patrocínios. O próprio carnavalesco perdeu a liberdade. A não ser a Rosinha [Rosa Magalhães, da Imperatriz Leopoldinense], que é ultrainteligente e, quando Campos [cidade do norte fluminense] pagou para fazer um enredo [em 2002], ela saiu com a antropofagia dos Goytacazes e foi para a Semana de Arte Moderna. Ela consegue driblar essa artificialidade. O próprio João [Joãosinho Trinta], no último Carnaval que fez [em 2003, pela Grande Rio], tinha a Vale até no título ["O Nosso Brasil que Vale"]. Descobriram que é um veículo de comunicação que rende mais do que comprar página de jornal e revista. Então está todo mundo em cima, principalmente os Estados. Por R$ 3 milhões você faz uma publicidade para 40 milhões de pessoas. As escolas de samba não sabem cobrar. Era para cobrar, no mínimo, R$ 10 milhões.

FOLHA – Mas, sem patrocínios e essa comercialização, não seria difícil que o Carnaval crescesse e surgisse, por exemplo, a Cidade do Samba?
PAMPLONA –
A Cidade do Samba é uma coisa maravilhosa. Mas acho que quem organiza o desfile resolveu acelerar muito o andamento da música. Com ele acelerado, perdeu-se a ginga, a síncope, o balanço. Hoje, 90% das escolas desfilam com marchinhas, inclusive a minha. O Salgueiro, há muito tempo, só tem marchinhas. Quem se salvava era a Beija-Flor, que vinha com samba, e a Unidos da Tijuca. Neste ano, elas embarcaram na marchinha também. A que está melhorzinha é a Grande Rio. O Salgueiro já ganhou um Carnaval com uma marchinha muito bonita: "Explode coração…" ["Peguei um Ita no Norte", em 1993]. Não é que a marcha seja feia. Mas não é samba.

FOLHA – Então, o sr. continua ouvindo os sambas-enredo?
PAMPLONA –
Você liga a televisão nesta época e está passando Carnaval. Não há como fugir.

FOLHA – O que, surgido nessa era de comercialização, foi positivo?
PAMPLONA –
Acho que foi só negativo. Perdeu a espontaneidade, a naturalidade. Anos atrás, uma grande personalidade me ligou: "Fernando, estamos convidando você para ver um desfile de protótis". Eu disse: "O que é protótis?". "É o modelo que a gente desfila." Eram protótipos. Aí você faz um desfile com modelos antes do Carnaval, com as fantasias todas prontas, industrializadas, e um gringo qualquer do Japão, da Suécia ou do interior do Rio pode comprar até a véspera do Carnaval uma fantasia da escola. Na última vez em que eu transmiti um desfile, falei para a [cantora] Alcione: "Olha uma ala da Mangueira toda branca, só tem um negro!". E ela mesma balançou os dedos como se dissesse: "Dinheiro". Pagou, levou. Você não vê mais a Mangueira, só na bateria. Nem na comissão de frente, porque agora elas têm bailarinas com sapato de ponta. Inventaram frescuras que…, sei lá, transformaram num espetáculo comercial da Broadway.

FOLHA – Essa comercialização é resultado do surgimento da Liesa [Liga Independente das Escolas de Samba], em 1984?
PAMPLONA –
Não foi só isso. Um interesse geral fez com que houvesse uma transformação nas escolas de samba. Antigamente, cada ala representava uma associação dentro da escola. O produto gerado era resultado da socialização do morro.

FOLHA – O Salgueiro é acusado de ter iniciado a fase dos sambas acelerados com "Festa para um Rei Negro" [do refrão "Pega no ganzê/ Pega no ganzá"], de Zuzuca, em 1971.
PAMPLONA –
Não foi o samba do Zuzuca, não. Foi a inteligência de gente que quer andar mais rápido do que o relógio e depois fica amarrando a escola olhando para o cronômetro. O Zuzuca foi um dos melhores compositores do Salgueiro e fazia muito samba de quadra [que não é de enredo]. Mas mataram o samba de quadra, que era uma preparação melódica que os compositores faziam para vir com o samba-enredo. Como acabou, os sambas-enredo ficaram estandardizados, iguais.

FOLHA – É comum dizer que o sr. inaugurou a era dos carnavalescos.
PAMPLONA –
Não, não fui eu. Já tinha o Julinho [Mattos], que fazia o Paraíso do Tuiuti, a Mangueira, tinha uma fábrica de papel machê e fazia carro alegórico para o país inteiro. Teve o [Carlos Haraldo] Sörensen, que era profissional, cobrava da Portela 2.000 cruzeiros por risco [desenho de fantasia]. Ele não era amador como sempre fomos no Salgueiro. Nunca levamos um tostão. Nem eu nem Arlindo [Rodrigues] nem João Trinta. No Salgueiro, não. Depois, eles se tornaram profissionais, compraram apartamento e eu não fui para lugar nenhum.

FOLHA – De alguma forma, a TV atrapalhou o Carnaval?
PAMPLONA –
A TV não atrapalhou nada. Nenhum processo de divulgação atrapalha, mesmo quando tem gente babaca escrevendo ou narrando. Divulgação é fundamental.

FOLHA – E os bicheiros atrapalharam? Eles são criticados, mas Natal [Natalino José do Nascimento, 1905-75], figura mítica da Portela, era bicheiro.
PAMPLONA –
O Natal, se fosse padre, seria igual. Era um sujeito maravilhoso. Era bicheiro por acaso. Fez 300 casamentos, 300 batizados… Era um cara de verdade que atendia à região dele [Madureira, zona norte].

FOLHA – Os bicheiros não são os vilões do Carnaval, então?
PAMPLONA –
Não. O bicheiro aproveitou a deixa para ser bem recebido pelo prefeito. É questão de status. Tem uns que são maravilhosos. O Anísio [Aniz Abrahão David, presidente de honra da Beija-Flor, hoje em prisão domiciliar por suposto envolvimento com caça-níqueis e lavagem de dinheiro] não dá o menor palpite na Beija-Flor. Ele até segurava a barra [financeiramente]. Mas o Joãosinho já disse que a Beija-Flor não precisava de patrono, porque o que davam a Liga, o disco [dos sambas-enredo] e a TV era suficiente para o Carnaval.

FOLHA – Mas todo mundo quer patrocínio…
PAMPLONA –
É porque todos querem pôr dinheiro no bolso.

FOLHA – E como tem visto o renascimento do Carnaval de rua no Rio?
PAMPLONA –
Ah, acho ótimo! Aí o que dizia a [historiadora] Eneida vira mais verdade ainda: o Carnaval não acaba, se transforma. É Lavoisier. A Banda de Ipanema foi o primeiro esforço, do Albino Pinheiro, e se espalhou pelo Brasil. Agora são os blocos. É maravilhoso. O Carnaval não vai morrer nunca.

FOLHA – E o sr. sabe que vai ser homenageado pela Vila Isabel, não?
PAMPLONA –
O que sei é que o presidente [Wilson Vieira Alves, o Moisés] disse que sou um merda, porque dei nota ruim para a marchinha deles neste ano [no jornal "Extra"]. [A homenagem] será à revelia [risos].

 

Folha – 22-02-2009

CARLOS HEITOR CONY

Contra tudo e todos

RIO DE JANEIRO – Nunca fui entusiasta do Carnaval, nem do do Rio nem do de outras cidades tidas como folionas, como Salvador e Recife. Tampouco sou entendido no assunto. Por isso mesmo, o Carnaval que melhor conheço é do Rio -o mais badalado ainda, embora discutido em suas raízes epistemológicas e na semiótica de suas propostas.
Vai daí, é do Carnaval carioca que falo, abrindo a necessária ressalva: é possível que em Recife e Salvador a momesca festa esteja florescente e bela. No Rio, realmente, o Carnaval mudou tanto que ficou chato. Ainda é belo -à custa de uma superprodução cada vez mais complicada e cada vez mais financiada.
Durante alguns anos, era obrigado a passar os três dias trabalhando, cobrindo folias, bailes e desfiles. A primeira constatação, que salta aos olhos, é a velhice do nosso Carnaval. São sempre as mesmas figuras, os mesmos colunáveis, os mesmos pândegos, os mesmos esquemas, sobretudo, as mesmas mulheres.
Ah, as mulheres! São as mesmas, sombras e sobras de outros carnavais. Colocaram botox, cortaram quadris e coxas, fizeram lipoaspiração para manter a silhueta -temos nos arquivos profissionais as mesmas mulheres de dez, 15 anos atrás. Descobrimos o roteiro do bisturi que modificou a antiga deusa -hoje recauchutada.
A própria animação é à antiga. Por isso, os jovens de hoje estão definitivamente em outra. Compreendo-os ao menos nisso: eles se afastam do inarredável tríduo momesco.
Aos poucos, a festa está mesmo ficando para a meia-idade e para velhos que esperam o Carnaval para rodar a baiana. Os jovens fazem isso com naturalidade, durante o ano todo -embora em inglês e em som estereofônico, o que dá para desconfiar que também eles não estão com nada.

22-02-2009

FERREIRA GULLAR

Coisas de outros Carnavais


Éramos boêmios que frequentavam bares como o Luna e o Degrau, para jogar conversa fora


NININHA E Sabino Barroso são duas figuras representativas da geração que, nos anos 60, descobriu o universo das escolas de samba cariocas, a exemplo de Thereza Aragão, que criou, em 1965, no Teatro Opinião, a Fina Flor do Samba. Tratava-se da exibição, todas as segundas-feiras, de cantores, compositores, passistas e ritmistas da Mangueira, Salgueiro, Portela, Império Serrano e de várias outras escolas, enfim, de artistas talentosos e desconhecidos pela zona sul do Rio.
Abria-se o canal de comunicação, que levou gente de Copacabana, Ipanema e Leblon, a desfilar nas escolas de samba. Thereza chegou a criar uma ala no Salgueiro, e Sabino passou a integrar, tocando tamborim, a bateria da Mangueira.
Éramos uma turma boêmia (na acepção moderna), que frequentava assiduamente bares como o Luna e o Degrau, para jogar conversa fora e beber, uns mais, outros menos. Armando Costa bebia vodca com laranjada; Thereza, uísque; Sabino e Nininha, chope, como até hoje. Eu também, mas ficava num só copo a noite inteira.
Um dos frequentadores dessas noites ipanamenhas era Albino Pinheiro, cuja vocação carnavalesca se confirmaria com a criação da Banda de Ipanema, que fez renascer o Carnaval de rua no Rio de Janeiro.
Um sábado antes do Carnaval, a banda saía (e ainda sai) da praça General Osório e, animada por um grupo de músicos, percorria o bairro e retornava à mesma praça donde saíra. Ali, dava-se a dispersão, quando nos dirigíamos ao Jangadeiro para, com chopes e batatas fritas, encerrarmos a festa.
Sabino, além de ritmista da bateria da Mangueira, é arquiteto e amigo de Oscar Niemeyer, com quem trabalhou no projeto de Brasília, isolado na solidão do Planalto Central. Finda a tarefa pioneira, voltou para o Rio e, como se viu, ainda que mineiro de origem, tornou-se um carioca da gema. Já sua mulher, Nininha, é carioca de nascença, oriunda da Urca.
Mas a vida muda. Os anos se passaram e as noitadas foram se tornando cada vez mais raras. A última etapa de minha participação foi no Luna, já na rua Farme de Amoedo, quando Sabino e Nininha estavam sempre presentes.
Com os anos, passamos a nos ver esporadicamente, na casa de algum amigo ou amiga. Esta última vez foi no apartamento de Ceres Feijó, que, com sua generosidade e afeto, acolhe a todos. E pudemos conversar demoradamente, lembrando de amigos e episódios, que se foram. E o fizemos numa boa, rindo às gargalhadas em muitos casos. Também, como lembrar do Roniquito, sem rir? "Fui assaltado, nesta manhã, por quatro juízes togados, na Barra da Tijuca", garantiu ele, certa vez, para comprovar que nossa Justiça é corrupta. Armando Costa levava a noite toda passando na testa o copo gelado de vodca com laranjada.
Certa vez, sentou-se à mesa uma senhora que buscava pela filha e reclamava da vida em geral. "Não se preocupe", disse-lhe Armando, "no fim tudo acabará mal".
Certa noite, uma de nossas amigas surgiu no Luna com um namorado novo, que era moreno, alto, magro, cabeludo e com bigodes apontados para o alto, lembrando os de Salvador Dalí. Ganhou o apelido de "Salvador Daqui". Ele se engraçou com a namorada de outro colega nosso, do que resultou um arranca-rabo. Salvador Daqui partiu o copo de chope na cabeça do rival, que foi parar no Miguel Couto. Depois disso, sumiu, com bigode e tudo.
Minha conversa com Nininha e Sabino derivou para o mundo das escolas de samba, onde eles dois conhecem muita gente interessante, dos colegas na bateria da Mangueira aos membros da ala de compositores da escola. Um dos membros dessa ala era o famoso Jamelão, de voz melodiosa e áspero humor. Não obstante, foi ele que, comentando a visita do ex-presidente americano Bill Clinton à Mangueira, saiu-se com esta: "Ele estava ali tão contente como pinto no lixo".
De Jamelão, passamos a Geraldo das Neves,um dos compositores que surgiram para nós na Fina Flor do Samba. Outro foi Marinho da Vila, quando ainda era sargento do Exército. Geraldo é o autor de uma célebre frase que a Nininha me citou, certo domingo, na praia, em frente à Farme de Amoedo, onde ficávamos: "A verdade é esta, dona Nininha, a gente ou morre ou murcha".
E ela logo lembrou do que lhe dissera, certa vez, Nelson Sargento, autor de alguns sambas célebres: "A senhora sabe qual é o maior inimigo do pobre?". E ela: "É o rico?". "Não, o maior inimigo do pobre é o outro pobre."
Chegara a essa conclusão porque, quando comprou um aparelho de som incrementado, os vizinhos, por inveja, inventaram que ele tinha entrado para o tráfico.

21-02-2009

ANTONIO CICERO

Zizek, Fukuyama e o "fim da história"


Zizek, ostentando tédio, manifesta nos seus textos o desejo de fazer a história "recomeçar"


"É FÁCIL zombar da ideia do "fim da história" de Francis Fukuyama", diz Slavoj Zizek, "mas hoje a maioria é fukuyamista: o capitalismo liberal-democrático é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível, e tudo o que se pode fazer é torná-la mais justa, tolerante etc.". À primeira vista, Zizek pretende, ao contrário da "maioria" que despreza, ser antifukuyamista. Será?
Uma semelhança óbvia é que ambos são hegelianos ou pretendem sê-lo. Assim, ninguém ignora que a própria tese do fim da história, de Fukuyama, origina-se no pensamento de Hegel. Quanto a Zizek, ele mesmo declarou, em entrevista recente, ser "profundamente hegeliano". Mas há uma ligação ainda mais profunda entre o pensamento de Zizek e o de Fukuyama. É que ambos se entediam com a época em que vivemos.
Fukuyama pensa, como diz com inconfundível sotaque hegeliano, que não há mais lugar para "a luta pelo reconhecimento, a disposição de arriscar a vida por um fim puramente abstrato, a luta ideológica mundial, que havia suscitado audácia, coragem, imaginação e idealismo". Comentando que, além de sentir em si próprio "poderosa nostalgia pelo tempo em que a história existia", percebe esse mesmo sentimento nos outros, arremata: "Talvez a própria perspectiva de séculos de tédio ao fim da história servirá para fazer a história recomeçar".
Observo, en passant, que, assim como não entendo que haja quem precise acreditar no sobrenatural para não achar a vida tediosa, tampouco entendo que haja quem, para o mesmo fim, precise acreditar na História (com agá maiúsculo).
Então tais pessoas não se admiram com o mistério já da própria existência, do próprio ser? Não se espantam com o excesso de terror e de esplendor a que estão expostos pelo mero fato de existirem? Ou o percebem e renegam, ocultando-o por trás da cortina do tédio? E será que não sabem que a noção de história está longe de ser universal? A maior parte das culturas jamais produziu tal noção. Devemos supor que quase toda a humanidade sempre se tenha sentido brutalmente entediada com a vida?
Pois bem, Zizek, ostentando tédio, manifesta nos seus textos o desejo de fazer a história "recomeçar". Julgando que a lógica interna do capitalismo não levará automaticamente à sua própria superação, ele crê que, de certo modo, "Fukuyama ESTAVA certo, o capitalismo global É o "fim da história’", de modo que teme que, "no interior da nossa clausura tardo-capitalista do fim da história", já não sejamos capazes de experimentar o "impacto assustador" de uma "abertura histórica autêntica".
De que maneira Zizek, que despreza a "democracia liberal global", cujo verdadeiro conteúdo lhe parece ser, como para Foucault, a "administração biopolítica da vida", imagina que seja possível "fazer a história começar de novo"?
A resposta é clara: por meio da pura vontade "revolucionária". Trata-se da apologia do voluntarismo, da violência e do terror. Segundo ele, a incapacidade de aceitar a violência e de suspender a ética constituem limitações da posição liberal. São esses os limites que quer superar, para recomeçar a história.
Não admira, portanto, que Zizek chame os direitos humanos de "obscenos" ou que faça a apologia de Robespierre, Lênin, Stálin e Mao. Isso mostra porém que, no fundo, a "abertura histórica autêntica" que busca não passa da lamentável -e reacionária- tentativa não só de reabilitar, mas de tornar paradigmáticas algumas das mais abomináveis experiências políticas dos tempos modernos.
Ora, é em parte como repúdio ao horror dessas experiências que hoje se dá o reconhecimento crescente do caráter universal dos direitos humanos; e é a partir desse reconhecimento que todo ser humano é capaz de se sentir autorizado a criticar qualquer manifestação de barbárie, quer esta se manifeste na Coreia do Norte, no Irã ou nos Estados Unidos. O verdadeiro progresso jamais poderia estar em ignorar ou limitar esses direitos, mas sim em reconhecer que eles incluem, como quer Amartya Sen, direitos não apenas políticos, mas também direitos à segurança social, ao trabalho, à educação, à proteção contra o desemprego, à sindicalização e mesmo a uma remuneração justa e favorável.
Só mesmo uma espantosa cegueira ideológica pode levar Zizek a considerar enclausuradas as sociedades em que tem lugar a luta pelo reconhecimento e pela aplicação de tais direitos; e só a mesma razão pode levá-lo a considerar aistórico um mundo em incessante e evidente transformação, como este em que vivemos.

4 de agosto de 2008

PATENTE – PROPRIEDADE INTELECTUAL

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 7:29 AM
 
08ago2008
TENDÊNCIAS/DEBATES

Miragens e neblina na ciência e tecnologia

RENATO DAGNINO


O comportamento dos empresários não se deve à falta de recursos de governo. Antes, é racional dadas as "condições de mercado"


O PROFESSOR Roberto Nicolsky, um dos autores do artigo "Inovação tecnológica: realidade e miragem" ("Tendências/Debates", 29/7), é um dos mais agudos analistas de política de ciência e tecnologia (PCT). É, também, um dos pesquisadores das ciências duras que mais tem criticado a orientação que ela assumiu na última década. O artigo trata de nosso desempenho tecnológico avaliado pelas patentes. Como se sabe, ele é sofrível quando comparado com o que temos tido em ciência -o que, ressalto eu, é conseqüência de um enorme gasto público realizado desde a década de 1950 para formar pesquisadores. De forma competente, o artigo mostra que aquilo que é tomado como diretriz da PCT atual -"transformar em patentes a ciência produzida nas nossas universidades"- é uma "miragem" que se "desmancha no ar". Há, entretanto, outras "miragens". A começar pelo fato de que essa diretriz é tão velha quanto a própria PCT. E sua reorientação neoliberal da última década, que tem custado muito dinheiro público concedido a empresas (inclusive multinacionais), não tem produzido o resultado alegado. A crítica que faz o artigo é correta. Mas, por compartilhar a obsessão com as patentes, com a inovação nas empresas e com uma corrida internacional para ver quais se tornarão mais lucrativas por meio da tecnologia, ele permanece imerso na neblina ideológica que cerca a PCT. Até porque a "miragem" apontada já está sendo desfeita. Claro que de forma artificial, irreal e ineficaz como qualquer ação guiada por obsessões. Os responsáveis pela PCT, tendo finalmente compreendido que o conhecimento só chega às empresas embutido em pessoas, estão praticamente pagando para que elas empreguem mestres e doutores para fazer pesquisa e desenvolvimento (P&D). Eles afirmam, contrariando o que declaram os empresários, que é disso que estes precisam para aumentar sua lucratividade. Contudo, o fato de que as empresas absorvem menos de 1% dos mestres e doutores que se formam por ano é um sintoma claro da disfuncionalidade da PCT. Mas há outros sintomas que indicam a ineficácia da política de ciência e tecnologia para elevar a propensão das empresas à realização de P&D. Eis alguns desses sintomas: apenas 100 empresas das 30 mil que inovam introduziram no mercado (nos últimos três anos) alguma inovação de processo realmente nova; a importância que tem a P&D na estratégia de inovação das empresas inovadoras é quatro vezes menor do que a aquisição de máquinas; das empresas inovadoras, só 7% mantêm relação com universidades e institutos de pesquisa e, dessas, 70% atribuem a essa relação baixa importância; enquanto o governo vem alocando recursos crescentes para a P&D nas empresas, o seu gasto vem diminuindo em termos relativos; entre as empresas que não inovam, 12% declaram como causa a escassez de fontes de financiamento e 70% apontam condições de mercado. Tudo isso reforça um quadro que há seis décadas se tenta reverter com políticas equivocadas. O comportamento dos empresários não se deve à falta de recursos e instrumentos governamentais. Tal comportamento é economicamente racional diante daquilo que eles percebem como "condições de mercado", mas que deve ser atribuído à nossa condição periférica. Os autores do artigo acima citado defendem mais favores para a empresa: o que chamam de "compartilhamento universal do risco tecnológico entre Estado e empresa". Mas, como mantêm a proposição -na teoria equivocada e na prática catastrófica- de que o objetivo da PCT deve ser fazer com que o conhecimento produzido com recurso público beneficie a empresa (e, como candidamente se diz, leve ao bem-estar da sociedade), eles correm sério risco: o de reforçar o mito de que a PCT é um planejamento neutro ("policy") desprovido de interesses e valores ("politics"), adensando a neblina que a envolve. Para fugir da cruz da comunidade de pesquisa, a PCT está caindo na caldeirinha dos empresários. Os que almejam um cenário melhor para todos devem lutar para colocá-la a serviço da sua construção. É improvável, ainda que se desfaçam as "miragens" apontadas, que as empresas utilizem adequadamente os recursos que o governo está disponibilizando e se aproveitem do nosso potencial científico-tecnológico. Mas, se isso vier a ocorrer, entraremos num debate muito mais relevante: será que subsidiar a empresa para torná-la mais lucrativa ajudará a resolver os desafios tecnológicos e científicos daquele cenário? Será que é na "competitividade empresarial" que devemos depositar nossa esperança de desenvolvimento?


RENATO DAGNINO, 59, mestre em economia do desenvolvimento e doutor em ciências humanas, é professor titular de política científica e tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
 
 Quantidade de patentes não mede grau de inovação

Por Gabriela Costa Chaves
05/08/2008


Em matéria publicada recentemente no presente jornal ("Queda no registro de patentes frustra política industrial" publicada no Valor de 13/06/08) fica evidenciado que há uma queda considerável no triênio (2005/07) do número de patentes depositadas pelo Brasil nos Estados Unidos, refletindo portanto questionamentos a respeito da política de incentivo à inovação no país.



A utilização do número de patentes como indicador de inovação de um país pode ser absolutamente questionável por diversos motivos. Primeiro, porque há países, a exemplo do próprio EUA, que estabelecem critérios muito abrangentes para análise dos pedidos depositados, permitindo assim uma grande permeabilidade e grande número de concessões de patentes sem que seja acompanhada de uma qualidade, tanto do conteúdo da patente como da invenção em si. Assim, vários depósitos podem cercar uma única invenção, reivindicando diferentes proteções. Ou seja, o número de patentes não é necessariamente equivalente a várias invenções.



Outra consequência igualmente grave é que a possibilidade de se patentear qualquer coisa por um sistema muito permeável, tal como pequenas variações de produtos já consolidados no mercado, incentiva mais uma perpetuação do monopólio e do mercado do que realmente o desenvolvimento de reais inovações.



Segundo, porque nem toda patente leva a uma inovação, além de proteger suas invenções pelo sistema de patentes. Pesquisadores são julgados pelo número de patentes depositadas mesmo que não sejam concedidas ou licenciadas para futuras comercializações.



Ou seja: a patente é um fim ou um meio?




Desafio é incentivar a inovação orientada pelas necessidades, e não pela lucratividade potencial do mercado




No caso do setor farmacêutico, vários estudos evidenciam que o crescente fortalecimento do sistema de proteção patentária ao longo dos últimos 15 anos não acompanha a taxa de inovação no setor, que é cada vez mais decrescente. Os mesmos ressaltam um aumento do número de medicamentos do tipo "me too" ("eu também" em português) – princípios ativos que seguem um padrão de estrutura molecular já estabelecido num grupo terapêutico, apresentando um mesmo mecanismo de ação farmacológica – com pouco ou nenhum ganho terapêutico.



Um inquérito publicado em abril de 2005 pela La Revue Prescrire concluiu que 68% dos 3.096 novos produtos aprovados na França entre 1981 e 2004 não trouxeram "nada de novo" em relação às preparações previamente disponíveis. De forma similar, a revista científica British Medical Journal publicou um estudo no qual demonstra que nem 5% de todos os medicamentos recentemente patenteados no Canadá podem ser considerados como reais inovações. Além disso, uma análise detalhada de uma centena de novos medicamentos aprovados pela Agência dos Estados Unidos para Regulação de Medicamentos e Alimentos (FDA), entre 1989 e 2000, revelou que 75% não apresentavam benefício terapêutico em relação aos produtos já existentes.



Um terceiro ponto de questionamento é a concessão de patentes injustificadas que apenas estendem o monopólio de objetos já protegidos anteriormente, podendo afetar negativamente políticas sociais – tais como a de acesso a medicamentos -, componente fundamental de uma política de desenvolvimento de um país.



Práticas monopolistas neste setor vêm cada vez mais refletindo uma dificuldade na promoção do acesso a ferramentas essenciais de saúde, em virtude da prática de preços altos por partes das empresas farmacêuticas transnacionais, bem como diminuição do número de fornecedores no mercado internacional.



Ainda que existam as chamadas flexibilidades para proteção da saúde pública previstas no acordo sobre propriedade intelectual (Acordo Trips) da OMC, como é o caso da licença compulsória, muitos países em desenvolvimento vêm sofrendo ataques infundados por parte de países desenvolvidos e suas empresas farmacêuticas.



Não por acaso, foi conduzido durante dois anos um processo de negociação entre os países-membros da Organização Mundial da Saúde (OMS), plantado principalmente pelo governo brasileiro – que propôs junto com o Quênia a resolução -, sobre saúde pública, inovação e propriedade industrial. A base que fundamentou essas discussões partiu de um relatório publicado em 2006 por uma Comissão de especialistas internacionais (conhecida como CIPIH), igualmente comanditada por iniciativa desses países na OMS, chegando a um diagnóstico muito simples: o atual sistema de patentes, que permite a concessão de monopólios, não estimulou o desenvolvimento de inovações em saúde orientadas para as necessidades dos países em desenvolvimento e afetou o preço e o acesso a produtos essenciais, tal como presenciamos com o caso dos anti-retrovirais para Aids.



Em maio de 2008, chegou-se, após luta árdua, a uma Resolução da Assembléia Mundial de Saúde que solicita a criação de um grupo de trabalho com especialistas para avaliar "propostas para fontes novas e inovadores de financiamento para estimular a Pesquisa e Desenvolvimento" para enfrentar as necessidades em saúde dos países em desenvolvimento. O desafio agora é estudar modelos de incentivo à inovação que sejam orientados pelas necessidades em saúde, e não pela lucratividade potencial do mercado. Também estão na mesa propostas ainda incipientes de estudiosos de diferentes partes do mundo, que buscam desvincular o custo da inovação do preço dos medicamentos, tais como modelo de prêmios, pool de patentes e outros. Além disso, também foi a oportunidade de garantir apoio da OMS para que os países em desenvolvimento possam utilizar as flexibilidades do Trips de proteção à saúde pública.



Espera-se, portanto, que o Brasil tenha coerência interna no âmbito da nova política industrial que contempla o novo complexo industrial de saúde, para que sejam buscadas inovações voltadas para as necessidades do país e dos demais países em desenvolvimento, muito embora isso não vá significar necessariamente um aumento no número de patentes.



Gabriela Costa Chaves é farmacêutica da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de Médicos Sem Fronteiras

 
Até onde a patente deve proteger a inovação?

04/08/2008

No mundo da inovação, é crescente a importância da propriedade intelectual (PI) e das instituições responsáveis pela regulação e proteção dos chamados ativos intangíveis. Neste campo, o Brasil defronta-se com um grande desafio: proteger a propriedade dos ativos do Século XXI sem ter ainda equacionado completamente os direitos de propriedade sobre a terra.



A propriedade industrial sempre foi objeto de divergências e no mundo pós-Trips (Agreement on Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights) transformou-se em um campo minado de disputas políticas, econômicas e judiciais. Ao mesmo tempo em que os detentores de ativos de propriedade industrial procuram reforçar os mecanismos jurídicos de proteção, a própria inovação tecnológica questiona a eficácia e facilita as transgressões. Observam-se distorções na aplicação da proteção, desde a negação de liberação da informação relevante sobre a patente – base da concessão do monopólio de exploração do bem protegido -, o abuso do poder de mercado e a extensão, por vários artifícios, da vida da patente. No campo farmacêutico, é legítima a preocupação em relação aos efeitos das patentes sobre o acesso a medicamentos essenciais para a saúde pública, mas negar proteção não parece ser a solução para polêmicas e dilemas neste campo.



Marcos Oliveira, vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina (Abifina), em artigo publicado no jornal "O Estado de São Paulo" em 18/06/2008, constata, corretamente, que "a ambição não conhece limites" e que "os detentores de patentes vêm (…) desenvolvendo estratégias para prorrogar o tempo de exclusividade de mercado por meio da obtenção de múltiplas patentes sobre diferentes atributos de um mesmo produto". E concluiu, a nosso ver de maneira precipitada, que a "decisão do INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial] de rever suas diretrizes de exame de patentes para reconhecer a patenteabilidade de novas formas cristalinas de substâncias antigas, já em domínio público ou não, anda na contramão da política de desenvolvimento (…)".



A concorrência, que move o processo de inovação, não se resume ao lançamento de produtos radicalmente novos. Ao contrário, em muitos setores é a inovação de natureza incremental que mantém o drive inovador e que, devidamente protegida, cria os ativos intangíveis que permitem às empresas participarem das redes globais de inovação. Com a crescente fragmentação do processo de inovação, nem as grandes empresas dominam todas as competências necessárias para inovar e muito menos detém a propriedade industrial de todos os componentes integrantes da inovação: precisam recorrer a competências externas e a patentes de terceiros.



Longe de restringir o acesso à tecnologia, as licenças cruzadas ganham importância como mecanismos positivos de difusão tecnológica, e por isso as patentes de inovação incremental, ou "dependentes", devem ser objeto de concessão cuidadosa, de modo a garantir a segurança jurídica, minimizar conflitos e ampliar a eficiência econômica do sistema de proteção da propriedade industrial.



Neste contexto, controlar "pedaços" de produtos ou processos, ainda que pequenos, atribui às patentes uma função estratégica de integração a uma rede de inovação que é relativamente nova. E abre uma nova perspectiva para países como o Brasil, cujas instituições de pesquisa e empresas dificilmente têm condições para competir com as companhias globais no desenvolvimento integral de inovações radicais. Podem, sim, participar como parceiros de processos de inovação, desde que detenham pelo menos algum ativo estratégico para apresentar na mesa de negociação, dentre os quais os mais importantes são a propriedade intelectual sobre componentes do produto e/ou processo e a capacidade institucional e recursos humanos para inovar. Estas são as chaves para que o Brasil, por meio de suas empresas e instituições, participe do jogo global da inovação. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vem trilhando, com sucesso, esse caminho.




Com a crescente fragmentação do processo de inovação, nem as grandes empresas dominam todas as competências necessárias para inovar




O assunto dos polimorfos requer cuidadoso exame técnico para impedir a aprovação de mera maquiagem sem valor inventivo e esforço novo de pesquisa e desenvolvimento.



Recentemente, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial reviu suas diretrizes de exame sobre a matéria aparentemente com essa intenção, e recusou todos os pedidos de proteção patentária a polimorfos de substâncias conhecidas. É possível e desejável aperfeiçoar as diretrizes técnicas que pautam a ação do Instituto Nacional de Propriedade Industrial – sempre no sentido de garantir proteção ao que é resultado de genuíno esforço de inovação -, mas não cabe ao Instituto interpretar e muito menos flexibilizar a aplicação da lei no sentido de atender interesses conflitantes na sociedade. A pergunta subjacente é se interessa ou não ao Brasil construir um regime de propriedade industrial pautado no interesse maior da sociedade e que dê segurança jurídica aos investimentos e reduza os custos e conflitos desta natureza.



A indústria farmacêutica brasileira encontra-se em uma nova encruzilhada. Pode se estagnar na produção de genéricos ou, a partir desta base, reforçar sua capacidade inovadora, ampliar o âmbito de atuação e agregar valor privado e social aos seus produtos.



Restringir a concessão de patentes a inovações incrementais e proteger apenas a inovação radical aponta para a reconstrução da indústria baseada na cópia, e na prática restringe o principal espaço de articulação global do setor farmacêutico.



Melhor que afrouxar a proteção seria fomentar investimentos e a inovação incremental que produz associações e inserção global, especialmente no campo das chamadas doenças negligenciadas. Mas empresas privadas, brasileiras ou estrangeiras, só participarão deste esforço se houver segurança na proteção da propriedade industrial gerada a cada passo, como ocorre em qualquer segmento dinâmico da economia global.


Antônio Márcio Buainain é professor assistente doutor do Instituto de Economia da Unicamp.

2 de agosto de 2008

BNDES = > GIAMBI + GARCIA (VALOR)

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 9:39 AM
 
O BNDES em transição

28/07/2008 VALOR ECONÔMICO



É difícil opinar acerca da instituição que nos paga o salário. Da mesma forma que alguém que trabalha na Petrobras não é a melhor pessoa para julgar quão eficiente ela é comparada com as multinacionais do ramo, sou consciente de que o fato de ser do BNDES me impede de ser isento na avaliação acerca do papel da instituição.



O fato de uma pessoa não ser neutra numa matéria não é obstáculo, porém, a que ela emita a sua opinião sobre o tema. Como tenho escrito no Valor há quase 10 anos, não há mal em, por uma vez, abordar temas da casa onde trabalho, especialmente considerando o porte da mesma, o que torna a sua função um assunto de interesse público.



O BNDES teve papel destacado na execução das diretrizes oficiais, nos seus 56 anos de existência. Foi peça importante do financiamento da infra-estrutura na sua origem; executou a orientação do governo Geisel no apoio à indústria de base nos anos 70; agiu como "hospital de empresas" na crise dos anos 80; foi o agente da privatização nos anos 90; e ampliou o alcance das políticas sociais e multiplicou o volume de desembolsos, na década atual.



Em boa parte desse período, houve a presença de um denominador comum: o que o banco fazia era receber recursos oriundos de poupança compulsória e emprestar para empresas a juros relativamente módicos. Até 1994, o Brasil era um caso típico de inflação alta ou altíssima e, nesse contexto, o BNDES exercia um virtual monopólio do crédito de longo prazo, pois quase ninguém se arriscava a emprestar dinheiro a muito mais do que 30 dias. Quando, de 1995 em diante, a alta inflação foi "substituída" pelos juros altos, o BNDES continuou a desempenhar suas tarefas tradicionais sem maior concorrência, uma vez que nada era mais vantajoso para os bancos do que emprestar para o governo recebendo juros reais de 10% ou mais.



Felizmente, o Brasil mudou e esse é um período que vai ficando para trás. Com juros reais inferiores aos do passado, com a chegada do "investment grade" e com a economia estabilizada, o Brasil de juros baixos, quando poderemos ter uma taxa real de 4% a 5%, é uma possibilidade palpável, se não imediata, provavelmente para a próxima década. Nesse contexto, o BNDES deve se reinventar, pois haverá outros agentes para emprestar a longo prazo.



No dia em que o governo pagar 4% de juros pelos seus papéis, quem viveu de emprestar dinheiro para o Tesouro durante 30 ou 40 anos vai começar a se interessar pelo que o BNDES sempre fez antes, quando ninguém se dispunha a assumir o seu lugar. O país do amadurecimento dos efeitos do "investment grade", o Brasil de 2015 ou 2020, guardará poucas semelhanças com a economia na qual o BNDES exerceu o monopólio do crédito de longo prazo durante décadas. Opinando sobre as instituições financeiras públicas em recente livro que editou junto com Luiz Chrysostomo, Edmar Bacha escreveu que "a normalização da vida financeira do país tornará os bancos públicos irrelevantes", embora no mesmo artigo afirme que "continua a haver lugar para o BNDES como provedor de financiamento de longo prazo".



A falta de espaço impede de abordar essas questões com maior profundidade. Sem pretensão de esgotar o assunto e reconhecendo que o debate sobre o tema está apenas começando, propõe-se abaixo um conjunto de critérios que deveriam nortear a ação de longo prazo da instituição, com vistas ao Brasil que nos aguarda na próxima década.




Banco deve dar prioridade a atividades que o setor privado não apóia na escala adequada: infra-estrutura, inovação e pequena e média empresas




Antes disso, porém, será preciso fazer a transição do Brasil de inflação (até 1994) e juros (ainda agora) altos onde o BNDES continua a cumprir suas funções tradicionais, para a economia na qual o mercado de capitais irá ocupando crescentemente parte do espaço que foi sempre ocupado pelo BNDES. Nessa transição, atividades com elevado risco e prazos muitos longos de maturação ainda continuarão com uma oferta de capitais insuficiente ou excessivamente cara, justificando a intervenção do banco. De qualquer forma, o BNDES deverá desenvolver cada vez mais uma cultura de cooperação com o mercado de capitais, compartilhando riscos e preparando o terreno para se afastar gradualmente de algumas áreas.



Os critérios que deveriam guiar a ação do BNDES, no país no qual todos esperamos viver na próxima década, já superado o ciclo de curto prazo de elevação dos juros iniciado pelo BC em função do recente agravamento das pressões inflacionárias e com uma economia mais amadurecida, deveriam ser os seguintes:



I) o BNDES deveria perder peso em termos relativos, considerando a razão Crédito do BNDES/Crédito bancário da economia, na medida que sua participação no financiamento de longo prazo ceder espaço para a maior presença do mercado de capitais e de instituições financeiras privadas. Atualmente, a carteira dos empréstimos do banco (incluindo repasses) é de 6% do PIB, quando o crédito é de 37% do PIB. Mesmo se a carteira do BNDES crescer moderadamente, seu peso futuro no crédito deverá diminuir, se o crédito bancário daqui a 10 ou 15 anos chegar a 50% ou 60% do PIB;



II) o banco teria que priorizar aquelas atividades que o setor privado continuaria sem apoiar financeiramente na escala adequada, com destaque para a infra-estrutura, as atividades de inovação, as pequenas e médias empresas e, até certo ponto, as exportações;



III) seria importante que a atuação da instituição ocorresse preferencialmente nas áreas com forte presença de externalidades positivas;



IV) o BNDES poderia exercer um papel importante como catalisador de grandes investimentos, em operações complexas, com participação minoritária no financiamento, deixando a maior parte do risco com o setor privado;



V) caberia ao BNDES se adaptar às mudanças do seu "funding" mediante uma redução relativa da sua "FAT-dependência"; e



VI) na próxima década, seria conveniente alterar o referencial de juros, em substituição à TJLP, adotando uma nova regra para a correção dos empréstimos do banco.



São idéias para um debate que interessa a todos: à instituição e à sociedade em geral. Do resultado disso dependerá o perfil que o BNDES vier a ter na próxima década, no Brasil dos juros baixos.


Fabio Giambiagi, economista, co-organizador do livro "Brasil Globalizado" (Editora Campus), escreve mensalmente às segundas-feiras. E-mail: fgiambia@terra.com.br.

fgiambia@terra.com.br.

 
Transparência republicana

01/08/2008



O ministro Amorim recordou recentemente famosa frase do infame ministro da propaganda nazista segundo o qual uma mentira continuamente repetida acabaria tornando-se verdade. Infelizmente, um desses casos é a afirmação que os empréstimos do BNDES com taxas baseadas na TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo; 6,25%) não configurariam subsídio.



Já em março de 2004, o então presidente do BNDES, Carlos Lessa, classificou como "maluquice" o FMI se referir ao crédito barato do BNDES como subsídio. Segundo Lessa, não haveria nenhum subsídio, uma vez que o BNDES captava à mesma taxa que emprestava. Segundo o ministro do planejamento à época, Guido Mantega, só haveria subsídio se a taxa real (descontada da inflação) do empréstimo fosse negativa, ou seja, se a taxa de inflação superasse a taxa de juros do empréstimo.



Dado que a taxa de inflação prevista para 2008 supera hoje a TJLP, o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, foi obrigado a um contorcionismo. Segundo Coutinho, a taxa de inflação relevante para o cálculo da taxa de juros real seria a taxa de inflação no longo prazo, que ele prevê ser igual à atual meta para inflação, 4,5%. Com tal qualificação, a aplicação do critério de Mantega conduziria a uma taxa real positiva, não configurando subsídio.



Nenhuma dessas alegações está correta. A definição de crédito subsidiado nada tem a ver com taxas reais positivas ou negativas. Tem a ver, sim, com a taxa de empréstimo ser inferior à taxa de captação. Neste sentido, o argumento que o BNDES se financia e empresta à mesma taxa, não configurando, portanto, subsídio, pareceria correto. Entretanto, há pelo menos dois graves defeitos com o argumento. A principal fonte de fundos do BNDES, o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), só repassa seus recursos ao BNDES à TJLP, em vez de aplicá-los em dívida pública, que rende, hoje, pelo menos 13%, por ser obrigado a fazê-lo. Certamente, os trabalhadores, reais donos do FAT, não aprovariam tais operações gravosas a seus interesses econômicos se as pudessem evitar. Recentemente, o presidente do BNDES manifestou interesse em obter R$ 10 bilhões do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), também à TJLP, para emprestar a projetos de infra-estrutura. Imediatamente, ocorreram manifestações contra a taxa da operação, por ser danosa ao FGTS.



O segundo defeito do argumento é que tanto o BNDES quanto o FAT são patrimônio do governo brasileiro. Assim, considerando-se o governo como um todo, o custo de qualquer despesa adicional é o do endividamento público adicional (marginal). Explico: suponha que o BNDES, em vez de realizar empréstimos à TJLP (6,25%), devolva ao Tesouro Nacional os recursos que seriam emprestados, via distribuição de dividendos. Com tais recursos, o Tesouro Nacional poderia reduzir a dívida pública, que custa a taxa Selic (13%). Ou seja, o empréstimo à TJLP custa caro ao contribuinte brasileiro, isto é, custa a diferença entre a Selic e a TJLP.




É fundamental que a sociedade brasileira discuta os subsídios aos tomadores de empréstimos do BNDES, com base em estimativas de seus custos e benefícios




Naturalmente, o subsídio implícito nas operações de crédito do BNDES, mesmo com seu elevado custo fiscal, pode ser plenamente justificável. Mas é esta, precisamente, a discussão que precisa ser travada com os contribuintes brasileiros, que, ao fim e ao cabo, pagam as contas do BNDES. É preciso cotejar os benefícios dos empréstimos do BNDES com seus custos.



