Economy and Society II de José Porfiro – Specific

19 de abril de 2007

ESCREVE x ESCREVER IV – Coesão e Coerência + Texto Argumentativo

Filed under: Sem categoria — Porfiro @ 3:27 PM

 
Coerência e coesão
(Um estudo aprofundado sobre os dois temas. )
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=redacao/teoria/docs/coerenciaecoesao
 
 

CEFETRS CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA 

PROFESSORA: Dra. Maria Helena Campos de Bairros

http://labinfo.cefetrs.edu.br/professores/mack/1.argumenta%E7%E3o.doc

1. O texto argumentativo

 

     COMUNICAR não significa apenas enviar uma mensagem e fazer com que nosso ouvinte/leitor a receba e a compreenda. Dito de uma forma melhor, podemos dizer que nós nos valemos da linguagem não apenas para transmitir idéias, informações. São muito freqüentes as vezes em que tomamos a palavra para fazer com que nosso ouvinte/leitor aceite o que estamos expressando (e não apenas compreenda); que creia ou faça o que está sendo dito ou proposto.

     Comunicar não é, pois, apenas um fazer saber, mas também um fazer crer, um fazer fazer. Nesse sentido, a língua não é apenas um instrumento de comunicação; ela é também um instrumento de ação sobre os espíritos, isto é, uma estratégia que visa a convencer, a persuadir, a aceitar, a fazer crer, a mudar de opinião, a levar a uma determinada ação.

     Assim sendo, talvez não se caracterizaria em exagero afirmarmos que falar e escrever é argumentar.

     TEXTO ARGUMENTATIVO é o texto em que defendemos uma idéia, opinião ou ponto de vista, uma tese, procurando (por todos os meios) fazer com que nosso ouvinte/leitor aceite-a, creia nela.

     Num texto argumentativo, distinguem-se três componentes: a tese, os argumentos e as estratégias argumentativas.

     TESE, ou proposição, é a idéia que defendemos, necessariamente polêmica, pois a argumentação implica divergência de opinião.

     A palavra ARGUMENTO tem uma origem curiosa: vem do latim ARGUMENTUM, que tem o tema ARGU , cujo sentido primeiro é "fazer brilhar", "iluminar", a mesma raiz de "argênteo", "argúcia", "arguto".

     Os argumentos de um texto são facilmente localizados: identificada a tese, faz-se a pergunta por quê? (Ex.: o autor é contra a pena de morte (tese). Porque … (argumentos).

     As ESTRATÉGIAS não se confundem com os ARGUMENTOS. Esses, como se disse, respondem à pergunta por quê (o autor defende uma tese tal PORQUE … – e aí vêm os argumentos).

     ESTRATÉGIAS argumentativas são todos os recursos (verbais e não-verbais) utilizados para envolver o leitor/ouvinte, para impressioná-lo, para convencê-lo melhor, para persuadi-lo mais facilmente, para gerar credibilidade, etc.

     Os exemplos a seguir poderão dar melhor idéia acerca do que estamos falando.

     A CLAREZA do texto – para citar um primeiro exemplo – é uma estratégia argumentativa na medida em que, em sendo claro, o leitor/ouvinte poderá entender, e entendo, poderá concordar com o que está sendo exposto. Portanto, para conquistar o leitor/ouvinte, quem fala ou escreve vai procurar por todos os meios ser claro, isto é, utilizar-se da ESTRATÉGIA da clareza. A CLAREZA não é, pois, um argumento, mas é um meio (estratégia) imprescindível, para obter adesão das mentes, dos espíritos.

     O emprego da LINGUAGEM CULTA FORMAL deve ser visto como algo muito es-tra-té-gi-co em muitos tipos de texto. Com tal emprego, afirmamos nossa autoridade (= "Eu sei escrever. Eu domino a língua! Eu sou culto!") e com isso reforçamos, damos maior credibilidade ao nosso texto. Imagine, estão, um advogado escrevendo mal … ("Ele não sabe nem escrever! Seus conhecimentos jurídicos também devem ser precários!").

     Em outros contextos, o emprego da LINGUAGEM FORMAL e até mesmo POPULAR poderá ser estratégico, pois, com isso, consegue-se mais facilmente atingir o ouvinte/leitor de classes menos favorecidas.