O objetivo do BNDES é "apoiar empreendimentos que contribuam para o desenvolvimento do país". Para mais bem instruir a discussão, é necessário dimensionar o real benefício dos empréstimos do BNDES para o investimento produtivo. Para isto, não é suficiente simplesmente exibir estatísticas dos valores desembolsados pelo BNDES. Tampouco bastam declarações enfáticas de empresários que se beneficiam do dinheiro barato. É necessário ir além, dimensionando quanto do investimento produtivo das empresas, de fato, depende dos fundos do BNDES. É preciso estimar qual seria a queda dos investimentos, caso os fundos subsidiados do BNDES não estivessem disponíveis. Esta seria a real contribuição do BNDES ao investimento produtivo e ao desenvolvimento do país.



Um exemplo ajuda a esclarecer. Um dos grandes clientes do BNDES é a Petrobras. No entanto, a Petrobras tem amplo acesso a instituições financeiras, tanto nacionais quanto internacionais. A principal razão para esta empresa recorrer ao BNDES é o fato de os recursos do BNDES serem mais baratos do que as alternativas. A pergunta relevante é: caso os recursos subsidiados do BNDES não estivessem disponíveis, quanto isso afetaria o plano de investimentos da Petrobras? Presumivelmente, estes investimentos, potencialmente muito lucrativos, seriam pouco afetados pela mudança. Já outras empresas em situação difícil poderiam cancelar seus investimentos caso os recursos do BNDES não existissem. É provável que o efeito varie significativamente, dependendo do tamanho da empresa, bem como de seu setor de atuação.



Raquel Balarin (Valor, 16/7/08) relatou outro problema importante que invalida a inferência de que todos os recursos emprestados pelo BNDES representariam novos investimentos produtivos. Empresas capitalizadas que já planejavam investir com recursos próprios estariam recorrendo ao BNDES apenas para ganhar com a arbitragem entre a Selic e a taxa, mais baixa, do empréstimo (TJLP + spread). Quantificar os benefícios dos empréstimos do BNDES não é tarefa simples, mas a economia e a econometria modernas permitem estimá-los satisfatoriamente.



Do lado dos custos, cabe mencionar que, além da diferença entre a taxa Selic e a TJLP, existe a perda de potência da política monetária, devido à falta de sincronia entre as duas taxas. O fato de a TJLP não se elevar, quando o BC aperta a política monetária, faz com que a política monetária tenha menor capacidade de esfriar a economia, obrigando o BC a elevar a taxa Selic mais do que o faria, caso as duas taxas se movessem em conjunto. É comum ouvir o argumento de que a TJLP mais cara prejudicaria o investimento, o que acabaria elevando a inflação no futuro, devido à possível menor oferta futura. Como se viu, a validade de tal argumento depende das estimativas anteriormente mencionadas.



Não é razoável que um debate tão importante sobre uso de fundos públicos permaneça tão pobre de números. Cabe prover, de forma transparente, estimativas dos custos e benefícios das operações do BNDES, para permitir que seja travada discussão republicana sobre sua atuação.


Márcio G. P. Garcia, Ph.D. por Stanford, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, escreve neste espaço uma sexta-feira a cada mês.

 

22 de julho de 2008

CONSENSO COPENHAGUE 2008

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 8:30 PM

 

VALOR ECONÔMICO, 22jul2008

Fazendo o bem de forma eficiente

Por Finn E. Kydland
22/07/2008

As autoridades políticas podem conceber várias desculpas para não investir em projetos mundiais de auxílio e desenvolvimento. No início de junho, juntei-me a um grupo de cinco prêmios Nobel e três renomados economistas para debilitar uma dessas escusas, gerando informações sobre quais usos para o dinheiro trariam os melhores resultados.



Para cada questão examinada, nos focamos nos benefícios em relação aos custos. Para direcionar nossos esforços, nos perguntamos: se tivéssemos, digamos, US$ 75 bilhões adicionais para gastar, onde poderíamos proporcionar o máximo de benefícios? Colocamos cada desafio em condições de igualdade. Os exageros da mídia de massa sobre alguns dos problemas não tiveram relevância.



No fim de nossa lista, ficaram os investimentos menos efetivos em termos de custos que o mundo poderia fazer, enquanto os melhores usos para o dinheiro foram para o topo. O último lugar (veja lista) seria destiná-lo para lidar com as mudanças climáticas por meio de cortes nas emissões de gás carbônico. A conclusão foi baseada, em parte, em uma pesquisa feita por um dos principais autores dos informes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), grupo premiado em 2007 com o prêmio Nobel da Paz. O estudo destacou que gastar US$ 800 bilhões durante 100 anos apenas para mitigar as emissões reduziria os inevitáveis aumentos de temperatura em apenas 0,2 graus Celsius até o fim do século. Mesmo se levássemos em conta alguns dos principais danos ambientais do aquecimento, perderíamos dinheiro com o investimento, com retorno de apenas US$ 685 bilhões.



Isso não significa que o planeta deveria ignorar a mudança climática. Uma resposta mais adequada seria aumentar drasticamente a pesquisa e desenvolvimento de fontes de energia com baixa emissão de carbono, opção que ganhou um respeitável ponto intermediário em nossa lista. Para o mundo, faz pouco sentido empobrecer com a adoção de soluções deficientes para um problema, quando há desafios mais prementes que podem ser resolvidos a um custo menor.



Da mesma forma, conferimos uma baixa classificação para as soluções contra a poluição atmosférica. Muitas medidas usadas em países desenvolvidos para reduzir a fumaça provocada pelos veículos – incluindo filtros de partículas e esquemas de "inspeção e manutenção" – têm custo proibitivo para o mundo em desenvolvimento.



Poderíamos ter benefícios um pouco melhores focando-nos na poluição em recintos fechados. A cada ano, 1,5 milhão de pessoas morrem dos efeitos do uso de combustível sólido em aquecedores deficientes, sem ventilação. Conseguir aparelhos melhores para metade das pessoas afetadas custaria US$ 2,3 bilhões.




A redução das barreiras comerciais traria crescimento da renda per capita, deixando os países mais pobres aptos para resolverem outros problemas




Nossas soluções com classificações mais altas foram em áreas das quais não se ouve falar muito. Intervenções pouco glamourosas, como o combate às verminoses, permitiriam uma melhor nutrição das crianças; a redução do custo da educação beneficiaria as crianças e os países.



Concluímos que o benefício máximo viria do fornecimento de micronutrientes – particularmente vitaminas A e zinco – para crianças subnutridas no Sudeste Asiático e África Subsaariana. Isso ajudaria a evitar mortes de recém-nascidos. O custo é minúsculo: alcançar 80% das cerca de 140 milhões de crianças subnutridas do mundo exigiria o comprometimento anual de US$ 60 milhões. Os ganhos econômicos futuros seriam de US$ 1 bilhão ao ano.



Fornecer ferro e sal iodado é outro dos investimentos no topo da lista. Fortificar alimentos com ferro pode custar apenas US$ 0,12 por pessoa por ano. Sabemos que a deficiência de ferro leva a problemas cognitivos e de desenvolvimento. Por US$ 286 milhões, poderíamos ter sal iodado e alimentos básicos fortificados para 80% dos que vivem nas áreas mais afetadas. Os benefícios estimados seriam equivalentes a aproximadamente nove vezes essa soma.



Uma solução de outro tipo seria a remoção de barreiras ao comércio. Mesmo contando os custos para os que perderiam no curto prazo (alguns setores em particular ou trabalhadores com determinadas capacitações), os benefícios gerais no longo prazo seriam grandes. A menos que as economias dos países em desenvolvimento cresçam, continuarão atoladas na pobreza. A redução das barreiras comerciais traria crescimento da renda per capita, possibilitando aos países mais pobres resolver outros problemas por conta própria.



Este foi o segundo Consenso de Copenhague. Embora nossas soluções colocadas no final da lista tenham continuado sendo mais ou menos as mesmas de há quatro anos, o item melhor classificado em 2004, a prevenção contra o HIV/Aids, ficou mais abaixo neste ano porque houve progressos desde a data.



Este projeto proporciona base sólida para medir e comparar os diferentes usos de recursos escassos. Pode ser algo badalado falar sobre alguns dos desafios globais, mas poderemos alcançar muito mais se nos focarmos, primeiro, naquilo que nossos gastos seriam mais racionais.



Abaixo, a classificação dos investimentos mundiais: 1) Suplementos de micronutrientes para crianças (vitamina A e zinco); 2) Agenda de desenvolvimento de Doha; 3) Fortificação com micronutrientes (ferro e sal iodado); 4) Expansão da abrangência da imunização para crianças; 5) Melhoria das tecnologias agrícolas; 6) Combate a verminoses e outros programas nutricionais baseados nas escolas; 7) Redução do preço da educação escolar; 8) Aumento e melhoria da educação de garotas, pagando às mães para enviá-las à escola; 9) Promoção da nutrição com base na comunidade. 10) Apoio ao papel reprodutivo das mulheres para reduzir a iniqüidade de gênero; 11) Remédios de baixo custo contra ataques cardíacos para países em desenvolvimento; 12) Prevenção e tratamento da malária; 13) Identificação e tratamento da tuberculose; 14) Pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de fontes de energia com baixa emissão de carbono para combater o aquecimento global; 15) Filtros de areia (bio-sand) para tratamento de água doméstica; 16) Bombas e poços para melhorar a cobertura de sistemas de água em áreas rurais; 17) Transferências condicionais de dinheiro para aumentar o número de crianças recebendo educação; 18) Manutenção da paz em situações de pós-conflito para reduzir o risco de guerra civil; 19) Pacote de prevenção do HIV com "combinação" de estratégias; 20) Campanha sanitária total para reduzir o número de áreas "abertas de defecação"; 21) Aperfeiçoamento da capacidade cirúrgica na esfera dos hospitais de bairro; 22) Microfinanças para mulheres para reduzir a iniqüidade de gênero; 23) Aperfeiçoamento da intervenção em aquecedores para melhorar a poluição em recintos fechados; 24) Barragem grande e de múltiplos usos na África para melhorar o alcance da distribuição de água; 25) Inspeção e manutenção de veículos a diesel para reduzir a poluição atmosférica; 26) Diesel com baixo teor de enxofre para veículos urbanos para reduzir a poluição atmosférica; 27) Tecnologia de controle de partículas para veículos a diesel para reduzir a poluição atmosférica; 28) Imposto sobre o tabaco para reduzir doenças cardíacas e câncer; 29) Pacote de pesquisa e desenvolvimento e de atenuação para combater o aquecimento global; 30) Atenuação das emissões de carbono para reduzir o aquecimento global.



Finn E. Kydland é prêmio Nobel de Economia em 2004, é titular da Cátedra de Ciências Econômicas na Universidade da Califórnia, Santa Barbara, e foi membro da Comissão de Especialistas do Consenso de Copenhague 2008.

13 de julho de 2008

DANI RODRIK + STIGLITZ

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:19 PM
 
Não chore por Doha

Por Dani Rodrik
05/08/2008
A mais recente rodada de negociações em Genebra, mais uma vez, não produziu um acordo. A julgar pelo que dizem a imprensa financeira e alguns economistas, o que está em jogo não poderia ser mais valioso.



Se concluída com êxito esta denominada "rodada de desenvolvimento", centenas de milhões de agricultores em países pobres serão tirados da pobreza e assegurarão que a globalização continue viva. Se prevalecer um fracasso, o sistema mundial de comércio receberá um golpe quase fatal, fomentando desilusão no Sul e protecionismo no Norte. E, como os editorialistas se apressam a dizer, as eventualidades adversas são particularmente grandes, num período em que o sistema financeiro mundial está atordoado devido à crise no mercado de crédito imobiliário de segunda linha americano e ao fato de os EUA estarem entrando em recessão.



Porém, um exame da agenda Doha numa perspectiva de maior distanciamento nos faz buscar o porquê de toda essa preocupação. É verdade que as políticas de subsídios ao setor agrícola em países ricos tendem a deprimir os preços mundiais e, simultaneamente, as rendas dos produtores agrícolas nos países em desenvolvimento. Mas para a maioria dos produtos agrícolas a eliminação gradual desses subsídios terá provavelmente efeitos apenas modestos sobre os preços mundiais – no máximo alguns pontos percentuais. Isso é café pequeno, se comparado à substancial alta de preços que os mercados mundiais têm vivido recentemente, e de todo modo seriam afogados pela elevada volatilidade a que esses mercados estão normalmente sujeitos.



Embora preços mais altos de produtos agrícolas em todo o mundo ajudem, podem prejudicar os domicílios urbanos em países em desenvolvimento, muitos dos quais são também pobres. É por isso que a recente disparada nos preços dos alimentos levou muitos países que cultivam alimentos a impor restrições às exportações e levou quase ao pânico as pessoas preocupadas com a pobreza mundial.



É difícil conciliar esses temores com a percepção de que a Rodada Doha de negociações comerciais poderia tirar dezenas, se não centenas de milhões, da pobreza. O melhor que pode ser dito é que uma reforma no sistema agrícola dos países ricos traria vantagens e desvantagens para os pobres do mundo. Ganhos muito claros existem apenas para algumas commodities, como algodão e açúcar, não consumidas em grandes quantidades por famílias pobres.



Os grandes beneficiários de reformas no sistema agrícola nos EUA, na UE e em outros países ricos seriam seus contribuintes e consumidores, que há muito tempo vêm arcando com o custo dos subsídios e proteções recebidas por seus compatriotas agricultores. Mas tenha o leitor clareza de que, nesse caso, estamos falando de reforma de política doméstica e redistribuição interna de renda. Isso pode ser bom em termos de eficiência e mesmo por razões de eqüidade, mas deveria ter se tornado a preocupação principal da Organização Mundial de Comércio (OMC)?




Nós vivemos sob o regime de comércio mais liberal na história não porque a OMC o impõe, mas porque maior abertura é do interesse de países importantes




E o que dizer das tarifas sobre produtos da indústria de transformação? Os países ricos exigiram grandes reduções nas tarifas sobre importações em países em desenvolvimento, como Índia e Brasil, em troca da eliminação gradual de seus subsídios à agricultura. (Por que eles precisam ser subornados por países pobres para fazerem o que é bom para eles é um mistério insolúvel). Mas também nessa esfera os possíveis benefícios são escassos. As alíquotas tarifárias aplicadas em países em desenvolvimento, embora mais altas do que nos avançados, já estão em mínimo histórico.



Segundo estimativas do Banco Mundial, uma eliminação total de todas as restrições ao comércio de mercadorias viria, em última instância, a elevar em não mais que 1% as rendas nos países em desenvolvimento. O impacto sobre as rendas em países desenvolvidos seria ainda menor. E, naturalmente, a Rodada Doha viria a apenas reduzir essas barreiras, e não eliminá-las de todo.



A Rodada Doha foi construída em cima de um mito, qual seja, o de que uma agenda de negociações centrada em agricultura constituiria uma "rodada de desenvolvimento". Isso proporcionou a grupos de interesse importantes o que queriam. Proporcionou aos governos de países ricos e ao então diretor-geral da OMC, Mike Moore, uma oportunidade de assumir uma postura de respeitabilidade ética diante dos manifestantes antiglobalização. Isso proporcionou aos EUA um instrumento para destroçar a Política Agrícola Comum (PAC) da União Européia (UE). E foi sob medida para os poucos países em desenvolvimento e renda média (como Brasil, Argentina e Tailândia) que são grandes exportadores agrícolas.



Mas o mito de uma rodada de "desenvolvimento", incentivado por negociadores de comércio e economistas que defendem a "teoria da bicicleta" das negociações de comércio – a visão segundo a qual o regime de comércio só pode permanecer de pé mediante contínuos progressos na liberalização -, revelou-se um tiro pela culatra porque os EUA e países em desenvolvimento cruciais encontraram dificuldades para liberalizar seus setores agrícolas. O que, em última análise, resultou no colapso da mais recente rodada de negociações foi a recusa da Índia de aceitar regras rígidas que, julgaram seus negociadores, colocariam em risco os pequenos proprietários agrícolas indianos.



Ainda mais importante é que os temores subjacentes à teoria da bicicleta são muitíssimo exagerados. Nós vivemos sob o regime de comércio mais liberal na história não porque a OMC o impõe, mas porque países importantes, tanto ricos como pobres, consideram que maior abertura seja de seu melhor interesse.



Os verdadeiros riscos estão em outras esferas. De um lado, há o perigo de que a conseqüência do atual alarmismo seja precisamente o que se teme – que os negociadores de comércio e investidores transformem o cenário apocalíptico em realidade, ao entrar em pânico. Por outro lado, há o risco de que uma concluída "rodada de desenvolvimento" venha a não satisfazer as elevadas expectativas que criou, comprometendo ainda mais a legitimidade das regras do comércio mundial num prazo mais longo. No fim das contas, talvez sejam os imponderáveis – psicologia e expectativas -, em vez de resultados econômicos efetivos, que determinarão resultados finais.



Por isso, não chore por Doha. Doha nunca foi uma rodada de desenvolvimento, e o mundo futuro dificilmente será algo distinto do de ontem.



Dani Rodrik, professor de economia política na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o prêmio Albert O. Hirschman, concedido pelo Social Science Research Council. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org
 
VALOR ECONÔMICO, 14jul2008
A morte do consenso da globalização

Por Dani Rodrik
14/07/2008

Esta não é a primeira vez em que a economia mundial vê o colapso da globalização. A era do padrão-ouro, com sua livre mobilidade de capitais e livre comércio, teve um fim abrupto em 1914 e não pôde ser ressuscitada após a Primeira Guerra Mundial. Estaremos prestes a testemunhar um colapso econômico mundial similar?

A indagação não é extravagante. Embora tenha viabilizado níveis inéditos de prosperidade em países avançados, e tenha sido uma benção para centenas de milhões de trabalhadores pobres na China e em outros países da Ásia, a globalização econômica repousa sobre alicerces frágeis. Diferente de mercados nacionais, que tendem a se apoiar em instituições regulamentadoras e políticas domésticas, os mercados mundiais são apenas "fracamente inseridos". Não existe qualquer autoridade antitruste mundial, nenhum emprestador mundial de última instância, nenhuma agência fiscalizadora mundial, nenhuma rede de segurança mundial e, naturalmente, nenhuma democracia mundial. Em outras palavras, os mercados mundiais sofrem de fraca governança, e portanto de escassa legitimidade popular.

Desdobramentos recentes ressaltaram a urgência com que essas questões estão sendo discutidas. A campanha eleitoral presidencial nos EUA enfatiza a fragilidade do apoio ao livre comércio no país mais poderoso do mundo. A crise no mercado de crédito imobiliário de segunda linha americano evidenciou de que modo a ausência de coordenação e regulamentação internacionais pode exacerbar a fragilidade intrínseca dos mercado financeiros. A alta nos preços dos alimentos expôs o lado negativo da interdependência econômica desacompanhada de esquemas de transferências e compensações mundiais. Por outro lado, o encarecimento do petróleo provocou aumentos nos custos de transportes, levando analistas a ponderar se a era da terceirização está chegando ao fim. E paira sempre a iminência de calamidades resultantes das mudanças climáticas, que podem ser a mais grave ameaça com que o mundo já se defrontou.
Então, se a globalização está em perigo, quais são seus verdadeiros inimigos? Houve um tempo em que as elites mundiais podiam se reconfortar, considerando a oposição ao regime de comércio mundial como gerada por anarquistas violentos, protecionistas preocupados com seus próprios interesses, ativistas sindicais e jovens ignorantes, embora idealistas. Nesse período, as elites podiam considerar-se verdadeiramente progressistas, porque compreendiam que salvaguardar e promover o avanço da globalização era o melhor remédio contra a pobreza e a insegurança.
Mas essa certeza praticamente desapareceu, substituída por dúvidas, questionamentos e ceticismo. Cessaram também os violentos protestos de rua e movimentos de massas contra a globalização. Notícia, hoje, é a crescente lista de economistas ortodoxos que estão questionando as supostamente irrestritas virtudes da globalização.
Assim, Paul Samuelson, autor do livro-texto que se constituiu em marco histórico do pensamento econômico do Pós-Guerra, lembra seus colegas economistas que os ganhos da China com a globalização podem acontecer às custas dos EUA; Paul Krugman, o mais importante teórico atual em comércio internacional, argumenta que o comércio com países de baixa renda já é suficientemente grande para ter efeito sobre a desigualdade; Alan Blinder, ex-vice-presidente do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA), preocupado com que a terceirização internacional cause perturbações sem precedentes na força de trabalho americana; Martin Wolf, colunista do Financial Times e um dos mais articulados defensores da globalização, escreve sobre seu desapontamento diante das conseqüências da globalização financeira; e Larry Summers, ex-secretário do Tesouro americano e "Sr. Globalização" do governo Clinton, pondera sobre os riscos de um nivelamento por baixo na arena das regulamentações nacionais e sobre a necessidade de padrões trabalhistas internacionais.

A campanha eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos enfatizou a fragilidade do apoio ao livre comércio no país mais poderoso do mundo


Embora essas preocupações não signifiquem um ataque totalmente antagônico desfechado por pensadores como Joseph Stiglitz, agraciado com um Prêmio Nobel de Economia, constituem, mesmo assim, notável guinada no clima intelectual. Além disso, mesmo aqueles que não perderam suas convicções freqüentemente discordam com veemência sobre o rumo desejado para a globalização.
Por exemplo, Jagdish Bhagwati, destacado defensor do livre comércio, e Fred Bergsten, diretor do Peterson Institute for International Economics, um instituto pró-globalização, têm se posicionado na linha de frente, argumentando que os críticos exageram enormemente os males da globalização e subestimam seus benefícios. Mas os debates entre os dois sobre os méritos de acordos de comércio regional – Bergsten a favor, Bhagwati contra – são tão acalorados quanto as divergências com os autores mencionados acima.
Nenhum desses intelectuais, naturalmente, é contra a globalização. O que eles querem não é reverter a globalização, mas criar novas instituições e mecanismos compensatórios – doméstica ou internacionalmente -, que tornem a globalização mais eficaz, justa e sustentável. Suas propostas de políticas são freqüentemente vagas (quando chegam a ser formuladas) e alvo de escasso consenso. Mas as disputas centradas na globalização saíram nitidamente para bem longe das ruas, para os artigos da imprensa financeira e fóruns de respeitados institutos de estudos.
Esse é um ponto importante que precisa ser compreendido pelos entusiastas da globalização, pois freqüentemente comportam-se como se o "campo adversário" fosse integrado por protecionistas e anarquistas. Hoje, a pergunta não é mais: "você é favorável ou contrário à globalização?" A questão agora é, "quais deveriam ser as regras da globalização?" Os verdadeiros antagonistas dos defensores da globalização, hoje, não são jovens em barricadas, mas seus colegas intelectuais.
As primeiras décadas após 1945 foram balizadas pelo Consenso de Bretton Woods – um multilateralismo superficial que permitiu às autoridades econômico-financeiras mirarem nas necessidades sociais e empregatícias internas, ao mesmo tempo em que criaram as condições para que o comércio mundial fosse revitalizado e florescesse. Esse regime foi superado, na década de 80 e 90, por uma agenda de aprofundamento de liberalização e integração econômica.
 
Esse modelo, já aprendemos, é insustentável. Para que a globalização venha a sobreviver, será necessário um novo consenso intelectual que lhe dê sustentação. A economia mundial aguarda desesperadamente seu novo Keynes.
 
Dani Rodrik é professor de economia política na Escola de Governo John F. Kennedy, na Universidade Harvard, foi o primeiro agraciado com o prêmio Albert O. Hirschman, concedido pelo Social Science Research Council. © Project Syndicate/Europe´s World, 2008. www.project-syndicate.org

 

http://www.project-syndicate.org/commentary/stiglitz101

The End of Neo-liberalism?

by Joseph E. Stiglitz

NEW YORK – The world has not been kind to neo-liberalism, that grab-bag of ideas based on the fundamentalist notion that markets are self-correcting, allocate resources efficiently, and serve the public interest well. It was this market fundamentalism that underlay Thatcherism, Reaganomics, and the so-called “Washington Consensus” in favor of privatization, liberalization, and independent central banks focusing single-mindedly on inflation.

For a quarter-century, there has been a contest among developing countries, and the losers are clear: countries that pursued neo-liberal policies not only lost the growth sweepstakes; when they did grow, the benefits accrued disproportionately to those at the top.

Though neo-liberals do not want to admit it, their ideology also failed another test. No one can claim that financial markets did a stellar job in allocating resources in the late 1990’s, with 97% of investments in fiber optics taking years to see any light. But at least that mistake had an unintended benefit: as costs of communication were driven down, India and China became more integrated into the global economy. 

But it is hard to see such benefits to the massive misallocation of resources to housing.  The newly constructed homes built for families that could not afford them get trashed and gutted as millions of families are forced out of their homes, in some communities, government has finally stepped in – to remove the remains. In others, the blight spreads. So even those who have been model citizens, borrowing prudently and maintaining their homes, now find that markets have driven down the value of their homes beyond their worst nightmares.

To be sure, there were some short-term benefits from the excess investment in real estate:  some Americans (perhaps only for a few months) enjoyed the pleasures of home ownership and living in a bigger home than they otherwise would have. But at what a cost to themselves and the world economy! Millions will lose their life savings as they lose their homes. And the housing foreclosures have precipitated a global slowdown. There is an increasing consensus on the prognosis: this downturn will be prolonged and widespread.

Nor did markets prepare us well for soaring oil and food prices. Of course, neither sector is an example of free-market economics, but that is partly the point: free-market rhetoric has been used selectively – embraced when it serves special interests and discarded when it does not.

Perhaps one of the few virtues of George W. Bush’s administration is that the gap between rhetoric and reality is narrower than it was under Ronald Reagan. For all Reagan’s free-trade rhetoric, he freely imposed trade restrictions, including the notorious “voluntary” export restraints on automobiles.

Bush’s policies have been worse, but the extent to which he has openly served America’s military-industrial complex has been more naked. The only time that the Bush administration turned green was when it came to ethanol subsidies, whose environmental benefits are dubious. Distortions in the energy market (especially through the tax system) continue, and if Bush could have gotten away with it, matters would have been worse. 

This mixture of free-market rhetoric and government intervention has worked particularly badly for developing countries. They were told to stop intervening in agriculture, thereby exposing their farmers to devastating competition from the United States and Europe. Their farmers might have been able to compete with American and European farmers, but they could not compete with US and European Union subsidies. Not surprisingly, investments in agriculture in developing countries faded, and a food gap widened.

Those who promulgated this mistaken advice do not have to worry about carrying malpractice insurance. The costs will be borne by those in developing countries, especially the poor. This year will see a large rise in poverty, especially if we measure it correctly.

Simply put, in a world of plenty, millions in the developing world still cannot afford the minimum nutritional requirements. In many countries, increases in food and energy prices will have a particularly devastating effect on the poor, because these items constitute a larger share of their expenditures.

The anger around the world is palpable. Speculators, not surprisingly, have borne more than a little of the wrath. The speculators argue: we are not the cause of the problem; we are simply engaged in “price discovery” – in other words, discovering – a little late to do much about the problem this year – that there is scarcity. 

But that answer is disingenuous. Expectations of rising and volatile prices encourage hundreds of millions of farmers to take precautions. They might make more money if they hoard a little of their grain today and sell it later; and if they do not, they won’t be able to afford it if next year’s crop is smaller than hoped. A little grain taken off the market by hundreds of millions of farmers around the world adds up. 

Defenders of market fundamentalism want to shift the blame from market failure to government failure. One senior Chinese official was quoted as saying that the problem was that the US government should have done more to help low-income Americans with their housing. I agree. But that does not change the facts: US banks mismanaged risk on a colossal scale, with global consequences, while those running these institutions have walked away with billions of dollars in compensation. 

Today, there is a mismatch between social and private returns. Unless they are closely aligned, the market system cannot work well.

Neo-liberal market fundamentalism was always a political doctrine serving certain interests. It was never supported by economic theory. Nor, it should now be clear, is it supported by historical experience. Learning  this lesson may be the silver lining in the cloud now hanging over the global economy.

Joseph E. Stiglitz, Professor at Columbia University, received the 2001 Nobel Prize in economics. He is the co-author, with Linda Bilmes, of The Three Trillion Dollar War: The True Costs of the Iraq Conflict.

Copyright: Project Syndicate, 2008. 
www.project-syndicate.org

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2807200805.htm FOLHA, 28JUL2008

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

A quem serve a globalização?


Países da América Latina perderam o controle de suas taxas de câmbio e ficaram para trás


NOS ANOS 1990, a globalização era a "bête noire" da esquerda e dos países em desenvolvimento -para muitos significava abertura econômica prematura. Na atual década, deixou de ser bandeira ideológica do neoliberalismo para se transformar no fantasma perseguindo os países ricos que, aos poucos, abandonam o discurso neoliberal e se preparam para levantar mais barreiras protecionistas. Nos EUA, o discurso dos dois candidatos à presidência é protecionista. Na Europa, a rejeição aos imigrantes pobres porque eles pressionam para baixo os salários médios aumenta a cada dia, ao mesmo tempo em que leis contra os imigrantes violando direitos humanos são aprovadas pelo parlamento europeu, como bem demonstraram Ricardo Seitenfus e Deisy Ventura nesta Folha (25.7.08). Como explicar esse fato? Afinal, a quem serve a globalização? A globalização é a denominação para o estágio atual do capitalismo; é abertura comercial combinada à formação de uma sociedade global. No plano econômico, a globalização significa abertura de todos os mercados: abertura comercial, necessariamente, porque é parte da própria definição de globalização; abertura financeira -dos fluxos de capital-, perfeitamente evitável, já que aumenta a instabilidade financeira mundial ao tirar dos países em desenvolvimento o controle de suas taxas de câmbio.

Capitalismo arrebata EUA em crise

Por Kevin Hassett
31/07/2008

A crise no Fannie Mae e no Freddie Mac provocou mais um revés numa já cambaleante economia dos Estados Unidos. Com tanta gente atualmente tomada pela possibilidade de a economia caminhar rumo à recessão, o jogo de acusações já começou. Muitos começaram a apontar um dedo acusador para um suspeito improvável: o próprio livre mercado. Há uma nova doença se disseminando nos prognósticos dos especialistas de plantão: o capitalismo de tempos prósperos.



Peter Gosselin capturou bem esse estado de ânimo num artigo recente no "Los Angeles Times". "O país e seus líderes políticos", ele escreveu, "começaram a se irritar com a idéia de que o sistema de mercado atual seria essencial para uma sociedade eficiente, estável e justa".



Apesar de não estar nem um pouco claro se a maioria das pessoas concordará com Gosselin, essa percepção precisa ser levada a sério. A noção de que os mercados não funcionam mais, se for verdadeira, poderá virar o pensamento econômico de cabeça para baixo e se transformar numa importante vitória intelectual para a esquerda americana. A aceitação generalizada desta idéia teria profundas implicações para o futuro das economias de mercado e abriria a porta para uma vasta expansão do governo.



Há dois anos, se perguntássemos a qualquer americano que não fosse um militante da esquerda por que os EUA superaram o desempenho das economias da Europa e do Japão, mais tendentes ao socialismo, ele teria apontado para a nossa maior dependência nos mercados livres. Os americanos dificilmente foram os únicos a aprender essa lição. Os europeus têm reduzido agressivamente as suas elevadas alíquotas de impostos e suas rigorosas regulações e o antigo bloco soviético, em particular, parece ter sido ungido no sacerdócio da doutrina econômica de Reagan.



Por que a vitória intelectual para os pensadores do livre mercado? Não porque tivessem convencido a todos nos seminários acadêmicos: o meio acadêmico dificilmente tem sido receptivo aos economistas conservadores. Não, a vitória aconteceu porque os fatos falaram por si mesmos. Um vasto corpo de pesquisa, que demonstra a relação empírica existente entre mercados livres e crescimento econômico, foi desenvolvido. Um estudo conduzido pelo economista Robert Barro, da Universidade Harvard, apurou que os direitos de propriedade e os mercados livres eram os elementos institucionais mais importantes para a promoção do crescimento econômico.



Igualmente, o Relatório de 2004 sobre a Liberdade Econômica Mundial, do Instituto Fraser, documentou que a receita do livre mercado, de concorrência, espírito empreendedor e atividade de investimento, é a chave para a promoção do crescimento econômico. Segundo o estudo, "países com maior liberdade econômica atraem mais investimentos e obtêm produtividade maior a partir dos seus recursos. Como resultado, eles crescem mais velozmente e atingem níveis de renda mais elevados". Estudos também mostram o impacto negativo da regulação sobre o crescimento. A economista, Silvia Ardagna, de Harvard, e Annamaria Lusardi, do Dartmouth College, concluíram que ambientes com regulação rígida desestimulam empreendedores que são motivados por novas idéias de negócios.



O poderio econômico dos EUA ajudou a vencer a Guerra Fria e países que copiaram, ou até se aprimoraram em relação aos Estados Unidos, viram seus horizontes mudarem dramaticamente. Países, da Irlanda à Estônia, adotaram a ideologia do livre mercado e presenciaram uma transformação econômica sem precedentes historicamente. É importante observar que essa vitória foi em torno de tendências de longo prazo. Há dois anos, o sentimento em prol do livre mercado estava provavelmente no seu auge. A vasta aceitação da idéia de que mercados livres são a melhor rota para a prosperidade foi baseada em décadas de experiência. Contudo, ocorreram graves flutuações.




Dificilmente a atual crise habitacional será suficiente para desfazer décadas de experiência que atestam que os mercados livres funcionam




Tivemos a crise de 1973, quando os preços quadruplicaram e houve a convulsão iraniana de 1979, que também devastou os mercados do petróleo, e a derrocada das instituições financeiras hipotecárias, quando mais de 700 bancos faliram. Até mesmo a gloriosa revolução de Reagan foi prejudicada por flutuações: uma das mais profundas recessões do período do Pós-Guerra aconteceu durante o primeiro mandato de Reagan. Mesmo com esses reveses, o sistema de livre mercado venceu, pois outras abordagens não produziram apenas flutuações, mas miséria constante.



Então, o que aconteceu desta vez, que é tão pior do que tudo o que houve antes? A resposta é: nada. Novas coisas que malograram demandam novas abordagens por parte dos formuladores de política. Mas os mercados por si só não são a raiz do problema. Tratemos de cada um dos elementos negativos.



Primeiramente, os preços do petróleo. Eles estão elevados porque a demanda global subiu vertiginosamente num momento em que países como China e Índia adotaram o livre mercado e começaram a crescer velozmente e a consumir mais energia. Portanto, os preços do petróleo dispararam porque os mercados livres funcionam, e não ao contrário. No setor habitacional, o enredo é mais complexo. As instituições financeiras claramente fizeram terríveis apostas de que os preços continuariam aumentando, e isso colocou a economia em risco. Os proprietários de casas perseveraram nos seus sonhos, apenas para vê-los frustrados assim que as taxas de juros que incidiam sobre financiamentos hipotecários se ajustaram a um nível mais elevado e os preços despencaram. O sofrimento deles é real, e o Congresso está certo em tomar alguma providência para atenuá-lo.



Mas será a crise habitacional suficiente para desfazer décadas de experiência que atestam que os mercados livres funcionam? Dificilmente. A verdade é que preços flutuam e que algumas vezes as pessoas adivinham corretamente, e outras vezes incorretamente. Isso sempre foi verdade, especialmente durante o período que convenceu o mundo de que o sistema de livre mercado é o melhor.



Consideremos da seguinte forma. Quase 68% dos americanos possuem suas casas. Na Alemanha, apenas 40% as detêm. Essas cifras são tão diferentes em grande parte porque os EUA são mais livres economicamente do que a Alemanha. O crescimento maior da renda e crédito mais fácil levaram a maiores taxas de posse de moradias nos EUA e a condições que são mais difíceis de mensurar. Isso abriu caminho para júbilo, e também para tensão.



Mas mesmo depois que a poeira assentar os americanos estarão muito à frente. Ninguém poderá alegar que estaríamos em situação melhor adotando um sistema completamente diferente. Nós definitivamente estaríamos em melhor condição se a regulação bancária tivesse sido mais racional e se a regulação por zoneamento não tivesse contribuído tanto para a disparada nos preços dos imóveis. Mudanças devem ser, naturalmente, introduzidas no nosso sistema.



É praticamente possível assegurar que outra confusão acontecerá logo adiante. Os americanos sempre aceitaram isso como parte do trato do livre mercado e podemos apostar que aceitarão mais essa vez.



Kevin Hassett, diretor de Estudos de Política Econômica no American Enterprise Institute, é colunista da Bloomberg News.

2 de julho de 2008

BANCO MUNDIAL – GROWTH COMISSION REPORT

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:17 AM
 

Title: O novo relatório do crescimento

Author: Simon Schwartzman – Date: 19/6/2008 5:37:00 – URL: http://www.planeta.sitedaescola.com/modules/planet/view.article.php?5482

Michael Spence on the Growth Commision: Charting the Unknown to Stimulate and Sustain Development – 03out2007

Spence panel assesses policies for growthBy Chris Giles in London – Published: May 22 2008 04:11 | Last updated: May 22 2008 04:11

Trust the development experts – all 7bn
Maio 28, 2008 By William Easterly
The report of the World Bank Growth Commission, led by Nobel laureate Michael Spence, was published last week. After two years of work by the commission of 21 world leaders and experts, an 11- member working…

Useful dos and don’ts for an economy set on fast growth
Junho 3, 2008 By Martin Wolf
…Report, product of a commission consisting mainly of policymakers from developing countries, under the chairmanship of Michael Spence, a Nobel-laureate economist at Stanford University*. So what does the report contribute? Nothing useful, argued William…

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World Bank to outline framework for growth
Maio 18, 2008 By Krishna Guha in Washington
Michael Spence would like to do for the developing world what Michael Porter – his colleague at Stanford University – did for the business world…

By Krishna Guha in Washington
Domingo Mai 18 2008 15:40

Michael Spence would like to do for the developing world what Michael Porter – his colleague at Stanford University – did for the business world: produce a manual on how to grow and prosper.

This week the Nobel Prize-winning economist will unveil a strategic framework for growth that updates and adapts the controversial "Washington Consensus" in the light of recent development experience.

Mr Spence says he hopes the World Bank Growth Commission’s proposals will be of practical use in helping developing countries improve their policies and strategies for "accelerating and sustaining growth".

continued from previous page

The commission is dominated by top current and former policymakers from the developing world. These include Zhou Xiaochuan, governor of the People’s Bank of China, Montek Ahluwalia, deputy chairman of India’s Planning Commission, Ernesto Zedillo, the former president of Mexico, Kemal Dervis, the former finance minister of Turkey, and Trevor Manuel, the South African minister of finance. "They are the people who fought the battles," Mr Spence says.

Setting out a framework for development is harder than it might seem at first glance. In the mid-1990s many economists advocated a standard package of free market policies – including openness to trade and investment, fiscal discipline, privatisation and deregulation – that was dubbed the Washington Consensus.

But the wave of emerging market crises in the late 1990s – coupled with the success of idiosyncratic development strategies in China and India – undermined faith in the consensus.

"What we learned is not that things went crazily off base in the Washington Consensus, but that in some sense that set of propositions was not enough to get the job done," Mr Spence says. The old approach was too formulaic. "No one set of policies will work in all circumstances. An effective strategy as far as I can tell is context specific, country specific, time specific." Rather than offer a single blueprint for policy, Mr Spence aims to provide a strategic framework for thinking about the issues that go into development – like Mr Porter’s corporate strategy guidelines.

He says Mr Porter sets out strategic frameworks that are used by many companies, even though the actual strategies pursued by these companies are highly specific to the market they are in. "What we have come to believe is that it is rather similar in the area of growth strategies."

The Growth Commission report is likely to differ most from the Washington Consensus in what it has to say about the role of government in development.

"I suspect that the role of government as envisaged by the Washington Consensus needs to be reconsidered. I think it was defined too narrowly and not sufficiently pragmatically," says Mr Spence.

The right role of government in any given country evolves over time, "Things you can confidently delegate to the private sector in Europe or America are not so easily delegated when markets and institutions are less developed." cont..

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Useful dos and don’ts for an economy set on fast growth [ESSENCIAL]

(The transcript of the whole discussion, including comments by Robert Rubin and Michael Spence’s response, is worth reading.)

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Uncomfortable truths for a new world of them and us

Quinta-feira Mai 29 2008 11:50

Globalisation belonged to us; financial crises happened to them.

The world has been turned on its head. Consumers in the wealthiest nations are struggling with the consequences of the credit crunch and with the soaring cost of energy and food. In China, retail sales have been rising at an annual 15 per cent. I cannot think of a better description of the emerging global order.

The trouble is that the politics of globalisation lags ever further behind the economics. For all its tacit recognition that power has been flowing eastwards, the west still wants to imagine things as they used to be. In this world of them and us, "they" are accused by Democratic contenders in the US presidential contest of stealing "our" jobs. Now, you hear Europeans say, "they" are driving up international commodity prices by burning "our" fuel and eating "our" food.

continued from previous page

The other day I listened to an eminent central banker offer a lucid explanation of the collapse of confidence that last summer paralysed international credit markets. I say lucid because he kept it simple, skipping the indecipherable stuff about algorithms, bundled securities and mark-to-market accounting rules.

The crisis, this banker told a conference hosted by the Weidenfeld Institute for Strategic Dialogue, flowed from the coincidence of a global savings glut with the explosion in financial innovation made possible by ever more sophisticated information technology. This had engendered among all those highly paid investment bankers and traders an insouciant indifference to risk. It was always going to end in tears.

The savings had come largely from the fast-growing Asian economies and from the burgeoning incomes of oil and gas producers, though some could be traced to a disinclination to investment in developed nations after the bursting of the dotcom bubble. As risk premiums had fallen and spreads narrowed, central bankers and regulators had warned of the dangers. What they had not foreseen was that the explosion in subprime mortgage lending in the US would be the catalyst for such a sudden bust.

None of the above, I suppose, is any great revelation to those in the banking business now counting the bonuses lost to irrational exuberance. What struck me, though, was how this crisis (no one is sure it is over) provides a perfect metaphor for the new geopolitical landscape.

Think back to the financial shocks of the 1980s and 1990s. For those of us in the west, these were unfortunate events in faraway places: Latin America, Russia, Asia, Latin America again. There was a risk of contagion, but in so far as rich nations paid a price, it lay largely in the cost of bailing out their own feckless banks. The really unpleasant medicine, prescribed by the International Monetary Fund, had to be taken by the far less fortunate borrowers.

The parameters of globalisation were set by the west. Liberalisation of trade and capital flows was a project owned largely by the US. It was not quite an imperialist enterprise, but, while everyone was supposed to gain from economic integration, the unspoken assumption was that the biggest benefits would flow to the richest. The rules were set out in something called, unsurprisingly, the Washington Consensus.

Against that background, the west’s present discomfort is replete with irony. A sizeable chunk of the excess savings that inflated the credit bubble were a product of the Washington Consensus. Never again, the victims of the 1997 east Asian crisis said to themselves after being forced to take the IMF’s medicine in 1997. This would be the last time they were held hostage to western bailouts. Instead they amassed their own huge foreign currency reserves.

So the boot is now on the other foot. The IMF is forecasting that the advanced economies will just about keep their heads above water. With luck, growth this year and next will come in at a touch above 1 per cent. If they do avoid recession – and most of my American friends think it unlikely as far as the US is concerned – they will have to thank robust growth rates in Asia and Latin America. The forecast for China is growth of about 9 per cent in both years, for India 8 per cent and for emerging and developing economies as a whole something more than 6 per cent.

The old powers have not grasped this new reality. There are nods, of course, to a need to restructure international institutions. The rising nations, your hear western politicians aver, must be given more of a voice. More seats, maybe, at the World Bank, the United Nations and, yes, on the board of the IMF. But the assumption is that the rising powers will simply be accommodated within the existing system – a small adjustment here, a tweak there and everything will be fine again. Missing is a willingness to see that this is a transformational moment that demands we look at the world entirely afresh.

One of the reasons for such reticence has been the emergence of another "them and us" – this time within western societies. The "us" in this case are the well educated and well positioned who have been able to extract sizeable rents from the process of global economic integration. The "them" are the under-educated and less fortunate who have seen their jobs lost or their incomes depressed by big shifts in comparative advantage flowing from technological innovation and open economies. contina….

philip.stephens@ft.com

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Growth challenge
Maio 22, 2008
…of "the growth report" released this week by the commission on growth and development chaired by the Nobel laureate, Michael Spence. No single recipe will secure sustained and rapid economic growth in poor countries, it argues. Governments have to choose…

Help poor states to seize the fruits of the boom
Abril 9, 2008 By Paul Collier and Michael Spence
…Robert Zoellick, president of the World Bank, has rightly made it a priority. What, in practice, can the bank and the International Monetary Fund…savings are used and are the remit of the bank. Several low-income governments are…the cost of this turmoil to the rich world, we should realise that the cost of…University and author of The Bottom Billion. Michael Spence, a 2001 Nobel laureate in economics…

Globalisation’s losers need support
Maio 14, 2007 By Danny Leipziger and Michael Spence
The modern globalisation debate deals with many important issues: governance, regulation and risk. None is more important, however, than who benefits and who loses, absolutely and relat…

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VALOR ECONÔMICO – 25JUN2008

DESCOBRINDO A PÓLVARA, MAIS UMA VEZ! – DAVID KUPFER

Em meados de 2005, nesse mesmo espaço, escrevi uma coluna chamada "A (Re)descoberta da pólvora", na qual comentava as conclusões registradas no Relatório de Desenvolvimento Humano, então recém-publicado pela Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O relatório colocava o Brasil em má situação na comparação com outros países e afirmava que sem um Estado ativo os países atrasados não conseguiriam superar a barreira do subdesenvolvimento. Embora a parte diagnóstica desse relatório tenha provocado forte reação na mídia brasileira, as suas recomendações não causaram maiores impactos, talvez por não ser a ONU uma "porta-voz" muito representativa da ideologia das instituições supranacionais. A pólvora então, mais uma vez redescoberta, não teve muito poder de fogo.
Três anos depois, em um quadro econômico mundial completamente distinto, acaba de chegar ao público o documento final produzido pela Comissão para o Crescimento e Desenvolvimento (CCD). Criada em 2006 pelo Banco Mundial, sob a coordenação de Michael Spence – economista de grande reputação, laureado com o Nobel de 2001 – e formada por outros tantos conceituados economistas de vários países, a CCD teve como objetivo realizar um balanço do estado do conhecimento sobre estratégias e meios de promoção do crescimento sustentável em países em desenvolvimento. A enorme repercussão do relatório da CCD na imprensa não deve ser atribuída às idéias nele contidas, que também são antigas como a pólvora, mas sim à sua origem, pois vieram do Banco Mundial e, portanto, agora sim, chanceladas por uma das instituições-âncora do Consenso de Washington, que há anos se dedicava a propagar o ideário liberal do Estado mínimo e do mercado máximo.

Discutir crescimento e desenvolvimento somente faz sentido quando se entende que esses temas são duas categorias distintas


A CCD concentrou seu foco na idéia de que desenvolvimento econômico deve corresponder a crescimento alto, sustentado e inclusivo: alto significa uma taxa idealmente superior a 7% ou mais ao ano; sustentado significa que esse ritmo de crescimento deve durar décadas; e inclusivo significa que, além da renda, o país deve ser capaz de capturar oportunidades, criar empregos produtivos e assegurar acesso a serviços para os seus cidadãos. Desde a Segunda Guerra, não mais do que treze países conseguiram crescer um mínimo de 7% ao ano por mais de 25 anos: além do Brasil, Botswana, China, Hong Kong, Indonésia, Japão, Coréia do Sul, Malásia, Malta, Omã, Cingapura, Taiwan e Tailândia. Buscando encontrar as similaridades entre esses 13 casos, a CCD conclui que, afora algumas generalidades, elas praticamente inexistem. Literalmente, o relatório afirma que não há uma fórmula geral: estratégias e prioridades são dependentes do contexto e devem ser definidas no nível de cada país.
Não é sem razão que conclusões desse tipo tendem a prevalecer, pois o problema do desenvolvimento tende a ser cada vez mais e não menos complexo, cada vez mais e não menos dependente da trajetória e cada vez mais e não menos local. Para comprovar isso, basta pensar na dimensão estrutural do desenvolvimento e na contribuição que produtividade, competitividade e inovação jogam na sua promoção. Até o início do Século XX, a noção de produtividade era a principal palavra de ordem do desenvolvimento. Produtividade é uma medida de eficiência industrial baseada em fatores naturais. Em vista dos elevados custos de transporte e comunicação, as economias nacionais eram relativamente fechadas, uma vez que gozavam de elevada proteção natural. Nesse quadro de baixa integração internacional, as dotações de fatores poderiam ser importantes porque, com as dificuldades de comércio, os países não poderiam contar com muito mais do que os recursos produtivos domesticamente disponíveis. Do pós-guerra em diante, a problemática do desenvolvimento passa a incorporar a noção da competitividade. Diferentemente da produtividade, a competitividade depende de fatores naturais, mas também e crescentemente de fatores construídos. Mais ainda, ela vai além dos preços e pode ser resultado de elementos não-preço, como capacidade de projeto, qualidade, marketing ou diferenciação de produtos. Tudo isso abre espaço para que o desenvolvimento se torne cada vez mais dependente da capacidade de investimento na construção de externalidades produtivas como a infra-estrutura física, o sistema educacional e de formação de mão-de-obra, etc. Mais recentemente, em especial após a reestruturação da economia mundial ocorrida nos anos 80, a variável-chave do desenvolvimento econômico passou a ser a inovação. Diferentemente da produtividade e da competitividade, a inovação é totalmente construída, dependente que é da existência de instituições organizadoras de um sistema nacional de inovação. Daí a crescente necessidade de políticas nacionais eficazes para superar as dificuldades provocadas pela deficiência de informação, insuficiência dos mercados de capitais, fragilidade das instituições de suporte e outras desvantagens estruturais.
É por essa razão que quando a CCD buscou identificar os elementos capazes de transformar uma fase inicial de aceleração do crescimento em uma efetiva dinâmica de desenvolvimento, isto é, em crescimento alto, sustentável e inclusivo, encontrou na diversificação estrutural e na rápida criação de empregos – enfim, num processo progressivo de mudança estrutural permanente – a chave para essa transição. Isso nada mais é do que restabelecer as idéias básicas, por exemplo, de Hollis B. Chenery, para quem "crescimento econômico sustentado requer uma transformação da estrutura produtiva compatível, simultaneamente, com a evolução do mercado interno e as oportunidades no comércio internacional" ou de tantos outros economistas do desenvolvimento dos anos 60 ou 70, que produziram um rico acervo de conhecimentos que o próprio Banco Mundial tratou de deixar em hibernação por tantos e tão longos anos.
Por isso, se colocado em perspectiva, tamanho holofote sobre a CCD não pode ser entendido como reflexo do brilho de suas proposições, mas sim como uma caixa de ressonância do problema que levou à sua criação. É óbvio, discutir crescimento e desenvolvimento somente faz sentido quando se entende que os dois temas correspondem a categorias distintas, que não estão automaticamente correlacionadas. O relatório da CCD expressa, ainda que tarde, o reconhecimento pelo status quo de que desenvolvimento é um objetivo em si e assim deve ser encarado pelas nações.

 

 

Global Economic Prospects

Technology Diffusion in the Developing World – 2008

The role of technology in development 53

 

Tem um sobre qualidade de educação e crescimento econômico no skidrive….

16 de junho de 2008

CRISE ALIMENTOS (FALTA e PREÇOS) – V

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:31 PM
 
 
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COMÉRCIO INTERNACIONAL 10jun2008

Calendário agrícola "conspira" contra Rodada de Doha

A crise dos preços dos alimentos e a aprovação da lei agrícola no congresso dos Estados Unidos complicam negociações para um novo acordo comercial internacional. Para G20, grupo integrado pelas principais nações em desenvolvimento, nova lei agrícola dos EUA representa um retrocesso.

Gustavo Capdevila (IPS )

GENEBRA – Sem chegar à crise do setor de produtos industriais, as negociações agrícolas na Organização Mundial do Comércio também enfrentam dificuldades consideráveis para alcançar os acordos de liberalização pretendidos pela Rodada de Doha. “No momento, não creio que a suspensão das negociações na área de produtos industriais ocasione alguma mudança na agricultura”, disse à IPS Crawford Falconer, presidente do comitê que discute a abertura do comércio agrícola na rodada convocada pela OMC. “Mas, veremos nos próximos dias se tem influência em algumas das delegações”, acrescentou.

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CRISE ESTRUTURAL – 05-06-2008

Alimentação: América Latina e os 13 vilões

Um estudo do Sistema Econômico Latino-americano e do Caribe (Sela) identificou 13 razões, estruturais e conjunturais e que estão relacionadas tanto com a oferta quanto com a demanda de alimentos. A primeira é o aumento do investimento financeiro em commodities. Outro fator está relacionado às políticas protecionistas.

Humberto Márquez (IPS)

CARACAS – Os vilões da história do encarecimento dos alimentos são 13 e passam por razões estruturais e conjunturais, associadas à oferta e à demanda, segundo o Sistema Econômico Latino-americano e do Caribe. Para enfrentá-los, a cooperação regional é imprescindível. “É preciso atuar em diferentes frentes, a partir de uma coordenação política que defenda os interesses regionais”, disse à IPS o secretário permanente do Sela, o mexicano José Rivera, às portas de uma reunião regional que diagnosticou o problema.

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LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL – 29-05-2008

Como fabricar uma crise global

Como foi que os mexicanos, que vivem na terra onde o milho foi domesticado, chegaram a depender do grão produzido nos EUA? Como foi que as Filipinas, que exportavam arroz, passaram a ser o maior importador mundial deste produto? Como no México, os agricultores filipinos perderam o apoio do Estado e descobriram os "encantos" da liberalização comercial. A análise é de Walden Bello.

Walden Bello – La Jornada

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PARADOXO GLOBAL – 27mai2008

Pobreza: Mal que cresce em abudância

A produção mundial nunca foi tão extraordinária: no ano passado chegou à marca dos US$ 50 bilhões. Paradoxalmente, a pobreza mundial está aumentando. Quase um bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, e 800 milhões vão para a cama todas as noites com fome.

Thalif Deen, da IPS

HIROXIMA – A pobreza mundial aumenta, paradoxalmente, em um dos momentos mais prósperos da história da humanidade. Kul Chandra Gautam, ex-assistente do secretário-geral da Organização das Nações Unidas e vice-diretor-executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) disse que a produção mundial nunca foi tão extraordinária: no ano passado chegou à marca dos US$ 50 bilhões. Neste tempo de prosperidade global sem precedentes, na qual alguém se converte em milionário a cada dois dais, “temos uma situação contrastante em que quase um bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, e 800 milhões vão para a cama todas as noites com fome”, acrescentou.

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ABERTURA COMERCIAL   16mai2008

Alimentação: Crise, outro sintoma da liberalização

A crise provocada pela alta no preço dos alimentos não deveria surpreender ninguém. Trata-se apenas da mais recente de uma série de conseqüências da abertura das fronteiras praticada por muitos países em desenvolvimento, como parte de acordos com o FMI e o Banco Mundial.

Aileen Kwa (IPS)

GENEBRA – O encarecimento dos alimentos desatou distúrbios em muitos países do Sul, da Indonésia a Camarões, da Índia à Costa do Marfim, de Bangladesh ao Haiti. Mas, isso não deveria surpreender ninguém. Trata-se apenas da mais recente de uma série de conseqüências da abertura das fronteiras praticada por muitos países em desenvolvimento, como parte de acordos com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, medidas de ajuste estrutural que acabaram prejudicando o setor agrícola e minando sua capacidade de produzir alimento.

5 de junho de 2008

CRISE ALIMENTOS (FALTA e PREÇOS) – IV

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:22 AM
 
 
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12/06/2008
Rixas entre a agricultura orgânica e industrializada não vão alimentar o mundo


John Gapper

Antigas disputas muitas vezes se acalmam por um tempo, mas basta um incidente para fazê-las se acender de novo. É o que ocorre com a discussão entre expoentes da agricultura orgânica e os que preferem a agricultura industrializada, de alta tecnologia.

A última provocação é a crise de alimentos global, que fez os preços de produtos como milho e arroz aumentarem acentuadamente: os consumidores dos países desenvolvidos sentiram a pressão nos supermercados e milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento enfrentam a fome.

O rápido aumento da demanda por alimentos é a principal causa da espiral de preços. Os biocombustíveis começaram a competir com a indústria alimentar por recursos como cana-de-açúcar e milho e, na China e na Ásia, está surgindo uma classe média emergente que quer carne de animais alimentados com cereais.

O consenso é que o mundo deve reforçar a produção agrícola para suprir a demanda maior. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu na semana passada em uma reunião da organização em Roma um aumento de 50% na produção global de alimentos até 2030.

Aí termina o consenso. Esta semana a empresa de sementes americanas Monsanto, que se tornou a besta-fera dos ambientalistas europeus na década de 1990 ao promover as sementes geneticamente modificadas (GM), fez sugestões para superar a lacuna de produção. Ela quer que países como Brasil e México aumentem suas produções com métodos de alta intensidade.

A visão da Monsanto -e dos EUA- é que a agricultura no estilo americano deve se espalhar pela América Latina e a Ásia (mesmo que a África continue sendo um caso especial). Os agricultores desses lugares devem usar as sementes híbridas de alto rendimento compradas da Monsanto ou de concorrentes como a Syngenta, alimentá-las com fertilizantes e água, protegê-las com produtos químicos e extrair mais de suas terras.

A Monsanto prefere que os agricultores comprem sementes geneticamente modificadas mais caras, que resistem a insetos e exigem menos substâncias químicas. Mas até a abordagem européia -a proibição das sementes GM com adoção de outras práticas agrícolas de alta intensidade- já ajudaria, ela afirma.

"Nós somos uma parte da solução. As sementes são o ponto de partida", diz o escocês Hugh Grant, executivo-chefe da Monsanto, que está tentando reabilitar sua imagem global. Grant prometeu desenvolver sementes que duplicarão as produções de milho, soja e algodão até 2030 e exigem 30% menos água e outros insumos para crescer.

A Monsanto conquistou alguns amigos entre organizações não-governamentais, mas ainda tem muitos críticos. A Greenpeace e a Friends of the Earth dizem que "o velho paradigma da agricultura industrial, com alto uso de energia e tóxicos é um conceito do passado". Elas vêem mais esperança na agricultura de pequenos agricultores usando sementes tradicionais e menos água e substâncias químicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Visite o site do Financial Times

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Oxfam Press Release03 June 2008

Oxfam calls for radical change of approach to address food price crisis

leaders must urgently agree a coordinated global action plan to address the food price crisis, said international agency Oxfam today in a report published ahead of an emergency UN Food Summit in Rome. The plan must include short and long-term responses and go beyond humanitarian aid.

Read the report: The Time is Now: how world leaders should respond to the food price crisis

“In countries where Oxfam works, we are seeing the negative impact of higher food prices on poor people, who already spend more than half their income on food,” said CEO of Oxfam GB, Barbara Stocking. “This is a huge challenge to the leadership and legitimacy of the world’s multilateral institutions, but also a genuine opportunity for long-overdue reforms.”

Oxfam estimates that an extra $14.5bn is needed to scale up immediate assistance to at least 290 million people threatened by rising food prices. This amount is small when contrasted with the more than $1 trillion the US Federal Reserve and European Central Bank have injected into the financial system in the past six months to try to avert economic crisis.

Similarly, annual aid to agriculture, which currently stands at $4bn, is pittance compared to the $125bn that rich countries gave their farmers in 2006. Lack of investment is acknowledged as a cause of food insecurity, and yet aid to agriculture halved between 1980 and 2005. Increased support is essential to address chronic rural poverty and low yields, and help smallholders benefit from higher prices.

Oxfam’s report says that the response must go beyond top down humanitarian aid. Governments in poor countries should be supported to implement social protection schemes to help the poorest, such as minimum income guarantees, free seeds and fertilizers for poor farmers, and reduced VAT on food.

Longer-term, political changes are also needed. A priority is the urgent review of compulsory biofuels targets in rich countries to stop their inflationary impact. Recent estimates suggest that increased demand for biofuels accounts for 30 per cent of recent food price rises, while mounting scientific evidence shows biofuels are having an overall negative impact on climate change. 

The crisis should also spur reform of the food aid system, with more aid being given as cash or purchased locally, rather than shipped from overseas. The OECD has estimated that an extra $750m a year could be released if rich countries gave food aid as cash rather than in kind.

Completing a global free trade deal along current lines would not help the situation. Developing countries need to be able to respond to shocks, but existing proposals at the WTO would instead lock in liberalisation, removing flexibility and further exposing poor countries to market volatility. Stocking: “An unprecedented level of coordination is required across agencies, governments and the private sector to address this crisis. The vast amount of money spent on averting the financial crisis shows what is possible when there is political will. The cost of failure will not just be measured in lost lives and human suffering, but also in lost credibility.”

Contact

For more information contact:
In Rome: Alexander Woollcombe on +32 473562260, alexander.woollcombe@oxfaminternational.org In the UK: Amy Barry or Tricia O’Rourke on +44 (0) 1865 472498
Notes to Editors
• Oxfam will have a team of experts in Rome available for interviews, including CEO Barbara Stocking. A photo stunt will be staged on 2 June outside the FAO. Contact: Alexander Woollcombe

*The 290m people estimated to be at risk are the poorest people in the 53 most affected countries – the 49 Least Developed Countries, and Tajikistan, Zimbabwe, Occupied Palestinian Territories and Kenya. The figure of $14.5bn is based on these people requiring an average of $50 per capita in 2008. The $50 required is an estimate based on Oxfam’s experience and studies around the world of what people need to so they have enough to eat.

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Hindering the hungry
Rich nations may not have caused the food crisis, but their policies add to the suffering of the poor and starving

Strange things are happening in Rome. The head of the World Bank Robert Zoellick is here talking about the importance of helping small farmers in developing countries (forgetting to mention that his organisation has helped to put a lot of them out of business over the last 20 years) and the world’s leaders and media are suddenly fascinated by the UN Food and Agriculture Organisation (FAO).

It’s impossible to get a seat in the press room. Frustrated people tap grumpily on BlackBerrys while overwhelmed FAO staff attempt to fix the only photocopier. The last time they had a summit like this no one noticed or cared. This time the eyes of the world are on those gathered across the road from the ruins of ancient Rome.

There’s a food crisis and everybody’s trying to figure out what to do about it.

NGOs like Oxfam, along with international organisations like the FAO, have been talking about the importance of agriculture for development, fair trade and agriculture policies for years but few paid much attention. It doesn’t feel good to say "I told you so", but it’s a relief that at last people seem to be listening.

It makes me angry though. This didn’t need to happen. Rich countries spent $372bn in 2006 alone to support their agriculture. The EU’s common agricultural policy (Cap) and the US farm bill have contributed to the situation we’re in. If we in rich countries subsidise then dump our food on developing countries while forcing them to open their markets it’s always going to end in tears.

Haiti used to produce most of the rice that its population ate. Then, in 1995, the World Bank and IMF made it open its markets to cheap imports and the country was flooded with cheap rice from the US. Now it import 80% of its rice. When prices rocket, as they’re doing now, and poor people spend 50-80% of their income on food, it doesn’t take a genius to work out what will happen.

Haiti has seen some of the worst food riots in recent months. More than half the population is malnourished while an estimated 830,000 jobs have been lost in recent years, primarily in agriculture.

Haiti’s problems were not caused by bad international trade or agriculture policies, but they have made them worse. If leaders such as Sarkozy, Fukuda, Zapatero and Berlusconi, as well as the US agriculture secretary Ed Shafer and UK international development secretary Douglas Alexander, who have all made speeches here today, are serious about helping developing countries, they must realise that business as usual or vague promises of new money that never comes won’t be not enough.

It’s a complex problem and some of the causes are difficult for politicians to address. More people in China and India can now afford yoghurt and chicken so these goods cost more. Not much we can do about that. Other problems we can change.

Rich countries could get rid of biofuels policies which everyone apart from them and their farm lobbies realise are contributing to food price rises. Subsidies for biofuels worth $11-12bn in 2006 were used to divert 100m tonnes of cereals from human consumption according to FAO officials. The EU says biofuels will help tackle climate change — erratic weather being another important factor in the food crisis — but their own research department admitted in a secret report that most biofuels actually produce more carbon than they save. Rich governments need to spend their money better.

Aid is not the whole answer, but it is an important part of it. A third of maize in Ethiopia rots where it grows because there aren’t the roads or infrastructure to get it to market. The world is growing enough food to feed itself but poor people can’t afford it nor can they get what they grow to where it needs to be. At the moment high food prices are hurting poor people but if the world really wanted to it could help them benefit from higher prices. It’s not a coincidence that Africa’s producing less of it’s own food when aid to agriculture has halved since 1980. Even though anyone who has ever been to a developing country would tell you most poor people are farmers, policymakers seem to have forgotten this.

I’ll never forget an EU Trade official explaining to me that the EU’s proposed free trade deals with many of the world’s poorest countries (known as economic partnership agreements) would allow accountants from Burkina Faso to work in Mali. "Aren’t there more farmers than accountants in Burkina Faso?" I asked him. "Yes," he answered, "but we don’t have a common accountancy policy". Privately he said he agreed with me but that the EU wouldn’t give up the Cap come hell or high water.

This week in Rome we’re not quite in hell yet, though high water might not far away as the summer rain soaks everyone queuing to get in. "The international community only reacts when the media beam the distressing spectacle of world suffering into the homes of the wealthy countries", said the head of the FAO, Jacques Diouf, yesterday morning.

It’s on your computer, radio and TV screens right now. The FAO estimates we need $30bn a year to enable 862 million hungry people to enjoy the most fundamental of human rights: the right to food and thus the right to life. The US Federal Reserve and European Central Bank have injected more than $1tn into the financial system in the past 6 months to try to avert economic crisis. Speculators have a lot to answer for. When banks take on dodgy mortgages and ask for help, governments respond instantly. When millions of people are needlessly suffering through no fault of their own, too often promises are made and forgotten about. They deserve more. So we wait in Rome to find out if the action we need will come. If not now, when?

We are reaping the whirlwind of past mistakes. It’s going to take more money and humanitarian aid for those suffering now as well as longer-term support, but it’s also going to need a fresh look at trade and agriculture policies that have contributed to the current mess.

This isn’t a natural disaster, it was depressingly predictable and we need to make sure it doesn’t happen again. The cost of failure is too high.

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Quinta-feira, Agosto 23, 2007

"Agflação" / "Agflation"

"Agflação" é a nova entrada para o jargão da economia. Trata-se da inflação dos preços de bens agrícolas. Há gerações que não se viam aumentos de preços desta magnitude nos mercados internacionais.
O preço dos cereais, lacticínios (o leite aumentou quase 60% nos mercados internacionais no último ano), carne, etc., têm registado aumentos significativos (aumentos percentuais de dois dígitos), segundo noticia o "The Independent", com o título "The fight for the world’s food":
«[…]for the first time in generations agricultural commodity prices are surging with what analysts warn will be unpredictable consequences.»
«Rice prices are climbing worldwide. Butter prices in Europe have spiked by 40 per cent in the past year. Wheat futures are trading at their highest level for a decade. Global soybean prices have risen by a half. Pork prices in China are up 20 per cent on last year and the food price index in India was up by 11 per cent year on year . In Mexico there have been riots in response to a 60 per cent rise in the cost of tortillas.»
Podemos estar a sair da era da alimentação barata, à semelhança do fim da era do combustível barato. Aliás, existe uma relação entre os dois fenómenos. Parte deste aumento nos preços dos bens alimentares está relacionado com a explosão da procura por biocombustíveis, nomeadamente os produzidos a partir do milho, conflituando assim com a sua utilização na produção de alimentos. A maior parte do milho é utilizado como ração para animais de modo que os preços do leite, ovos, manteiga, queijo, carne, gelados, etc. são influenciados pelo preço do milho.
«While relatively little corn is eaten directly it is of pivotal importance to the food economy as so much of it is consumed indirectly. The milk, eggs, cheese, butter, chicken, beef, ice cream and yoghurt in the average fridge is all produced using corn and the price of every one of these is influenced by the price of corn.»
Outra razão para este aumento dos preços é o aumento da procura por parte de países em franco desenvolvimento económico como a China, a Índia, a Rússia, etc. Factores de ordem cultural, como por exemplo, a adopção de dietas alimentares mais "ocidentalizadas", fruto da expansão da grande indústria alimentar para países como a China, terão também o seu peso.
Este aumento de preços dos produtos agrícolas, ao contrário do que possa parecer, pode trazer benefícios para os países mais pobres, embora estas consequências não sejam automáticas e exijam alguma cautela nas análises, dada a complexidade e variedade das situações.
De modo que aqui as opiniões divergem. Por exemplo, Jean Ziegler, relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação teceu fortes críticas aos governos europeus e americano pela sua aposta nos biocombustíveis, acusando-os de condenar à fome centenas de milhares de pessoas.
Frei Betto, frade dominicano brasileiro, fala em necrocombustíveis, necro (que significa morte) por oposição a bio.
Lester Brown, do Earth Policy Institute, afirmou perante o Congresso Americano que o cenário estava montado para uma competição directa entre os 800 milhões de pessoas que têm automóvel e os 2 mil milhões dos mais pobres do mundo.

"The stage is now set for direct competition for grain between the 800 million people who own automobiles, and the world’s 2 billion poorest people."

«Anger boiled over this week as Jean Ziegler, the UN special rapporteur on the right to food, accused the US and EU of "total hypocrisy" for promoting ethanol production in order to reduce their dependence on imported oil. He said producing ethanol instead of food would condemn hundreds of thousands of people to death from hunger.»

No entanto, os enormes excedentes agrícolas, gerados pela Política Agrícola Comum europeia e pelos apoios governamentais aos agricultores norte-americanos, foram lançados nos mercados internacionais durante décadas a preços muito reduzidos provocando a ruína dos agricultores de inúmeros países cuja principal fonte de rendimento era a agricultura.

Preços mais elevados poderão contribuir para refazer muitas dessas economias. É uma das conclusões do estudo do WorldWatch Institute, intitulado Biofuels for Transport: Global Potential and Implications for Energy and Agriculture.

Acresce a tudo isto os desafios sobre a produção alimentar que as Alterações Climáticas virão trazer. Segundo a FAO, é provável o aumento do risco de fomes.

As mais recentes tendências da produção alimentar global também lançam alguns alertas, embora alguns não prevejam problemas de maior num horizonte mais ou menos alargado: World food trends and prospects to 2025.

Claro que numa perspectiva tecnocrática bem intencionada tudo poderia correr pelo melhor se a vontade política fosse esclarecida, se a cooperação internacional funcionasse na perfeição, se a corrupção e a ganância não existissem e se a informação/formação dos consumidores fosse perfeita em todos os cantos do mundo. São muitos ses!
Será nesta perspectiva mais ou menos tecnocrática, creio eu, que se poderá incluir este relatório da FAO, "Environment and agriculture".
Nele se analisa a urgência de conciliar as necessidades crescentes por alimentos da Humanidade (que se projecta venha a crescer 50% até 2050) com a preservação da biodiversidade e ainda com a pressão exercida sobre estes dois objectivos resultante da procura crescente por biocombustíveis. Segundo a própria FAO, são "trade-offs"/equilíbrios muito difíceis. De modo que talvez fosse mais sensato admitirmos que algo tem de mudar no "business-as-usual".

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CÚPULA DA FOME

nada propõe contra "situação dramática"

Reunião com 40 líderes mundiais em Roma termina com resolução aguada

Biocombustíveis não são condenados, mas posição de Lula de que produto pode alavancar países pobres também não é acolhida

CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A ROMA – Folha de São Paulo, 06ju2008

Jacques Diouf, o diretor-geral da FAO, braço da ONU para Alimentação e Agricultura, havia dito, ao inaugurar na terça-feira a Cúpula sobre Segurança Alimentar, que havia passado o tempo das palavras e era hora da ação.
Dois dias depois, a cúpula termina sem ação alguma e quase sem palavras, porque o comunicado final foi sucessivamente adiado, para sair só no início da noite romana, em termos tão aguados que o chanceler italiano, Franco Frattini, reconheceu que o texto "é decepcionante". Emendou Frattini: "Se os líderes mundiais não conseguem pôr-se de acordo ao menos para evitar os danos de uma situação dramática de emergência alimentar, isso me preocupa".
A emergência já havia sido quantificada por Diouf no discurso inaugural, ao lembrar que há 832 milhões de pessoas passando fome. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, ampliou a dimensão da emergência ao dizer que a disparada dos preços da alimentação colocava 2 bilhões de pessoas em "perigo imediato". Muitos países já enfrentam protestos populares por causa da alta dos alimentos.
Três dias de debates e de discursos, com a participação de cerca de 40 governantes, nada produziram, a não ser anúncios de verbas de emergência até agora no valor de US$ 3 bilhões, quando Diouf havia dito que seriam necessários US$ 30 bilhões por ano para criar uma situação de segurança alimentar.
O pior é que os delegados se envolveram em discussões absolutamente bizantinas, em torno de um documento que já nasceu aguado por causa das divergências de todos os tipos. Das divergências, passou-se à fofocas sem sentido, que retardaram a divulgação do texto por mais de quatro horas.
Uma das fofocas envolveu o Brasil. Delegados europeus disseram aos jornalistas que o Brasil vetava trecho da declaração que considerava crítico aos biocombustíveis, a principal bandeira internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Qual era a suposta crítica? Dizer que "é essencial enfrentar os desafios e oportunidades colocados pelos biocombustíveis em vista das necessidades mundiais de energia, segurança alimentar e ambiental". Ao falar em "segurança alimentar", o trecho insinuaria que os biocombustíveis são deletérios para ela, no pressuposto de que os plantios para obtê-los invadiriam áreas destinados à culturas para a alimentação.
A acusação é falsa pela simples e boa razão de que nenhum governo pode se dizer contra a segurança alimentar e ambiental e recusar-se a assinar um documento que as defenda.
No caso do Brasil, Lula, em seu discurso na cúpula, deu todas as informações necessárias para demonstrar que o etanol da cana-de-açúcar não interfere no plantio de alimentos -e tampouco na devastação ambiental da Amazônia.
O texto final da cúpula, tal como a Folha já havia adiantado desde o princípio dela, não toma partido sobre biocombustíveis. Joga qualquer definição mais concreta para "estudos em profundidade" e um "diálogo internacional".
Uma segunda polêmica era igualmente sem sentido. O rascunho pedia aos países-membros que se abstivessem de medidas unilaterais e contrárias às leis internacionais.
Os EUA, pela versão que chegou aos jornalistas, entenderam que se tratava de condenar o bloqueio à Cuba, que já dura mais de meio século. De novo, nenhum país pode defender medidas contrárias às leis internacionais, mesmo quando eventualmente as apliquem.
Tudo somado, ficou de concreto o óbvio: um pedido para "ação coordenada e urgente para combater os impactos negativos dos crescentes preços de alimentos sobre os países e populações mais vulneráveis" e a cobrança de mais investimentos na agricultura, além da ajuda imediata para os famintos.
Muito menos do que prometia o longo título do encontro: "Conferência de Alto Nível sobre Segurança Alimentar Mundial – os Desafios da Mudança Climática e da Bioenergia".

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Roma frustra "revolução" de Lula

DO ENVIADO ESPECIAL A ROMA – Folha de São Paulo, 06jun2008

Para quem, como o presidente Lula, vê nos biocombustíveis o elemento-chave para uma "revolução" não só na matriz energética mundial mas também no desenvolvimento dos países mais pobres (África, Caribe e América Central), a cúpula de Roma só pode ser uma tremenda frustração.
O encontro não produziu nada que ajudasse a empurrar seu projeto. Não condenou o etanol, é verdade, mas só mesmo desinformação e/ou má-fé poderiam estimular especulações nesse sentido. Com os EUA, a maior potência do planeta, e o Brasil, um dos grandes emergentes, produzindo 80% do etanol mundial, não passa pela cabeça de ninguém sério que o biocombustível possa ser condenado num foro global.
Até o foi, mas na cúpula paralela, das Organizações Não-Governamentais, cada vez menos ouvidas nas discussões globais. A anódina declaração de Roma não impedirá o Brasil de produzir etanol, mas embaça o projeto de transformá-lo em "instrumento importante para gerar renda e retirar países da insegurança alimentar e energética", como disse Lula no seu apaixonado discurso em Roma.
Disse ainda que "cerca de cem países têm vocação natural para produzir biocombustíveis de forma sustentável". Para que transformem essa vocação em fatos, precisariam de uma combinação de tecnologia e recursos financeiros. Tecnologia, o Brasil tem e é considerada a melhor do mundo. Já recursos financeiros dependem dos países ricos. E é óbvio que eles não porão dinheiro em um instrumento que não consegue um selo internacional de qualidade definitivo, seja por contrariar os interesses de quem tem "os dedos sujos de óleo e carvão", como acusou Lula, seja por outros interesses comerciais.
A batalha de Lula vai agora ao Japão. Na reunião de Hokkaido, em julho, o G8 (oito países mais industrializados) e grandes emergentes como o Brasil discutirão de novo os temas que, em Roma, não conseguiram sair do estágio de "papers" preparatórios. A comunidade internacional no seu conjunto, representada na FAO, ficou paralisada. Resta ver se o "diretório do mundo", como chegou a ser chamado o G8, consegue decidir. (CR)

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06/06/2008
Cúpula da FAO em Roma: conferência termina com pedido de "ação urgente"
Andrew Martin
Em Roma

Uma conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) de três dias sobre a disparada dos custos dos alimentos terminou na quinta-feira
(05/06) com os delegados pedindo a países e instituições financeiras que garantam suprimentos adequados de comida no futuro.
A declaração final, concluída na quinta-feira, pede "ação urgente e coordenada" para fazer frente ao aumento da produção alimentar, aos problemas associados à alta dos preços alimentos, à redução das barreiras tarifárias e ao incremento da pesquisa no setor agrícola.
A declaração procurou evitar a questão dos biocombustíveis, que emergiu como o assunto mais contencioso da conferência.

CÚPULA DA FAO EM ROMA

Crianças aguardam para receber um prato de comida em mercado de Manágua, na Nicarágua
PEDIDO DE ‘AÇÃO URGENTE’

COMÉRCIO GLOBAL E CRISE

MERCADO E PATERNALISMO

BIOCOMBUSTÍVEIS: IMPASSE

LULA DEFENDE ETANOL

FAO COMENTA IDÉIA DE LULA

OBESOS E FAMINTOS

Alguns países em desenvolvimento solicitaram que as culturas originalmente destinadas à alimentação não sejam utilizadas para a produção de combustíveis, mas a declaração limitou-se a apelar para que se realizem mais pesquisas sobre o assunto.

O documento também não mencionou a biotecnologia, apesar dos argumentos das autoridades dos Estados Unidos de que as culturas geneticamente modificadas são cruciais para aumentar as safras em todo o mundo. Em vez disso, a declaração sugeriu um maior investimento em "ciência e tecnologia para alimentos e agricultura".

A aprovação do documento foi adiada devido a objeções de alguns países latino-americanos, incluindo Argentina e Cuba. Esses países argumentaram que a declaração não criticou as nações ricas pela adoção de políticas que eles acreditam ter contribuído para a crise dos alimentos, como os subsídios agrícolas e o incentivo aos biocombustíveis.

Outros delegados mostraram-se céticos quanto à possibilidade de que qualquer fato significativo emergisse dos três dias de conferência e de discursos contínuos, incluindo aqueles proferidos pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, e pelo primeiro-ministro de Saint Kitts and Nevis, Denzil L. Douglas.

"Tais reuniões internacionais costumam terminar com declarações e compromissos grandiosos, que, infelizmente, não são cumpridos e nem entram em fase de implementação", diz Mary Chinery-Hesse, assessora do presidente de Gana, John Agyekum Kufuor. "A crise de alimentos enfrentada hoje pelo mundo é tão séria que, caso as conclusões deste encontro sejam também relegadas ao esquecimento, as conseqüências serão desastrosas para a humanidade".

Mesmo assim, Lennart Bage, presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola, instituição que faz parte da ONU, afirma que a conferência foi um sucesso, até porque ela focalizou a atenção mundial nas necessidades da agricultura. "Creio que existe um ímpeto único, que não se via há 25 anos", diz ele. "Quando foi que vimos chefes de Estado reunindo-se para falar sobre sementes e fertilizantes?"
Jacques Diouf, anfitrião da conferência e secretário geral da Organização para Agricultura e Alimentação da ONU (FAO), afirma que os resultados da conferência excederam as expectativas, ainda que algumas das questões mais espinhosas não tenham sido resolvidas. "Nós abordamos corretamente o problema da fome no mundo", diz ele. "Somente juntos podemos enfrentá-lo".
A conferência tinha sido originalmente agendada para a discussão do aquecimento global e dos biocombustíveis. Mas o foco voltou-se para os custos dos alimentos, que atingiram o seu maior valor real em três décadas, o que provocou rebeliões populares e fome em alguns dos países mais pobres do mundo.
Desde o início, os organizadores da conferência pediram aos países afluentes, em linguagem incomumente áspera, que fornecessem dinheiro para ajudar as populações pobres do mundo e que fortalecessem as pesquisas agrícolas. Os organizadores do evento também solicitaram aos governos das nações ricas que reformulassem ou descartassem políticas que, segundo eles, contribuíram para o problema, como os incentivos aos biocombustíveis, as restrições às exportações e os subsídios aos fazendeiros ricos.
Os Estados Unidos foram um alvo freqüente de críticas, e o secretário norte-americano da Agricultura, Ed Schafer, teve que ouvir muitas palavras duras. Muitas dessas críticas disseram respeito aos biocombustíveis, que, segundo Schafer, desempenham um papel menor na questão do aumento dos preços dos alimentos.
As autoridades da ONU calculam que a resolução do problema mundial dos alimentos custará entre US$ 15 bilhões e US$ 30 bilhões anualmente.
No final da quinta-feira, as promessas financeiras totalizavam vários bilhões de dólares, distribuídos por vários anos, mas não houve nenhuma grande concessão política por parte dos participantes da conferência.
Vários grupos que representam os pequenos agricultores reclamaram de que não tiveram muita chance de participar, ainda que os chefes de Estado tivessem discutido programas para ajudá-los.
"Estas crises graves e urgentes dos alimentos e do clima estão sendo usadas pelas elites políticas e econômicas como oportunidades para consolidar o controle corporativo sobre a agricultura e o patrimônio ecológico mundiais", acusou em uma declaração a organização La Via Campesina, formada por agricultores, povos indígenas e fazendeiros.
Donald Kaberuka, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, afirma que a crise mundial de alimentos ameaça os pobres da África, mas ao mesmo tempo constitui-se em uma oportunidade para reverter o rumo da agricultura no continente, onde a produção agrícola encontra-se estagnada há décadas.
"O desafio agora será a implementação das soluções", afirma Kaberuka.

Tradução:

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The Global Crisis: Food, Water and Fuel. Three Fundamental Necessities of Life in Jeopardy
By Michel Chossudovsky
Global Research, June 5, 2008
The sugar coated bullets of the "free market" are killing our children. The act to kill is unpremeditated. It is instrumented in a detached fashion through computer program trading on the New York and Chicago mercantile exchanges, where the global prices of rice, wheat and corn are decided upon.
We are at the crossroads of the most serious economic and social crisis in modern history. The process of global impoverishment unleashed at the outset of the 1980s debt crisis has reached a major turning point, leading to the simultaneous outbreak of famines in all major regions of the developing World.

There are many complex features underlying the global economic crisis pertaining to financial markets, the decline in production, the collapse of State institutions and the rapid development of a profit-driven war economy. What is rarely mentioned in this analysis, is how this global economic restructuring forcibly impinges on three fundamental necessities of life: food, water and fuel. 

The provision of food, water and fuel is a precondition of civilized society: they are necessary factors for the survival of the human species. In recent years, the prices of these three variables has increased dramatically at the global level, with devastating economic and social consequences. 

These three essential goods or commodities, which in a real sense determine the reproduction of economic and social life on planet earth, are under the control of a small number of global corporations and financial institutions.

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05/06/2008
Cúpula da FAO em Roma: comércio gela o encontro
Para ONGs, solução do problema da fome é priorizar alimentação, mais que os negócios

Miguel Mora
Em Roma

Os países ricos, principalmente Europa e EUA, dedicaram US$ 125 bilhões no ano de 2006 para subsidiar seus agricultores, lembrou na quarta-feira a organização Oxfam na cúpula da FAO que termina nesta quinta-feira (5) em Roma. Em troca, a ajuda internacional para a agricultura não passa de US$ 4 bilhões anuais.

Os subsídios estatais do primeiro mundo impedem os países mais pobres de desenvolver seus mercados agrícolas, exportar, competir em igualdade de condições. O que, por sua vez, os impede de crescer, aumentar a produção, investir em novas infra-estruturas. A agricultura se transformou em um comércio disfarçado, e esse comércio estrangulou cada vez mais pessoas no planeta. A Suécia lembrou na quarta-feira que só se os subsídios agrícolas forem eliminados ou reduzidos, e se abrir "de maneira generosa" o acesso de todos aos mercados, os países em desenvolvimento poderão ampliar sua produção para evitar a fome de suas populações. Para tanto, como lembrou o ministro sueco, é preciso completar a famosa Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).

CÚPULA DA FAO EM ROMA

Crianças aguardam para receber um prato de comida em mercado de Manágua, na Nicarágua
COMÉRCIO GLOBAL E CRISE

MERCADO E PATERNALISMO

BIOCOMBUSTÍVEIS: IMPASSE

LULA DEFENDE ETANOL

FAO COMENTA IDÉIA DE LULA

OBESOS E FAMINTOS

Mas ninguém tem grande esperança em que os países protecionistas dêem o braço a torcer. A Oxfam acredita que um acordo global de livre comércio por si só não ajudaria a resolver a crise, porque se forem aprovadas as propostas já ouvidas na OMC "os países pobres ficariam expostos à volatilidade do mercado". Outros pensam que, por não ter a possibilidade de desbloquear uma situação que está bloqueada há anos, a cúpula de Roma está destinada a ficar mais uma vez na retórica e nas boas intenções. Aparecem alguns sinais positivos, como a iniciativa lançada na quarta-feira por Kofi Annan para a Revolução Verde na África, que busca aumentar a produção e a produtividade no continente, mas a divisão na hora de propor soluções é a norma.

Países sensatos como a Noruega indicam que não haverá nada a fazer se os agricultores africanos não conseguirem colocar seus produtos em um "mercado funcional". Mas esse mercado mundial, segundo as ONGs mais militantes, é uma ilusão. Ninguém sabe para que serve realmente, exceto para manter a ordem econômica, enriquecer um punhado de corporações e aumentar o número de pessoas que passam fome. Especulação, nacionalismo, subsídios, tarifas alfandegárias, distorção de preços e barreiras à exportação -são palavras que foram muito escutadas em Roma nestes dias. Mas ninguém tem uma resposta clara.

Henar Senovilla, que coordena a campanha "Direito à Alimentação. Urgente", lembra que "três em cada quatro pessoas que passam fome são pequenos agricultores, camponeses sem-terra, pescadores artesanais ou pastores, pessoas que vivem no e do meio rural". E conclui que a única solução para a fome é "a volta a uma agricultura sustentável social, econômica, política e ambientalmente, destinada à alimentação e não ao comércio".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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05/06/2008
Cúpula da FAO em Roma: "não podemos matar a fome com mercados fechados e paternalismo"

Miguel Mora
Em Roma

O Programa Mundial de Alimentos é a agência da ONU que se encarrega de distribuir comida e apoiar o desenvolvimento dos países em perigo. A americana Josette Sheeran está há um ano à frente do organismo, e nesse período viu o copo de plástico que leva no bolso reduzir sua capacidade quase pela metade: "Há um ano, encher este copo de arroz custava 40% menos que hoje. Vivemos uma crise devastadora", explica Sheeran. Leia abaixo a entrevista.