     O TÍTULO ou o INÍCIO do texto (escrito/falado) devem ser utilizados como estratégias … como estratégia para captar a atenção do ouvinte/leitor imediatamente. De nada valem nossos argumentos se não são ouvidos/lidos.

     A utilização de vários argumentos, sua disposição ao longo do texto, o ataque às fontes adversárias, as antecipações ou prolepses (quando o escritor/orador prevê a argumentação do adversário e responde-a), a qualificação das fontes, a utilização da ironia, da linguagem agressiva, da repetição, das perguntas retóricas, das exclamações, etc. são alguns outros exemplos de estratégias.

 

2. O modo de organização de um texto argumentativo

2.1 A argumentação formal

     A nomenclatura é de Othon Garcia, em sua obra "Comunicação em Prosa Moderna".

     O autor, na mencionada obra, apresenta o seguinte plano-padrão para o que chama de argumentação formal:

Proposição (tese): afirmativa suficientemente definida e limitada; não deve conter em si mesma nenhum argumento.

Análise da proposição ou tese: definição do sentido da proposição ou de alguns de seus termos, a fim de evitar mal-entendidos.

Formulação de argumentos: fatos, exemplos, dados estatísticos, testemunhos, etc.

Conclusão.

……………………….

  Eis o esquema do texto em seus quatro estágios:

Primeiro estágio: primeiro parágrafo, em que se enuncia claramente a tese a ser defendida.

Segundo estágio: segundo parágrafo, em que se definem as expressões "estudo intencional da gramática" e "desempenho lingüístico", citadas na tese.

 

 

Terceiro estágio: terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo e oitavo parágrafos, em que se apresentam os argumentos.

Terceiro parágrafo: parágrafo introdutório à argumentação.

Quarto parágrafo: argumento de autoridade.

Quinto parágrafo: argumento com base em ilustração hipotética.

Sexto parágrafo: argumento com base em dados estatísticos.

Sétimo e oitavo parágrafo: argumento com base em fatos.

Quarto estágio: último parágrafo, em que se apresenta a conclusão.

2.2 A argumentação informal

     A nomenclatura também é de Othon Garcia, na obra já referida.

     A argumentação informal apresenta os seguintes estágios:

Citação da tese adversária

Argumentos da tese adversária

Introdução da tese a ser defendida

Argumentos da tese a ser defendida

Conclusão

     ……………………. 

     Eis o esquema do texto em seus cinco estágios;

Primeiro estágio: primeiro parágrafo, em que se cita a tese adversária.

Segundo estágio: segundo parágrafo, em que se cita um argumento da tese adversária "… fulminando ditos dilemas legais sob a pecha de injustiça ou inadequação à realidade nacional".

Terceiro estágio: terceiro parágrafo, em que se introduz a tese a ser defendida.

Quarto estágio: do quarto ao décimo quinto, em que se apresentam os argumentos.

Quinto estágio: os últimos dois parágrafos, em que se conclui o texto mediante afirmação que salienta o que ficou dito ao longo da argumentação.

 

 

COESÃO E COERÊNCIA

    A coesão seria a ligação entre os elementos de um texto, que ocorre no interior das frases, entre as próprias frases e entre os vários parágrafos. Pode-se dizer que um texto é coeso quando os conectivos são empregados corretamente.

    Já a coerência diz respeito à ordenação das idéias, dos argumentos. A coerência depende obviamente da coesão. Um texto com problemas de coesão terá, com certeza, problemas de coerência.

 ………………..

COESÃO E ARGUMENTAÇÃO.

 

  O fato de o ato de escrever ser um momento em que aquele que escreve se vê sozinho frente ao papel, tendo em mente apenas uma imagem de um possível interlocutor, faz com que haja necessidade de uma maior preocupação em relação à coesão. Em geral, o aluno não sabe até que ponto deve explicitar o que tenta dizer para que se faça compreender. Entretanto, o "fazer-se compreender" é um ponto central em qualquer texto escrito; a coesão deve colaborar neste sentido, facilitando o estabelecimento de uma relação entre os interlocutores do texto. O que se busca não é um texto fechado em si mesmo, impenetrável a qualquer leitura e sim algo que possa servir como veículo de uma interação entre os interlocutores.