El País – Qual é seu diagnóstico deste primeiro ano?
Josette Sheeran –
Vivemos uma tormenta perfeita que devastou a população mais pobre. Eu estive em Mianmar, Darfur, Haiti, e me sinto como um soldado que volta da guerra. Devemos buscar soluções de longo prazo para que esta tragédia não se repita, e enquanto isso, estar com eles. Não há nada mais dramático do que ver uma mãe que não pode alimentar seu filho. A cada 6 segundos uma criança morre de fome. Temos de parar com isso. Não há mais desculpas.

CÚPULA DA FAO EM ROMA

Crianças aguardam para receber um prato de comida em mercado de Manágua, na Nicarágua
COMÉRCIO GLOBAL E CRISE

MERCADO E PATERNALISMO

BIOCOMBUSTÍVEIS: IMPASSE

LULA DEFENDE ETANOL

FAO COMENTA IDÉIA DE LULA

OBESOS E FAMINTOS
EP – O que nos impede?
Sheeran –
Muitos fatores ao mesmo tempo. Por isso eu a chamo de tormenta perfeita. A fome existe desde sempre, mas hoje é a primeira vez que temos as ferramentas, a tecnologia, o dinheiro e o poder para acabar com ela. Os governos, os cidadãos, os cientistas e as ONGs devemos trabalhar juntos para isso.

EP – Algumas vozes dizem que se o protecionismo não acabar a fome também não acabará.
Sheeran –
Muitos mercados são locais e muito pequenos. Em países como Uganda ou Chade, se o resto do mundo desaparecesse continuaria havendo fome. Nada entra e nada sai. Em Darfur vivem dez vezes mais pessoas do que o solo pode suportar, e essa é uma das razões do conflito. Não produzem o suficiente para exportar. Quando há gente nessas condições, o mercado global pouco importa.

EP – E a senhora não acredita então que os subsídios do primeiro mundo sejam um problema?
Sheeran –
Ajudaria se desaparecessem com os outros fatores. Não se pode matar a fome com mercados fechados e distorcidos pelas ajudas. É preciso que os agricultores pobres que não têm apoio de seus governos os recebam.

EP – A culpa da fome é dos países ricos?
Sheeran –
Não. Cada país é responsável por seu destino. Nenhum país deve depender do outro. Ninguém gosta de depender, todos querem ser auto-suficientes. Minha família foi embora da Irlanda fugindo da fome, e hoje a Irlanda é um país muito rico que exporta alimentos. Esse é um sonho ao qual os países africanos têm direito. Não querem ajuda, mas condições para fazê-lo sozinhos: terras, créditos, tecnologia, infra-estrutura para exportar. Há exemplos inspiradores: Gana, Chile, Vietnã. São tigres da agricultura.

EP – Mas muitos países não reúnem as condições.
Sheeran –
É questão de liderança, de investir em agricultura. Em alguns países com seca é impossível, e o mundo deve ajudá-los; o resto, devem fazer sós. E querem fazer sós.

EP – Mas o Ocidente prefere o paternalismo.
Sheeran –
Acabou a era do paternalismo. Etiópia, Tanzânia, Moçambique, Malaui, todos disseram em Roma que não querem ajudas, mas decidir seu destino: um mercado seguro, programas de investimento, a possibilidade de exportar, cooperação regional. A Espanha é um exemplo disso. Estruturou sua ajuda segundo os Objetivos do Milênio e contribuiu para dar o alarme da crise atual. Somos muito agradecidos a eles.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 
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05/06/2008 – 12h58

Impasses e acusações adiam texto final da FAO

Impasses em relação aos biocombustíveis e outros pontos polêmicos, como os subsídios agrícolas, levaram a um adiamento da declaração final da conferência da FAO (o órgão de alimentação e agricultura da ONU) em Roma, que está prevista para esta quinta-feira.
Um dos problemas seria como o documento vai tratar a produção mundial do etanol. Segundo um diplomata europeu ouvido pela BBC, o Brasil e outros países latino-americanos estariam se negando a assinar o documento enquanto ele apresentar de forma negativa os biocombustíveis.
"Todo o grupo latino-americano está fazendo isso ficar muito complicado", afirmou essa fonte. "O Brasil talvez esteja por trás de tudo. Eles estão tão preocupados com a possibilidade de que os biocombustíveis sejam transformados em um demônio que, em vez de ter um documento que seja ambíguo em relação aos biocombustíveis, preferem que nenhum acordo seja alcançado."
Os representantes brasileiros, no entanto, negam que estejam atrapalhando o processo e garantem que já existe um acordo sobre o tratamento que será dado à produção do etanol.

Cuba
Segundo Manuel Vicente Fernandes Bertone, secretário de Produção e Agroenergia, que faz parte da delegação brasileira, o país não está impedindo um acordo "de forma nenhuma".
Ele diz que os "problemas do documento até agora não são biocombustiveis, há consenso com respeito aos biocombustíveis."
Na quarta-feira, o embaixador do Brasil na FAO, José Antônio Marcondes de Carvalho, havia dito que um acordo já tinha sido conseguido para amenizar as críticas ao etanol. A fonte diplomática que falou com a BBC, no entanto, negou que o acordo já tivesse sido acertado.
Nos bastidores do encontro, tem circulado versões de que outros temas também estariam criando problemas. Cuba estaria pedindo uma condenação ao embargo americano, o que não seria aceito pelos Estados Unidos.
O governo argentino também teria se posicionado contra tentativas de criticar tarifas no setor de alimentos.
A expectativa era que o documento fosse anunciado às 15h, hora de Roma (10h em Brasília), mas o anunciou foi adiado em pelo menos quatro horas e a coletiva de imprensa deve ocorrer apenas no começo da noite na capital italiana.

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05/06/2008 – 08h24

Representantes da sociedade civil consideram cúpula da FAO um fracasso

Roma, 5 jun (EFE).- Mais de duzentas ONGs e associações da sociedade civil consideraram hoje um fracasso a cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) sobre segurança alimentar, em Roma, já que mantém "as mesmas políticas" que levaram à atual crise alimentícia.
Para esses representantes, a declaração final, que ainda está sendo negociada, manterá um sistema alimentício mundial que "favorece a especulação" e "beneficia só às grandes corporações".

O porta-voz da organização Fian International, o brasileiro Flávio Valente, disse que a crise "é o resultado de décadas de políticas doentes" do Banco Mundial (BM) e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
"As soluções propostas no documento final da cúpula são as mesmas que nos trouxeram aqui", disse Valente, que acrescentou que "não há uma só promessa para acabar com a fome que já não tenha sido feita no passado".
Também denunciou que, na declaração final, não será feito nenhum comentário sobre a "especulação".
Valente disse que, no documento final da cúpula, inclusive, os Governos reconhecem sua "incapacidade" para resolver a crise quando "encomendam ao FMI, ao BM e a um grupo de trabalho da ONU que façam isso por eles".
A iraniana Maryam Rahmanian, da organização Cenesta, disse que essa declaração e esta cúpula "não vão encher nenhum prato de comida", e afirmou que "as recomendações que faz para continuar liberalizando o comércio levarão a uma maior violação do direito à alimentação".
Essa receita liberalizadora, "promovida no passado pelo Banco Mundial (BM) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), é a mesma que levou à atual crise alimentícia", disse Rahmanian.
"É preciso acabar com a especulação financeira e com o mercado de futuros dos alimentos, que joga roleta com nossas vidas", acrescentou a ativista iraniana.
Para Herman Kumara, porta-voz do Movimento Nacional de Solidariedade aos Pescadores (Nafso, em inglês), do Sri Lanka, a cúpula só foi "positiva" para o grupo reduzido das "grandes corporações", já que reforçou seu domínio sobre os alimentos em todo o planeta.
Todas as organizações recomendaram a criação de uma comissão das Nações Unidas encarregada de zelar pelo direito à alimentação e a soberania alimentícia dos povos.

31 de maio de 2008

CRISE DOS ALIMENTOS – FALTA E PREÇOS III

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 3:15 PM
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03/06/2008
A necessidade de alimentar – parte 1: o fim da abundância

Pânico em relação à comida gera apelos por uma segunda "revolução verde"

De Javier Blas

A humanidade estava prestes a passar fome e, segundo as previsões apocalípticas da década de 1960, a batalha para alimentar todos os seres humanos já estava perdida. A fome era comum em alguns dos países mais densamente povoados do mundo. As previsões da catástrofe malthusiana alcançaram a lista dos livros mais vendidos com "The Population Bomb"
("A Bomba Populacional"), de Paul R. Ehrlich, segundo o qual, por volta dos anos 70 e 80, as vítimas da fome chegariam à casa das centenas de milhões.

Mas a engenhosidade humana impediu o desastre. Um programa maciço de investimento em pesquisa e infra-estrutura agrícolas -apoiado avidamente pelos Estados Unidos, devido ao medo embasado pela guerra fria de que os países famintos pudessem cair na esfera de influência da União Soviética- gerou uma explosão da produtividade no campo. Nações que jamais sonharam em serem capazes de atingir a auto-suficiência alimentar tornaram-se exportadoras de alimentos.

 

Vegetais vendidos em Manila, nas Filipinas, dobraram de preço no início deste ano

Esses esforços, liderados por Norman Borlaug, um agrônomo norte-americano que mais tarde recebeu o Prêmio Nobel da Paz, resultaram na criação de sementes altamente produtivas e no aumento excepcional do uso de irrigação, fertilizantes e pesticidas nos países em desenvolvimento.

Por volta de 1968 o salto da produtividade agrícola era tão evidente -a Índia, por exemplo, teve uma safra de trigo recorde, assim como as Filipinas no caso do arroz- que William Gaud, administrador da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), afirmou que o mundo testemunhava a "gênese de uma nova revolução".

"Não se trata de uma revolução vermelha violenta como a dos soviéticos, e tampouco de uma revolução branca como a do xá do Irã", disse Gaud em um discurso proferido 40 anos atrás. "Eu a chamo de revolução verde", acrescentou, criando assim um termo que sobreviveu ao seu autor.

Entretanto, assim como as suas congêneres de todas as tendências, a revolução verde acabou perdendo força. Hoje em dia, o mundo está novamente em situação delicada, já que os preços dos alimentos dispararam, provocando rebeliões em diversos países, do Haiti a Bangladesh. Porém, desta vez, as tentativas de aumentar a oferta de alimentos -e o apoio político de Washington e outras capitais- parecem bem mais débeis. Ao mesmo tempo, a tarefa de incrementar a produtividade tornou-se mais difícil devido aos preços recordes do petróleo, que tornam os fertilizantes mais caros.

Das dezenas de entrevistas com autoridades e especialistas em questões agrícolas emerge um consenso: mesmo que a atual crise de alimentos seja o resultado de múltiplos fatores, tais como a demanda por biocombustíveis ou um clima planetário marcado por extremos, as suas raízes encontram-se no enfraquecimento da revolução verde: "A base da crise atual é a desaceleração da produtividade agrícola", afirma Leenart Bage, presidente do Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento Agrícola, em Roma.

Sob vários aspectos, a revolução verde foi uma vítima do seu próprio sucesso. O aumento da produção de alimentos a partir do início da década de 1960 foi tão grande que não só afastou o espectro da fome mundial, como também abriu o caminho para quase 40 anos de oferta barata e abundante de comida. Por exemplo, a produtividade de trigo por hectare saltou de menos de 500 quilogramas para os quase 3.000 quilogramas atuais. De fato, durante a maior parte da década de 1990 o problema não era excesso de comida, sendo que na Europa falava-se de "montanhas" de grãos e de "lagos" de leite e vinho.

A NECESSIDADE DE ALIMENTAR

Agricultor semeia plantação de arroz, na região central do Japão. Navegue pela reportagem através dos links abaixo
PARTE 1: O FIM DA ABUNDÂNCIA

PARTE 2: SEMENTES DA MUDANÇA

MAIS MÍDIA GLOBAL

Akinwumi Adesina, vice-presidente da Aliança por uma Revolução Verde na África, diz que a cornucópia de comida barata gerou um profundo senso de complacência. "Passou-se a pensar que o apoio à pesquisa agrícola não era mais necessário para incrementar ainda mais a produtividade, já que havia comida de sobra e os preços caíam".

Como resultado, o investimento em pesquisa e infra-estrutura agrícolas caiu drasticamente. Organizações multilaterais como o Banco Mundial e países ricos que atuam como doadores individuais reduziram a parcela dos seus gastos com agricultura destinada à assistência para o desenvolvimento para menos de 3% do total em 2005. Em 1979 esta proporção era de 18%, de acordo com a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento. Em termos monetários, até mesmo após o ajuste relativo à inflação, o auxílio à agricultura caiu para menos da metade, passando dos US$ 8 bilhões registrados em 1979 para US$ 3 bilhões em 2005.

Embora o financiamento do setor privado à pesquisa agrícola tenha aumentado, os preços reduzidos dos alimentos nos mercados mundiais significavam que esse trabalho focava-se geralmente em inovações cujo objetivo era reduzir os custos, e não aumentar o volume das safras. De acordo com Ronald Trostle, do serviço de pesquisas econômicas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as pesquisas financiadas pelo governo sempre foram aquelas com maior probabilidade de concentrarem-se em inovações que aumentariam o volume das colheitas, especialmente naquelas partes do mundo onde os agricultores não têm condições de pagar royalties sobre novas variedades de sementes.

O menor investimento traduziu-se em desaceleração do aumento da produtividade. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, as safras de grãos aumentaram anualmente, em média, 1,1% de 1990 a 2007.
A média anual no período 1970-1990 foi de 2%. O impacto sobre o aumento das safras de alimentos básicos importantes, como o trigo e o arroz, foi ainda mais intenso. No que se refere a estas culturas, o ritmo de crescimento das safras caiu de 10%, no início da década de 1960, para o índice atual de cerca de 1% ao ano.

A redução do aumento da produtividade não poderia ter surgido em um pior momento. A demanda por alimentos está crescendo nesta década, à medida que a população mundial aumenta e uma classe média em expansão em países como a China consome mais proteínas na forma de produtos como a carne e o leite. O desenvolvimento da indústria de biocombustíveis fez aumentar ainda mais a demanda, e neste ano o setor consumirá um terço da safra de milho dos Estados Unidos.

Agora, pela primeira vez desde a década de 1970, o mundo está vagarosamente consumindo as suas reservas de alimentos, já que a cada ano consome-se mais do que se produz. Outro motivo para as reservas estarem atingindo níveis baixos recordes, ao mesmo tempo em que os preços disparam, são os problemas climáticos, incluindo secas. "Este era um acidente esperando para acontecer", afirma Adesina.

Os elaboradores de políticas estão despertando para a gravidade da situação. Manmohan Singh, o primeiro-ministro da Índia, declarou
recentemente: "Há a sensação persistente de que a primeira revolução verde perdeu o rumo". Ele prosseguiu, afirmando que o mundo necessita de uma segunda transformação do gênero para resolver a crise dos alimentos.
"A comunidade e as agências globais precisam articular uma resposta coletiva que conduza a um salto substancial da produtividade e do tamanho das colheitas, de forma que o espectro da falta de comida volte a sumir do horizonte".

Isto estará no topo da agenda da reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que teve início nesta segunda-feira (02/06) e que deverá contar com a participação de 40 chefes de Estado e de governo.

Jacques Diouf, presidente da FAO, diz que este é um momento
raro: "Pela primeira vez em 25 anos, um incentivo fundamental -os elevados preços dos alimentos básicos- está presente para estimular o setor agrícola. Os governos, apoiados pelos seus parceiros internacionais, têm agora que fazer o investimento público necessário e criar um ambiente favorável para os investimentos privados". Ou, conforme disse recentemente o secretário da Agricultura dos Estados Unidos, Ed Schafer: "Se os países não aumentarem as safras, as pessoas passarão fome. É simples assim".

Mas reproduzir a primeira revolução verde será difícil. Cada um dos três pilares sobre os quais ela foi construída -tecnologia de sementes, irrigação e o uso generalizado de fertilizantes e pesticidas- parecem ser, atualmente, menos sólidos. Mais uma vez, isto é, em grande parte, o reflexo do legado da forma como os problemas foram enfrentados pela primeira vez.

Quando milhões de vidas corriam risco devido à fome e necessitava-se rapidamente de resultados, os cientistas e os governantes concentraram-se no aumento da produção a qualquer custo. Tom Mew, que foi o principal cientista do Instituto Internacional de Pesquisas Sobre o Arroz, em Los Baños, nas Filipinas, na década de 1960, reconheceu essa tendência em um discurso feito alguns anos atrás: "Foi uma escolha difícil, de forma que nos concentramos na agricultura de alta produtividade que garantiria alimentos para todos".

O resultado é um sistema agrícola global que hoje em dia é altamente intensivo e baseia-se na disponibilidade de energia barata e prontamente disponível para ser utilizada em cada parte da cadeia de produção: tanto diretamente, como combustível, quando indiretamente, para a fabricação de fertilizantes e pesticidas. Mas com os preços do petróleo em alta, o custo de certos fertilizantes saltou para mais de US$ 1.000 a tonelada. Há dois anos esse custo era de US$ 300 a tonelada. Além disso, o uso de fertilizantes e pesticidas químicos enfrenta oposição pública.

A revolução verde original também exigiu enormes quantidades de água para irrigação -um recurso que está tornando-se mais e mais escasso devido à mudança climática e ao rápido crescimento das cidades e das operações industriais, especialmente no mundo em desenvolvimento.

Finalmente, depois que o aperfeiçoamento da tecnologia de sementes da década de 1960 resultou em maiores colheitas, bem como em maior resistência a secas e insetos, os cientistas estão se aproximando do limite daquilo que podem fazer por meio de técnicas naturais. O próximo passo -o uso de organismos geneticamente modificados- encontra forte oposição, especialmente na Europa, mas também, por exemplo, em alguns países africanos.

Em suma, os ganhos fáceis já foram obtidos, exceto na África. Shivaji Pandey, que esteve envolvido na primeira revolução verde e agora lidera a divisão de produção de plantas da FAO, em Roma, diz que o mundo necessita de uma revolução verde "mais inteligente".

"Precisaremos incrementar a produção agrícola com menos água e com um uso mais eficiente de fertilizantes", diz ele. Alexander Evans, do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York, diz que a exigência fundamental é tornar a revolução verde "mais verde". Ele
argumenta: "O processo precisa ser bem mais eficiente sob o ponto de vista da aplicação de insumos".

Os especialistas dizem que, para isso, o setor de gerenciamento da água precisa abandonar a irrigação por inundação de terrenos, relativamente barata, utilizada sobremaneira em alguns países do sudeste asiático, e adotar os sistemas bem mais caros de aspersão e gotejamento. Segundo as autoridades do setor, isso exigiria investimentos com os quais os países em desenvolvimento só poderiam arcar se contassem com o apoio de doadores. "A água será o fator limitante", explica Adesina.

Já os fertilizantes representam um desafio maior. Os técnicos da FAO acreditam ser possível economizar o uso de adubos, especialmente em alguns países do sudeste asiático, por meio de programas que ensinam aos agricultores que quantidade de fertilizantes precisam espalhar nas suas lavoura e o momento de utilizar esses produtos. Mas, segundo os especialistas, o uso de fertilizantes aumentará no longo prazo, principalmente na África, o que significa que os países doadores provavelmente precisarão subsidiar esses produtos químicos para as nações pobres.

Alguns especialistas, como Tom Lumpkin, diretor do Centro Internacional para a Melhoria do Trigo e do Milho, em El Batán, no México, acrescenta que, à luz desta crise, os países precisarão reconsiderar a sua oposição aos organismos geneticamente modificados. "É necessário que a ciência retorne ao setor agrícola", afirma Lumpkin.

Atualmente, 100 milhões de hectares, ou aproximadamente 8% das terras cultivadas em todo o mundo, já são semeados com organismos geneticamente modificados. Os países que apóiam esta tecnologia, como os Estados Unidos e o Brasil, provavelmente enfatizarão ainda mais a sua posição segundo a qual a adoção das culturas geneticamente modificadas poderia ajudar a resolver o problema. Gaddi Vasquez, o embaixador dos Estados Unidos da FAO, em Roma, diz: "A utilização das sementes geneticamente modificadas é uma das formas mais promissoras de aumentar as safras".

Neste ano, o Banco Mundial anunciou que a agricultura está prestes a passar por uma outra revolução tecnológica, que desta vez ocorrerá devido à utilização das ferramentas da biotecnologia. "Mas existe uma grande incerteza quanto à possibilidade de essa revolução tornar-se uma realidade para a produção de alimentos nos países em desenvolvimento devido ao baixo investimento público nessas tecnologias e às controvérsias a respeito dos possíveis riscos", advertiu o banco.

Além dos problemas relativos a sementes, fertilizantes e irrigação, o clima político de hoje é menos propício a transferências monetárias maciças das nações ricas para os países em desenvolvimento. Atualmente ninguém teme uma tomada de poder por comunistas; o investimento necessário precisaria ser feito como uma simples tentativa de melhorar as vidas de milhões de seres humanos.

Independentemente do rumo que os elaboradores de políticas para o setor decidam seguir esta semana na reunião da FAO, autoridades e especialistas concordam que o mundo precisa se mobilizar rapidamente para aliviar a atual crise -e prevenir outra nos próximos anos. Na semana passada a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento e a FAO afirmaram no seu documento "Cenário Agrícola 2008-2017" que os investimentos públicos e privados em inovação e no aumento de produtividade agrícola "melhorariam bastante as perspectivas de fornecimento de alimentos ao contribuir para ampliar a base de produção e reduzir a possibilidade de disparadas constantes dos preços".

Mas o tempo para a ação é exíguo. Robert Zeigler, diretor do Instituto Internacional de Pesquisas sobre o Arroz, afirma que levará décadas para que se desenvolvam variedades de sementes e construa-se a infra-estrutura necessárias para uma segunda revolução verde: "Na verdade, deveríamos ter começado dez anos atrás para evitar os problemas de hoje", afirma Zeigler.

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03/06/2008
A necessidade de alimentar – parte 2: sementes da mudança

África busca promover uma revolução agrícola

De Alan Beattie

Procura-se: uma rápida transformação para um dos problemas mais complexos no continente mais pobre do mundo, para ocorrer em meio a uma crise de alimentos.

Trinta anos após a primeira "revolução verde" ter transformado a agricultura na Ásia e na América Latina, à medida que novas variedades de sementes e abundância de fertilizantes permitiram aos agricultores escaparem da armadilha da subsistência, a África está tentando fazer o mesmo.

Por todos os anos 80 e 90, a produtividade da agricultura africana não conseguiu acompanhar o ritmo do crescimento populacional. Quaisquer aumentos refletem um maior área de terras cultivadas do que uma maior produtividade. Agricultores, agrônomos e especialistas em desenvolvimento dizem que apenas nova tecnologia, particularmente a curto prazo, promoverá uma transformação radical. Ganhos mais rápidos podem ser obtidos com melhoria dos mercados e do transporte, o que ajudará a expandir as tecnologias existentes, subutilizadas.

 

Agricultor recolhe espigas de arroz em fazenda na região de Bagre, Burkina Fasso

Mas há um desacordo sobre se a África deve buscar um modelo de agronegócio baseado em grandes fazendas comerciais ou se concentrar na melhoria do fardo de seus milhões de pequenos agricultores. Além disso, as dificuldades para transformar a agricultura africana são muitas. Algumas são topológicas: o continente contém uma imensa variedade de solos e climas, que variam de um clima mediterrâneo no Magreb a ambientes tropicais até climas temperados na África do Sul. Os produtos cultivados e técnicas utilizadas em uma parte freqüentemente não podem ser transferidos para outras.

Então, quais são as perspectivas para melhorias que ajudarão a alimentar uma população que se aproxima de 1 bilhão? A causa recebeu um impulso quando a Aliança por uma Revolução Verde na África (Agra, na sigla em inglês), uma associação de produtores rurais, empresas de agronegócio e instituições de pesquisa, foi fundada em 2006 com US$ 150 milhões da Fundação Rockefeller -que também teve um papel central no financiamento da primeira revolução verde- e da Fundação Gates.

Namanga Ngongi, presidente da Agra, disse que apesar dos sistemas agrícolas asiáticos serem dominados por variedades semelhantes de trigo e arroz, a África tem uma variedade maior de produtos, incluindo mandioca, sorgo, painço e milho. "Uma fórmula única não servirá", ele disse.

Mpoko Bokanga, diretor executivo da Fundação Africana de Tecnologia Agrícola (AATF, na sigla em inglês), uma parceria público-privada de pesquisa com sede em Nairóbi, apontou para os grandes contrastes mesmo dentro de um único país. "No oeste do Quênia, no norte do Vale do Rift, há áreas muito férteis com fazendas de alta produtividade, cujo potencial comercial está bem desenvolvido", ele diz. "Então, a 50 quilômetros de distância, se encontram distritos esquecidos cujas fazendas apresentam um terço ou um quarto de sua produtividade."

A NECESSIDADE DE ALIMENTAR

Agricultor semeia plantação de arroz, na região central do Japão. Navegue pela reportagem através dos links abaixo
PARTE 1: O FIM DA ABUNDÂNCIA

PARTE 2: SEMENTES DA MUDANÇA

MAIS MÍDIA GLOBAL

Apesar da existência de grandes sistemas fluviais e algumas áreas terem alta precipitação, grande parte da agricultura no continente depende de chuvas não confiáveis: menos de 5% da terra cultivada é irrigada na África, em comparação a 40% no Sul da Ásia.

Levará algum tempo para que novas tecnologias sejam desenvolvidas. A capacidade de pesquisa agrícola da África recebeu quase tão pouca atenção quanto seus solos nas últimas décadas, com seus governos carentes de recursos cortando pesadamente o financiamento de ciência básica. E dada a dessemelhança das condições agronômicas no continente às de outros lugares, não é fácil aproveitar avanços científicos desenvolvidos para outros mercados.

Um dos projetos da AATF, por exemplo, visa desenvolver um "milho de uso eficiente de água" capaz de tolerar períodos mais longos de seca, uma característica que se tornará cada vez mais importante se, como parece ser o caso, a mudança climática tornar as chuvas mais variáveis. A fundação usará pesquisa básica doada pela Monsanto, o grupo de agronegócio com sede nos Estados Unidos. O Centro Internacional de Melhoramento do Milho e Trigo no México, um instituto de pesquisa sem fins lucrativos que teve um grande papel na primeira revolução verde, a transplantará para variedades de milho de grande rendimento adaptadas a ambientes tropicais. As variedades então serão distribuídas para empresas de sementes africanas sem pagamento de royalties. Mas Bokanga diz que levará cinco ou seis anos até que as variedades estejam disponíveis para serem testadas no campo.

Mais adiante, a revolução verde terá que enfrentar uma das questões mais controversas no mundo agrícola: os produtos transgênicos. Os países africanos têm sido lentos na adoção de transgênicos. A África do Sul é o único país que aprovou uma variedade de transgênico, apesar de Burkina Fasso estar prestes a aprovar uma variedade de algodão, após seu amplo uso na Índia, e o Egito estar analisando um milho transgênico.

Parte da aversão aos transgênicos na África, entre governos assim como ativistas, é visceral. Em 2002, a Zâmbia se recusou a aceitar um grão transgênico como ajuda de emergência em meio a uma crise alimentar, temendo uma possível contaminação da agricultura local. O governo até mesmo rejeitou ofertas da União Européia, que tem suas próprias reservas em relação aos transgênicos, de moer o grão antes de distribuí-lo, para impedi-lo de ingressar no sistema agrícola.

Mas Bokanga diz que a oposição é exagerada e que os agricultores são muito mal informados em vez de firmemente contrários. "Não é verdade que todos os governos africanos são contrários à adoção de transgênicos", ele disse. "Há muitos oponentes da biotecnologia que fazem muito estardalhaço e dominam a mídia local, e então a mídia externa acha que os agricultores são contrários. A maioria dos agricultores não sabe nada sobre transgênicos."

Para aqueles preocupados com o impacto ambiental, ele aponta que milho transgênico resistente a herbicida permitirá uma "agricultura de plantio direto", boa para o solo, no qual não há necessidade de revolver a terra para se livrar das ervas daninhas. Mas dada a necessidade de realização de testes e de protocolos de segurança -uma tarefa que testará seriamente a capacidade de alguns dos Estados africanos- a adoção disseminada de transgênicos, particularmente para produção de alimentos, parece pelo menos uma década distante.

Enquanto isso, muito pode ser feito para ampliar o uso da tecnologia existente. Em muitos países africanos, particularmente os mais pobres, não é que fertilizantes ou sementes híbridas melhores não existam. É que uma combinação de pobreza, um setor privado atrasado e um mercado fraco os impedem de chegar aos agricultores.

Grande parte do aparato de apoio agrícola que os governos africanos usavam nos anos 70 -conselhos estatais de comercialização para os quais os agricultores vendiam seus produtos, subsídios para fertilizantes e sementes, reservas estratégicas de grãos para o caso de crises de alimentos, preços mantidos por intervenção oficial- foram desmontados, freqüentemente a pedido do Banco Mundial e de outros doadores de ajuda, que os consideravam esbanjadores, propensos a corrupção ou danosos. (Mas instituições semelhantes persistem nos setores agrícolas europeu e americano.) Mas o vácuo deixado pela saída do Estado freqüentemente não foi preenchido pelo setor privado, deixando os agricultores desconectados dos mercados doméstico e internacional.

A Agra, por exemplo, está gastando US$ 40,5 milhões para estabelecer uma rede de 10 mil fornecedores para venda de fertilizantes e outros insumos nas áreas rurais. Alguns países, como Maláui, no sul da África, estão experimentando com subsídios voltados ao mercado, projetados para complementar e estimular em vez de substituir o setor privado.

Mas há mais envolvido no impacto de uma revolução verde sobre a pobreza e a disponibilidade de alimentos do que um aumento da produção. A forma como o crescimento ocorre, e a melhor forma de distribuir seus benefícios, também são motivo de debate.

Jon Maguire, um administrador de fundo de investimento britânico, iniciou o fundo Africa Invest após visitar Maláui e encontrar aldeões incapazes de gerar uma colheita por falta de chuva, apesar de viverem à beira do Lago Maláui. "Eu perguntei por que não investiam na irrigação e eles me disseram que nenhum dinheiro circulava nas aldeias há três anos", ele disse. Sem ter nenhum conhecimento de agricultura, ele levantou US$ 16 milhões em um fundo, contratou administradores agrícolas locais e comprou US$ 3,5 milhões em irrigadores e outros sistemas de irrigação.

Sua operação agora administra mais de 1.000 hectares de fazendas, com outras 9 mil famílias de pequenos produtores contratadas para fornecerem produtos. Elas vendem pimentão-doce e pimenta piri-piri para o mercado externo, incluindo a Espanha. "Os espanhóis ficaram impressionados com a qualidade do pimentão-doce", ele disse. No ano que vem, sua operação pretende comprar o que ele diz ser a primeira colhedora combinada de Maláui.

A solução de Maguire é fazendas grandes, voltadas para exportação, com investimento pesado em irrigação. "A base toda do desenvolvimento agrícola tem sido: como ajudar o pequeno agricultor?", ele disse. "Você nunca resolverá os problemas da África assim. É preciso uma rotatividade de pequenos e médios empreendimentos ao redor de grandes fazendas que estarão conectadas à economia global. Nossos pequenos produtores agora conseguem um pouco do preço mundial e se beneficiam da crise do preço dos alimentos."

Muitos agrônomos discordam. Glenn Denning, diretor do Centro de Metas de Desenvolvimento do Milênio no Quênia, disse que em países muito pobres como Maláui, o primeiro passo é melhorar a produção e a condição dos pequenos agricultores, que precisam assegurar suas próprias necessidades alimentares antes de diversificarem. "Os pequenos agricultores provaram que podem competir se dispuserem dos insumos certos", ele disse. "Foi o que aconteceu na revolução verde asiática." Os superávits aumentarão e os agricultores poderão então passar para cultivos comerciais. Uma maior produção de grãos básicos por parte dos pequenos agricultores também beneficiará os pobres urbanos e os sem terra, aumentando a oferta e moderando os preços dos alimentos.

De fato, a forma como as tecnologias novas e existentes interagem com as economias e sociedades da África é crítico, não apenas para que uma revolução verde funcione tecnicamente, mas para que também leve amplos benefícios para os pobres da África. Andrew Dorward, um acadêmico da Escola de Estudos Orientais e Africanos, em Londres, disse que a adoção de transgênicos resistentes a herbicidas seria, por exemplo, desastroso para muitos lares pobres: as plantações provocariam o fim da eliminação manual de ervas daninhas, que é uma grande fonte de renda para muitos.

Os críticos de esquerda da idéia de uma revolução verde não duvidam que a África pode aumentar a produtividade com novas sementes e insumos, mas dizem que os benefícios irão para grandes corporações e produtores rurais ricos. Raj Patel, um membro do Instituto para o Alimento e Política de Desenvolvimento nos Estados Unidos, de inclinação esquerdista, disse recentemente a um comitê do Congresso que projetos como o Agra, "apesar de talvez bem-intencionados, são modelos de investimento tecnológico inexplicável e insustentável". Ele pediu por "programas que estimulem a adoção e pesquisa de métodos agroecológicos localmente apropriados e democraticamente controlados".

Pergunte a cinco pessoas diferentes no debate da revolução verde e você terá sete respostas diferentes. A África precisa de fornecedores agrícolas privados. A África precisa de água. A África precisa de estradas. A África precisa de transgênicos. A África precisa de grandes produtores rurais. A África precisa dos pequenos produtores rurais. A realidade parece ser a de que em um continente tão diverso, a África provavelmente precisará de todos eles -e mais.

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04/06/2008
Cúpula da FAO em Roma: "em pouco tempo haverá menos famintos", diz número 2 da FAO

Miguel Mora e Miguel González
Em Roma

O número 2 da FAO, o catalão José María Sumpsi, acredita que o mundo será um pouco menos desigual daqui a alguns anos. O colapso da agricultura trouxe novamente a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) ao primeiro plano, e Sumpsi viu na última terça-feira sinais de uma mudança histórica. "A França e a Espanha despertaram, a ONU também, Ban Ki-moon vai liderar este projeto e em alguns anos se notará a mudança."

El País – Continua havendo 820 milhões de famintos no mundo, como há 15 anos. Vocês fracassaram.
José María Sumpsi –
Foi o que disse Nicolas Sarkozy, nos equivocamos. Pensávamos que a agricultura fosse um assunto resolvido, há 15 anos havia excedentes e hoje vemos que não. A demanda cresceu e o sistema não agüentou.

EP – Um caso clássico de oferta e procura?
Sumpsi –
Sim, não se esperava que os países emergentes, China, Índia, Indonésia, Brasil, crescessem tanto. Mas cresceram 10%-12% anuais acumulados, e isso produziu uma explosão da demanda. Não estávamos prontos. Esse novo mundo começou a comer e de repente não há comida para todos.

EP – Então os fatores que explicam o aumento dos preços são uma fábula?
Sumpsi –
Em uma situação de oferta e procura muito justa, que vem de longe, qualquer circunstância -um ciclone, um desastre, o preço do petróleo- produz um cataclismo.

EP – O que fazer?
Sumpsi –
Primeiro, salvar a vida das pessoas, distribuir comida. Segundo, criar regras internacionais de comércio agrícola que evitem que cada país faça o que quiser.

EP – Mas acabar com o protecionismo não será fácil.
Sumpsi –
Essa é a chave. Se o primeiro mundo começar a eliminar os subsídios agrícolas será o princípio de um mundo diferente. França e Espanha defenderam a regulamentação, e essa idéia deve se impor. Alguns países dão sinais de levantar as barreiras à exportação. Se a China, Japão, Vietnã exportassem suas reservas de arroz, grande parte do problema se resolveria. De Roma não sairá um grande acordo, mas assentará as bases para o futuro imediato.

EP – Mas a estrutura da ajuda internacional também deve mudar.
Sumpsi –
E vai mudar. Ki-moon está liderando o Plano de Ação e em abril acionou as agências em Berna. Não vai permitir solapamentos nem descoordenação. A ONU vai trabalhar de forma coordenada com o Banco Mundial, o FMI e a OMC.

EP – E as ONGs?
Sumpsi –
Será feito um plano de ação global e nos 45 ou 50 países prioritários serão formadas equipes entre governos, setor privado e ONGs para levar ajuda em campo.

EP – Então estamos diante de uma revolução da cooperação.
Sumpsi –
Veremos em alguns meses. Estamos aplicando o remédio. Em pouco tempo haverá menos famintos.

EP – Lula tem razão em sua batalha do etanol?
Sumpsi –
Em boa parte. E sua descoberta do etanol bom e do etanol mau, como o colesterol, é genial. O bom é o dele, claro. Mas é verdade: é inovador e parece que realmente ecológico. Que haja uma campanha dos petroleiros contra ele já é discutível, apesar de o Banco Mundial e o FMI terem insistido na responsabilidade dos biocombustíveis pela inflação.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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02/06/2008
A verdade sobre os alimentos
Robert Paarlberg*
Como é do conhecimento geral, o preço de muitos gêneros alimentícios registrou uma súbita alta no último semestre. O arroz triplicou de preço nos quatro primeiros meses de 2008, o trigo dobrou e o milho subiu 46%. O New York Times considerou isso uma "crise mundial de alimentos" e a revista The Economist a chamou de um "tsunami silencioso". Os elevados preços de importação de grãos, além dos altos preços de combustíveis, impõem um intenso aperto econômico sobre os consumidores urbanos nos países em desenvolvimento que dependem fortemente do mercado mundial. No Haiti, no Egito, em Camarões, na Costa do Marfim, no Senegal e na Etiópia, os pobres das regiões urbanas saíram às ruas. continua
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Global Food Crisis 2008 

Food prices have been rising for a while. In some countries this has resulted in food riots and in the case of Haiti where food prices increased by 50-100%, the Prime Minister was forced out of office. Elsewhere people have been killed, and many more injured. While media reports have been concentrating on the immediate causes, the deeper issues and causes have not been discussed as much.

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02/06/2008 – 09h08

Biocombustíveis ameaçam terras de camponeses, diz relatório

Robin Pomeroy
Em Roma
A expansão dos biocombustíveis não só está agravando a crise alimentar global como também ameaça expulsar os pequenos lavradores de suas terras, devido à demanda por cultivos intensivos para fins energéticos, segundo relatório a ser apresentado nesta semana numa cúpula da ONU sobre alimentos.

Cúpula começa amanhã

O diretor da FAO, Jacques Diouf, disse em entrevista publicada no jornal "Financial Times" que a única maneira de enfrentar a alta mundial dos alimentos em escala global é aumentando a produção. Chefes de Estado de todo o mundo chegam a partir de hoje em Roma, Itália, onde participarão de cúpula sobre segurança alimentar nessa terça-feira (03).

O uso de cultivos alimentícios (como milho, óleo de palma e açúcar) para a produção de etanol e biodiesel é um dos fatores apontados como responsável pelo aumento de preços neste ano, o principal tema da cúpula da FAO (órgão da ONU para alimentação e agricultura), em Roma, de terça a quinta-feira.

Condenado no ano passado como um "crime contra a humanidade" pelo então relator alimentar da ONU, Jean Ziegler, os biocombustíveis são acusados por muita gente de estarem usando terras que poderiam ser empregadas no cultivo de alimentos.

Tanto os Estados Unidos quanto a União Européia têm políticas oficiais de promoção do uso de biocombustíveis como alternativa ao petróleo.

O relatório, publicado na segunda-feira pela FAO e pelo Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, cita vários riscos sociais e ambientais dos biocombustíveis, mas isenta-os de serem a principal causa da crise alimentar.

"Os recentes aumentos nos preços alimentares não foram causados primariamente pelos biocombustíveis", disse o texto, citando quebras de safras, estoques baixos e uma maior demanda por alimentos e rações na Ásia.

O estudo, intitulado "Alimentando a exclusão? O ‘boom’ dos biocombustíveis e o acesso dos pobres à terra", diz que o impulso aos biocombustíveis representa uma grave ameaça a milhões de lavradores.

Estima-se que 1 por cento das terras aráveis do mundo seja usada por biocombustíveis, cifra que tende a subir para 2,5 a 3,8 por cento até 2030, dependendo dos incentivos oficiais, segundo dados da Agência Internacional de Energia.

Alguns camponeses podem se beneficiar da situação caso tenham terras para produzir matéria-prima para biocombustíveis, mas muitos devem ser expulsos de suas pequenas lavouras para darem espaço a grandes plantações.

"Grupos sociais específicos, como pastores, cultivadores nômades e mulheres, estão especialmente suscetíveis a sofrer a exclusão da terra provocada pelo crescente valor das terras, enquanto as pessoas que já são sem-terra devem ver as barreiras para o acesso à terra crescerem ainda mais", afirma o relatório.

O documento recomenda a adoção de novos padrões para garantir o direito à terra para pessoas pobres, incluindo esquemas de certificação de biocombustíveis que garantam que eles sejam produzidos sem danos ao meio-ambiente ou abusos aos direitos da população local.

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http://economia.uol.com.br/ultnot/lusa/2008/06/02/ult3679u3871.jhtm

02/06/2008 – 09h22

Países ricos devem aumentar ajuda a países pobres, diz FAO

Londres, 2 jun (Lusa) – Os países ricos devem aumentar de forma significativa sua ajuda na luta contra o aumento do preço dos alimentos, disse o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, em entrevista ao jornal inglês Financial Times .

A ajuda aos países em desenvolvimento deveria chegar a US$ 30 bilhões por ano, afirmou Jacques Diouf ao Financial Times .

"A única forma de sair da crise é aumentar a produção, em especial nos países pobres. Esta crise implica todos os países do mundo", defendeu.

Líderes de todo o mundo são esperados entre terça e quinta-feira, em Roma, para a cúpula da FAO sobre segurança alimentar, durante a qual tentarão alinhar posições para encontrar uma solução para a alta do preço dos alimentos.

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02/06/2008 – 09h54

UE aponta Portugal como o menos afetado em crise alimentar

Lisboa, 2 jun (Lusa) – Portugal foi o país da União Européia (UE) onde os bens alimentares menos aumentaram, com uma alta de 3,2% em abril de 2007, abaixo dos 6,2% da zona do euro.

Segundo o gabinete de estatísticas do bloco, Eurostat, com base no Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), indicador para a comparação de inflação entre os Estados-membros da UE, os preços dos alimentos na zona do euro registraram um aumento anual de 6,2% em abril, contra 3,3% de inflação anual global.

Portugal foi o país que menos sofreu com o aumento dos preços, registrando uma alta de 3,2%, ao contrário da Bulgária, que foi o mais afetado, com um aumento de 25%, seguida pelos países bálticos (21,7% na Letônia, 18,3% na Estónia e 18,1% na Lituânia).

Em março o aumento anual dos preços dos bens alimentares foi de 7,2% na média comunitária, contra uma inflação anual global de 3,6%.

Também na UE, os preços dos alimentos registraram um crescimento de 7,1% em abril em relação ao mesmo mês do ano anterior contra a inflação global de 3,6%.

Entre as grandes economias européias, destaque também para o aumento dos preços na Alemanha (6,4%), França (5,5%), Espanha (6,8%), Itália (5,9%) e Reino Unido (7,2%).

Já o impacto do aumento dos preços dos produtos alimentares sobre a inflação global variou entre os Estados-membros, em função do peso dos alimentos no IHPC e das variações anuais dos seus preços.

A Bulgária, a Lituânia e a Romênia sentiram os maiores impactos, enquanto Portugal e o Luxemburgo registraram os menores impactos, com uma subida de 0,1 pontos percentuais e 0,2 pontos percentuais respectivamente.

O Eurostat destaca que os preços dos alimentos têm registrado um aumento mais rápido do que o da taxa de inflação global, desde finais de 2006, sobretudo a partir de julho de 2007, tanto na zona do euro como nos 27 Estados-membros.

Março e abril foram os meses em que os preços dos alimentos mais subiram, desde o início das estatísticas em 1996, acrescenta.

Contudo, entre 1996 e abril de 2008, os preços dos produtos alimentares aumentaram no total a um ritmo semelhante ao da inflação: mais 31% e mais 27% respectivamente na UE-27 e mais 30% e mais 27% respectivamente na zona do euro.

Em abril, o leite, o queijo e os ovos foram os produtos que mais subiram de preço (14,9%), seguindo-se os óleos e gorduras (13,2%), o pão e os cereais (10,7%) e depois as frutas (10,7%).

Os produtos menos afetados pela subida dos preços foram os vegetais, cujo preço baixou 1,2%, o peixe e mariscos (aumento de 3,3%) e a carne (aumento de 4,1%).

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31/05/2008
Os ricos ficam mais famintos

Amartya Sen*

Será que a crise de alimentos que está ameaçando a vida de muitos vai se abrandar – ou irá piorar cada vez mais? A reposta pode ser as duas coisas. O aumento recente no preço dos alimentos foi causado em grande parte por problemas temporários como a seca na Austrália, na Ucrânia em vários outros lugares. Apesar de a necessidade de grandes operações de auxílio ser urgente, a crise aguda atual irá eventualmente chegar ao fim. Mas por detrás dela está um problema que irá apenas se agravar a menos que o reconheçamos e tentemos remediá-lo.

É a história de dois povos. Em uma versão da história, um país com muitos pobres de repente passa por uma rápida expansão econômica, mas apenas metade de seus habitantes desfruta da nova prosperidade. Os favorecidos gastam grande parte de sua nova receita em alimentos, e a menos que a oferta se expanda muito rápido, os preços disparam. O restante de pobres então se depara com alimentos a preços altos e nada de aumento em suas rendas, e começam a passar fome. Tragédias como essa acontecem repetidamente no mundo.

Um exemplo cruel foi a fome em Bengala em 1943, durante os últimos dias de dominação britânica na Índia. Os pobres que viviam nas cidades viram seus ganhos aumentarem rapidamente, especialmente em Calcutá, onde os gastos gigantescos da guerra contra o Japão causaram um boom que quadruplicou o preço dos alimentos. Os pobres da zona rural viram os preços subirem vertiginosamente, mas tiveram apenas um pequeno aumento em seus ganhos.

A política governamental equivocada agravou a disparidade. Os governantes britânicos estavam determinados a evitar o descontentamento urbano durante a guerra, então o governo comprou comida dos vilarejos e vendeu, com altos subsídios, nas cidades, uma medida que fez com que o preço dos alimentos na zona rural aumentasse ainda mais. Aqueles que ganhavam pouco nos vilarejos passaram fome. Dois a três milhões de pessoas morreram por causa da fome e suas conseqüências.

Há muita discussão em torno da divisão entre os que têm e os que não têm na economia mundial, mas os pobres do mundo estão eles próprios divididos entre aqueles que experimentam o alto crescimento e os que não. A rápida expansão econômica em países como a China, a Índia e o Vietnã tende a aumentar dramaticamente a demanda por alimentos. Isso é, obviamente, algo excelente por si só, e se esses países conseguirem reduzir repartição desigual do crescimento, até mesmo os que estão de fora poderão se alimentar melhor.

Mas o mesmo crescimento também coloca pressão no mercado internacional de alimentos – às vezes através do aumento das importações, mas também por meio de restrições ou boicotes nas exportações para atenuar o aumento nos preços dos alimentos nos países exportadores, como aconteceu recentemente na Índia, China, Vietnã e Argentina. Os que foram afetados de forma mais dura foram os pobres, especialmente na África.

Há também uma versão high-tech da história dos dois povos. Plantações agrícolas como o milho e a soja podem ser usadas para fabricar etanol como combustível de motores. Então o estômago dos famintos também tem de competir com os tanques de combustível.

Políticas governamentais mal direcionadas também desempenham seu papel nesse caso. Em 2005, o Congresso dos EUA começou a exigir o uso extensivo do etanol como combustível. A lei, combinada com um subsídio para esse uso, criou um mercado florescente de milho nos Estados Unidos, mas também desviou os recursos agrícolas dos alimentos para o combustível. Isso faz com que a competição seja ainda mais difícil para o estômago dos famintos.

O uso do etanol faz muito pouco para prevenir o aquecimento global e a deterioração do meio ambiente, e reformas políticas claras poderiam ser realizadas com urgência se os políticos americanos permitissem. O uso do etanol poderia ser reduzido, em vez de ser subsidiado e incentivado.

A crise mundial de alimentos não é causada por uma tendência decrescente na produção mundial, ou por causa da oferta per capita (isso é afirmado com freqüência sem muita comprovação). Ela é o resultado da aceleração da demanda. Todavia, um problema induzido pela demanda também pede uma rápida expansão na produção de alimentos, que pode ser conseguida por meio de uma maior cooperação global.

Enquanto o crescimento da população é responsável por apenas uma parte modesta da crescente demanda por comida, ele pode contribuir para o aquecimento global, e as mudanças climáticas de longo prazo podem ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento da população já está diminuindo e há uma enorme evidência de que o aumento do poder das mulheres (incluindo a expansão da educação para garotas) pode reduzi-lo ainda mais.

O mais desafiador é descobrir políticas efetivas para lidar com as conseqüências da expansão extremamente assimétrica da economia global. As reformas na economia doméstica são extremamente necessárias em muitos países de crescimento lento, mas também há uma necessidade grande de maior cooperação e assistência mundiais. A primeira tarefa é compreender a natureza do problema.

*Amartya Sen, que ensina economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de economia em 1998 e é autor do recém-lançado "Identity and Violence: The Illusion of Destiny" ["Identidade e Violência: A Ilusão do Destino"]

Tradução: Eloise De Vylder

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30/05/2008
Peru guarda excrementos de aves à medida que cresce de novo a demanda

Simon Romero
Em Isla de Asia, Peru

O boom mundial dos preços das commodities chegou a este ponto: até mesmo o guano, o excremento de aves que foi motivo de uma disputa imperialista em alto-mar no século 19, apresenta forte demanda novamente.

O aumento dos preços de fertilizantes sintéticos e alimentos orgânicos estão deslocando a atenção para o guano, um fertilizante orgânico antes encontrado em abundância nesta ilha e mais 20 outras além da costa do Peru, onde um clima excepcionalmente seco preserva o excremento de aves marinhas como o cormorão e o atobá peruano.

Aves voam ao entardecer em Isla Guanape, litoral norte do Peru
VEJA FOTOS DA RECOLHA DE GUANO

Nas mesmas ilhas onde milhares de presos, desertores do exército e trabalhadores chineses morreram coletando guano há um século e meio, equipes de trabalhadores de língua quechua das montanhas agora raspam o excremento do solo duro e o colocam em barcaças com destino ao continente.

"Nós estamos recuperando parte do último guano que resta no Peru", disse Victor Ropon, 66 anos, um supervisor da província de Ancash cuja pele curtida reflete os anos que passou trabalhando nas ilhas de guano, desde que tinha 17 anos.

"Deve restar uns 10 anos de oferta, talvez 20, e então estará completamente esgotado", disse Ropon, se referindo aos temores de que a população de aves marinhas deverá decrescer acentuadamente nos próximos anos. É um pequeno milagre que algum guano ainda esteja disponível aqui hoje, refletindo um esforço de mais de um século saudado por biólogos como um raro exemplo de exploração sustentável de um recurso antes tão cobiçado, a ponto dos Estados Unidos terem autorizado seus cidadãos a se apossarem de ilhas ou ilhas de corais onde o guano era encontrado.

Enquanto transcorre o debate sobre se a produção global de petróleo atingiu seu pico, pode existir uma parábola na história do guano, com sua disputa marítima, o desenvolvimento de alternativas sintéticas na Europa e um esforço desesperado aqui para impedir que os depósitos fossem esgotados.

"Antes de haver o petróleo, havia o guano, então é claro que travamos guerras por ele", disse Pablo Arriola, diretor da Proabonos, a empresa estatal que controla a produção de guano, se referindo aos conflitos como a Guerra das Ilhas Chincha, na qual o Peru impediu a Espanha de reassumir o controle sobre as ilhas de guano. "Guano é um empreendimento altamente desejoso."

O guano também é um empreendimento inegavelmente árduo do ponto de vista dos trabalhadores que migram para as ilhas para colher o excremento a cada ano. Em cenas que lembram as minas de ouro a céu aberto no continente, os trabalhadores se levantam antes do amanhecer para raspar o guano endurecido com pás e pequenas enxadas.

Muitos trabalham descalços, com seus pés e pernas cobertos com guano quando o turno deles termina no início da tarde. Alguns usam lenços sobre suas bocas e narinas para evitar respirar o pó do guano, que, infelizmente, é quase inodoro fora o leve cheiro de amônia.

"Esta não é uma vida fácil, mas é a que eu escolhi", disse Bruno Sulca, 62 anos, que supervisiona o carregamento de sacos de guano nas barcas na Isla Guanape, além da costa norte do Peru. Sulca e outros trabalhadores ganham cerca de US$ 600 por mês, mais de três vezes o que os trabalhadores braçais ganham nas montanhas.

O comércio de guano do Peru persiste de forma quixotesca após quase ser eliminado pela exploração excessiva. O excremento provavelmente nunca será foco de um boom tão intenso quanto o do século 19, quando os depósitos tinham 45 metros de altura e a receita das exportações representava grande parte do orçamento nacional.

O guano na maioria das ilhas, incluindo a Isla de Asia, ao sul da capital, Lima, agora chega a menos de 30 centímetros de altura. Mas o guano que permanece aqui é cobiçado quando visto no contexto do frenesi no Peru e no exterior em torno de fertilizantes sintéticos, como a uréia, que dobraram de preço, chegando a mais de US$ 600 a tonelada no ano passado.

O guano peruano é vendido por cerca de US$ 250 a tonelada, chegando a US$ 500 a tonelada quando exportado para a França, Israel e Estados Unidos. Apesar do guano ser menos eficiente do que a uréia na liberação de nitratos no solo, seus status como fertilizante orgânico tem provocado o aumento da demanda, o transformando em um fertilizante de nicho de mercado procurado em todo o mundo.

"O guano tem a vantagem de ser livre de produtos químicos", disse Enrique Balmaceda, que cultiva mangas orgânicas em Piura, uma província no norte do Peru. "O problema é que não há o suficiente dele para atender a demanda, com as novas plantações de bananas orgânicas competindo pelo que está disponível."

Isto explica por que o Peru é tão cuidadoso a respeito da preservação do guano restante, um esforço que teve início há um século, com a criação da empresa de Administração do Guano, quando o Peru nacionalizou as ilhas, algumas das quais controladas pelos britânicos, para impedir a extinção da indústria.

De lá para cá, o governo do Peru restringiu a coleta de guano para cerca de duas ilhas por ano, permitindo o acúmulo dos excrementos. Os trabalhadores alisam os montes e constroem muros para reter o guano. Os cientistas até mesmo introduziram lagartos para caçar os carrapatos que infestavam as aves marítimas.

Os administradores do guano até mesmo posicionam guardas armados em cada ilha para afastar as ameaças aos pássaros, que produzem 12 mil a 15 mil toneladas de guano por ano.

"Os pescadores são os responsáveis pelos maiores prejuízos aqui", disse Romulo Ybarra, 40 anos, um dos dois guardas posicionados na Isla de Asia, que caso contrário não teria habitantes regulares. (A ilha tem uma cabine minúscula chamada Casa del Chino, uma referência ao ancestral asiático do ex-presidente Alberto K. Fujimori, que costumava vir aqui para relaxar na solidão.)

"Quando os pescadores se aproximam da ilha, seus motores afugentam os cormorões", disse Ybarra. "E no mar, os barcos pesqueiros pescam as anchovas, algo que não podemos controlar."

A anchova, um peixe de 15 centímetros, é o principal alimento das aves marinhas que deixam seus excrementos nestas ilhas nas quais não chove. O maior temor dos coletores de guano do Peru é que a pesca comercial esgote o estoque delas, que é cada vez mais procurada como ração para aves e outros animais à medida que aumenta a produção de carne na Ásia.

Apesar da população de aves ter aumentado de 3,2 milhões para 4 milhões nos últimos dois anos, este número ainda é minúsculo em comparação às 60 milhões de aves no auge da primeira corrida pelo guano. Diante do encolhimento da população de anchovas, as autoridades da Proabonos estão considerando suspender a exportação de guano para assegurar sua oferta ao mercado doméstico.

Uriel de la Torre, um biólogo especializado na conservação do cormorão e de outras aves marinhas, disse que a menos que alguma medida seja adotada para impedir a pesca excessiva, tanto as anchovas quanto as aves marinhas daqui poderão desaparecer até 2030.

"Seria um final inglório para algo que sobreviveu a guerras e outras coisas estúpidas de autoria do homem", disse De la Torre. "Mas este é o cenário que estamos enfrentando: o fim do guano."

*Andrea Zarate, em Lima, Peru, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

22 de maio de 2008

INOVAÇÃO x TECNOLOGIA – REFLETIR e COMPREENDER + CARLOTA PÉREZ

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 11:29 AM

Entrevista: Carlota Pérez
O melhor está por vir

A economista de Cambridge vira estrela acadêmica com a tese de que uma era de ouro impulsionada pela tecnologia da informação espera o mundo depois da crise

Economistas com visão histórica e capazes de fazer análises consistentes de longo prazo parecem ser uma espécie em extinção. A esse grupo pertence a venezuelana Carlota Pérez, de 70 anos, professora da Universidade Cambridge, na Inglaterra. Seu Revoluções Tecnológicas e Capital Financeiro, de 2002, adquiriu a dimensão de clássico ao colocar o atual momento econômico no contexto das grandes reviravoltas no campo da técnica que ocorrem a cada cinquenta anos, em média. Para Carlota, estamos em plena era da informação, iniciada em 1971 com a produção em série dos chips de computador e sua quase universalização nas três décadas subsequentes, que ela chama de "fase de instalação". Na etapa seguinte, que o mundo começa a viver em breve e pode durar de vinte a trinta anos, as novas tecnologias vão, enfim, produzir o grande salto na qualidade de vida da maioria da população mundial. A esse período Carlota dá o nome de "fase de desdobramento". A crise atual seria, para ela, apenas uma transição dolorosa entre essas duas fases. De seu escritório em Cambridge, ela deu a seguinte entrevista a VEJA.

A crise atual não assusta tanto?
A economia de mercado é naturalmente instável. Quando está no auge, peca pelos excessos; quando está em baixa, autocorrige-se. No entanto, esta crise, em conjunto com o estouro da bolha da internet em 2000, é de uma natureza distinta. Estamos presenciando hoje um colapso de envergadura muito maior que a usual. O atual fenômeno equivale ao pânico provocado pelos investimentos em massa nas estradas de ferro, em meados do século XIX, na Inglaterra, ou à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Colapsos como esses só ocorrem a cada meio século, no meio do caminho de grandes revoluções tecnológicas.

Qual é a relação entre o recente colapso financeiro e o estouro da bolha da internet, no início da década?
O colapso atual representa a continuação da queda da Nasdaq, a bolsa eletrônica de Nova York, mas com outro foco. A bolha da internet baseava-se na inovação tecnológica; a que estourou agora, na inovação financeira. Enquanto o inchaço financeiro foi induzido pela existência de crédito abundante e fácil, o da internet atraía investimentos pela fé no poder das novas tecnologias de proporcionar lucros extraordinários. Em 1929, tudo entrou em colapso ao mesmo tempo. Desta vez, isso aconteceu em dois capítulos. Eu esperava que, depois do estouro da bolha da internet, viessem a regulação financeira e as políticas a favor da expansão produtiva. No meu livro, de 2002, eu já expressava grande preocupação com a continuidade do cassino financeiro. Mas as autoridades não prestaram a mesma atenção.

O que virá depois da atual crise?
Provavelmente um período de bonança, em que o estado voltará a ser um ator mais presente na economia e o capital produtivo vai direcionar os investimentos, tomando o lugar do capital financeiro, como até pouco tempo atrás. Antes de chegar a essa fase, é claro, será preciso superar a recessão que sempre sucede aos desastres.

Quanto tempo pode durar a recessão mundial?
Tudo depende da interpretação que os governos dos países mais ricos darão à natureza dessa crise. Se eles acreditarem que se trata apenas de um problema de falta de confiança do mercado financeiro, vão se empenhar em aplicar políticas superficiais e injetar dinheiro no sistema, para reavivar os mercados de valores e imobiliário. Nesse caso, há duas opções: ou a recessão vai ser muito longa ou surgirá uma nova bolha seguida de um colapso ainda maior. A história mostra que um período recessivo pode durar apenas dois anos, como ocorreu em meados do século XIX, ou quinze anos, como no caso de 1929.

Que políticas parecem mais adequadas neste momento?
Para começar, é preciso reconhecer que não se trata de regressar ao estágio em que estávamos antes do colapso, e sim de dar um passo adiante. Os governos terão de criar um mecanismo regulatório global para as finanças. Dentro dos países, deve-se reformular o mercado financeiro por meio de um conjunto de políticas fiscais e de controle. Os gastos públicos devem ser direcionados para favorecer os investimentos produtivos e inovadores. Os maiores lucros dos investidores têm de passar a vir da produção real. Os lucros fáceis com especulação devem ser contidos com impostos mais altos. Deve-se deixar para trás a máxima "Não trabalhe por dinheiro, deixe que o dinheiro trabalhe para você". Será preciso criar mais e melhores empregos que produzam e distribuam a riqueza segundo outro critério: o esforço empreendedor e de trabalho. O mundo financeiro terá de ser reorientado para criar formas de investir no setor produtivo. O essencial é favorecer a expansão e a inovação na produção.

As bolhas são evitáveis ou são males necessários?
A legitimidade do capitalismo está em fazer da busca pelo enriquecimento individual um benefício para toda a sociedade. Nas bolhas, isso se perde e ocorre uma forte concentração da renda. Os períodos de bonança tendem a reverter esse processo, e por isso mesmo costumam ser chamados de "eras de ouro". Mas as bolhas têm o mérito de construir infraestruturas que ampliam os mercados a custo muito baixo e estabelecem novos paradigmas tecnológicos. Esse período de instalação permite modernizar a indústria e colocá-la em condições de inovar e crescer ainda mais velozmente.

De que forma isso ocorreu nas revoluções tecnológicas do passado?
Quando se fala da Revolução Industrial do fim do século XVIII, na Inglaterra, sempre se pensa na introdução das máquinas têxteis e no enorme salto de produtividade que isso acarretou, mas poucas vezes se menciona a rede de canais de distribuição que permitiu carregar o algodão, o carvão e os produtos por todo o país, passando de um rio a outro e dali para o mar. Essa foi a internet daquele período. Já a revolução tecnológica seguinte, a da máquina a vapor, no século XIX, levou à criação de ferrovias, do telégrafo e do sistema de correio padronizado. Nos anos 1920, começou a substituição dos trens, das carruagens a cavalo e dos vapores pelo automóvel e pelo avião, que necessitavam de uma vasta rede de estradas e aeroportos. Essas novas tecnologias, assim como o rádio, foram objeto de intensa especulação e também contribuíram para o colapso de 1929. As redes de distribuição da primeira Revolução Industrial, as ferrovias do século XIX e as estradas do início do século XX são exemplos de redes de infraestrutura que só se conseguiu construir porque havia grandes investidores dispostos a gastar seu dinheiro em algo que demorou muito para dar lucros operacionais. São investimentos baseados no tudo ou nada: ou há uma cobertura quase completa ou não se obtêm as vantagens prometidas. A disposição ao risco é alimentada pelo entusiasmo que as novas tecnologias despertam e pela expectativa de conseguir gordos lucros. Sempre há algum Bill Gates que se tornou milionário para dar o exemplo. Quando chega o colapso, muita gente perde grandes somas de dinheiro, mas a infraestrutura fica para todos. Portanto, em essência, a grande bolha e seu colapso são uma forma brutal de conseguir o investimento necessário para instalar o novo e destruir o velho. É o que ocorre com a atual revolução, baseada na tecnologia da informação. Ela embute um enorme potencial de criação de riqueza. Se as forças políticas e econômicas entenderem esse processo e estabelecerem as condições sociais adequadas, o que virá em seguida beneficiará a todos.

A senhora pode dar um exemplo?
No ciclo tecnológico anterior, que estabeleceu a produção em massa, a criação do estado de bem-estar social nos países desenvolvidos elevou o salário dos trabalhadores a um nível tal que lhes permitiu ter um lar confortável, cheio de eletrodomésticos, e um carro na porta. Isso, somado à construção em massa de casas a baixo custo, aos bancos de crédito ao consumidor e ao seguro-desemprego, possibilitou décadas de mercados dinâmicos e crescentes que beneficiaram tanto o mundo dos negócios quanto a população como um todo. Um enriquecimento semelhante pode parecer impossível agora, mas as coisas sempre parecem inviáveis quando se está a meio caminho entre uma fase e outra de uma revolução tecnológica.

Que países se sairão melhor da crise atual, os emergentes ou os ricos?
Os anos de bolha financeira permitiram intensificar a globalização, e a alta dos preços das matérias-primas deu fôlego a muitos países emergentes. Há o risco de a contração da demanda golpear mais duramente os países exportadores, mas os ganhos dos últimos anos permitiram a eles colocar-se em uma posição melhor para enfrentar os reveses. Nos países desenvolvidos, porém, a profundidade da tragédia financeira pode ser um fardo demasiado grande para a economia real e, portanto, para a população. Tudo vai depender, como disse, do desenho de políticas adequadas, assim como da determinação política para pôr na linha o mundo financeiro.

O que a América Latina pode fazer para aproveitar melhor a nova fase de ouro da economia que a senhora prenuncia?
Para aproveitar a próxima etapa, é preciso encontrar um espaço tecnológico próprio. A Ásia, em geral, transformou-se na grande linha de montagem do planeta. Esse continente, com mão de obra abundante e recursos naturais escassos, tem vantagens insuperáveis no setor manufatureiro, que cobre de produtos eletrônicos a têxteis. A América Latina, por sua vez, é um subcontinente muito rico em recursos naturais e com pequena densidade populacional. As indústrias de processamento, da agroindústria à metalurgia e química, são um espaço de especialização e inovação repleto de oportunidades.

Não é um papel menor?
Os recursos naturais, em um mundo globalizado, jamais serão baratos. Ainda que seus preços caiam com a recessão, os limites da oferta sempre serão uma barreira contra prejuízos. Além disso, o mundo das commodities já não se limita às matérias-primas tradicionais. Basta entrar em um supermercado moderno para verificar como a combinação de recursos naturais com tecnologia o ampliou. Ao mesmo tempo, podemos esperar que o processo de globalização, que hoje favorece a Ásia, sofra uma inversão à medida que o custo das matérias-primas e da energia suba. Gradualmente, o gasto com transporte de matérias-primas até aquele continente, e depois dos produtos lá fabricados até os mercados consumidores dos Estados Unidos e da Europa, se tornará relevante em comparação com o custo da mão de obra. Não é improvável, ainda, que o mundo imponha impostos à emissão de gás carbônico – o que encarecerá a produção asiática. Tudo isso vai redesenhar o processo de globalização. Com a estratégia correta, os países latino-americanos podem complementar-se, aproveitando a disponibilidade de recursos de cada um. As nações do subcontinente deveriam, assim, adotar uma estratégia conjunta para aproveitar suas características específicas. A especialização em ciências da vida e de materiais nos colocaria em posição vantajosa para a próxima revolução tecnológica, baseada em biotecnologia, bioeletrônica e nanotecnologia. O Brasil tem ótimas condições para assumir a liderança desse processo.

Por quê?
O tamanho da economia e o potencial do mercado interno, a diversificação da indústria, a capacidade tecnológica e o fato de muitas empresas brasileiras terem vocação global fazem com que o país se destaque no conjunto latino-americano. O Brasil reúne todas as condições necessárias para ter êxito em muitas frentes. Para aproveitar todo esse potencial, o país precisa ainda ampliar suas já extraordinárias conquistas obtidas nos setores de petróleo, química, metalurgia, agropecuária e biotecnologia.

 
 

Publicada em 28 de julho 2008

Brasil visto de fora
Banco Mundial diz que falta de inovação é fator de atraso para
o País; Demos elogia conhecimento agregado a recursos naturais

Brazil, The Natural Knowledge Economy
Brasil, Naturalmente Economia do Conhecimento
Por Kirsten Bound
Publicado por Demos

Knowledge and Innovation for Competitiveness
Conhecimento e Inovação para a Competitividade
Por Alfredo Rodríguez, com Carl Dahlman e Jamil Salmi
Publicado pelo Banco Mundial

Inovação traz a seus leitores dois documentos que, cada um a seu modo, descrevem o Estado da Inovação no País. O relato otimista elaborado pela organização Demos, do Reino Unido – que contou com a participação do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos –, encontrou um ponto forte brasileiro nas áreas em que conhecimento produzido aqui foi aplicado à agricultura, em especial. Um destaque do texto é para o Estado de São Paulo, definido como "um outro país". O estudo sobre o Brasil faz parte de um projeto da think tank, Atlas of Ideas, cujo primeiro volume tratou de C&T na China e na Índia.

Por outro lado, o relato mais pessimista do Banco Mundial chama atenção para o fato de que, entre China, Índia, Irlanda, Coréia do Sul e Rússia, o Brasil é aquele com menor taxa de crescimento ao ano na última década (2,5% ao ano, até 2007). O documento também enfatiza a necessidade de atrair o setor privado a investir mais fortemente em inovação, em áreas novas e de maior risco, que possam levar o País a "não perder a oportunidade de se tornar um sério, diversificado competidor global". No Capítulo IV, "Assessing Innovation at the National Level", há interessante comparação entre os sistemas de inovação na Rússia e no Brasil. O anexo sobre ensino superior mostra o Brasil atrás de quase todos os países da América Latina, o que é preocupante. Uma das recomendações do estudo, que encerra seu sumário executivo, afirma ser necessária uma campanha de massas para "acordar" os brasileiros para o tema da inovação.

Brazil, The Natural Knowledge Economy

Knowledge and Innovation for Competitiveness

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 April 25, 2008,  1:14 pm

How Can We Measure Innovation? A Freakonomics Quorum

By Stephen J. Dubner

There’s one theme that we’ve touched on repeatedly in our Times columns and on this blog, and which we’ll devote considerable space to in SuperFreakonomics: how technological innovation and robust markets tend to fix a lot of problems that seem unsolvable.

In the business community, “innovation” is a buzzword of the highest order (so high, in fact, that some people run screaming the moment they hear it mentioned). See, for instance, Fortune’s innovation blog.

For all the talk, however, there remains the murky issue of how to properly measure innovation. The Department of Commerce, which has begun addressing this challenge, has this to say:

The United States today is more than 75 percent wealthier in terms of real G.D.P. per capita than it was 30 years ago, which is largely attributable to productivity gains driven, in large part, by innovation.

We gathered up a group of people who think about this issue — Ashish Arora, John Seely Brown, Seth Godin, Bill Hildebolt, Daphne Kwon, and Mark Turrell — and asked them directly:

How can a company measure innovation?

Here are their answers. Many thanks for their participation and insights. CONTINUA

 
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Volume 10, Number 4 · February 29, 1968

Teacher of Teachers

By David Hawkins
Lectures in the Philosophy of Education, 1899
by John Dewey, edited and with an Introduction by Reginald D. Archambault

Random House, 366 pp., $7.95

Democracy and Education
by John Dewey

Free Press, 378 pp., $2.45 (paper)

The Dewey School
by Katherine Camp Mayhew, by Anna Camp Edwards

Atherton, 477 pp., $3.95 (paper)

John Dewey as Educator: His Work in Education 1894-1904
by Arthur G. Wirth

John G. Wiley, 322 pp., $6.95

John Dewey
by Richard J. Bernstein

Washington Square Press, 213 pp., $3.95

About the long-run importance of John Dewey’s philosophy there is not yet any consensus, though it is not too soon for advocacy. The appearance of these five books—two of them reprints—suggests at least that Dewey will be read again, and not be just a rumor.

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Volume 12, Number 11 · June 5, 1969

Marxism: For and Against

By Robert L. Heilbroner
Marxist Economic Theory
by Ernest Mandel

Monthly Review Press, 797, (2 vols) pp., $15.00

I suppose it should not be surprising that Marxian economic theory is little studied in the United States; I understand that the works of Paul Samuelson are largely ignored in the Soviet Union. Yet there is a reason for the lack of attention paid to Marxian economics in our universities, beyond their heretical nature. It is because so much of the work of Marx is either impossibly difficult to understand or—to mention the unmentionable—terribly boring to study.

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Volume 53, Number 7 · April 27, 2006

The Global Delusion

By John Gray

Globalization and Its Enemies
by Daniel Cohen, translated by Jessica B. Baker

MIT Press, 192 pp., $27.95

How We Compete: What Companies Around the World Are Doing to Make It in Today’s Global Economy
by Suzanne Berger and the MIT Industrial Performance Center

Currency/Doubleday, 334 pp., $27.50

End of the Line: The Rise and Coming Fall of the Global Corporation
by Barry C. Lynn

Doubleday, 312 pp., $26.00

1.

For the past two centuries leading social theorists have believed that modern development can have only one outcome. In the nineteenth century Karl Marx, Herbert Spencer, and Auguste Comte asserted that the advance of science and technology was leading to a single type of social organization, and unless modern societies foundered in a reversion to barbarism they were bound to converge in a global system. There was wide disagreement on the nature of the system that was coming into being. According to Comte it would be a kind of technocracy, while Marx believed it would be egalitarian communism and Spencer laissez-faire capitalism. In each case it was a version of industrial society that enabled scarcity in the necessities of life to be overcome. Despite their different political visions these thinkers were at one in assuming that with the advent of industrialization prosperity could be ensured for all. Once this had been achieved, war would cease and a universal economic system would replace the diverse and conflicting regimes of the past.

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Volume 54, Number 19 · December 6, 2007

The Wrecking Ball of Innovation

By Tony Judt

Robert Reich

Supercapitalism: The Transformation of Business, Democracy, and Everyday Life
by Robert B. Reich

Knopf, 272 pp., $25.00

Supercapitalism is Robert Reich’s account of the way we live now. Its story is familiar, its diagnosis superficial. But there are two reasons for paying attention to it. The author was President Clinton’s first secretary of labor. Reich emphasizes this connection, adding that "the Clinton administration—of which I am proud to have been a part—was one of the most pro-business administrations in American history." Indeed, this is a decidedly "Clintonesque" book, its shortcomings perhaps a foretaste of what to expect (and not expect) from another Clinton presidency. And Reich’s subject—economic life in today’s advanced capitalist economy and the price we are paying for it in the political and civic health of democracies—is important and even urgent, though the "fixes" that he proposes are unconvincing.

Reich’s theme goes as follows. During what he calls the

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Volume 17, Number 7 · November 4, 1971

Machines Without a Cause

By Tom Bottomore
Technological Change: Its Impact on Man and Society
by Emmanuel G. Mesthene

Harvard (Harvard Studies in Technology and Society), 127 pp., $4.95

La Civilisation au carrefour
by Radovan Richta

Editions Anthropos, 466 pp., 36 Frs.

Innovations: Scientific, Technological and Social
by Dennis Gabor

Oxford, 113 pp., $4.95

Run, Computer, Run: The Mythology of Educational Innovation
by Anthony G. Oettinger, by Sema Marks

Harvard (Harvard Studies in Technology and Society), 302 pp., $5.95

Overskill: The Decline of Technology in Modern Civilization
by Eugene S. Schwartz

Quadrangle, 338 pp., $8.95

In the space of a few decades men have attained, in great measure, a goal which was long anticipated and desired. They have become, in Descartes’ phrase, ‘the masters and possessors of nature.’ A scientific and technological revolution, which continues at an accelerating pace, has already largely accomplished the substitution of knowledge for physical labor as the principal force of production, and we live in the conditions which Marx, over a century ago, saw as the final outcome of capitalist production: ‘The process of production has ceased to be a process of labor…. It is man’s productive powers in general, his understanding of nature and his ability to master it, which now appear as the basis of production and wealth.’[1]

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Volume 13, Number 2 · July 31, 1969

A Special Supplement: Technology: The Opiate of the Intellectuals

By John McDermott

Program on Technology and Society
Fourth Annual Report: 1967-8

Harvard, 96 pp., distributed free

If religion was formerly the opiate of the masses, then surely technology is the opiate of the educated public today, or at least of its favorite authors. No other single subject is so universally invested with high hopes for the improvement of mankind generally and of Americans in particular. The content of these millennial hopes varies somewhat from author to author, though with considerable overlap. A representative but by no means complete list of these promises and their prophets would include: an end to poverty and the inauguration of permanent prosperity (Leon Keyserling), universal equality of opportunity (Zbigniew Brzezinski), a radical increase in individual freedom (Edward Shils), the replacement of work by leisure for most of mankind (Robert Theobald), fresh water for desert dwellers (Lyndon Baines Johnson), permanent but harmless social revolution (Walt Rostow), the final comeuppance of Mao Tse-tung and all his ilk (same prophet), the triumph of wisdom over power (John Kenneth Galbraith), and, lest we forget, the end of ideology (Daniel Bell).

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A tendência concentradora da produção de conhecimento no mundo contemporâneo* –

Réplica

Fernando Antônio Ferreira de Barros –

REVISTA PARCERIAS ESTRATÉGICAS – Nº 25, DEZ2007

Propriedade intelectual e plantas transgênicas: discussões atuais sobre ciência, tecnologia e inovação Simone Yamamura, Sergio Luiz Monteiro Salles Filho, Sergio Medeiros Paulino de Carvalho …….. 151 – REVISTA PARCERIAS ESTRATÉGICAS – Nº 25, DEZ2007

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http://www.nybooks.com/articles/11253

Volume 13, Number 2 · July 31, 1969

A Special Supplement: Technology: The Opiate of the Intellectuals

By John McDermott

Program on Technology and Society
Fourth Annual Report: 1967-8

Harvard, 96 pp., distributed free

If religion was formerly the opiate of the masses, then surely technology is the opiate of the educated public today, or at least of its favorite authors. No other single subject is so universally invested with high hopes for the improvement of mankind generally and of Americans in particular. The content of these millennial hopes varies somewhat from author to author, though with considerable overlap. A representative but by no means complete list of these promises and their prophets would include: an end to poverty and the inauguration of permanent prosperity (Leon Keyserling), universal equality of opportunity (Zbigniew Brzezinski), a radical increase in individual freedom (Edward Shils), the replacement of work by leisure for most of mankind (Robert Theobald), fresh water for desert dwellers (Lyndon Baines Johnson), permanent but harmless social revolution (Walt Rostow), the final comeuppance of Mao Tse-tung and all his ilk (same prophet), the triumph of wisdom over power (John Kenneth Galbraith), and, lest we forget, the end of ideology (Daniel Bell). CONTINA……

15 de maio de 2008

POLÍTICA INDUSTRIAL III – RECUPERAÇÃO DA CRISE

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 6:29 AM
 
 
 

Ainda o primeiro ano do resto das nossas vidas

David Kupfer
29/04/2009
Com o título "O primeiro ano do resto das nossas vidas", a coluna anterior, publicada em 1º. de abril, buscou sugerir algumas condições de contorno para a análise das perspectivas da indústria brasileira após o crash de 2008. O centro do argumento desenvolvido estava baseado na convicção de que, para além da convergência das expectativas quanto à necessidade de dois a três anos para que os níveis de atividade pré-crise sejam retomados, o pós-crise vai se dar em um quadro estruturalmente distinto. Nesses novos fundamentos estruturais tenderão a prevalecer, pelo lado da demanda, mudança nos padrões de consumo de volta a uma ressegmentação baseada em diferenciação de produtos; pelo lado da oferta, forte processo de concentração do capital por meio de fusões e aquisições de empresas; e, pelo lado da regulação, não só mais ativismo do Estado como, principalmente, mais seletividade na sua atuação, o que significará mudança de orientação das políticas industriais adotadas pelos países mundo afora.

Tentando extrair implicações para a indústria brasileira, a coluna enfocou possíveis modificações nas diferentes trajetórias estruturais que os diversos setores vinham percorrendo quando da eclosão da crise: nos setores da base da indústria, o retorno da equação da geração de valor ao seu sentido histórico, no qual os produtos mais elaborados são mais valorizados do que os mais básicos, poderá significar a quebra da espinha dorsal da estratégia de aposta nos produtos menos elaborados que vinha sendo adotada pela nata das empresas brasileiras; para os setores do topo da indústria, também estará em cheque e precisará ser revista a estratégia de expansão quase que totalmente dependente de tecnologias incorporadas em insumos e equipamentos importados.

Devido às limitações de espaço, não foi possível abordar nessa análise uma parte muito importante da atividade industrial nacional, localizada entre a base e o topo, que denomino de "miolo da indústria". Formado essencialmente pela indústria tradicional, é constituído por grande número de setores, produtores tanto de insumos e componentes industriais (produtos de metal, embalagens e peças plásticas, químicos diversos e material elétrico, dentre outros) quanto de bens de consumo (alimentos, têxtil e calçados, artefatos plásticos e móveis, dentre outros). Em comum, reúne atividades de menor conteúdo tecnológico e poucos requisitos de escala mínima de produção, o que favorece a variedade empresarial e permite a convivência de empresas de diferentes tamanhos, produtos, capacitações e desempenhos.

No Brasil, historicamente, o miolo da indústria abriga cerca de 70% das empresas, em torno de 60% do pessoal ocupado total e pelo menos um terço do valor adicionado pela atividade industrial. Diferente dos setores da base, que vinham se beneficiando da exuberância da economia mundial e dos setores do topo, que estavam conseguindo responder com a ampliação da integração internacional, os setores do miolo, mesmo no auge cíclico, enfrentavam quadro pouco favorável, evidenciado pelas taxas de crescimento menores que a média da indústria e pelo rápido aumento da penetração de importações. De fato, sobre o miolo da indústria estavam – e estão – concentradas as principais fragilidades competitivas da economia brasileira, sejam as decorrentes das limitações de capacitação produtiva, tecnológica e gerencial das empresas, sejam as de fatores mais sistêmicos como os custos crescentes da infraestrutura, o problemático acesso a capital, as conhecidas distorções tributárias e, especialmente, a taxa de câmbio ultravalorizada.

Não sem razão, o miolo é a parte da indústria brasileira em que se fazia mais visível a gradual perda de densidade das suas cadeias produtivas, fato embasado por números que mostram que nos últimos dez anos houve uma perda de cerca de dez pontos percentuais no peso desses setores na matriz industrial do país. Particularmente desfavorável vinha sendo a situação experimentada pelos setores do miolo que são produtores de insumos industriais. No caso da produção de bens de consumo, o ambiente competitivo era menos hostil devido a uma dose de proteção natural decorrente do vigor ainda exibido pelos valores culturais brasileiros e, talvez mais importante, em vista das relevantes transformações que estavam sendo provocadas pela ascensão das classes C e D ao núcleo de consumo da economia brasileira. Isso porque o setor do grande varejo nacional vinha buscando responder à rápida massificação do consumo no mercado interno com um esforço de desenvolvimento de fornecedores locais que estava, em parte, contrabalançando a tendência geral de aumento do global sourcing.

Para o miolo da indústria, o desafio implícito à saída da crise significará mais uma volta no parafuso que aperta a pressão por aumentos de qualidade e produtividade. Preocupa a possibilidade de que, na ausência do apoio de políticas públicas eficazes, a resposta factível para esse segmento limite-se a um processo de modernização polarizado, em que um pequeno número de grandes empresas consegue evoluir enquanto a maior parte do sistema empresarial é levada para a precarização, informalização ou outras estratégias não virtuosas de redução de custos, recolocando em cena uma trajetória anterior, muito pouco desejável, que foi típica dos anos 1990. Essas preocupações são reforçadas pelos impactos que a crise mundial poderá ter sobre os sistemas produtivos de processamento de exportações altamente fragmentados implantados na Ásia que, para escapar dos riscos de desarticulação trazidos pelas novas condições da demanda internacional, poderão responder por meio de estratégias agressivas de cortes de preços. Como agravante, a isso poderá se somar os efeitos da crise no mercado de trabalho, que certamente impactarão negativamente o mecanismo de compensação que vinha sendo operado pelas redes de varejo brasileiro, levando-as a optarem pelos fornecedores internacionais e aprofundamento a penetração de importações nesses segmentos do miolo da indústria.

Em suma, quando a economia mundial retomar, o fará com base em quadro estruturalmente distinto. O Brasil é um dos poucos países que podem conciliar objetivamente as condições requeridas para desenvolver simultaneamente a base, o miolo e o topo da indústria. No momento em que a Política de Desenvolvimento Produtivo, a política industrial do atual governo, completa seu primeiro ano, essas reflexões talvez possam ser úteis para o necessário trabalho de reformulação de suas metas, diretrizes e ações.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. www.ie.ufrj.br/gic E-mail: gic@ie.ufrj.br)

 
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Folha – 25mai2008
ARTIGO

Tiro no pé

MARCOS DE BARROS LISBOA
ESPECIAL PARA A FOLHA

NOS ÚLTIMOS dois anos, para surpresa e crítica de muitos analistas, a equipe econômica tem anunciado seguidamente propostas que aparentemente conflitam com os fundamentos da política em vigor. Não poucas vezes, a proposta se revela ausente de solidez técnica. No entanto, a seqüência de propostas não tem por objetivo, necessariamente, produzir efeitos econômicos. Desde 2003, há um inevitável desconforto em setores da esquerda com uma política econômica oposta às suas tradicionais palavras de ordem. A ausência de uma alternativa consistente e os resultados da política em vigor têm levado parcela da sociedade, e mesmo alguns economistas de esquerda, a defender posições que até recentemente eram identificadas como a essência do neoliberalismo, como, por exemplo, maior superávit primário.
No debate público, os símbolos são tão importantes quanto os fatos. Parte do governo procura enfrentar o desconforto com propostas que permitam argumentar a sobrevivência de algum resquício do velho discurso. Por isso, a relevância de anúncios que ao menos sugiram a aparência de uma prática distinta. Trata-se da tentativa de criar a impressão de algum aspecto à esquerda em uma política essencialmente tradicional, mesmo que seu impacto seja apenas retórico.
Entretanto, a política econômica da entrevista coletiva, caso utilizada exageradamente, não afeta apenas a militância. Os anúncios ansiosos de que algo será feito (ainda que nada muito relevante, até agora, tenha ocorrido) aumentam a volatilidade dos preços dos ativos e reduzem a segurança para os investimentos de longo prazo.
A ansiedade com o aumento da taxa de juros, por exemplo, gerou diversas propostas que se contrapunham à política monetária, mas que terminaram tendo um efeito perverso: ao contrário do pretendido, o resultado foi a piora tanto da curva de juros como das expectativas, ampliando as conseqüências negativas do ajuste monetário.
O debate sobre metas de inflação em meados do ano passado, as seguidas medidas sobre o crédito, os ajustes tributários que distorcem preços relativos e a série de debates sobre propostas pouco fundamentadas apenas fragilizam, desnecessariamente, as perspectivas econômicas para o próximo ano. Os aumentos do IOF, por exemplo, tiveram como efeito colateral encarecer o financiamento para as empresas, indo na direção contrária à ampliação da capacidade de crescimento sustentável. Pior, essa seqüência de propostas veio precisamente em um momento difícil da economia internacional, que encareceu o crédito e reduziu o acesso à liquidez.
Os adequados fundamentos econômicos, depois de vários anos de uma política consistente, e a firmeza do presidente nos momentos mais críticos têm garantido o bom desempenho da produção e do emprego.
Entretanto, o ajuste macroeconômico neste momento um pouco mais difícil poderia ser bem menos custoso não fossem os ruídos desnecessários que têm sido gerados seguidamente. Na condução da política econômica, muitas vezes, silêncio e serenidade auxiliam mais do que ativismo e declarações sucessivas. Sobretudo quando não se tem nada a dizer.