  

 

  Há ainda mais uma questão em que se deve pensar na consideração das especificidades da modalidade escrita – a argumentação. É através dela que o locutor defende seu ponto de vista. A argumentação contribui na criação de um jogo entre quem escreve o texto e um possível leitor, já que aquele discute com este, procurando mostrar-lhe que tipo de idéias o levaram a determinado posicionamento. Dito de outra maneira, ao escrever um texto o locutor estabelece relações a partir do tema que se propôs a discutir e tira conclusões, procurando convencer o receptor ou conseguir sua adesão ao texto. 

 

Não se pode traçar uma distinção absoluta entre coesão e argumentação: a coesão garante a existência de uma relação entre as partes do texto que tomadas como um todo devem constituir um ato de argumentação. As duas noções contribuem para a constituição de um conjunto significativo capaz de estabelecer uma relação entre o sujeito que escreve e seu virtual interlocutor.

………. 

 

 

COESÃO E COERÊNCIA EM TEXTOS JORNALÍSTICOS

 

                http://www.facha.edu.br/publicacoes/comum/comum16/doc/coesao.doc

 André Valente

 

 

…………………. 

Um tipo de análise mais fragmentada levaria, como lembra Antônio Sandmman, à classificação de períodos (o 1º é simples; o 2º é composto por coordenação; o 3º por subordinação), de orações (a 1ª do texto é absoluta e a última, subordinada adjetiva) e a de termos da oração (“dos acontecimentos políticos” como objeto indireto). Uma outra análise destacaria que o texto é coerente porque o autor afirma que, entre vários tipos de analfabetos, o pior é o analfabeto político e o comprova com base numa relação de causa e efeito: da alienação do analfabeto político (que se orgulha de sê-lo) decorrem as mazelas sociais (o menor abandonado, a prostituta).

O texto utiliza diversos recursos coesivos como a repetição do item lexical (analfabeto político), a anáfora (o pronome “ele” substitui a expressão “analfabeto político”), a elipse (a omissão do pronome sujeito “ele” no 2º período), a substituição com valor sinonímico e, no caso, depreciativo (a expressão “o imbecil” para “analfabeto político”).

Do ponto de vista pragmático, o texto tem grande alcance comunicativo com forte impacto em certas realidades políticas, como a nossa por exemplo. As informações nele contidas não estão desatualizadas e a boa organização do texto facilita sua compreensão.

Já o texto abaixo, de um universitário carioca, apresenta-se incoerente em decorrência da má utilização do recurso coesivo: o autor utiliza “contudo” em vez de “portanto”, “por conseguinte”, “então”, “sendo assim”, “dessa forma”, ou outra expressão de valor conclusivo.

 

… São nesses casos que encontramos algumas razões para tanta corrupção. A população tem tanta responsabilidade quanto os políticos, pois sem o voto o político não é eleito. Contudo, deve se pensar muito bem em que candidato está se votando para que depois não se reclame das falcatruas em que esses estejam envolvidos.

 

                                                       

Síntese de alguns estudos

 

1. Em Introduction to Text Linguistics, Beaugrande & Dressler apresentam os sete princípios da textualidade. Além da coerência e da coesão, destacam ainda: a aceitabilidade, a informatividade, a intencionalidade, a intertextualidade e a situacionalidade. Os dois primeiros referem-se aos elementos lingüísticos e conceituais do texto; os cinco últimos, ao aspecto pragmático do processo comunicativo.

                        

A aceitabilidade está relacionada à atitude do receptor frente aos textos, se têm relevância ou utilidade para ele. Tal princípio depende da intencionalidade, relacionada à atitude do autor que busca apresentar um texto coerente e coesivo. O remetente tenta criar um texto que tenha sentido e o destinatário o recebe como algo com sentido.

Há quem considere que não existe texto incoerente, uma vez que, pelo princípio da cooperação, o receptor esforça-se para dar um sentido ao texto e tenta encontrar coerência  nele.

O princípio da informatividade mostra até que ponto uma informação é nova ou não no texto. Tanto o excesso como a escassez de informações novas podem prejudicar o entendimento do texto. Cabe destacar que é nova a informação não recuperável no texto e que constitui um dado a que pode ser recuperada. Facilita a compreensão do texto o conhecimento partilhado, o conhecimento de mundo, com algum grau de similaridade, do remetente e do destinatário.