MARCOS LISBOA , 43, doutor em economia pela Universidade da Pensilvânia (EUA), é diretor-executivo no Unibanco. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda de 2003 a 2005 e diretor-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) de 2005 a 2006.

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FOLHA DE SÃO PAULO, 19MAI2008
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Política industrial e câmbio

A POLÍTICA industrial que o governo anunciou na última semana merece apoio porque envolve um conjunto de medidas que estimularão o desenvolvimento tecnológico e a competitividade da indústria nacional. É uma política desenvolvimentista da melhor estirpe, semelhante às políticas que outros países adotam para promover sua indústria. Nenhum país rico deixa de apoiar suas empresas, não há razão para que não o façamos também. Entretanto, conforme observou o jornal "Valor" (13/5), "a segunda versão da política industrial do governo Lula é uma continuação ampliada da primeira, cujos resultados foram escassos". E o jornal prevê que o mesmo destino está reservado a essa segunda versão. CONTINUA………………

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Dani Rodrik is producing some very interesting stuff these days. Below the fold are extensive extracts from his new paper Industrial Development: Stylized Facts and Policies. Trust me, it’s more exciting than it sounds. The main message, for me, is the importance to development of increasing the ’sophistication’ of manufactured exports, and the importance to that in turn of learning, spillovers and technology transfer. There’s also some good theory on why the results of import liberalisation have been so disappointing in many cases. He contrasts the failure of governments like those in Latin America who, following orthodox advice, tried to just ‘get out of the way’ of businesses and watched their economies stagnate with the deliberately interventionist (though not always in the ways you might expect) approach adopted by the more succesful East Asian countries.

Economic globalization has greatly increased the premium on manufacturing, particularly of the exportable kind. In recent decades rapidly growing developing countries have been able to grow much faster than earlier antecedents (Britain during the industrial revolution, the United States during its catch-up with Britain in the late 19th century, or European recovery in the postwar period). The reason for this is that world markets provide near-limitless demand for manufactured exports from developing countries. An expansion of non-tradables is self-limiting, as the domestic terms of trade eventually turns against non-tradables, choking off further investment and growth. And there are natural limits to export-led growth based on primary products, as country after country has discovered. Developing countries exporting manufactured products do not face such limits as long as they can latch on to new activities which face dynamic demand in rich countries’ markets.

Despite all this, recent economic thinking on policy reforms pays scant attention to structural transformation and industrial development. The implicit view is that once the “economic fundamentals”—macroeconomic stability and well-functioning markets—are in place, structural transformation is an automatic process. As long as an economy is open to international trade, comparative advantage directs resources to where their contribution to national product is maximized. And even though there is a long tradition of studies on the natural-resource curse, contemporary thinking on policy has been very reluctant to favor some economic activities over others. Economic policies promoting manufacturing, or some manufacturing sub-sectors over others, are still frowned upon. In reality, the expansion of manufacturing activities in low-income environments is fraught with externalities and spillovers of all kind. Entrepreneurs who make investments in non-traditional economic activities provide valuable demonstration effects for prospective entrants, they train workers and managers who can be employed in other firms, they generate technological learning which they cannot fully appropriate, and they provide inputs (and demand) for other activities which may not have started up otherwise. The social value of such investments greatly exceeds their private value…

I begin by presenting some important empirical regularities that recent research on patterns of economic growth has highlighted. These regularities underscore the importance of industrial development as an engine of economic growth. None of them will come as a big surprise to close observers of developing countries…

1. Economic development requires diversification, not specialization …

2. Rapidly growing countries are those with large manufacturing sectors …

3. Growth accelerations are associated with structural changes in the direction of manufacturing …

4. Specialization patterns are not pinned down by factor endowments …

5. Countries that promote exports of more “sophisticated” goods grow faster …

6. There is “unconditional” convergence at the level of individual products

One reason that latching on to more sophisticated manufactured products promotes growth is that such products have productivity frontiers that are further away and therefore present greater room for technological catch-up. By starting to produce goods that countries much richer than them are currently producing, poor countries enlarge the scope of productivity improvements. Convergence in productivity levels with rich countries becomes an important force for economic growth.

This claim needs some explanation. Begin first with the neoclassical model of economic growth, which posits that countries have access to the same technologies. In this model, poorer countries converge to the income levels of rich countries through a process of human and physical capital accumulation. This theoretical prediction has found little support in the data, however. When one looks at the cross-national evidence on growth, there is no indication that poorer countries grow systematically more rapidly than richer countries.

This kind of convergence exercise is usually performed on aggregate data, typically GDP per capita. When Hwang (forthcoming) recently carried out a similar exercise using detailed, product-level data, he made a surprising and important discovery: economic convergence at the level of individual products is unconditional. In other words, when a country starts to produce a particular good, the productivity with which that good is produced—measured by either labor productivity or unit prices (an indicator of product quality)—converges to the frontier for that good unconditionally, regardless of any of the characteristics of the country in question. Moreoever, the rate of convergence is quite rapid.

Note how different this finding is from the conditional convergence results that dominate the work on economic growth. The message of the conditional convergence literature is as follows: “what you need to do to converge to the income levels of rich countries is to get your policies and institutions in order.” Hwang’s (forthcoming) results say: “what you need to do to converge is to get a foothold in the goods that rich countries produce.” The absence of unconditional convergence at the aggregate level must be due, in turn, to structural features of low-income economies. Poor countries remain poor because they are not producing the kind of goods that will carry them towards riches …

countries starting to produce low unit-value goods within a product category will eventually experience significant increases in their unit values. In fact, the lower the unit value you start out with, the greater is the growth you will experience. And this will happen more or less automatically, without any special supportive policies in place.

But what is far from automatic is getting these new industries off the ground in the first place. Unconditional convergence kicks off only after entrepreneurs (and sometimes the state) decide to undertake the investments needed to get an industry going. And as we know, the process of economic diversification is rife with market failures. Coordination and learning externalities of many kinds block investment and entrepreneurship in new activities.

7. Some specialization patterns are more conducive to others in promoting industrial upgrading …

I present a model that illustrates the key features discussed earlier and elucidates some of the policy issues that arise in this context. The central idea behind the model is that growth is driven through learning and enhanced capabilities accumulating in the industrial sector …

In principle, one of the main advantages of import liberalization is that it ends up stimulating the production of exportables. By the Lerner symmetry theorem, removing import restrictions is tantamount to removing restrictions on exports. That is good news in the kind of framework modeled above, where exportables are a source of learning and productivity spillovers. But the model also identifies two important sources of bad news for import liberalization. First, to the extent that production of importcompeting goods is also a source of productivity spillovers, import liberalization works at cross purposes with the need to generate new learning. Second, and more subtly, when only nontraditional exportables generate learning spillovers, import liberalization is also a very blunt instrument for producing the desirable export response.

The second point is an important one that is often overlooked in policy discussions, so it is worth spending some time on it. The fundamental rationale of the Lerner Symmetry theorem is a general equilibrium one. When import tariffs are removed, the resources released by import competing activities have to be deployed elsewhere in the economy. When aggregate demand is managed appropriately so that neither unemployment nor trade deficits are allowed to become problems, exportables constitute those activities “elsewhere.” But the theorem says nothing about the composition of the export supply response, which will depend on the supply elasticities of different export activities in general equilibrium. In the context of our model, we have two types of exportables, with the one that matters for growth being the non-traditional type. If import liberalization stimulates mainly traditional exports (say garments or agricultural products with minimal processing) rather than non-traditional products, the end result is bound to be disappointing. We end up with export growth but with little economic growth overall …

We are now in a better position to understand why across-the-board import liberalization, of the type that countries in Latin America and elsewhere adopted in the late 1980s and thereafter have produced such disappointing results. While not intended that way, these reforms weakened the industrial base of their economies, and reduced productive dynamism overall. They squeezed the import-competing sectors without sufficiently stimulating new non-traditional exportables. We see the results in poor figures for growth and economy-wide TFP.

Contrast now the Latin American reform strategy with the archetypal Asian one. Asian countries reformed their economies in a different way, by focusing initially on providing nontraditional export activities direct inducements and subsidies. The specific policies employed varied, from export subsidies (in South Korea and Taiwan in the 1960s) to export processing zones (in Singapore and Malaysia in the 1970s) to Special Economic Zones (in China in the 1980s and 1990s). But in each case the focus was on targeted new exportables, rather than on import liberalization. In fact, in all of these countries, significant import liberalization was undertaken only after growth had reached a significant momentum …

The robust industrial base which generates economic growth requires strategic policies directed specifically to new economic activities. The trickledown effects of import liberalization cannot be relied on to produce the intended effects. That is a key lesson from the comparative experience with policy reform …

The preceding discussion points to a two-pronged strategy in support of industrial development. What is needed is both a robust industrial policy targeted at new exportables, and a supportive exchange-rate policy that promotes production of tradables across the board. Without a relatively stable and competitive exchange rate, it is practically impossible to induce investment and entrepreneurship in tradables of any kind. But without more directly targeted industrial policies, exchange rate policies alone cannot be a very powerful tool for promoting diversification. A cheap domestic currency helps both traditional exporters and non-traditional ones. The secret of the success of high-growth economies lies in a combination of these two types of policies.

Let me end with one word on industrial policy, since there is much opposition to (and confusion on) this kind of policy intervention. What I understand by “industrial policy” is not an effort by the government to select particular sectors and subsidize them through a range of instruments (directed credit, subsidies, tax incentives, and so on). The critics of industrial policy are correct when they argue that governments do not have adequate knowledge to pick “winners.” As discussed in Rodrik (2004), industrial policy is more appropriately conceived as a process whereby the state and the private sector jointly arrive at diagnoses about the sources of blockage in new economic activities and propose solutions to them. Industrial policy requires the government to take an ex-ante stand neither on the activities to be promoted nor on the instruments to be deployed. It simply requires it to build the public-private institutional arrangements whereby information on profitable activities and useful instruments of intervention can be elicited.

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http://www.inovacao.unicamp.br/report/noticias/index.php?cod=259

Publicada em 22 de abril 2008

Conjuntura Econômica
Continua a série de Inovação: como o crescimento recente do País,
baseado em mercado interno e commodities, influi em P&D&I?

Janaína Simões

"Há inércia e relativa lentidão na resposta da estrutura industrial brasileira a desafios dessa natureza", afirmou David Kupfer, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre o papel da inovação no crescimento recente do País. Ele é o quarto economista entrevistado na série de Inovação Unicamp sobre as perspectivas para inovação, pesquisa e desenvolvimento no cenário atual da economia brasileira. 

"O discurso, a retórica da inovação, ganha uma densidade, uma generalidade, que não imaginávamos ser possível quando, na década de 1980, na academia, começamos a insistir na importância schumpeteriana da inovação na criação, destruição, dinamização do processo econômico", destaca Kupfer. Ele faz uma analogia com o que ocorreu em relação à questão da qualidade no início da década de 1980. A preocupação com qualidade, segundo ele, ajudou a indústria brasileira a dar um salto, a introduzir técnicas de garantia e controle de qualidade, aprimorando processos produtivos e produtos, o que, em parte, permitiu o salto exportador que aconteceu agora, 20 anos depois de as idéias sobre qualidade e tecnologia industrial básica terem surgido no País. Mas o economista afirma ter muito pouco de inovação nesse salto.

"O fato de a inovação ter se tornado uma peça de discurso, mesmo que de retórica, mas com grau de generalidade tão grande, significa que os empresários vão buscar incluir em sua agenda estratégica a inovação. Ao mesmo tempo, não vejo uma capacidade de resposta rápida da estrutura industrial brasileira", comenta. Kupfer diz que os elementos de inércia vão predominar e aposta que a inovação vai ganhar certo espaço, mas numa linha voltada para a modernização, e, portanto, relacionada a tecnologias incorporadas, e não propriamente a um crescimento exponencial ou rápido no esforço de pesquisa da indústria brasileira.

David Kupfer, da UFRJ

O senhor disse que não vamos aumentar as atividades de inovação por meio do incremento de atividades de pesquisa na indústria. Por quê?
A indústria brasileira não reuniu massa crítica ainda e nem parece ter uma inserção econômica, no cenário internacional, que permita a ela ter as atividades de pesquisa como base das estratégias de competição das empresas. As empresas brasileiras ainda estão, na melhor hipótese, na fase de buscar competir por custo, usando elementos de qualidade e diferenciação de produtos. Estão muito distantes de ter competência, capacitação para disputar mercados na base da inovação stricto sensu, porque isso é muito custoso e exige elementos de estrutura que são incipientes no Brasil.

Que elementos de estrutura seriam esses?
A inovação é mais exigente em capacidade laboratorial, em capacitação para recursos humanos, em sistema de educação superior e de pós-graduação, em estrutura de informação tecnológica. Depende pesadamente da constituição de um sistema nacional de inovação de que tanto se fala e que aos poucos está avançando. No futuro, será mais fácil estabelecer as conexões desse sistema. A indústria brasileira mudou nas questões relacionadas à inovação nos últimos dez anos. Temos mais experiências, ainda tópicas, isoladas, mas, ainda assim, um maior número de episódios de empresas envolvidas com estratégias de inovação.

Mas ainda uma inovação mais incremental, não?
Passamos da modernização, da imitação, da tecnologia incorporada para inovações incrementais. Não vejo massa crítica científica para inovações mais radicais. Será uma etapa para o futuro. É uma questão muito mais da produção e da oferta de conhecimento.

Um lugar comum entre nós é dizer que a posição brasileira é boa quando se trata da produção científica: seriam bons os indicadores de publicação, de formação de mestres e doutores…
Não vejo conexão entre o mundo da ciência brasileira e o da produção. Nossos programas de pesquisa estão voltados para questões que mimetizam programas de pesquisa internacionais, e nosso sistema de incentivos para pesquisa hoje em dia favorece isso. O setor de petróleo é uma exceção. Seu sistema de pesquisa está focado em gerar inovação na indústria local. Temos um maior número de episódios bem-sucedidos, nesse nível de sistemas setoriais de inovação, como petróleo, alguma coisa em determinadas áreas de genética e biotecnologia para agricultura e saúde, em bioquímica, em aeronáutica e aeroespacial, em materiais. Alguns sistemas setoriais ganharam mais sinapses. Nesse momento temos alguns elos, mas não os nós da rede. Essa é a questão do País para os próximos dez anos, fazer a ligação desses diversos sistemas entre si.

Temos inovação no crescimento recente do País? De que forma esse crescimento ajudou em relação à inovação?
Na fase do investimento, incorpora-se tecnologia por meio de máquinas. No ciclo econômico, nas fases mais aquecidas há substituição tecnológica. À medida que a tecnologia incorporada vai se tornando up-to-date e esses episódios bem-sucedidos de esforço inovador ganham mais dimensão, podemos criar a massa crítica para estratégias tecnológicas mais ousadas. Contudo, esses episódios isolados podem também fracassar e retroceder, alguns sistemas setoriais de inovação mais fortes podem enfrentar dificuldades econômicas. Aí, estaremos mais dependentes da tecnologia incorporada.

Em que tipo de cenário essa reversão pode ocorrer?
Em meados de 2007, quase todo mundo entendia que estávamos em um período de longo crescimento sustentável. Hoje, metade das pessoas, por causa de certo retorno da inflação, do problema norte-americano, do recuo muito rápido da balança comercial, acha que o País está no final de uma boa fase, que não foi tão sustentável assim essa onda de crescimento. Não é porque a macroeconomia vai bem que a inovação irá bem também. A situação é o contrário: a macroeconomia indo mal, dificilmente a inovação irá bem. Entendo que além da macroeconomia não atrapalhar, e alguns entendem que vai, é preciso uma capacidade de construção que só pode ocorrer por uma política tecnológica bem-feita.

O crescimento recente tem se dado pelo acesso ao crédito e inserção de novos consumidores. Como é a inovação para esse tipo de mercado?
Pode-se baratear um produto com progresso ou com regresso técnico. Você pode baratear um chocolate porque desenvolve técnicas de plantio de cacau, aprimora o processo produtivo industrial, desenvolve fontes de calor, usa nanotecnologia, ou pode fazer chocolate de baixa qualidade, com pouco cacau, tirando a embalagem de alumínio que o envolve. Esse é o divisor de águas. Para onde o Brasil vai? Se o Brasil for pelo primeiro caminho, é um mundo tecnológico, se for pelo outro, será o oposto.

O senhor diria que o Brasil está seguindo qual caminho?
O fato de a inovação ter chegado a esse grau de generalidade retórica indica que vamos andar na direção da tecnologia. Não tanto quanto poderíamos, mas vamos andar.

Quando vemos o comportamento de outras economias, como a da China, achamos desanimador o caminhar do Brasil…
A China tinha um projeto de indústria que envolvia a construção sucessiva de setores industriais com intensidade tecnológica crescente. O Brasil não tem uma estratégia para isso.

Mas e a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE)?
A PITCE não quis ser muito ativa na conformação da estrutura industrial brasileira. Escolheu setores de uso generalizado que poderiam favorecer o aumento do conteúdo tecnológico da indústria como um todo. Mas não deu uma cara para a indústria.

E a nova política industrial?
Quando sair, veremos se vai mexer com esse tema. É delicado. Muita gente entende que a estrutura industrial não pode ser alvo da política industrial, que esse processo tem de ser resultado da evolução natural das indústrias — "cresce quem tem competência, desaparece quem não tem". Não concordo. Precisamos ter um horizonte, saber que tipo de estrutura produtiva é mais capaz de gerar crescimento econômico, desenvolvimento, renda, empregos. E no caso brasileiro não vai ser uma indústria de altíssimo conteúdo tecnológico. Não é esse nosso caminho, não devemos fazer uma mudança da estrutura A para a B. Temos de retomar e avançar o processo de diversificação da matriz industrial brasileira. Essa matriz precisa ser completa para que exista produção relevante no Brasil de bens tradicionais, que gerem demanda para a tecnologia incorporada nas máquinas e insumos que possam ser desenvolvidos aqui. Precisamos ter usuários de inovação. O que mais falta no Brasil não é produtor de inovação, mas usuário. Muitos tentam produzir e quebram por falta de usuário. Precisamos de um tecido industrial bastante pró-tecnologia para que os inovadores possam encontrar mercado, realizar seus negócios, investir mais em inovação, ter retorno dos seus investimentos.

Com base nas informações já divulgadas na imprensa, o senhor acha que a nova política industrial caminha para esse sentido?
Pelo que li, acho que ela vai optar pela diversidade, por adotar múltiplos focos, o que é positivo. É consistente com essa minha idéia de diversificação. A política oferecerá um cardápio de instrumentos para diferentes estágios competitivos. Vai apoiar empresas que querem se internacionalizar, empresas que estão sob pesada concorrência internacional, precisando de reestruturação. Parece ser um conjunto de instrumentos que vai ser dosado em função de situações específicas.

E a institucionalidade nessa nova política?
Ainda não vimos nada sobre isso na mídia, precisamos aguardar o lançamento. A institucionalidade é um ponto-chave da política. Essa política com múltiplos focos será mais dependente da capacidade institucional do que a anterior.

O senhor considera a PITCE bem-sucedida?
Não. Ela teve a opção de não ser muito ativa na estruturação industrial, em função de tentar atuar na parte tecnológica da indústria. Ela não conseguiu montar a institucionalidade. A ABDI [Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial] faz muito bem certas coisas, mas não teria como carregar a PITCE, que está dispersa em órgãos públicos e semipúblicos. A ABDI não é uma instituição pública, é mais assemelhada ao Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], por exemplo. A política desenhada em 2003 também ficou um pouco ultrapassada porque era voltada para uma realidade de vulnerabilidade externa, de dólar em alta e real desvalorizado. Quando entrou em operação, o Brasil havia mudado, começava a ter reservas elevadas, não havia vulnerabilidade externa, o real valorizou. Mas a PITCE foi importante porque trouxe o assunto política industrial de volta.

Esse crescimento atual das exportações não tem a ver com a PITCE?
Não. O crescimento das exportações tem a ver com fatos que ocorreram na década de 1990. A explosão de 2003 para frente tem a ver com a década de 1990. A modernização e a melhoria da qualidade aumentaram a produtividade, reduziram custo. Tivemos a construção da Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportaacoes e Investimentos] e um esforço de venda, de marketing no exterior. As empresas passaram a enxergar o mercado externo como uma área de negócio, e não apenas como uma estratégia para escoamento de excedentes. Curiosamente, são mudanças provocadas na década de 1990 pela necessidade de sobrevivência. Não houve inovação nisso. A inovação foi o quarto elemento que faltou na década de 1990.

Como o senhor analisa os novos instrumentos para inovação?
São, de um modo geral, de redução de custo da inovação. E a principal restrição à inovação no Brasil não é o custo, mas o risco. Ela é custosa e arriscada.

Mas reduzindo o custo, não diminui o risco?
Para estimular a inovação, preciso reduzir ambos. A inovação custa mil, vai me dar retorno de 1,5 mil. Se custasse 500, eu investiria. Isso é uma questão de custo. O risco tem a ver com a chance que eu tenho de obter os 1,5 mil de retorno. Quando uma ação de política tecnológica leva empresas que já gastam com tecnologia a investir mais, é uma política de intensificação. A outra é uma política de extensão, para fazer aqueles que não gastam passar a investir. Uma política para o primeiro ator, provavelmente, só reduziu custo. Precisamos de instrumentos de redução de risco, como as várias formas de capital de risco.

Mas os incentivos da Lei do Bem, a subvenção, não são mecanismos redutores de risco?
A Lei do Bem vai reduzir custo. A subvenção pode ser usada para redução de custo e risco, se acoplada a outras modalidades de apoio tecnológico. Mas nossos instrumentos, em geral, são mais propícios para favorecer interação universidade-empresa. Essa é uma questão importante, mas não suficiente para superação dos gargalos tecnológicos das empresas. Não existe uma capacidade ociosa de pesquisa nas universidades que as empresas possam colocar na direção certa. Não é que a tal massa crítica existe e está sendo mal-utilizada; ela não existe.

14 de maio de 2008

SAÍDA DA MARINA – MEIO AMBIENTE

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 12:19 AM
 
 
 
 
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13/05/2008 – 20h14
Leia a carta de Marina ao presidente Lula

de Brasília

Leia a carta de demissão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, entregue nesta terça (13) ao presidente Lula por intermédio do chefe de gabinete, Gilberto Carvalho:

"Caro Presidente Lula,

Venho, por meio desta, comunicar minha decisão em caráter pessoal e irrevogável, de deixar a honrosa função de Ministra de Estado do Meio Ambiente, a mim confiada por V. Excia desde janeiro de 2003. Esta difícil decisão, Sr, Presidente, decorre das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda ambiental federal.

Quero agradecer a oportunidade de ter feito parte de sua equipe. Nesse período de quase cinco anos e meio esforcei-me para concretizar sua recomendação inicial de fazer da política ambiental uma política de governo, quebrando o tradicional isolamento da área.

Agradeço também o apoio decisivo, por meio de atitudes corajosas e emblemáticas, a exemplo de quando, em 2003, V. Excia chamou a si a responsabilidade sobre as ações de combate ao desmatamento na Amazônia, ao criar grupo de trabalho composto por 13 ministérios e coordenado pela Casa Civil. Esse espaço de transversalidade de governo, vital para a existência de uma verdadeira política ambiental, deu início à série de ações que apontou o rumo da mudança que o País exigia de nós, ou seja, fazer da conservação ambiental o eixo de uma agenda de desenvolvimento cuja implementação é hoje o maior desafio global.

Fizemos muito: a criação de quase 24 milhões de hectares de novas áreas de conservação federais, a definição de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade em todos os nossos biomas, a aprovação do Plano Nacional de Recursos Hídricos, do novo Programa Nacional de Florestas, do Plano Nacional de Combate à Desertificação e temos em curso o Plano Nacional de Mudanças Climáticas.

Reestruturamos o Ministério do Meio Ambiente, com a criação da Secretaria de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental, da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro; com melhoria salarial e realização de concursos públicos que deram estabilidade e qualidade à equipe; com a completa reestruturação das equipes de licenciamento e o aperfeiçoamento técnico e gerencial do processo. Abrimos debate amplo sobre as políticas socioambientais, por meio da revitalização e criação de espaços de controle social e das conferências nacionais de Meio Ambiente, efetivando a participação social na elaboração e implementação dos programas que executamos.

Em negociações junto ao Congresso Nacional ou em decretos, estabelecemos ou encaminhamos marcos regulatórios importantes, a exemplo da Lei de Gestão de Florestas Públicas, da criação da área sob limitação administrativa provisória, da regulamentação do art. 23 da Constituição, da Política Nacional de Resíduos Sólidos, da Política Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. Contribuímos decisivamente para a aprovação da Lei da Mata Atlântica.

Em dezembro último, com a edição do Decreto que cria instrumentos poderosos para o combate ao desmatamento ilegal e com a Resolução do Conselho Monetário Nacional, que vincula o crédito agropecuário à comprovação da regularidade ambiental e fundiária, alcançamos um patamar histórico na luta para garantir à Amazônia exploração equilibrada e sustentável. É esse nosso maior desafio. O que se fizer da Amazônia será, ouso dizer, o padrão de convivência futura da humanidade com os recursos naturais, a diversidade cultural e o desejo de crescimento. Sua importância extrapola os cuidados merecidos pela região em si, e revela potencial de gerar alternativas de reposta inovadora ao desafio de integrar as dimensões social, econômica e ambiental do desenvolvimento.

Hoje, as medidas adotadas tornam claro e irreversível o caminho de fazer da política socioambiental e da economia uma única agenda, capaz de posicionar o Brasil de maneira consistente para operar as mudanças profundas que, cada vez mais, apontam o desenvolvimento sustentável como a opção inexorável de todas as nações.

Durante essa trajetória, V. Excia é testemunha das crescentes resistências encontradas por nossa equipe junto a setores importantes do governo e da sociedade. Ao mesmo tempo, de outros setores tivemos parceria e solidariedade. Em muitos momentos, só conseguimos avançar devido ao seu acolhimento direto e pessoal. No entanto, as difíceis tarefas que o governo ainda tem pela frente sinalizam que é necessária a reconstrução da sustentação política para a agenda ambiental.

Tenho o sentimento de estar fechando um ciclo cujos resultados foram significativos, apesar das dificuldades. Entendo que a melhor maneira de continuar contribuindo com a sociedade brasileira e o governo é buscando, no Congresso Nacional, o apoio político fundamental para a consolidação de tudo o que conseguimos construir e para a continuidade da implementação da política ambiental.

Nosso trabalho à frente do MMA incorporou conquistas de gestões anteriores e procurou dar continuidade àquelas políticas que apontavam para a opção do desenvolvimento sustentável. Certamente, os próximos dirigentes farão o mesmo com a contribuição deixada por esta gestão. Deixo seu governo com a consciência tranqüila e certa de, nesses anos de profícuo relacionamento, termos feito algo de relevante para o Brasil.

Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.

Marina Silva"

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13/05/2008 – 20h30
Marina Silva pede demissão do Meio Ambiente e alega falta de sustentação à política ambiental

Claudia Andrade – Em Brasília

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, entregou na manhã desta terça (13) uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo o seu desligamento do cargo em caráter irrevogável. O motivo da demissão, segundo a ministra em carta ao presidente, foi a dificuldade que ela encontrou para prosseguir com a agenda ambiental e a insuficiente ‘sustentação política’ para as questões do setor.
Leia a carta de demissão da ministra

Fontes do governo do Rio dizem que o presidente Lula convidou Carlos Minc, secretário do Ambiente do Rio, para assumir o cargo. Mas assessores do Planalto negaram que exista um convite.

De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério do Meio Ambiente, a ministra está em casa e não pretendia se pronunciar antes da resposta da Presidência da República.

Na tarde de segunda, antes de tomar a decisão de deixar a pasta do Meio Ambiente, Marina Silva teria se consultado com o ex-governador do Acre, Jorge Viana, e também com o atual mandatário do Estado, Binho Marques. Ontem mesmo ela teria escrito uma carta ao presidente Lula, que foi entregue no Planalto na manhã desta terça-feira.

O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), lamentou a decisão da ministra. "A ministra Marina Silva é uma militante histórica do PT, da causa ambiental e da Amazônia. Ela imprimiu ao ministério aquelas que são as suas convicções e deu uma contribuição muito importante para o governo."

Para o deputado federal José Eduardo Cardozo (PT-SP), que também é secretário-geral do PT, a saída da ministra é uma perda para o governo. "Independentemente do motivo, é uma perda grande para o governo e para o país. É uma ministra excelente que conhece bem o funcionamento do ministério e do partido", afirmou.

REPERCUSSÃO DA SAÍDA DE MARINA

"Independentemente do motivo, é uma perda grande para o governo e para o país. É uma ministra excelente que conhece bem o funcionamento do ministério e do partido"
José Eduardo Cardozo
secretário-geral do PT

"O ministério cumpriu sua missão e cumpriu de maneira muito boa. Esse assunto é de foro íntimo da ministra e só ela pode explicar os motivos"
Sibá Machado – senador (PT-AC)

"É um desastre para o governo Lula. Se o governo tinha uma credibilidade mundial na questão ambiental era por causa da ministra Marina"
José Cardoso da Silva – vice-presidente para a América do Sul da Conservação Internacional

"Espero que o próximo ministro não seja tão radical quanto a Marina. Ela era uma barreira para o desenvolvimento econômico do Brasil"
Rui Prado – presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do MT

"As forças mais destrutivas para a Amazônia exigiam a saída dela. O governo Lula deu o Plano Amazônia Sustentável (PAS) na mão do Mangabeira Unger. Isso obviamente foi uma tapa na cara da ministra"
Frank Guggenheim – diretor-executivo do Greenpeace

"Trata-se de uma clara demonstração de que a área ambiental não tem espaço no atual governo. Ela tentou, em vão, construir uma política transversal de desenvolvimento sustentável, que envolvesse todos os ministérios e não apenas o MMA. Provavelmente, as seguidas frustrações nesse sentido motivaram seu pedido de demissão"
Denise Hamú – secretária-geral do WWF-Brasil

"Eu desejo, que se for possível, haja uma reconsideração por parte da ministra"
Ideli Salvatti (PT-SC) – líder do partido no Senado

"As propostas que apresentávamos, os problemas como área legal, ela fazia ouvidos moucos. Acredito que o bom senso agora deve prevalecer. O meio ambiente é uma ciência e não deve ser tratado ideologicamente. Ideologia é inimiga do meio ambiente"
Alberto Lupion – agropecuarista e empresário

"Uma pessoa que tem o histórico da senadora Marina e que seja um referencial, inclusive lá fora, perante a comunidade ambientalista do mundo, acho muito difícil encontrar substituto à altura. Tomara que o governo não tenha feito a opção do desenvolvimento em detrimento do meio ambiente"
Jefferson Peres (PDT-AM) – senador

"É uma pessoa que tem capacidade de aglutinação muito grande. A equipe toda era muito leal a ela. Por respeito a ela como pessoa da área, mas também como dirigente, uma pessoa carinhosa com a equipe"
José Machado – diretor-presidente da Agência Nacional de Águas
SAIBA MAIS SOBRE CARLOS MINC

MACHADO: "DESGASTE ACUMULADO"

MARINA PEDE DEMISSÃO

Quem é Marina Silva
Maria Osmarina Silva Vaz de Lima, 50, começou sua carreira política militando nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), ligadas principalmente à Igreja Católica -apesar de Marina ser evangélica da Assembléia de Deus.

Em 1988 foi eleita vereadora de Rio Branco, no Acre. Dois anos depois, se elegeu deputada estadual e, em 1994, aos 38 anos, chegou ao Senado Federal como a mais jovem senadora do país.

Sua carreira concentrou-se nas áreas de direitos humanos, cidadania, meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Integra a equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o primeiro dia do primeiro mandato, em 2003, sempre na pasta do Meio Ambiente.

Ex-seringueira, Marina Silva se filiou ao PT em 1985 e lançou sua candidatura a deputada federal para ajudar o líder seringueiro Chico Mendes, morto em 1988, que era candidato a deputado estadual.

Marina aprendeu a ler já adolescente, já que no Seringal Bagaço, a 70 km de Rio Branco, onde nasceu, não havia escolas. Mais tarde, em 1985, formou-se em História pela Universidade Federal do Acre.

Na universidade, entrou para o PRC (Partido Revolucionário Comunista), grupo semiclandestino que fazia oposição ao regime militar, e deixou de lado o desejo de ser freira.

Depois de formada, começou a dar aulas de história e a participar do movimento sindical dos professores. Junto com Chico Mendes, em 1984, fundou a CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Acre.

No ano passado, Marina recebeu o maior prêmio das Nações Unidas na área ambiental, o Champions of the Earth (Campeões da Terra). A ministra foi uma das sete personalidades premiadas. Além dela, a ONU premiou o ex-vice presidente dos Estados Unidos Al Gore; o príncipe Hassan Bin Talal, da Jordânia; Jacques Rogge, do Comitê Olímpico Internacional; Cherif Rahmani, da Argélia; Elisea "Bebet" Gillera Gozun, das Filipinas; e Viveka Bohn, da Suécia.

Com informações da Agência Brasil e da Folha Online

12 de maio de 2008

POLÍTICA INDUSTRIAL – II

Filed under: Política Econômica — Porfiro @ 7:18 PM
 
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folha – 14mai
Antonio Delfim Netto: A proposta Belluzzo
A proposta Belluzzo

EXISTE UMA pressão sobre os preços, em todos os países do mundo, alimentada por uma combinação de fatores: 1º) a desvalorização da unidade de conta do mercado internacional, o dólar americano; 2º) para cada produto, o aumento depende da natureza dos fundamentais: da estrutura da oferta e da sensibilidade da demanda; 3º) a desesperada especulação dos "hedges funds".
O primeiro efeito é facilmente constatável comparando o "The Economist commodity-price index" (2000 = 100) medido em dólares (260 em abril) com o medido em euros (150 em abril): a mesma "cesta de produtos" custa 70% "mais caro" em dólar. O segundo é visível na forma incompetente e descuidada que o mundo tratou o setor agrícola: os países desenvolvidos, com subsídios ou "quotas", sustentaram sua agricultura ineficiente e impediram que os emergentes aumentassem sua produção; no setor mineral, estimulou-se a cartelização e o controle da oferta no curto prazo e, finalmente, no setor do petróleo, reduziu-se o investimento na pesquisa de reservas, na exploração e no refino. Seus lucros foram desviados para os "fundos soberanos". O Brasil não é (nem poderia ser) uma exceção.
Chegamos a abril com um IPCA anual de 5%, ligeiramente acima da meta (4,5%), mas dentro da margem de manobra do Banco Central.
Nossa dificuldade é que terminou a mágica de utilizar a política monetária para valorizar o câmbio e absorver choques externos. Como resolver o problema de manter o nível de demanda do setor privado e estimular o "espírito animal" do empresário para aumentar a capacidade produtiva sem exacerbar a pressão sobre os preços? É evidente que, sem a ajuda da política fiscal, a política monetária não poderá resolvê-lo.
Simplesmente aumentar a taxa de juros é uma custosa não-solução. A resposta está em cortar a demanda do governo. É preciso manter o superávit primário necessário para continuar a reduzir a relação dívida do governo/PIB (que exerce pressão sobre a taxa de juros) e, além dele, reduzir as despesas de custeio do governo.
Vai nesta linha a sugestão que o ilustre e competente professor Luiz Gonzaga Belluzzo apresentou ao governo. O superávit fiscal (excedente ao necessário para administrar a dívida) seria da ordem de 1% a 1,5%. Como há um "multiplicador fiscal" que depende das condições monetárias, da propensão a consumir e da propensão a importar, seu efeito sobre a demanda global seria próxima a 2% do PIB. Isso reduziria as pressões sobre os preços e não comprometeria a ampliação da oferta global que sustentará o crescimento futuro. Mas, para isso, o excedente deve permanecer indisponível na caixa do Tesouro.


contatodelfimnetto@uol.com.br
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 13/05/2008

As indústrias flutuantes chinesas

O governo Lula lançou sua segunda política industrial, com desoneração e incentivos fiscais da ordem de R$ 21,4 bilhões até 2011. Um dos principais objetivos será modernizar as empresas brasileiras, medida mais do que necessária num período de competição quase selvagem pelos mercados mundiais. Vejam o que a China, de longe o mais agressivo de todos os competidores, está fazendo no setor de bens de capital. Montaram indústrias flutuantes, isso mesmo, flutuantes, dentro de navios, na busca de reduzir o prazo de entrega de máquinas e equipamentos mundo afora.

O governo chinês embarca em navios peças e mão-de-obra especializada, que vai montando máquinas ao longo da viagem marítima. Como algumas partes desses maquinários são importadas, em vez de ficar aguardando a chegada da peça na China, o navio vai ancorando nos portos em que ela está disponível durante a viagem até o destino final: o país do comprador do bem de capital. Com esse modelo de indústria, a China consegue entregar em quatro a seis meses uma máquina que outros países demoram cerca de um ano para fazer chegar às mãos do seu cliente. Não por outro motivo a China hoje é um grande competidor internacional no setor de máquinas e equipamentos. Lidera, por exemplo, a produção de guindastes para portos, já considerados um dos mais avançados do mundo.

O fato é que entender a China e suas estratégias passou a ser vital para competir no mundo atual. De um país antes conhecido por fabricar produtos baratos e ruins, hoje busca avançar no mercado internacional desenvolvendo produtos de alta tecnologia, ainda a preços bem mais competitivos do que seus parceiros internacionais. Resultado de um país que cresceu de 1979 a 2006 a uma taxa média de 9,6% ao ano. Que hoje, diante da escassez de energia provocada pelo salto econômico, procura transferir indústrias de consumo energético intensivo para outros países, como o Brasil.

Na busca de compreender esse ator global, a Fundação Dom Cabral decidiu pesquisar as empresas chinesas e sua atuação no Brasil. A primeira etapa do estudo resultou na montagem de um ranking com as 200 maiores companhias da China, intitulado "Os futuros donos do poder: Top 200 Chinese Dragons". Desse grupo, pelo menos dez já estão atuando no Brasil, inclusive aquela que é considerada hoje a maior empresa chinesa: Sinopec, uma companhia petroleira (veja relação abaixo).

Responsável pelo estudo, o professor Carlos Arruda diz que as cinco maiores empresas chinesas listadas no ranking apresentam um faturamento superior a US$ 500 bilhões. Além da Sinopec, as outras quatro são: China National Petroleum Corporation, State Grid Corporation of China(SGCC), Petrochina Company Ltd. e Industrial and Commercial Bank of China. Segundo Arruda, boa parte dos 200 dragões chineses tem sua origem em "decisões de organismos, agências ou instituições ligadas ao governo central". Muitas delas, porém, são tidas como empresas privadas de capital aberto, com ações disponíveis nas bolsas de Hong Kong e Nova York. O que torna muito complexo a definição do que é realmente público e privado no gigante asiático

Em sua pesquisa, Carlos Arruda afirma ter notado que as empresas chinesas hoje buscam associar o baixo custo com a inovação tecnológica. Diz ele no estudo que, atualmente, "mais do que a capacidade de produção a baixo custo", as empresas do ranking procuram se destacar "se associando com parceiros tecnológicos de todo o mundo". O professor cita o caso da Haier, uma das maiores produtoras de refrigerantes da China, que se tornou líder mundial na fabricação de adegas climatizadas. A empresa, em associação com a Walmart (Sam’s Club), "desenvolveu produtos 50% mais baratos do que os concorrentes, com tecnologias muito mais avançadas". Segundo Arruda, em pouco tempo a Haier conquistou 60% do mercado americano.

Dessas empresas chinesas que buscam incorporar alta tecnologia a seus produtos, o professor Carlos Arruda menciona também a Huawei, já presente no Brasil no setor de telecomunicações. A empresa chinesa se associou à Telefônica (Vivo) para desenvolver e lançar a família de telefones celulares de terceira geração. O pesquisador da Fundação Dom Cabral destaca que hoje na China é possível encontrar universidades montadas por empresas para formação de mão-de-obra especializada em tecnologia avançada. O segundo passo da Dom Cabral será analisar a atuação no Brasil das empresas chinesas. Entre as 200 maiores companhias chinesas, as dez que já estão no Brasil são:

Air China (transporte/logística)

Bank of China (setor financeiro)

Baosteel (siderurgia e metalurgia)

China Metais e Minerais – Minmetals (siderurgia e metalurgia)

China Shipping do Brasil (transporte/logística)

Cosco Brasil S/A (transporte/logística)

Gree Electric Appliances Inc. (eletroeletrônico)

Sinopec (petróleo e gás)

ZTE (telecomunicações)

Huawei (telecomunicações)

Além da política industrial

O governo Lula, depois da política industrial, vai avançar para outra área. A do ajuste fiscal. Num dia, lançou um pacote de desoneração tributária e incentivos fiscais de R$ 21,4 bilhões até 2011. No outro, deve anunciar um aperto fiscal, economizar mais dinheiro para fazer uma poupança externa. Com isso, duas personagens do governo ficarão satisfeitas. O ministro Guido Mantega (Fazenda) criará o fundo soberano, terá dinheiro para estimular empresas brasileiras lá fora e, de quebra, poderá atuar no mercado de câmbio. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ganhará uma ajudazinha do Ministério da Fazenda, que vai reduzir um pouco mais o gasto público para fazer poupança externa. Com isso, diminuirá a demanda pública. A política econômica fica um pouco mais equilibrada. Um pouco tarde, mas ainda a tempo de evitar que a inflação faça maiores estragos no país.

Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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VINICIUS TORRES FREIRE
O tutu da política industrial


Ferrovias e estaleiros estão entre beneficiários; MPs mostram que planos antigos de Lula não saíram do papel

A BARAFUNDA de medidas de política industrial exige uma equipe de hermeneutas e exegetas para que se entenda direito quem leva o quê. O governo fala de bilhões quando divulga o plano. Dias ou horas depois, pouca atenção se presta aos benefícios embutidos em dezenas de parágrafos de leis e mexidinhas em alíquotas de impostos e reduções de taxas de juros.
Uma das medidas provisórias da Política de Desenvolvimento Produtivo, nome oficial da nova política industrial de Lula, trata de coisas tão diversas como navegação de cabotagem e ferrovias, softwares e máquinas e equipamentos pesados.
Uma lei da política industrial de 2004, de apoio à modernização dos portos, passa a valer para fabricantes de material ferroviário e, curioso, também para concessionários de transporte ferroviário -a Receita Federal decidirá sobre os beneficiários. Mas empresas como a América Latina Logística (ALL) e a MRS (da CSN, Gerdau, Vale etc.) e outras transportadoras ferroviárias são candidatas às isenções de impostos da Lei do Reporto, uns R$ 2,6 bilhões.
Apenas para a memória do capital no Brasil: a ALL foi a empresa que comprou a Brasil Ferrovias. A Brasil Ferrovias era parte da RFFSA, privatização tucana das mais porcas, empresa falida que, para variar, acabou na conta de fundos de pensão e BNDES (a ALL nada tem a ver com o rolo). Trata-se só de uma lembrança de como estatais e dinheiros públicos vão, vêm e acabam se reencontrando, como num caso de novela.
Noutra MP, cria-se o Fundo de Garantia para a Construção Naval, que dá garantias aos empréstimos do Fundo de Marinha Mercante (FMM, que tem 50 anos), constituído por taxas sobre fretes, dinheiro do Tesouro e, a depender da procura, de dinheiro do FAT, via BNDES.
Taxas de juros: de 2,5% a 5% ao ano, com prazos de mais de 20 anos. Construir navios no Brasil pode ser uma boa coisa, assim como equipar empresas nacionais de marinha mercante. O país gasta bilhões em fretes, pois o transporte de mercadorias é quase todo estrangeiro. O FMM emprestou R$ 880 milhões em 2007. Tinha mais dinheiro (neste ano podem ser R$ 2 bilhões), mas faltava demanda, pois os estaleiros não conseguiam as garantias.
Muito bom ter uma indústria naval. Mas é preciso ficar de olho para os papagaios não caírem no colo do público. Nos anos 80, os estaleiros foram acusados de levantar empréstimos para fazer navios inexistentes e superfaturados. Deu num rolo de bilhões, o escândalo da Sunamam (Superintendência Nacional de Marinha Mercante), que geria o FMM.
Outro dinheiro gordo iria para o natimorto Revitaliza, plano de redução de impostos e juros subsidiados para empresas exportadoras intensivas em mão-de-obra (que gastam muito em salário), com juros de uns 7% e desconto de 20% para quem pagasse em dia. Era um auxílio para empresas de couro e calçados, têxteis, roupas e móveis, criado em junho de 2007, com subsídio de R$ 1 bilhão bancado pelo Tesouro e R$ 3 bilhões de crédito via BNDES e FAT.
Foi chamado de "pacote das vítimas do câmbio". Até o final do ano passado, não havia sido regulamentado. Agora, vai, diz o governo, e o programa será ampliado para R$ 9 bilhões. Vai? E quem vai tomar conta?