A intertextualidade² refere-se às citações de outros textos feitas pelo autor do texto. Ele, conscientemente, intenta fazer o destinatário perceber as conexões semânticas do texto por ele produzido com outro(s) texto(s) anteriormente produzido(s).

De minha parte, acrescento, com base em trabalho de Laurent Jenny, que a intertextualidade pode ser:

a)      interna – quando o autor cita a si próprio;

b)      externa – quando cita outro(s) autor(es).

A externa subdivide-se em:

– explícita – citação na íntegra de uma frase, um verso, um fragmento de texto;

– implícita – citação parcial, modificada.

 

Ex.: “Muito gogó e pouco trabalho, os males do governo são.” (Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 30/05/99). É um caso de intertextualidade externa e im plícita, posto que Gaspari alude à passagem de Lima Barreto em Policarpo Quaresma: “Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são.”

 Anúncio da Vila Romana: “A concorrência que nos desculpe, mas beleza e preço baixo são fundamentais. Aumente suas chances.” É intertextualidade externa e implícita, com referência aos versos de Vinicius de Morais: “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental.”

O estudo de Laurent Jenny privilegia a linguagem literária, mas é aplicável a linguagens várias (jornalística, publicitária, cinematográfica etc). Os meios de comunicação têm utilizado, em grande escala, o recurso da intertextualidade ou intertexto. O autor deve ser criterioso na sua utilização, posto que, segundo L. Jenny (1979: 14): “A intertextualidade designa não uma soma confusa e misteriosa de influências, mas o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando do sentido.”

A situacionalidade refere-se a fatores que dão relevância a um texto numa dada situação comunicativa. O texto vincula-se às circunstâncias em que interagimos com ele e sua configuração aponta a utilidade e a pertinência dos nossos objetivos.

2. Em Cohesion in English, Halliday & Hasan definem texto (ver notas), textura e coesão. Para eles, o que difere um texto do que não é texto é a textura (1976: 2):

 

The concept of TEXTURE is entirely appropriate to express the property of “being a text”. A text has texture, and this is what distiguishes it from something that is not a text. It derives this texture from the fact that is functions as a unity with respect to its enviroment.

                        

A seguir os autores abordam a coesão, prioridade constatada no título da obra, a partir de uma visão semântica:

 

O conceito de coesão é semântico; refere-se às relações de significado que existem dentro do texto, e que o definem como um texto. Coesão ocorre quando a INTERPRETAÇÃO de algum elemento do discurso é dependente de um outro. Um PRESSUPÕE o outro, no sentido de que ele não pode ser efetivamente decodificado exceto por referir-se ao outro. Quando isso ocorre, a relação de coesão é estabelecida, e os dois elementos, o que pressupõe e o pressuposto, são pelo menos integrados num texto.

 

A apresentação dos recursos coesivos feita pelos autores ainda é referência para os estudos feitos no Brasil, com a devida  adaptação à Língua Portuguesa. Destacam-se entre os principais fatores de coesão textual a referência, a substituição, a elipse, a conjunção(conexão) e a coesão lexical.

 

a) A referência diz respeito aos termos que se relacionam a outros necessários à sua interpretação. Pode ser situacional(extratextual) ou textual. Esta pode dar-se por:

– anáfora, retomada de um termo; relação com o que é precedente no texto;

Ex. O Presidente da República evitou a instalação da CPI da corrupção. Ele passou temor e insegurança.

– catáfora, por antecipação de um termo cuja interpretação depende do que se segue;

Ex. Peço-te apenas isto: que não te alienes.

b) A substituição é colocação de um item lexical no lugar de outro(s) ou no de uma oração;

Ex.: Quando os mestres aceitam a mediocridade, os discípulos fazem o mesmo.

c) A elipse³ consiste na omissão de um termo recuperável pelo contexto.

Ex. Tua decisão foi a mais acertada para o momento.

d) A conjunção é um recurso coesivo diferente dos anteriores porque depende das relações significativas estabelecidas entre orações, entre períodos ou entre parágrafos. Os principais elementos conjuntivos são as conjunções/locuções conjuntivas, os advérbios/locuções adverbiais, preposições/locuções prepositivas e itens continuativos (a seguir, por exem plo, daí, então etc).