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FOLHA – 13MAI
Desoneração da indústria atinge R$ 21 bi

Política industrial prevê ainda desembolsos de R$ 210 bilhões do BNDES até 2010 e redução da taxa de juros do banco

Apesar de clima festivo, com presença de Lula, ministros e governadores, empresários criticam câmbio valorizado e taxa de juros elevada

SHEILA D’AMORIM
ENVIADA ESPECIAL AO RIO

JANAINA LAGE
ROBERTO MACHADO
DA SUCURSAL DO RIO

O governo Lula lançou ontem um pacote com pelo menos 14 medidas que envolvem renúncia fiscal e procuram estimular as exportações e ampliar a capacidade de produção das empresas brasileiras.
O objetivo é tentar minimizar os impactos da valorização do real ante o dólar e do aumento do consumo na inflação -duas ameaças ao crescimento neste segundo mandato do presidente Lula.
Embaladas sobre o nome de Política de Desenvolvimento Produtivo, as medidas somam R$ 21,435 bilhões em desonerações até 2011 -a maior parte (R$ 13,9 bilhões) concentrada em 2009 e 2010- e foram lançadas em solenidade no centro do Rio que reuniu dez governadores e 11 ministros de Estado, além do próprio presidente.
O segundo pilar da nova política são desembolsos de R$ 210,4 bilhões até 2010 pelo BNDES para financiar os setores industrial e de serviços e a redução de taxa de juros cobrada pelo banco, o que deve tirar cerca de R$ 1 bilhão do lucro da instituição nesse período.
Apesar da quantia envolvida, o empresariado recebeu a proposta com ressalvas. Muitos avaliam que a política não compensará a valorização do real nem a alta carga de juros.
A estratégia do governo para tentar fomentar setores-chave na economia envolve ainda o uso de outra estatal: a Petrobras. O presidente da empresa, José Sergio Gabrielli, anunciou um projeto de compras da empresa nos próximos anos que inclui navios de grande porte e 146 embarcações de apoio.
Ao todo, a nova política do governo, segundo o ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento), beneficia 25 setores da economia. Conforme antecipou a Folha, também tem como metas gerais a ampliação do volume de investimentos da economia dos atuais R$ 450 bilhões (17,6% do PIB) para R$ 620 bilhões (21% do PIB) em 2010 e o aumento da participação brasileira nas exportações mundiais (passando de 1,18% do comércio mundial para 1,25%).
Outros objetivos são: a elevação para 12,971 mil do número de micro e pequenas empresas que exportam (crescimento de 10% ao ano, considerando as 11,792 mil que exportavam em 2006) e o aumento do gasto das empresas em pesquisa e desenvolvimento (P&D) dos R$ 11,9 bilhões registrados em 2005 (0,51% do PIB) para R$ 18,2 bilhões (0,65% do PIB), em 2010.
Um dos setores mais beneficiados será o de tecnologia da informação e comunicação, que poderá reduzir pela metade a contribuição patronal para a Previdência sobre a folha de pagamento. A medida terá impacto nas contas da Previdência no futuro, mas o governo não deu estimativa de seu custo. O acerto fechado pelo governo para assegurar esse benefício prevê a contratação e a capacitação de 100 mil trabalhadores nos próximos quatro anos, segundo Antonio Gil, presidente da Brasscom (Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia de Informação e Comunicação).

Críticas
O evento no Rio contou com a presença de mais de 400 pessoas na sede do BNDES, incluindo deputados, senadores, empresários e sindicalistas. Durante cerca de três horas, ouviram dez pessoas escolhidas pelo governo que se revezaram nos discursos elogiosos.
"Queremos consolidar a vitória sobre 25 anos de incerteza e crescimento baixo, 25 anos de marasmo e apatia que impediram os empresários de investir", destacou Lula. Em seu discurso bem-humorado, Lula brincou que "é de tal envergadura" a capacidade de investimentos da Petrobras, que "vai ter um momento na história do Brasil que, se a Petrobras continuar assim, vai ter que ter eleição direta para o presidente da Petrobras e ele indica o presidente da República".
O único a destoar do clima de euforia foi o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), deputado Armando Monteiro Neto, que criticou a desarticulação entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central na condução das políticas fiscal e monetária.
"O grande desafio é fazer com que a política industrial seja articulada com a política macroeconômica. No Brasil, a manutenção da política de estabilização tem recaído sobre a política monetária, que não tem tido a contribuição da política fiscal, e isso tem resultado em excessiva valorização do real", afirmou.
A reação do ministro Guido Mantega (Fazenda) às críticas veio no final do evento. "Não sei de onde pode haver queixa ao superávit primário. A política fiscal está perfeitamente casada com a política monetária."
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repercussão
Empresários querem ação no câmbio

DA SUCURSAL DO RIO
DA ENVIADA ESPECIAL AO RIO

O empresariado presente à solenidade de lançamento da política industrial recebeu as medidas com cautela. Apesar dos elogios à iniciativa do governo de procurar estimular o aumento do investimento, afirmaram que as medidas não compensam os prejuízos causados pela taxa de câmbio atual.
Para o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, os resultados são contraditórios em relação à política monetária. "O governo fala em aumentar exportação, mas não trata do câmbio valorizado. Fala em aumentar investimento, mas tem medo do aumento da demanda", disse. Apesar disso, elogiou as desonerações e a redução nos juros do BNDES.
"Faltou o Meirelles [Henrique Meirelles, presidente do Banco Central] aqui. Sem uma política macroeconômica, essa política fica impossibilitada porque o câmbio continua valorizado, e isso só muda com redução dos juros", disse Rodrigo Rocha Loures, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná.
O presidente da Braskem, José Carlos Grubisich, afirmou que a nova política é transparente, mas fez ressalvas: "Essas medidas não têm impacto na questão do câmbio, ao menos não no curto prazo.
O desafio do câmbio ainda precisa ser enfrentado, novas medidas precisarão ser anunciadas", afirmou.
Para o presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), Luiz Aubert Neto, o país ainda tem muito a fazer para recuperar a competitividade perdida nos últimos 20 anos. "Na década de 1980, éramos o 5º maior fabricante de bens de capital do mundo. Hoje somos 14º." Ele elogiou as medidas de redução dos juros do BNDES, mas afirmou que as desonerações ainda dependerão de vontade política do governo.
O presidente da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio), Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, juntou-se ao coro dos empresários que pediram para que o governo olhasse também para a política fiscal: "Tudo o que foi anunciado aqui é positivo, mas deve ser encarado dentro de um arcabouço maior.
Temos que ter perseverança no equilíbrio fiscal. Quanto mais ortodoxia fiscal, melhor".
O presidente da Brasscom (Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia de Informação e Comunicação), Antonio Gil, disse que as medidas permitirão ao setor ampliar de US$ 800 milhões para US$ 5 bilhões as exportações anuais até 2010, transformando o Brasil num pólo de prestação de serviços para empresas estrangeiras. O setor foi um dos principais contemplados na nova política industrial.
(JANAINA LAGE, ROBERTO MACHADO e SHEILA D’AMORIM)

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ANÁLISE
Nova política industrial recauchuta programas dos últimos quatro anos

GUSTAVO PATU
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Em meio a termos como "prorrogação", "reativação" e "ampliação", a mais nova política industrial do governo recauchuta programas e benefícios criados nos últimos quatro anos em sucessivos pacotes de desoneração tributária sempre acompanhados de cifras na casa dos bilhões de reais.
A iniciativa que encabeça a lista divulgada ontem é quase idêntica a uma medida aprovada pelo Congresso em 2005 e vetada pelo Planalto com a justificativa de que havia um erro de redação no texto.
Repetia-se, desde então, a promessa de reduzir de 24 para 18 meses o prazo para compensar as empresas pelo PIS e a Cofins cobrados na compra de equipamentos -a redução acabou mais generosa, para 12 meses. Embora responda por R$ 6 bilhões da desoneração anunciada, a regra não implica renúncia efetiva de arrecadação, mas simples antecipação de uma despesa já contratada.
Outros R$ 3 bilhões vêm de um benefício tributário iniciado em 2004, chamado depreciação acelerada, que originalmente se encerraria no ano seguinte e vem sendo prorrogado desde então, desta vez até 2010. Com a ampliação do alcance das regras para mais setores, como o automotivo, a conta sobe para R$ 7,1 bilhões até 2011.
Resposta às crescentes queixas contra a escalada da carga tributária imposta às empresas, os pacotes de desoneração foram inaugurados, há três anos, pela medida provisória batizada de "MP do Bem" -seu impacto, estimado na época em R$ 5,7 bilhões anuais, supera o da nova política industrial.
Estava naquela MP a criação de um programa para estimular os investimentos de exportadoras, o Recap, cuja "ampliação", na forma de critérios mais elásticos para o acesso aos benefícios, foi citada ontem.
Outro programa ampliado é o Reporto, de 2004, de apoio aos investimentos em infra-estrutura portuária e resquício da primeira política industrial de Lula, ainda no primeiro mandato. Na época, o prazo fixado para a vigência da iniciativa se encerraria em 2005.
Mais curiosa é a "reativação do Programa Revitaliza", que fecha o quadro-resumo das medidas. O programa, baseado em financiamentos do BNDES com juro subsidiado, não completou um ano desde que foi anunciado pela primeira vez.
Ainda que não haja maiores novidades na política industrial, a tramitação no Congresso deve gerar grande mobilização do lobby empresarial, como aconteceu com todas as medidas provisórias de desoneração tributária. A "MP do Bem" foi editada pelo Executivo com 74 artigos e ganhou outros 59 ao se transformar em lei, para criar vantagens que iam da tributação do queijo coalho até o tratamento das dívidas previdenciárias dos municípios.
Na MP de desoneração lançada no ano passado com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), foram os setores rural e elétrico que conseguiram incluir os pleitos mais importantes no texto aprovado no Congresso. No mês passado, outra MP do gênero foi aproveitada pela Câmara para beneficiar, entre outros, fabricantes de refrigerantes de baixo preço.

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Petrobras anuncia compra de 146 navios

DA SUCURSAL DO RIO

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, anunciou que a estatal pretende comprar 146 navios nos próximos anos. A encomenda de 24 deve ser imediata -a licitação iniciar no dia 26. Os navios são considerados "apoio" para a exploração de petróleo em alto-mar. Usados para transportar equipamentos e como rebocadores. Gabrielli disse que a estatal encomendou 26 navios de grande porte e estuda a construção de dois superpetroleiros no país.
"Todos esses contratos são com a indústria naval brasileira, com estaleiros que estão crescendo e produzindo. Estamos apresentando um horizonte para a indústria naval que é fantástico." Gabrielli disse que a Petrobras vai lançar um segundo programa de renovação da frota de petroleiros e que "mais algumas dezenas de navios" serão contratadas.
"Esperamos encontrar uma boa resposta da indústria nacional. Até agora, nossa demanda vem sendo atendida de forma satisfatória. E esse é mais um desafio que se impõe."
Gabrielli citou as compras como "possibilidades de longo prazo para o setor produtivo ampliar capacidade" e previu investimento mínimo de US$ 50 bilhões até 2012.
Ele disse que a estatal, que aluga de empresas estrangeiras as usadas hoje, estuda um programa de estímulo à construção de sondas de perfuração.

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FOLHA – 13 MAI
VINICIUS TORRES FREIRE
Impostos, cenouras e burros

NO ATACADO , a nova política industrial do governo Lula parece aquelas medidas provisórias (MPs) que se arrastam durante meses no Congresso. No caminho da tramitação, o lobista eficaz pendura a sua meia na árvore de Natal da MP: uma redução de alíquota ali, uma proteção tarifária aqui, acolá uma mexida incompreensível e rendosa no cálculo de um imposto.
Aliás, a política industrial parece uma edição revista da MP do Bem. Os penduricalhos melhoram a vida dessa ou daquela empresa/empresário. Em tese, uma empresa mais lucrativa pode investir ou inovar mais. Em tese. Na prática, não raro melhora apenas a rentabilidade de um negócio específico, sem grandes benefícios gerais, se algum. De fato, há uma parcela de empresas que investiria menos se não contasse com isenção fiscal ou empréstimo subsidiado. "Na margem", tais situações existem, mas são exatamente isso: situações marginais. Muita grande empresa investirá de qualquer modo, se houver demanda.
Imposto menor algum efeito positivo tem, mesmo se a isenção é localizada. Quanto "algum"? Mistério. Mas, se é para reduzir imposto, há medidas mais relevantes. No médio prazo, é preciso cortar gastos, como os da dívida pública, que tem crescido, em termos absolutos. O governo gasta com os juros da dívida o equivalente a oito vezes o valor total de isenções e subsídios anunciados ontem, R$ 21,4 bilhões.
Não dá para saber de antemão se o dinheiro será esse -depende de câmbio, demanda mundial, crescimento brasileiro etc. O dinheiro será fatiado em quatro anos. Na média, dá uns R$ 5,3 bilhões por ano. Pouco? Para um governo que acaba de doar R$ 3 bilhões por ano aos compradores de gasolina, parece pouco. Mas quais as vantagens para o público? Nesses pacotes industriais, a gente vê as cenouras, mas não vê o burro da carroça andar: quede as metas de quem recebe benefícios?
Na barafunda de medidas anunciadas, algumas têm bom aspecto. Mas, no geral trata-se de remendos para os efeitos maléficos de uma política macroeconômica relaxada, que causa excessos como muito imposto, juros altos e real forte demais.
Por exemplo, haverá redução de imposto e de juros de empréstimos estatais para a compra de máquinas, equipamentos, investimento em produção. Haverá mais crédito para exportadores. Haverá corte de imposto para empresa que investe em pessoal que faz software e similares, o que pode ser bom -mas é difícil fiscalizar tal coisa, vide a corrupção nas ONGs de "qualificação profissional" com dinheiro público.
Há novidades, como esse Funtec, fundo de inovação em saúde e ambiente, e outras subvenções para inovação via Finep. Como faltam detalhes, é impossível avaliá-los. E onde foi parar o programa de compras governamentais dirigido para empresas brasileiras e inovadoras?
Há coisas que suscitam péssimas lembranças. Vai haver um "Fundo de Garantia para a Construção Naval", um seguro para eventuais calotes de estaleiros. Talvez, quem sabe, a gente monte uma indústria naval como a coreana. Mas, talvez, a gente recrie a fábrica de naufrágios, ineficiências e calotes no dinheiro público que foram os estaleiros do Brasil.
Enfim, no pacote não dá para enxergar incentivos ao surgimento de nada parecido com uma Embrapa, com um Proálcool, com a pesquisa de águas profundas da Petrobras ou mesmo com uma Embraer.

vinit@uol.com.br
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FOLHA – 13MAI
Desoneração da folha é restrita a apenas um setor

Tecnologia da informação é beneficiada e promete contratar e capacitar 100 mil

Já redução de PIS/Cofins para exportadores e incentivo à compra de máquinas e equipamentos atinge indústria toda

DA ENVIADA ESPECIAL AO RIO

Comemorada como uma das principais medidas da nova política industrial, a redução para um setor específico da contribuição que as empresas fazem para o INSS com base na folha de pagamento atinge um dos pontos mais frágeis da economia brasileira, o elevado déficit da Previdência Social, e gera um passivo futuro para os cofres públicos. Além disso, a medida favorece a terceirização de serviços e mão-de-obra.
Demanda do setor empresarial, a medida esteve várias vezes na pauta de discussão da equipe econômica nos últimos anos, mas nunca havia saído do papel pelo impacto negativo que teria na Previdência se beneficiasse todas as empresas.
Desta vez, o governo resolveu adotá-la apenas para um setor: o de tecnologia da informação e comunicação. E tentou minimizar seu custo fiscal. "Não vai custar nada, mas, no futuro, o Tesouro se comprometerá com isso", disse o ministro Guido Mantega (Fazenda). "A renúncia fiscal é praticamente zero porque quase não há exportação nesse setor. Depois teremos que cobrir a Previdência porque esses trabalhadores irão se aposentar."
Já a isenção de PIS/Cofins nas compras de insumos para produtos que serão exportados atingem linearmente a indústria e deve ter custo fiscal maior. Hoje, o benefício era apenas a redução de IPI.
O governo também beneficiou empresas que aumentarem as despesas com compra de máquinas e equipamentos para elevar a produção. Elas poderão abater mais rapidamente os gastos na sua contabilidade. Com isso, os créditos do PIS/Cofins serão utilizados em 12 meses, e não mais em 24. A medida terá um custo de R$ 5,9 bilhões -desse total, R$ 2,2 bilhões terão impacto neste ano, e R$ 3,7 bilhões, em 2009.

Folha de pagamento
Segundo a Folha apurou, o custo inicial da desoneração da folha ficará em torno de R$ 30 milhões. Isso considerando o baixo volume das exportações do setor atualmente: US$ 800 milhões anuais, segundo Antonio Gil, presidente da Brasscom (Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia de Informação e Comunicação). "A idéia é aumentar esse valor para R$ 5 bilhões/ano até 2010."
Pela nova regra anunciada ontem, só as empresas da área de tecnologia da informação e comunicação instaladas no Brasil que exportam 100% de seus produtos e serviços poderão reduzir à metade a contribuição à Previdência. Para quem também comercializa no país, a redução incidirá só sobre a parcela exportada.
Hoje, as empresas recolhem ao INSS 20% sobre a folha de pagamento. Além disso, essas empresas contarão em dobro os gastos com capacitação de pessoal para abater da base de cálculo do Imposto de Renda e terão reduzida até zero a contribuição para o Sistema S.
Para levar o benefício, os empresários acertaram que, nos próximos quatro anos, eles contratarão e capacitarão 100 mil novos trabalhadores.
O setor de tecnologia da informação e comunicação inclui a terceirização de serviços que, normalmente, envolvem muita mão-de-obra, como as centrais de atendimento ao cliente, o chamado call center.
A idéia dessa indústria é transformar o Brasil num grande exportador de serviços.
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13 – MAI
Fiscalização pode levar a fim de benefícios

IURI DANTAS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A política industrial prevê fiscalização de compromissos assumidos pela iniciativa privada. O governo pode suspender benefícios se investimentos ou ampliação de vendas não se concretizarem.
Setores que não receberam incentivos poderão solicitar medidas específicas ao CNDI (Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial), que se reunirá a cada trimestre para avaliar o andamento da política.
As informações foram divulgadas pelo secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, que anunciou o fim do papel e a adoção da internet para registro de operações de "drawback" -mecanismo de isenção de impostos para importar insumos usados para exportação.
O "drawback" é usado atualmente em 25% das exportações brasileiras, responsáveis por movimento de US$ 40 bilhões. Na importação, corresponde a cerca de 10% a 15% da pauta de produtos comprados lá fora. Cerca de 2.500 empresas, a maioria grandes. utilizam o mecanismo hoje.
A meta do governo é elevar em 20% o número de companhias usando o "drawback" até o final do governo Lula.
Barral admitiu que a política industrial visa também auxiliar as exportadoras a manter o superávit comercial brasileiro.
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FOLHA – 13 MAI
repercussão
Associações aprovam medidas

DA REPORTAGEM LOCAL

As associações de classe se mostraram otimistas com as medidas anunciadas, e a maior preocupação agora é como e quando as mudanças sairão do papel.
A desoneração da folha de pagamento é um dos destaques, na avaliação da Abinee (indústria elétrica e eletrônica). "A redução da contribuição patronal [para a Previdência] viabiliza a vinda de uma série de empresas para o Brasil, o que pode gerar mais empregos", diz Humberto Barbato, presidente da associação. "Algumas empresas que já estão no Brasil, mas ainda não produzem softwares, devem passar a produzir."
José Curcelli, presidente da Abes (software), destaca que as medidas "vieram contemplar as solicitações para a área de exportação". Cerca de 70% dos gastos dessas empresas são com pessoal, por isso a proposta de trocar a redução dos tributos por capacitação profissional.
Segundo José Luiz Diaz Fernandes, presidente da Abimóvel (móveis), a expectativa do setor é estar entre os que serão contemplados com a redução de IPI. O pleito é para estofados e colchões, que têm alíquota de 10%, contra 5% dos itens restantes. Além das medidas que beneficiam micro e pequenas empresas -90% do setor-, Fernandes destacou a redução de IR, sobrando mais dinheiro para promoção de exportações.
Melvyn Fox, presidente da Abramat (materiais de construção), ressaltou a importância da capacitação da mão-de-obra, um dos gargalos do setor, prevista na política industrial. Porém um dos pontos que ainda precisam ser detalhados é a criação de normas de certificação.
Para a Abimaq (máquinas), o aumento do prazo de financiamento para a produção vai contribuir para expansão e recuperação do setor. "O prazo de cinco anos será estendido para dez, mesmo tempo que as empresas conseguiam nos financiamentos para importação de máquinas", disse Luiz Aubert Neto, que preside a associação. "Faltou olhar para a questão dos juros e do câmbio, que está fazendo um "estrago" no setor."
Para o presidente da Anfavea (montadoras), Jackson Schneider, "independentemente de serem suficientes ou não, as medidas apontam para uma direção". E acrescentou que, se todas as idéias não foram contempladas, pelo menos há a abertura para futuras sugestões. (CLAUDIA ROLLI E TATIANA RESENDE)
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FOLHA – 13MAI
foco
"Quem sabe agora nós alcançamos o BNDES", torce pequena indústria

AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL

Cláudio Lutzkat, principal executivo da Aliança Metalúrgica -fabricante de registros de botijões de GLP (gás liquefeito de petróleo) e fechaduras há 80 anos no bairro do Jaçanã, zona norte de São Paulo-, nem viu o anúncio da nova política industrial. Estava empenhado em acelerar a instalação de uma máquina importada, que ficou um mês retida no porto de Santos devido à greve dos auditores da Receita Federal.
A máquina integra investimento de US$ 4 milhões. "É investimento nosso, com dinheiro nosso. Não tem nada de BNDES", diz Lutzkat.
A Aliança Metalúrgica não acompanhou o anúncio, mas gostaria de saber: será que a nova política industrial vai alcançá-la?
"Quem sabe agora nós alcançamos o BNDES. Já tentamos, mas é algo tão distante, tão burocrático, que nos fez concluir que os recursos atendem apenas a uma elite industrial", afirma. Nos últimos anos, com problemas fiscais, o BNDES ficou ainda mais distante. Uma realidade de boa parte das empresas.
Mas, até o fim do ano, a empresa quer resolver a questão fiscal e bater novamente à porta do banco. Aliás, vai precisar. A capacidade de produção da fábrica superou os 90%. A venda no mercado interno vai bem, mas não as exportações. "Quem sabe consigamos recursos no médio prazo. Seria ótimo", diz.

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FOLHA – 13 MAI
Especialistas afirmam que medidas são insuficientes

Reduzir carga tributária e investir em infra-estrutura trariam mais efeito, dizem analistas

Ponto considerado mais positivo é a linha para investir em desenvolvimento de ciência e tecnologia, mas ainda assim há ressalvas

DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

Diminuir a carga tributária e investir pesadamente em infra-estrutura teriam um efeito muito maior de estímulo à indústria brasileira do que o conjunto de medidas anunciadas ontem pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, na opinião de especialistas no assunto. "Uma política industrial efetiva é feita com mais do que incentivos pontuais a determinadas áreas", diz Nuno Fouto, professor da FIA (Fundação Instituto de Administração).
Uma das principais críticas à Política de Desenvolvimento Produtivo diz respeito à meta de aumentar o volume de investimentos privados. "Eles dependem essencialmente do crescimento da economia e das expectativas. Seria recomendável que o governo cortasse os seus gastos correntes e pensasse em melhorar estradas, portos, fornecimento de energia elétrica, para que os empresários se sentissem realmente seguros em aumentar a produção", defende José Luiz Rossi Júnior, professor de macroeconomia do Ibmec-SP.
"Por mais que o governo tenha boa vontade, existem aspectos de política macroeconômica que dificultam que os objetivos sejam atingidos, como os juros elevados", acrescenta Arthur Barrionuevo, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Os resultados do plano no fomento às exportações também são questionados. Juan Quirós, ex-presidente da Apex (Agência Brasileira de Promoção da Exportação e Investimento) e vice-presidente da Fiesp, chama a política de "teoria". Segundo ele, dois pontos não foram resolvidos. Primeiro, o acesso aos recursos por pequenas e médias empresas: a exigência de garantias de 100% a 130% do valor pleiteado é um grande limitador. Além disso, não está prevista a criação de um comitê de gestão, que faça o trabalho de acompanhar a aplicação da política industrial.
Quirós explica que o governo federal entregou o acompanhamento do pacote nas mãos do CNDI (Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial), órgão criado pelo ex-ministro Luiz Fernando Furlan. "O conselho pode acompanhar a implantação da política, mas as urgências que vão tomando a agenda dos ministros [que formam o conselho] podem tirá-los desse acompanhamento e as medidas anunciadas ontem podem não andar", alerta ele, que participou, ainda na Apex, da formulação da primeira política industrial da gestão Lula.
O grande ponto positivo é a linha para investimento em desenvolvimento de ciência e tecnologia, mas ainda assim os pesquisadores fazem ressalvas.
"Não acho que crédito seja a melhor forma de financiar pesquisa. Sabendo que são consideráveis as chances de um projeto não dar certo, as companhias podem não querer tomar os empréstimos", comenta Barrionuevo.

Processo
Já Mario Sergio Salerno, professor da Escola Politécnica da USP, gostou do pacote. "As metas estão bem definidas, o arcabouço geral é bem-feito. Políticas são sempre uma porta -só saberemos se vão dar certo no futuro. Mas é grande as chances de que essas funcionem", diz. "Importa é que haja um processo de longo prazo, ou seja, a política vai sendo aprimorada ao longo do tempo. Por exemplo, a linha de crédito para pesquisa é melhor do que a que existia antes, o que significa que o país está avançando."


Colaborou AGNALDO BRITO , da Reportagem Local
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FOLHA – 13 MAI
Frase
"Seria recomendável que o governo cortasse os seus gastos correntes e pensasse em melhorar estradas, portos, fornecimento de energia elétrica, para que os empresários se sentissem realmente seguros em aumentar a produção"


JOSÉ LUIZ ROSSI JÚNIOR
professor de macroeconomia do Ibmec-SP
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FOLHA – 13 MAI
repercussão
Para centrais, é preciso haver contrapartidas

DA REPORTAGEM LOCAL

Centrais sindicais e Dieese avaliam que a nova política industrial precisa dar atenção à criação de empregos, melhoria na renda e das relações no local de trabalho.
"Países que deram certo fixaram políticas industrias e protegeram sua economia. O Brasil deu um passo importante em relação ao desenvolvimento. O que vamos cobrar é que sejam feitas contrapartidas, de forma acelerada, que possam resultar em melhor renda, emprego e qualificação profissional", afirma José Lopez Feijóo, diretor-executivo da CUT.
"Os investimentos que serão executados vão gerar empregos. Mas é preciso explicitar a qualidade desse emprego. O desafio é que essas medidas tenham contrapartidas sociais, ambientais e trabalhistas", diz Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese.
Sem essa preocupação, diz ele, a desigualdade social pode se ampliar. "Os investimentos deslocados para uma determinada região têm de vir acompanhados de infra-estrutura local. Caso contrário, o investimento anunciado pode gerar desequilíbrio com bolsões de pobrezas e trabalho informal."
"O governo acerta em tornar as empresas mais competitivas e se preocupar com a entrada de mais mercadorias importadas, o que pode gerar desemprego", diz João Carlos Gonçalves, secretário-geral da Força Sindical.
Ricardo Patah, presidente da UGT, avalia que a desoneração da folha de pagamento e incentivo ao crédito são medidas relevantes "em um contexto de baixa competitividade cambial, alta carga tributária e juros elevados".

Lado empresarial
Executivos e empresários de diversos setores receberam o anúncio da política industrial do governo com mais entusiasmo e quase sem ressalvas.
Entre as montadoras, Ford e GM consideraram "bem estruturado" o conjunto de medidas para incentivar as exportações e aumentar a produção.
O vice-presidente da GM do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto, cita o aumento do prazo para o pagamento do IPI e o alongamento nos prazos de financiamento do BNDES como algumas das medidas que mais irão beneficiar o setor. "Já vi disso [anúncios do governo para estimular a indústria] várias vezes. Pela primeira vez saí entusiasmado."
Pela mesma linha segue o diretor de Assuntos Corporativos para a Ford da América Sul, Rogelio Golfarb. "Já faz praticamente 30 anos que não temos uma política industrial consistente. Essa veio com uma definição clara de metas e objetivos."
A direção da fabricante de carrocerias Marcopolo também elogiou a iniciativa. O diretor-geral da companhia, Rubens de la Rosa, classificou a política industrial como "consistente, bem fundamentada e animadora".
No ramo siderúrgico, o diretor-presidente da Gerdau, André Gerdau Johannpeter, disse que o governo está no "caminho certo" e que encarava com "bons olhos" a iniciativa de lançar uma nova política industrial.
De acordo com ele, porém, é "cedo" para afirmar que a nova política industrial será capaz de acelerar o investimento e garantir o pleno abastecimento da crescente demanda do consumo no Brasil.
No segmento de eletrodomésticos, Armando Valle, diretor de Relações Institucionais da Whirlpool, que detém as marcas Brastemp e Consul, disse que todas as medidas que ajudem a exportação são bem-vindas pelo setor. De acordo com ele, no entanto, as diretrizes da política industrial deveriam ser atualizadas anualmente.

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FOLHA – 13MAI
repercussão
Executivos avaliam bem as medidas

DA REPORTAGEM LOCAL

Executivos e empresários de diversos setores receberam com entusiasmo o anúncio da política industrial do governo.
Entre as montadoras, Ford e GM consideraram "bem-estruturado" o conjunto de medidas para incentivar as exportações e aumentar a produção.
O vice-presidente da GM do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto, cita o aumento do prazo para o pagamento do IPI e o alongamento nos prazos de financiamento do BNDES como algumas das medidas que mais irão beneficiar o setor. "Já vi disso [anúncios do governo para estimular a indústria] várias vezes. Pela primeira vez saí entusiasmado."
Pela mesma linha segue o diretor de Assuntos Corporativos para a Ford da América Sul, Rogelio Golfarb. "Já faz praticamente 30 anos que não temos uma política industrial consistente. Essa veio com uma definição clara de metas e objetivos."
A direção da fabricante de carrocerias Marcopolo também elogiou a iniciativa. Segundo o diretor-geral da companhia, Rubens de la Rosa, a oferta de recursos para financiar exportações, pesquisa e desenvolvimento poderá beneficiar "positivamente as atividades da Marcopolo". De la Rosa classificou a política industrial como "consistente, bem-fundamentada e animadora".
No segmento de eletrodomésticos, Armando Val-le, diretor de Relações Institucionais da Whirlpool, que detém as marcas Brastemp e Consul, disse que todas as medidas que ajudem a exportação são bem-vindas pelo setor. "A indústria de eletrodomésticos é muito forte na exportação, e a cotação do dólar vem atrapalhando esses planos."
Para ele, as diretrizes da política industrial deveriam ser atualizadas anualmente, a exemplo do que ocorre em outros países. "Na velocidade em que o mundo anda, não é mais possível tomar decisões para quatro, cinco anos, sem tocar mais nelas", acrescentou.
Presidente da Montana Soluções Corporativas, Carlos Almeida diz que a desoneração da folha de pagamentos contida na política industrial deve gerar em sua empresa uma sobra de até R$ 6 milhões por ano para investimento. "Agora, podemos investir mais na qualificação dos nossos funcionários."

Cautela
No ramo siderúrgico, o diretor-presidente da Gerdau, André Gerdau Johannpeter, disse que o governo está no "caminho certo" e que encarava com "bons olhos" a iniciativa de lançar uma nova política industrial.
Segundo ele, porém, é "cedo" para afirmar que a nova política industrial será capaz de acelerar o investimento e garantir o pleno abastecimento da crescente demanda do consumo no Brasil e afastar o risco de inflação por demanda. "Precisamos entender melhor a política. Acho que está na direção certa", disse.
(AGNALDO BRITO, PAULO DE ARAUJO e TATIANA RESENDE)
 

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FOLHA – 13MAI
Corte de taxa do BNDES sairá por R$ 1 bi

DA SUCURSAL DO RIO

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) anunciou reduções de "spreads" (diferença entre a taxa de captação e a cobrada dos clientes) que terão impacto no balanço do banco de cerca de R$ 1 bilhão até 2010. Segundo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, as reduções nas taxas de empréstimos equivalem a R$ 350 milhões/ano.
"A redução do "spread" tem custo, vai reduzir um pouco o lucro do banco, mas não podemos reduzir demais porque tenho de remunerar o acionista, o Tesouro Nacional. Preciso contribuir para o superávit primário, mas felizmente o BNDES é um banco que dá lucro", disse.
O ministro Guido Mantega (Fazenda) ressaltou que o corte de taxas é equivalente ao fim da cobrança do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) nas transações do banco.
O BNDES reduzirá de 1,4% a 1,1% o "spread" básico médio dos empréstimos. Também baixou a taxa de intermediação financeira de 0,8% a 0,5%. O "spread" básico para compra de bens de capital caiu de 1,5% a 0,9%. O prazo da linha Finame (Financiamento para Máquinas e Equipamentos) passou de cinco para dez anos.
Mantega anunciou ainda a prorrogação do programa Revitaliza Exportação e Investimento, uma linha de financiamento do BNDES com taxas fixas no valor de até R$ 9 bilhões.

Mais recursos
O banco trabalha com orçamento de R$ 210,4 bilhões até 2010 somente para financiamentos da indústria e de serviços. Com os 190 projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o volume total de desembolso em três anos deve superar R$ 300 bilhões.
Coutinho não deu detalhes, mas indicou que parte dos recursos do BNDES nos próximos anos deve vir do fundo soberano, que será detalhado em entrevista hoje em Brasília.
Com metas mais arrojadas para os próximos anos, Coutinho destacou que o banco priorizará com empréstimos mais baratos os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, engenharia e inovação e formação de capacidade produtiva. Regiões como Norte e Nordeste também terão benefícios.
O BNDES, o Banco do Brasil e o do Nordeste estruturam fundo de investimento em participações para capitalização de empresas no Nordeste com patrimônio de R$ 300 milhões.
O banco expandiu a linha de financiamento para inovação com taxa de 4,5% fixa. Ampliou o apoio não-reembolsável no âmbito do Funtec (Fundo Tecnológico) de R$ 100 milhões/ano para R$ 300 milhões/ano.
(JANAINA LAGE)

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12/05/2008 – 17h00

Política industrial quer mais exportação; governo abre mão de R$ 21,4 bi em impostos

Da Redação
Em São Paulo
O governo federal anunciou nesta segunda-feira as medidas que integram sua nova política industrial. Entre as metas, está o aumento das exportações.

Para alcançar os objetivos, o governo disse que vai abrir mão de R$ 21,4 bilhões em impostos (a chamada renúncia fiscal). A idéia é financiar cerca de 25 setores da economia entre 2008 e 2010. Veja quadros com as principais medidas no fim deste texto.

Fundo soberano será financiado por superávit primário
Para ministro, pode haver corte de despesas
Programa estimula exportações: veja as propostas
Redução de encargos para softwares
BNDES vai desembolsar R$ 320 bilhões até 2010

"A desoneração, a renúncia fiscal de R$ 21,4 bilhões vem se somar a outras desonerações que o governo vem fazendo para estimular o país", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante a cerimônia de lançamento da Política de Desenvolvimento Produtivo, que já ganhou o apelido de "PAC da indústria", em referência ao Programação de Aceleração do Crescimento.

"O objetivo da política industrial é aumentar os investimentos e as exportações para garantir a sustentabilidade de um ciclo de crescimento", acrescentou Mantega. "Precisamos de uma nova onda de exportações do Brasil."

Repercussões

  • CNI elogia medidas anunciadas
  • Caminho é bom, mas câmbio atrapalha, afirma economista
  • Incentivos devem ter pouco efeito prático, dizem especialistas
    O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que a queda do dólar não vai impedir o crescimento das exportações brasileiras, essencial para que o país atinja 1,25% do comércio mundial em 2010. Essa é uma das quatro metas do novo plano.

    Além do aumento da participação brasileira no comércio mundial -que no ano passado foi de 1,18%-, o plano prevê a elevação do investimento fixo para 21% do PIB até 2010, contra 17,6% no calendário passado, o aumento do investimento privado em pesquisa e desenvolvimento para 0,65% do PIB em 2010 e a ampliação em 10% do número de micro e pequenas empresas exportadoras, o que significaria 12.971 micro e pequenas empresas brasileiras exportando em 2010.

    Para Paulo Bernardo, a tendência de queda do dólar acontece no mundo inteiro e não adiantaria o governo brasileiro tentar inverter essa trajetória.

    "Seria muita pretensão nossa achar que temos condições de fazer uma política cambial capaz de reverter. Possivelmente nós gastaríamos muito dinheiro e não conseguiríamos reverter a tendência de queda do dólar", disse Bernardo.

    Ele afirmou que, nos últimos cinco anos, o setor exportador brasileiro vem crescendo a despeito da queda contínua da moeda americana. "Não vi ninguém dizer que quebrou por causa do dólar."

    O ministro Mantega, anunciou formalmente a criação do fundo soberano do Brasil, que terá como principal fonte o superávit primário do setor público (economia que o governo faz para pagar dívida).

    Ainda sobre o fundo soberano, Paulo Bernardo negou que ele tenha como objetivo influenciar o câmbio. Segundo ele, o objetivo do fundo será fomentar a atividade de empresas brasileiras no exterior.

    O ministro minimizou também as críticas à Política de Desenvolvimento Produtivo que está sendo anunciada.

    Segundo ele, os que dizem que deveria haver mais investimento em infra-estrutura não fizeram esse tipo de investimento nos últimos 25 anos. "O Brasil passou 25 anos sem investimento em infra-estrutura, e o PAC e essa política são tentativas", comentou.

    MEDIDAS TRIBUTÁRIAS DE ESTÍMULO AO INVESTIMENTO

  • Prorrogação, até 2010, do previsto pela lei nº 11.051 de 2004: depreciação acelerada em 50% do prazo e crédito de 25% do valor anual da depreciação contra a CSLL
  • Redução de prazo de apropriação de créditos de PIS e COFINS derivados da aquisição de bens de capital de 24 para 12 meses
  • Redução do IPI para uma lista de setores a ser divulgada
  • Eliminação da incidência do IOF de 0,38% nas operações de crédito do BNDES, Finame e Finep
  • (Com informações da Reuters)
    FINANCIAMENTO DE RENDA VARIAVEL

  • Ampliação do "funding" do BNDES: desembolso total projetado para indústria e serviços entre 2008 e 2010 de R$ 210,4 bilhões (capacidade produtiva, inovação e modernização)
  • "Spreads" e prazo do BNDES: redução de 20% no spread básico do conjunto de linhas de financiamento do BNDES, de 1,4% para 1,1% ao ano
  • Linhas para comercialização de bens de capital: -Redução de 40% do spread básico de 1,5% ao ano para 0,9% ao ano; duplicação do prazo para a indústria no produto Finame, de 5 para 10 anos
  • 100% da TJLP (hoje 6,25% ao ano)
  • Redução da taxa de intermediação de 0,8 para 0,5%
  • (Com informações da Reuters)
    APOIO À INOVAÇÃO

  • Nova linha capital inovador: R$ 6 bilhões entre 2008 e 2010
  • Apoio e esforços inovativos das empresas, principalmente capacitação, ativos intangíveis, engenharia
  • TJLP + 0%
  • Nova linha inovação tecnológica: apoio a projetos de pesquisa desenvolvimento e inovação
  • Funtec (Fundo Tecnológico). Foco 2008: saúde, energias renováveis e redução de emissões
  • Finep: financiamento de R$ 740 milhões em 2008; subvenção econômica à inovação: R$ 325 milhões
  • Criação de um Fundo Soberano
  • (Com informações da Reuters)

    (Com informações de Reuters e Valor Online)

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    World Development Report 2008: AGRICULTURE FOR DEVELOPMENT

    Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 7:42 AM
     
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    Reforming the World Bank

    Jessica Einhorn

    From Foreign Affairs, January/February 2006

    Article preview: first 500 of 2,505 words total.

    Summary:  The World Bank’s outdated financial structure is a threat to its continued relevance. Paul Wolfowitz, the bank’s new president, should begin closing the wing of the bank that lends to middle-income countries.

    JESSICA EINHORN retired in 1998 as Managing Director of the World Bank after almost 20 years of service there. She is now Dean of SAIS, Johns Hopkins University.

    CREATIVE DESTRUCTION

    The World Bank entered a new era when Paul Wolfowitz took over as its president on June 1, 2005. Wolfowitz’s predecessor, James Wolfensohn, had served in the role for ten years, with a mission of transformation and a management style that placed great emphasis on his personal leadership. By the time he left the post, Wolfensohn had succeeded in giving the bank "a human face" and "a dream of a world without poverty," and in altering the institution’s priorities to emphasize building institutions, improving governance, enhancing the voice and participation of the poor, strengthening the rule of law, and stamping out corruption. When he replaced Wolfensohn, Wolfowitz was quick to emphasize that he embraced the bank’s antipoverty mission. At the same time, he has let it be known that he will forgo a big-bang presidency.

    The annual meetings of the International Monetary Fund and the World Bank take place in the fall, and, in a tradition begun by Robert McNamara in Nairobi in 1973, the president of the bank is expected to use that occasion to share his vision for the institution and unveil new initiatives. Wolfowitz’s maiden speech, delivered at the annual meeting in Washington, D.C., in September 2005, was crafted to present himself as a president who will focus on the management of the institution, in cooperation with its partners, and look for leadership within countries themselves, with an emphasis on results and accountability.

    The term "the World Bank" is shorthand for "the World Bank Group," which consists of several institutions. These include, most prominently, the International Bank for Reconstruction and Development (IBRD) and the International Development Association (IDA), which provide credit to governments, and the International Finance Corporation (IFC), which works directly with the private sector. The IBRD’s function is to provide loans at market-based rates to middle-income countries and better-off poor countries; IDA focuses on assisting development in the poorest countries in the world, with highly concessional financing. As the bank enters what may well be a ten-year period of leadership under Wolfowitz, it is necessary to ask whether changes to this structure are needed if the bank is going to continue to flourish. Most important is the question of how — or if — the IBRD can remain relevant to the needs of its middle-income clients and adapt its own financial structure to the modern world of global finance.

    GROWING PAINS

    During its over 60 years of existence, the World Bank has been a key part of the international institutional architecture. Along with the International Monetary Fund, it was established to promote an open and liberal international economy. Some of its greatest achievements, accordingly, have come from helping countries develop and grow through a liberalizing, outward-looking strategy. The bank’s adversaries, meanwhile, are those who oppose the liberal trading system (this does not include those who argue that the liberal trading system could function better). On this issue, the bank simply cannot try to accommodate its critics.