Ex.O futebol brasileiro não assusta mais ninguém e adversários mais fracos já nos vencem com certa facilidade. Apesar do quadro adverso, a torcida brasileira considera o nosso futebol o melhor do mundo.

Por ser um recurso coesivo de grande importância na organização do texto, Leonor L. Fávero e Ingedore V. Koch observam que (1983: 42):

 

A omissão destes elementos, embora perfeitamente admissível – o que depende, inclusive, da função da linguagem e do tipo de uso (jornalístico, estilístico, publicitário etc) – só deve ocorrer quando a relação semântica estiver bem clara, para evitar a ambigüidade (a não ser que esta seja intencional).

 

Na conjunção, ganham destaque as relações de causa/efeito, tempo, oposição, entre outras.

e) A coesão lexical se obtém por meio da reiteração de itens lexicais idênticos ou com o mesmo referente. Destacam-se, então, os sinônimos, os hiperônimos (termos de caráter genérico, como “pássaro”) e os hipônimos (termos de caráter específico, como “canário).

Ex. Convém desmistificar aquele político; desmascará-lo é nossa obrigação (sinônimos).

O manifestante jogou um tomate na cara do ministro; a fruta estava podre (hipônimo/hiperônimo).

Leão é um técnico com problema de relacionamento com jogadores. Leão tem alguns desafetos, como Sócrates (reiteração do item lexical).

 

3. Em Introdução aos problemas de coerência dos textos (Abordagem teórica e estudo das práticas pedagógicas), Michel Charolles faz um estudo sobre coerência e coesão, sem diferençá-las, uma vez que para ele a coerência é global. O que para alguns é coesão para Charolles trata-se de coerência microestrutural; o que outros chamam de coerência é, para ele, coerência macroestrutural. Sobre coerência e coesão, Michel Charolles diz que (1997: 49):

 ………………

 

As metarregras de Charolles

 

1ª. Metarregra de repetição: “Para que um texto seja (microestruturalmente e macroestruturalmente) coerente, é preciso que contenha, no seu desenvolvimento linear, elementos de recorrência estrita.” (p.49)

Aqui o autor realça recursos disponíveis na língua: definitivações (por meio de artigos), pronominalizações, substituições lexicais, referenciações contextuais, as recuperações pressuposicionais e as retomadas de inferência. Os dois últimos remetem a conhecimentos ou representações de mundo(s) e, por isso, apresentam maior complexidade de aferição.

2ª. Metarregra de progressão: “Para que um texto seja microestruturalmente ou macroestruturalmente coerente, é preciso que haja no seu desenvolvimento uma contribuição semântica constantemente renovada.” (p.59)

A segunda regra completa a primeira, posto que estipula que um enunciado, para ser coerente, “não pode simplesmente repetir indefinidamente seu próprio assunto.” Deve-se evitar, portanto, a circularidade do discurso, buscando-se um equilíbrio entre a continuidade temática e a progressão semântica, como atesta Charolles: “Num texto bem formado, a introdução dos elementos de novidade semântica obedece a regras e faz-se de maneira programada na seqüência de elementos já conhecidos.”

3ª. Metarregra de não-contradição: “Para que um texto seja microestru- turalmente ou macroestruturalmente coerente, é preciso que no seu desenvolvimento não se introduza nenhum elemento semântico que contradiga um conteúdo posto ou pressuposto por uma ocorrência anterior, ou deduzível desta por inferência.” (p.61)

Com base na lógica, Charolles recorda que é inadmissível que “uma mesma proposição seja conjuntamente verdadeira e não verdadeira, ou falsa e não falsa.” Na terceira regra, o autor reconhece que não costumam ocorrer, com freqüência, muitas falhas, visto que o produtor do texto tenta evitar enunciados contrários em si mesmos (a não ser que seja um recurso estilístico).

4ª. Metarregra de relação: “Para que uma seqüência ou um texto sejam coerentes, é preciso que os fatos que se denotam no mundo representado estejam relacionados.” (p.74)

                        

…………………………

 

 

Notas

1. Dentre as várias definições de TEXTO, destaco algumas considerações de Halliday & Hasan, fragmentos que traduzi da obra Cohesion in English: “A palavra texto é usada em lingüística para referir-se a qualquer passagem, falada ou escrita, de qualquer tamanho, que realmente forma um todo unificado. Nós sabemos, como regra geral, quando alguma passagem de nossa própria língua constitui um texto ou não. Isto não significa que nunca possa haver alguma dúvida. A diferença entre um texto e uma coleção de frases desconexas é, em última análise, uma questão de grau, e sempre pode haver instâncias sobre as quais nós temos dúvidas … Mas isso não invalida a observação geral de que somos sensíveis à diferença entre o que é texto e o que não é.”