    Over time, the bank has evolved …

     
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    October 19, 2007 – World Development Report 2008 calls for greater investment in agriculture in developing countries.The report warns that the sector must be placed at the center of the development agenda if the goals of halving extreme poverty and hunger by 2015 are to be realized.

    • While 75 percent of the world’s poor live in rural areas in developing countries, a mere 4 percent of official development assistance goes to agriculture.
    • In Sub-Saharan Africa, a region heavily reliant on agriculture for overall growth, public spending for farming is also only 4 percent of total government spending and the sector is still taxed at relatively high levels.

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    For the poorest people, GDP growth originating in agriculture is about four times more effective in raising incomes of extremely poor people than GDP growth originating outside the sector. More…  | Press Briefing Transcript“A dynamic ‘agriculture for development’ agenda can benefit the estimated 900 million rural people in the developing world who live on less than $1 a day, most of whom are engaged in agriculture,” said Robert B. Zoellick, World Bank Group President. “We need to give agriculture more prominence across the board. At the global level, countries must deliver on vital reforms such as cutting distorting subsidies and opening markets, while civil society groups, especially farmer organizations, need more say in setting the agricultural agenda.”
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    http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2008/ 0,,contentMDK:21488973~menuPK:4304760~pagePK:64167689~piPK:64167673~theSitePK:2795143,00.html


    Getting Prices Right through Policy Reforms in Developing Countries

    http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2008/ 0,,contentMDK:21498604~pagePK:64167689~piPK:64167673~theSitePK:2795143,00.html

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    Getting Prices Right through Policy Reforms in Developing Countries

    http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2008/ 0,,contentMDK:21498604~pagePK:64167689~piPK:64167673~theSitePK:2795143,00.html

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    More and Better Investment in Agriculture
    http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2008/ 0,,contentMDK:21498707~pagePK:64167689~piPK:64167673~theSitePK:2795143,00.html

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    Meeting Growing Demand for Agriculture through Innovations In Science And Technology
    http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2008/ 0,,contentMDK:21506610~pagePK:64167689~piPK:64167673~theSitePK:2795143,00.html

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    The Agenda for Agriculture-Based Countries of Sub-Saharan Africa


    The Agenda for Transforming Countries of Asia and of the Middle East and North Africa


    The Agenda for Latin America and the Caribbean

    http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2008/ 0,,contentMDK:21498580~isCURL:Y~menuPK:4304760~pagePK:64167689~piPK:64167673~theSitePK:2795143,00.html – Urbanized

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    http://siteresources.worldbank.org/NEWS/Resources/risingfoodprices_backgroundnote_apr08.pdf

    Rising food prices: Policy options and World Bank response

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    3 de maio de 2008

    BLOGs

    Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 10:10 PM
     
     
     
    Marcelo Tas dá dicas para blogueiros
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    30/04/2008 – 07h00
    Saiba como transformar seu blog em um sucesso da Internet
     
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    Blogs: 9 ferramentas e serviços essenciais para criar e sofisticar o seu

    Por Guilherme Felitti, repórter do IDG Now!
    Publicada em 20 de fevereiro de 2008 às 07h00; Atualizada em 20 de fevereiro de 2008 às 12h16
     
     
     

    2 de maio de 2008

    CRISE DOS ALIMENTOS – FALTA E PREÇOS II

    Filed under: Computadores e a Internet — Porfiro @ 10:36 PM
    A batalha contra a fome em Camarões


    Philippe Bernard
    Enviado especial a Iaundê

    A batalha contra a fome é travada primeiramente contra o tempo. Todos os dias, como milhões de mulheres africanas, Léontine Mbamba, 52 anos, mãe sozinha de quatro filhos, a conduz sem ruído, mas na linha de frente. Sentada em sua cama no estreito cômodo de paredes nuas que serve ao mesmo tempo de quarto, sala e cozinha, ela tenta explicar como alimenta os seus enquanto os preços disparam, enquanto o essencial dos 400 mil francos camaroneses (600 euros) de seu salário mensal de professora vai para os gêneros de primeira necessidade.

    Sua palavra de ordem é simples: "fazer o tempo durar", ou seja, tocar com a menor freqüência possível no saco de arroz, cujo preço aumentou cerca de 50% em poucos meses, beirando os 300 francos o quilo (0,45 euros), fazer de modo que o meio litro de óleo de palma "dure duas semanas" e que os seis sabões de Marselha durem um mês, incluindo banhos e louça.

    "Feitiçaria e oração"
    A valsa dos preços tornou-se uma obsessão para todo camaronês desde que o aumento se generalizou e ampliou. A tal ponto que vários jovens morreram sob as balas dos policiais durante as greves e rebeliões da fome acompanhadas de saques, no final de fevereiro, em várias aldeias e cidades do país.
     CONTINUA……

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    São Paulo, sexta-feira, 30 de maio de 2008 – tendencias e debates
    O futuro chegou: crise alimentar e energética

    PAUL SINGER

    Nunca em tempos de paz houve pressões inflacionárias tão violentas a partir do encarecimento de bens essenciais

    O PREÇO do petróleo está batendo recordes quase diariamente. No momento, ele gira ao redor de 130 dólares o barril. O índice dos preços de alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) foi, em média, 127 em 2006 e 157 em 2007, subindo para 220 em março de 2008 (1998-2000 = 100). Nunca em tempos de paz houve pressões inflacionárias tão violentas a partir do encarecimento de bens essenciais.
    Eis a grande novidade dessa dupla crise que se deve às mesmas causas: a redução da pobreza em grandes países periféricos, como a China, a Índia e o Brasil (além de outros), que expandiu fortemente a demanda por derivados de petróleo e por alimentos "nobres" -carne e laticínios, cuja produção exige muito mais trabalho humano, energia e recursos naturais não renováveis, como terra e água.
    A elevação dos preços do petróleo e da comida deveria provocar um aumento de sua produção, pois seu encarecimento a torna mais lucrativa. Mas a elevação da produção alimentar esbarra na disponibilidade de terra e água, limitada pela sua poluição pelos elementos químicos utilizados pelos agricultores. O mesmo vale para o aumento da produção de petróleo, limitado pelas reservas exploráveis.
    Estamos nos defrontando com um cenário que Celso Furtado previu em 1974, quando escreveu "O Mito do Desenvolvimento Econômico". Ele sustentava que era um mito esperar que o desenvolvimento econômico dos países do Terceiro Mundo lhes permitiria alcançar o nível de vida usufruído apenas pelos povos do Primeiro Mundo, porque não haveria recursos naturais suficientes para que isso pudesse acontecer.
    Quase um terço de século decorreu desde então, e o que parecia na época um exagerado temor malthusiano tornou-se consensual, sobretudo desde que se comprovou que o clima da Terra está aquecendo, com conseqüências danosas para os recursos naturais do planeta.
    A nova classe média nos países chamados de emergentes passou a ter dinheiro para alcançar o padrão de vida de sua congênere do Primeiro Mundo. Essa mudança seria desejável se ela não impactasse desfavoravelmente sobre a grande massa que continua pobre.
    A carestia da comida, causada pelo aumento da demanda dos ex-pobres, empobrece ainda mais os que já gastam a maior parte do que ganham para alimentar a família. Os cereais que lhes mataria a fome tendem agora a ser dados aos animais cujos derivados alcançam preços cada vez mais atraentes.
    O funcionamento do mercado mundial de alimentos produz "naturalmente" esses efeitos perversos. Motins da fome estouram em cada vez mais países e, de acordo com a FAO, em 37, dos quais 21 africanos, há crise alimentar.
    Premidos pelo desespero dos famintos, cada vez mais governos (inclusive o brasileiro) tratam de restringir a exportação de alimentos básicos para garantir o abastecimento do mercado interno. O que naturalmente agrava a situação dos pobres nos países que dependem de alimentos importados.
    A ONU, alarmada com a gravidade da situação, está solicitando das nações mais ricas recursos para impedir que a fome se alastre pelo mundo, pondo em risco não só o combate à pobreza mas também a paz mundial.
    Governos terão de adotar medidas de emergência para garantir um abastecimento alimentar mínimo a todos: estatizar os estoques de alimentos para evitar que sejam açambarcados pelos que têm dinheiro para formar estoques privados. E racionar a sua venda, por preços que os mais pobres possam pagar; eventualmente, taxar mais os alimentos derivados de animais para possibilitar o aumento da produção dos alimentos vegetais, indispensáveis à nutrição do conjunto da população; taxar também os derivados de petróleo, para reduzir a utilização do transporte individual e aumentar a do transporte coletivo.
    A crise alimentar e energética poderá talvez ser contida por medidas como essas, mas sua resolução exigirá mudanças mais profundas.
    Os padrões de consumo terão de ser acomodados à real disponibilidade de recursos naturais, e esta deverá ser alargada por mais investimentos no aumento da produção agrícola sustentável do ponto de vista social e ambiental.
    As crises energética e da mudança climática terão de ser resolvidas pelo desenvolvimento de fontes renováveis de energia limpa, única maneira de acabar com as emissões de gases resultantes da queima de combustíveis fósseis.
    A crise alimentar não pode deixar de limitar, em alguma medida, a produção de agrocombustíveis, de modo que o desenvolvimento de outras fontes de energia -solar, eólica, hidráulica- terá de receber prioridade.


    PAUL SINGER, 76, economista, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP, é secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Foi secretário municipal do Planejamento de São Paulo (gestão Luiza Erundina).

     
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    São Paulo, segunda-feira, 26 de maio de 2008

    Fundos negociam até 8 vezes mesma safra

    Investidores financeiros alavancam preços no mercado agrícola e elevam chances de riscos e ganhos para o produtor

    No Brasil, o valor de negociação de produtos agrícolas subiu 64% no ano passado e 81% nos quatro primeiros meses deste ano

    Natacha Pisarenko – 7.abr.08/Associated Press

    Agricultor mostra soja colhida na safra de verão deste ano

    MAURO ZAFALON
    DA REDAÇÃO

    Risco maior e irracionalidade. Esses são os novos "perigos" para as negociações no mercado agrícola internacional. Os riscos são trazidos, em boa parte, por novos fundos que, em busca de diversificação de mercados para atuar, descobriram os agrícolas no momento em que a demanda por eles explode com o apetite voraz por alimentos dos mercados emergentes gigantes, como China e Índia. Essa inflação agrícola (já batizada de "agflação") vem gerando distúrbios sociais em países consumidores e ganhos em produtores, como o Brasil.
    O ritmo acelerado de negociações no mercado futuro chega a girar 22 safras anuais de soja. Só os fundos são responsáveis por 8 dessas safras. Em 2007, o mercado futuro agrícola da Chicago Board of Trade negociou 7,3 bilhões de toneladas de milho, 4,3 bilhões de soja e 2,7 bilhões de trigo. A produção física desses produtos, em 2007, foi de 780 milhões, 220 milhões e 606 milhões de toneladas, respectivamente.
    Volumes maiores de negociações esquentaram os preços, que passaram a ter variações bruscas, chamadas pelo mercado de "volatilidade". Essas oscilações seguem entradas e saídas dos fundos e trazem riscos.
    Esses riscos, no entanto, não desagradam aos participantes do setor. Para os produtores, podem significar preços maiores. Para os investidores, a chance de uma margem maior de lucro nas operações. Para as Bolsas, maior liquidez, o que tornam ainda mais atraentes as operações nessas instituições.
    Esse mercado voraz exige cada vez mais profissionalismo. Do contrário, empresas e produtores podem ser liquidados quando estiverem do lado errado da tendência do mercado. Foi o que ocorreu com empresas do Meio-Oeste dos EUA e do Centro-Oeste brasileiro. No caso brasileiro, uma tradicional empresa de Goiás não conseguiu honrar os compromissos no mercado de Chicago.
    Os produtores brasileiros não ficaram isentos a essa volatilidade. No ano passado, negociaram parte da safra com valores até inferiores a US$ 9 por saca. A soja superou os US$ 30.
    Um dos grandes produtores de soja de Mato Grosso vendeu a soja por valores inferiores a US$ 10 por saca e, na hora da entrega, rompeu os contratos. O caso foi para a Justiça.

    Operações na BM&F
    Não é só no exterior que aumentaram as operações agrícolas. A BM&F, agora BM&F Bovespa S.A., pode negociar US$ 45 bilhões neste ano no mercado agropecuário. No ano passado, foram US$ 24,3 bilhões. Em 2006, US$ 12,5 bilhões.
    "O mercado atual é dominado por imprevisibilidade e irracionalidade impressionantes", diz Fernando Muraro, da Agência Rural. Há cinco anos, oferta, demanda, chuva e seca direcionavam os preços do mercado futuro de grãos. Nos últimos anos, se perdeu essa formação básica e "a volatilidade [dos preços], que historicamente era de 20%, foi a 50%", afirma.
    Victor Abou Nehmi Filho, gerente da Sparta, administradora de fundos de investimento, diz que os fundos não influenciam nos preços finais do produto, "mas dão volatilidade". Os fundos operam sob as mesmas regras técnicas e públicas a que todos têm acesso. A entrada ou saída desses fundos no mercado pode, no entanto, provocar alterações bruscas nos preços, admite ele.
    Ivan Wedekin, diretor de Produtos do Agronegócio e Energia da BM&F, concorda. "Os fundos não geram os fundamentos do mercado -aumentam ou diminuem a febre [dos preços]", que vem da oferta e da demanda.
    "Os fundos não criam mercados, mas apenas vão onde existe liquidez. Quem cria os mercados são os "hedgers" -cooperativas, traders, exportadores etc.", diz Wedekin.
    Muraro insiste em que os preços atuais têm algo mais do que oferta e demanda. "O mercado viveu, em 2007, com os maiores estoques de soja da história. Mesmo assim, os preços explodiram." Isso mostra o lado irracional do mercado, diz.

    Além de oferta e demanda
    O diretor da Agrural diz, ainda, que oferta e demanda não explicam o fato de a saca de soja subir de US$ 17,60, em agosto de 2007, para US$ 35, em fevereiro, na Bolsa de Chicago. Em abril, já recuava para US$ 24.
    "Essa "financeirização" do mercado veio para ficar e pode gerar novo boom para as commodities", diz Muraro. Um desses sinais é a retomada de pressão dos preços do petróleo que, na sexta-feira, atingiram US$ 132 por barril em Nova York.
    Apesar da imprevisibilidade e da irracionalidade do mercado, Muraro diz que a volatilidade não é ruim. Quem estiver no mercado tem de ser profissional para não ser atropelado.
    É difícil mensurar, mas os volumes negociados no mercado futuro agropecuário são impressionantes. A alta se deve, em parte, aos novos milhares de fundos que se especializam em nichos, diz Muraro.
    Começaram com ações na Dow Jones, passaram pela Nasdaq, migraram para as commodities minerais, petróleo e chegaram aos agrícolas.
    Essas bruscas elevações de preços forçam produtores e empresas que trabalham no mercado físico a buscar saídas. Diz um operador que bancos e tradings já montam operações paralelas às de Chicago, em que as duas partes -fornecedor e usuário de matérias-primas- seguem a Bolsa, mas sem o pagamento dos ajustes diários, como os do mercado futuro.

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    26 mai
    saiba mais

    Investidor quer proteção no mercado futuro

    DA REDAÇÃO

    O mercado futuro é onde são negociados preços de commodities -agrícolas, metálicas, de energia etc.- e ativos financeiros para determinadas datas futuras, fixando-se os preços para esses períodos. Com isso, os agentes envolvidos na operação podem minimizar os riscos de suas atividades.
    No mercado futuro existe um mecanismo chamado "ajuste diário", que serve para que os agentes -comprador e vendedor- acertem a diferença entre os preços diários de negociação. Se o preço futuro cair, o comprador transfere ao vendedor a diferença em relação ao preço do dia anterior. Se o preço futuro subir, é o vendedor que transfere ao comprador a diferença. Essas operações são feitas pela própria Bolsa.
    Outro mecanismo utilizado no mercado futuro é a margem de garantia, valor exigido de todos os clientes para cobrir o risco diário de suas posições, em razão da obrigatoriedade de pagamento de ajuste diário.
    Os agentes participantes desse mercado são os "hedgers" (os que utilizam o mercado futuro em busca de minimização do risco de o preço variar contra seus interesses) e os investidores ou especuladores (os que buscam ganhar com as variações de preços, como os fundos).
    Um produtor de milho pode fazer hedge de proteção. Verifica os custos de produção no plantio, os preços futuros na Bolsa na colheita e calcula a margem em relação aos seus custos. Diante dessa margem, vende contratos futuros de milho.
    Se, no vencimento do contrato, a Bolsa registra valor maior, o produtor paga a diferença ao comprador. Esse desembolso, no entanto, será compensado com a venda do milho no mercado físico.
    Se os preços na BM&F recuarem, ele receberá a diferença do comprador do contrato, o que compensará as perdas da venda do produto no mercado físico. (MZ)

    Negócios do mercado futuro no Brasil avançam 81% neste ano

    DA REDAÇÃO

    O avanço dos fundos no mercado futuro de produtos agrícolas ocorre também no Brasil, um dos maiores produtores mundiais de alimentos.
    As operações na Bolsa de Mercadorias & Futuros registram, nos quatro primeiros meses deste ano, crescimento de 81% no volume financeiro agropecuário em relação a igual período de 2007.
    A expansão das negociações futuras neste mercado por aqui foi de 64% no ano passado, taxa bem acima dos 25% da média mundial. Apesar disso, os investimentos em aplicações agrícolas ainda representam apenas 0,6% do total das negociações da BM&F, abaixo dos 4% da média mundial.
    Mas o crescimento das negociações agrícolas no Brasil não se reduz à participação dos fundos, que aparecem no mercado quando cresce a liquidez -ou seja, quando aumentam os participantes nessas negociações.
    Segundo Ivan Wedekin, diretor de Produtos do Agronegócio e Energia da BM&F, o agronegócio deslancha no Brasil e o setor busca cada vez mais proteção para seus negócios, principalmente devido à volatilidade dos preços.
    A Bolsa tem hoje uma participação maior de frigoríficos, cooperativas, indústrias etc.
    O aumento dos participantes do mercado físico agrícola eleva o movimento na Bolsa e atrai também bancos e fundos. Esses novos participantes dão maior liquidez à Bolsa, permitindo aos investidores melhor entrada e saída do mercado.
    Wedekin diz que os fundos sempre operaram nos contratos agrícolas. "Eles [os fundos] não comem milho nem soja nem usam álcool no carro; apenas potencializam os efeitos que vêm do mercado real." Quem cria os mercados são os "hedgers" naturais (cooperativas, produtores, traders, exportadores)."
    No ano passado, a Bolsa negociou o correspondente a 3,4 safras de café e a 2 vezes as exportações brasileiras de carnes. Milho e soja, que antes tinham pouco movimento, têm agora negócios que representam 10% da produção nacional.
    Diante do potencial do agronegócio brasileiro, os estrangeiros já representam 17% dos negócios das operações na BM&F e em alguns produtos eles têm a participação de 30% das posições em aberto.

    Queda dos juros
    A participação dos fundos de investimento nas negociações do mercado futuro de agrícolas pelo mundo vem crescendo desde o início da década, quando o governo norte-americano reduziu a taxa de juros.
    As aplicações de renda fixa ficaram menos atraentes e essas instituições foram buscar riscos em outros investimentos.
    Além da redução dos juros nos Estados Unidos, os fundos perceberam que a China sinalizava com demanda forte, o que os levou para as commodities -principalmente ouro, petróleo e minérios, afirma Victor Abou Nehmi Filho, gerente da Sparta, administradora de fundos de investimento.
    Mais recentemente, os desajustes entre oferta e demanda de alimentos -evidenciados ainda mais pela elevação de renda nos países emergentes- abriram novo mercado para esses fundos, que passaram a atuar de forma mais agressiva nos agrícolas, principalmente grãos negociados em Chicago.
    Os números do milho mostram os sinais desses fundos nas negociações em Chicago. No início da década, eram negociadas 3,5 safras por ano. Em abril, esse volume era de 1,5 safra, atingindo 10 safras nos últimos 12 meses.
    (MZ)

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    26/05/2008 – 03h14

    Especulação pressiona os preços dos alimentos

    Publicidade

    da Folha Online

    A alta de preços provocada pela especulação no mercado agrícola internacional já se traduz em distúrbios sociais nos países consumidores e ganhos nos produtores, como o Brasil, relata Mauro Zafalon em reportagem publicada na Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

    Em busca de diversificação de mercados, novos fundos passaram a investir fortemente nos produtos agrícolas no instante em que a demanda por eles explode em emergentes como China e Índia.

    A negociação no mercado futuro chega a movimentar o equivalente a 22 vezes o volume das safras anuais de soja. Os preços estão sujeitos a variações bruscas, mas o risco não desagrada a produtores e investidores, que apostam em ganho maior.

    Os negócios com produtos agrícolas na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) cresceram 64% em 2007 e 81% no primeiro quadrimestre deste ano.

    Leia a matéria completa na Folha desta segunda-feira, que já está nas bancas.

    Assine a Folha

     
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    19/05/2008
    A batalha contra a fome em Camarões

    Philippe Bernard
    Enviado especial a Iaundê

    A batalha contra a fome é travada primeiramente contra o tempo. Todos os dias, como milhões de mulheres africanas, Léontine Mbamba, 52 anos, mãe sozinha de quatro filhos, a conduz sem ruído, mas na linha de frente. Sentada em sua cama no estreito cômodo de paredes nuas que serve ao mesmo tempo de quarto, sala e cozinha, ela tenta explicar como alimenta os seus enquanto os preços disparam, enquanto o essencial dos 400 mil francos camaroneses (600 euros) de seu salário mensal de professora vai para os gêneros de primeira necessidade.

    Sua palavra de ordem é simples: "fazer o tempo durar", ou seja, tocar com a menor freqüência possível no saco de arroz, cujo preço aumentou cerca de 50% em poucos meses, beirando os 300 francos o quilo (0,45 euros), fazer de modo que o meio litro de óleo de palma "dure duas semanas" e que os seis sabões de Marselha durem um mês, incluindo banhos e louça. CONTINUA………………

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    17/05/2008
    Crise dos alimentos encontra o caos no Chifre da África

    Jeffrey Gettleman
    Em Dagaari, Somália

    A crise global de alimentos chegou à cabana de Safia Ali.

    Ela não mais consegue comprar arroz, trigo ou leite em pó. Uma seca dizimou o rebanho de cabras de sua família, transformando o único meio de vida da família em uma pilha de ossos secos e pele que lembra papel.

    Safia, 25 anos e mãe de cinco, não come há uma semana. Seu filho de um ano -um menino adorável mas apático que não responde nem a um beliscão- também está passando fome.

    A Somália -e grande parte do volátil Chifre da África- era o último lugar na Terra que precisava de uma crise de alimentos. Mesmo antes dos preços dos commodities começarem a subir por todo o mundo, guerra civil, deslocamento e operações de ajuda ameaçadas já deixavam muitas pessoas daqui à beira da fome. continua……………………………

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    Capitalism, Agribusiness and the Food Sovereignty Alternative

    by Ian Angus
    Global Research, May 11, 2008
     

    "Nowhere in the world, in no act of genocide, in no war, are so many people killed per minute, per hour and per day as those who are killed by hunger and poverty on our planet." —Fidel Castro, 1998

    When food riots broke out in Haiti last month, the first country to respond was Venezuela. Within days, planes were on their way from Caracas, carrying 364 tons of badly needed food.

    The people of Haiti are "suffering from the attacks of the empire’s global capitalism," Venezuelan president Hugo Chàvez said. "This calls for genuine and profound solidarity from all of us. It is the least we can do for Haiti." CONTINUA…………………….

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    Cargill: Key Player in Global Food Crisis
    New Food & Water Watch Report Reveals the Damaging Impacts of Agribusiness Giant
    WASHINGTON, DC – May 12 – While millions of people around the world face severe hunger, the handful of agribusiness corporations that dominate the global agricultural market are seeing huge profits. One of the key players in the global food market, Cargill, is profiled in a new report released today by the national consumer group Food & Water Watch. The report, entitled Cargill: A Corporate Threat to Food and Farming, details Cargill’s vast influence over international trade and how the company threatens consumers, family farmers, workers, the environment, and even entire economies around the world. CONTINUA…………..
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    The Food Crisis and Latin America
    A real crisis or a conspiracy?

    by Eduardo Dimas

    Global Research, May 15, 2008
    Progreso.com

    ‘Control the oil and you’ll control the nations; control the food and you’ll control the people.’ — Henry Kissinger (1970)

    I’ve known that phrase from Kissinger for a good many years. I confess that until now I had not given it much importance. It is an absolute truth, almost an axiom, that could become a terrible reality.


    The alimentary crisis is real. The price of foodstuffs climbs and climbs. The reserves drop. The same happens with oil, which places many nations and peoples who do not produce food or oil in a desperate situation. Is this the result of a set of random events that coincide in time, or is it the effect of a plan for world domination?

    If we guide ourselves by Kissinger’s words, it seems to be the latter rather than the former. And that leads us to ask ourselves other questions. Was the idea of increasing the production of ethanol (launched by George W. Bush in March 2007) by utilizing the basic grains for the feeding of humans and animals also a coincidence?
    CONTINUA……….

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    SUBSÍDIOS
    Deputados dos EUA aprovam Lei Agrícola

    DA REDAÇÃO

    A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou ontem com ampla maioria a nova Lei Agrícola do país ("farm bill"), apesar da pressão do presidente George W. Bush, que já disse que irá vetar o projeto.
    A proposta foi aprovada por 318 votos a 106, o que garante facilmente aos deputados os mais de dois terços necessários para tornar nulo o veto do presidente, caso ele cumpra com a sua promessa. Para Bush, o projeto, de US$ 289 bilhões, é caro e subsidia produtores que não necessitam da ajuda.
    A lei, que prevê, entre outras medidas, a redução de US$ 0,06 no subsídio ao álcool de milho, para US$ 0,45 o galão (3,79 litros), deve ser votada hoje pelo Senado, onde se espera que não deva ter dificuldades para ser aprovada. Como cada Estado tem direito a dois senadores, as regiões agrícolas -favoráveis ao projeto- têm maior presença que na Câmara dos Representantes.
    Bush vetou nove projetos desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos, em 2001 -o Congresso só revogou um deles, no ano passado.

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    12/05/2008 – 09h06

    FAO prevê produção recorde de arroz em 2008 e preços altos

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    da France Presse, em Roma
    da Folha Online

    A FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) previu nesta segunda-feira que a produção mundial de arroz alcançará um nível recorde em 2008 e que os preços permanecerão elevados a curto prazo.

    "A produção mundial para 2008 pode crescer 2,3%, atingindo o novo recorde de 666 milhões de toneladas, segundo nossas previsões preliminares", disse a especialista em arroz da FAO, Concepción Calpe.

    Na semana passada, o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que a crise mundial dos alimentos permanecerá até 2015, com altas nos preços dos alimentos, em especial os grãos. "Os níveis dos preços em 2015 serão mais altos do que em 2004, devido ao crescimento da demanda dos países em desenvolvimento", declarou Zoellick.

    Ele descartou que os preços dos alimentos possam recuperar os níveis de 2004. Em entrevista coletiva realizada na capital mexicana, o presidente do banco afirmou que se espera "que haja uma resposta por parte da oferta para que os preços reduzam um pouco entre 2009 e 2010; mas que em termos gerais a previsão é de que eles continuarão elevados até 2015".

    Zoellick considerou urgente que todos os países modifiquem suas políticas de produção alimentícia a fim de garantir a provisão dos grãos básicos às populações. Para ele, uma saída é que "haja uma resposta da oferta para baixar os preços".

    "Esperamos um aumento da oferta de alimentos que permita frear os preços entre 2009 e 2010", disse, após assinar um empréstimo de US$ 205 milhões para apoiar o programa sobre a mudança climática.

    A FAO destacou ainda que a passagem do ciclone Nargis por Mianmar reduzirá fortemente a produção neste país.

    Mianmar precisará da ajuda dos países vizinhos, em particular Tailândia e Vietnã, para importar arroz.

    Leia mais

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     14/05/2008 – 14h04

    Preços dos alimentos devem permanecer altos por até três anos, diz Casa Branca

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    da Folha Online

    A Casa Branca considera que os altos preços dos alimentos ao redor do mundo devem persistir por mais dois ou três anos, até que os estoques mundiais consigam ser reabastecidos, e negou que a produção de biocombustíveis, como o álcool a partir do milho, tenha papel significativo sobre os preços.

    "Os estoques foram consumidos e vai levar um tempo para reabastece-los, por isso os preços continuarão altos", disse o chefe dos conselheiros econômicos da Casa Branca, Edward Lazear. "Nossa estimativa é de que os preços [dos alimentos] continuarão altos, sem disparar à mesma taxa de elevação vista no último ano."

    A produção de biocombustíveis (vista como um dos principais fatores a influenciar a alta dos preços dos alimentos) não tem papel relevante no atual nível dos preços, disse o diretor do Conselho Econômico Nacional (órgão também ligado à Casa Branca), Keith Hennessey. Os que argumentam que o aumento, determinado pelo presidente [no programa de combustíveis renováveis] está contribuindo para a alta nos preços dos alimentos estão incorretos", afirmou.

    Segundo Lazear, a inflação dos preços dos alimentos no mercado mundial foi de 43% nos 12 meses encerrados em março. Ele disse que, como o milho representa uma parte muito pequena do índice do FMI (Fundo Monetário Internacional) para os preços dos alimentos), a participação da produção de álcool a partir do milho contribuiu com apenas 1,2% na alta geral nos preços dos alimentos.

    Lazear destacou ainda que as despesas dos americanos com alimentos foi de menos de 14% de seus gastos totais no período, enquanto na África essa proporção chegou a 43% –e entre as populações mais pobres da região da África subsaariana a proporção pode chegar a 70%.

    O conselheiro da Casa Branca informou que os preços do trigo subiram 123% no período, enquanto os da soja subiram 66%; os do milho, 37%; e os do arroz, 36%. O consumo nos países emergentes cresceu 45% entre 2001 e 2007, na comparação com o período de 1991 a 2000, lembrou Lazear, e esse aumento respondeu por cerca de 18% da alta total.

    Outro fator que contribuiu para a alta dos alimentos foi a ocorrência de condições climáticas adversas, que destruíram safras.

    Com informações da Reuters

    Leia mais

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    Cadê o agronegócio? Cadê os alimentos?
    Escrito por Bernardo Mançano Fernandes   

    30-Abr-2008

    A crise atual da inflação dos preços de alimentos na maior parte do mundo derruba dois mitos. 1) O agronegócio é o grande produtor de alimentos; 2) A fome e a desnutrição são causadas pelo fato de a população não ter dinheiro para comprar alimentos, não pela falta de alimentos, que estariam sobrando. CONTINUA…….

     
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    Escrito por Valéria Nader   

    30-Abr-2008
    Crise alimentar é o resultado do livre mercado e do abandono da política agrária

    Em face de mais uma crise mundial que parece explosiva, com a fome e a inflação de alimentos se tornando noticiário nos vários cantos do planeta, conversamos com o professor do departamento de Geografia da USP Ariovaldo Umbelino.

    Para Umbelino, a atual situação não deixa a menor margem para diagnósticos ilusionistas: a crise alimentar resultou da total incapacidade do mercado para conduzir à segurança e à soberania alimentar. No Brasil, a ausência de reforma agrária foi também determinante, e a situação é tendencialmente explosiva em função da escalada dos biocombustíveis.

    Confira abaixo entrevista exclusiva.

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    Agricultura e especulação – Escrito por D. Demétrio Valentini

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    Agricultura e especulação
     
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    Las explicaciones falsas de la crisis alimentaria en la prensa

    Eric De Ruest

    Miércoles 7 de mayo de 2008, por Revista Pueblos

    Desde hace días se suceden las manifestaciones populares en varios países del Sur. Los motivos del descontento son semejantes en todos los casos:
    los precios de los alimentos básicos han experimentado una fuerte y rápida subida, y las poblaciones, ya empobrecidas por la globalización, son incapaces de asumir esta carga añadida. ¡Los pueblos tienen hambre! Las causas del estallido son múltiples, pero globalmente obedecen a dos incentivos económicos. Por un lado, una especulación de repliegue sobre los géneros alimentarios tras la crisis de las hipotecas de riesgo, y por otra la producción de agrocarburantes y el calentamiento climático. Sin embargo, hay periodistas que responsabilizan en sus artículos a las autoridades africanas de las catastróficas políticas alimentarias, como si no supieran que las políticas agrícolas del Sur están sometidas a las directrices del Banco Mundial, el Fondo Monetario Internacional (FMI) y los Acuerdos de Asociación Económica (AAE).
    CONTIUA…………………….
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    Multinationals make billions in profit out of growing global food crisis
    Speculators blamed for driving up price of basic foods as 100 million face severe hunger

    by Geoffrey Lean

    Global Research, May 8, 2008
    Independent.co.uk – 2008-05-04

    Giant agribusinesses are enjoying soaring earnings and profits out of the world food crisis which is driving millions of people towards starvation, The Independent on Sunday can reveal. And speculation is helping to drive the prices of basic foodstuffs out of the reach of the hungry.

    The prices of wheat, corn and rice have soared over the past year driving the world’s poor – who already spend about 80 per cent of their income on food – into

    hunger and destitution.

    The World Bank says that 100 million more people are facing severe hunger. Yet some of the world’s richest food companies are making record profits. Monsanto last month reported that its net income for the three months up to the end of February this year had more than doubled over the same period in 2007, from $543m (£275m) to $1.12bn. Its profits increased from $1.44bn to $2.22bn.

    Cargill’s net earnings soared by 86 per cent from $553m to $1.030bn over the same three months. And Archer Daniels Midland, one of the world’s largest agricultural processors of soy, corn and wheat, increased its net earnings by 42 per cent in the first three months of this year from $363m to $517m. The operating profit of its grains merchandising and handling operations jumped 16-fold from $21m to $341m.

    Similarly, the Mosaic Company, one of the world’s largest fertiliser companies, saw its income for the three months ending 29 February rise more than 12-fold, from $42.2m to $520.8m, on the back of a shortage of fertiliser. The prices of some kinds of fertiliser have more than tripled over the past year as demand has outstripped supply. As a result, plans to increase harvests in developing countries have been hit hard.

    The Food and Agriculture Organisation reports that 37 developing countries are in urgent need of food. And food riots are breaking out across the globe from Bangladesh to Burkina Faso, from China to Cameroon, and from Uzbekistan to the United Arab Emirates.

    Benedict Southworth, director of the World Development Movement, called the escalating earnings and profits "immoral" late last week. He said that the benefits of the food price increases were being kept by the big companies, and were not finding their way down to farmers in the developing world.

    The soaring prices of food and fertilisers mainly come from increased demand. This has partly been caused by the boom in biofuels, which require vast amounts of grain, but even more by increasing appetites for meat, especially in India and China; producing 1lb of beef in a feedlot, for example, takes 7lbs of grain.

    World food stocks at record lows, export bans and a drought in Australia have contributed to the crisis, but experts are also fingering food speculation. Professor Bob Watson – chief scientist at the Department for Environment, Food and Rural Affairs, who led the giant International Assessment of Agricultural Science and Technology for Development – last week identified it as a factor.

    Index-fund investment in grain and meat has increased almost fivefold to over $47bn in the past year, concludes AgResource Co, a Chicago-based research firm. And the official US Commodity Futures Trading Commission held special hearings in Washington two weeks ago to examine how much speculators were helping to push up food prices.

    Cargill says that its results "reflect the cumulative effect of having invested more than $18bn in fixed and working capital over the past seven years to expand our physical facilities, service capabilities, and knowledge around the world".

    The revelations are bound to increase outrage over multinational companies following last week’s disclosure that Shell and BP between them recorded profits of £14bn in the first three months of the year – or £3m an hour – on the back of rising oil prices. Shell promptly attracted even greater condemnation by announcing that it was pulling out of plans to build the world’s biggest wind farm off the Kent coast.

    World leaders are to meet next month at a special summit on the food crisis, and it will be high on the agenda of the G8 summit of the world’s richest countries in Hokkaido, Japan, in July.

    Additional research by Vandna Synghal

     Global Research Articles by Geoffrey Lean
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    CRISIS ALIMENTARIA

    Entre llenar el plato o el tanque de combustible

    Por Gustavo Torres. 08mai08

    La seguridad alimentaria de los sectores populares se ha convertido, en poco tiempo, en un verdadero problema. La crisis de las hipotecas de riesgo, la producción de agrocombustibles, el cambio climático, la especulación de los grupos económicos y el consumo creciente de gigantes como China o India son algunos de los factores que rodean este tema clave del siglo XXI.
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    Famine, farm prices and aid

    Food for thought

    Mar 27th 2008 | NEW YORK – From The Economist print edition

    Soaring prices for products like rice (see article) and wheat are causing headaches for aid agencies and politicians

    FOR years, anti-poverty campaigners railed against low commodity prices, which depressed farmers’ incomes in developing countries. In recent months, the world price of virtually all staples has shot up, but the activists are still not cheering. They worry that this boom (intensified by “green” subsidies for biofuel crops) may worsen poverty even more than low agricultural prices did.

    High food prices do help poor farmers, but they also hurt the more numerous category of people (poor city-dwellers as well as landless rural folk) who must buy food to survive. That “unintended consequence”—in the words of Gawain Kripke of Oxfam International, a British charity—has caused serious problems for the organisations that bring food aid to the poorest. The World Food Programme (WFP), a UN agency, has just issued an urgent appeal for $500m, to cover higher food costs. America’s Agency for International Development (USAID), a huge financer of food aid, is asking for $350m.

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    Food prices and protest – Taking the strain – May 8th 2008 | BANGKOK, CAIRO, ROME – From The Economist print edition

    Political fallout has been limited—so far

    WHEN Haiti’s prime minister resigned last month after a week of food riots, it seemed to confirm a warning that Bob Zoellick, the president of the World Bank, had given ten days before. He said 100m people were being pushed into hunger and malnutrition—and 30-odd countries faced social upheaval unless food policy improved and the rich world got its act together to help. A month on, policy has not improved, and the rich world’s response has mostly been muddled—yet surprisingly, poor countries have been able to contain the unrest, albeit at heavy cost.
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    How the developing countries can help in ensuring food security

    Published: May 8 2008 03:00 | Last updated: May 8 2008 03:00. From Mr Corrado Pirzio-Biroli. Sir, Martin Wolf is right to argue that “The food crisis is a chance to reform agriculture” (April 30), but his arguments are questionable, and so are those of EU trade commissioner Peter Mandelson’s supporting letter (May 1). By contrast, Michel Barnier, the French minister for agriculture (Letters, May 2) has hit the nail on the head by calling for agricultural policies ensuring food security (which does not mean national self-sufficiency).

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    Global Famine

    by Michel Chossudovsky
    Global Research, May 2, 2008

    Humanity is undergoing in the post-Cold War era an economic and social crisis of unprecedented scale leading to the rapid impoverishment of large sectors of the World population. National economies are collapsing, unemployment is rampant. Local level famines have erupted in Sub-Saharan Africa, South Asia and parts of Latin America. This "globalization of poverty" –which has largely reversed the achievements of post-war decolonization– was initiated in the Third World coinciding with the debt crisis of the early 1980s and the imposition of the IMF’s deadly economic reforms.

    The New World Order feeds on human poverty and the destruction of the natural environment. It generates social apartheid, encourages racism and ethnic strife, undermines the rights of women and often precipitates countries into destructive confrontations between nationalities. Since the 1990s, it has extended its grip to all major regions of the World including North America, Western Europe, the countries of the former Soviet block and the "Newly Industrialized Countries" (NICs) of South East Asia and the Far East.

    This Worldwide crisis is more devastating than the Great Depression of the 1930s. It has far-reaching geo-political implications; economic dislocation has also been accompanied by the outbreak of regional wars, the fracturing of national societies and in some cases the destruction of entire countries. By far this is the most serious economic crisis in modern history. (Michel Chossudovsky, The Globalization of Poverty, First Edition, 1997)

    Introduction

    Famine is the result of a process of "free market" restructuring of the global economy which has its roots in the debt crisis of the early 1980s.  It is not a recent phenomenon as suggested by several Western media reports. The latter narrowly focus on short-term supply and demand for agricultural staples, while obfuscating the broader structural causes of global famine.

    Poverty and chronic undernourishment is a pre-existing condition. The recent hikes in food prices have contributed to exacerbating and aggravating the food crisis. The price hikes are hitting an impoverished population, which has barely the means to survive. 

    Food riots have erupted  almost simultaneously in all major regions of the World:

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    What the World Eats, Part I
    Hungry Planet: What the World Eats, Part II
    Hungry Planet: What the World Eats, Part III
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    Society – Observations on aid

    Will the food run out?

    Tom Marchbanks

    Published 17 January 2008

    The weekly shop and the morning loaf of bread are becoming more expensive, but while most of us may barely have noticed, rising food prices are hitting the world’s developing nations hard.

    Global reserves of cereals are at an all-time low, mounting food costs have sparked riots in Mexico and there are hunger warnings across sub-Saharan Africa. A seldom-mentioned casualty of the price surge, though, has been the aid agencies, which are struggling to buy in food aid. With prices predicted to remain high, they are increasingly seeking new ways to feed the world’s hungry.

    The boom in global food prices, in part driven by demand for biofuels, is stretching resources at the UN’s World Food Programme (WFP). Over the past five years, the agency’s food procurement bill has rocketed by 50 per cent, according to Robin Lodge, spokesman for the organisation.

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    http://www.alertnet.org/db/an_art/20316/2008/03/16-150519-1.htm

    What can we do to end the food crisis?
    16 Apr 2008 15:05:00 GMT
    Written by: Megan Rowling

    It’s getting harder and harder for the world’s poor to feed their families as global food prices shoot up, sparking riots from Egypt to Haiti.

    There’s enough food to go round, the experts say. So what’s the problem and what do we do about it?

    "Over the last 50 years, food production has gone up faster than the population, and the price of food measured in real terms has actually gone down," Robert Watson, director of the International Assessment of Agricultural Science and Technology for Development (IAASTD), said as he launched a major report this week. "But we still have more than 800 million people going to bed hungry every night."

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    http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1717572,00.html

    The World’s Growing Food-Price Crisis

    Rocketing food prices — some of which have more than doubled in two years — have sparked riots in numerous countries recently. Millions are reeling from sticker shock and governments are scrambling to staunch a fast-moving crisis before it spins out of control. From Mexico to Pakistan, protests have turned violent. Rioters tore through three cities in the West African nation of Burkina Faso last month, burning government buildings and looting stores. Days later in Cameroon, a taxi drivers’ strike over fuel prices mutated into a massive protest about food prices, leaving around 20 people dead. Similar protests exploded in Senegal and Mauritania late last year. And Indian protesters burned hundreds of food-ration stores in West Bengal last October, accusing the owners of selling government-subsidized food on the lucrative black market. "This is a serious security issue," says Joachim von Braun, director-general of the International Food Policy Research Institute (IFPRI), in Washington. In recent weeks, he notes, he has been bombarded by calls from officials around the world, all asking one question: How long will the crisis last?

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    http://www.slate.com/id/2187882/

    Why Are Global Food Prices Soaring?Energy costs, investment in ethanol, bad weather in Australia …

    By Juliet Lapidos
    Posted Tuesday, April 1, 2008, at 6:31 PM ET

    The U.N. World Food Program’s executive director told the Los Angeles Times that "a perfect storm" is hitting the world’s hungry, as demand for aid surges while food prices skyrocket. Cost increases are affecting most countries around the globe, with prices for dairy products up 80 percent, cooking oils up 50 percent, and grains up 42 percent from 2006 to 2007. (For more specifics on how prices have changed since 2000, the U.N. Food and Agriculture Organization has a handy chart.) Why are groceries getting so expensive all at once?

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