…………………………………………………………………………………………………………………………………

“Um texto é melhor visto como uma unidade SEMÂNTICA: uma unidade não de forma mas de significado. Portanto está relacionado a uma oração ou frase não pelo tamanho mas pela REALI ZAÇÃO, o código de um sistema simbólico é outro/diferente. Um texto não é constituído de frases; ele é REALIZADO POR, ou codificado em, frases. Se nós assim o entendermos, não esperaremos encontrar o mesmo tipo de integração ESTRUTURAL entre as partes de um texto como encontramos entre as partes de uma frase ou oração. A unidade de um texto é uma unidade de tipo diferente.”

2. A intertextualidade – ou intertexto – bastante utilizada, atualmente, nos meios de comunicação, sempre esteve presente na Literatura e foi sistematizada na Teoria da Literatura, como lembra Samir Meserani (1995: 63): “’Intertextualidade’ é uma expressão do léxico atual da teoria da literatura, criada pela semioticista Júlia Kristeva, para designar o fenômeno da relação dialógica entre textos. As primeiras formulações sobre esta relação, em termos da imanência do texto e não de influências marcadas extratextualmente, vêm de dois ensaios pioneiros de autores ligados ao formalismo russo. O primeiro, Dostoiévsky e Gogol: contribuição à teoria da paródia, de J. Tynianov, foi publicado em 1921. Posteriormente, em 1929, surge Problemas da poética de Dostoiévsky, de M. Bakthin, a quem se devem as expressões dialogismo e polifonia transpostas para o campo da crítica e da poética literárias”.

3. A elipse, omissão de termos, passa a ser chamada de zeugma quando ocorre com termo já citado (aparece, com freqüência, nas orações comparativas) ou que ainda vai ser citado.

Ex. Machado de Assis escrevia tão bem quanto Eça de Queirós.

Eu não sou, mas ele é enólogo.

 

 

Referências bibliográficas

BEAUGRANDE, R. de & DRESSLER, W. V. Introduction to Text Linguistics. Londres: Longman,1981.

CHAROLLES, Michel. Introdução aos problemas da coerência dos textos. In:  GALVES, C. et al (org.). O texto: leitura e escrita. Campinas: Pontes,1997. 

COSTA VAL, Maria da G. Redação e Textualidade. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

____________. Repensando a Textualidade. In: AZEREDO, José Carlos de. Língua Portuguesa em Debate. Petrópolis: Vozes, 2000.

FÁVERO, Leonor L. Coesão e coerência textuais. São Paulo: Ática, 1991.

FÁVERO, Leonor L. & KOCH, Ingedor V. Lingüística Textual: Introdução. São Paulo: Cortez, 1983.

FIORIN, José L. Teorias do Texto e Ensino: a coerência. In: VALENTE, André. Língua, Lingüística e Literatura: uma integração para o ensino. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1998.

GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1977.

HALLIDAY, M. A. K. & HASAN, R. Cohesion in English. Londres: Longman, 1976.

KOCH, Ingedore V. O texto e a criação dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.

JENNY, Laurent. A estratégia da forma. In: Poétique, nº27. Coimbra: Livraria Almedina, 1979.

MESERANI, Samir. O Intertexto Escolar. São Paulo: Cortez, 1995.

SANDMMAN, Antônio. Morfologia Geral. São Paulo: Contexto,1997.

VALENTE, André. A linguagem nossa de cada dia. Petrópolis: Vozes,1997.

 

Resumo

Este artigo busca sintetizar alguns trabalhos sobre textualidade, coerência e coesão, aplicando-os a textos jornalísticos, em consonância com as novas propostas para leitura e produção de textos.

                        

Palavras-chave

Texto, textualidade, coerência, coesão

 

 

Abstract

This article intends to resume some works on texture, coherence and cohesion, applying them to journalistic texts, according to new proposals to reading and production of texts.

 

Key-words

Text, texture, coherence, cohesion.

 

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